terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Contos de Natal. O último voo do Condor.


Contos de Natal.
O último voo do Condor.

                   Até hoje eu não sei explicar João Rosas e seus pássaros de ouro. Menino imberbe entrou na patrulha sem passar pelos lobinhos. Era tão magro que a escoteirada da Tropa tinha medo que em uma atividade qualquer ele fosse partir em vários pedaços. Isto não aconteceu. Dizem que se conhece qualquer Escoteiro em dois ou três de acampamento. Eu sempre acreditei nisto. Na sede nem sempre vemos se o Pata Tenra será futuramente um mateiro de envergadura e um bom explorador em suas jornadas. João Rosas era da Patrulha Javali e eu da Lobo. Sentia por ele uma amizade que nem sempre dedicava aos membros da patrulha. Foi no seu primeiro acampamento que tudo aconteceu. Logo que chegamos uma revoada de pardais se fez acontecer no campo de patrulha da Javali. Ninguem entendeu nada.

                  João Rosas era caladão, mas sempre com um sorriso nos lábios. Prestativo e educado. No seu primeiro acampamento foi empossado de bombeiro e lenhador, função que poucos gostam na patrulha. Os pardais se empoleiraram em um galho e um deles pousou no ombro de João Rosas. Ele sorriu e parecia falar com o pardal. A patrulha estupefata viu aquele idílio de um pássaro com um menino. Eles sabiam se aproximar dos animais e pássaros quando o vento estivesse a favor, mas pousar em um deles? Nunca viram isto. O Chefe foi chamado e sorriu ao ver uma nova amizade nascendo entre um passarinho e um Escoteiro. Isto foi só o começo. A cada dia aparecia um bando de andorinhas, ou sabiás e nem faltou os Canários Belgas que eram dono do lugar. Sempre o Chefe da passarinhada passando boa parte do dia nos ombros de João Rosas.

                 Lembro-me que tudo aconteceu no acampamento em Pedra Azul, duas semanas antes do natal para que fosse a despedida, pois logo entrariam em férias. Em Pedra Azul havia um montanha cuja lenda dizia que no ano de 1650 um Pirata chamado de Capitão Rockhpper enterrou um tesouro em uma gruta escondida na Serra do Condor com várias baús cheio de pedras preciosas, ouro diamantes e tantas pedras preciosas que até hoje ninguém sabe o seu valor. – A corte de Honra vibrou quando ele contou a historia e a lenda. – Não esperem encontrar nenhum tesouro, disse. Depois de tantos anos os saqueadores já devem ter levado tudo. Mas sabe como é, lendas de tesouros mapas e o escambal criam eternas fantasias nos jovens escoteiros.  Enquanto isto nas reuniões sempre uma revoada e um pássaro pousando no ombro de João Rosas.

                 Pedra Azul era um lugarejo de mais ou menos cinco mil almas. Todos vieram para as ruas para verem os escoteiros passarem. Calixto o Chefe quando via que não haveria perigo deixava todos andarem espalhados e ou em grupos ficando a critério da patrulha decidir. Zé Silvio foi quem cutucou a escoteirada logo que começaram a subir a montanha. Era um Condor dos Andes, daqueles que tinham a maior envergadura do mundo. Ele sabia que eram raros no Brasil e seu habitat eram nos Andes em altitudes superiores a três mil metros. Todos pararam para ver a ave que voava em circulo sobre as patrulhas. Esta era grande demais com mais de cem a cento e dez centímetros de envergadura. Zé Silvio leu muito sobre o Condor e sempre sonhara em conhecer e ou ver um.

                 Ficou por pouco tempo não sem antes dar um rasante em cima de João Rosas. Eles tinham pouco tempo para explorar. Sabiam que o tesouro não existia mais e sonhavam pelo menos encontrar a gruta. Passaram toda manhã se revezando em várias direções a procura da gruta. A tarde cansados encontraram um bom local para acampar. A noite ainda não tinha chegado e as Patrulhas Javali e lobo se confraternizavam em volta de um fogo esperando o cozinheiro anunciar o jantar. Uma revoada de mais de dez Condores sobrevoaram o campo de patrulha. Um deles desceu a toda velocidade e numa manobra incrível pegou João Rosas pelas garras e o levantou no ar, desaparecendo atrás da montanha.

                   João Rosas estava sumido a mais de cinco dias. Precisavam voltar para casa, mas sem João Rosas? Muitos choravam e sangravam as mãos e os pés vasculhando cada parte da montanha. Chefe Calixto estava desesperado. Como enfrentar a cidade e os pais de João Rosas? – Voltaremos com ele ou sem ele no dia 24 de dezembro. As buscas continuaram e sempre dando em nada. Foi pela manhã do dia 24 de dezembro que João rosas apareceu sorrindo no acampamento. No alto um rasante do Condor em cima dele e sumindo como se fosse um sol poente. Alegria geral. Trazia consigo um bornal cheio de pedras preciosas. – Chefe é para dividir com todos. – Mas você sabe onde está o tesouro? Perguntou Chefe Calixto. João Rosas sorriu e nunca contou para ninguém o que aconteceu com ele e sua espetacular viagem pelos ares com um Condor.


                     A cidade de Pedra Azul recebeu o maior fluxo de exploradores desde que a última noticia do tesouro se espalhou. Ninguém nunca achou nada. O Chefe Calixto e os escoteiros mesmo ficando ricos com o Tesouro não contaram para ninguém o que aconteceu. Até hoje em Vila Real sempre uma vez por mês um Condor sobrevoa a cidade e pousa na casa de João Rosas. Muitos disseram que ele sai a voar com seu amigo por lugares nunca antes imaginados. Se o Condor dos Andes voa solitário e habita as montanhas mais altas ele agora tem um amigo. Se eles se entendem ou conversam entre si, só as mais altas rochas das montanhas pode dizer se é verdade ou não. Ainda pretendo voltar em Vila Real. Quero rever agora na velhice João Rosas, pois sabia que ele nunca sonhou em voar longe do que amava!  

Nota - Na mitologia Inca, o condor-dos-andes (Vultur gryphus) é imortal. Segundo a lenda, quando começa a se sentir velho, que suas forças se esgotam, pousa no pico da mais alta montanha, dobra suas asas, recolhe suas pernas e se deixa cair, até atingir o fundo dos rios. Esta morte é simbólica, já que através deste ato, o condor retorna ao ninho nas montanhas, onde renasce em um novo ciclo, uma nova vida! São meus convidados a lerem a história.

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