quinta-feira, 27 de abril de 2017

João de Deus.


Lendas escoteiras.
João de Deus.

                 Dois dentes grandes o faziam parecer um coelho quando sorria. Afável, gostava de um sorriso. Moreno cabelo cortados com máquina zero. Fazia parte do lugar onde estava. Magro e pequeno para sua idade de doze anos. Poderia ser Lobinho que ninguém ia ver à diferença. Filho de Dona Maria Noêmia, mulher boêmia que passava as noites onde ninguém podia contar. Dificilmente ia visitar seu filho. Seu pai fugiu um dia e nunca mais voltou. Ele sentia falta. Queria um pai. Olhava para Miro como se fosse seu pai. O escotismo lhe deu outra vida outro motivo para voltar a viver. Esteva internado havia dois anos. Um câncer ia aos poucos tirando vida.. O tratamento de quimioterapia nem sempre ajudava. Tossia, sentia dores tremendas no peito, gritava de dor e os médicos sem nada poder fazer. Nunca esqueceu aquele dia que Miro entrou na enfermaria. Na mão segurava um bastão com um totem do Tico-Tico. – Gritou alto! – Quem quer ser de minha patrulha? João nem pestanejou. Gemendo de dor se levantou. – Eu quero! – Disse.

                Todo sábado pela manhã Miro chegava, sempre só, sempre falando alto: - Patrulha em forma! João se levantava com dores horríveis, mas formava com mais três. Leonel, Pedro e Josias. Josias morreu um meses depois, Pedro ficou mais tempo na enfermaria até o dia que saiu para operar e nunca mais voltou. Leonel morreu sorrindo no dia que a patrulha ouvia a história de Caio Vianna Martins que Miro contava com emoção. Todos ouvindo atentamente. Ninguém viu Leonel escorregando da cama e caindo ao chão. Chamaram as enfermeiras que o levaram. Também nunca mais voltou. A patrulha teve mais dois patrulheiros novos na enfermaria que aceitaram entrar. João contava nos dedos o dia de reunião. Aguardava ansioso. Miro um dia narrou fazendo gestos como eram os acampamentos Escoteiros. As barracas, a mesa, as poltronas de madeira a cozinha e o fogão de barro. João sorria um sorriso de um jovem que sonhava em ser sem saber que nunca poderia ser um deles.

                 Ele imaginou como seria a barraca, sorria pensando que estava dormindo em uma delas, como seria a mesa que chamavam de pioneirias. Imaginou o fogão aceso, as brasas, a panela fazendo arroz e a frigideira fritando ovo. Era lindo pensava. Um dia Miro não foi. João de Deus sentiu tanta falta que chorou baixinho por muito tempo. Miro era seu bastão, seu sonho que nunca se tornaria realidade. Dois sábados seguinte Pablo chegou. Era o Sub. Monitor. Explicou que Miro foi operar na cidade grande. Queria despedir, mas o Doutor do Hospital disse que não. Seria muito triste sua despedida e não iria fazer bem para ninguém. Pablo era diferente. Pequeno, olhos negros enormes como se tivesse forçando para ver. Mas era um Escoteiro legal. Logo fez amizade com todos. Disse que a patrulha Tico-Tico não iria acabar. Ele estava ali para levantar o bastão e darem o grito. João de Deus sentiu saudades de Miro, mas voltou a sorrir o que não fazia há muito tempo.

                   Pablo ensinou a Canção da Despedida. João gostou, mas achou muito triste. Preferiu o Cuco, a árvore da montanha e adorava cantar Avançam as patrulhas. Pablo trouxe xerocado uma foto de patrulhas correndo pelas campinas, com a bandeira do Brasil. Era do caderno Avante. Lindo de morrer. João não tirava os olhos. O tempo todo ali olhando até desligarem as luzes. Fechava os olhos e seu corpo era transportado para os montes, para as montanhas, para as campinas e junto com seus companheiros eles cantavam o Rataplã. Seu sonho era fazer a promessa, pois sabia a Lei de cor e salteado. Um sábado também Pablo não veio. Ninguém explicou por que. Quem sabe a enfermaria autorizava só com ele presente se a patrulha não podia se reunir. Juca, Moisés, Nonato também partiram para as estrelas conforme Dona Matilde a enfermeira explicava a morte dos jovens enfermos.

                   Mas ele queria continuar Escoteiro. Sabia que mesmo sem um deles ele podia ser. Foi Miro antes de ir embora quem disse que onde houver um Escoteiro tem uma Tropa. Ele não sabia o que era Tropa, mas sabia que podia continuar amando sua patrulha e o escotismo. Um sábado bem tarde apareceu um Escoteiro bem mais velho. Já com seus dezesseis anos. Procurou João de Deus. Disse para ele que se chamava Rael. Não podia ficar ali, pois o Diretor do Hospital proibiu. Achava que a patrulha estava prejudicando muitos os meninos doentes e eles no último momento sempre pediam para dar o último grito de patrulha. Era impossível. Isto não ajuda contou Leo o Sênior. – João, estou aqui a pedido de patrulha Tico-Tico. Ela está na porta do hospital. Não deixaram eles entrarem. Só eu e me pediram para sair logo. Mandaram entregar para você o Livro do Fundador do Escotismo. Baden-Powell O Escotismo Para Rapazes. Eu mesmo comprei outro para presenteá-lo. O Caminho para o sucesso também de B-P.

                   Leo partiu e João de Deus começou a ler os livros que fizeram dele um Escoteiro diferente. Agora conhecia tudo porque ele deveria ter sido um. Deveria ter acampado, deveria ter conhecido trilhas e montes, deveria ter subido nos mais altos picos, deveria ter acampado nas mais lindas florestas do Brasil. Seu sonho era sentar em volta de um fogo, bater palmas, cantar sorrir e representar uma bela esquete.  Quase não jantou naquele dia. Quando a luz apagou ele chorou. Não queria parar de ler. Nunca na vida se sentiu assim. Fechou os olhos devagar. Suas lágrimas caiam sobre a cama. Sentiu uma luz azulada entrar no quarto. Viu um velhinho sorrindo para ele. Parou ao pé da sua cama. Falou pausadamente o lema Escoteiro – Sempre Alerta João de Deus. Quer ir comigo para o Grande Acampamento do céu? João de Deus parou de chorar. Olhou para um lado e outro e viu centenas de patrulhas formadas. Havia uma, um jovem sorrindo chegou até ele: - João vim buscar você. Era Miro. A Patrulha Tico-Tico não é a mesma desde que você foi morar na terra!

                     Na vida real ninguém viu uma enorme nuvem brilhante e alva sobre o Hospital. Uma linda estrela esperava o menino João de Deus. O Doutor Tavares sentiu um calafrio. Correu até a enfermaria e viu João de Deus de olhos fechados e sorrindo. Viu que ele estava morto. Ninguém viu seu último suspiro, mas o Doutor Tavares sorriu pensando que João de Deus morreu feliz. Na porta do hospital uma multidão de escoteiros de mãos entrelaçadas cantava uma canção estranha para ele. Diziam que não era mais que um até logo, não mais que um breve adeus. Terminavam dizendo que breve muito breve todos iriam se encontrar nos braços do Senhor.

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