terça-feira, 9 de abril de 2019

Lendas Escoteiras. A árvore da colina.




Lendas Escoteiras.
A árvore da colina.

Prólogo: - Quem era? Nunca soube. Só sei que ele veio do céu. Porque eu não sei. Eu era apenas um Escoteiro a ir para seu acampamento. Meu café ele tomou sorrindo sinal que não era ruim. Nunca contei esta história para ninguém. Quando partiu meu mundo se transformou. Sabia que agora a paz morava em mim. A harmonia e o amor reinavam. A paz de um sorriso predominava. Agora eu sabia que naquele dia, naquela Árvore da Colina, Jesus me deixou entrar em seu coração!  

                - Eu só o vi uma única vez na vida. Na verdade foi um dia especial, não me perguntem por quê. Notei sua figura surgindo na estrada do Alencar, a pé, com um cajado simples, mas com passadas belas sem se mostrar cansado. Ele não me disse quem era e nem eu perguntei. Quando se aproximou de mim senti um brilho em sua figura e inexplicavelmente ele se transformou. Juro que ao longe estava com uma bata branca e ali na minha frente estava esplendidamente uniformizado como escoteiro. Como ele podia fazer aquilo? Era mágico? Se foi um truque era perfeito. Não usava o chapéu. Ele com certeza não queria tirar aquela aura brilhante de sua pose Badeniana. Quem seria? Ele sorria para mim, um sorriso gostoso, dentes alvos olhos negros, cabelos castanhos compridos.

                  Parei ali para descansar um pouco da minha jornada e fazer um café. Precisava. A Árvore da Colina já era minha velha conhecida. Pequena, mas com uma folhagem com uma sombra invejável. Não havia nascente, não havia rios e nem tampouco regatos por perto. Somente a árvore para nos dar o descanso devido. Pensava em chegar ao acampamento da patrulha ao entardecer. Combinei com eles quando terminasse meu trabalho. O destino não era longe. Após a curva do Falcão se avistava a mata pequena, a cascata e o bambuzal. Tirei a mochila, pendurei meu chapéu em um galho e duas achas facilitarem o Tropeiro que iria fazer. Na mochila tinha café e pó. Meu canecão militar serviria para esquentar a água.

                  Levantei quando ele chegou e disse bem vindo! Ele sorria. Não era bonito, mas tinha alguma coisa especial que encantava. Em vez de sapatos usava uma sandália. Calado se assentou a sombra junto ao tronco. Fechou os olhos e parecia rezar. Passei o café e ofereci a ele. Olhou meu cantil, estava cheio pela metade. Passei para suas mãos e ele bebeu devagar, parecia sorver o líquido com carinho de quem tem sede. Tomou o café me olhando nos olhos. Minha caneca de esmalte parecia brilhar em suas mãos. Fechou os olhos e dormiu por alguns minutos. Acordou sorrindo e levantou. Colocou a mão em minha cabeça e disse – “Que a paz esteja convosco”. Partiu sorrindo acenando com a mão. Ao virar na trilha notei que estava com seu cajado e a bata branca.

                   Sozinho na sombra da Árvore da Colina pensei. Quem seria? De onde veio e para onde iria? O sol ia se por na Montanha do Cavalo. Hora de partir. Ainda havia mais duas horas de jornada. Conhecia o caminho. Limpei o fogo, joguei uma pitada de água do meu cantil nas brasas, mochila nas costas e parti. Não olhei para trás. A Árvore da Colina tinha o dom de não deixar ninguém partir. A noite chegou mansa e calma. Meu caminho estranhamente era claro, uma estrela no céu jorrava raios brilhantes na trilha. Nunca tinha visto nada igual. Do alto da Colina avistei a curva do Falcão. Estava perto. Meus pensamentos giravam entre chegar e lembrar-se daquela figura tão simples, com um sorriso inesquecível e com uma áurea brilhante que me encantou para sempre.

                     Nunca soube quem era. Não perguntei. Acho que ele sabia que um dia eu iria lembrar-se dele e saber que ele veio do céu. Porque eu não sei. Eu era apenas um Escoteiro a ir para seu acampamento. Meu café ele tomou sorrindo sinal que não era ruim. Nunca contei esta história para ninguém. Eu sabia que ao partir meu mundo se transformou pra sempre. Sabia que agora a paz morava em mim. A harmonia e o amor reinavam. A paz de um sorriso predominava. Agora eu sabia que naquele dia, naquela Árvore da Colina, Jesus me deixou entrar em seu coração!  

E que a paz esteja sempre convosco!

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Lendas Escoteiras. A escoteirinha e a Árvore da Vida.




Lendas Escoteiras.
A escoteirinha e a Árvore da Vida.

Prólogo: - As pessoas quando acreditam sempre tem aquilo que desejam. A Escoteirinha sabia que um dia teria seu desejo realizado. Sonhe, sonhe muito Escoteirinha! Acredite em seus sonhos. Alguém não disse que o futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos?    

                            Conta uma lenda muito antiga, que existia em uma pequenina cidade, uma linda árvore que foi plantada em frente ao coreto da praça. Ela sempre atendia aos pedidos dos meninos e meninas que sentavam em sua sombra e pediam com bondade e lealdade sem mentir. Nunca! Ninguém sabia se era um abacateiro, ameixeira, ou mesmo uma árvore comum. Interessante. Nunca deu flores. Nunca floriu na vida. Talvez esta tenha sido sua maior tristeza. Não atendia aos adultos. Apesar de ser uma velha árvore ela sempre se sentiu como uma jovem e sabia que na mente dos jovens existia a pureza, os sonhos eram mais azuis e a vida era mais bela.

                                      Nem sempre os jovens lhe pediam o que ela poderia oferecer. Ficava triste com isto e a sua maneira tentava ajudar. Conhecia quase todos que um dia sentaram em sua sombra. Sentia-se alegre e feliz quando tinha companhia de um deles. Mais ainda quando podia atender seus pedidos e ver em seus rostos a alegria que ele podia dar.

                              Em uma tarde quando o sol ainda não havia se escondido atrás das montanhas, antes mesmos dos pardais fazem sua algazarra antes do sol se por e procurarem seu ninho, ela viu pela primeira vez uma menina, pequena, miúda, rostinho simples, e com um lindo uniforme de Escoteira. Ela nada disse e voltou muitas vezes para usufruir de sua bela e linda sombra. Tentava falar com ela, mas não conseguia. Todos os sábados ela passou a visitar a Arvore da Vida. Ficava até o escurecer. Não pedia nada, só a olhava e sorria.

                               A Árvore da Vida gostava de sua companhia. Pensava e pensava... Será que ela não tem sonhos? Gostaria tanto de ajudar! Quando a escoteirinha se aproximava parecia que o dia seria outro. Mais alegre mais feliz. Um sábado ela conseguiu entrar na mente da escoteirinha e espantada viu o que ela pensava. Ela se preocupava com a Árvore da Vida, isso foi demais. – Porque você não tem flores? Não tem fruto? Á Árvore da Vida se emocionou. Ninguém nunca se preocupou com ela e aquela escoteirinha se preocupava.

                           Foi então que há escoteirinha passou a levar uma sacola de esterco e em uma das mãos uma pequena lata com água, e colocava aos pés da Árvore da Vida. Á Árvore da Vida chorava de alegria. A escoteirinha dizia para ela: – Árvore, vou lhe chamar de Árvore da Vida e do amor. Você vai reviver. Você terá flores e será a única Árvore da Vida no mundo que vai dar todas as espécies de frutos.

                      A Árvore da Vida chorava de emoção. – Como? Pensava. Ninguém nunca ninguém se preocupou se ela era uma árvore comum, se era uma árvore que pensava. Ninguém falou com ela a não ser para pedir. Sim, ela gostava de ouvir os sonhos e os pedidos da meninada. Ela sabia que muitos meninos um dia descansaram nas suas sombras e agora uma simples escoteirinha se preocupava com ela.

                        – Mas um dia, sem nuvens e parecendo que ia chover ela viu a escoteirinha sentar-se e encostar a cabeça em seu tronco e a Árvore da Vida viu que ela chorava. A Árvore da Vida ficou triste. Muito triste. Viu que a Escoteirinha em seus pensamentos chorava, pois não iria a um grande encontro que os escoteiros faziam e que chamavam Jamboree. Seus pais não podiam pagar. O quer fazer? Como ela podia ajudar a escoteirinha? Á Árvore da Vida soprou em sua fronte, uma brisa fresca, perfumada de suas folhas verdes e a escoteirinha dormiu.

                   A escoteirinha acordou em um lugar lindo, com arco íris de todas as cores. Azuis, amarelos, verdes, uma relva cheia de flores silvestres e ela viu ao longe um enorme acampamento. Muitas barracas e milhares de escoteiros e escoteiras de todo o mundo. Assustou, pois ao seu lado a Arvore da Vida estava segurando suas mãos e dizia – Vamos minha amiga. Você vai participar do primeiro Jamboree Escoteiro no mundo! Vai conhecer seu fundador. E a Escoteirinha sorria. Um sorriso que poucas escoteiras sabem dar.

                    Eram milhares de jovens, todos segurando sua mão e dizendo “Sempre Alerta” linda Escoteirinha! Era a maior felicidade que ela podia alcançar. Viu alguém batendo em suas costas se voltou e viu que era o fundador do escotismo. Abraçou-a e disse - Minha jovem escoteirinha, acredite, você é quem faz seus sonhos e os transforma em realidade. Nem todos podem ter o que querem, mas devem lutar para ter. Acredito em você. E você deve acreditar na sua promessa!

                 Quem tivesse passado ali no coreto naquela tarde viu que o sol apareceu, nuvens brancas se formaram e os passarinhos começaram a cantar. Em pouco tempo centenas de habitantes da cidade se aglomeraram, pois deitada encostada no tronco da Arvore da Vida que a maioria dos habitantes adultos não dava valor, uma Escoteirinha sorria, em volta dela lindas borboletas de todas as cores sobrevoavam em sua volta, os pássaros cantando nos galhos próximos.

                    A Árvore da Vida parecia adormecida. Acordou junto com a Escoteirinha e viu que suas folhas estavam floridas, e dos galhos frutos doces e maduros. Incrível! Nunca viram nada parecido. Uma brisa gostosa soprava trazendo perfumes de flores silvestres, e um papagaio verde e amarelo pousou em seu ombro e cantava – “Ela foi para o Jamboree, ela foi para o Jamboree!”.

                 A história chega ao fim.  Ela sonhou.  Amou o sonho e a transformação da Árvore da vida. Ela não foi ao jamboree real, mas viu o fundador e todos os seus amigos que o ajudaram a criar o escotismo. Ela sabia que um dia iria trabalhar e iria participar de um Jamboree, mas nunca seria como aquele. Ela esteve lá. E a Escoteirinha daquele dia em diante sempre trazia água para a Árvore da Vida. E a Árvore da Vida que existiu em seus sonhos nunca mais a abandonou.

domingo, 7 de abril de 2019

O último por do sol. Uma história, uma lenda escoteira.




O último por do sol.
Uma história, uma lenda escoteira.

Prologo: - Faz anos... Muitos... Uma pequena fogueira, chefes cantantes e eis que um se põe a chorar. – Todos preocupados. Chefe Thadeu não se fez de rogado e começou a contar uma das histórias mais tristes que já ouvi. Naquele dia chorei. E até hoje quando conto a historia ainda choro. Assim ele começou:

                  - Eu era Chefe de uma tropa Escoteira perto da minha casa lá no Bairro do Berilo. Gostava de ir a pé. Era uma boa tropa. Eu tinha bons Monitores que me ajudavam muito. Não era um grupo grande, mas com uma união formidável. Havia um escoteiro que era especial apesar de não ter preferencia, pois todos eram meus preferidos. Waldo era diferente. Nos seus quatorze anos tinha todas as qualidades que se pensava em ter “Espírito Escoteiro”. Na Patrulha Quati Waldo era um amigo e conselheiro de todos. Não era o Monitor, mas cativava pela sua ponderação, pelo seu exemplo não só na tropa como na escola e em sua vida familiar. Eu me acostumei quando aparecia algum problema chamar o Waldo. Tinha um jeitinho próprio de conversar que conquistava qualquer um que estivesse ao seu lado.

                      Foi em um sábado de maio ao chegar à sede não vi o Waldo. Era o primeiro a chegar e o último a sair. Perguntei a Tonho seu Monitor se ele sabia de alguma coisa. Não sabia. Pensei comigo que ele devia ter um motivo muito forte para ter faltado. Liguei para ele a noite. Quem atendeu foi sua mãe. – Chefe, o melhor é o Senhor vir aqui em casa. Não dá para falar por telefone. Fiquei preocupado. O que seria? A Mãe dona Aurora e o pai seu Rodolpho me receberam na porta. Estavam tristes e taciturnos. – Chefe, falou dona Aurora, Waldo me pediu para ele mesmo dizer. Acho que o Senhor deve ficar prevenido. A notícia vai chocá-lo muito. – Vi que lagrimas caiam dos olhos de ambos. O Senhor Rodolpho tinha a voz embargada.

                       Subi ao quarto de Waldo. Me esperava sentado na cama. Senti nele um sorriso triste e sua voz baixa e rouca. Seus cabelos estavam caindo e aquilo me assustou. – Olá Chefe, Sempre Alerta! - Ele tinha ficado em pé. Dei-lhe um aperto de mão e um abraço. – Waldo, todos estão sentindo muito sua falta e as saudades são grandes. Ele sorriu. – É Chefe, vai ser difícil minha volta. Vou direto ao assunto. Melhor ser franco com o Senhor. Estou com Leucemia no cérebro. O médico disse para minha mãe que eu tenho no máximo quatro meses de vida. - Foi como se eu tivesse levado um soco, uma pancada. Fiquei chocado. Sentei em sua cama. – Calma Chefe, isto acontece, eu fui o escolhido por Deus desta vez e sorriu. – Meu Deus! Pensei. Que calma deste garoto! Incrível! – Olhe Chefe, eu convenci minha mãe. Ela e meu pai não queriam, mas eu gostaria antes de partir para o céu ir ao acampamento do próximo mês no Vale dos Sinos.

                        – Mas como Waldo? Você mal fica em pé e nem pode andar direito! – Eu sei Chefe, mas eu preciso. Não posso partir sem ver o último pôr do sol nas escarpas cintilantes. - Me lembrei do que ele falava. O Pôr do sol nas escarpas era maravilhoso. O mais lindo que tinha visto. Eu nunca pensei que ele pudesse lembrar e nem eu mesmo lembrava mais. Olhei para Waldo. Não podia negar aquele seu pedido. Se ele queria eu não iria dizer não. Combinei com seus pais de passar lá no dia do acampamento pela manhã para pegá-lo. Não disse nada para a tropa e nem para os chefes. Insisti para que ninguém faltasse. Queria dar a ele uma despedida inesquecível. Seria o maior Fogo de Conselho para ninguém mais esquecer. – Passei lá no dia determinado. No acampamento ele insistiu em ficar com sua Patrulha. Estava tremendo, fraquejava, mas dizia que iria dormir na barraca da Patrulha.

                       Poderia ter armado uma barraca só para ele, mas foi enfático em ficar na patrulha e não queria dormir sozinho. – Chefe, é câncer! E sorria. Nada mais que o cancerzinho idiota. Não vai ter perigo para ninguém. Ele não é contagioso! – Meu Deus! Que Escoteiro era aquele? Waldo de quatorze anos me dando lição? Eu tinha levado uma cadeira de praia e ele recusou. O dia que ele quisesse eu o levaria em minhas costas até as Escarpas Cintilantes. – Chefe vou fazer a minha de madeira, devagar, mas vou fazer. A Patrulha viu que ele estava doente. Disse para ela que ele estava se recuperando de uma forte pneumonia. Ele quase não participava das atividades, mas ajudava na cozinha. Fez uma bela cadeira. Sentava e fechava os olhos. Seus lábios entreabertos pareciam sorrir. No penúltimo dia vi que ele respirava com dificuldade. – Waldo eu vou levá-lo para sua casa. – Chefe nem pensar. Me leve agora até as Escarpas Cintilantes. Meu tempo está acabando.

                            Fui sozinho com ele. Em principio foi andando depois o vi fraquejar. O coloquei no colo. Uma palha de tão magro. Em menos de meia hora chegamos. Sentei junto com ele na pedra onde se avistava todo o Vale dos Sinos. Um espetáculo a parte. Deviam ser umas cinco e meia da tarde. Chefe eu posso fazer meu último pedido? Claro meu amigo. Claro. - Quando eu estiver indo para a terra dos meus ancestrais no campo santo, eu não quero que cantem a canção da despedida. Cantem todas aquelas alegres que sempre cantamos para que eu tenha boas lembranças. Não disse nada. Não havia nada para dizer.

                          O sol foi aos poucos se escondendo atrás das montanhas do Vale dos Sinos. Waldo sorria. Não tirava os olhos do horizonte. Eu engasgado. Danação! Eu não era como ele. Estava difícil aguentar. Queria chorar e não podia. Não podia chorar naquele instante. Não podia. Eu sabia que eram seus últimos momentos. Waldo me olhou. Piscou os olhos e me disse – Chefe foi a maior alegria da minha vida. Vou levar para sempre esta lembrança. Obrigado Chefe. Obrigado. Foi aos poucos deitando no meu colo. Esticou suas perninhas secas. Waldo morreu sorrindo no meu colo naquele anoitecer frio de junho. Ficou ali imóvel como se estivesse dormindo.

                    Fiquei ali chorando por muito tempo abraçado ao corpo de Waldo. Alguém bateu no meu ombro. Olhei e não vi ninguém. Aonde o sol se punha vi uma nuvem branca brilhante que logo desapareceu. Desci as escarpas com ele no colo. Uma eternidade até chegar ao acampamento. Uma dor profunda. Toda a tropa chorava. Voltei para a cidade. Meus olhos vermelhos e as lagrimas não paravam de cair. Meu coração batia sem parar. Minha vontade não era minha. Naquele momento achei que eu também tinha morrido com o Waldo. No dia seguinte estávamos todos na sua exéquias. Cantamos ao som de um violão a Stoldola, Avante Escoteiro, Lá ao longe muito distante e outras. Todos cantavam com vigor escoteiro. Muitos choravam. Eu também. Não dava para segurar.

                   Os anos passaram. Nunca me esqueci de Waldo. Nunca me apareceu em sonhos. Nunca falou comigo em espírito. Deve estar feliz, muito feliz em Capella, a terra dos seus ancestrais. - Chefe Thadeu parou de contar. Chorava copiosamente, eu e os outros com os olhos cheios d’água tentávamos raciocinar. Sem condições. Ninguém falou nada. Um silêncio profundo e ali ficamos até o raiar do dia...

sábado, 6 de abril de 2019

Jonny Bob. O escoteirinho sabido.




Jonny Bob.
 O escoteirinho sabido.

                   Os pais me pareceram snobes quando vieram fazer sua inscrição. Quando disse que eles teriam que fazer um pequeno curso de quatro horas para o filho ser aceito foi um Deus nos acuda. A mãe levantou e pegou o filho pela mão dizendo que não ia se submeter aquilo tudo. Ela tinha mais o que fazer. Ele gritou com a mãe e o pai. – Não sou idiota disse. Não queria vir aqui foi vocês que insistiram. - Agora aguentem e aceitem as normas! Nossa! Eu pensei. Ele teria quanto anos? Oito? Nove? O pai ficou calado. Vamos reunir em família. Foram lá fora e voltaram. – Tudo bem Chefe, que assim seja. No dia marcado eles apareceram. Fizeram o curso e foram apresentados ao grupo escoteiro no cerimonial. O filho recebido pela Aquelá. Todos os lobos apertaram sua mão. Ele parecia alegre. Ou pelo menos parecia.

                  Três reuniões depois Martinha a Chefe veio reclamar comigo. – Olhe Chefe, o sabe tudo está acabando com a Alcateia. Quer dirigir mandar decidir. Já reuniu duas vezes os lobos e disse que eles têm direitos. Não são obrigados a obedecerem tudo do Chefe. Que eles devem ler os Estatutos do menor e do adolescente. É difícil dialogar com um jovem como ele. Pela arrogância dos pais sabia que teria dificuldade. Soube que ele era superdotado. Estava liderando a Alcateia com nove anos. Conversei com o Chefe da tropa. Vamos fazer uma experiência? O Chefe ficou assim e assim. Nove anos? Tudo bem, vamos tentar. Vai para a Coruja, o Monitor é mais velho e durão. No programa a tropa ia acampar três semanas depois. O Monitor disse ao Chefe que ele não devia ir. Estava muito verde ainda.

                    Jonny Bob me procurou. Precisavam ver sua pose ao falar comigo. Exigia seus direitos. Nove anos o danado e pensei que quando crescer ele será um barril de democracia. – Tudo bem, você vai. Mas se chorar lá não vai voltar. Só no final do acampamento. Ele riu – Chefe sou homem e sou macho. Sem decidir minha vida. Chegou com uma mochila e apetrechos que tomavam todo seu corpo. Ele sumiu atrás da tralha que carregava.  Disse a ele que o ônibus nos deixaria quatro quilômetros do local do campo. Ele riu. Chefe precisa me conhecer melhor. Não sou de desistir nunca. Nunca pedi ajuda e nunca irei pedir. Sei o que faço. Dito e feito, dois quilômetros e ele para trás, três e ele sumiu de vista na curva da estrada. O Monitor voltou para ajudar.

                       No primeiro dia ele corria para todo lado. Parecia mesmo ser um jovem esperto com seus nove anos. Tudo aconteceu à noite após o jantar. Não gostou da janta. Procurou-me para levá-lo até um restaurante a beira da estrada. Eu estava com meu automóvel. – Nem pensar Jonny Bob. O que todos vão comer você também vai. Chefe eu não comi nada! Porque não quis. Quem sabe o cozinheiro deixou uma porção para você na panela? Dito e feito, ele começou a gritar, a chorar e deitou no chão pegando a maior manha. Passou a noite toda chorando. Não o levei e nem mandei recado aos seus pais. Boi bravo é assim que aprende pensei. Certo ou errado ele ficou lá os quatro dias. Parou de gritar e chorar. No retorno vi que sua mochila diminuiu. Falei para o Monitor. Ele jogou fora boa parte de tudo em um barranco para diminuir o peso.

                    Na chegada seus pais estavam lá esperando. Ele desceu do ônibus e calado foi com a patrulha para guardar a tralha da patrulha. Estava uma luva agora. Obediente e disciplinado. Na semana seguinte seu pai me procurou - Chefe, meu filho mudou e para melhor. Parece outro menino. O que houve? Não entrei em detalhes. Disse que o escotismo é trabalho em equipe. Aprender a fazer fazendo. Ele aprendeu. – Seu pai agradeceu. Depois fiquei sabendo que era um alto executivo na Ford. Sua mãe advogada em um dos melhores escritórios de advocacia da capital. Os anos passaram e o escoteirinho lá conosco.

                       Três anos depois fui morar em outro bairro. Um grupo próximo a minha casa balançando para não fechar. Precisava de ajuda. Mudei de grupo. Jonny Bob eu o vi nove anos depois em uma atividade regional. Era outro, precisavam ver. O Que o escotismo pode fazer não? A vida é assim mesmo. Acampamento é para os jovens aprenderem a lutar pela vida. Dar cobertura, passar a mão na cabeça, chamar papai e mamãe para leva-lo não é o certo. “Comigo não Mane”. Risos. Bem casos são casos. Cada um tem seu estilo. Este deu certo graças a Deus!

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Contos de fogo de conselho. Lígia.




Contos de fogo de conselho.
Lígia.

Ouvia sem ser indiscreto atrás do biombo da sede, a Guia dizer para sua Chefe: - Não sou capaz. Tentei e não consegui – Ligia, você é capaz de coisas que nem imagina. Quem diria a muitos anos atrás que algum dia o homem seria capaz de voar? Quem arriscaria a dizer que o ser humano conseguiria pisar na lua? Tudo é impossível até alguém sonhar mais alto.

– Um silêncio surgiu no ar. Nem ela e nem a Chefe nada diziam. O que teria acontecido? Prendi a respiração. Eis que a guia falou baixinho quase sussurrando: - Chefe não tenho ninguém, minha mãe não me entende e eu me sinto só, procuro carinho e não tenho, procuro amor e não encontro. 

Dialogo difícil pensei. Chefes são assim, fazem jogos e muitas vezes não sabem explicar as regras do jogo. Afinal nem todos estão preparados para resolver temas individuais além de suas possibilidades normais. – Mas eis que a Chefe respondeu baixinho: - Quando uma pessoa transforma seu sonho em um objetivo de luta com determinação, está dando o passo certo para conseguir. Muitos duvidarão inicialmente se o plano for ousado demais, mas a fé é mais forte que qualquer receio e quem não se deixa amedrontar ganha sempre alguma coisa.

- Novo silêncio. O que a Guia pensava? Eu mesmo ainda não tinha colocado ordens nos meus pensamentos.

Não ouvi soluços e nem pedidos de perdão. Ligia parecia ter dado um breve sorriso. Sua Chefe sorriu também. Ambas saíram abraçadas para a reunião que ia começar. Eu escondendo minha intimidade de presença olhei ambas e o olhar de felicidade que portavam. Pensei comigo o quanto vale um bom conselho. Quanto vale uma confiança. Eu sabia que por pior que fizermos chegaremos ao objetivo final.

Nunca duvidei da capacidade em superar as melhores expectativas. Temos sempre que ser o primeiro a acreditar para conquistar algo de valioso. Só não conseguirá alcançar determinada meta se não se propuser a lutar por ela. Parta e corra pela sua felicidade, sem receios nem hesitações. Aconteça o que acontecer, a maior vitória será saber que deu o seu melhor em todos os momentos da sua batalha.

Fui também para a reunião da minha tropa mais alegre, mais confiante. Ao longe Ligia sorria junto a sua patrulha e eu ali bem distante sorria também.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Na beira do caminho tinha uma flor... Tinha uma flor na beira do caminho. Plagiando Carlos Drummond de Andrade.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Na beira do caminho tinha uma flor... Tinha uma flor na beira do caminho.
Plagiando Carlos Drummond de Andrade.

Prólogo: - Vai Escoteiro, vai para o seu acampamento. Era só uma flor, uma flor vermelha linda a beira do caminho. E viu que na beira do caminho tinha uma flor, tinha uma flor na beira do caminho, tinha uma flor, no meio do caminho tinha uma flor...

                       Um sol do meio dia. Quente, fervendo o sangue do Escoteiro caminheiro. Mal dava para olhar a frente de tão quente... O chapéu de abas largas tentava segurar os raios solares. A camisa ensopada. Ele pensou em tirar o lenço e a camisa. Ficar com a camiseta que estava por baixo. Mas esqueceu desta vontade. Aprendeu a andar uniformizado onde fosse. Não importa se tinha alguém a vê-lo ou não. Há horas esperava encontrar uma arvore frondosa, a beira do caminho. Nada.

                      A estrada era de terra e quase não cabiam dois veículos passando um pelo outro. Ele sabia que ainda tinha chão para percorrer. Não fora com sua patrulha pela manhã. Prova de matemática. Um mais dois cinco mais oito e ele aprendeu a tabuada assim nas jornadas da vida. Agora não. Não calculava a soma divisão ou a multiplicação. Precisava parar para descansar, mas e a árvore frondosa que não aparecia?

                      Tirou seu cantil e bebeu dois goles. Não mais. Ele não sabia quanto tempo tinha para encontrar um riacho. Ali era impossível. Tudo estava seco, nem o verde do campo se via. O chão do caminho era terra pura. Se chovesse valha-me Deus o barro que daria. Um, dois, três quatro quilômetros de pé no chão. Sua mochila pesava. Ele estava acostumado.

                      Bastava encontrar uma arvore frondosa, um cochilo e ele andaria outros seis se necessário. E os pássaros? Ele não via nenhum. Naquele sol escaldante nem pássaro se arriscaria a voar pelos céus. Ele passou por ela. Na beira do caminho. Nem reparou. O sol não deixava. O chapéu quebrando a testa para esconder o calor e a claridade escondia as belezas que não existiam na beira do caminho.

                       Andou alguns passos e parou. Sua mente tinha gravado a flor na beira do caminho. Pensou o que seria e a mente o obrigou a lembrar. Voltou-se calmamente e a viu... Linda, vermelha, quase do tamanho de uma rosa. Mas não era uma rosa. Somente ela com sua planta a segurar como se fosse cair com o peso. Não havia vento, ela não se mexia. Mas era linda. A mais linda flor que ele tinha visto. Deu meia volta até a flor na beira do caminho.

                     Quem pensaria que na beira do caminho tinha uma flor? Ficou de frente a ela. Viu que ela sorria e não se importava com os raios de sol que não penetravam nas suas pétalas. Tirou sua mochila e se agachou em frente a ela. Um perfume suave correu pelas suas narinas. Gostoso, delicioso. Agradável de cheirar. Era um balsamo para manter o corpo firme, aquela fragrância jogava todo seu perfume no Escoteiro que caminhava no sol do no caminho.

                      Ficou ali estático por minutos que se transformaram em horas. Ela a flor na beira do caminho o hipnotizava. Ele precisar seguir precisava chegar ao acampamento à tardinha. Seus amigos da patrulha o esperavam. Então o sol se escondeu. Uma nuvem branca com pássaros esvoaçantes chegaram. Um vento sul começou a soprar. A flor balançou na sua planta, mas não caiu.

                     O Escoteiro procurou um galho e o fincou junto à flor. Do seu cantil aguou a linda flor da beira do caminho. Precisava seguir adiante. O tempo não espera, e ele olhou a flor pela ultima vez. Grande, Vermelha, quase do tamanho de uma rosa, mas não era uma rosa. O Escoteiro partiu olhando para trás. Uma enorme tristeza o invadiu. A flor da beira do caminho balançou de um lado a outro. Como se estivesse agradecendo o que o Escoteiro fez por ela.

Baseado no poema de Carlos Drummond de Andrade – No meio do caminho tinha uma pedra.


segunda-feira, 1 de abril de 2019

Contos de Fogo de Conselho. Recordações de uma jornada,




Contos de Fogo de Conselho.
Recordações de uma jornada,

- Nada foi como planejado. A trilha com a noite deixou de existir. Sem saber como chegar à base fomos obrigados a voltar para tentar achar o caminho correto. Cansados sentamos a beira da estrada do pardal. Ao meu lado o Sênior Lorenzo. Olhando-me nos olhos disse: Chefe, não tenho nada. Meu pai nada tem. – Olhei para ele e calmamente lhe disse: - Meu caro escoteiro, o dinheiro faz homens ricos, o conhecimento faz homens sábios e a humildade faz grandes homens. – Ele sorriu. Só isto Chefe? E como ser assim? – Um silencio se interpôs entre nós – Olhe, para que o homem seja próspero, o dinheiro não basta. É preciso ser bom, sábio e consciente.

- Continuei: - Existem pessoas que tem dinheiro e pessoas que são ricas. – Como Chefe? Sorri para ele. – Olhe não importa a cor do céu. Quem faz o dia bonito é você. Siga sua vocação que o dinheiro vem. Mantenha seu foco no objetivo, centralize a força para lutar e utilize a fé para vencer. – Um gafanhoto pousou na aba do seu chapéu. Ele ia espantá-lo e lhe disse: - Não deixe-o, dizem que dá sorte. Sorri explicando para ele. Ele me olhou complacente e falou: - Sabe Chefe, lembro que um dia o senhor me disse: - Se for prá ser, será. Se tá demorando, é porque o melhor ainda está por vir! – Olhei para ele com ar de espanto.

- Toda a patrulha sentou ao meu redor. Lorenzo se calou. Pensativo indaguei ao meu coração se era aquela a resposta que ele esperava. Em resposta meu coração respondeu: - Se não deu certo, tenta de novo e de novo. E se não der certo novamente fica junto ao errado mesmo, quem sabe vai dar certo. Coração sabido o meu. Lorenzo parecia ter ouvido e sorriu. Olhei para ele e sussurrei baixinho: - Esqueça os piores momentos da sua vida e faça os melhores se tornarem inesquecíveis. Muitas coisas bonitas não podem ser vistas ou tocadas, elas são sentidas dentro do coração. A riqueza é uma delas. Agradeça a Deus pelo dia de hoje e aguarde melhores momentos.

- Chefe! Era o monitor. – Que tal passarmos a noite aqui? Olhei para ele, para Lorenzo e para os patrulheiros. Eu era um Chefe abençoado. Meu coração intrometido rindo me disse: - Chefe aproveite cada minuto, porque o tempo não volta. O que volta é a vontade de voltar no tempo. Ah! Meu coração Escoteiro. Um fogo estrela apareceu, um café fumegante chegou como a dizer: Vamos lá escoteirada, se um dia os seus motivos para sorrirem acabarem, me avisem que eu te dou os meus. Eu era feliz e mais ainda quando vi Lorenzo sorrindo. Não havia mais nada a dizer... Eu gosto de gente que abraça. Abraça mesmo, forte, apertado, gostoso, com vontade, quase esmagando. E baixinho dizer em seu ouvido: - Eu cuido de você, você cuida de mim. Será que isto é fraternidade?

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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