sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

As lendas que não foram contadas. Uma passagem para um mundo melhor. Moralto.


As lendas que não foram contadas.
Uma passagem para um mundo melhor.
Moralto.

                    - Eu só o vi uma única vez na vida. Na verdade aquele foi um dia especial, não me perguntem por quê. Notei sua figura surgindo na estrada do Alencar, a pé, com um cajado simples, mas com passadas firmes sem se mostrar cansado. Ele não me disse quem era e nem eu perguntei. Quando se aproximou senti um brilho em sua figura e inexplicavelmente ele se transformou. Juro que ao longe estava com uma bata branca e na minha frente portava um uniforme Escoteiro. Como ele podia fazer aquilo? Era mágico? Se fosse o truque era perfeito. Não usava o chapéu e eu sei que naquela áurea brilhante o chapéu tiraria toda sua pose badeniana. Quem seria? Ele sorria para mim, um sorriso encantador, dentes alvos olhos negros, cabelos castanhos compridos.

                 Havia parado ali para descansar um pouco da minha jornada e fazer um café. Precisava. A Árvore da Colina era minha velha conhecida. Pequena, mas com uma folhagem que dava uma sombra invejável. Havia um regato, mas distante. O Rio Barrento ficava do outro lado da montanha. Somente a árvore para nos dar o descanso devido. Queria chegar ao acampamento da patrulha ao entardecer. Uma obrigação a pedido do meu pai me obrigou a ir depois. O acampamento não era longe. Após a curva do Falcão se avistava a mata, a cascata e o bambuzal. Tirei a mochila, pendurei meu chapéu em um galho e duas achas facilitariam o Tropeiro que iria fazer. Na mochila tinha café e pó. Meu canecão militar serviria para esquentar a água.

                  Levantei e disse bem vindo! Ele sorria. Não era bonito, mas tinha alguma uma aparência especial que encantava. Em vez de sapatos usava sandálias. Calado se assentou a sombra junto ao tronco. Fechou os olhos e parecia rezar. Passei o café e ofereci a ele. Olhou meu cantil e me pediu água. Passei para suas mãos e ele bebeu devagar, parecia sorver o líquido com carinho de quem tem sede. Tomou o café me olhando nos olhos. Minha caneca de esmalte parecia brilhar em suas mãos. Fechou os olhos e dormiu por alguns minutos. Acordou sorrindo e levantou. Colocou a mão em minha cabeça e disse – “Que a paz esteja convosco”. Partiu sorrindo acenando e notei que agora estava de novo com a bata branca e seu cajado.

                   Sozinho aproveitando a sombra da Árvore da Colina meditava. Quem seria? De onde veio e para onde iria? O sol já ia se por na Montanha do Cavalo. Era hora de partir. Tinha mais duas horas de jornada pela frente. Conhecia o caminho. Limpei o fogo, joguei uma pitada de água do meu cantil nas brasas, mochila nas costas e parti. Não olhei para trás. A Árvore da Colina tinha o dom de não deixar ninguém partir. A noite chegou mansa e calma. Meu caminho estranhamente era claro, uma estrela no céu jorrava raios brilhantes na estrada. Nunca tinha visto nada igual. Do alto da Colina avistei a curva do Falcão. Estava perto. Meus pensamentos giravam entre chegar e lembrar-se daquela figura tão simples, com um sorriso inesquecível e com uma áurea brilhante que me encantou para sempre.

                     Nunca soube quem era. Não perguntei. Acho que ele sabia que eu iria lembrar-me dele e pensar que ele veio do céu. Se nada me disse tinha seus motivos. Qual eu não sei. Eu era apenas um Escoteiro a ir para seu acampamento. Meu café ele tomou sorrindo sinal que não era ruim. Nunca contei esta história para ninguém. Muitos anos depois vi que aquele dia foi o mais importante em minha vida. Sabia que agora a paz morava em mim. A harmonia e o amor reinavam. A paz de um sorriso predominava. Agora eu sabia que naquele dia, naquela Árvore da Colina, Jesus me deixou entrar em seu coração!  


Nota - "É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos, nem os desejos de razão. O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver". Apenas um conto, uma ficção do impossível e do imaginário que costumo contar. Divirtam-se.

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