terça-feira, 3 de outubro de 2017

“Emmanuel”.


“Emmanuel”.

                 Timóteo foi o primeiro. Sempre fora assim desde que ele entrou para os escoteiros. Era uma alegria vê-lo chegar. Ficar só na sede, mesmo acostumado ele sentia falta. Ele se juntava a todas as patrulhas. Não tinha nenhuma especial. Sabia o nome de cada um: Mozart, Luiz, Totonho, Antonio, Pedro, Zacarias... Sabia do acampamento no próximo mês. Sonhava. Afinal ficaria dias e noites junto a eles era uma alegria infinita.

                 Lembrava pouco do seu passado. Nos últimos trinta anos fez tudo para esquecer. Um pai cruel, uma mãe que não ligava para ele, uma morte em uma curva onde todos eles partiram para o outro lado da vida. Sombras tenebrosas levaram seu pai e sua mãe e ele ficou. Perambulou pelas ruas, ficou na sua casa ainda pensando que estava vivo, mas a briga dos tios pelo espólio o enojava. Descobriu os Escoteiros. Ali fez sua morada.

                Conheceu centenas deles. Afinal foram trinta anos convivendo com eles. Viu muitos se transformarem em homens de bem. Assustou quando Braguinha disse que o via, mas não escutava. Sorriu para ele e se tornaram amigos até que um dia ele partiu. Quantos chefes? Dezenas. Nunca esqueceu o Chefe André Luiz. Dizia belas palavras: - O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte. Nunca esqueceu quando a noite no Pico das Agulhas Negras disse; - Assim como a semente traça a forma e o destino da árvore, os teus próprios desejos é que te configuram a vida.

              Aos poucos foi vestindo peça por peça do uniforme. Lembrou-se de um anjo que lhe disse: Você é somente espírito e estes não tem corpo. Muitas vezes tentaram levá-lo, mas ele insistia em ficar. Gostava dali, seu pai nunca o deixou ser um. – Filho isto é coisa de “boiola”, você é meu filho macho, e tem de demonstrar desde cedo que sabe mandar e matar se preciso. Naquele dia chorou. Lembrou mais uma vez do Chefe André Luiz: - A grandeza do amor repousa invariavelmente na conjugação do verbo servir.

                 Viu um clarão azul riscando no céu como se fosse uma lua cheia diferente. – Filho, chegou a hora de partir! – Era um Velho de roupas brancas e alvas, envolto em luzes brilhantes. – Porque Senhor? – Eu me sinto bem aqui. Tenho amigos que me querem bem. O velho sorriu. Mas sua hora chegou. Seu pai e sua mãe ainda estão acertando suas dívidas com Deus. – Seu amigo Braguinha não esquece de você. - Braguinha? Onde ele está? – venha comigo, e vais encontrá-lo bem no centro do universo.


                Ele pensou o que fazer e qual decisão tomar. Senhor! – Posso pelo menos ir ao meu último acampamento? – O Velho sorriu. Ele sabia que as verdadeiras afeições são eternas. Não começam e não terminam em uma existência. "À proporção que se liberta, a alma encontra-se numa situação comparável àquele que desperta de profundo sono. Bem diverso é, contudo, esse despertar". A vida continua, aqui ou em outra dimensão do universo!

Nota de rodapé: - A humildade não está na pobreza, não está na indigência, na penúria, na necessidade, na nudez e nem na fome. A humildade está na pessoa que tendo o direito de reclamar, julgar, reprovar e tomar qualquer atitude compreensível no brio pessoal, apenas abençoa. – Este é um conto de ficção baseado na doutrina espírita

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