sexta-feira, 4 de maio de 2018

Contos de Fogo de Conselho. Dona Lurdinha. (Uma historia baseada em fatos reais)



Contos de Fogo de Conselho.
Dona Lurdinha.
(Uma historia baseada em fatos reais)

                      Dona Lurdinha. Baixinha, cabelo preto curto, um sorriso encantador, fazia às vezes de bibliotecária da biblioteca da prefeitura da nossa cidade. Aprendeu ali. Não fez nenhum curso. Biblioteca pequena, não mais que uns dez mil livros, mas era onde fazíamos nossas pesquisas. Todos os alunos do Colégio Dom Bosco, do Colégio Salesiano e do Santíssimo Sacramento faziam ponto lá. Não só para ler os livros, mas para “paquerar” as meninas do Colégio das Irmãs.

                     Muitas vezes só descobrimos a importância de alguém quando ele não está mais presente. Desconhecemos se aquela pessoa tem sentimentos se chora e se ri. Ali naqueles quatros paredes Dona Lurdinha só servia para nos entregar os livros. Ninguém ajudava ou a via limpando a mesa, guardando livros depois que íamos embora. Achávamos que ela fazia a sua obrigação. Gostamos de sermos servidos, mas esquecemos de servir aos outros. Isto não faz parte dos escoteiros?

                       Aluno do Ginásio e Escoteiro eu sempre fui presente na Biblioteca. Muitas vezes toda a Patrulha. Na Enciclopédia Britânica ou a Barsa devorávamos tudo que se dizia sobre os escoteiros. Não havia muitos livros sobre Baden-Powell, ou melhor, quase nenhum. Dona Lurdinha sempre prestativa com um sorriso. Ela sabia nossos nomes e qual colégio estudávamos.

                     Um dia discutimos em Patrulha se BP falecera em Nairóbi ou no Quênia. Não sabíamos que um era a capital do outro.  Uma gostosa discussão em Patrulha. Lá fomos nós a biblioteca. Ela prontamente contou tudo sobre o Quênia e sobre Nairóbi. Ouvíamos com atenção. Ela também lia e conhecia seus livros de ponta a ponta.

                      Foi em uma segunda feira que encontramos a porta da biblioteca fechada. Escrito em uma folha de papel dizia que Dona Lurdinha falecera. Assustei-me com a notícia. Fui a casa dela. Uma multidão. Não sabia que era tão querida assim. Disseram que morreu de câncer. Que sofrera muito. Nunca vimos nada. Ela nunca demonstrou sentir dor só nos tratava com bondade e um sorriso. Todo o Grupo Escoteiro foi em peso ao seu funeral. Nunca vi tanta gente no Cemitério como naquele dia. Cantamos para ela a canção da despedida. Como sempre todos chorando. Mas no final uma palma escoteira, um bravo e um arrê com todos os chapéus sendo arremessados para o alto.

                         Uma semana depois colocaram lá o Senhor Carlito. Não era a mesma coisa. Apesar de educado perdia a calma com qualquer um dos jovens que frequentava a biblioteca. Passou a ficar vazia. Entrei lá um dia. Estava uniformizado. Tinha saído da missa, era coroinha. Olhei para todos os lados, as prateleiras, num canto o Senhor Carlito dormitava. Faltaram as moscas para acompanhá-lo. Deu-me uma enorme saudade de Dona Lurdinha.

                       Quando hoje me lembro dela, relembro a frase de Clarice Lispector: - Atitude é uma pequena coisa que faz a diferença. É isto mesmo. Tem pessoas que fazem a diferença. O escritor Manoelzinho da pequena Contagem em Minas escreveu: - “Para se fazer uma obra de arte, não basta apenas ter talento, não basta ter força, não basta ser inteligente, tudo o que fazermos na vida e uma obra de arte, mas para que uma obra de arte por mais simples que seja se torne um marco para posteridade em nossas vidas devemos executá-la com todo o amor existente em nossos corações porque a nossa vida em si será uma obra de arte que completara e embelezará a vida de quem estiver próximo da gente”.

                            Era verdade. Dona Lurdinha fazia a diferença. Sem ela a Biblioteca perdeu a graça. Agora nem mesmo paquerar as meninas do colégio, “mandar” ela pegar um livro era motivo de lembrança. Para nós ela era uma serviçal para nos servir. Nunca notamos nada, seu sorriso fazia falta, sua maneira leve de andar pela Biblioteca sem fazer barulho como se estivesse andando em um gramado nunca foi esquecido. Sua alma incorporou-se a biblioteca. Dona Lurdinha nunca foi escoteira. Nunca vestiu um uniforme, mas hoje eu a tenho como uma das maiores escoteiras que conheci.

                 Não importa o que ela tenha sido quem nós pensamos que ela fosse ou que desejava na vida, a ousadia em ser diferente reflete na sua personalidade, no seu caráter, naquilo que ela era. E foi assim que sem perceber as pessoas irá sempre se lembrar dela um dia.

Nota - Ela era do tipo que tinha mil e uma personalidades em apenas um minuto. Ela nos chamava de anjo. Ele nos protegia como se fossemos um. Ela passou por nossas vidas de meninos e nós nem sabíamos que ali tinha um anjo para nos ajudar. Hoje eu sei bem o que ela era difícil esquecer quem um dia deixou para nós um legado tão bonito resumido na palavra servir!

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