domingo, 20 de maio de 2018

Lembranças em volta do fogo. Chefe Heitor.



Lembranças em volta do fogo.
Chefe Heitor.

                - Chefe, o senhor é feliz? – Ele não me respondeu. A melodia de Paganini tocava The Best of Tchaikovsky. Seus olhinhos pequenos tentavam me ver e eu sabia que sua catarata eram sombras a perscrutar naquela saleta pequena quem era eu. – Sua voz em tom melodioso me disse: - Sabia que Paganini era capaz de tocar à espetacular velocidade de doze notas por segundo? Eu não sabia. Só tinha lido que foi o violinista italiano que revolucionou a arte de tocar violino. – Ele riu com meus pensamentos.

                  - Ele sempre me surpreendia. Meu Chefe, meu herói. - Pois é Paganini dizem seus críticos vendeu a alma ao Diabo em troca da perfeição musical. E eu? Ele completou. Eu não vendi para ninguém e você me pergunta da felicidade. Sabe que a vida me ensinou que chorar alivia, mas sorrir torna tudo mais bonito. Olhei para ele. No fim da vida, sozinho naquela saleta sem ninguém para o acompanhar. – Menino escoteiro! Não estou sozinho! Rosinha sempre esteve comigo e nunca me abandonou. – Quem era Rosinha? Lancei a pergunta no ar.

                - Não sabes? Minha eterna companheira que Deus a levou sem me perguntar. Mas eu entendi. Fazia parte do meu destino, escrito no meu livro da vida. Eu sempre soube que ser feliz não é viver apenas momentos de alegria. É ter coragem de enfrentar os momentos de tristeza e sabedoria para transformar os problemas em aprendizado. Eu recebia uma lição de vida.

                - Eu sabia que ele fora um grande Chefe, daqueles chamados Velho Lobo, que deu sua vida por um movimento que acreditou. – Dei minha vida? Ele parecia ler minha consciência. – Não dei e sim recebi. - E continuou - Quantas vezes nos acampamentos eu dizia para mim: - Chefe que o vento leve, que a chuva lave que a alma brilhe que o coração acalme que a harmonia se instale e a felicidade permaneça. Eu conversava com as arvores, com o vento, e as estrelas me contavam histórias. Isto não é felicidade?

                 – Mudei de tema. Chefe o Senhor ainda recebe muitos amigos escoteiros do passado? – Ele sorriu. Tentou levantar da cadeira e não conseguiu. Disseram-me que passava dos noventa anos e que sempre fora Escoteiro desde os seis. – Ele tentou me ver através daqueles olhos opacos, seus ombros caídos tentavam se levantar para dar uma aparência mais digna e garbosa. – Amigos? Ele sempre parecia adivinhar o que eu pensava. – Menino Escoteiro amizade verdadeira não é ser inseparável. É estar separado, e nada mudar.

                  - E continuou: - Eu entendo. Cada um tem sua vida. Não podemos fazer da nossa a deles. Se a vida te vira do avesso só para provar que a felicidade vem de dentro para fora temos que aprender que as crises não afastam os amigos. Apenas selecionam. Nada mais havia a dizer. – Ele em tom fraterno me disse: Me ajude a vestir meu uniforme? – Assustei. Por quê? Perguntei. – Saudades. Muitas. Ainda quero me ver dentro do meu verdadeiro eu. Um Escoteiro tem de aprender que ser forte é a única escolha.

             O espelho mostrava um homem cuja idade era demais para viver. Olhinhos opacos, sulcos na face, mas ele fazia questão de colocar seu chapéu galhardamente. Admirei seu estilo do lenço. Ele se virou olhou dentro dos meus olhos e disse: - Sempre Alerta menino Escoteiro, lhe dedico minha saudação, meu aperto de mão. Ser humilde não é ser menos que alguém. É saber que não somos mais que ninguém!

              Parti com olhos cheios de lágrimas. Conheci alguém que sempre sonhei em ser. Agora eu sabia que minha vida seria outra. Eu sabia que a bondade é a língua que o surdo pode ouvir e o cego pode ver. Chefe Heitor era meu herói. Como a blefar em minha mente, ele na porta escorado em uma bengala falou calmamente: - Para toda malícia, tem uma inocência. Para toda chuva, tem um sol. Para toda lágrima, tem um sorriso. Seja quem você é e viva feliz! Os últimos acordes do violino de Paganini tocavam harmoniosamente no lusco fusco daquela tarde inesquecível.

Nota – Assim como gosto do jovem que tem dentro de si algo do velho, gosto do velho que tem dentro de si algo do jovem: quem segue essa norma poderá ser velho no corpo, mas na alma não o será jamais. Cícero.

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