segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Um beijo e depois morrer!


Lendas Escoteiras.
Um beijo e depois morrer.

                          Ele gostava de sorrir brincar e cantar. Na escola foi por insistência de sua mãe. – Charles, ela dizia, um dia ou vou partir e você vai ficar sozinho no mundo. Não seja dependente de ninguém. Muitos o chamavam de negro, mas ele não se importava. Quando a tarde chegava ficava na porta de seu barraco esperando sua mãe chegar. Ela saia cedo, fazia o café deixava no forno seu almoço e quando chegava fazia o jantar. Ele nunca teve um ou uma TV colorida. Sua mãe aproveitava as noites antes de dormir para lhe contar belas histórias na poltrona desbotada.

                        Ele amava as histórias de sua mãe. Em uma noite chuvosa e com lágrimas nos olhos disse que seu pai tinha ido para o céu. Ele não entendeu, mas ela o abraçou no final da história e o beijou varias vezes no rosto. Nunca esqueceu o que ela disse. – Eles trabalhavam em uma fazenda. Seu pai ajudava o dono com consertos de cercas e capina. Um dia fazia uma cerca próximo ao Rio Verde e uma enorme tempestade se formou. Um raio caiu sobre ele. Morreu na hora.

                      Um mês após a morte o Senhor da fazenda rudemente disse para eles desocuparem a choupana. – Eu preciso de alguém para ajudar na lida da fazenda. A senhora e seu filho não serve para nada. Tem uma semana para sumir daqui. Fazer o que? Ela partiu para a cidade grande. Dormiram ao relento por vários meses. Foi com muita luta que conseguiu um barraco na favela do Engenho. Ele aprendeu que precisava ser o homem da casa quando ela saia para trabalhar.

                    Todas as noites imaginava qual história sua mãe ia contar. Ela repetia muito, mas ele adorava. Gostava do Neguinho do Pastoreio e Pinóquio. Um dia na escola Norberto um menino rico apareceu de escoteiro. Ele não tirou os olhos. Perguntou a sua mãe se podia entrar. Ela riu e disse que não era para eles, lá só tinham ricos e brancos. Ele tinha orgulho de sua cor e não entendeu. Na sua ingenuidade de menino sentiu que não tinha seu lugar na sociedade. Um dia ela o levou e para surpresa ele foi aceito. Os chefes foram simpáticos e ele gostou da sua Patrulha Lobo. Em pouco tempo se enturmou. Sua mãe um dia contou uma história de escoteiro que ela tinha lido. Foi demais.

                     Na Patrulha contaram para ele que foi “adotado”. O Grupo Escoteiro pagava suas despesas. – Mãe, não podemos pagar? Não meu filho. Estude para ser alguém e você não vai depender de ninguém. Ele gostava de sua Patrulha, de acampar e excursionar. Aprendeu a cozinhar e fazer pioneirías. Charles cresceu. Passou para os seniores. Estudava a noite e trabalhava durante o dia na loja do seu Odorico. Pediu para não trabalhar aos sábados a tarde. Ele precisava ir à reunião dos escoteiros. Ganhava metade de um salario mínimo e ainda ajudava sua mãe.

                 Um dia as meninas chegaram. Tinham agora duas patrulhas completas com seis cada uma. Não se enturmou com nenhuma delas. Era arredio e pensava que elas não iam aceitar um escoteiro com sua cor. Um sábado Nathalya chegou. Cabelos vermelhos longos, um sorriso encantador. Sorriu para Charles e disse até semana que vem. Ele não sabia o que dizer. Não sabia como conversar com uma moça. Tinha vergonha. David o Monitor era o bonitão da Tropa. Ela nunca seria para ele.

               Em uma excursão no Vale Florido pararam próximo a uma linda cachoeira. Ele não tirava os olhos dela. Ela o convidou para sentar em uma sombra onde uma linda Copaíba se destacava. Ali alegre e gentil ela contou muitas coisas sobre a sua vida. Charles encantado não sabia o que dizer. Afinal era negro ela branca ruiva de cabelos vermelhos. Ela insistiu pra que ele contasse um pouco de sua vida. Contar o que? Que morava em uma favela e lutavam para sobreviver? - O apito do Chefe tocou três vezes. Reunir. A hora maravilhosa daquele momento mágico havia acabado. Eles levantaram e para surpresa de Charles Nathalya o abraçou e o beijou no rosto. Ele não sabia o que fazer. Não foi um beijo que seus amigos se gabavam. Foi um beijo lindo, um roçar de lábios olhando nos olhos e sentido seu perfume que exalava e ele audacioso acariciou seu rosto, seus cabelos e de novo o apito do Chefe.

              Foi um êxtase de momento. Uma quimera de segundos, que Charles nunca esqueceu. Na semana seguinte Nathalya não veio. Charles torcia as mãos, olhava para o portão e quando a reunião terminou perguntou ao Chefe o que houve. O Chefe disse que ela não voltaria mais. Era escoteira em outra cidade. Ela tinha pedido para participar das reuniões enquanto estivesse aqui em férias.

                   Charles ficou em estado de choque. Uma dor incrível cravou em seu coração. Sua mãe o abraçou e ambos ficaram assim por um bom tempo com os olhos molhados com lágrimas que insistiam em rolar na sua face. Charles nunca encontrou outra moça para namorar. Não podia esquecer o momento mágico do afago e do beijo entre ele e Nathalya. O tempo passou. Charles cresceu. Formou-se como Técnico Mecânico. Sua mãe velhinha não trabalhava mais. Ele comprou uma casinha mobilhou e comprou uma Televisão. Ela ainda contava histórias para ele. Charles continuou Escoteiro colaborando sem ser um chefe. Durante toda sua vida uma vez por mês Charles vestia seu uniforme, embarcava em um ônibus e descia próximo ao Vale Florido. Sentava na sombra da Copaíba e sorria lembrando o dia mais feliz de sua vida ao lado de Nathalya.

                  Ali sozinho ele Imaginava seu perfume, ouvia sua voz e acariciava o ar pensando ser os seus cabelos lisos vermelhos. Todo mês ele voltava no tempo no Vale florido. Nunca esqueceu o roçar dos lábios de Nathalya em seu rosto. Era incrível esta visão virtual. Visão de um grande amor que nunca morreu. Charles fez setenta anos. Ainda insistente ia aos domingos ao Vale Florido. Com passos trôpegos procurava a mesma árvore. Nunca esqueceu o amor que morava em seu coração. Durante toda sua vida nunca mais beijou ninguém. Não sabia beijar e nem queria esquecer o beijo da Nathalya.

                   Charles morreu na primavera. A Copaíba sentiu sua falta. O perfume que ela deixou em sua sombra nunca mais se esvaiu. Nas suas exéquias Charles viu Nathalya em uma luz brilhante.  Ela o convidava para ir viver em outra dimensão do universo. Ele estático viajou pelo espaço até a Copaíba do Vale Florido. Sentou com ela mãos dadas. Nathalya sorrindo disse que o esperou por todo este tempo. Charles sorria. Sabia que agora estariam juntos para sempre e ele voltava a viver um grande amor que nunca esqueceu!



Nota de rodapé: - Ele era um Escoteiro de cor negra, que morava em uma favela, ela uma guia escoteira de cor branca, olhos verdes e cabelos vermelhos como o sol. Um amor impossível. Ele viveu para ela toda sua vida mesmo não a tendo ao seu lado. Eles um dia se encontraram na mesma árvore e no mesmo lugar. Foi então que puderam viver o seu grande amor! 

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