segunda-feira, 9 de julho de 2012

A maldição da montanha.


"A fé move montanhas, pequenas ações movem o mundo e pequenos sentimentos movem o universo”.

A maldição da montanha.

(Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência)

               Por muito tempo uma história sobre esta montanha andou nas conversas escoteiras em todo o país. Nunca me aprofundei tanto como no dia que encontrei com o Chefe Ramon. Eu o conhecia pouco. Conversa vai, conversa vem e resolvemos tomar um chopinho e passar a conversa a limpo. Entramos em um barzinho lá pelas oito da noite e a conversa foi tão interessante que saímos de lá depois das duas da manhã. Foi ele quem me contou da Maldição da Montanha. Não era uma maldição e sim quem sabe a falta de preparo de escoteiros para subirem nos seus cumes e apreciarem a mais linda vista que poderiam ver um dia. Sei que não foram tantos, mas me contaram tanto desta montanha que ela me exercia um fascínio e sabia que mais dia menos dia iria conhecê-la.
              Assim começou Ramon, depois de dois chopinhos no ponto, acompanhados com gostosos bolinhos de bacalhau. Relato aqui a maneira de Ramon. Nada mais nada menos. – Chefe, tudo aconteceu há muitos anos atrás. Anos que nunca esqueci. Ficou gravada na minha memória para sempre. Não sei se as recordações são boas ou se as lembranças de tudo que aconteceu foram somente caminhos que cada um de nós busca encontrar nas diversas etapas do nosso crescimento. Hoje sou funcionário público vivendo o dia a dia de uma rotina que não cessa. Tenho dois filhos uma esposa linda e vivemos modestamente, mas felizes. Toda a família participa do escotismo. Linda é assistente de tropa Escoteira e eu Diretor Técnico. Luan é lobinho e Natieli Escoteira.
           Quando entrei para o escotismo não tinha a mínima ideia do que iria encontrar. Estava com onze anos. Um amigo disse que entrou e estava gostando, mas falaram com ele que iria ter muitas aventuras e até agora só viveram reuniões de sede. Convidou-me a conhecer e lá fui eu em um sábado para ver como era. Em principio poucas novidades, mas a correria, os jogos, as canções me animaram. Um Chefe me deu uma ficha de inscrição que levei para casa. Meu pai no sábado seguinte me levou e fez a minha inscrição. Ele era um pai formidável. Sempre me deu todo apoio. Eu era um jovem alegre, mas muito calado. Gostava de estudar e na classe sempre fui o primeiro da turma.
           Não participava de esportes e minha diversão favorita era correr. Corria muito. Acho que todo o dia corria mais de dez quilômetros. Nas primeiras semanas não achei muita graça nas reuniões. Afinal nos levaram até um jardim para limpar o lixo, depois em outra praça para plantar árvores. Até aí tudo bem, mas não era isto que esperava. Um dos amigos da Patrulha Tigre me emprestou um livro. Lindo! Quantas fotos e dizia que nós escoteiros somos heróis, fazemos acampamentos, excursões, sabemos nós, orientar pelas estrelas tanta coisa linda que procurei o Chefe. Sua resposta? Aguardem, um dia vamos fazer isto. Este dia nunca chegava. Acho que foi em agosto que soubemos que o Chefe Valter iria embora. Mudar de cidade, pois sua empresa o transferiu.
          O novo Chefe Álvaro era uma boa pessoa. Novo ainda no movimento chamou os monitores para conversar. Nesta época estava com doze anos e meio e era o sub-monitor da Patrulha. Como o Levi não veio à reunião estava assumindo como Monitor. O Chefe Álvaro nos contou que era bem leigo. Estava lendo muitos livros e tinha muitas duvidas. Precisava de nossa ajuda. Disse que tinha lido sobre uma Patrulha de monitores e nos perguntou se tínhamos. Bem se não tem vamos fazer uma? E mãos a obra. Gostamos de cara do Chefe Álvaro. Tudo que fazia nos consultava. Nunca tomava uma decisão sem nos ouvir. A tropa começou a melhorar a olhos vistos.
           Não só os monitores, mas toda a tropa ficou muito amiga do Chefe Álvaro. Começamos aos poucos sair da sede. A primeira vez pegamos um ônibus sem destino certo. No ponto final andamos em uma estrada de terra por mais cinco quilômetros e avistamos um riacho. Tínhamos levado uma boa corda e tentamos fazer uma falsa baiana. Como não ficou bem esticada muitos tombos aconteceram. Foi à primeira diversão. Todos gostaram. As atividades foram se multiplicando. Em menos de seis meses a tropa adquiriu uma técnica mateira de dar inveja.
          Soube da montanha por meio de meu pai. Contou-me que lá sumiu um Escoteiro a mais de trinta anos. Nunca mais o acharam. Como assim? Ninguém soube explicar. Seu Chefe foi preso, forçado contar o que não sabia e só com a interferência dos pais do menino que sumiu a policia o soltou. Achei a história interessante. Agora queria conhecer esta montanha. Porque sumir e nunca mais ser encontrado? Era um mistério e meu faro dizia para ir lá. Falamos com o Chefe Álvaro e ele não concordou. Só depois de sugerirmos ir só os monitores e subs ele ficou de pensar.
           Uma reunião ele nos chamou. Os monitores e sub monitores. Nossa tropa era masculina, pois na época ainda não fora autorizado a participação das meninas. Disse-nos que pesquisou muito sobre a montanha e inclusive um amigo do Diretor Técnico, Insígnia de Madeira e residente em uma cidade próxima se prontificou a nos dar todo apoio técnico e tático. Assim ele não via mais problema com a subida nossa ate o pico. Vibramos com a ideia de subir a montanha que todos chamavam de Maldita. Iriamos provar que conosco nada disto podia acontecer.
            Aproveitamos um feriado prolongado e numa quinta pela manhã pegamos o ônibus para Monte Verde. Cidade pequena, menos de cinco mil habitantes. Éramos sete escoteiros. Lucio um sub Monitor não foi. Na cidade encontramos o Chefe Leonel, um grande Chefe já com seus sessenta anos, e nos deu todas as coordenadas que sabia. Explicou que não havia erro. A trilha era fácil, bem sinalizada e podíamos acampar logo após dois quilômetros de subida. Encontraríamos uma boa aguada e no dia seguinte poderíamos atingir o pico. Menos de seis quilômetros e voltar no mesmo dia. Uma vista maravilhosa lá de cima.
            Nada encontramos de aventuras. Sem erro chegamos ao local do acampamento. Não era uma perfeição, mas dava para montar as barracas e fazer uma cozinha um pouco apertada, mas em condições de fazer nossas refeições. O tempo ajudava. Uma temperatura agradável e o sol queimando. Passamos todo o dia armando o campo. Uma mesa, bancos, barracas armadas e não fizemos fogão suspenso. Usamos um pequeno fogão tropeiro. Era o suficiente. A noite um pequeno jogo noturno e fomos dormir.
            Levantamos cedo. Após o café, arrumamos um pequeno bornal (lanche) para cada um, cantis cheios e partimos rumo ao pico da montanha. Não era meio dia e chegamos sem muito esforço. A subida não foi difícil. A vista era realmente maravilhosa. Duas cidades cadeias de montanhas a sumir de vista. Dois rios e foi espetacular vermos uma ferrovia com um trem em movimento. Uma pequena cobra serpenteando o rio. Cantamos algumas canções e as duas retornamos. Na descida menos de uma hora depois lembrei que esqueci no pico o meu cantil.
          E agora? Minha sugestão era eu e o Levi voltarmos pegar o cantil e encontrar todos no acampamento. Ideia que não agradou ao Chefe Álvaro. Mas relutante deixou. Voltamos e o cantil estava embaixo de uma pedra na sombra. Foi aí que aconteceu. Uma serração enorme tomou conta do pico e do caminho. Achamos que podíamos descer, pois dava para ver até dois metros a frente e era só seguir a trilha. Sem erro. Descemos a trilha. Errada. Era outro sentido contrário a quem devíamos pegar. Uma hora, duas três e nada de chegarmos ao acampamento. Levi achou melhor que parássemos. Do jeito que estava à serração não dava para ver nada. Devíamos ter levado a bussola.
          Ficamos ali, a tarde chegou e a noite também. Sabíamos que o Chefe Álvaro devia estar com a cabeça a mil. Agora a lembrança do Escoteiro que desapareceu devia estar fomentando seus pensamentos. Mas não havia nada a fazer. O jeito era nos virarmos e esperar a cerração passar. Não passou. Um frio de rachar. Ainda bem que sempre carreguei um isqueiro pequeno no bornal. Com dificuldades encontramos capim seco e gravetos. O fogo crepitou e deu para esquentarmos um pouco. Estávamos sem abrigo. O plano era subir e voltar ao acampamento no mais tardar às cinco da tarde.
          Não conseguimos dormir. Não dava. O frio era demais. Já estava difícil encontrar gravetos naquela escuridão. Confesso que um desespero abateu em mim e sei que o Levi também estava como eu. Passamos uma noite de cão. Quando o dia amanheceu a serração se foi. Foi então que levamos um grande susto. A menos de cinco metros um despenhadeiro horrível. Cair ali era não ser achado nunca. Ainda bem que paramos na hora certa ou será que foi a mão de Deus! Resolvemos voltar de novo ao pico. Antes de chegar ouvimos os apitos do Chefe Álvaro. Graças a Deus o encontramos. Abraços, choros e retorno.
          À noite fizemos uma fogueira, e lá conversamos muito sobre o acontecido. A consequência de alguém sumir, morrer, desaparecer. Deus me livre. Nem queria pensar nisto. Hoje já crescido exijo mesmo sabendo que será impossível acontecer de novo que todos na tropa recebam um adestramento completo de bússola e orientação. Saber o que fazer se perder. A calma, a paciência, saber que será socorrido. Isto nos valeu e muito. Sem obrigar sugiro a todos que sempre portem no bolso uma pequena bússola. Brinquem com ela, divirtam em seus caminhos da e escola ou onde forem.
          Eu já tinha tomado seis chopes. Minha cota. Estava a pé. Morava perto. O Chefe Álvaro também. Um abraço, um aperto de mão e cada um foi para sua casa. Meditei muito sobre tudo. Sumiu? Desapareceu? Uns dizem que... Melhor não entrar nesta seara. No campo das hipóteses. Isto não é coisa de escoteiros. Nenhum grupo nenhuma tropa pode dizer que nunca passaram ou passarão por isto. Acontece. Aconteceu comigo muitas vezes no passado. Uma outra época. Mais aventureira. E a vida continua e eu continuo escrevendo. Um pouco de ficção, um pouco de realidade. Meus contos são assim, pedaços de sonhos laçados aqui e ali!

E quem quiser que conte outra...
 
As dificuldades são como as montanhas. Elas só se aplainam quando avançamos sobre elas.


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Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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