segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...


Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras.

Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia. Venha leia uma duas e comprove. Quem sabe poderá utilizar em reuniões com dias chuvosos, frio intenso e até em acampamentos ou acantonamentos. Agradeço sua visita, volte sempre!
Chefe Osvaldo. 

Pequenas histórias de Fogo de Conselho. Selma.



Pequenas histórias de Fogo de Conselho.
Selma.

Nota - Uma longa viagem começa com um único passo. Portanto faça seu trabalho com os jovens como se fosse a mais longa de todas as jornadas em sua vida.

                        Era guia. Quase nunca conversamos. Gostava de sorrir de gargalhar e parecia ser uma escoteira de bem com a vida. Há vi no pateo com os olhos rasos d’água. – Deveria me aproximar? O pátio estava vazio. Todos já tinham ido para suas casas. Aproximei-me. – Posso ajudar? – Não - Respondeu. Tentou me olhar nos olhos e não conseguiu. – Falou baixinho: - Chefe não quero voltar mais para minha casa! – Problema de difícil solução pensei. Sair de casa com aquela idade nem sempre era a melhor solução. – Abandonar todos? Não sentiriam sua falta? Ir para onde? – Ela não disse nada. – Selma, não sei o que ouve. Nem sei como ajudar. Só posso dizer para não sofrer por pequenas coisas que agora acha grande demais. Às vezes, o pequeno deslize é aumentado por uma palavra ou um pensamento negativo nosso até um ponto intolerável. Quem sabe alguém disse uma palavra ruim, fez crítica, uma ação intempestiva, um olhar, um gesto, um riso podem crescer de importância e chegar ao imprevisível.

                       Ela continuou calada. De cabeça baixa ainda chorava. – Selma se não me disser nada é por que não quer ouvir. Se não quer ouvir tome uma decisão. Vai para onde escoteira? – Meu pai Chefe disse que vai separar da minha mãe! – Quando o interpelei me disse coisas terríveis. – Ia ficar calado, mas resolvi dizer: - Não seria um momento de raiva? De dor? De perda? – Tente entender. Se você não ligar deixar que "entre por um ouvido e saia por outro" ou olhar por outro lado, certamente que, logo, tudo volta ao normal. Não dê valor ao que nenhum valor tem. Isto faz parte de todos nós. Muitas vezes queremos dizer a última palavra achando que com isto iremos convencer alguém que não quer ser convencido. Todo casal passa por crises. Algumas sérias outras de fácil solução. Quem sabe eles aceitarão o grande desafio e irão superar esta crise. Quem sabe eles irão ver que o amor que os uniu não deve ser sacrificado em nome da família. Mas se cada um quiser o seu canto minha amiga escoteira nada se pode fazer...

                   Vá para casa. Não interfira. Se disserem alguma coisa responda, mas não ponha lenha na fogueira por nenhum dos dois. Quando você reduz um lado negativo aumenta um lado positivo. Um meu amigo espiritual sempre escreveu que quando alguém lhe magoar ou ofender não retruque, não responda da mesma forma. Apenas sinta compaixão daquele que precisa humilhar ofender e magoar para sentir-se forte. Pense como ele. Ontem passado. Amanhã futuro. Hoje agora. Ontem foi. Amanhã será. Hoje é. Ontem experiência adquirida. Amanhã novas lutas. Hoje, porém é a nossa hora de fazer e de construir. Selma parou de chorar. Olhou-me e me agradeceu. Obrigado Chefe. Precisava ouvir palavras de amor e incentivo.

                Na reunião seguinte ela me procurou: – Chefe estou feliz. Tudo voltou com era antes. Obrigado Chefe, obrigado!

domingo, 19 de agosto de 2018

Lendas Escoteiras. João Fernando Capelo de olhos azuis. (Conto Baseado no livro “Fernão Capelo Gaivota”).



Lendas Escoteiras.
João Fernando Capelo de olhos azuis.
(Conto Baseado no livro “Fernão Capelo Gaivota”).

Nota - “Quase todos nós percorremos um longo caminho. Fomos de um mundo para o outro, que era praticamente igual ao primeiro, esquecendo logo de onde viéramos, não nos preocupando para onde íamos, vivendo o momento presente.” “Quebrem as correntes dos seus pensamentos e quebrarão as correntes do corpo.” “Tem alguma ideia de quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando?” – Este conto o fiz quando ouvia a trilha sonora do filme Fernão Capelo Gaivota magistralmente cantada por Neil Diamond.

             O sol se punha na enseada de Santo Agostinho e as gaivotas na nevoa do alvorecer voejavam por cima dos barcos pesqueiros que chegavam como a festejar o dia bom que conseguiram na sua jornada de pesca. João o Capitão de um dos barcos, um antigo Escoteiro ali na proa olhava sua cidade com olhos firmes. Foi ali que ele nasceu e dizia para todos que ali iria morrer. Sempre dizia para Lomar seu companheiro de pesca que o mais importante na vida é olhar em frente e alcançar a perfeição naquilo que a gente mais gosta de fazer. João tinha belos olhos azuis e suas memórias nunca esqueceram como foi feliz na jornada nas Escarpas próximas a praia do Além mar. Quantas vezes acampou ali? Gostava dos escoteiros, gostava de ficar lá vendo o voo das gaivotas que esperam os barcos de pesca ao entardecer.

               Lembrava-se dos companheiros da Patrulha Gaivota que olhavam João com pena e faziam tudo para ajudá-lo. Mancava, andava com muita dificuldade e todos sabiam que ele queria vencer, não ficar para trás nas jornadas, andar sem limites até atingir a perfeição, Para ele ser Escoteiro sempre fora uma forma de se movimentar sem mostrar que era um aleijado um coitado que não podia andar direito. Quando iniciou como Escoteiro João tentou acompanhar sua patrulha e se machucou. Não desistiu. Ele sabia que aceitar seu destino era morrer. Devido a sua perseverança e ousadia João não criticava ninguém só a si mesmo para não desistir de tentar. Nunca pensou em prejudicar sua patrulha, chorava em pensar que um dia poderiam desistir dele e ser banido do que amava.   

                João dizia para sim mesmo: - Quebre as correntes de seu pensamento e também irás quebrar as correntes do teu corpo. Ele sabia que com sua compreensão poderia ver até onde pode ir. Descubra mais do que já sabe, dizia. Talvez fazendo isto você encontre seu caminho que fará mais sentido para si, pois as jornadas que vais enfrentar não pode ter limites. João sabia que não iria desistir nunca. Fazia tudo com suavidade e paciência. Nunca esqueceu quando fez sua promessa, prometeu muito mais. Prometeu que nunca seria um empecilho para ninguém. Doía, a perna sacolejava, mas João não desistia. Ele era livre para pensar e não podia deixar para trás a força que sua patrulha lhe dava.   

                 Por muitos anos João andou pelas praias, pelas florestas pelos campos e até se arriscou a embarcar em um pequeno bote que a Tropa possuía para velejar por longos mares sem fim. João sofreu experiências incríveis, de solidão, de frio e fome, mas nunca se abateu. Certo dia João encontrou um menino Escoteiro que sofria com suas mãos que doíam horrivelmente e mesmo assim o cumprimentou. – João, disse o menino Escoteiro, você faz ideia quantas vidas levamos para começar a entender o que somos? Não viemos aqui para desistir. Temos que mostrar que podemos e assim vamos aprender até atingir a perfeição. Quebre as correntes de seu pensamento e assim também irás quebrar as correntes do teu corpo. João acreditou no menino Escoteiro e assim o fez. 

                  João viu que como Escoteiro vivia em outra sociedade onde todos desfrutam do companheirismo e da paixão pelo escotismo. Ficava horas a fio treinando a andar, a pular ele sabia que precisava ter o respeito dos demais escoteiros. Não queria ser olhado como um “coitado” O processo não foi fácil, seus amigos escoteiros mais experientes não o deixavam sozinho. João viu que ali o respeito e amor eram sagrados. Viu que compartilhavam o mesmo ideal. Seu Chefe sempre lhe dizia: - João você tem de compreender que um Escoteiro tem uma ilimitada ideia de liberdade, uma imagem firme de si mesmo. Seja fiel aos seus ideais. Procure João com sua compreensão fazer o que tem de fazer. Descubra o que você no seu pensamento já sabe!

                    A chuva na praia, o céu beija o mar, o Escoteiro espera sua hora. E João continuou sua saga de sempre treinar no amor. Ele sabia que o espírito não pode ser verdadeiramente livre sem a capacidade de ser mais um, de perdoar e continuar no progresso do seu caminho escolhido até se tornar um Escoteiro de verdade. A Patrulha Gaivota cresceu. Agora já compartilhavam mais as ideias entre todos inclusive João. Tinham uma Lei a seguir e João sabia que ela o faria um Escoteiro que sempre sonhou ser. – Vocês querem acampar onde ninguém nunca foi, disse seu monitor, para isto precisam aprender a se ajudarem e se conhecerem melhor. Aprender que os mais fortes nunca deixam os mais fracos para trás. Se fizerem assim o amor e o perdão irá acontecer. Todos irão ver que o respeito entre amigos será para sempre.

                  O Barco se aproximava do cais. João olhou para Lomar. Ele nunca fora Escoteiro e parecia uma gaivota perdida do bando quando João o encontrou. João lembrou-se de tudo que fez em sua patrulha, nas conquistas nas grandes atividades Escoteiras, na sua promessa e disse para Lomar: - Não é ser amado e admirado pelos outros que nos dá a alegria de viver. Esta alegria meu amigo provém de ser capaz, de amar e admirar tudo que achara raro, bom e belo. Todos nós podemos aprender quando quisermos aprender... Hoje você e eu singramos os mares para podermos viver um pouco melhor e dar o máximo a todos que nos cercam. Ainda me lembro de minha patrulha, que sempre sorria para mim. Meus velhos companheiros nunca se importaram em me ajudar. O mais importante na vida é olhar em frente e alcançar a perfeição naquilo que você mais gosta de fazer!

                Uma gaivota branca sobrevoou o Barco e João jogou no mar um pequeno peixe. Olhou para Lomar e repetiu: - Pois é assim como esta gaivota eu sou também a perfeita expressão da liberdade que aprendi com meus amigos de outrora. A única Lei verdadeira é a que nos liberta. Cada um de nós encontra e segue o que mais amamos fazer, não importa o que os outros pensem!

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Lendas Escoteiras. Pedras brancas de gelo na Mata do Quati.



Pedras brancas de gelo na Mata do Quati.

Nota - O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto.

Atemporal do tempo...

17 de agosto de 2018.
Faz tempo que não vejo enormes temporais em minha cidade. Fico aqui na minha varanda relembrando a queda de granizo em quantidades para encher minha rua. Gosto do barulho da chuva das pedras de gelo caindo sobre as telhas da minha varanda. Música sublime para mim. Amo isto eu adoro a chuva. Não sei por que ela se prendeu a mim e ficou presa no meu coração para sempre. Voltei no tempo atemporal. Seria como se eu tivesse a mágica de transitar no tempo sem necessariamente pertencer ao passado o presente ou ao futuro. Sem querer me lembrei de um conto que li – Sempre me lembro dele: - Ontem chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. “ Ponho-me a caminhar sob sol e vento“. Vou ali ser feliz e já volto”. Um dia quem sabe vou postar todo ele. Atemporal, voltar no tempo sem medo de perder o presente e o futuro. Com todo o frio que fazia na minha rua, minha mente se foi. Plantou-se em um passado que nunca esqueci.

20 de janeiro de 1958.
Seis Escoteiros Seniores. Olhos vivos a perscrutar com a vista todos os lugares naquela noite escura, sem luar sem medo da chuva ou vento. Acampamentos vividos que alguns não esqueciam jamais. Em volta do fogo, eles comiam banana assada. Pareciam mais pioneiros que sêniores. A moda índia sentaram a vontade naquele foguito e se esquentavam de uma noite fria. Um “foguito” pequeno. Chamas baixas, muitas brasas para não adormecer o café no bule, já perdendo seu esmalte de anos e anos de uso. – Parece que vai chover... – Tãozinho custava para falar. Era um sênior miúdo e de olhos vivos. Minutos se passaram. – Gosto da chuva, adoro uma boa dificuldade debaixo de tempestades. – Helinho ria para ele mesmo. Que o visse naquela hora achava que estava louco. – Israel olhou de soslaio. Não disse nada. Ele nunca esqueceria o acontecido. Darcy não perdia a pose de dar uma boa gargalhada. – Valeu! O melhor acampamento que fizermos. – Chico o menorzinho dos seniores queria dizer alguma coisa. Não sabia o que dizer. Eu estava com os olhos fechados. Queria reviver o momento. Voltar no tempo. Sentir as tremuras, o medo e a força que fizemos em reviver, em refazer um acampamento destruído.  

04 de janeiro de 1954.
Cantantes, sorridentes, cada um já sabia o que fazer. O esqueleto da barraca suspensa entre quatro árvores estava quase terminado. Faltava ainda boas amarras nos tripés. Chico e Israel adentraram mais fundo na mata. Precisavam de bons cipós que não quebravam. Sisal? Nem pensar. Nem existia ainda. Aboletado lá no alto Israel e Tãozinho elevavam no ar uma bela tora que serviria de escada até o alto da árvore. Eu e Helinho terminávamos nossa cozinha. Planos futuros para ela também ficar suspensa. Belos planos. O céu escureceu. Tãozinho gritou! – Nuvens baixas cor de cobre? Todos juntos responderam – É temporal que se descobre. Melhor armar duas barracas de duas lonas para nos abrigar. O toldo foi jogado em cima da cozinha. Darcy correu a cobrir o lenheiro. Uma patrulha que sabia o que fazer. Não eram amadores. Ploc! Ploc! Uma pedra, duas um punhado. Pedras de gelo enormes!

20 de janeiro de 1958. 
Em volta do “foguito” que dormitava e queria apagar, cada um pensava na vida que tinham levado em belos acampamentos no passado quando Escoteiros da Patrulha Leão. – Foi duro, não foi fácil. Disse Helinho. Lembra Darcy das barracas? – Tãozinho riu. Ele não gostava de rir. Viraram peneiras. Enterramos antes de voltarmos. Perdemos quase tudo. – E o raio? Disse Darcy. Caiu como um chumaço na base do estrado que fazíamos para as barracas. Não sobrou nada. – Silêncio profundo. Cada um voltava no tempo. Chico levantou e pegou alguns biscoitos – Alguém aceita? Foi você Vado que correu na frente de todo mundo para ficar embaixo da enorme aroeira? – Israel gargalhou forte. – Ele parecia um corisco com medo da chuva! – Medo das pedras enormes que caiam, eu disse. – Bons tempos, disse Israel. Dormimos presos uns aos outros molhados sem poder ou sem onde abrigar. – Todos concordaram com um leve levantar de sobrancelhas. Seniores, quando se encontram em volta de um “foguito” tem histórias para contar. Um vento forte levantou fagulhas no ar. – Vai chover? Disse Tãozinho. Se tem vento e depois água? – todos responderam: Deixe andar que não faz mágoa.  – Vou dormir eu disse. Uns foram outros ficaram. Coisas gostosas para lembrar. Passado que se foi.

17 de agosto de 2018.
Meus olhos ficaram húmidos. Lembranças sempre me tocam o coração. Tempos bons, tempos alegres, cheio de aventuras... Tempos que não voltam mais. Olhei a chuva fininha que caia. Acalento para minha alma. Outro dia recebi um telefonema. Era Israel. A mesma voz. O mesmo estilo mineiro que adoro. Onde anda o Darcy? O Tãozinho? O Helinho? O Chico deve estar zanzando por aí. Era o mais novo. Gente fina. Escoteiros e seniores que tiravam o chapéu quando uma dama bonita passava por eles. Lembranças... Dizem que quem não tem lembranças não viveu. Passou pelo tempo como se não tivesse passado. Hã quanto não daria para entrar em uma máquina do tempo. Mas ela ao me levar teria que fazer menino de novo. Dizem que foi Clarice quem disse: -
O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto.

E as pedras brancas embranqueceram minha rua que tanto amo molhadas pela chuva que caia copiosamente!

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Lendas Escoteiras. Meu Chefe meu mestre meu herói!



Lendas Escoteiras.
Meu Chefe meu mestre meu herói!

Nota - Algumas pessoas surgem em nossas vidas como uma benção, outras como lição. A pior ambição do ser humano é desejar colher os frutos daquilo que nunca plantou. Seja exemplo para você mesmo. Não tenha tempo para lembrar-se de quem lhe deixou triste, fique, portanto mais preocupado com quem o faz feliz.

                   Chegou à sexta feira. Eu estava cansado. Precisava de um fim de semana só para mim, mas tinha prometido ao Guilherme meu filho assistir naquele sábado sua primeira partida oficial de futebol. Aceitei sem reclamar. Nos seus nove anos se tornou um filho do qual me orgulhava. Queria ser mais presente e não fui o pai que devia ser. Precisava de umas férias. Joelma reclamava da minha entrega ao trabalho e eu sabia que ela tinha razão. Tinha sido escolhido pelo Conselho da Empresa como o novo Presidente e me agarrei de corpo e alma tentando mostrar que era capaz. Fora um sonho que se realizou. Meu primeiro emprego e agora estava no topo, não podia decepcionar aqueles que confiaram em mim. Cheguei até a janela envidraçada do décimo sexto andar e vi lá embaixo um aparato dos bombeiros e sirenes a zumbir nos céus. – Chamei Dona Marta minha secretária para saber o que estava acontecendo. – Um atropelamento Senhor. Um mendigo, um morador de rua que foi enxotado pela nossa segurança perdeu o equilíbrio e caiu na rua sem desviar do trânsito local.

                     - E o que ele fez Dona Marta para ser expulso do prédio pela segurança? – Senhor, há vários dias ele vem aqui querendo falar com o senhor. Explicamos a ele que seria impossível que o Senhor era o Presidente e não podia falar com qualquer um! - E o que ele queria comigo? - Veja só Senhor, ele dizia que queria abraçá-lo, queria sentir a sua vitória e confirmar se ainda tinha o espirito Escoteiro de outrora. Disse que o Senhor tinha prometido ser um homem de bem e de caráter. – A gente ria dele e ele insistente em falar com o Senhor. – Ele disse o nome Dona Marta? – Não lembro, posso perguntar a recepção se for necessário. Ligue já Dona Marta! Alguns minutos depois ela voltou sorrindo: - Um pobre diabo Senhor, calça rasgada, camisa velha, chinelo e dizia que era o Chefe Conrado! Que o senhor o conhecia. Veja só Senhor, um pé rapado se fazendo de Chefe importante. Chefe de que Senhor? Com aquelas roupas, com aquele cheiro ele não era nada, apenas um pobre diabo que nem um canto para morrer tinha.

                        Dizem que esquecer é uma necessidade. Que a vida é uma lousa, em que o destino sempre nos escreve um novo ocaso. Será que eu tinha apagado a escrita do tempo e o deixei para trás? Meu coração bateu forte. Minhas lembranças voltaram sem pedir permissão. O Chefe Conrado sempre foi minha luz, meu mestre meu herói. Porque não me disseram nada? Eu era importante demais? Logo ele que me deu tudo e eu nunca dei nada para ele depois de rico e famoso? É a experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido. O passado não importa. Sai correndo sem avisar. Foi como um século a descida do elevador privativo até a recepção. O alvoroço foi desfeito. A calçada lavada. Transeuntes nem sabiam o que houve ali. – Para onde o levaram? Perguntei ao Guarda de plantão. – Ele quem Senhor! Ele! Gritei. O que foi atropelado! – Senhor apenas um pobre homem que nada tem a ver com nossa Empresa internacional. Quem liga para ele?

                        Vontade de socá-lo. Resguardei-me para não falar palavrão. Ele sempre me dizia - Escoteiro, o homem civilizado, o homem de caráter e que tem honra, não diz e não fala palavrão! Quantas saudades me vieram à mente. Chamei meio mundo da empresa. Descubram já para onde foi levado. Eu preciso saber e não quero desculpas. – Estava sendo indelicado. Eu não era assim. O Chefe Conrado foi o pai que nunca tive. Foi à mãe que encontrei. Criado pela minha avó eu praticamente não tinha ninguém. Se sou o que sou devo a ele. Minha mente viajou no tempo e foi parar no acampamento do Pico do Falcão. O sol se ponto. Eu e mais três escoteiros monitores sentados olhando para o horizonte. – Veja ele disse. Porque se sentir importante se o sol que se põe toda tarde e volta novamente fazendo o mesmo trajeto, e nunca foi tão importante assim? Quem entendeu? Eu fiquei matutando e a noite depois de que a fogueira foi acesa ele bateu nas minhas costas sorrindo: - “Nunca desista de algo que você não consegue passar um dia sem pensar”.

                     Nossa quanta saudades do meu tempo de Escoteiro. Se eu pudesse ter apenas mais um desejo eu iria pedir voltar no tempo e ser Escoteiro novamente. – Hospital Santo Ângelo Senhor – Dei ordens para preparar o helicóptero. Precisava chegar logo, saber como ele estava. Pagaria tudo que fosse preciso. Não haveria senões, não me importava o preço, o Chefe Conrado merecia isto e muito mais. Subi até o heliporto e parti. No meu destino o Diretor me esperava. A empresa era uma das mantenedoras e a direção sabia disto. Ele estava sendo operado. Costelas, braços e pernas quebrados. Não iria durar muito tempo. – Façam o que for preciso. O possivel agora e o impossível daqui a pouco. – Três horas depois me chamaram até a enfermaria. Ele estava enrolado em um cobertor Velho e mal cheiroso. – Exigi respeito. Foi levado para o melhor apartamento. Ainda estava sonolento e nem me reconheceu. Fiquei ali no quarto por tempo que não soube medir. Liguei para Joelma explicando. Ela sabia do meu amor pelo Chefe Conrado.

                    De madrugada dormitava quando ouvi sua voz – Escoteiro, é você? Levantei chorando de alegria. – Não me abrace, estou moído, me dê somente um aperto de mão! Fiquei com ele toda manhã e voltei à noite para ver como estava. – Chefe, eles não sabiam quem era o Senhor. – Desculpe! – Escoteiro, só existe um universo, oito planetas, 204 países, 809 ilhas, sete mares, sete bilhões de pessoas. Como posso exigir que soubessem quem era eu? E você sempre foi o Escoteiro que me deu tanta felicidade enquanto estivemos ombreando nos nossos acampamentos que nunca esqueci. Eu chorava de alegria. Disse para ele que agora tudo ia mudar. Ele na sua simplicidade disse-me que não queria nada, tinha o mundo, tinha a lua tinha a estrelas que alimentavam seu lar. – Escoteiro! Algumas vezes coisas ruins acontecem em nossas vidas para nos colocar na direção das melhores coisas que poderíamos viver. Nunca sabemos quão forte somos até que ser forte seja a única escolha.

                Um mês depois ele deixou o hospital. Não deixou endereço, não disse para onde foi. Fiz tudo para localizá-lo e não consegui. Chamei Guilherme e perguntei se queria ser Escoteiro. Ele me olhou ressabiado. Pai, não sei o que é isto. Vai saber, vai ver que lá é onde damos os primeiros passos para enfrentarmos as dificuldades da vida! Pai será que vou gostar? Não sei Guilherme, se não gostar terás o direito de decidir. Naquela tarde eu e ele adentramos no pátio dos escoteiros. Uma lembrança forte do Chefe Conrado. Nunca esqueci o que ele me disse quando fui para a faculdade: - Escoteiro, se a caminhada está difícil, é porque você está no caminho certo! E de novo voltei ao meu passado sendo o Escoteiro que eu sempre fui!

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Contos de Fogo de Conselho. Um novo dia para viver!



Contos de Fogo de Conselho.
Um novo dia para viver!

Nota – Uma história hipotética. Quem sabe olhada por um ângulo só. Quem sabe a história de muitos que saem do escotismo ou para sempre ou vão para outra associação. Será que lá é diferente? Haverá democracia? Não é o escotismo de um só dirigente? E o que fazer para mudar tudo isso? É melhor dizer que somos disciplinados e nosso dever é colaborar com a juventude do nosso país? Real ou imaginário? Você decide.

                       James Nabor olhava incrédulo o Chefe Teobaldo. Nunca pensou em receber uma visita sua. Foram muitos anos atuando juntos. Não queria voltar no tempo, mas ele era um cavalheiro, tinha um coração escoteiro e recebeu Chefe Teobaldo com um sorriso sem fingimentos. Naquele instante James Nabor tentou pensar porque abandonara o escotismo. Dez anos passados! Lembrava o quando foi feliz. Os jovens escoteiros de outrora deixaram marcas em seu coração. Lembrava como gostavam dele e o que diziam. Chefe! O senhor é insubstituível.

                       Tinha liberdade e nunca tolhido em suas ações. Era apolítico e da direção se mantinha a margem de tudo. Amava seus escoteiros e sabia que eles o amavam. Consideravam-no o herói Escoteiro que sonhavam em ser. Quantas excursões? Quantos acampamentos? Quantas atividades volantes e belos bivaques? Sorria ao lembrar. Para ele o escotismo era os ensinamentos de Baden-Powell: -                “Escotismo é vida ao ar livre”! Sem isto não tem escotismo!

                     Orgulhava-se do que fazia. Perguntavam qual era seu segredo, qual era sua mágica em manter os meninos nas patrulhas por muitos anos. – Não tem segredos nem magia, basta ouvi-los e dar a eles o que querem, respondia. Os que passavam para os seniores sempre voltavam nas reuniões da tropa. Quatro preferiu serem seus Assistentes a passarem para os pioneiros. Nem tudo dura para sempre. A política começou aos poucos a soprar em seu Grupo Escoteiro. Já se via chefes se digladiando por cargos e exigindo normas, e eleição.  

                     – Só assim seremos um Grupo Escoteiro Padrão diziam. – Chefe! Este comodismo é o que mais incomoda. Na realidade é uma omissão. – Como pode fazer parte de uma associação se não a conhece bem? Já pensou quanto ganha por essa passividade em sua vida escoteira? Conhece a associação por dentro? Isto não está afetando nossa imagem? Como formar cidadãos úteis e participantes, se não participamos da vida administrativa e politica da associação?  

                             Será que os novos chefes estavam certos? Chefe James Nabor ficou em duvida. Chegou à conclusão que apesar de conhecer bem os meandros técnicos escoteiros ele nunca participou da vida política da Associação. Aqui e ali pululavam comentários, alguns prós e outros contras. Ele tinha o POR e os estatutos e resolveu ler novamente. Pensou em ir a Assembleia Regional ver melhor como funciona, iria também a Assembleia Nacional que seria em seu estado.

                           Lembrou-se de um artigo do Escritor Aldous Huxley: - “Uma organização não é consciente nem viva”. Seu valor é instrumental e derivado. Não é boa em si; É boa apenas na medida em que promoveu o bem dos indivíduos que são partes do todo. “Dar primazia às organizações sobre as pessoas é subordinar os fins aos meios”. Estava convencido que devia participar mais, viver plenamente a vida da Associação, participar, opinar, sugerir, conhecer e discordar se preciso for.

                   Começou a participar ativamente. Assustou quando conheceu as entranhas da Associação por dentro. Quantas vaidades, quanta prepotência. Alguns se achavam portadores do caminho para o sucesso. Não o de Baden-Powell, mas o dele. Viu ideias que nunca tinha pensado. Mas no final notou eram sempre os mesmos eleitos e poucos novos apareciam. Sempre com novas ideias deste que as normas soprassem com vento a favor... deles! Sentiu-se deslocado. Ali não havia democracia apesar de muitos dizerem o contrário.

                   Os eleitos eram escolhidos a dedo pelas suas regiões ou os próprios diretores da associação. Votar e ser votado, decidir sem participar era de responsabilidade de não mais que 0,2% do efetivo adulto nacional. Isto é representativo? Lembrou-se das Palavras de BP: - A maior ameaça a uma democracia é o homem que não quer pensar pôr si mesmo e não quer aprender a pensar logicamente em linha reta, tal como aprendeu a andar em linha reta. A democracia pode salvar o mundo, porém jamais será salva enquanto os preguiçosos mentais não forem salvos de si mesmos. Mas quem dava bola para Baden-Powell?

                   Chefe James Nabor sabia que boa parte dos participantes da Associação tinham condições financeiras para estarem presentes e participar ativamente. Seria difícil o assalariado, ganhando pouco participar. Ele pagou um enorme valor para estar presente na Assembleia Nacional. Uma pasta, um lenço e dois almoços. Três dias! Barato ou caro? Porque uma taxa assim? Mesmo quando a região conseguia patrocínio a taxa continuava alta. – Temos que financiar a passagem e estadia dos Dirigentes Nacionais, diziam a boca pequena.  

                   Não houve nenhuma discussão importante. Nunca aceitavam sugestões e quando um novato insistia diziam que ali não era o fórum apropriado. Sentiu saudades da ética, da lealdade do cumprimento do dever. Riu para sí próprio pensando que nada diferia dos nossos políticos Brasileiros. Para que modificar e perder as regalias atuais? Ele sentia pena dos que acreditavam que tudo poderia ser mudado. – Chefe! A pressa é inimiga da perfeição! 

             James Nabor voltou para casa pensativo. Ele não poderia jogar com duas moedas. Não tinha duas caras. Ou ficasse e lutasse para tentar mudar ou seria melhor ir para casa e deixar para outros. Disseram a ele das outras novas associações que estavam aparecendo. Será que serão democráticos e passar o poder a quem for eleito? Será que seriam melhores nas prestações de contas, no trabalho em equipe para diminuir os gastos dos voluntários e dos jovens?

              Agora dez anos depois estava ali o Chefe Teobaldo. – Precisamos de você. O grupo vai de mal a pior. A evasão cresceu. Precisamos de suas ideias práticas! Chefe James Nabor não tinha respostas. Ele sabia que nada mudou. Difícil mudar se não existe uma união de forças para tudo mudar. Ele sabia que sozinho nada podia fazer. Será que seus pares comprariam a ideia para mudar o escotismo em seu país?

Gostaria de ouvir sua opinião do que devia responder ao Chefe Teobaldo pelo Chefe James Nabor. Poderia ajudar?

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O legado do lobinho Pasqualino



Uma fábula deliciosa para os chefes de Alcateias lerem ou contarem aos seus lobinhos e lobinhas.

O legado do lobinho Pasqualino

                Pasqualino queria muita coisa. Parecia um menino mimado. Queria e pedia aos seus pais videogame, uma bicicleta e roupas novas. Ainda não tinha sete anos e seus pais, pessoas humildes tentavam explicar e ele as dificuldades que estavam passando. Ele não entendia, ou melhor, não queria entender. Quando resolveu entrar para os lobinhos foi um Deus nos acuda! Seus pais o levaram e o matricularam, dizendo ao "Chefe" Escoteiro que não tinham condições financeiras. Pasqualino gostou. Divertia-se. Não era um bom lobinho. A Akelá o ensinou as cinco leis e ele nem aí. Na matilha não obedecia ao primo. Nas formaturas ficava brincando para chamar a atenção de todos.

                Sempre davam uma oportunidade a Pasqualino. A própria Akelá estava desistindo. Foi à casa de seus pais e mesmo humilde era limpa arejada e o casal de uma simpatia radiante. Na sua promessa acharam que Pasqualino iria mudar. Não mudou. O Grupo Escoteiro comprou para ele o uniforme e Pasqualino nem sorriu. Achava que era a obrigação de todos para com ele. Era assim também na escola. Todos preocupavam com seu futuro. Isto não podia continuar. Mandar embora do grupo o Pasqualino não era a solução. Iria continuar assim e apesar de pais maravilhosos todos achavam que o futuro dele seria nebuloso.

                Um dia em um feriado de Sete de Setembro a Alcatéia foi fazer um acantonamento. Claro, a taxa de Pasqualino foi paga pelo grupo. Sua mãe esmerou em tudo para que fosse separado para ele tudo que a Alcatéia pediu para o acantonamento. Mas ao chegar lá, ele viu que os outros da matilha tinham coisas que ele não tinha. Esbravejou. Reclamou. Quem não conhecesse achava que ele era um pobre menino onde todos só queriam prejudicá-lo. No sábado à tarde, enquanto sua matilha era encarregada da limpeza do salão onde se reuniam Pasqualino se mandou.

               Pensou consigo que iria dar um susto na Akelá e quando sua mãe soubesse o que aconteceu ela iria dar muito mais a ele. Menino danado o Pasqualino. Ao sair na pequena trilha que levava a uma montanha ele se encantou. Era como se a trilha o hipnotiza-se. Seguiu a trilha cantando “A Promessa de Mowgly era matar o Shere Khan”. Ele gostava desta. Cantava muito. Viu que próximo à trilha tinha um regato e por que não dar um mergulho? Pois é. Pasqualino não tinha mesmo responsabilidade. Pulou na água e deixou a correnteza o levar. Não viu, mas uma enorme cachoeira engoliu Pasqualino e ele caiu de uma grande altura.

              Desmaiou. Acordou com a barriga cheia de agua e viu ao seu lado um enorme tigre que o olhava e sorria. Custou em Pasqualino? Custou conseguir que você me achasse. Pasqualino tremia. Quem é você? Shere Khan meu caro Pasqualino. Tentei pegar o Mowgly, mas Baloo e Bagheera não deixam eu me aproximar dele. Agora tenho você. Vou comê-lo inteirinho. E Shere Khan ria. Pasqualino começou a gritar e saiu correndo. Corria e gritava. Ao seu lado Shere Khan o acompanhava e dizia: - Pode gritar, ninguém vai ouvir. Ninguém se interessa por um lobinho indisciplinado como você. Não deu mais. Pasqualino caiu e acordou na caverna de Shere Khan. Ele tinha ascendido uma fogueira. Lembrou-se do fogo do conselho que assistiu no ultimo acampamento. Agora era diferente. Tenebroso por assim dizer.

             Estava amarrado. Chegaram outros tigres. Enormes! Dentuços! Olhos vermelhos com fogo.  Este vai ser nosso banquete? Perguntaram. Shere Khan ria e dizia – Vamos nos fartar. E esse vai ser delicioso. Ele grita, ele berra por qualquer coisa. E melhor sua carne deve estar estragada, pois não se contenta com nada. Só sabe reclamar e pedir. Não faz nada para ninguém! Um dos tigres lambeu os beiços. Que delicia! Pasqualino estava horrorizado. Lembrou-se de rezar. Nunca tinha feito isto. Tudo que queria conseguia mesmo sendo pobre por isso nunca rezou. Sua oração não saia. Estava rouco. Levaram-no para o fogo. Os tigres começaram a dançar em volta e a cantar: “Come, come tigre manco, que é hora de fartar, vamos todos meus amigos, pois é hora do jantar!”.

             Pasqualino acordou gritando. Gritava e berrava. Sentia a chama do fogo da caverna do tigre lhe queimando o corpo. A Akelá estava assustada. Viu Pasqualino deitado debaixo de uma arvore e nem sabia o que aconteceu. Bem, conta-se a lenda que Pasqualino mudou. E como mudou! Ninguém mais reconhecia nele o Pasqualino de outrora. Dizem e isto eu não sei, que Pasqualino só fazia o bem. Era amado na Alcatéia e quando foi para a tropa foi recebido com grandes abraços e lá fez grandes amigos.

         Os pais de Pasqualino se sentiram os mais felizes do mundo. Seu filho do coração era outro. Agora não importava para ele a riqueza. Tudo que conseguia sabia dar valor. Valeu Pasqualino. Valeu. Espero que seu legado sirva de exemplos a todos os lobinhos indisciplinados que ainda existem por aí. Sei que são poucos, pois os que conheço sempre ouvem os velhos lobos.

          Até hoje Pasqualino dá risadas. Sabe que Shere Khan mais uma vez perdeu. Tigre manco tigre louco, vá para sua terra! Para sua caverna mal cheirosa! Se um dia o encontrar você não vai me reconhecer! Pasqualino ria. Pois é meus amigos eu soube que se tornou um grande médico e que ajudava em todas as favelas da cidade. No Grupo Escoteiro que organizou só aceitava meninos e meninas pobres. Sempre contava para eles que ali Shere Khan não tinha vez! Viva Pasqualino, que ele consiga atingir a felicidade e encontre o caminho para o sucesso que merece!

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Histórias da Jângal. Como Apareceu O Medo e outras histórias.



Histórias da Jângal.
Como Apareceu O Medo e outras histórias.

O rio é extinto, o lago é escasso.
Nós dois iremos, braço a braço.
O flanco imundo, a face quente.
Contornaremos a corrente.

Presos os dois de um temor forte,
Sem mais pensar em caça ou morte.
E quando o corço a se esconder
Também vê o lobo a tremer.

E o bode eis que vislumbra o dente
Que lhe matou o pai, horrente.
O rio é extinto, o lago é escasso,
Nós dois iremos braço a braço.

Essa história se passa antes do primeiro conto, quando Mowgly ainda vivia com os animais na selva. É tempo de seca e todos os animais se reúnem no Poço da Paz, um dos poucos locais que acumulam água e onde a caça é proibida e todos, carnívoros ou herbívoros, vão até ali sem medo para beber. Shere Khan perturba a paz reinante e Hathi, o elefante, o animal mais sábio da floresta, resolve contar a história de como, por culpa de um tigre, o medo surgiu entre os animais.

Eu pessoalmente acho esse um dos contos mais sem graça do livro, apesar de reconhecer seu valor como lenda indiana coletada pelo autor. Os personagens nada fazem na história a não ser ouviu o conto de Hathi, e sinceramente isso não é das coisas mais empolgantes.

O Avanço da Selva
- Depois que Mowgly é expulso da aldeia dos homens – fato descrito no conto Tigre! Tigre! – ele resolve deixar as coisas como estão e voltar para a selva, onde ele agora acredita que pertence pelo resto da vida. Mas aí ele e seus amigos lobos ouvem o caçador Buldeo conversando numa trilha com alguns carvoeiros, e Mowgly descobre que a aldeia vai queimar o casal que o acolheu como feiticeiros por terem abrigado o menino-demônio.

Enfurecido, Mowgly vai até a aldeia e conversa com Messua, a mulher que o acolheu, e a encontra machucada e amarrada dentro de uma casa. O marido dela explica – mas Mowgly não entende bem – que o motivo real pelo qual estão sendo acusados é que ele é um dos homens mais ricos da aldeia, e se ele for queimado como feiticeiro todos os seus bens serão redistribuídos, O cheiro do sangue de Messua faz com que Mowgly tome a decisão definitiva. Ele planeja resgatar ela e o marido, arranjar uma “escolta” até a cidade mais próxima onde os ingleses têm base – os ingleses não aceitam essa bobagem de queimar vivos os acusados de feitiçaria – e destruir toda a cidade.

Para isso ele pede a ajuda de Hathi, o elefante, que já participou de uma destruição semelhante, quando foi pego por uma armadilha e resolveu se vingar dos homens que a tinham armado. Não estamos falando de um simples duelo entre dois seres que são inimigos. Estamos falando da destruição de casas e fazendas de dezenas de pessoas para a vingança pessoal de um garoto pesado. E o pior – ou melhor – é que é tudo baseado em história real: existem relatos na Índia de elefantes enfurecidos com um indivíduo, por terem sido atacados durante caçadas, que voltaram para a cidade do tal e destruíram tudo.

O Ankus do Rei
Muito favorito! A história pode ser dividida em duas partes, a primeira com Mowgly e Kaa e a segunda com Mowgly e Bagheera. Primeira parte: o que eu chamo de A Cobra Branca. Mowgly e Kaa estão brincando de se espancar – é normal, gente, amizade – e Mowgly, depois de perder da cobra, reclama que está entediado. Kaa se lembra de uma colega muito estranha que encontrou nos subterrâneos das Tocas Frias e decide levar o colega até lá.

Sem muito a contara, o fato é que Kaa sai dali mais do que certa que sua colega descolorida é completamente louca e Mowgly sai segurando uma peça que ele gostou muito: um cetro com um gancho na ponta, decorado com coisas brilhantes e desenhos de elefantes, que atraem Mowgly imensamente porque o lembram de seu amigo Hathi.

A segunda parte, é quando Mowgly, ao conversar com Bagheera (que já viveu entre os homens), descobre pra que serve o tal cetro: é um Ankus, usado por rajás para enfiar na cabeça dos elefantes que cavalgam para fazê-los andar mais rápido – o equivalente a esporas. Mowgly fica horrorizado que aquilo tenha sido usado para machucar animais e o joga longe, mas Bagheera o alerta de que se cair em mãos erradas – ou seja, nas mãos de homens – vai dar problema. Mowgly, que não entende porque os rubis e esmeraldas, dos quais ele nem sabe o nome, encrustados no Ankus são interessantes, ignora o aviso e vai dormir.

No dia seguinte, o Ankus não está mais onde ele o havia jogado, e pelas pegadas o objeto foi pego por um homem. Curiosos, Mowgly e Bagheera passam a seguir os rastros. Aqui a crítica social fica mais do que clara. E, além dela, tem a história da Cobra Branca, ou Thuu, como Mowgly a apelida, que é de uma graça só dela: os tesouros perdidos dos antigos rajás da Índia são para qualquer criança dar asas à imaginação.

Os Cães Vermelhos
- Esse é, sem dúvida, o melhor conto de Mowgly.
Porque os dholes, os cães vermelhos das planícies indianas, estão invadindo a selva, e eles vêm em excursão sangrenta, para matar tudo o que veem. Do começo perfeito, com o pheeal (grito de morte de um lobo) deixando a todos de cabelo em pé, passando pelo meio, quando o conselho de Kaa faz com que Mowgly arrisque sua vida como nunca antes, até o final, com a batalha épica contra os cães vermelhos, esse é sem dúvida a obra prima do livro: aterrorizante, desesperador, épico, o conto poderia fechar a série da vida de Mowgly com maestria.

O Despertar da Primavera
E Mowgly chega à idade adulta. Quase todos os que conhecia na selva já estão mortos. Os que sobraram estão pouco se importando com sua crise existencial, já que é primavera e todos estão ocupados com seus afazeres. Entediado, deprimido e irrequieto, Mowgly vaga pela floresta sem saber o que lhe acomete.

O conto é mais introspectivo, menos divertido, e é sem dúvida o conto mais sério de Mowgly. É muito tocante, Mas o conto faz o necessário: termina a história de Mowgly de forma tocante, simples e direta, com elementos simbólicos permeando tudo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Rosa Maria. Um anjo caiu do céu.



Rosa Maria.
Um anjo caiu do céu.

"Imagine um campo florido, uma cachoeira de água cristalina, o esplendor do verde de uma floresta e ponha-se a ouvir uma música calma e suave. Faça uma viagem interior e harmonize-se para a vida.”

                      As estrelas brilharam como nunca quando ela nasceu. Em Espera Feliz as pessoas acorreram às ruas para ver um enorme clarão no céu. Na maternidade ela sorria. Piscou seus olhos grandes e negros para seu pai e sua mãe no segundo dia de vida. Uma semana depois uma revoada de pássaros se fez presente todas as tardes no pé de figueira no quintal de seu lar. Uma arara verde e amarela passou a morar em sua janela a tagarelar enquanto ela viveu. Dizia que um anjo caiu do céu. O Padre Rosaldo teve uma visão. Lembrou-se do poeta que disse: - A esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe à crença. Vão-se os sonhos nas asas da descrença, voltam os sonhos nas asas da esperança. Rosa Maria se tornou uma santa que não era e nunca quis ser. Suas forças eram um nada e quase não podia andar. Ela tinha o mais lindo sorriso e dizia que sabia amar a todos sem esperar nada em troca.

                 Quando ela completou sete primaveras, o Grupo Escoteiro Estrela Verde foi fundado. Rosa Maria se inscreveu. Sua mãe não foi contra só preveniu os chefes sobre sua debilidade. Na primeira excursão seu Chefe tentou dissuadi-la para não ir. Seriam vários quilômetros a pé. Ela insistiu e foi. Estranho que ela parecia flutuar no ar, cantava canções Escoteiras e sorria como uma criança feliz. Os escoteiros amavam Rosa Maria. Na sua promessa um lindo casal de Tuiuiú, enormes, pousou no mastro da bandeira. Não era comum. Principalmente naquela região. Quando ela recebeu o distintivo, eles fizeram uma revoada e pousaram em seu ombro. Deste dia em diante uma serie de estranhos acontecimentos começaram a acontecer em Espera Feliz.

                  A filha de Dona Matilde com quatro anos estava entre a vida e a morte. Rosa Maria viu varias pessoas na porta. Entrou. Colocou sua mãozinha na dela e a beijou. A menina sorriu e sentou na cama. As duas começaram a cantar e brincar de roda. A cidade ficou sabendo. Sempre alguém querendo milagres de Rosa Maria. Espera Feliz sofria uma enorme seca. O gado nas fazendas morria de sede. Os rios estavam secando. Muitos abandonavam a cidade em busca de sonhos que ali não se realizaram. Pela manhã viram Rosa Maria, uniformizada, em pé e em cima de um banco da praça, mãos abertas, olhando para o céu. Nuvens negras apareceram. Uma chuva fina começou a cair. Os rios voltaram. Os pastos ficaram verdes. A cidade voltou a viver novamente.

                   O Padre Rosaldo escreveu para o Bispo. Anjo ou Demônio? Dizia para si que Amigos são anjos que não só nos ensinam a voar como também nos mostram a hora de pousar na realidade. Um padre de Roma chegou à cidade. Um pouco tarde. Uma tosse frenética tomou conta de Rosa Maria. Disseram que ela estava com leucemia. Ficou entre a vida e a morte por três meses. Um dia pediu sua mãe que lhe trouxessem seu uniforme. Com dificuldade o vestiu. Contra os desejos dos médicos foi à reunião. Deixaram. Seria sua ultima vontade. Na sede foi recebida com abraços e beijos. Ela pediu para falar no cerimonial de Bandeira. Não falou muito. Disse que ia para o céu. Disse que lá é lindo, muitos anjos são escoteiros e escoteiras. Eles acampam nas estrelas distantes. Fazem jornadas na Grande Nuvem de Magalhaes, dormem na Via Láctea e adoram passear em Andrômeda.

                   Todos estavam em silencio. Ela tossiu um pouco e continuou. – Deus um dia muito ocupado resolveu criar anjos pra auxiliá-lo. Esses anjos chamam-se amigos. Vocês são meus amigos. Eu confio que vocês escoteiros e escoteiras cumpram sua missão. Ajudem uns aos outros. Não chorem por mim, vocês são meus amigos e amigos são como anjos sem asas que não choram. Mas que com um único sorriso nos proporcionam tamanha alegria que nos levam até o céu. Eu vou embora e não quero que chorem. Devem sorrir e cantar canções alegres quando eu me for. As tristes machucam. Rosa Maria morreu numa tarde de dezembro. Dizem que foi no dia vinte e cinco de dezembro. Morreu sorrindo. Na Necrópole todos estavam lá. Os escoteiros e escoteiras foram dar seu último adeus. Não choravam a não pequenas gotas de lagrimas que insistiam e correr pela face e cair na terra abençoada.

                         Cantaram varias canções. Todas alegres como ela queria. Eles lembraram-se de suas últimas palavras no Grupo Escoteiro: - Quando alguém nos vê chorar é como se despencássemos de uma alta nuvem. Vocês são meus amigos. São anjos. Foram escolhidos por Deus. Devemos nos alegrar, consolar e compartilhar os momentos que criamos para nós mesmos. Amo todos vocês! Naquela noite milhares de cometas passavam brilhando no espaço sideral sobre a cidade deixando um rastro colorido com cores azuis, brancas, amarelas, alaranjadas e vermelhas. Foi à noite mais linda de Espera Feliz onde as estrelas superaram toda sua existência. Uma nova estrela nasceu bem no centro do universo. Brilhante, um brilho que ofuscava a lua quando aparecia. Ficou lá, no céu de Espera Feliz para sempre!

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Lendas Escoteiras. Respeitável público! Com vocês... O palhacinho Juju!



Lendas Escoteiras.
Respeitável público! Com vocês... O palhacinho Juju!

Ai, o circo vem aí, quem chora tem que rir,
Com tanta palhaçada, tem hindu que come fogo,
Faquir que come prego, mulher que engole espada!
          
                      Era uma vez... Um lindo circo. Cheio de Luzes coloridas com trapezistas, palhaços, equilibrista, o  homem que engolia fogo e o que engolia espada. Por ser cruel não tinham animais. Esta é a história de Justino, um menino que nasceu paraplégico no Circo Mundo Mágico. Seus Pais se conheceram no Circo. Eram húngaros malabaristas e o amor aconteceu finalizando com o casamento. Foi um dia de festa no Circo. Não sabiam ganhar a vida de outra maneira e o amor à lona estava no coração. Não eram os melhores do mundo, mas sempre foram muito aplaudidos. Possuíam um pequeno trailer e lá viviam felizes. Não tinham contas em banco, cartão de credito e sua fortuna foi aumentada com o nascimento de Juventino. Foi um dia de festa. Adrieen e Gizella estavam sorrindo e contentes com seu primeiro filho. A principio iriam chamá-lo de Nandor, mas disseram que se tivesse um nome brasileiro seria melhor. Foi uma festa no circo. Estavam todos lá. Não havia meninos e meninas, pois havia poucos casais circenses.

                    Naquela noite o espetáculo foi todo dedicado a eles. Claro poucas pessoas, os amantes de circo já não existia como no passado. Justino cresceu e era um menino comum, sorria muito e quase não chorava. Aos dois anos viram que ele não conseguia andar. O médico diagnosticou uma doença desconhecida. – Justino não iria andar nunca mais! Foi um choque para todos. Seus pais tentaram tudo, mas não adiantou. Aos sete anos Justino se acostumou à cadeira de rodas. Rodava para todo lado, sorria, cantava e só ficou muito triste quando soube que nenhuma escola o queria como aluno. Justino adorava de se pintar de palhacinho e nestas horas se transformava em um alegre contador de piadas. Em uma tarde o Senhor Hornelas proprietário do Circo fez um convite: - Quer apresentar como palhacinho? Se quiser tem dez minutos! Foi um estrondoso sucesso. Ficou conhecido da meninada que aos sábados e domingos lotavam o circo só para vê-lo. As palmas pipocavam e todos gritavam – Viva o Palhacinho Juju!

                  A vida não sorria para Justino. Apesar de admirado pela meninada ele se sentia triste. Não tinha amigos, não tinha uma turma para conversar. Quando se aproximava todos se afastavam. Seus pais sabiam o que Justino sentia. O que se passava no coração daquele menino que se mostrava alegre e bonachão. Um dia Justino saiu sem destino. Passou em ruas, pontes e chegou a um pontilhão de estrada de ferro e pensou em passar por ela. Se viesse um trem? Bom pensou Justino, assim minha vida desaparece e quem sabe lá no céu eu possa andar? Seus olhos encheram-se de lágrimas. O que adianta me aplaudirem se fora do circo só mostravam compaixão e diziam piadas sem nexo? Quando se aproximou do pontilhão ele viu vindo em sua direção uma mulher. Linda, vestida de branco, parecia que pairava no ar. Quando chegou perto dele ela disse: - Justino, aceite sua vida, foi você quem pediu. Lembre-se que o mundo da muitas voltas e um dia você irá andar e correr por todo o universo!

                       Justino voltou para casa. Correu para seu lugar favorito atrás do circo sem iluminação onde podia ver as estrelas brilhantes e chorou. Chorou muito. Pediu a Deus que o levasse. Ele não queria continuar assim. Que adiantava aprender a ler com seus pais? Que vantagem deles cantar para ele na hora de dormir? Para que aplausos se ao sair do picadeiro sabia que não tinha amigos? Porque meu Deus! Naquela noite foi para o picadeiro triste. Um palhaço que chora por dentro e ri por fora. Pensou até em não apresentar, mas quando as palmas pipocaram ele se transformou. Notou que a plateia era de meninos e meninas de uniforme azul e caqui, de Chapelão, lenço verde e amarelo no pescoço e todos gritavam: - Justino! “Justino”. Ele esqueceu suas mágoas, mostrou suas qualidades de palhaço, contou as mais lindas piadas e no seu numero do barril todos aplaudiram por muito tempo. Alguns rolaram no chão de tanto rir. Quem eram eles? Porque eu também não sou um deles? a tristeza voltou. No final do espetáculo, naquela noite fria ele esqueceu dos novos amigos do circo. A noite escura e sem luar trazia a verdadeira realidade para Justino. Seu momento mágico se foi. Justino como sempre chorou, ficou horas engasgado não compreendendo porque tinha de ser assim.  

                     Foi dormir bem tarde. Teve um sonho diferente. Tinha pernas para correr e andar. Agora estava com a turma dos Escoteiros correndo pelos campos, acampando e cantando o Rataplã! Acordou suado e pensou de  onde tinha tirado isto. Olhou na beira da cama e sua cadeira de rodas estava lá. Amargurado disse que nunca mais iria se apresentar no circo. Resolveu dar um passeio nos arredores, ao sair ouviu uma algazarra enorme. Vários chefes e Escoteiros estavam a sua procura. Não entendeu bem. Eles o pegaram e o jogaram para cima. Sempre dizendo: - Hora de ser Escoteiro amigo! Topas? – Eu? Como? – vais saber como. Seus pais sorriram e disseram para ir com eles. – Justino, você agora será um dos nossos. Todos os sábados vamos vir aqui buscá-lo. Justino estava sonhando, só podia, mas quando chegou na sede e foi ovacionado ele sorriu de felicidade.

                   Justino aprendeu a cantar, a jogar na sua cadeira de rodas e até acampamentos ele fez. A patrulha Cuco sorria com ele com suas piadas seu jeito alegre de enfrentar as dificuldades. Foi no acampamento que tudo aconteceu. Justino amou amar barraca, tentou ser cozinheiro, mas queimou o arroz e o bife. Ninguém reclamou. Dormiu em uma barraca com mais três amigos. Dormia feito um anjo. Todas as noites Justino sentado na sua barraca pedia a Deus para não acordar daquele sonho. Agora sua vida era outra. Ainda dava seu espetáculo no circo, mas com mais alegria e até mesmo o publico aumentou. Seus pais sorriam ao ver a felicidade do filho. Ninguém nunca entendeu quando Justino contou que a mulher de branco o visitou naquela noite. Ninguém acreditou quando ele ficou em pé e deu seus primeiros passos sem ajuda de ninguém. A partir daquele dia Justino nunca mais chorou. Chorou sim de felicidade.

                   Justino cresceu, não foi o palhacinho que deseja ser. Se formou em medicina. Se tornou um médico famoso por ajudar a todos sem olhar se podia ou não pagar. Seus pais nunca deixaram o circo. Justino sempre ficou junto deles em qualquer cidade que armam sua tenda. Lembro quando conheci o Palhacinho Juju, seu circo, seus pais e quando me vem à mente o seu sorriso me encho de júbilos. Foi uma enorme emoção no dia que ele se levantou da cadeira de rodas e andou gritando e chorando agradecendo a Deus. A emoção nunca foi esquecida. Não acreditam? Eu estava lá!