segunda-feira, 18 de maio de 2015

A marca da Pantera A história de um bastão escoteiro


A marca da Pantera
A história de um bastão escoteiro

            Trinta e cinco anos se passaram. Para mim uma vida. Ainda me lembro de quando fui feito. Um monitor novo, uma patrulha nova, todos iniciando na tropa recém-formada. Para dizer a verdade, tenho orgulho de todos eles. Foram muitos que passaram pela patrulha Pantera durante este tempo. Guardo o nome de cada um no fundo do meu coração. Desculpe, sou de madeira, dizem que não tenho coração. Mas eu tenho. Podem me conhecer melhor no livro de memórias da patrulha que o escriba guarda com muito carinho. La tem o nome de todos que passaram por esta patrulha.            Houve épocas ruins e boas. Monitores desleixados, que não ligavam para mim, me deixavam em qualquer lugar. Já passei por grandes tempestades, caí em gargantas profundas, despenhadeiros, fiquei a deriva em um vagão de um trem de ferro. Incrível! Safava-me com galhardia. Claro tinha sempre um escoteiro bondoso da patrulha que não me deixava desaparecer. Mas acreditem, sempre fui amado pelos grandes patrulheiros da Pantera em todos os tempos.

          Nasci há muito tempo. Eu era um frágil galho de uma goiabeira, mas me orgulhava de minha raça araçá-guaçu. Mesmo sabendo que pertencia a uma família com tronco tortuoso, de casca lisa e descamante. Considerava-me um galho pubescentes e por várias vezes vi as flores que vicejavam brancas, solitárias principalmente na primavera. Nunca consegui dar frutos, não sei por que. Comentavam a “boca-pequena” que nós goiabeiros somos os mais fortes, os que mais duram. Não sei, talvez seja por isso que Romildo me escolheu. Lembro bem quando ele se colocou debaixo da goiabeira e olhando para o céu analisou todos os galhos ali existentes. Eu não sabia, mas ali começaria minha saga do mais antigo bastão totem da Tropa Escoteira Titan (aquele que tem sensibilidade, simpatia, cooperação, diplomacia e receptividade). Orgulho-me de ter começado logo após sua primeira promessa. Não foi no mesmo dia. Romildo e mais cinco amigos ficaram por três meses sendo adestrados como monitores e subs.

        No primeiro dia da formação das patrulhas eu fui apresentado aos demais. Passei por várias etapas. Romildo me deixou secando dentro do quarto dele (dizia que o sol iria me estragar) por uma semana. Depois gentilmente retirou minha casca sem usar faca ou canivete. Passava todos os dias um pano embebido em óleo de linhaça, e fiquei quinze dias ao pé de sua cama. Por último, passou de leve um verniz incolor que produziu um brilho todo especial. Acho que foi amor à primeira vista entre mim e ele. Romildo era um verdadeiro monitor. Fez questão de fazer uma biqueira de aço, leve, que encaixou na minha ponta e em cima também uma pequena tampa de aço com pequena alça onde prenderia a ponta do totem, ambas encaixadas a fogo. “Todos os dias ele me olhava, sorria me colocava junto a ele, vestia o uniforme e dizia Sempre Alerta” me segurando com a mão direita e a esquerda com o sinal escoteiro levava até a altura do coração.

      Comprou de um sapateiro diversos cadarços de couro grosso, tipo Camurção, beneficiado com as fibras do lado do carnal (parte interna da pele). Comprou também outros cadarços feitos de pelica, um couro de cabra, leve de toque macio, alto brilho. Depois me disse o porquê. Não se assustem, eu e Romildo éramos bons amigos e nós conversamos muito. Sua mãe fez um lindo Totem. Eu não sabia, mas tinham escolhido na patrulha que o nome seria Pantera Negra. Romildo era um estudioso. Seu chefe dizia que ele era um monitor de que se orgulhava. Tinha de saber todas as respostas para os escoteiros de sua patrulha. Aprendeu que a Pantera negra (Panhhera pardus melas) vive nas selvas quentes da Malásia, Sumatra e Asia. Também na Etiópia. Seu pelo era inteiramente preto. Na floresta não era amigável. Vivia mais só. Aprendeu que a Pantera sabe mergulhar, nadar, salta sobre pedras soltas e cai a metros de distancia. Ataca mamíferos. Prefere áreas cobertas de arbustos.

      Romildo foi à biblioteca da sua cidade e lá ficou por vários dias até que achou uma foto linda de uma pantera. (ainda não havia internet) Desenhou o que sabia, pois não era bom desenhista e sua mãe pontilhou em um feltro amarelo, a “Marca da Pantera”. Nunca mais foi mudado. Claro, o totem sempre me reclamava por ficar deitado, torto e poucos notavam o desenho tão bonito da pantera negra. Demorou algum tempo, até que o sexto monitor da patrulha fez uma capa de plástico que só usava em acampamentos (para proteger das intempéries) e um arco em forma do totem para mantê-lo sempre reto. No primeiro dia que fomos apresentados a patrulha, ela deu um lindo grito. Ficamos eu e o totem emocionados. Eu ainda não sabia o que eram os escoteiros, mas aos poucos foi me tornando um deles. Decidiram que a cada etapa mais alta alcançada por um dos seus patrulheiros, seria trançado em mim um cordão fino de pelica. Vermelho para quem conquistasse os cordões de eficiência e azul para os possuidores do Liz de Ouro. Para dizer a verdade, não tivemos muitos. Cordões foram vinte e Liz de Ouro só quinze. Mas quem chegava sabia que ali tinham passados grandes escoteiros.

      Nem tudo foi alegria nestes meus trinta e cinco anos de vida. O oitavo monitor da patrulha não era muito condescendente comigo. Deixava-me de qualquer jeito, e olhe em um acampamento fiquei debaixo de chuva por três noites. O Totem chorou varias vezes. Estava sem a proteção. Ele o Monitor me usava como defesa de lutas com outros jovens. Não fui feito para isto. Mas o pior aconteceu em uma manhã de inverno. Ele cansado da subida na montanha, vendo que ninguém olhava me jogou despenhadeiro abaixo. Ao chegar ao destino, o chefe deu falta de mim e do totem. Ele mostrou onde tinha jogado. Procuraram-me e acharam. Ele perdeu o cargo de monitor. Seu substituto leu todo meu histórico no livro da patrulha. Lá Romildo deixou escrito como devia ser tratado. Limpeza a cada cinco meses e lustrar com um pano embebido em verniz incolor. Olhar todo o bastão para ver se não estava com machas que poderiam ser cupim. Senti-me outro. Gostei do novo Monitor.

      Já com vinte anos de vida, a tropa Titan foi acampar em uma cidade distante e o chefe conseguiu passagens gratuitas para todos. Fomos de trem. Divertíamos muito. Chegamos, eles desceram e me esqueceram! O trem partiu e eu fui com ele. Fiquei arrasado. O Totem como sempre chorava. Ele era muito sensível. Disse a ele para não se preocupar. Eu sabia que iriam atrás de nós. Um homem sentado numa poltrona ao lado me viu. Ao descer me pegou e levou com ele. Achei que nunca mais seriamos encontrados. Mas o homem foi ao chefe da Estação e explicou que os escoteiros desceram na estação anterior e me esqueceram. Passaram um telegrama. Fui embarcado de volta. Na chegada lá estava toda a patrulha me esperando. Um grito gostoso da patrulha foi dado. Estava em casa de novo. Sempre sentia tristeza quando algum escoteiro passava para sênior ou saia do escotismo. Afeiçoava-me há todos eles facilmente.

           Um dia notaram durante um Conselho de Patrulha que o Totem estava se desbotando muito. Pudera, ele já existia a vinte e oito anos. Teve que ser substituído. Fizeram uma linda cerimônia de despedida. Vieram todos os ex-panteras que ainda moravam na cidade e passaram pela patrulha. Foi uma alegria para mim rever meus amigos de outrora. Quando colocaram o novo, olhei para o antigo. Foi colocado em uma proteção de plástico amarela, que lhe dava cor e colocado na parede principal da sede escoteira. Até hoje ornamenta a sala da sede. Fiquei muito triste, pois afinal éramos eu e ele os primeiros bastão totem a existir na tropa escoteira. Tivemos lindas reuniões. Lindos acampamentos. Viajamos muito. Conheci lindos lugares, os mais altos picos, as mais lindas planícies e os rios mais espetaculares que poderia ter conhecido. Participei de centenas de atividades ao ar livre, de competições, de encontros nacionais e regionais. Afinal sou um privilegiado. Era apenas um galho de goiabeira e me transformei em um símbolo. O novo Totem era lindo. Ele sabia disso. Mostrava-se grandioso, magnífico. Tornou-se depois um grande e bom amigo. Ficamos irmãos em pouco tempo. Nosso maior orgulho foi quando Os Panteras foram em um jamboree.

          Uma apoteose. Milhares de escoteiros. Centenas de patrulhas. Conheci bastão totem de todos os tipos. Mas eu e o Totem sorriamos. Sabíamos que éramos da Pantera.  Tínhamos orgulho. O dia mais triste em minha vida foi quando Romildo faleceu. Estava novo ainda. Trinta e dois anos. Diziam que tinha câncer. Não sei o que é isso. A patrulha compareceu em peso nas suas exéquias. Centenas de ex-escoteiros também estavam presentes. Não choravam se sentiam orgulhosos de Romildo. O meu criador, meu pai, meu grande amigo. Os anos passaram. A tropa firme. Houve épocas difíceis. Um chefe que não tinha muita experiência. Os Panteras ficaram reduzidos a três. Mas eram fortes ainda. Difícil competir com outras, pois era uma norma não escrita que não se empresta escoteiro de uma patrulha para outra. Na falta os presentes tem de se desdobrar. Em todos estes anos, não tenho certeza, acredito que mais de cento e oitenta escoteiros passaram pela Pantera. Tivemos dias bons, dias ruins, reuniões que marcaram época e reuniões que deixaram saudades.

        Sempre aos sábados recebíamos visitas de antigos patrulheiros da pantera. Eram sempre bem recebidos. Sabíamos os nomes de todos. Suas idades, seus endereços. E a cada aniversário da patrulha, pois sempre celebrávamos muitos deles compareciam a sede. Era maravilhoso ver todos juntos tentando segurar em mim e dar o nosso grito de patrulha. Seniores, pioneiros, escotistas e vários ex-escoteiros. Dois deles que conosco começaram, agora com seus quarenta e oito anos e o melhor, com seus filhos. Mas meu dia chegou. Estava envelhecendo. Estava na hora de aposentar. Como dizem na gíria – hora de passar o bastão.  Poderia ter continuado por mais alguns anos. Mas não sei se ia dar conta nas duras lidas de um acampamento. Todos receavam que pudesse quebrar rachar e ninguém queria me ver assim. Ravin o novo monitor foi quem cuidou de tudo. Foi até uma goiabeira, olhou para o céu, e escolheu um galho que se parecesse comigo. Estava escrito no livro da patrulha como fui preparado. Romildo escreveu tudo que fez. Ravin sabia como fazer.

       Retiraram o totem e colocaram no bastão novo. O meu amigo do passado foi retirado da parede e voltou novamente a ser meu companheiro. Mantiveram em mim as marcas de todos que foram Liz de Ouro, e os que receberam os Cordões de Eficiências. No novo mantiveram tudo que estava colocado em mim. Fizeram uma réplica. A cerimônia da troca foi feita a noite. Estávamos fora da cidade. A tropa fez um circulo. Eu participei pela primeira vez com todas as patrulhas da tropa. Recebiam-me em saudação pelo monitor, davam o grito de origem e depois o da Pantera. Colocaram-me em pé, e todos um a um passaram em minha frente e deram o Sempre Alerta. Marcou-me meu amigo. Marcou-me. Se fosse gente teria chorado. Mas o pior era que eu achava que era gente. Que era um escoteiro e uma pequena gota d’água correu pelo meu corpo de madeira. Não sabia se era uma lágrima. Mas nunca mais esqueci aquela cerimônia. Todos os monitores, exceto Romildo estavam lá. Eles no final ficaram na minha frente e um por um dizia do seu tempo ao meu lado e das aventuras que juntos passamos. Quanta emoção.

      Hoje, estou colocado na parede da sede. Vejo todos entrando e saindo. Ainda sou um bastão escoteiro. Tenho orgulho de ter sido e sempre serei para a Patrulha Pantera o seu símbolo. Os meus sentimentos nunca serão de altivez. Não.  Eu sei que o passado e as lembranças irão permanecer para sempre. Não ligarei para o silêncio nos dias sem reuniões, ou o som do grito dos Panteras ao longe, pois eu vou lembrar-me de tudo. E se possível vou transformar o meu passado em algo, que no futuro será sempre bom e gostoso de lembrar. Principalmente nosso grito de patrulha. Feito pelos primeiros panteras, a trinta e cinco anos atrás:

“Hei pantera! Sabemos do seu grito, do seu rugido, da sua força. Sabemos que é capaz de manter a união, perseverança. Sabemos que você sabe lutar, vencer, viver, e sua fé une aqueles em sua volta. Pantera Negra patrulha do meu coração!”

Lema da Patrulha Pantera

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Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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