quarta-feira, 4 de abril de 2018

Historias que os escoteiros não contaram. E “Pigmeu” foi para o céu.



Historias que os escoteiros não contaram.
E “Pigmeu” foi para o céu.

                 Dona Salomé foi à parteira. Metade da cidade nasceu em suas mãos. Assustou quando viu o menino em seus braços. Branco demais, um tiquitito de gente, dois quilos se muito. Soninha amava o filho. Todos os dias rezava horas pedindo a Deus pela sua vida. Tosse, às vezes vermelhidão na pele e ela nem sabia o que fazer. As ervas não ajudavam. Ela e o marido foram a Resplendor consultar o Doutor Noel. Dizia que era muito bom.

                 - “Dona Soninha, seu filho sofre de Albinismo”. Sem um bom exame na capital, pela pele e a despigmentação da Iris e retina posso afirmar com certeza que ele sofre desse sintoma. Soninha não tinha a menor ideia do era isso. Voltou com suas rezas e todos os dias subia a escada da Igrejinha carregando uma cruz de madeira. Com quatro anos Ricardinho aprendeu a andar. Na vizinhança o apelidaram de “Pigmeu”. Pequeno demais. Ela não sabia o que significava.

                  Aos seis anos “Pigmeu” passava o tempo todo sentado na varanda de sua morada, um casebre feito de barro, bambu em forma de cruz e amarração de cipó com barro. Totinho seu marido foi quem construiu. Seleiro de profissão recebeu encomendas do Coronel Nonato para fazer seis arreios e cinco selas. Um dinheirão. – Soninha, pensei em ir a Resplendor ver o desfile. Dizem que vai estar lá a Banda dos Fuzileiros Navais. Soninha sorriu. Precisava de novos ares.

                 O desfile foi lindo. Quando os Fuzileiros passaram “Pigmeu” bateu palmas gritou e fez tudo para ir atrás. Logo em seguida vieram os grupos escolares, o tiro de guerra e os escoteiros. Garbosos, marchando com passo de ganso, um escoteiro sorridente parou em frente a “Pigmeu” e tocou seu clarim. Uma festa, Soninha nunca viu seu filho vibrante entusiasmado e ela acreditou que seu filho iria sarar. Deus iria esperar mais tempo de levá-lo para o céu.

                 Seis meses depois ela fazia o almoço e não ouviu uma “fanfarra” tocando. Não prestou atenção. Chamou “Pigmeu” para o almoço. Ele não apareceu. Correu até a rua não o viu. Perguntou, ninguém sabia. Chamou Totinho e rodaram, rodaram e nada. “Pigmeu” havia sumido! Se tivessem procurado no Seminário da Colina teriam encontrado. Soninha nunca poderia pensar que ele estivesse lá.

                  “Pigmeu” doente tinha uma audição de um “velho mateiro”. Os sons da fanfarra o guiaram até a rua principal na Praça do Arcanjo. Bateu palmas e deu risadas quando viu. Eram os escoteiros chegando com sua fanfarra, canções, mochilas nas costas bastão no ombro... Eram lindos demais. “Pigmeu” foi atrás. Ficou junto ao Pavilhão das Bandeiras onde seis meninos emproados seguravam todas desfraldadas. “Pigmeu” sorridente marchava com eles.

                  Nem viu para onde iam. Com suas passadas curtinhas às vezes tinha que correr para acompanhar. Chegaram ao Seminário, um local arborizado, próximo um riacho e muitos bambus para cortar. “Pigmeu” batia palmas em tudo que faziam. Barracas, mesas fogão e comida. Convidaram para participar. Deram ele uma caneca e um prato de esmalte. Gente, como sorria e vibrava “Pigmeu”.

                 A noite chegou. “Pigmeu” não arredou pé. Jantou, cantou sentou em volta do fogo. Chefe Polar pensou que seus pais sabiam. Devem morar nas redondezas! Hora de dormir... Recolher. Pigmeu arranchou na barraca do Monitor. Iriam ficar três dias e voltar para a capital. Três dias “Pigmeu” com eles. Não arredava pé. Chegou o dia final. No cerimonial colocaram um lenço em “Pigmeu”. Pediram para repetir a lei do lobinho, desceram a bandeira e foram embora!

                “Pigmeu” não chorou. Ficou sentado esperando eles voltarem. A noite chegou, “Pigmeu” dormiu e sonhou que estava com eles dormindo em suas barracas, comendo do seu farnel e cantando canções maravilhosas que só eles sabiam cantar. No dia seguinte Padre Mateus viu um vulto deitado próximo ao arvoredo onde os escoteiros acamparam. Foi até lá, viu um menino sorrindo. O chamou. Estava frio, sua vida agora era no céu. “Pigmeu” tinha morrido!

                Foi o próprio Totinho o pai quem me contou. – Vado, Soninha perdeu a razão, gritava, chamava por seu filho. Ele a levou para um Sanatório em Resplendor. Três anos depois voltou. Calada, taciturna, nunca mais sorriu, nunca mais cantou. Ainda vive sentado na cadeira de balanço na varanda que fiz. Ela ainda acredita que na esquina da Rua Peçanha um dia “Pigmeu” irá surgir!


Nota - Lá bem no alto do décimo segundo andar do ano vive uma louca chamada Esperança E ela pensa que quando todas as sirenas Todas as buzinas todos os reco-recos tocarem atira-se E — ó delicioso voo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada, Outra vez criança... E em torno dela indagará o povo: — Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!) Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: — O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA... (“Mario Quintana”).

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