sexta-feira, 18 de maio de 2018

Lendas escoteiras. O Escoteiro Mulçumano.



Lendas escoteiras.
O Escoteiro Mulçumano.

             Abba Fayard nasceu em Zareh Sharan uma pequena cidade do Afeganistão. Recitava a Shahada, pois ensinaram a ele que não há outro Deus que não Alá e Maomé. Fazia as preces de manhã antes de ir para a escola e as preces do meio dia. Ao retornar ao anoitecer as preces da noite. Ia com sua família a mesquita toda sexta. Fazia as preces em língua árabe, sobre um tapete e voltado para a Meca. 

             Seu pai e seu tio o ensinaram a dar uma esmola legal. Eles sempre lhe davam uma moeda. Sua família fazia frequentemente doações para favorecer o Islã, construir mesquitas, escolas corânicas e beneficentes. O Ramadã, o jejum anual era cumprido à risca. Seu pai exigente não perdoava. Sempre sonhou em fazer uma peregrinação a Meca e por ser pequeno seu pai dizia que só quando crescesse.

             Aprendeu que ser muçulmano é acreditar num só Deus, incomparável, invisível, indivisível, poderoso, criador de tudo e de todos, não tem filho nem pai, não tem parceiro no seu reino. Ele acreditava piamente em tudo. Quando foram a Mesquita no sábado, ele foi ao banheiro do lado de fora. Quando saiu a Mesquita explodiu e morreram todos os presentes. Abba Fayard chorou a perda dos pais por anos.  

             Um amigo do seu pai contou que ele tinha um tio morando no Brasil. Passaram um telegrama e seu tio veio buscá-lo. Morava em Morro Vermelho uma pequena cidade no interior de São Paulo. Tudo era estranho para ele. A língua portuguesa era difícil e demorou anos para aprender. Não fez amigos, pois se achava um forasteiro entre eles. Não reclamava de sua nova família. Seu tio era um homem bom e sua tia também.

             Só no ano seguinte começou a frequentar a escola. Quase não acompanhava. Com seus doze anos não tinha amigos. Quase não iam a Mesquita. Seu tio era diferente do seu pai, mas se achava um bom mulçumano e seguia a risca sua religião. Um dia seu tio o levou a um desfile na cidade. Disse que era a data magna do país. O Sete de Setembro. Ele adorou os meninos e meninas uniformizados de caqui e com um chapelão lindo. Não tirou os olhos deles. Pediu ao tio para ir com eles marchando. Seu tio riu e balançou a cabeça dizendo sim. – Não demore, eles são escoteiros.

             Descobriu onde se reuniam e o que faziam. Voltou outros sábados. Um dos escoteiros o convidou: - Quer ser Escoteiro? Abba Fayard ficou vermelho porque nunca ninguém dirigiu a palavra a ele. Claro que queria, mas sendo muçulmano ele não sabia se iriam aceitá-lo e se o seu tio ia deixar. Dias depois contou para seu tio. Esperou a hora e o momento certo para comentar. Ficou feliz quando seu tio disse: - Porque não? Iremos no sábado conversar com o Chefe. Explicou ao Chefe que eram muçulmanos, tinham normas, horários e dias certos para cumprirem suas obrigações com Alá. O Chefe concordou, mas deveria antes conversar com os demais chefes.

             Telefonaram para ele dizendo que foi aceito. Abba Fayard ficou feliz. Seu tio foi junto para os transmites legais. Não se esqueceu de dizer para ele seus horários e a prece às dezoito horas. – Em língua árabe, ajoelhado e voltado para a Meca. Neste horário. As seis Abba pediu permissão ao Monitor. A Patrulha parou para ver. Ele com uma bussola viu em qual direção estava a Meca. Ajoelhou e começou a rezar. A Tropa surpresa. O Chefe chamou a todos e explicou que Abba Fayard era muçulmano e sua religião tinha rituais que nenhum deles poderia deixar sem fazer.

              No sábado seguinte a patrulha procurou Abba Fayard e pediu se podia rezar com ele. Ele só pediu que levassem a sério, pois esse ato não era uma brincadeira.  – Um bom muçulmano acredita em todos os Profetas de Deus, desde Adão até Muhammad incluindo Jesus. Acredita nas escrituras de Deus, nos seus anjos e que haveria um juízo final para prestar contas das ações praticadas.

               Na primeira vez foram oito escoteiros. Na segunda quase toda a tropa. As preces eram simples e não levavam mais que dez minutos. O Chefe da Tropa não se preocupou. Acreditava que seria bom todos conhecerem outra religião. A participação tomou vulto quando os lobinhos quiseram participar. O Pároco ficou sabendo. Foi lá e se horrorizou com o que viu. Chamou o presidente e o Diretor e proibiu. Nas missas contou o que viu e disse para aqueles pais dos escoteiros que eles não deviam participar.

             O tio de Abba Fayard o aconselhou a sair. A cidade inteira não entendia o que era ser muçulmano A maioria era católica. Abba Fayard se sentiu fora do ninho. Chorou por muitos dias. Amava o escotismo, não queria abandonar seus amigos, mas ele amava sua religião. No sábado avisou o Chefe que não voltaria mais. A patrulha ficou revoltada. Um absurdo disseram. Discutiram em Corte de Honra e no Conselho de Chefes. A maioria a favor de Abba Fayard, mas se sentiram sem ação. O Diretor Técnico convocou extraordinariamente uma Assembleia do Grupo. Dos oitenta e seis votantes setenta foram a favor da sua permanência.

              Uma comissão foi conversar com o padre e ele irredutível. Procuraram o Bispo e ele disse que era problema do padre. Em um domingo o Grupo Escoteiro quase completo saiu em passeata pelas ruas da cidade. Cartazes com dizeres explicavam. – Abba Fayard tem direitos dizia um – Abba Fayard é muçulmano e nosso irmão. A maioria dos católicos ficaram contra o pároco.

               O assunto foi parar nos jornais. O Bispo preocupado Voltou atrás. Agora dizia que os muçulmanos eram bem vindos. Num ato que ninguém esperava foi à mesquita rezar com eles. O Padre mudou. Abba Fayard voltou ao grupo. Recebido com abraços por todos. O Prefeito querendo mostrar caridade dou um local para a futura sede. Ninguém amigo de Abba Fayard mudou de religião. Quem era católico continuou católico. Quem era evangélico continuou evangélico.

               Um menino, uma patrulha, uma tropa e um Grupo Escoteiro mostrou que existe lugar para todos no escotismo. O final da história? Realmente não sei. Não me contaram mais nada, mas será que existe algum mais para contar? Eles sabiam que o escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros. Uma lição de vida. 

Nota – Uma pequena história. Verdadeira? Cada um pode analisar sim ou não. Será que você leitor escoteiro daria seu aval? Afinal somos ou não somos do mesmo sangue da mesma raça que Baden-Powell nos deixou como herança? Somos ou não somos amigos de todos e irmãos dos demais escoteiros? Você pode a palavra final.

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