terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...


Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras.

Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia. Venha leia uma duas e comprove. Quem sabe poderá utilizar em reuniões com dias chuvosos, frio intenso e até em acampamentos ou acantonamentos. Agradeço sua visita, volte sempre!
Chefe Osvaldo. 

Os contos de Natal. Maria.



Os contos de Natal.
Maria.

Prólogo: - Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá. Quem se nega a castigar seu filho não o ama; quem o ama não hesita em discipliná-lo. – Um conto dos dias atuais de Maria e seu esposo José. Mais um conto de natal. Saudações natalinas.

¶ - Olhe o que foi meu bom José, se apaixonar pela donzela
Dentre todas a mais bela, de toda sua Galileia.

                   Nove horas, nuvens escuras cobriam o Bairro de Belém. Maria na janela de sua casinha olhava a rua com um sorriso inocente. Soprava um vento calmo e ela nem imaginava que prenunciava uma forte chuva que já despontava no horizonte. Maria tinha um sorriso maravilhoso. Aos setenta e quatro anos com seus cabelos curtos que um dia foram loiros e hoje de cor metálica parecia uma santa a abençoar os passantes na rua onde morava. Os vizinhos sorriam para ela, todos a conheciam e sabiam que ela sofria falta de memória, não tinha a mente fértil, quase não se lembrava do seu passado e o que aconteceu ontem e só o hoje ainda era lembrado. Ela sabia o que era felicidade, pois demonstrava isto a todo instante. Ainda lembrava quando José saiu para ir trabalhar na marcenaria. José seu marido era para ela tudo na vida. Não lembrava, mas sabia que foram muitos felizes e ainda eram. Uma pequena lembrança de Tiago. Onde ele andava? Foi até o portão. Sempre estava trancado com um cadeado, pois José toda manhã o trancava. Ela não podia sair pela rua. Se isto acontecesse se perderia, pois não tinha mais a mínima noção onde moravam.

¶ - Casar com Debora ou com Sara meu bom José, você podia
E nada disso acontecia, mas você foi amar Maria.

                         José trabalhava com afinco. Tinha dois aprendizes. Marcenaria pequena, mas muito procurada. Ele era considerado um dos melhores profissionais marceneiros na cidade. Maria para ele era tudo. Sempre a amou desde que a viu pela primeira vez com seu lindo uniforme de Bandeirante. Um azul que nunca mais esqueceu. Ela o olhou e sorriu. O trevo de quatro folhas estava em sua blusa e ele viu que tinha sonhado com ela. Apresentou-se. Ela sorria inocente. Era um amor perfeito. Casaram-se dois anos depois ela ainda com dezoito anos e ele com vinte e um. Seu pedido de continuar como bandeirante foi bem aceito por José. Como negar? Foram cinco anos de casamento para o nascimento de Tiago. Seu único filho. Maria lhe disse que era a mulher mais feliz do mundo. Ele não sabia por que não tiveram mais filhos. Desígnios de Deus? Sua preocupação com Maria era enorme. Precisava trabalhar, mas tinha medo que ela um dia resolvesse passear pelo bairro. Sabia que ela nunca mais iria encontrar o caminho de volta. Ah! Doença que só Deus sabe e podia explicar.

¶ - Você podia simplesmente, ser carpinteiro e trabalhar
Sem nunca ter que se exilar, e se esconder com Maria.

               Tiago infeliz nunca teve paz em seu casamento. Ele e Sara nunca conseguiram ter filhos. Sara ficou amarga, quase não conversavam e quando ele achava que estavam em paz os desentendimentos aconteciam. Ela não se perdoava por não ter condições de ser mãe. Chorava se chamava de desnaturada e muitas outras coisas. Tiago tentou convencê-la a adotar um bebê. Mas ela não queria. A preocupação de Tiago agora era com sua mãe. Seu pai nunca lhe pediu, mas ele sabia que em seus olhos havia a suplica de diariamente levar sua mãe para sua casa até ele voltar. Ele queria, mas Sara não. Eles brigaram tanto que Tiago desistiu. Não seria difícil para ele levar sua mãe todos os dias para sua casa, não era longe e no seu carrinho seria um pulo ir e voltar. Sara dizia: - Ela entra por uma porta e eu saio na outra! Dizer o que? Ele sabia do Alzheimer.

¶ - Você podia simplesmente, ser carpinteiro e trabalhar
Sem nunca ter que se exilar, e se esconder com Maria.

                Maria sorriu ao ver o portão aberto. Lembrou-se das reuniões bandeirantes. Correu ao quarto e retirou de uma mala antiga seu uniforme. Estava guardado num Velho bau, mas muito desbotado. Vestiu. O chapeuzinho quase não serviu. Saiu sorrindo pelo portão sem saber para que lado seguir. Nenhum vizinho a viu subindo a rua em passadas simples e calmas. Passou por muitas pessoas que a cumprimentaram. Um sorriso espontâneo brotava em seu rosto. Viu um ponto de ônibus. Pegou o primeiro que passou. Perguntou ao Motorista onde era a reunião da Companhia das Bandeirantes. – Desculpe Dona, mas não sei! – Desceu em uma praça pensando ser a praça onde conheceu José. Alguém deu nela um empurrão. Sentiu várias mãos forçando a retirada de sua bolsa. Lá não tinha nada, nenhum documento. A bolsa estava vazia. Alguém lhe deu um chute e gritou – Velha danada, nem dinheiro tem! Maria sentiu uma dor enorme. Procurou um banco e sentou. O tempo foi passando e a fome chegou. Onde comer? Tinha de voltar para casa, lá ela tinha no forno um “quentado” do jantar de ontem que José deixou.

¶ - Meu bom José você podia, ter muitos filhos com Maria
E teu oficio ensinar, como teu pai sempre fazia.

                      José recebeu um telefonema. Trabalhava até tarde naquele 24 de dezembro para atender um amigo. Era um policial militar dizendo que sua esposa estava na 45º Delegacia do Bairro do Jaçanã. José levou um choque. Como? Será que tinha se esquecido de trancar o portão? Não se perdoava por isto. Ligou para Tiago que chegou correndo com seu fusquinha. Foram direto para a Delegacia. Maria estava sentava em uma poltrona sorrindo e vestida com seu uniforme bandeirante. Tinha no colo um bebê lindo de olhos azuis. Uma menina de doze ou treze anos também bandeirante estava com ela. – Senhor José! – A bandeirante disse: - Eu a vi na Praça do Bom Jardim, sorrindo com esta criança no colo! Quando vi seu uniforme sabia que era uma coordenadora Bandeirante. Chamei um guarda e fomos para a delegacia. Lá no fundo da sua bolsa tinha um telefone. Era o do Senhor! – E de quem é esta criança? José perguntou. – Ela disse que era sua neta! – disse o delegado. Veja como a criança sorri em seu colo. Ela a chama de Madalena! – José não sabia o que fazer. O delegado disse para levarem a criança. Ele se encarregaria de avisar ao Juizado de Menores.

¶ - Porque sera meu bom José, que esse teu pobre filho um dia
Andou com estranhas ideias, que fizeram chorar Maria.

                  Na casa de Tiago tudo era festa. Sara não tirava Madalena do colo. Ela sabia que o Juiz daria para ela adotar. Tiago era um marido mais feliz do mundo. José não cabia de contente. Maria só dizia que ganhou uma neta. Uma estrela brilhou no céu. No passado em uma manjedoura Jesus nasceu. Ali naquela casinha uma menina tinha muitos pais que a amavam. Feliz natal, que os sonhos seus se realizem!

- Me lembro às vezes de você, meu bom José, meu pobre amigo
Que dessa vida só queria, ser feliz com sua Maria. Bom José. Nalva Aguiar

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Contos de Natal O Tenente Dante da Marinha do Brasil teve sua noite de natal.



Contos de Natal
O Tenente Dante da Marinha do Brasil teve sua noite de natal.

¶ Qual cisne branco que em noite de lua Vai deslizando num lago azul.
O meu navio também flutua Nos verdes mares de Norte a Sul. ¶
               Fora seu sonho, desde criança sonhou em ser um marinheiro. Jurou que um dia seria. Resolveu ser Escoteiro do mar. Gostava de ficar na praia olhando o horizonte e vendo um ou outro barco passar. O seu chefe fora almirante, quantas histórias para contar. Quando eles acampavam ele ficava esperando a noite chegar só para sentar em volta de uma gostosa conversa ao pé do fogo e ouvir com a maior atenção as histórias do Chefe Mascarenhas. – Era uma vez... Ele assim começava as suas histórias. Era uma vez eu estava em uma pequena fragata. Navegamos em águas calmas proximo as “Águas da Morte”. Diziam ser uma versão do Triângulo das Bermudas. Sempre contavam ser um lugar amaldiçoado.

             - Nosso Almirante era um homem calmo e não acreditava em maldições e nada o assustava. Foi então que percebermos que fragata começou a girar, a girar e todos a bordo se agarraram e se amarraram onde fosse possível. Os ventos começaram a soprar forte. Relâmpagos cruzavam o céu. Havia uma mística que mesmo com águas calmas e tempo ensolarado de um segundo ao outro surgia uma maré. Ela quase destruiu nossa fragata. Eu achei que não ia viver. Todos nós achamos. E de repente, e de repente o sol voltou a brilhar. O vento ficou calmo e os trovões desapareceram. Eu nunca acreditei em coisas do outro mundo, mas daquele dia em diante nunca mais duvidei. – Todos nós Escoteiros do mar em volta do nosso Chefe ali na praia em uma conversa ao pé do fogo ficamos sem folego. – E o Chefe Mascarenhas completou – Quando retornamos ficamos sabendo que todos os anos, embarcações dos mais diferentes tipos afundam nas “Águas da morte”. Os que se acreditaram que com um dia calmo e mar azul poderiam atravessar se foram para sempre. Não sabiam que era um local voluntarioso, onde tempestades demoníacas ocorrem do nada, em dias de sol e de mar calmo!

¶ Linda galera que em noite apagada Vai navegando num mar imenso
Nos traz saudades da terra amada Da Pátria minha em que tanto penso. ¶

                        Eu fazia de tudo para aprender com meus chefes a arte de um escoteiro do mar. Fazia tudo para conseguir conhecimentos práticos e teóricos para conseguir as especialidades de Arrais Amador, Mestre Amador e Capitão Amador.  Eu sonhava o dia que iria colocar meu uniforme de um Oficial da Marinha do Brasil. Meu Chefe me incentivava e me disse que se estudasse muito poderia entrar na escola especializada para formação de oficiais (EFOMM). Eu sabia que para entrar não era fácil e se conseguisse iria estudar em regime de internato por três anos. Se tudo desse certo poderia sair sendo um Oficial da Marinha. Não deu outra. Estudei e entre na escola de formação de oficiais. Sentia-me orgulhoso com o uniforme de cadete bem parecido com o meu de Escoteiro do mar. Era um cadete estudioso, prestativo e orgulhoso do que fazia. Em três anos me formei e após um treinamento como Fuzileiro Naval vesti meu uniforme de sub. tenente da marinha. Agora estava apto para começar meu treinamento naval. Valeu e muito. Adorava tudo. Era disciplinado e nunca disse não para as ordens dos meus superiores.

                        Eu amava o escotismo, mas nos primeiros meses não tive a menor condição de estar junto com meus irmãos Escoteiros. Dizem que a vida não é igual para todo mundo. Meu mundo era colorido e eu amava o que fazia. O que aconteceu então? Até hoje me pergunto por que caí naquele abismo sem fim. Conheci uma moça, linda, sabia tudo sobre escotismo e marinharia. Contava-me que seu pai foi um grande Almirante e faleceu sozinho em um quarto do hospital das forças armadas. Disse-me que seu pai morreu de AIDS. Isto irritou seus amigos. Eles não aceitavam. Eu me apaixonei por ela. Ela me vendia horrores da Marinha. O que eu amava eu passei a não acreditar mais. Não comparecia a ordem do dia e fui preso e expulso da marinha. Eu chorei como chorei. Mas Naldinha me consolava. Dizia que era melhor assim. Eu tentei voltar para os Escoteiros, mas meu próprio grupo não me aceitou. Ficaram sabendo do meu procedimento e diziam que um Escoteiro do mar não procede assim. Eu e Naldinha começar a naufragar. Não no mar, mas nas asas do vício maldito. Ela morreu dois anos depois de uma overdose.

¶ Qual linda garça que aí vai cruzando os ares Vai navegando
Sob um belo céu de anil Minha galera Também vai cruzando os mares
Os verdes mares, Os mares verdes do Brasil.¶.

              Um dia passei no portão do Grupo Escoteiro. A meninada do mar se divertia em um gostoso jogo e meu deu uma saudade enorme. Entrei na sede. Todos pararam o que estava fazendo. Era como um silêncio profundo e doído acontecesse na alma daqueles Escoteiros do mar. Tentei correr dali, minhas pernas falharam. Cai e bati a cabeça no cimento do pátio. Dois lobinhos e uma assistente correram para me ajudar. Chamaram uma ambulância e fui para um hospital comum. Recuperei minhas forças. Notei que Norma estava sempre lá a me visitar. Era uma assistente de lobinhos linda demais. Eu não esquecia Naldinha. Eu não esquecia nada. Eu só sabia chorar e afinal me perguntava: - Você é um homem ou um rato? Dizia isto em voz alta e Norma sorria. Não sei por que ela me deu forças. Hoje recuperei um pouco da minha coragem. Nunca mais fui o marinheiro que sonhava, mas agora era um Escoteiro do mar. Arrumei um emprego e hoje sou um Chefe de uma tropa que amo demais. O que aprendi ensino a eles com alegria. Eles me amam e eu amo todos eles.

                       Não adianta chorar e reclamar da vida. A luta é renhida e os fracos não tem vez. Não vou errar mais. Casei com Norma, somos felizes e mesmo lembrando de vez em quando da minha vida de cadete e quase oficial de marinha não me arrependo do que fiz. Aconteceu, não dá para mudar ao destino. Tudo para nós acontece uma só vez. E assim vamos aprendendo a cair e levantar. Hoje é um dia importante em minha vida. Carlinhos meu filho de sete anos como eu vai ser um Escoteiro do mar. Ele vai fazer sua promessa. Eu disse a ele que a vida era dele. Ele tinha de lutar sozinho por um lugar ao sol. Quando ele fez sua promessa de lobo Norma pegou na minha mão e apertou. Vi seus olhos cheios de lágrimas, lágrimas de orgulho. Ela sabia que eu faria tudo para que Carlinhos vencesse na profissão que escolhesse. Não direi a ele para ser um homem do mar. A vida é dele. Deixa-o crescer aprendendo a fazer fazendo. Neste natal eu quero agradecer a Deus o seu milagre. Poderia ter morrido, mas não morri. Se eu perdi não sei, mas ganhei uma família, uma não duas, Norma e Carlinhos e meu maravilhoso mundo dos Escoteiros do mar!    

¶ Qual linda garça que aí vai cruzando os ares Vai navegando
Sob um belo céu de anil Minha galera Também vai cruzando os mares
Os verdes mares, Os mares verdes do Brasil. ¶.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Contos de natal. Priscila.



Contos de natal.
Priscila.



Prólogo: Tudo muda se renova, se refaz... Basta à gente querer... Hoje mudei minhas estações... Mudei meu radio e minhas ligações não tento nem ao menos mais entender, uso frases curtas, sigo sem você, e bem aqui estou, livre como um pássaro, podendo voar aonde eu quiser...

“Noite feliz! Noite feliz!
Oh, Senhor, Deus do amor
Pobrezinho nasceu em Belém”.

                      Antes fora uma favela. Ainda era só que melhorada. O sonho de todo jovem era sair dali, ir para outro bairro mais bonito, mais pacífico e onde não houvesse tantos marginais que se consideravam dono do lugar. Priscila sabia que só quando tivesse idade poderia procurar outro lugar para morar. Estudava muito. Acreditava que só assim poderia decidir sua vida. Não reclamava, não tinha como. Sua tia foi até bondosa a acolhendo quando sua mãe morreu. Seu pai sumiu e ela nem sabia onde andava. Negra, não se considerava bonita. Nariz fino cabelos encaracolados, mas ela mantinha um ar de menina orgulhosa sem fazer muitos amigos e sem conversar com ninguém. Era de sua casa a escola e algumas vezes a padaria quando sobravam alguns tostões para o pão de cada dia. Como toda criança dos seus doze anos tinha sonhos. A cada ano seu sonho mudava e outros chegavam para encantar suas noites quando pedia a Deus na hora de dormir que a protegesse sempre.

“Eis na Lapa Jesus nosso bem
Dorme em paz, oh, Jesus
Dorme em paz, oh, Jesus”.

               Sua sala de aula não era grande, mas embolava mais de 40 alunos. Ela estava na quinta série e nunca repetiu de ano. Calada era bem quista por dona Rute sua professora. Foi ela quem a convidou para participar junto a outras meninas de aulas de dança clássica. Ela adorou. Nem disse para a tia. Ela não se interessava por nada que fazia. Se não fosse tão responsável estaria hoje entregue ao trafego com a bandidagem. Na primeira aula foi tão bem que a Professora Sarah lhe deu os parabéns. – Menina – Ela disse: - Você tem estilo, se quiser poderá ser uma grande bailarina. A principio a felicidade escondeu que era negra. Bailarina negra? Nunca tinha ouvido falar. Foi para casa cantarolando, pois agora seu sonho era outro. Balé Bolshoi? Ria entregue nos seus sonhos. Ela sabia que quando se quer tudo pode acontecer. Seria a primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Na esquina da Ruela Monte Sinai sentiu uma dor enorme abaixo do joelho. Viu que a carne de sua pele estava espalhada pela calçada. – Meu Deus! Uma bala perdida?

“Noite feliz! Noite feliz!
Oh, Jesus, Deus da luz
Quão afável é Teu coração”.

             Acordou no hospital. Estava em uma enfermaria com mais oito pacientes. Não sentia seu pé direito. Tentou se mexer e não conseguiu. Quis chorar, mas disse para si que ela não tinha este direito. Sonhou e se não conseguiu realizar seu sonho tinha de dar a volta por cima. Mas não era fácil. Dois meses depois lhe deram alta. Uma enfermeira trouxe uma muleta para ela – Quando se acostumar você vai ver que é fácil. Sua tia não veio buscá-la. Ao sair na porta do hospital tropeçou em um menino. Viu que era um Escoteiro e estava correndo. Ambos caíram. Ele não teve nada e ela também não. Um olhou para o outro. O Escoteiro não sabia o que dizer. Ela sorriu mesmo sentindo dores. – Quem corre cansa – disse. O Escoteiro sorriu também. – Desculpe. A culpa foi minha! Ela não disse nada. Não poderia correr com eles. – Quer conhecer minha patrulha? Somos da Pantera, mas de paz! Ele disse. Porque não? Ele a apresentou aos cinco escoteiros da patrulha. Ela gostou de todos eles. – Vocês são bacanas, mas preciso ir para casa, minha tia está me esperando, tive hoje alta no hospital. Perdi um pé. Disse com a maior naturalidade.

“Que quiseste nascer nosso irmão
E a nós todos salvar
E a nós todos salvar”.

               Foi o início de uma grande amizade. Foram com ela até sua casa. Convenceram-na a ser da patrulha. – Eu? Não posso, não posso correr brincar e acampar como vocês. – Pode sim disse Batuel. Nada impede você. Já estamos comprando uma nova perna mecânica. Conseguimos uma doação, você vai gostar, vai poder andar correr e acampar conosco. Foi o Chefe João Batista quem trouxe a perna mecânica. Maravilhosa. Priscila chorou de alegria. Abraçou a todos e começou a andar. Doía um pouco, mas em menos de uma semana acostumou. Em quatro meses Priscila dominava a perna mecânica com maestria. Andava e corria como qualquer menino. Thiago deu para ela um uniforme completo. Tinha dois. Ela fez a promessa e foi o dia mais lindo da sua vida. Não esqueceu seu sonho que um dia pensou em ser uma grande bailarina. Agora precisava refazer seus sonhos. Foi o Chefe João Batista que a apresentou ao professor e técnico de Handebol para pessoas especiais.

“Noite feliz! Noite feliz!
Eis que no ar vem cantar
Aos pastores os Anjos do Céu”.

O tempo passou. Priscila se dedicou como nunca a nova modalidade. Quando foi selecionada para participar de um campeonato estadual cantou aleluia! Agradeceu a Deus pela oportunidade. Um grande conglomerado financeiro financiou seu treinamento e a adotou com atleta. Quem quer anda quem não quer manda. Chorar por quê? Priscila fez seu próprio destino. Hoje está na seleção principal, não abandonou o escotismo. Fez dele sua nova maneira de viver. Foi na noite de natal que ela e sua tia mudaram para a casa nova. Antes de entrar ajoelharam e rezaram na porta agradecendo a Deus. Batuel, e os amigos da patrulha continuaram seus amigos por toda vida. Paciência e perseverança tem o efeito mágico de fazer as dificuldades desparecerem e os obstáculos sumirem. Cada lágrima ensina-nos uma verdade e Priscila venceu. Cair levantar tentar de novo. Ela sabia que as únicas desgraças são aquelas que nada aprendemos. A vida é assim, vence quem acredita e perde quem chora a derrota sem se levantar.
 
Letra e música - Anunciando a chegada de Deus. De Jesus Salvador

sábado, 15 de dezembro de 2018

Contos de natal. Os sete filhos de Moisés.



Contos de natal.
Os sete filhos de Moisés.

Prólogo: Até o dia 25 de Dezembro deste ano, irei publicar contos de natal para comemorar e relembrar histórias que escrevi sobre o tema. Feliz Natal a todos, boas entradas e meu cordial e fraterno abraço. Sempre Alerta para Servir!

                 Foi um natal inesquecível. Nunca esqueci. Tudo aconteceu no dia 24 de dezembro ao pé do monte Canaã, bem próximo ao Mar da Galileia. Portentoso o Rio Jordão corria para terminar no Mar Morto. Eu nasci em Israel cidade abrigada por montanhas centrais e que até hoje faz parte da história do Velho Testamento. Canaã era uma cidade pequena e lindamente florida. Na Rua dos Reis Magos morava Moisés, um homem alto, forte que todos diziam ter mais de 100 anos. Moisés tinha um belo sorriso e admirado por todos os habitantes de Canaã. Zípora sua esposa faleceu e o deixou com sete filhos seis homens e uma mulher.  Idades próximas já que havia dois pares de gêmeos Thiago e João Lucas, Davi e Josué. Só Ismael Ruth e Israel não eram gêmeos.  Conta uma lenda que Deus por meio do seu espírito tomou a forma humana para abençoar e batizar os filhos de Moisés.

                  Aarão Chefe Escoteiro me contou está história. Parei para tomar um refresco já que a tarde estava quente em sua Taberna vazia. Conversa vai conversa vem sentamos em uma varanda com uma linda vista do Mar Morto. Aarão falava baixo, voz rouca e vestia um saiote escocês que até hoje não entendi porque usava ali. Dizem que Escoteiros sabem quem são e não passam despercebidos. Convidou-me para pernoitar ali à noite. Poucos transeuntes sentia falta de bons papos principalmente dos que participavam do movimento escoteiro. Todos os viajantes gostavam dos habitantes de Canaã. Uma cidade tranquila que acolheu muitos deles vindo do norte. Àquela hora da tarde não havia ninguém a vista. Hora da “siesta” rotina de muitos que vieram da Mesopotâmia e que resolveram arranchar na cidade. Aarão era semita, oriundo da Babilônia bem próximo ao Rio Eufrates.

                Aarão não fora Escoteiro. Convidado montou uma Tropa e por pedido dos pais aceitou algumas meninas. Moisés o procurou oferecendo ajuda e foi um baluarte na montagem do grupo em seu início. Inscreveu seus sete filhos e por votação eles decidiram ter sua própria patrulha a qual deram o nome de Garça Branca. Nunca tinha ouvi falar em uma patrulha formada por irmãos e me interessei pela história. Decidiram em Conselho de Patrulha que o Monitor seria eleito conforme a necessidade da atividade dando condições para que cada um pudesse ter a experiência e aprender a ser um líder de patrulha. Eram exemplos para os demais escoteiros. Nunca houve uma altercação, uma discussão, uma palavra áspera, pois levavam ao pé da letra a Lei Escoteira e sem esquecer também a Lei de Moisés. – Sabe amigo – Dizia Aarão, foi numa terça feira, férias escolares, que me pediram para acampar.

                              Moisés aprovou, pois se eles queriam e sabiam o que fazer nada os impediria de acampar. – Aarão – dizia Moisés - Me prometeram que estariam de volta a noitinha do 24 de dezembro, para a missa do galo que frei Kety e Frei Ramsés com mais dois monitores iriam celebrar. Nunca perderam essa missa e Moisés confiava nos seus filhos. Partiram ao alvorecer, ainda com o orvalho caindo nas montanhas do Monte Sinai. O dia prometia. Em fila os habitantes sorriram a vê-los passar cantando o Rataplã. Foi Ruth quem contou como tudo aconteceu depois. Onze da noite do dia 24 de dezembro e não haviam chegado. – Chefe contou Ruth, seguimos pelos Pirineus até a trilha do Monte Carmelo onde montamos o acampamento. Tudo transcorria bem preparávamos as etapas de Primeira Classe e a Correia de Mateiro de João Lucas.

                            Em dado momento sentimos falta de Israel. Isto não era comum. Davi usou seu apito sonoro, sinalizando o S.O.S e nada. Saímos para procurar. João Lucas era mestre em pista. Encontrou uma pegada de Israel. Fomos a todos os lugares possivel. Do alto do Monte Carmelo dava para avistar o Monte Tabor e até o Monte das Oliveiras onde Jesus fez seu sermão da montanha. As pistas eram fáceis de seguir e nada de Israel. À tardinha antes do escurecer voltamos para o acampamento. Thiago chorava baixinho e eu também. Todos não sabiam o que fazer.  João Lucas, Josué e Ismael cabisbaixo também choravam. Davi ajoelhou e começou a rezar. Ajoelhamos com ele. Eles lembravam que ele não queria vir ao acampamento, era o menorzinho dos irmãos. A noite chegou. Não havia fome, não ouve jantar. Não sabíamos o que fazer. Só Deus para nos ajudar.

                     Moisés na praça esperava inquieto a chegada dos filhos. Não queria terminar sua vida assim. Pensou se Deus o abandonara, mas rezou de novo e acreditou que teria ajuda. Nem sempre entendemos principalmente o modo como Deus age. Quando tudo diz que não há solução acontece então os milagres. Moisés amava seus filhos. Ele sabia que sua vida foi repleta de ensinamentos. Ele sabia do modo como Deus o moldou e o fez capaz de criar seus filhos. Ele sorria como se fosse o verdadeiro Moisés das Taboas da Lei. Ele sabia que nunca foi abandonado e mesmo não sendo filho e neto de um rei ele soube criar seus filhos muito bem. Confiava neles, deu a eles os melhores ensinamentos, e uma vida cristã invejável. Onde estariam àquela hora? – Deus! Oh meu Deus! Não posso perdê-los. Fazei de mim seu instrumento, fazei o que quiser, mas traga-os de volta para mim!

                      Os sete jovens ajoelhados em frente à barraca, bem próximo ao Monte Sinai avistaram um imenso vermelhão no céu. Uma estrela enorme que iluminava tudo a sua volta. Descendo a montanha Israel vinha devagar, segurando um cajado e atrás dele viram três velhos pastores montados em camelos. Vestiam túnicas azuis, grandes barbas brancas, e o elevarem no ar até onde estavam. – Um deles falou como um Rei dizendo – Está tudo bem, vão para casa, seu pai os espera na igreja. Thiago, João Lucas, Davi, Josué, Ismael e Ruth abraçaram Israel. Um milagre aconteceu. Ele caiu em uma cascata de pedras e quebrara o joelho. Não podia andar. Os três homens que estavam montados em camelos o socorreram – Disseram para ele: - Vamos Escoteiro, vamos levar você aos seus irmãos. Temos que ir embora, pois Jesus de Nazaré vai nascer! Partiram e lá no céu cantavam: £ “Jesus nasceu. O mundo vai mudar...” £. E foi assim que Melchior, Baltazar e Gaspar partiram para estarem com Jesus.

                     Voltei para casa pensativo. Seria verdadeira a história de Aarão? Perguntei a ele onde morava Moisés e ele sorriu sem me dar resposta. Até hoje me pergunto se poderia haver uma patrulha de irmãos. Não sei. Aarão me disse que sim. Bem quando tudo parece perdido, melhor é procurar refletir o que a gente sente e o que poderá ser. Feliz noite de natal, paz na terra aos homens de boa vontade!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Pequenas historias escoteiras. Luana.



Pequenas historias escoteiras.
Luana.

Prólogo: “Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos. Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer”.

                                 Sol a pino. A trilha era boa para caminhar. O local de acampamento estava longe. A tropa caminhava devagar naquelas campinas verdejantes. A ordem veio sonora e agradável da Chefe Escoteira. – Hora de descanso. Vinte minutos, aproveitem e não se esqueçam dos ensinamentos de jornadas. Pés para cima e corpo reto! Luana sorriu. Exausta tiro o tênis e pós os pés na água fresca do remanso. Fria, gostosa, incrivelmente saudável.

                                Peixinhos pulavam pareciam saudar as meninas Escoteiras. Luana pensou na frase de sua Chefe: - Esqueça os piores momentos da sua vida e faça os melhores se tornarem inesquecíveis. Luana sorriu. Ela sabia que sorrir não mata, viver não dói. Abraçar não arde. Beijar não fere. Rir não machuca. Ou seja, ela tinha motivos enormes para não desistir de ser feliz.

                               Luana amava ser escoteira. Sua mãe lhe disse: - Filha se quer participar faça valer a pena, as oportunidades não voltam. Olhou em um galho próximo um Pardal saltitava próximo ao seu ninho. Viu o Pardal dar comida aos seus filhotes. Hora do almoço?

                                Luana conhecia a vida do Pardal Amarelo. Ele foi introduzido no Brasil em 1906 para controle biológico de insetos. Ele se dá bem nas matas, em habitats abertos e até na zona urbana. Elas se reúnem ao entardecer em bandos barulhentos, que não se aquietam até que a noite chegue. Elas as femeas constroem seus ninhos em qualquer lugar. Na castanheira em frente sua casa eles chegavam às tardes barulhentos e saiam com uma algazarra enorme.

                                 Ela já tinha visto um belo ninho em um poste de iluminação. Luana calçou o tênis. A água estava fria e gostosa. Sentiu seus pés sorrindo com o toque de pequenos peixinhos. Uma bela Acará olhava deliciosamente para ela.

                                A Chefe apitou, hora de partir, programaram chegar à noitinha no local do acampamento. Monitoras saudando e apresentando a Patrulha a Chefe. Grito e na trilha, sol da tarde um sorriso e ela sabia que a vida lhe reservou ser feliz. Luana era assim, viver de bem com a vida. Afinal aprendeu que devemos querer o bem, plantar o bem e o resto vem.

                              Todas as escoteiras olharam para ela espantadas quando deu uma enorme gargalhada. – Olhou para Escoteiras sorrindo e gritou: - Eu nasci para ser feliz, não para ser normal! 

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Crônicas de um Velho Escoteiro. As sete maravilhas do escotismo no mundo.



Crônicas de um Velho Escoteiro.
As sete maravilhas do escotismo no mundo.

Prólogo: O que sempre pensei ser as sete maravilhas Escoteiras do mundo. E também uma homenagem aos meus amigos gaúchos pelo prestígio e amizade. Obrigado!

“As sete maravilhas do mundo antigo são uma famosa lista de majestosas obras artísticas e arquitetônicas erguidas durante a Antiguidade Clássica, cuja origem atribui-se a um pequeno poema do poeta grego Antípatro de Sídon. Das sete maravilhas, a única que resiste até hoje praticamente intacta é a Pirâmide de Quéops, construída há quase cinco mil anos”.

                     Em meio a um enorme tapete de árvores, espremido em meio aos prédios, vinha eu absorto na Rua Gonçalo de Carvalho, na região central de Porto Alegre, e que tem a fama de ser “a mais bonita do mundo”. Eis que uma senhora de uns setenta anos, simpática, cabelos brancos prateados, com um sorriso daquele de conquistar corações me parou em frente ao numero 650 e perguntou de chofre:

- Chefe! Quais as sete maravilhas do Escotismo no mundo? Não esperava por aquela pergunta e nem conhecia a Senhora. Fiquei pensando como ela sabia que eu era Escoteiro. Ban Ban! Claro eu usava meu distintivo de flor de lis na lapela. – Senhora! Não seriam as sete maravilhas do mundo? – Não senhor Vado, eu disse em alto e bom som: - As sete maravilhas Escoteiras do Mundo! Parei com um sorriso sem graça. Além de saber que era Escoteiro também sabia meu nome. Minha cuca fervia e não sabia o que dizer. – Não pense muito Chefe, diga logo, não quero que poetize o que todos sabem o que é!

                     Que seja. Não pensei duas vezes e comecei a desfiar o que pensava ser as sete maravilhas Escoteiras no mundo. – Só sete senhora? São tantas! – Quero sete, quero responder aos meus netos que são lobinhos. O senhor sabe ou não sabe? – Vamos ver eu disse, e sem pestanejar comecei:

- Primeira - A Promessa Escoteira. – Por quê? Ela perguntou. Porque ela fica para sempre em nossa mente e em nosso coração. É o dia mais bonito de um Escoteiro!
- Segunda – O cerimonial de bandeira – Por quê? Porque ele é quase igual em todo mundo. Ele transmite para cada jovem o amor à pátria!
- Terceira - Acampar – Por quê? Não tem quem não diz que acampar é a melhor coisa do mundo?
- Quarta – Fogo de Conselho – Por quê? Senhora, quem participa de um Fogo de Conselho não esquece nunca mais!
- Quinta – O nascer e o por do sol em um acampamento – Por quê? É lindo. Nenhum Escoteiro pode ser chamado assim se ainda não viu o nascer e o por do sol no campo!
- Sexta - Fraternidade – Por quê? Porque somos o único movimento de jovens sem fronteiras que diz sermos irmãos em qualquer lugar do mundo!
- Sétima – Parei. Fiquei pensando – Chefe e a resposta? Senhora estou em duvida, tem tantas que não sei como fechar à última. Ela sorriu. Quem sabe poderia ser A Canção da Despedida? – A senhora já participou? Não mas meu filho que é Chefe Escoteiro diz que é a hora mais linda do mundo quando se canta a Canção da despedida!

                Olhei para ela espantado. Uma família Escoteira a me perguntar quais são as sete maravilhas escoteiras do mundo? Ela em um fechar de olhos desapareceu. Lá ao longe ela virava uma esquina de volta ao seu lar; Continuei a andar a procura do Shopping Total. Disseram-me que era em frente à Rua Mais Bonita do Mundo. Moço! Pode-me dizer onde fica... Ele me olhou e respondeu educadamente.  – Senhor Escoteiro, as ruas que circundam o Shopping Total são de fundamental importância para a capital gaúcha. Entre elas está esta que o senhor atravessa, a Gonçalo de Carvalho. Saiba que ela recebeu o título da “Rua Mais Bonita do Mundo”. O senhor está vendo, um verdadeiro “túnel verde” de inigualável beleza. Primeira Rua no Estado a receber esse título, a arborizada Gonçalo de Carvalho sagrou-se como o patrimônio histórico, paisagístico, cultural e ecológico de Porto Alegre em 2006!

                  Não tinha mais nada a dizer. Sorria comigo mesmo. Olhei para ele de novo, me piscou um olho e apontou em sua lapela uma flor de lis em ouro. Risos. Escoteiros não dão bobeira, disse para mim mesmo fazendo uma mesura como se estivesse com meu chapéu de três bicos. Agradeci e parti ao destino que havia escolhido. Escolhido? Acho que não, foi o porteiro do Hotel Deville Prime que quando perguntei me olhou e disse: - Escoteiro mineiro! Quer conhecer minha cidade? Va a Rua Gonçalo de Carvalho e nunca mais esquecerá minha amada Porto Alegre! E não é que ele também estava com uma flor de lis de lapela?

domingo, 9 de dezembro de 2018

Lendas escoteiras. Onde começa o inferno!



Lendas escoteiras.
Onde começa o inferno!

Prologo: - É muito estranho ter gente passando fome e morrendo de AIDS, e ter gente no espaço procurando um lugar para irmos quando tudo na Terra falhar. Não parece que somos todos da mesma espécie. Afinal somos irmãos tu e eu?

                       Meu nome é Manoel Boa Ventura. Sou portador do vírus da AIDS. Ela entrou em mim sem eu perceber. Vitória disse que me amava, aceitou meu pedido de casamento. Antes que o fato consumasse comecei a tossir sem parar e a emagrecer. Achei que era uma gripe ou mesmo uma pneumonia. Sem ter um plano de saúde fui ao posto da minha cidade marcar uma consulta. Vitoria quando me viu assim ficou desesperada. Não aguentava mais nem andar.

                       Eu amava Vitória e o Escotismo. Participei com abnegação por muitos anos. Entrei como menino e ali encontrei parte da minha vida. Meu Chefe Tomé não era nosso Chefe, era nosso amigo, nosso confidente, aconselhador e ouvinte. Fui crescendo fui Sênior e aos 18 anos assumi como Assistente de tropa Escoteira. Ainda não tínhamos os Pioneiros. Tive duas namoradas. Alice e Vitória. Alice disse que se apaixonou por Alfredo e me deixou. Quando o Chefe Tomé faleceu de um câncer no esôfago assumi a tropa. Adora os meninos escoteiros.

                      Escoteiro, Chefe exemplar sempre procurei dar exemplo para que os jovens da Tropa pudessem ser como eu cumpridor da Lei e da Promessa. Fui honesto com as jovens que namorei mesmo de longe sem falar com o respeito. Alice mal me deu um beijo e saiu correndo sorrindo. Mudaram de cidade e nunca mais a vi. Vitória não. Foi uma paixão avassaladora. Praticamente me seduziu uma noite em sua casa quando seus pais estavam em viajem.

                      Contou-me que não era mais virgem. Entregou-se a Ricardo pensando que ele seria o homem de sua vida. Não foi. Dois meses depois mal conseguia ir à reunião escoteira. Os acampamentos, as atividades aventureiras não mais aconteciam. Via no rosto dos meninos um desapontamento com tudo que estava acontecendo. Com exceção de Nonato ninguém saiu. O dia que combinei com os pais de Renato para conversarmos sobre sua saída tive uma recaída e desmaiei em plena Rua do Ouvidor.

                      Levado ao pequeno hospital fui diagnosticado com AIDS. Sempre tive calma, aceitação das adversidades, mas quando o medido me disse sem subterfúgios como se eu mesmo tivesse colocado a corda no pescoço quase chorei. O Hospital me ofereceu um coquetel ante HIV. Um mês depois voltei a andar. Parecia que iria melhorar, mas fui prevenido que não existia cura. Teria de conviver com o vírus por toda a vida.

                     Apesar de nunca ter feito sexo com Vitória aconselhei a ela fazer o teste. Deu positivo. Chorou comigo na enfermaria por horas. Quando recuperei um pouco de minhas forças resolvi voltar ao meu habitat escoteiro. Os meninos me receberam com alegria e satisfação. Os demais chefes e muitos pais não. Fui praticamente aconselhado pelo Chefe do Grupo Marcondes a não voltar mais. Foi sincero. Muitos ainda não sabiam até onde a AIDS poderia chegar.

                     O vírus fez menos efeito em Vitória. O novo medicamento agora é distribuído para os portadores do vírus. Ele me mantem vivo. Sei que não mais serei o escoteiro de outrora, mas daria minha vida para voltar ao que era. Os campos, as várzeas, as campinas e as serras distantes ficaram como sonhos que um dia tive e agora passou. Alguns dos escoteiros ainda me visitam escondidos dos pais. Contamos causos, histórias e vez ou outra belas gargalhadas.

                      Casei com Vitória. A princípio tive medo ao fazermos amor. Depois com preservativos tivemos uma vida feliz. Quando retorno da minha oficina passo pela sede do Grupo Escoteiro. Uma saudade imensa. Às vezes lágrimas caem sem eu poder dominar. Mesmo estando no século XXI o medo à dúvida ainda impera em nossa população. Ninguém fica ao lado de alguém que é aidético. Eu e Vitória pensamos em tentar adotar um filho. Quando nos inscrevemos dissemos o que somos. Dona Elza franziu o rosto e disse: - Não sei!

                     Às vezes quando as tardes chegam sento na minha varanda e choro, lamento minha sina, mas Vitória chega para me abraçar. Nunca a culpei. Afinal ela foi uma vítima. Eu sei que é idiota e tosco ostentar qualquer forma de segregação a qualquer pessoal que possuem uma condição de saúde que não é contagiosa ao contato social. Mas não posso mudar o mundo. Um dia quem sabe teremos um novo sol, uma nova vida, um vento soprando e trazendo os amores que tivemos que abdicar.

                     Esta é minha história. Aprendi a viver com ela. Ainda sou escoteiro e serei por toda minha vida. Sei que fizeram um Conselho de Chefes para aprovar minha volta. Exaltados foram contra. Os pais não vão aceitar. O Grupo vai perder com isso. Não importa, ninguém irá me roubar meus sonhos, meu passado, minhas lembranças. Vivo com elas ontem e hoje e amanhã também!

“Meu conselho? Antes do durante, pense no depois. Use camisinha e viva feliz para sempre”.                    

sábado, 8 de dezembro de 2018

Parábolas Escoteiras. Os sons da floresta.


Parábolas Escoteiras.
Os sons da floresta.

Prólogo: - Ouvir o inaudível é ter a disciplina necessária para se tornar um grande Chefe Escoteiro.  Apenas quando você aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, os medos não confessados e as queixas silenciosas e reprimidas, você um Chefe Escoteiro pode inspirar confiança a seus escoteiros, entender o que está errado e atender as reais necessidades dos seus jovens amigos. Esta parábola nos mostra o quanto temos ainda para aprender.

                    O Chefe Pilar, quando terminou o Curso da Insígnia de Madeira teve dúvida de seu aprendizado e se estaria preparado para liderar os meninos de sua Tropa. Sentiu que sabia tudo e não sabia nada. Ficou sabendo que em uma cidade muito longe da sua, morava um Velho Sábio Escoteiro, já com seus 95 anos e que resolveu viver como um ermitão sozinho bem longe da civilização. Pilar sonhava em ser um grande Chefe, afamado, reconhecido pelos seus conhecimentos e tirou alguns dias de férias partindo a procura do Velho Sábio Escoteiro. Quando chegou a sua choupana a beira de um rio de águas cristalinas e calmas, se apresentou ao Velho Sábio Escoteiro explicando o que o levava ali.

                    O Velho Sábio Escoteiro ouviu e em seguida o mandou sozinho à floresta próxima. Ele deveria ficar lá pelo menos dois meses e voltar com a tarefa de descrever os sons da floresta. Pilar não pestanejou. Partiu com sua mochila sem barraca. Ele sabia que tinha experiência de sobra para ouvir o Som da Floresta e viver ali o tempo que fosse necessário. Durante dois meses percorreu canto por canto da floresta e cansado retornou a casa do Velho Sábio Escoteiro.

                  – Descreva pra mim os sons de tudo aquilo que você ouviu. – Velho Sábio, disse Pilar, pude ouvir o canto dos pássaros, o roçar das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo suavemente na grama, o zumbido das abelhas e o barulho do vento cortando os céus.

             Quando Pilar terminou o Velho Sábio Escoteiro mandou-o de volta a floresta para tudo o mais que fosse possível ele ouvir. Chefe Pilar ficou intrigado com a ordem recebida. Ele não tinha descrito tudo que viu e ouviu para o Velho Sábio Escoteiro?

              Bom Escoteiro e bom cumpridor de ordem ele voltou e por longos dias e noites Pilar o Chefe se sentou sozinho na floresta, ouvindo, ouvindo... Não conseguiu distinguir nada de novo além daqueles sons já mencionados ao Velho Sábio Escoteiro. Então, certa manhã, sentado entre as árvores da floresta, começou a discernir sons vagos, diferentes e tudo o que ouvira antes. Quanto mais atenção prestava mais claros os sons se tornavam. Uma sensação boa de encantamento tomou conta do Chefe Pilar. – pensou que estes devem ser os sons que o Velho Sábio Escoteiro queria que eu ouvisse. Sem pressa o Chefe Pilar passou horas e dias ali, ouvindo e ouvindo pacientemente. Queria ter a certeza de que estava certo.

             Algumas semanas depois Pilar retornou a choupana do Velho Sábio Escoteiro. – Então, disse o Velho Sábio, o que mais você conseguiu ouvir?

              – Grande Chefe e Mestre, quando prestei mais atenção, pude ouvir o inaudível, o som das flores se abrindo, do sol aquecendo a terra e da grama bebendo o orvalho da manhã. O Velho Sábio Escoteiro acenou com a cabeça em sinal de aprovação. – Ouvir o inaudível é ter a disciplina necessária para se tornar um grande Chefe Escoteiro.  Apenas quando você aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, os medos não confessados e as queixas silenciosas e reprimidas, você um Chefe Escoteiro pode inspirar confiança a seus escoteiros, entender o que está errado e atender as reais necessidades dos seus jovens amigos.

                Ao partir, Chefe Pilar ainda ouviu o Velho Sábio Escoteiro dizer: - A morte de uma associação de jovens começa quando os chefes e lideres ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem mergulhara a fundo na alma das pessoas para ouvir seus sentimentos, seus desejos e suas opiniões reais.

               Não sei se o Chefe Pilar se tornou um grande Chefe como sonhava ser. Mas tenho certeza que ele agora tinha muito mais a dar sem receber

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Coisas de um Velho Chefe Escoteiro.



Coisas de um Velho Chefe Escoteiro.

Ando meio desanimado, procuro nos cantos do meu lar um lugar onde ficar e algumas vezes não encontro. Me sinto fora do contexto, fora do eixo... Vontade de acampar na minha varanda, esquecer meu pé de chão, minha trilha que deixei os campos onde acampei. Olho os transeuntes que passam, cabisbaixo tento ver o sol nascer e se pôr atrás das casas que escondem as montanhas que não vejo. Quero voltar aos velhos tempos, da passarada na porta da minha barraca me dando Sempre Alerta ao amanhecer. Tento escrever uma história. Não sei qual e como fazer. Chefe! Me diz meu amigo das estrelas, os tempos são outros! E eu o escuto e não comento. Alguém soprou em meu ouvido que o tempo bom foi aquele que o escoteiro participou... Gostou... Amou e não importa à idade, só vale a saudade. Tento me adaptar concordar com o que fazem dizem. Tento entender a animosidade que alguns têm com outros que aqui chegaram para ajudar... Não somos todos irmãos? Coração escoteiro no peito, lealdade só de sorrir e fazer uma boa ação? Olho no meu coração e sei que ali sempre cabe mais um... Muitos me olham bocejando, desejando que eu durma e siga meu caminho das estrelas... Ainda não chegou a hora... Quando chegar pego minha mochila e me arranco... Subo nas nuvens do meu novo lar... De lá dou adeus e digo: Querem me encontrar? Estou em Capella onde agora vou morar! Aí meu querido amigo vou parar, sentar a sombra de um cajueiro e me perguntar: - Vale a pena continuar escoteiro? Vale sim! Desanimar nunca! E quando digo ou escrevo o meu desleixo muitos dizem assim... Chefe! A vida é bela, eles não fazem por mal, tentam achar um novo caminho, tentam ser mais que o grande mestre BP, juram que o caminho é outro. Enxugo as lágrimas, sinto o cheiro da terra na mata que não vejo, e com saudades me lembro de Seeonee, onde o lobo Gris chora e diz: - “Onde me aninharei amanhã? Pois dora em diante os caminhos são novos”!