sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Contos de Fogo de Conselho. Memórias de um Chefe Escoteiro.


Contos de Fogo de Conselho.
Memórias de um Chefe Escoteiro.

                Olhei para o relógio. Estava na hora. Nem pensei quantas vezes e quantos anos fazia o mesmo nesta hora. Notei o céu azul perdendo a cor e lembrei-me da frase do poeta ao entardecer: - “Não chore por ter perdido o pôr do sol, pois as lágrimas te impedirão de contemplar as estrelas”. - Em passadas curtas e sem pressa fui rumo a Sede Escoteira. Rotina de anos e anos me levava até a porta e passar a chave e dizer: - Até o próximo sábado que vem quando vou voltar! Dei a primeira volta na chave quando a voz de Tomaz se fez presente. – Chefe posso falar com o senhor?

                 Abri devagar a porta. Entrei e convidei Tomaz para sentar. Sabia que tinha hora para chegar, mas Naninha minha amada iria entender. Afinal a tarefa de viver e ajudar é dura, mas fascinante. Não disse nada. Era sempre assim. Tomaz tomaria a iniciativa. – Chefe, eu vou sair do escoteiro! – Não perguntei por que, sabia que haveria um razão para que ele tomasse aquela decisão. Conhecia Tomaz há muito tempo. – Lembrei-me quando da passagem ele chorando ao apertar minha mão disse soluçando: - "Chefe, não troco o meu “oxente” pelo ok de ninguém”!

                 Tomaz... Mostrou seu valor nos quase oito anos de escoteiro e lobo. Ninguém nunca reclamou dele. Nunca desistiu de nada. Era o primeiro a correr como gente grande, a jogar como um atleta, a cantar como uma cotovia, a sorrir como um herói. Quando caiu nas escarpas do Roncador, apareceu logo a seguir subindo as pedras e dizendo: - Chefe! A gente tem uma tendência para acreditar que o escoteiro não morre! Quando chegou da jornada de primeira classe com um atraso de quatro horas, disse: - Chefe, o que nos salva é dar um passo e outro ainda e nunca desistir.

                  Ele respirou fundo e falou: – Chefe, meu pai precisa de mim, a loja aumentou o movimento. Ele não pode contratar, afinal sou seu filho de quinze anos e preciso ajudar. Dizem que ninguém doma o coração do poeta, concordo. Não foi ele quem disse que não podia perder a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas? – Poderia ter perguntado se ele queria que conversasse com seu pai, mas ele tinha tomado uma decisão. Precisava de apoio e não aconselhamentos.

                   Dei-lhe um forte aperto de mão e não faltou um abraço amigo do seu Chefe que o queria bem. A gente só conhece bem as coisas que cativou. Ele se foi e com o tempo também se foram Antônio, Pedro, Joaquim, Noé, Tomé, Rinaldo, José, Altair, João, Raul... Poderia ficar aqui horas lembrando o nome de cada um que tive a honra de ser Chefe amigo e mentor. Qual o papel do Chefe? Eu sempre me perguntava e as respostas nem sempre me satisfaziam. Em um mundo que se faz deserto, muitas vezes temos sede de fazer amigos. Seria isto? Ou seria que o mundo inteiro se abre quando vê passar um homem que sabe aonde vai?

                   O tempo passa a gente nem percebe o tempo passar. Hoje dizem que tudo pode ser comprado, mas a mente dos jovens não tem preço e nem está à venda. Ao meu modo ajudei e fiz da vida de muitos um caminho do sucesso. Sucesso? Não sei. Muitos anos depois Tomaz me procurou: - Chefe preciso do senhor. – Olhei para ele. – Quero que seja meu padrinho de casamento. Dizer o que? Eu sei que sou um pouco de todos que conheci, um pouco dos lugares onde fui um pouco das saudades que deixei e sou muito das coisas que gostei.

                     Muitos deles tive a honra de encontrar um dia. Outros não. Baden-Powell dizia que a verdadeira felicidade é fazer os outros felizes, outro poeta disse que a verdadeira felicidade vem da alegria de atos bem feitos, do sabor de criar coisas renovadas. Ao meu modo ensinei que a ética está acima de tudo, e para isto dei tudo de mim aos jovens que acreditaram que o escotismo era uma força que habitava no coração e fazia da mente uma mola para ser alguém de valor neste mundo. Eu sabia que a maior habilidade de um Chefe é desenvolver habilidades extraordinárias em pessoas comuns.

                      Até hoje não me arrependo do que fui do que sou e do que fiz. Fiz tudo para fazer outros felizes. Apertei a mão de milhares de jovens, me orgulhei de muitos quando já adultos se mostraram a altura do seu Espírito Escoteiro. Eu sabia que grandes homens e mulheres começaram por serem crianças mesmo sabendo que a maioria não se recorda disso. A cada um quando via eu pensava: - Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim, mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro.


                      Fechei a porta da sede. Devagar fui para o portão. Ao sair o barulho da cidade grande me fez viajar nos meus tempos de escoteiro. Correndo pelas campinas, acampando em vales e pulando na água fria de um regato, fazendo o que gostava e amando o que fazia. Sempre disse que ia dar o mesmo para outros jovens. Não tenho arrependimentos. Enquanto puder aqui estarei abrindo e fechando a porta da sede. Uma sina? Pode ser. Ao ir para casa olhei novamente o céu. Pensei com a mente de um escoteiro que é difícil uma pessoa contemplar o céu e dizer que não há um Criador!

Nota de rodapé: -  Abraão Lincoln comentou que o caráter é como uma árvore e a reputação como uma sombra. A sombra é o que nós pensamos dela, a árvore é a coisa real. Afinal o êxito da vida não se mede pelo caminho que você conquistou, e sim pelas dificuldades que você superou no caminho. E corrijo as palavras dele com a que transmito aos chefes escoteiros: Não te esqueças de que todos são seus amigos e irmãos mesmo que não os conheces, pois todos gostam de um elogio de um cumprimento e de um abraço. Faça por merecer meu amigo Chefe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário