quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Lendas Escoteiras. Ariranha, um Cão Lobo inesquecível. (Uma história baseada em fatos reais).


Lendas Escoteiras.
Ariranha, um Cão Lobo inesquecível.
(Uma história baseada em fatos reais).

              Aconteceu há muitos anos atrás. Um fato que ficou marcado em minha vida para sempre. Escoteiro da Patrulha Lobo corria o ano de 1952. Foi quando apareceu Ariranha, um cão lobo nas Matas do Quati. Seis dias para ser exato convivemos juntos em um acampamento de tropa que acontecia todos os anos. Não dá para esquecer, pois foi nossa terceira Olimpíada Escoteira, e a cada ano elas marcavam época. Idéia do Munir, um Pioneiro que também tinha a função de Mestre da Banda. Gostava de ser chamado Maestro Munir.

           Chefe Jessé relutou, mas a Corte de Honra achou a ideia esplêndida. Era uma Olimpíada diferente que visava técnicas escoteiras e nada mais. Sempre acampávamos em uma clareira próxima ao Rio do Morcego, onde se avistava a bela cachoeira do Sonho. Na época da Piracema era um espetáculo ver os peixes tentando subir nas corredeiras e pulando sobre as pedras. Se podia pegar com a mão.

          As provas eram divertidas. Só técnicas escoteiras. – Subir em árvores de seis metros de altura descendo pelo nó de evasão com tempo marcado – atravessar o rio nadando em dez minutos ida e volta (60 metros). – Fazer vinte e cinco nós escoteiros ou de marinheiro em seis minutos pendurados de cabeça para baixo em uma corda – Deixar-se cair da cachoeira (oitos metros) em um tambor vazio de duzentos litros. – Semáforas e Morse uma prova onde tínhamos grandes sinaleiros. – Montar um fogo, fazer um café e pão do caçador em oito minutos. – Uma fogueira que durasse pelo menos uma hora sem ser abastecida. – Cortar uma tora de madeira de oito polegadas em oito minutos usando só um facão. – Trilha e pista de animais e tantas outras que deixaram saudades.

         O caminhão da prefeitura nos deixou pela manhã na trilha da mata onde depois se transformou no Campo de Aviação e que nos levava ao Rio do Morcego. O resto era a pé. Apenas quatro quilômetros. Adorávamos este acampamento anual. A Patrulha se preparava meses antes. O troféu pela vitória alcançada não eram medalhas. Podia ser uma faca Escoteira, um canivete Suíço, uma bússola, distintivos de lapela com flor de lis, moedas de boa ação. Prêmios que ambicionávamos muito. Cada Patrulha tinha o seu campo separado da outra mais ou menos por quarenta metros. As pioneiras eram feitas no primeiro dia, pois no segundo as Olimpíadas começavam.

           Lembro que estava fazendo uma fossa para o WC quando avistei Ariranha. Notei algum diferente. Parecia um lobo Guará, mas tinha o pêlo meio amarelado e quase sem rabo diferente do lobo cinzento que conhecia bem. Quem sabe era um cruzamento com um vira-lata qualquer com alguma loba perdida ou habitante da mata. Ele nunca sentava. Sempre em pé, orelhas para o alto e olhando sem piscar o que fazíamos. Quando me aproximava ele dava alguns passos para trás e parava.

            Durante todo o dia ele ficou próximo ao nosso campo de patrulha. Lembro que foi Pedregulho o intendente quem lhe deu o nome de Ariranha. Porque não sei. À noite quando íamos dormir ele ficava na entrada do pórtico com se fosse velar nosso sono. Pela manhã impreterivelmente lá o encontrávamos. Passamos a alimentá-lo e ele parecia se sentir feliz com a nova família.

        Durante a realização das provas da Olimpíada, ele ficava próximo a mim. Uma vez entrando na mata a procura de uma pista pisei em falso e um enorme corte se fez em minha perna bem abaixo do joelho. Ele veio até a mim e levei um susto quando ele começou a lamber o sangue que escorria na perna. Parou na hora. Quando passei a mão em seu pêlo saltou de lado e tomou distância. Uma noite acordamos com seus latidos. Latia para uma enorme cascavel que impreterivelmente invadiria nosso campo. Ele a espantou. Outra vez seus latidos foram mais altos e foi à tarde quando estávamos tomando banho no córrego da Lagartixa. Desta vez era uma Onça parda. Fugiu com seus latidos.

          Durante os seis dias de campo, Ariranha permaneceu conosco. No último dia no cerimonial de bandeira Ariranha se colocou ao meu lado na ferradura. Não esperava por isto. Todos acharam divertida sua pose. Ele não me olhava. Seus olhos estavam fixos na bandeira Nacional. Devia ter assistido todos os cerimoniais que aconteceram. Enquanto ela farfalhava ao sabor do vento e descia dos céus seus olhos acompanhavam. Quando as patrulhas deram o grito ele ficou no meio e pela primeira vez se deixou abraçar. Foi um espetáculo comovente. Todos os escoteiros das demais patrulhas vieram também abraçá-lo, pois já era querido por todas as patrulhas.

            Ao partirmos ele nos acompanhou até a estrada onde pegaríamos o caminhão da prefeitura. Ao subir na carroceria ele estava lá me olhando. Abanando o pequeno rabo ele deu um uivo enorme. Gritante e choroso. Como se fosse um lobo de verdade se despedindo para sempre. Ainda nos acompanhou por alguns quilômetros na Estrada de São Raimundo e depois sumiu em uma curva no meio da poeira.

           Foi um retorno triste e comovente. Todos os Escoteiros tinham os olhos vermelhos e na carroceria do caminhão um silencio choroso. Eu voltei para casa com os olhos cheios de lagrimas. O uivo de Ariranha me marcou muito. As lembranças ficaram gravadas para sempre. Chorei por vários dias. Nunca me perdoei por não trazê-lo comigo, mas meu pai disse que ele era da floresta e não iria se acostumar na cidade. Chamei o Romildo na semana seguinte e fomos até lá de bicicleta. Rodamos e rodamos e nem sinal de Ariranha. Nunca mais o vi, mas nunca mais o esqueci.


             Ariranha ficou marcado em nossa Patrulha Lobo. No nosso livro de Atas ele teve um lugar especial. Não sei se é fácil explicar como se ama um cão/lobo em poucos dias e nunca mais o esquece. Não sei mesmo. Até hoje me lembro de Ariranha com saudades. Histórias são histórias, tem umas que marcam, tem outras que ficam gravadas em nossa mente para sempre!

De vez em quando escuto alguém me dizer: - Para com isso! É apenas um cão! Ou então... - Mas é muito dinheiro pra se gastar com ele! É apenas um cão. Estas pessoas não sabem do caminho percorrido, do tempo gasto ou dos custos que significam "apenas um cão". “Muitos dos meus melhores momentos me foram trazidos por apenas um cão". O mais altruísta dos amigos que um homem pode ter neste mundo egoísta, aquele que nunca o abandona e nunca mostra ingratidão, é o cão.  

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