terça-feira, 16 de outubro de 2018

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...


Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras.

Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia. Venha leia uma duas e comprove. Quem sabe poderá utilizar em reuniões com dias chuvosos, frio intenso e até em acampamentos ou acantonamentos. Agradeço sua visita, volte sempre!
Chefe Osvaldo. 

Contos em volta da fogueira. Balada do vento amigo.



Contos em volta da fogueira.
Balada do vento amigo.

Prefácio - Eu gosto desta resenha. Quantas vezes li e reli? Muitas, demais... Sinto-me bem quando leio e deixo minhas recordações invadirem minha mente, lembrando-me dos velhos tempos, dos acampamentos dos dias que ficaram para trás me sinto bem, me sinto rejuvenescido. Deixa o vento seguir o caminho do mar... Deixe-o soprar na montanha do Adeus para a gente nunca mais esquecer.

                      Eu já ouvi o vento soprar, forte e viçoso nas montanhas douradas do Baependi. Eu já o ouvi soprar calmamente no alto da serra do Caparaó.  Ele rasgava o dia e as noites através das folhagens como se estivesse reclamando da invasão dos seus domínios. Eu já ouvi o vento soprar, nas imensas planícies do Vale Feliz. Ele procurava espantar as borboletas coloridas que ali estavam à procura do mel escondido no caule das flores que caiam no outono.

                     Quando eu caminho para o oeste, seguindo o sol que busca se esconder nos vales verdejantes, eu ouço o vento soprar. Ele sopra suavemente para me entreter na busca do infinito. Dentro de uma barraca que parece sair voando, o vento sul açoita sem pedir permissão. As vozes das tempestades são enfurecidas por ele. Ele o vento não pede passagem, ele vai onde quer e ninguém ousa interromper.

                      Eu gosto do vento. Não importa de onde vem e para onde vai. Já estive com os ventos da primavera, que traziam o doce perfume das flores, das matas do Quati, das planícies longínquas em Crenaque das terras dos Índios Pataxós. Eu já estive com os ventos no verão, com as bravias chuvas espicaçadas na subida do Ibituruna a molhar quem tentasse se defender. Ele enviava aos escoteiros que se arriscavam a seguir a trilha das estrelas, trovões, raios inimagináveis. Depois da chuva ele trazia a bonança com ventos calmos, pacíficos e o cheiro da terra molhada, um sabor que poucos podiam sentir.

                      Sempre amei o vento. E quando chegava a madrugada, não era mais o vento e sim o orvalho trazendo o perfume das folhas, o cantar da passarada e elas voavam em maravilhosos círculos ao sabor do vento cuja chuva o vento levou.

                     Eu tive a honra de conhecer os ventos gelados das Agulhas Negras, do Itatiaia, Do cipó e tantos outros cuja beleza se mostrava esplendidamente no horizonte, parecendo sorrir com a vasta imensidão a perder de vista. Eu já vi as grandes ventanias que jogavam tudo ao chão. Eu já vi os ventos das borrascas cinzentas no mar gelado. E quando o vento calmo soprava no infinito deixavam as gaivotas dançarem ao sabor das ondas perdidas nas ondas bravias do mar... Arrebentavam nas pedras fazendo mil firulas de águas efervescentes lutando contra o vento que não podiam vencer.

                        Quando em marcha de estrada e o sol a pino, eu me entregava sempre aos ventos para me dizerem o melhor caminho. Beber a água cristalina da fonte, em uma sombra, sentindo os ventos soprando é indescritível. Eu já ouvi o som dos ventos. Muitos. Os que se transformavam em arco íris, os que se transformavam em brisas, gostosas, sopradas de cascatas borbulhantes ou na madrugada a nos apanhar sem barracas tendo o céu de estrelas como morada.

                       Saudades enormes dos ventos. Os que molhavam nossa face quando arriscávamos em um pernoite qualquer a beira da estrada tentando ver estrelas além do luar. Gosto de invocar os ventos. Eu os chamo vindos norte e do sul, os ventos do oeste e do este. A eles sempre peço que soprem sempre trazendo a alegria e felicidade que merecemos.

                       Um dia alguém me falou do vento – Sabes Escoteiro, se tens vento e depois água, deixe andar que não faz magoa, mas se tens água e depois vento, põe-te em guarda e toma tento! É... Eu já ouvi o vento passar... Nas montanhas verdejantes do Baependi!

Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…
Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
Ricardo Reis.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Lendas Escoteiras. O estranho sem nome da Rua do Cravo.



Lendas Escoteiras.
O estranho sem nome da Rua do Cravo.

Nota - Não voltaria no tempo para consertar meus erros, não voltaria para a inocência que eu tinha - e tenho ainda. Terei saudades da ingenuidade que nunca perdi. Não tenho saudades nem de um minuto atrás. Tudo o que eu fui prossegue em mim.

                   Surgiu como um fantasma na Estrada dos Aflitos. Andava devagar sem pressa entrou na rua principal, atravessou a praça lentamente. Usava uma calça de gabardine azulada e desbotada. Um pulôver cinza cobria parte do seu corpo. Não deu para ver seu rosto, estava coberto por um chapelão de abas largas. Na igrejinha Bolonha o sacristão forçava a corda do sino com as primeiras badaladas da Ave Maria. O inverno chegava manso sem fazer alarde. Um frio cortante percorria a rua e a praça sinalizando uma madrugada aonde se prenunciava a chegada do frio.

                 As janelas estavam encostadas com uma fresta aberta para poder ver o Estranho que chegava. Impossível ver o rosto coberto com a aba do chapéu. A rua deserta os olhos escondidos esmiuçavam quem era o Estranho que chegava. Dobrou na Rua do Cravo e no número 17 entrou. Quem contou foi J. Pessoa, um mendigo que vivia nas ruas do Arraial vivendo da caridade alheia. Cidade pequena, não mais que 2.000 almas tudo era motivo de conversa, fofoca, disse me disse e mais nada.

                    Durante um mês ele não saiu e nem na porta chegava. A casa da Rua 17 pertenceu a Dona Joelma que morrera dois anos antes. Ficaram sabendo que fazia suas compras por um celular. O entregador colocava na porta e pagava com cheque na fresta da janela sem mostrar o rosto. Todos sabiam o que comia o que bebia, mas nada diferente de gente simples ou remediada. O falatório foi aos poucos sendo esquecido. Se o Estranho tinha nome ninguém sabia. O Cabo Marinho sorria quando lhe cobravam investigação – Ele não fez nada, se fizer eu usarei da minha autoridade!

                     – Dois meses depois pela manhã, um sol de rachar eis que surgiram seis rapazes dos seus quinze a dezessete anos de bicicleta, bem equipados e fardados de escoteiros. Não perguntaram a ninguém e nem tampouco pararam para conversar. Entraram na Rua do Cravo e no número 17 desceram entrando na casa do Estranho sem Nome sem bater. Naquele dia não saíram. Dormiram na casa por três dias seguidos. J. Pessoa rondava por perto para ver se ouvia vozes, qualquer coisa que pudesse vender a fofoca a troco de um prato de comida.

                        Ao meio dia da quinta feira partiram como chegaram. Nem no Boteco do Amadeu pararam para um café ou um doce. Três meses depois um carro adentrou no Arraial do Roncador e parou na Rua do Cravo em frente ao número 17. J. Pessoa de butuca tudo via tudo sabia, mas não tinha nada para contar. Ele viu dois homens de fisionomia alegre, também fardados de escoteiros entraram sem bater. Não ficaram muito tempo. Às oito da noite partiram assim como chegaram.

                       Interessante foi à donzela, linda e formosa, cabelos loiros, que ao sol brilhava, chegou no ônibus que seguia para Sol Nascente e com os olhos cheio de lagrimas soluçava. Seguiu sem cumprimentar ninguém direto para a Rua do Cravo no número 17. Estava vestida de azul, com um lenço verde e amarelo no pescoço, um bonezinho com duas estrelas e não olhou para nenhum morador. Interessante, ficou uma semana. Namorada? Esposa? Amante? Ninguém sabia nem mesmo J. Pessoa. Quando ela partiu foi a primeira vez que o Estranho sem Nome apareceu à porta acenando para ela com um sinal que ninguém sabia o que era, mas entre os fraternos se sabia que era Melhor Possivel.

                          J. Pessoa chegou perto demais para tentar ver o rosto do Estranho. Não deu para ver. Um boné de aba comprida tampava tudo. Viu seu corpo, magro quem sabe um metro e setenta. Parecia não ter mais que trinta anos. Viu que ele soluçava quando ela partiu. – Borrasca o entregador do Armazém do Grilo dizia que ele pagava com cheque. Sempre com uma gorjeta para ele. Os cheques nunca voltaram e o Senhor Grilo sorria em saber que diferente de muitos moradores da cidade que lhe deviam há meses e nunca pagavam o estranho era honesto e nunca lhe deu nenhuma preocupação nos pagamentos com cheque.

                       Interessante que o cheque tinha o nome de um banco Inglês e uns rabiscos. Sua assinatura era ilegível, mas e dai? Pensava o Senhor Grilo. O cheque caia e o dinheiro também. Oito meses haviam se passado com a chegada do Estranho. Já não era motivo de fofocas, de indagações e aos poucos o arraial incorporava o estranho como mais um dos seus moradores misteriosos.

                         O tempo no Arraial do Roncador não existia para os moradores e não era medido de nenhuma forma. Ninguem fazia nada. A poeira na rua aumentava. As chuvas da primavera ainda não haviam chegado. J. Pessoa desistiu de investigar o Estranho. Bolonha todas as tardes continuava a tocar seu sino anunciando as seis badaladas da Ave Maria. No rio Corrente as lavadeiras ainda fofocavam, mas o Estranho foi esquecido.

                        Um grito sutil de espanto percorreu todo o Arraial quando viram o Estranho partindo. Partiu as seis em ponto quando Bolonha começava a tocar seu sino na Igrejinha dos Anjos. Pela primeira vez viram seu rosto. Era um belo rapaz, olhos azuis, cabelos negros que se sobressaiam com o chapéu de abas largas solto nas costas preso por presilhas em uma tira de couro marrom na aba do chapéu. Estava fardado de Escoteiro. Parou no Boteco do Amadeu e ao entrar deu de cara com o Cabo Marinho e o convidou para um café. Pagou e foi direto ao Armazém do Grilo. Deu uma bela gorjeta para Borrasca o entregador. Sumiu na curva da estrada dos Aflitos e ninguém nunca mais ouviu falar dele.

                           Vadico O Mestre como era chamado era o único que tinha um computador no Arraial. Assustou e saiu correndo a contar a meio mundo a noticia que acaba de ler no Blog do Matador da Capital do Estado. – Dizia: - Foi preso Monte Cristo, pai de Anita, professor catedrático do Colégio Gentil. Ele confessou que em um momento de fraqueza violentou e matou Tutinha uma Lobinha do Grupo Escoteiro Local. Ela tinha ido acantonar e sumiu.

                           Todas as provas levavam ao Chefe Billy Grant, mas ele fugiu antes de ser preso. A Delegada Dayse Lustosa o procurava para dizer que o inquérito foi encerrado. Ele é inocente e livre para ir e vir. Uma foto do Monte Cristo mostrava um homem já Velho com barba por fazer. Mais embaixo a foto de Billy Grant. Era o Estranho! Explicações, rezas e perdão. Nunca podemos abandonar três grandes palavras que existem para acreditar: - A intuição, a inocência e a fé!

sábado, 13 de outubro de 2018

Lendas Escoteiras. Um Grupo Escoteiro Padrão.



Lendas Escoteiras.
Um Grupo Escoteiro Padrão.

Nota – Problemas na vida todo mundo tem, você não é pior nem melhor que ninguém, se quiser amar aprenda a se doar, faça que os erros te façam crescer, na duvida escolha o melhor para você, dê mais importância a quem lhe quer bem.

                                Conta-se uma lenda que um escoteiro garboso, cheio de distintivos e especialidades, fazendo uma excursão sentiu sede e parando em um Oásis onde havia águas cristalinas, viu sentando em uma pedra um Velho Chefe Escoteiro. Aproximando-se do velho perguntou-lhe: - Velho Chefe, que tipo de Escotismo se faz nesta cidade? Ele respondeu – Que tipo de escotismo você faz no lugar de onde vem? Perguntou-lhe por sua vez o Velho Chefe Escoteiro.

                               Na minha cidade Velho Chefe? Lá meu grupo é cheio de egoístas e donos da verdade, todos se acham os tais do escotismo, replicou o jovem escoteiro. Estou satisfeito em ter saído de lá. O Velho Chefe Escoteiro respondeu: - A mesma coisa você haverá de encontrar aqui, replicou.

                               Semanas depois outro escoteiro de outra cidade parou no mesmo Oásis para beber a água da fonte e vendo o Velho Chefe Escoteiro sentado em uma pedra perguntou-lhe: - Que tipo de escotismo se faz nesta cidade Velho Chefe?

                               O Velho Escoteiro com ar bondoso fez a mesma pergunta a ele: - Que tipo de escotismo se faz na cidade de onde vem? – O Escoteiro sorriu e com o coração cheio de emoção respondeu: Um magnifico escotismo. Meu grupo está cheio de pessoas honestas amigas há que amo de coração! Fiquei muito triste em deixá-los!

                               - O Velho Chefe Escoteiro sorrindo lhe respondeu: - O mesmo escotismo você encontrará por aqui.

                              Um antigo escoteiro que passando ouviu a conversa da semana anterior e de hoje perguntou ao Velho Chefe Escoteiro:

                             - Senhor Mestre do Escotismo, como é possível dar respostas tão diferentes a mesma pergunta?

                            - O Velho Chefe Escoteiro sorridente, olhou para seu irmão de farda e aventuras de boas atividades, de acampamentos na floresta encantada respondeu:

                            - Cada um carrega no seu coração o ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou nos Grupos Escoteiros por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos e irmãos escoteiros lá por onde passou também os encontrará aqui, porque, na verdade, a nossa atitude mental é a única coisa na nossa vida sobre a qual podemos manter controle absoluto!

OS: - Adaptado de uma lenda de um velho Ancião cheio de conhecimentos e bondade.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Histórias de fogo de conselho, O fim pode ser o recomeço.



Histórias de fogo de conselho,
O fim pode ser o recomeço.

Nota - Muitas vezes os chefes não ouvem ou não deixam seus escoteiros se expressarem e dizer o que estão sentindo. Isto quem sabe é o motivo de tantos se afastarem. Pense nisso.     

            Tomé era frequente nas reuniões Escoteiras. Um dia achou que o Chefe dizia sempre as mesmas coisas, fazia as mesmas coisas e então parou de frequentar. Tentou conversar com seus amigos na Patrulha, conversou com seu Monitor, mas viu que eles não podiam fazer nada. Insistiu por alguns meses sem resultado. Ele gostava dos amigos na Patrulha, se sentia bem com eles, mas tinha também seus amigos do bairro e lá ele podia sugerir os programas que iriam fazer.

            Não queria ficar faltando às reuniões e foi sincero com todos. – Chefe desculpe, para mim não dá mais. Estou saindo dos escoteiros e agradeço por tudo.

          A Patrulha sentiu sua falta. O Monitor viu que não era só ele quem reclamava do programa. Sabia que mais cedo ou mais tarde outros também iriam seguir o mesmo caminho. Um mês depois da saída de Tomé, o Chefe em uma noite fria de inverno resolveu visitá-lo em sua casa. – “Deve ter vindo para tentar me convencer a voltar” pensou Tomé consigo mesmo. Imaginou que não podia dizer a verdadeira razão de sua saída. Os mesmos programas, os mesmos jogos sempre repetitivos.

          Ele pensou e pensou. Precisava encontrar uma desculpa, pois não queria magoar o Chefe que sempre o tratou muito bem. Enquanto pensava colocou duas cadeiras diante da lareira e começou a falar sobre o tempo.

            O chefe não disse nada. Chegou calado e calado ficou. Tomé depois de tentar inutilmente puxar conversa por algum tempo, também se calou. Os dois ficaram em silêncio, contemplando o fogo por quase meia hora. Foi então que o Chefe levantou-se e com a ajuda de um galho que ainda não tinha queimado, afastou uma brasa, colocando-a longe do fogo. A brasa, como não tinha suficiente calor para continuar queimando, começou a apagar. Tomé mais que depressa, atirou-a de volta ao centro da lareira. 

            Boa noite, disse o Chefe e levantou-se para sair. – Boa noite e muito obrigado respondeu Tomé. E foi então que Tomé viu que a brasa longe do fogo, por mais brilhante que seja, terminará extinguindo rapidamente. 

             Tomé viu que o escoteiro longe dos seus amigos, por mais inteligente que seja não conseguirá conservar seu calor e sua chama. Tomé viu que não tentou tudo para melhorar as reuniões. Faltou ideias, faltou coragem para dizer isto ao Chefe. Tomou uma resolução. Iria voltar. Iria insistir iria lutar por um ideal que considerava perfeito em sua vida.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Luiza.



Luiza.

Nota - As mulheres que adotaram o escotismo como filosofia de vida, merecem todas as honras do mundo. São elas que nos colocaram aqui na terra, são elas que nos dão amor à vida e no escotismo a paz. Dizer tudo sobre elas eu prefiro ficar nesta quadrinha que diz tudo: Bendiz o amor imensurável, nos jardins pintados de cores... O vento beijando a face, a face molhada de amor... – Mãe escoteira tem o amor universal!

- Chefe, eu quero chorar e não consigo. Lágrimas aparecem e correm pela minha face. Todos dizem que eu sou feliz e não disse a ninguém que aprendi a mostrar um sorriso, mas poucos sabem quando estou chorando por dentro. – Pobre Luiza. Diferente de mim. Quando eu dizia que não vou chorar é por que já estou chorando. Sempre fui sentimental demais. As Escoteiras sempre a procurarem abrigo nos meus braços. Eternos abraços que serviam para fazer esquecer as tristezas do coração.

Minha mãe sempre me disse que chorar é humano, e quando chorei no nascimento de Claudinha minha mãe sorriu para mim ali no leito da vida onde outra vida estava chegando para me alegrar. Às vezes ficava tanto tempo sozinha, que a solidão deixava de ser ausência e passava a se tornar companhia.  Acho que foi por isto que resolvi ser Chefe Escoteira, mas era tão difícil...

Os anos passaram e um dia me vi sozinha. Claudinha partiu, foi tentar outra vida longe de onde eu morava. Lomanto sumiu em uma esquina da vida. Luiza me olhou com os olhos cheios de lágrimas e disse: - Chefe sabe o que eu queria agora? Queria ir à praia, e sentar na maior pedra que estiver lá, e de lá de cima olhar o mar e chorar tudo que eu tenho para chorar. Pois é Chefe e depois disto tudo iria voltar para casa aliviada e poder sorrir um sorriso meu, um sorriso verdadeiro, sem choros escondidos, sem maquiagem, sorrir um sorriso puro. Será que eu consigo?

– Olhei para ela espantada. Pensei comigo, cuidado com o que vai dizer, palavras machucam e quem ouve nunca esquece. Levantei do banquinho e abracei Luiza. Ela me deu um abraço forte que dizia tudo que sentia. Eu precisava conhecê-la melhor. Precisava sorrir para ela dar uma palavra de carinho. Mas logo eu? Quantas vezes me vi sorrindo querendo chorar? Quantas vezes eu chorei querendo sorrir? É a vida é mesmo estranha.

Afinal que Chefe era eu que não sabia dizer as palavras certas na hora certa? Acho que o problema sou eu, é que sinto demais, me importo demais, demonstro demais. E acabo esperando o mesmo das pessoas e não é bem assim. Olhei para Luiza. Agora quem chorava era eu. Pensei comigo que precisava ir embora da Tropa por uns tempos. Tirar férias dessa minha maneira intensa de sentir as coisas, dessa mania de querer carregar o mundo nas costas e sentir culpa pelo que não posso dar conta.

Vou olhar tudo de sobrevoo, como quem, desmemoriada, está ausente dos próprios pensamentos. Ainda abraçada a Luiza vi que o sol estava se escondendo no horizonte. A reunião ia terminar. Precisava deixar meus problemas para trás. Uma noite de descanso seria o cenário ideal para recuperar as energias.

Não houve tempo para pensar, a Tropa toda veio me abraçar. Desta vez elas as meninas que eu amava eram as chefes e eu uma simples escoteira que sentiu no coração o amor que precisava encontrar. Sorri, sorri novamente. Afinal por que preocupar com que os outros pensam de mim se ao meu redor tem tanto para me fazer feliz?

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Lendas escoteiras. A lenda do broche de ouro.


Lendas escoteiras.
A lenda do broche de ouro.

- Caramelo freou com força sua bicicleta na porta da Oficina de meu pai. – Estava sem ar, vermelho espavorido e gritou: Vado! Encontrei um escoteiro de passagem, vale a pena conhecê-lo. - Era sempre assim, Caramelo nosso almoxarife quando não estava na escola ou em reunião de Patrulha você o encontrava na Rodoviária ou na Estação Ferroviária. Ele mesmo um menino sem linhagem acreditava que era um Hercules Poirot o um Sherlock Holmes. Vivia a cata de notícias, coisas de cidade pequena para dar um toque especial nas reuniões de Patrulha que aconteciam três vezes por semana.

- Uma vez perguntei a ele quais livros tinha lido dos seus personagens e ele sempre respondia que tinha lido “O caso dos 10 negrinhos” de Agatha Christie e leu na casa do seu tio o Assassinato no expresso Oriente. Foi uma época sem TV, sem internet, sem smart fone, mas que nos levava sempre a Biblioteca Municipal. Eu frequentava atrás de histórias escoteiras. Não havia nada e somente a bibliografia de Baden-Powell e seu escotismo na Enciclopédia Britânica.

- Vamos? Não posso Caramelo. Meu pai saiu para atender um cliente e não sei quando volta. Mas o que você viu mesmo? – Ele com seu jeito de futuro escritor contou-me na maior cara de pau que na Estação desceu um viajante com um broche de ouro na lapela e tinha uma flor de lis. – Mas Caramelo, só porque tinha uma flor de lis? Vado meu Deus! Tinha o emblema da UEB. Era um escoteiro eu juro! Comecei a interessar pelo viajante e seu broche de ouro. Dificilmente descobríamos escoteiros em visita a nossa cidade. Quando aparecia um era um pandemônio, todos querendo abraçar, ouvir e contar causos.

- Não havia mais do que cinco meses que tinha ido a capital com o dinheiro da escoteirada para compras na cantina escoteira na capital. Fui lá muitas vezes e todos me achavam conhecedor do Brasil. Quando o Chefe Jessé apareceu com um broche de lapela não teve um escoteiro que teve o brilho nos olhos pela descoberta. Foi tanto interesse que a “vaquinha” pagou minha passagem ida e volta e trouxe uma mochila belga das grandes cheias de badulaques escoteiros. Foi uma verdadeira expansão do escotismo na cidade. O prefeito, alguns vereadores, o juiz e o delegado ganharam seu broche.

Meu pai chegou e parti com Caramelo atrás do homem misterioso que usava um broche de ouro na lapela. Uma vez o Padre Peter Klaus recém-chegado da Alemanha e assumindo a paróquia Santa Rita fez uma visita à sede escoteira a convite do Chefe Jessé. Viu todos uniformizados e mesmo com a flor de lis de lapela. (neste caso não devia ser usada). Olhou para todos e no seu linguajar alemão, mal falava o português começou a contar uma lenda Broche de Ouro.

– Escoteiros! Conta-se uma lenda do Escaravelho Dourado que originou o adorno.
A história conta que tudo começou na civilização Maia com a história de uma princesa que se apaixonou por um homem com o qual não poderia casar. Tão inconsolável ficou que chorava dia e noite por seu amor proibido. Um xamã ouvindo seu choro e descobrindo a causa, transformou-a num besouro brilhante, uma joia viva. O seu amado colocou o broche em seu peito e assim ela passou a sua vida perto do coração que ela amava. A fama do Broche de Ouro correu mundo e hoje é uma mensagem para quem os usa na lapela.

- Olhou para todos e sorrindo terminou sua lenda: A imagem é de um broche que hoje em dia ainda é muito vendido na América Central: a de um besouro vivo cravejado de pedras. Ele é preso na roupa, na altura do coração, por um alfinete. Dizem que dura em média três anos. É vendido com um pedaço de tronco oco - Seu habitat - onde retira os nutrientes necessários para se alimentar. Isto não é incrível? Olhei para Caramelo, pois estava cansado de pedalar por toda a cidade na busca do Broche de Ouro.

Caramelo com os olhos vermelhos me pediu desculpa. Vado sei o que vi, não duvido. Não duvidava para nós a palavra do escoteiro era ponto de honra. Demos por encerrada a busca e fomos para a sede, mesmo sendo pouco mais de duas horas da tarde de uma quinta sem reunião sempre tinha alguém lá para papear, montar pioneirías, treinar nós... E nunca mais vimos na cidade um homem misterioso com seu Broche de Ouro na Lapela que eu sonhei ver e ter uma para mim.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Lendas Escoteiras. A estrada do fim do mundo.



Lendas Escoteiras.
A estrada do fim do mundo.

Nota - (A lenda supera a realidade. Muitos diziam que encontraram esqueletos com facas de madeira ficadas no coração. Outros que diziam que a estrada levava a Ushaia, mais conhecida como a estrada do Fim do mundo. Quem por ela passava diziam que nunca mais voltaria. Covas de vampiros, esqueletos fantasmagóricos, um cemitério bizarro uma passagem entre montanhas e escarpas que todos chamavam do Vale do medo. Bruxaria? Caixões em miniaturas vazios, mas soltando uma fumaça vermelha? Mentira ou verdade, mas toda a população da cidade de Fonte da Saudade evitava passar por ali!).

                  Até hoje todos se perguntam por que ninguém se preocupou quando Sarah atravessou toda a Rua do Alencar de uniforme, com uma mochila as costas um bastão as mãos e um sorriso de quem ia descobrir o mundo. Não era uma rotina para os moradores tal fato, mas os escoteiros eram conhecidos que já nem se falava mais no que eles representavam para a cidade. Muitos sabiam da lenda da Estrada do Fim do mundo, mas era apenas uma lenda. Contavam as centenas de causos de desaparecidos, de discos voadores, de luzes coloridas que transportavam os meninos para uma cidade existente no espaço sideral. Os mais idosos falavam do Cemitério Maldito, das bruxas de olhos vermelhos, de esqueletos em cada curva do caminho. Ninguém acreditava e diziam que eram apenas histórias. Nada havia sido provado ate hoje. Tomukan e Jardel tinham um sítio logo no inicio da cidade. Nunca passaram pela estrada a noite sempre ao sol do meio dia. Uma estrada praticamente deserta e arriscar para que?

                A cidade se regozijava com os escoteiros. Faziam de tudo para alegrar a comunidade com Fogos de Conselhos, desfiles, apresentações teatrais e muitos chefes se reuniam aos sábados e domingo no Coreto da Praça para contar histórias. Os lobos e lobas as Escoteiras faceiras, os escoteiros cantantes, seniores guias e pioneiros. Uma juventude serelepe voltava para o bem e para o amor fraterno. Um dia sem ninguém esperar um Chefe desconhecido subiu no coreto e sério pediu silêncio. Ninguém sabia quem era bem uniformizado sim, mas seu semblante se visto mais de perto parecia com a cara do diabo. Mas diabo tem cara? Sei não. Dizem que muitos já o virão e outros que querem ficar longe dele. Todos se assustaram e prestaram atenção ao que ele dizia. – Um conselho ele disse, não se arrisquem, não facilitem os demônios que podem levar vocês. Nunca em tempo algum escolham a estrada do Fim do Mundo para escoteirar!

                 Se ele não tivesse dito isto nada teria acontecido. Mas Sarah sempre persistente para ver o que não deveria disse a sua patrulha que iria excursionar na Estrada do Fim do mundo. Todos conheciam Sarah. Sabia dos seus medos e de sua luta em vencer a todos eles. Quando ela partiu e não voltou à cidade ficou em polvorosa. Era um corre-corre sem parar. Os escoteiros foram os primeiros a procurar. Dona Ana Lobato foi quem contou que a viu indo para a estrada do Fim do Mundo. Quem se arrisca? O Chefe Lobo Cinzento sorriu. - Deixa comigo disse. Vinte dias depois voltou todo rasgado, ensanguentado, desgrenhado e com os olhos arregalados e o pior: - Mudo. Não falava nada. Os bombeiros da cidade deram uma voltinha no inicio e a grita que ouviram ao longe fez todos correrem para suas casas. O Prefeito Done Branco pediu a ajuda do exercito. Tanques deixaram marcas e nada foi encontrado.

                  Os Touros estavam calados. Em reunião de Patrulha Tarquino falou baixinho – Sarah era das nossas. Deixar que o diabo tome conta dela? Afinal e nosso orgulho? Jiparanã, Joviel, Calixto e Catapora se entreolharam. – Vamos ficar sem fazer nada? Não tinha jeito. Calixto levou dois facões, Catapora quatro canivetes. Jiparanã preparou a ponteira de aço de seu bastão. Joviel era franzino. Não estava com medo, mas enfrentar a capetada não era fácil. No baú do seu pai ele sabia que tinha um enorme crucifixo. Era ele sua arma principal. Na Rua do Alencar ninguém queria olhar. Eram cinco escoteiros que passaram bem ligeiro rumo a Estrada do Fim do Mundo.

                   Todos sabiam que sem Sarah não iam voltar. Nem bem escureceu quem olhasse bem a frente da Estrada do Fim do mundo iria ver um vermelhão, gritos e sussurros. Quase dois dias e o céu continuou vermelho e as estrelas pararam de piscar. Cinco dias depois a zoeira terminou. O sol surgiu e as nuvens do céu voltaram a ser brancas e alvas.

                         À tardinha a passarada fez uma revoada infernal em Terra do Amanhecer o que fez todo mundo correr para a Rua do Alencar. Viram surgir ao longe, a Patrulha Touro com seus cinco escoteiros e a frente Sarah. Ela sorridente, eles sorridentes. Todos queriam saber, mas ninguém queria contar. A história termina aqui. O que aconteceu na Estrada do Fim do Mundo ninguém nunca soube. Nunca mais o céu ficou vermelho, os gritos das noites de tempestades sumiram. A estrada ficou toda gramada, nas áreas próximas a flores do campo surgiam aos borbotões. Agora toda a garotada passeava a pé ou em seus cavalos de aço na estrada que encontrou a paz.

                       Na sede dos escoteiros todos queriam saber. Mas Sarah, Tarquino, Jiparanã, Joviel, Calixto e Catapora nunca contaram nada a ninguém. O tempo passou, Sarah casou com Joviel, Tarquino foi embora para a capital. Calixto e Catapora foram atrás de ouro nas Selvas do Amazonas. O bom de tudo que Jiparanã recebeu sua Insígnia, e agora é o chefão geral dos escoteiros e olhe ninguém até hoje soube o que aconteceu com Sarah, a patrulha na Estrada do Fim do mundo!

Felizmente, ele e o Poeta reuniram suas ruínas e ajudaram-se mutuamente a sobreviver ao demônio da culpa. Saíram pelas estradas, dormiram ao relento e viajaram juntos para o epicentro dos seus terremotos emocionais. Viram as perdas por outros ângulos, aceitaram suas limitações, cantaram, sorriram, brincaram com a vida, deixaram de brigar com ela. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Lendas Escoteiras. Lamparina, um Monitor inesquecível.



Lendas Escoteiras.
Lamparina, um Monitor inesquecível.

Nota - Nota: - Todos nós temos um Monitor para se orgulhar. Ele pode existir hoje ou pode estar lá em um passado distante. Alguns a gente tem saudades imensas outros a gente abraça e se orgulha em tê-lo por perto como amigo. São coisas que nós Escoteiros temos e que poucos que não são podem ter um dia.

                     Conheci centenas de monitores. Os vi em muitas atividades com suas patrulhas com tempo bom ou molhado. Lamparina me marcou muito. Quando fez a passagem era alto e forte. Nem sei como ficou até os onze nos lobos. Foi direto para a Patrulha Touro. Foi ele quem escolheu. Disse a todos que um touro era parecido com ele. Sempre olhando para frente e nunca desistindo de nada. A Patrulha passou a ter por ele um enorme respeito. Maniento o Monitor da Touro tinha dúvidas. Para surpresa quando ficou sabendo do acampamento disse a todos na Patrulha: No Acampamento do fim do mês na Cachoeira dos Macacos quero construir as pioneiras básicas do campo. Sozinho. Sozinho Monitor! Por favor!  

                Quando Maniento contou para Sorridente deram boas gargalhadas. Maniento não se fez de rogado. Disse para Canela e Porteira, os responsáveis pelas pioneirias de campo que iriam deixar Lamparina fazer o que queria. – Monitor! – Disse Porteira, mas ele é um lobinho o que sabe de pioneirias? Deixa prá lá. Vamos ver o que ele sabe. Vamos ver se é somente uma gabolice. Quem sabe podemos correr ao pomar do Seu Tomeu e se deliciar com as goiabas e mexericas? Ficaram boquiabertos na volta. Lamparina tinha construído uma bela Mesa Tripé, o toldo estava esticado, havia bancos em volta para todos e dois lugares para convidados. O Fogão suspenso e o lenheiro deixou Mosquito o cozinheiro estupefato. Perfeito! E com lenha para dois dias! E as fossas de líquido e detrito? Nunca viram iguais. As tampas abriam-se automaticamente. Tudo feito com cipós!

                  Quando Pé de Cabra foi procurar um matinho para suas necessidades Lamparina gritou para ele: - Siga a seta! E não é que o ex-lobinho fez uma privada perfeita? Passou a ser respeitado por todos. Era um perfeccionista. Seus nós, amarras e costuras de arremate eram de dar inveja. Era bamba no uso do cipó, com a machadinha e um facão. Outros escoteiros de patrulhas diferente sempre o procuravam. Lamparina tornou-se perito em orientação, mapas e croquis. Dominava com facilidade uma bússola Prismática ou a Silva. Em um acampamento construiu um relógio de sól. Até o Chefe veio ver e aplaudir. Era de uma criatividade incrível. O que fazia de artimanhas e engenhocas deixavam todos perplexos.

                 Chefe Montserrat pensou vários dias o que fazer com ele. Em menos de um ano se fizesse a jornada poderia sem duvida receber a Primeira Classe. Mas como? Ele não tinha nem a segunda classe. Era um simples Escoteiro noviço. O tempo sempre ajuda. Lamparina se tornou um herói na Tropa Escoteira Visconde de Mauá. Não era soberbo, nunca foi. Humilde, simples e amigo de todos. Tinha uma enorme força e agilidade fora sua inteligência. Quando Maniento passou para sênior ele assumiu a monitoria. Um exemplo para os demais. Pé de Cabra, Canela e Porteira que tinham três anos de patrulha e eram Primeira Classe não reclamaram. Era natural que Lamparina assumisse.

                 Em setembro a tropa recebeu um convite para um Curso de Monitores que chamavam de Ponta de Flecha. Lamparina pensou em não ir. Achava que os dirigentes do curso eram pomposos demais e muitas vezes ensinavam aos monitores normas e cerimonias diferente do que fazia. Se pelo menos o Chefe Montserrat estivesse presente tudo bem.  Acabou indo, não queria decepcionar os demais monitores.  O Distrital ficou boquiaberto com Lamparina. Praticamente era ele quem adestrava a todos com as técnicas, como fazer, como ser amigo dos patrulheiros como liderar e ser liderado. Os chefes do curso não saiam de perto dele.

                Ah! O meu amigo Lamparina. Ficou até aos dezessete anos no Grupo Escoteiro. Um dia disse que recebeu uma bolsa de estudo para uma faculdade na capital. Muito choro, muitas tristezas muitos apertos de mão e ele partiu em uma tarde fria de fevereiro de 1958. Todos sentiam sua falta. Foi o líder e a alma do grupo. Três anos longe de Valadares. Passando para pioneiro tinha saudades dele. Sempre lembrado em qualquer atividade escoteira. Nos fogos de conselho fazia-se silêncio quando diziam o nome dele. Era um mago, um palhaço lindo, um contador de histórias sem igual. Dedilhava um violão com maestria e sabia cantar como ninguém.

                       Quatro anos depois voltou à cidade. Para ele era um volta a Gilwell revendo os amigos que tanto amou. No bar do Tonhão, Maniento, Canela, Porteira, Mosquito, Sorridente eu e Pé de Cabra lá nos encontrávamos para ouvir suas historias capital. Nunca o vi mal uniformizado. Sempre um exemplo. Ainda me lembro dele com seu bastão totem, correndo com sua Patrulha para os acampamentos, orgulhosos com suas mochilas e suas bandeiras para descobrir novas florestas, campinas, vales e serras nas montanhas que circundavam nossa cidade. 

                     Na última vez deu um abraço apertado em todos. – Amigos agora ficará difícil minha volta aqui ao grupo. Vou partir, uma proposta de trabalho na Suíça vai me tirar o sonho de estar com vocês sempre. Vou deixar aqui meu coração, meu amor e minha amizade. Minha mente vai, mas meu coração estará aqui com vocês. Olhei aquele jovem grandalhão com lágrimas que caiam no chão sagrado de sua cidade.

                         Eu não sei por que a razão a despedida nos dói tanto se nossas almas estão ligadas. Talvez tenha sido e sempre serão. Talvez tenhamos vivido mil vidas antes desta e em cada uma delas sempre nos encontramos. E talvez a cada vez tenhamos sido forçados a nos separar pelos mesmos motivos. O adeus triste e choroso sempre machuca a quem queremos bem. Nunca mais o vi. Nunca mais o esqueci. Lamparina foi um Monitor que posso dizer que sempre admirei e amei!  

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Lendas da Jângal. O livro da selva (cães vermelhos).



Lendas da Jângal.
O livro da selva (cães vermelhos).

Nota – Neste dia do lobinho, resolvi publicar um pequeno trecho da História de Mowgly conhecida como os Cães Vermelhos. Considerado obra prima das histórias da Jangal todo chefe atuante em alcateia deve fazer o máximo para lê-lo no seu integral. Alguns dizem que é o ápice da História da Jângal. Feliz dia do Lobinho!

                     Após a invasão da Jângal, inicia um período agradável na vida de Mowgly. Após inúmeras aventuras e feitos, Mowgly detinha o respeito dos animais da Jângal, devido à sua coragem, esperteza e astúcia. Pai lobo e mãe loba haviam morrido e Baloo estava tão velho que mal conseguia andar. Mesmo Bagheera com seus músculos de aço já andava cansada. Akelá já apresentava a pelagem branca de tão velho e Mowgly tinha que dividir sua caça com ele. A alcateia neste tempo era conhecida como povo de Mowgly, mesmo este não tendo assumido a liderança do grupo, para a qual foi escolhido Fao, filho de Faona.

                  Certo fim de tarde, Mowgly e seus irmãos ouviram gritos, era o fial, um uivo aterrador. Lobo Gris logo percebeu que se tratava de uma caçada. Juntos com a alcateia eles perceberam a chegada de um lobo, um Won-tolla (lobo sem alcateia). Ofegante e cansado ele explicou a alcateia que havia lutado contra os dholes, os cães vermelhos do Decão, os quais haviam matado sua companheira e seus três filhotes.

                    O lobo forasteiro avisou que os cães eram muitos e estavam invadindo o território dos lobos em busca de alimentos. O grupo era composto por caçadores vermelhos, dispostos a matar. Akelá percebendo que não havia outra saída e que teriam que enfrentar os cães vermelhos pela própria vida, sugeriu que Mowgly de escondesse nas terras do norte e aguardasse a passagem dos dholes. Mas Mowgly retrucou dizendo que lutaria junto com o seu povo contra os dholes.

                    Ao sair para espionar os dholes e verificar seu número, Mowgly acabou tropeçando em Kaa, a grande cobra píton. Conversaram muito os dois e acabaram juntos montando uma estratégia astuta para vencer os destemidos e numerosos dholes. Kaa mostrou a Mowgly o povo Miúdo (as abelhas dos rochedos) e as corredeiras formadas pelo rio Waingunga junto aos rochedos.

                     Se Mowgly conseguisse enfurecer os dholes, estes ficariam cegos de raiva e o seguiriam até os rochedos, onde seriam mortalmente atacados pelas abelhas, aqueles que sobrevivessem as abelhas teriam seu fim trágico ao caírem dos rochedos nas corredeiras do rio Waingunga, e aqueles que sobrevivessem a tudo isso, teriam a alcateia esperando logo abaixo para uma luta mortal.

               Então Mowgly se pôs a encontrar os cães vermelhos, ao avistá-los percebeu que eram em grande número, acima de duzentos. Trepado em uma árvore, Mowgly começa a insultar os dholes, que ficaram furiosos e o tentaram pegar a todo custo. Os insultos de Mowgly levaram os dholes do silêncio aos grunhidos, e dos grunhidos aos uivos e, finalmente, a raiva desenfreada, tal como desejada por Mowgly. O cão líder saltou no intuito de morder Mowgly, mas este, mais rápido, pegou o cão pelo pescoço e cortou seu rabo. Todo o grupo dos cães enfurecidos aguardava sob a árvore onde Mowgly se protegia, sabendo que uma hora ele teria que descer ou morreria de fome.

                    Mowgly subiu até um galho mais alto e dormiu até o anoitecer, quando o povo miúdo finalizaria seu trabalho e retornaria as colmeias dos rochedos. Então, pulando de árvore em árvore, Mowgly tentava atrair os dholes para a armadilha das abelhas dos rochedos. Ao chegar à última árvore ele passou alho em todo o seu corpo (as abelhas odeiam o cheiro do alho), e lançou-se a toda velocidade em direção aos rochedos das abelhas. A alcateia de cães vermelhos o seguiu furiosamente.

                      Ao perceber as vibrações da corrida de Mowgly e dos cães, as abelhas se colocaram em prontidão. Mowgly correu tão rápido que conseguiu saltar dos rochedos no rio Waingunga antes de receber qualquer picada. Mowgly já havia combinado com Kaa para lhe aparar a queda no rio, evitando que se chocasse com as pedras nas corredeiras. Os dholes foram atacados brutalmente pelas abelhas, muitos foram mortos pelas picadas, outros ao caírem sobre as pedras do rio. Os poucos que sobraram foram forçados a se lançarem no rio para evitar a morte pelas picadas, e foram recebidos pela alcateia do povo livre logo abaixo em um remanso formado no rio.

                      Uma luta pelo território e pelas suas vidas fora travada na beira do rio Waingunga. Mowgly, lobo Gris, Akelá, Fao e Won-tolla, juntamente com os outros lobos da alcateia de Seeonee, lutaram bravamente até acabar com todos os cães vermelhos. Nada resistia aos dholes assassinos, mas neste episódio eles foram aniquilados graças à estratégia bolada pelo Mowgly e pela Kaa.

                  Akelá fora gravemente ferido e antes de morrer pede para passar junto ao lado de seu amigo Mowgly. Akelá diz que logo Mowgly partirá para junto dos homens, mas Mowgly diz que faz parte do povo livre e não quer partir. Mas Akelá sabiamente alerta Mowgly que logo ele mesmo tomará esta decisão. Ao morrer, Akelá é saudado por toda a alcateia que por muito tempo liderou.

Melhor Possível lobos de Seeonee, feliz aniversário!