segunda-feira, 9 de abril de 2018

Contos ao redor da fogueira. Fuligem, um cinto Escoteiro brincalhão.



Contos ao redor da fogueira.
Fuligem, um cinto Escoteiro brincalhão.

                  Nem vem que não tem! – Não tem o que Fuligem? – ele me olhava com aquela cara de “besta” que eu conhecia há muitos anos. – Pode tirar o cavalinho da chuva. Não vou para a reunião com você hoje nem que a vaca tussa! – O que é que eu fiz Fuligem? – O que fez? Só um paspalho escoteiro como você faz uma pergunta desta. Seja homem meu caro. Aceite que você é um idiota! – Fiquei a olhar Fuligem. Nem sabia ao certo quando ele falava sério ou estava-me gozando.

                   Pensei o que tinha feito. Olhei para fuligem. Estava limpo. Na quarta usei metade da pasta Kolynos para fazer a melhor limpeza na fivela do cinto, que eu chamava carinhosamente de Fuligem. O couro estava perfeito. – Olhei para ele e o “pestilento” começou a rir. – Fuligem! Está na hora da reunião e não gosto de chegar atrasado! Tá bem! Desta vez eu vou, mas na próxima se não engraxar o sapato não conte comigo. Só ando com Escoteiros que se orgulham do uniforme!

               Sempre foi assim. Desde que comprei Fuligem na loja da capital pelo correio. Eu tinha um ano de promessa e custei a juntar a grana. Assim foi como meu chapéu Escoteiro, com meu bastão de ponteira de aço, com meu cantil francês, com meu canivete suíço e com minha faca mundial. Meu uniforme e lenço a mamãe fazia, mas o resto eu ralava para comprar. Engraxando sapatos, limpando quintais, ajudando seu Manezinho no Armazém fazendo entregas.

                       - Olhei para meu Vulcabrás e ele não estava sujo. Achei que não precisava. Fuligem não perdoava. Ele gostava de massacrar. Não esqueço o dia que fui para a sede, e ao passar na vendinha do Seu Nestor para comprar balas de hortelãs um freguês dele olhou minhas pernas e disse – Lindas! Se você fosse uma moça a gente ia conversar! Fuligem virou bicho. Tire-me e dê uma surra de cinto neste filho da mãe! - Não Fuligem é o Vadico meu amigo de escola.

                  E quando mamãe fez um uniforme novo? As passadeiras ficaram estreitas. Ele não conseguia passar. – Meu pai do céu! Ele dizia. Nesta casa só tem Jerico ou Asno? Tal mãe tal filho? Naquele dia fechei a cara para ele. Ele sabia que tinha ido longe demais. Abaixou cabeça como se estivesse envergonhado. Tinha um cinto velho guardado e o coloquei. Não era tão bonito como Fuligem, mas ele precisava de uma lição.

                        Quando coloquei o cinto ele gritou – Não, por favor! Perdoe-me, eu falei demais! – Desta vez nem liguei e fui para a reunião. Fui triste mesmo sabendo que o “Segunda Mão” era um bom cinto. Calmo, educado e ponderado. Um escoteiro que foi embora da cidade me presenteou. “Segunda Mão era velho”. Mais de quarenta anos, falava pouco, não reclamava e nem me desafiava como Fuligem.

                  Lembro-me quando Fuligem chegou pelo correio e o tirei da caixa ficou todo prosa. Novo em folha, couro brilhante com flor de lis, metal com um brilho de dar inveja foi logo dizendo: - Menino é bom saber que detesto Escoteiro babão! Comigo pau é pau pedra é pedra. Ou você está bem uniformizado ou não está. Sou exigente, meião nos trinques, calça e camisa bem passada, o lenço bem dobrado e o anel até na gola.

                    Ele continuou: - Chapéu meu amigo tem de estar com as abas largas. Se torto me esqueça! – No início não liguei para ele. São coisas de peças escoteiras novas ainda sem aquela fleuma de um bom mateiro. Conhecia este tipo de prosa. Eu conversava com aqueles que me fizeram parecer Escoteiro. Foi com meu chapéu, com meu lenço e meu bastão. Mas o tempo foi passando e fuligem aprontando. Era minha calça sem passar, meu lenço mal dobrado, meu chapéu torto, Fuligem não deixava nada passar. Nos acampamentos se chovia ele gritava – Corra seu idiota, se o couro molhar vai doer prá dedéu!

                 Lembro-me de um fato interessante em Santa Mônica uma cidadezinha lá pelas bandas do Rio Tico-Tico. Armamos barraca em um campinho de futebol na entrada da cidade e fora alguns garotos olhando de longe não vi mais ninguém. O dia acabava e escurecia. Depois do jantar fomos dormir, pois no dia seguinte iriamos dar uma chegada em Campos Gerais.

                     Dormi feito um anjo, mas ao acordar cadê meu cinto? Mãe de Deus levaram o Fuligem! Não me dei por vencido, pois sabia que ele ia berrar feito um bode preso no toco da porteira. Não deu outra, com meu cavalo de aço (bicicleta) rodei a cidade rua por rua. Em uma delas ouvi a voz dele – Socorro! Vado sua besta, me tire daqui! A mãe do menino ficou envergonhada e pediu desculpas. Fuligem ria a mais não valer. Vado eu avisei para ele que você ia me encontrar!

                   O tempo passou, um dia tive de dizer a ele que precisa trocar o couro. Ele berrou, gritou e disse que preferia morrer. Manfredo um sapateiro disse que podia fazer um recauchutagem sem mudar seu estilo anterior. Deixei-o na sapataria e um dia depois Manfredo veio me procurar dizendo que eu levasse o cinto urgente. Ele não aguentava mais a faladeira dele.

                   Nunca viu um cinto falante e igual aquele ele queria distancia. Fuligem envelheceu o couro. Pediu para aposentar, pois preferia morrer a trocar o couro. Foram mais de quarenta anos com Fuligem. Está comigo ainda, guardado no meu quarto e pendurado em um local gostoso, onde ele pode ver a janela e os passarinhos cantarem no Pé de Oliveira que tenho no meu quintal.

       Hoje já Velho lembro-me dos meus amigos, companheiros de aventuras. Meu bastão com ponteira, meu chapéu de três bicos, meu lenço verde e amarelo, meu distintivo de lapela, meu lampião vermelho e Fuligem. Uma vez por semana vou no meu baú e mato as saudades. Não durmo sem rezar e eles me acompanham. Fizeram parte da minha vida. Disse para a Célia que quando me for, deixe-os ir comigo. Será uma alegria ter eles lá na minha estrela onde um dia irei morar. 

Nota – Meu amigo escoteiro sei que como eu já teve peças do uniforme que depois de envelhecerem guarda recordações. Uns guardam consigo para sempre, outros presenteiam e outros vendem. Não foi meu caso. Ainda vou ao meu bau, os tiro de lá e conto prosa dos tempos passados. Eles como eu guardam boas lembranças. Não sei se conversa com eles, se fala se ri e se conta saudades. Mas cada um sempre tem uma história para contar... E que história!

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