Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

sábado, 24 de junho de 2017

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...


Prefácio.
Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

                         Bem vindo a este Blog das mais belas Histórias Escoteiras. Já são milhares delas mostrando como é linda a vida escoteira, suas histórias, suas aventuras e tenho certeza que sendo Escoteiro irá gostar. É bom demais contar histórias. Qualquer uma, seja escoteira ou não. Quantas eu contei ou escrevi? Milhares talvez! Mesmo com minha velhice rabugenta e meu pulmão revoltado não paro de escrever. Aprendi a contar quando em um fogo de conselho qualquer a escoteirada ou a lobada me pedindo uma história com aquele olhar enigmático, olhares incrédulos e outros que se transportavam para dentro do contexto querendo viver toda a história contada. Todo contador de histórias se sente feliz ao ter tantos bons ouvintes.

                         Uma história de fantasma, em uma floresta escura era sucesso absoluto. Um Fogo de Conselho se apagando e você fazendo gesticulando, como se os fantasmas estivessem ali marcavam cada um dos ouvintes Badenianos. Bom demais. E o susto do grito de horror no final? Masoquista Chefe? Não, depende da história. Se ela tem um fundo de exemplos pode contar. Tem seu valor.  “Não há quem resista a boas histórias” escoteiras ou não. Nas páginas dos livros, dos jornais e das revistas, na tela do computador e na televisão, narradas ao pé do ouvido ou transmitidas pelo rádio... Seja lá onde for elas encantam, amedrontam, fazem rir ou chorar, assustam e são capazes de levar ainda que em pensamento há lugares nunca antes imaginados.

                     Não tem quem não se emociona ao contar uma historia e ter ouvintes hipnotizados com a narrativa. Tem chefes que adoram. Quando Chefe de Tropa e Alcatéia adorava contar. Em cursos que dirigi contei muitas. E quem resiste a uma história bem contada ao pé do fogo? Vendo o crepitar da fogueira, olhando as fagulhas que se espalham no céu, e como um lobinho feliz abre os olhos e ouvidos para ouvir e viajar na história do Chefe? A mente está ali fixa no conto, que vai desenrolar uma aventura e ele parte célere junto à história com as personagens. Ele se transforma, é um herói, um explorador, um grande acampador dos seus sonhos inimagináveis.

                     Bom saber que veio a procura de boas histórias. Faço questão que em todas elas a Lei e a Promessa tenha seu lugar. Mas chega de conversa. Fique a vontade. Escolha uma e entre nos sonhos das mais belas histórias Escoteiras.


Sempre Alerta!  

“Emmanuel”.


“Emmanuel”.

                 Timóteo foi o primeiro. Sempre fora assim desde que ele entrou para os escoteiros. Era uma alegria vê-lo chegar. Ficar sozinho na sede todos os dias era para ele uma alegria. Mesmo acostumado ele sentia falta dos seus amigos escoteiros. Ele se juntava a todas as patrulhas. Não tinha nenhuma especial. Sabia o nome de cada um: - Lobo de Mozart. Pantera do Luiz. Águia do Totonho, e na Antílope estavam Antônio, Pedro, Zacarias... Sabia do acampamento no próximo mês. Sonhava. Afinal ficaria dias e noites junto a eles era uma alegria infinita.

                 Lembrava pouco do seu passado. Sabia que tudo terminou para ele com oito anos de idade. Nos últimos trinta anos fez tudo para esquecer. Um pai cruel, uma mãe que não ligava para ele, uma morte horrível em uma curva onde eles embriagados saíram da estrada. Todos eles partiram para o outro lado da vida. Sombras tenebrosas levaram seu pai e sua mãe e ele ficou. Sentiu que alguém o queria levar, mas não aceitou. Perambulou pelas ruas, ficou na sua casa, mas a briga dos tios pelo espólio o enojava. Descobriu os Escoteiros. Ali fez sua morada.

                Conheceu centenas deles. Afinal trinta anos com eles produziu muitos homens feitos. Assustou quando Braguinha disse que o via, mas não escutava. Sorriu para ele e se tornaram amigos até que um dia ele partiu para morar em alguma parte do universo. Quantos chefes? Dezenas. Nunca esqueceu o Chefe André Luiz. Dizia belas palavras: - O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte. Nunca esqueceu quando a noite no Pico das Agulhas Negras ele disse; - Assim como a semente traça a forma e o destino da árvore, os teus próprios desejos é que te configuram a vida.

                Aos poucos foi vestindo peça por peça do uniforme. Ele queria ficar no acampamento uniformizado. Lembrou-se de um anjo que lhe disse: Você é somente espírito e o espírito não tem corpo. Muitas vezes tentaram levá-lo, mas ele insistia em ficar. Gostava dali, seu pai nunca o deixou ser um. – Filho isto é coisa de “boiola”, você é meu filho macho, e tem de demonstrar desde cedo que sabe mandar e matar se preciso. Naquele dia chorou. Lembrou mais uma vez do Chefe André Luiz: - A grandeza do amor repousa invariavelmente na conjugação do verbo servir.

                 Uma noite viu um clarão azul como se fosse uma lua cheia diferente. – Filho, chegou a hora de partir! – Era um Velho de roupas brancas e alvas, envolto em luzes brilhantes. – Porque Senhor? – Ninguém se esqueceu de você. Estavam esperando a hora certa para te levar. Seu pai e sua mãe ainda estão acertando suas dívidas com Deus. – Braguinha foi quem nos disse onde estava. – Braguinha? Onde ele está? – venha comigo, e vais encontrá-lo bem no centro do universo.


                 Ele pensou e pensou. Senhor! – Posso pelo menos ir ao meu último acampamento? – O Velho sorriu. Ele sabia que as verdadeiras afeições são eternas. Não começam e não terminam em uma existência. "À proporção que se liberta, a alma encontra-se numa situação comparável àquele que desperta de profundo sono. Bem diverso é, contudo, esse despertar".

nota - - “A humildade não está na pobreza, não está na indigência, na penúria, na necessidade, na nudez e nem na fome. A humildade está na pessoa que tendo o direito de reclamar, julgar, reprovar e tomar qualquer atitude compreensível no brio pessoal, apenas abençoa”. – Este é um conto de ficção baseado na doutrina espírita.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

E Galiostro finalmente dormiu na barraca dos seus sonhos.


Lendas Escoteiras.
E Galiostro finalmente dormiu na barraca dos seus sonhos.

          - Não sei Eva, ele está assim há vários dias. – Você perguntou? Perguntei mas ele me olhou sorriu e não disse nada. Nívia a mãe de Galiostro ficou calada. Ela sabia que ele estava a sonhar com o acampamento. Desde que pedira para ser um Escoteiro que ele mudou e muito. Parecia viver em outro mundo e a família não sabia se era bom ou ruim. Eva sua Avó estava preocupada. Nunca o viu assim. Espevitado, lépido, gostava de gritar, de cantar e diferente de todos os meninos quando levantava, chegava à janela e chamava em alto e bom som os pardais que acordados já tinha partido. – Ele tinha as melhores notas, e sempre fora de uma educação que orgulhava sua família. Um dia disse que queria ser escoteiro. Não explicou por que. Passou a sorrir mais, andava com uma cordinha pequena nos bolsos fazendo nós. Ela o escutou na varanda falando baixinho: - Escota, balso pelo seio, Arnês, Pescador, aselha, direito, Laís de guia, fiel e fiel duplo. Que seria tudo isto?

            Chegou o dia do acampamento. Ela viu que ele não tinha mais olhos para ela. Dormia e levantava pensando no acampamento. Quando arrumou seu quarto naquele dia viu um pequeno livreto. Folheou e sorriu. Estava escrito com desenhos - Como fazer uma pioneiria, o que são fossas de líquido e detrito. A barraca suspensa. A mesa de campo, o toldo e finalmente uma barraca armada. Ele sublinhou cada ponto e escreveu em baixo: - Custou, mas vou dormir na barraca dos meus sonhos! Que escotismo era este? – pensou. Já tinha ouvido falar deles, mas tudo era diferente, havia uma lei. Lei? Sim, uma lei que eles obedeciam. – Prometo pela minha honra! – Bonito isto disse Eva. Quando jovem soube que havia Escoteiras, mas nunca tinha sido.

                    Galiostro tinha os olhos negros, grandes como seu pai, deixou o cabelo crescer até os ombros e mesmo seus amigos o chamando de “maricas” não ligou. Os cabelos loiros davam a ele uma conotação diferente. Tinha um porte de atleta e gostava quando olhavam para ele admirados. Quando foi apresentado à patrulha ninguém perguntou, ninguém se preocupou e só Nonato o sub foi quem lhe deu a mão e as boas vindas. Ele sabia como os meninos eram. Mesmo sendo Escoteiros havia um longo caminho para se enturmar. Foi Lobato quem comentou do acampamento. Ele prestou. Viu que dormiam em três em cada barraca. Foi para casa pensando. Três em uma barraca? Como seria? Ele ainda não conhecia a barraca da patrulha. Eram duas uma azul e uma amarela. Não eram grandes e não dava para ficar em pé.

                     Foi uma semana longa. Galiostro só pensava como seria dormir em uma barraca. Nunca se preocupou e agora dormir em uma barraca não saia de seu pensamento. Soube que a maioria não tinha saco de dormir e improvisavam com folhas e capim seco colocados em dois sacos costurados fazendo um colchão. Ele teria que arrumar dois sacos para isto. Afinal ele iria dormir em uma barraca. Será que não iria ter medo? – Galiostro! Ele ouviu a voz de Dona Neném a professora dele. Piscou os olhos e pediu desculpa. – Você não prestou atenção em nada na aula de hoje! – Era verdade. Ele não tirava a barraca de sua mente. E se chovesse? Não iria entrar água? E se fizesse frio? E se ventasse? E se viesse um vendaval? Sabia que ia levar a manta do seu Avô.

                      Preparou devagar a mochila que seu Tio Malta lhe dera. Francesa! Ele disse. Achou pequena. Tio malta ensinou: – Galiostro, leve o necessário, nem mais nem menos! O que seria o mais e o que seria o menos? Viu a lista que o Monitor lhe dera. Cabia tudo. Só isto? Ficou pensando. – À noite seu pai chegou com um embrulho. – É para você! Galiostro sorriu. Era um cantil com capa verde. Um cantil! Nunca pensou que teria um. Cinco da manhã. Galiostro estava sentado na cama. Sua mochila preparada. Seu cantil cheio com água. Vestiu seu uniforme devagar. Peça por peça. Olhava no espelho, mas seu pensamento era só a barraca. Deus meu! Eu vou dormir em uma barraca? Não tirava isto do seu pensamento. Sete horas, sua mãe bateu na porta – Está na hora filho. Tomou café e calmamente beijou sua mãe e sua avó. Seu pai já havia ido trabalhar. Partiu a pé sorrindo. A sede era perto. O sol já cobria o horizonte. Sentiu uma lufada de vento no rosto. Era hora de partir para o acampamento.

                     Iriam de ônibus até a estação. No trem para Jambreiro e mais quatro quilômetros chegariam a Fazenda Trindade. Tudo foi dividido. Galiostro responsável por um facão e um lampião a querosene. Amarrou na mochila. Onze e meia chegaram. Galiostro não cantou na jornada. Olhava o céu azul de brigadeiro. Bom isto pensou. Assim vou dormir mais tranquilo na barraca. O campo ficou pronto em duas horas. Ele havia aprendido na jornada do domingo que fizeram. Uma mesa com toldo, bancos toscos, um fogão de barro esquisito e as barracas. Ajudou Zé Antônio a armar. Olhou por dentro. Pequena. Eram três a dormir ali. Ele aguardava a noite. Era a noite esperada. Comeu um lanche e na janta adorou a sopa do Vandeco o cozinheiro. Seus olhos não saiam da barraca mesmo no lusco fusco da noite. Olhou para cima. Estrelas brilhavam formando uma estrada de luzes no céu.

                       Nem prestou atenção ao Jogo do Fantasma. Nem medo teve do fantasma que apareceu no alto da montanha. Seu pensamento era um só. A Barraca! Fizeram um pequeno fogo em frente à barraca, ele se sentiu bem com o calor. Sua mochila estava na porta. Combinaram de preparar tudo na hora de dormir. Cantaram o Cuco e a Canção da Lua. Gostava de cantar. Esperava a ordem do Monitor para prepararem as barracas. Jamiel Lourenço e ele prepararam o interior da Barraca. Chegou a hora finalmente. Deitaram. Ele no meio. A mochila serviu de travesseiro. Olhava a lona da barraca. Ouvia os grilos cantantes na noite do seu primeiro acampamento. Finalmente ele estava na barraca, mas não dormiu. Um trovão, um relâmpago. Galiostro sorriu. Precisava da chuva. Nos seus sonhos ela estaria lá na sua primeira noite de acampamento.


                         Os primeiros pingos, o som pedante da cascata na barraca. Um vento cortante querendo entrar pela porta. A barraca balançava, mas estava firme. Galiostro com as mãos entre a nuca sorria. Agora sim, ele era um acampador. A barraca para ele não teria mais segredos. Seus olhos se fecharam e ele se viu transportado em sonhos nunca antes imaginados. Finalmente Galiostro dormiu em uma barraca.

nota:  Lembro-me de uma barraca perdida em meus sonhos,
Na terra que me viu nascer
Lembro-me de um menino que andava pensando
sonhava vir um dia a ser,
Dormir sonhar, quem sabe amando...
Na barraca sorrindo esperando o amanhecer!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Dakota, um Chefe de coração de ouro.


Lendas Escoteiras.
Dakota, um Chefe de coração de ouro.

                           - Calma Mariza, no final tudo vai dar certo! - Certo? Falou Mariza. – Desde quando você paga taxa de acampamento para treze meninos e gasta quase toda nossa economia para o mês e ainda vem dizer que vai dar tudo certo? – Chefe Dakota pôs as barbas de molho apesar de não ter barba. Ele sabia que não seria fácil conseguir o que gastou para as compras do mês. Mas o fazer? Sua tropa tinha trinta Escoteiros e somente dezessete pagaram a taxa. Ele sempre dizia – Ou vão todos ou não vai ninguém. Era o acampamento do ano, mais de trinta patrulhas presente, não podiam faltar. – Pois é Dakota, não é a primeira vez. Antes era um ou dois agora são treze meu amor. Como vamos viver? Naquele dia saiu mais cedo de casa para o trabalho, ele queria pensar uma solução para os dois lados. Mariza tinha razão, mas e os Escoteiros que não iriam? Ele teria condição de dizer a eles que não conseguiu?

                             Seguia a pé pela Rua dos Aimorés pensativo. Pensativo iria atender ao Chamado do Senhor Nacano. Pai de Pirilampo escoteiro da patrulha Quati e gerente do banco do Comércio da cidade. Recebeu um recado para passar no banco sem demora. Sabia que ele iria oferecer um emprego, mas duvida cruel, pois nunca pensou em ser favorecido pelo escotismo. Ele não era rico, trabalhava com o Chefe Mosquete e nem sempre tinha trabalho. Faziam bicos, limpeza de fossas, limpeza de telhados, pintura simples nas casas e assim ia vivendo. Queria um emprego melhor, mas ali em Pedra Azul ele nunca iria conseguir.

                           Deveria ir ao banco? Pensou em ir morar na capital, mas deixar a cidade que amava? Ir para um lugar que ele não conhecia para fazer o que? Ouviu alguém gritar Sempre Alerta e viu Jonildo Escoteiro da Pantera indo para casa após as aulas. Chefe Dakota sorriu e respondeu. Amava aquela Tropa e os meninos dela. Amava também Marilda. Casaram-se há poucos anos. Ela com dezesseis e ele com vinte e um. Sabia que apesar de tudo ele podia contar com ela. Ela preferiu ficar fora do Escotismo mas gostava dos meninos que sempre visitavam Dakota.

                           Na esquina com a Rua Floriano Peixoto ele viu a patrulha Águia uniformizada seguindo para sua boa ação da semana. Todos o cumprimentaram e seguiram em frente. Chefe Dakota sorriu. Como posso deixar esta turma? É minha vida, minha razão de ser. Ele amava o escotismo de uma maneira tão intensa que muitos diziam que ele não ia num bom caminho. – Tem que dosar um pouco Chefe Dakota. Manfredo, o Presidente do grupo sempre aconselhando. – Cuide bem de sua família isto é o mais importante! Dakota o respeitava mas esperava mais dele nas atividades onde precisavam gastar. Chefe Dakota não foi Escoteiro. O primeiro grupo começou a cinco anos. Sempre sonhou em ser escoteiro e pediu para entrar. Com dezesseis anos não dava. Não tinham tropa sênior. Todos os sábados ele ia para a sede ver a correria das patrulhas. Amava aquilo e dormia pensando em vestir seu uniforme, por seu lenço e seu chapéu, uma bandeira e correr para as montanhas.

                          Quando fez dezoito anos foi aceito como assistente. Chefe Jacob mesmo em dúvida o aceitou. Ele sabia que Dakota fez só o segundo grau e não tinha emprego fixo. Dakota esperou a semana como se fosse sua última no mundo. Subiu as nuvens quando Chefe Jacob o apresentou a tropa. Dakota agora era Chefe. Prometeu a si mesmo mudar de vida, encontrar um emprego, estudar e mostrar aos Escoteiros que ele podia ser alguém e dele orgulhar. Mas não foi bem isto que aconteceu. Não arrumava emprego e nem estudou. A cidade não tinha escola profissional e filho de gente humilde ganhando pouco não podiam pagar. Um dia Chefe Mosquete o chamou para ser seu ajudante na sua oficina e ele aceitou. No mês que tirou dois mil reais achou que podia casar e casou. Todos foram contra – Chefe Dakota! 21 anos e a Mariza 16, porque não esperar? Dakota disse não. Amava Mariza e achou que casado os pais dos escoteiros o olhariam com mais respeito.

                   Esperou o farol abrir para atravessar a Rua Santo Ângelo. Resolveu ir ao banco. Seria indelicado não ir. Ele gostava de Pirilampo. Um Escoteiro avoado, sorridente e que topava qualquer parada. Lembrou a jornada ao Vale da Tartaruga. Pirilampo quando quase morreu. As patrulhas andavam a vontade na estrada sem movimento e deixava que todos pudessem conversar observar a natureza, ouvir o cantar dos pássaros e descobrir pegadas. A turma adorava estas jornadas. Na curva do Cavalo Doido foi que a tragédia quase aconteceu. Dois Touros Guzerá cismaram com a escoteirada. Um deles partiu direto em cima de Pirilampo. Ele viu que se não interferisse uma tragédia ia acontecer. Tomou o bastão de Gentil e correu em cima do Touro. Enfiou a ponteira de aço no meio dos olhos do touro. Foi no ponto certo. O Touro caiu morto. O Senhor Nacano fez questão de pagar pelo Touro ao Fazendeiro Totonho. Ficou agradecido ao Chefe Dakota e agora o havia chamado. Ele sabia que era por causa do acidente. Ele sabia que fez o que qualquer Escoteiro faria.

                   Entrou no Banco ressabiado. Estava cheio e pediu a moça para falar com o Senhor Nacano. Ele veio sorridente a abraçar o Chefe Dakota – Dakota meu amigo, você vai trabalhar aqui. Tenho uma vaga para você com excelente salário. Dakota não se fez de rogado. Precisava e aceitou. Iria mostrar que era capaz não só por gratidão por ter salvado da morte o filho do Senhor Nacano. – “Todo mundo no chão”! - Alguém gritou. Um tiro para o ar e todos deitaram. Um assalto pensou Dakota. – Um bandido chegou à escopeta na testa do Senhor Nacano. – Tem cinco segundos para abrir o cofre – um, dois, três... Chefe Dakota no alto dos seus vinte e um anos, casado, sem filhos, mas que adorava o escotismo levantou de um salto, tomou a escopeta do bandido e com ela bateu em sua cabeça. O Bandido caiu e outro estampido se ouviu. Uma mancha vermelha em cima da blusa de Dakota apareceu. Um tiro fatal.


                    A cidade em peso foi na cerimonia fúnebre. Uma cerimonia do Adeus. Não houve o toque do silencio e até esqueceram-se de cantar a canção da despedida. Centenas de pessoas se acotovelaram em volta da Campa simples. Marisa em pé chorava baixinho. O Senhor Nacano engasgado não sabia o que dizer. Padre Tomaz rezou o que tinha de rezar. A escoteirada chorando sem parar. A vida é assim, do nada se vive e do nada se morre. Adeus Dakota, a cidade em pouco tempo vai se esquecer de você. Você não era nada e mesmo virando um herói de nada valeu. Valeu ou não cinquenta anos depois Marisa ainda rezava todos os dias e depositava flores na última morada de Dakota. Ao levantar ela não deixava de ler o que escreveram para ele em uma placa de bronze – Escoteiro eu fui, Escoteiro eu serei até morrer! 

nota: Não há mal que perdure quando o bem mora dentro da gente. Cada pessoa que amamos é um achado. Cada momento juntos é um tesouro. Cada dia de vida que temos é um presente. Divirtam com a história de Dakota que hoje vive em uma estrela no céu.
     

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Vítima de uma paixão.


Lendas escoteiras.
Vítima de uma paixão.

                     Pois é Chefe, eu a conheci. A verdade é que nem sei se a conheci internamente. Posso até contradizer muito do que vou lhe contar e olhe Chefe me mantive calado por muitos anos. É uma história triste que tentei esquecer e não consegui. Lembro quando ela ainda com seus sete anos adentrou no pátio, me pareceu que uma luz chegou do céu para deixar o dia mais bonito e formoso. Eu era dois anos mais velho, mas senti que nos conhecíamos de algum lugar. Ela me aceitou como amigo e nas horas vagas eu ia conversar com ela na porta de sua casa e na Matriz do Cedro. Na tropa escoteira esperei dois anos sua passagem. Foi então que notei que ela se esqueceu de mim. Meus olhos sempre fixavam sua figura imponente que aos onze anos resplandecia em meu coração.

                     O tempo implacável enviou para o passado a juventude dela e a minha. Pioneiro logo fui para Chefe. Sempre pensando em pedir sua mão em casamento. Mas como? Lisbela me considerava um amigo e mais nada. Olhe Chefe, ela podia ter sido tudo na vida, seus pais tinham condições financeiras para pagar uma boa faculdade, mas ela mesma obediente e disciplinada não fez jus aos sonhos deles. O tempo foi passando e ela se mostrava ter um grande Espírito Escoteiro. Eu Chefe não nunca tive uma namorada. Eu a amava. Era mais que um amor era uma paixão e isto impedia que eu olhasse para outra jovem. No fundo Chefe eu sabia que nunca há teria. Sabe Chefe precisava ver quando ela adentrava a sede, dava aquele belo sorriso, jogava os cabelos compridos loiros para trás e gritava Sempre Alerta. Meu coração batia chefe.

                     Para dizer a verdade eu nem sei como aquilo aconteceu. Eu já tinha visto Lisbela e Nair juntas. Mas acreditei em amizade e nada mais. Nair não era e do movimento escoteiro. Mas a surpresa veio em seguida. Ambas resolveram assumir o romance e foi então que tudo aconteceu. Monte Verde com seus 45.000 habitantes ainda era uma cidade provinciana. Isto Chefe aconteceu há mais de 30 anos. Lisbela foi levada ao Conselho de chefes e mesmo eu intercedendo não adiantou. Ela foi excluída do grupo e o pior, exigiram que ela devolvesse o Lis de Ouro, o Escoteiro da Pátria e a Insígnia de B.P. Absurdo Chefe, tanto que pedi para sair. Se não fosse o Chefe Leôncio eu não teria mais voltado para o grupo.

                     Elas assumiram seu romance e foram morar juntas. Lisbela ainda não tinha emprego, mas Nair era enfermeira no Hospital Santo Ângelo. Os pais de Lisbela a abandonaram e mudaram de cidade, eles nunca aceitaram o “casamento” ou a união de ambas. Lisbela ficou sem nada, tentou arrumar um emprego e não conseguiu. O destino é engraçado, quando tudo vai bem, beijos, abraços, cumprimentos e depois todos viram as costas sem sequer entender a razão de cada um. Eu pensava que pelo menos a maioria dos chefes fossem perdoar se fosse possível o perdão já que a escolha de dois adultos deve ser respeitada sem interferência de ninguém. A vida é assim e poucos têm piedade quando duas pessoas do mesmo sexo se amam e resolvem assumir seu amor.

                      Acho Chefe que ambas estavam aqui na terra para pagar algum que fizeram em outras vidas. Só pode ser. Cinco meses depois Nair foi demitida do Hospital. Não conseguiu emprego e ela e Lisbela resolveram mudar para outra cidade mais distante. Quando ela se foi meu mundo que já não tinha chão me jogou como um boneco espatifado no asfalto. Nem sei como não morri. Passei a beber e olhe Chefe eu era um escoteiro de mão cheia. Nunca pensei que chegaria neste estado por uma mulher. Quatro anos depois por muita insistência voltei ao grupo. Muitos ainda se mantinham ressentidos. Resolvi mudar e sempre dava em cada meu aperto de mão e um abraço. Recebiam desconfiados pensando que eu também tinha mudado meu estilo de homem macho.

                        Qual não foi minha surpresa quando fui fazer um curso na capital me dei de cara com Lisbela. Era outra. Cabelos brancos, despenteados, sorria mostrando a falta de dentes e outros cariados. Não era a figura da Lisbela que guardava na memória. Ela me cumprimentou. Convidei-a para almoçar comigo e aceitou com reservas. Perguntei por Nair e ela me respondeu chorando. - Morreu Augusto. Quando chegamos aqui uma pneumonia e um câncer a matou em quatro meses. Foi meu fim também. Pensei em me matar, mas meu passado escoteiro não deixou. Ainda tenho na mente as leis e a decima primeira de B.P nunca esqueci. – Me lembrei: - O escoteiro é puro nos seus pensamentos nas suas palavras e nas suas ações.

                       Ficamos depois em um banco da praça próximo a rodoviaria e ela me disse que trabalhava como faxineira, morava em uma favela e nunca mais viveu com ninguém. – Moro sozinha Augusto. Nair foi para mim o sol da minha vida. Sem ela vivo sem pensar no futuro a não ser quando me for encontrar com ela no paraíso. Se for merecedora, claro. – Ela mesmo ainda tinha dúvidas do seu gesto. Chefe, o senhor me conheceu quando menino escoteiro. Conheceu-me nos cursos que fiz com o senhor, sabe como penso e foi sempre um amigo em que podia contar. Mas eu quero perdoar Lisbela por não me ter escolhido e não consigo. A mágoa ainda persiste e achei que ela não podia ter fechado seu coração para mim.

                        Não sabia o que dizer ao Augusto. Ainda era um belo homem e continuava no escotismo ajudando quem precisava ser ajudado. Os jovens. Olhei para ele e falei baixinho: - Augusto perdoar é mais importante do que receber o perdão. Remoer mágoas e ressentimentos envenena a alma. Viver esse envenenamento destrói o ser. – Ele me olhou com os olhos rasos d’água. Não me disse nada. Saiu devagar sem olhar para trás. 


                          Fui para casa pensando nas palavras de um poeta: - “Quero voltar a viver ao seu lado, nos magoamos eu sei. Mas perdoar não é esquecer. É apenas lutar por mim e por você”! Verdade? Se for assim o amor venceu!

nota: - O mundo está mudando e diversas situações que eram tabus no passado agora são mais factíveis e aceitas. Mesmo assim costumamos virar as costas quando tudo acontece entre nós. Certo ou errado todos tem direito a escolher seu destino e com quem viver. A história de Lisbela e Nair é uma ficção, mas tem muito de real por muitos que tentam viver feliz.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Lendas da Jângal. O Lobinho João e o pé de feijão.


Lendas da Jângal.
O Lobinho João e o pé de feijão.
(Baseado em uma fábula dos irmãos Grimm).

                  A Akelá Anita quase não aguentava mais ficar acordada. Foi um dia cansativo e ela sozinha com dezoito lobinhos e lobinhas em um acantonamento só queria dormir. O relógio marcava oito da noite. Ela sabia que eles não iriam dormir tão cedo. No programa havia um jogo noturno e depois cama. Será? Estava sozinha. Norma e José seus assistentes na última hora não puderam comparecer. Eram casados e na última hora ficaram sabendo que a mãe de Norma passava muito mal e iria para o hospital. Cancelar o Acantonamento? Ele sabia que não. A preparação foi grande. Tinha a ajuda de Dona Ana na cozinha e só.

                 Sentaram-se na varanda e serelepes os lobos brincavam nas mais diversas invenções que só as crianças pequenas sabem fazer. Ela queria dormir, daria tudo por uma cama. – Akelá! Akelá, acorde! Ela sonolenta viu que era Tati da Matilha Marrom. – Que foi? Perguntou. – Conte uma história! – Ela sorriu. Contar histórias não era seu forte, mas viu muitos lobinhos se aproximando e gritando: - Conta, Conta! – Não tinha jeito. Não havia nenhuma história preparada para contar. Ela não tinha o dom de tirar do baú uma história e fazer dela uma bela forma de aprendizado para os lobos da alcateia. – Fechou os olhos e parecia que alguém ajudava a desenvolver a historia e ela começou:

- Era uma vez, numa pequena cidade bem longe daqui, tinha um Lobinho chamado João. Ele vivia com sua mãe, pobre viúva em um casebre bem longe da cidade. – Ela viu que os lobos sentaram em volta dela prestando muita atenção e ela continuou: - Um dia sua mãe disse a ele: - Joãozinho acabou a comida e o dinheiro. Vá até a cidade leve a Mimosa nossa vaquinha o único bem que nos resta, venda pelo melhor preço e compre alguma coisa para a gente comer. João ficou muito triste. Ele amava a Mimosa e pensou que ficar sem ela seria muito ruim para ele. Ele sabia que não tinha nada para fazer o almoço e chorando baixinho pegou a vaquinha e foi para a cidade para vender e comprar comida.

- No caminho encontrou um homem que ele não conhecia, mas bom de conversa e o convenceu a trocar a vaquinha por sementes de feijão. O homem educadamente disse para ele: - Leve estas sementes. São mágicas. Com elas vocês nunca mais passarão fome! – João Acreditou e com as sementes de feijão voltou para casa. Quando sua mãe soube ficou furiosa. Mesmo assim jogou tudo pela janela. João triste foi para seu quintal ouvir o canto dos pardais que ele gostava muito. Foi então que notou uma enorme árvore que ia até o céu. Não chamou sua mãe e decidiu subir pelo pé de feijão até chegar nas nuvens.

- João era um lobinho esperto e pensou que poderia encontrar lá em cima um pote de ouro que os arco íris possuem. No topo João ficou maravilhado ao encontrar um castelo nas nuvens e foi vê-lo de perto. Não viu uma enorme mulher surgir de dentro do castelo e agarrá-lo. – O que faz aqui menino? Será o meu escavo. Olhe cuidado não deixe o gigante saber se não ele vai comê-lo. Vou esconder você. – O gigante chegou fazendo muito barulho. A mulher o escondeu em um armário. – O gigante rugiu: - Sinto cheiro de criança! E farejou todos os cantos do castelo tentando achar. A mulher falou para ele: Gigante, este é o cheiro da comida que irei servir. Sente-se a mesa meu senhor!

- O gigante comeu o saboroso alimento. Depois ordenou a uma galinha prisioneira que pusesse um ovo de ouro e disse a uma harpa que tocasse uma melodia. O gigante adormeceu logo. João se sentindo protegido com o sono do gigante saiu de onde estava rapidamente pegou a galinha que cacarejou e a harpa fez um som estridente. O Gigante despertou. João correu com a galinha embaixo do braça e a harpa na outra mão.  O gigante correu atrás dele. João chegou primeiro ao tronco do pé de feijão e deslizou pelos ramos. Quando estava chegando ao chão gritou para sua mãe que o esperava: Mamãe vá buscar o machado, tem um gigante atrás de mim! João cortou o tronco que caiu com um estrondo. Foi o fim do Gigante.

- Todas as manhãs a galinha põe ovos de ouro e a harpa toca para João e sua mãe, que viveram felizes para sempre e nunca mais sentiram fome.

                      A Akela olhou para os lobos, agora desperta e disse: - Lobinhos como moral da história devemos acreditar que sempre nossos sonhos podem resolver nossos problemas se tivermos vontade de fazê-los realizar. João acreditou e mesmo fazendo tudo ao contrário hoje eles tem renda e não passam mais fome. Mas cuidado toda história são histórias. Não vão vocês subir em pé de feijão que aparecer na frente, podem se dar mal!
- A Alcateia caiu na gargalhada e todos foram dormir para alívio da Akela!

nota - ... E foi então que livre do perigo João abraçou sua mãe alegremente. E, depois daqueles dias os dois passaram a viver tranquilos. Tempos depois, quando João se tornou um homem forte e bonito, se casou com uma princesa com quem viveu feliz por muitos e muitos anos. Quanto ao pé de feijão, depois de cortado, secou completamente e, como não havia mais sementes nunca mais nasceu outro igual. Divirta-se com esta fábula muito conhecida.


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Açu Pintassilgo, o Jacaré chorão do Lago Ness.


Açu Pintassilgo, o Jacaré chorão do Lago Ness.

(um conto para lobinhos)

       Ele não era um jacaré comum. Nunca foi. Não se enturmava. Morava na beira do Lago Ness. Não saia dali para nada a não ser um mergulho ou outro. Achou próximo aos coqueiros uma enorme pedra. Seu local preferido. Metade da pedra afundava na água escura e ele ali ficava o dia inteiro.  Metade fora d’água e a outra dentro d’água. Seus pais disseram que ele era um legítimo Jacaré-Açu, uma linhagem de muitos e muitos anos. Açu Pintassilgo nunca se importou com isto. Um dia um Escoteiro sentou ao seu lado e conversa vai conversa vem ele disse – Açu Pintassilgo, você sabe o que significa Jacaré para os homens? Dizem que seu nome deriva dos tupis-guaranis, Iakaré ou Yacaré, aquele do olho torto, encurvado e que vê pelos lados. Açu Pintassilgo não achou graça. Olhou para o Escoteiro e disse: E daí? Eu tenho orgulho da minha linhagem. Tanto orgulho que aprendi a ser amigo de todos. Você me conhece bem, sempre fui um cavalheiro com todos os Escoteiros e escoteiras.

        O Escoteiro não disse mais nada. Poderia ter dito que ele era o maior chorão do Lago Ness. Poderia ter dito que ele era motivo de piada para todos na patrulha. Poderia ter dito que nos fogos de conselhos era falar nele e todos morriam de rir. Mas o Escoteiro era leal. Não ia desfazer do Açu Pintassilgo. Isto não. Só que nenhum Escoteiro sabia que lágrimas de jacarés são falsas. Conta uma lenda que seus bisavós os crocodilos quando iam comer uma presa, eles engoliam sem mastigar. Assis para abrir a mandíbula ele precisava comprimir a glândula lacrimal e elas abertas começavam a lacrimejar. As lagrimas lubrificam o olho. Mas Açu Pintassilgo gostava de ver os outros dizer que ele era um Jacaré Chorão.

        Não tenho certeza, mas acredito que foi no verão passado que apareceu nadando uma linda Jacaré. Açu Pintassilgo apaixonou só de olhar. Amor à primeira vista. Naná Verdes Mares olhou Açu Pintassilgo e nem prestou atenção. Foi nadando e ao passar por ele deu um sorrisinho maroto. Açu Pintassilgo pulou na água e quando a procurou viu que ela sumiu. Agora Açu chorava mesmo. Perdeu seu amor e não sabia como fazer. O Escoteiro a tarde apareceu e ouviu sua história. Deixe comigo Açu, você sabe, vou espalhar aos quatros ventos do Lago Ness. Vamos encontrar sua amada custe e o que custar. Dizem que quem tem boca vai a Roma. Sei não. Meu fogão tem quatro bocas e nunca saiu da cozinha. Risos. Durante cinco dias os Escoteiros rodaram céus e terra atrás da amada de Açu Pintassilgo. Até duas patrulhas de Escoteiros do Mar vieram ajudar com seus botes.

          Foi uma luta, mas como os Escoteiros não desistem facilmente eles encontraram Nana Verdes Mares tomando sol na Praia do Paco-Paco. Orelhudo era um Escoteiro calmo. Sabia conversar e nunca perdia a “fleuma”. Chegou devagar onde estava Nana Verdes Mares. Ela com seu olhar sonhador fixou Orelhudo e pensou – Que diabos este Escoteiro quer de mim? – Orelhudo não se fez de rogado. Contou tudo devagar, elogiando Açu Pintassilgo, dizendo que era um ótimo partido e ela seria feliz com ele para sempre. Nana Verdes Mares riu. – Olhe Orelhudo, eu já tenho namorado. Ele passa luas e luas sem me procurar e assim fica difícil para começar tudo de novo com outro. Você sabe que as femeas jacarés são as mais fieis que existem entre os repteis. Se vocês acham que podem ajudar procurem Dente Grande o meu amado e digam para ele o que pretendem. – Orelhudo pensou e pensou. Agora a barra pesou. Se o cara-jacaré tem dente grande o melhor é saltar de banda.

           Orelhudo contou para a tropa o que aconteceu. Infelizmente Açu Pintassilgo ficaria solteiro por muito tempo. Neneco Risadinha deu uma opinião. Somos vinte e oito e o tal de Dente Grande é só um. Quem sabe poderemos chamá-lo e fazer um acordo? Assim era Neneco Risadinha e logo contou mais uma de suas piadas – Amigos! Porque o Jacaré tirou o jacarezinho da escola? E rindo respondeu – Porque ele “réptil” de ano. E riu a valer. A tropa de Escoteiros percorreu todos os cantos do Lago Ness e deixou um aviso para Dente Grande. – Cinco Jacarés vindo do Japão estavam à procura dele. Souberam que ele era valentão e precisavam de um Jacaré durão para uma luta de Sumô de vida ou morte. Quando Dente Grande soube disto atravessou dois continentes até o Japão. Lutar era com ele. Mas um navio pesqueiro japonês o viu e o confundiu com uma orca negra. Dito e feito. Dente Grande foi pescado e dizem que hoje é o prato mais delicioso nos restaurantes japoneses. Eles acharam o Sushi de jacaré o melhor do mundo.

            Agora Nana Verdes Mares estava livre. Açu Pintassilgo deitou a correr sobre as águas do lago Ness até onde ela estava. Fez à corte, ela aceitou. Casaram-se e no dia do casamento Toda a Tropa Escoteira presente. Milhares e milhares de peixes, jacarés, crocodilos e centenas de peixes enormes. Palmas, foguetes e a festa durou uma semana. Até o Monstro do Lago Ness esteve presente. Bonachão ria a valer das piadas de Neneco Risadinha. A que ele mais gostou foi a do peixe que estava nadando no mar e de repente veio uma onda tão forte que ele morreu afogado! E o monstro do Lago Ness riu a valer e riu mais quando Risadinha contou que conheceu uma loira e ela estava brava, muito brava com um peixe. De repente ela berrou para o peixe – Seu peixe desgraçado! Você vai ver! Vou afogar você!


            Bem apenas uma lenda e não dizem que lenda é lenda? Mas me contaram que enquanto durou o casamento de Açu Pintassilgo com Nana Verdes Mares, o lago Ness ficou infestado de jacarezinhos. E por muitos e muitos anos os dois viveram felizes para sempre!

domingo, 18 de junho de 2017

Um acampamento inesquecível. (baseado em fatos reais).


Um acampamento inesquecível.
(baseado em fatos reais).

               Final da década de cinquenta. Tinha feito um CAB (Curso de adestramento básico) e liderava uma tropa escoteira no meu grupo de origem. Neste curso fiz muitos amigos, mas o Chefe Gafanhoto foi especial. Gente boa, educado, bom ouvinte quase não falava. Cantava bem, bom violeiro e um grande mateiro. Tinha um sonho de se alistar na Legião Estrangeira. Eu ria quando ele dizia isto e olhe até mesmo o invejava. Quem sabe eu também gostaria de viver estas aventuras? Foram cinco dias de curso maravilhosos e no final ele me deu seu endereço e levou o meu. Passado um ano e meio recebi uma carta dele: - Chefe! Que tal acamparmos juntos? Minha tropa e a sua. – Grande ideia Chefe Gafanhoto. Quando? - Vamos aproveitar janeiro do próximo ano.

            As correspondências foram frequentes naqueles seis meses que faltavam para nosso acampamento. A tropa esperava com ansiedade. Em fins de outubro recebi uma carta dele. – Chefe, o Senhor Molixto, pai de um Escoteiro tem uma fazenda próxima a Três Estrelas. Metade do caminho para mim e você. Acho que uns noventa quilômetros de sua cidade. Você passa Três Estrelas e marca mais cinco quilômetros. Vais ver uma bifurcação. Alí será o ponto de encontro. Até a fazenda são mais oito km. Teremos dois carros de bois para transporte do material do entroncamento até o local. O local é excelente, boa aguada, cachoeira, mata e muito bambu. Garantiu também que será por conta dele a carne de porco, arroz, feijão, batata verduras e frutas. Ele tem isto na fazenda!

                  Perfeito. Em outra carta confirmei o horário de encontro. A tropa vibrou quando contei sobre o acampamento. Consegui na prefeitura um caminhão lonado, Chefe João Soldado conseguiu o que precisávamos de alimentos no Armazém do seu Amadeus. Iriamos com quatro patrulhas. As patrulhas se reuniam preparando para a grande atividade. A Corte de Honra sempre discutindo o programa. Conforme combinado seria metade nossa e metade do Chefe Gafanhoto. Seriam seis dias acampados. Partimos em uma manhã chuvosa. O caminhão estava lonado. Rio Bahia, estrada de terra ainda sem asfalto. Noventa quilômetros. Chegamos às nove e meia da manhã. Corre daqui, corre dali, tralha nas costas, chuvinha intermitente e pegamos a bifurcação. Vimos à tropa do chefe Gafanhoto do outro lado de um pontilhão de madeira. O córrego cheio. Imenso. Passava por cima da ponte. Não dava para atravessar. Um barulhão tremendo das corredeiras.

                  A Patrulha Raposa montou um posto de transmissão de semáforas. Entendemo-nos. Armamos barraca debaixo de chuva e combinamos esperar a enchente diminuir. As patrulhas improvisaram um toldo e um fogão tropeiro. Saiu uma sopa com pão fresco. A Pica Pau insistiu que eu comesse com eles. À noite as patrulhas resolveram conversar por Morse. A turma do Chefe Gafanhoto era boa na sinalização. Dormimos cedo. De manhã sem chuva tempo cinzento e frio. A enchente diminuiu. Rogério Monitor me procurou. Chefe, as barracas estão cheias de escorpiões. Expliquei como fazer batendo os lençóis à banda da barraca e o vestuário individual para empacotamento em um tronco de arvore. Graças a Deus ninguém foi mordido. Resolvemos fazer a travessia em jangadas. Não dava ainda para atravessar na ponte. Cada Patrulha fez uma pequena jangada. Uma festa. A outra tropa gritando e ajudando. Às onze da manhã estávamos do outro lado.

                   Abraços, saudações, apertos de mão, gritos de patrulha. Partimos. Os carros de boi lotados. Sempre gostei deles. Emitem um som estridente que muitos chamam de carro Cantador. Dizem que são feitos assim para anunciar sua passagem. Chefe Gafanhoto brincando com todos, animando e cantando lindas canções escoteiras. Oito quilômetros tirados de letra. Chegamos à tarde ainda com sol. Seu Molixto gente boa. Comemos goiabas e bananas. Ele tinha uma carne de porco frita. Beliscamos mas iriamos fazer o jantar já com as patrulhas montadas em seu campo. Dei uma volta no local. Maravilhoso. A cascata era linda. Batizei-a como a Cascata da Fraternidade. Seis dias maravilhosos. Parecia que os sessenta jovens ali presentes se conheciam a longo tempo. Mais que irmãos. Seu Molixto um gentleman. Dois meninos filhos de um meeiro (morador da fazenda, planta e dá uma parte da colheita ao dono) se encantaram. Chefe Gafanhoto os colocou cada um em uma Patrulha.

                      Tiana filho do Seu Molixto uma bela morena dos seus quinze anos não tirava os olhos de mim. Fiquei triste quando partimos e ela chorou. Lagrimas e lagrimas em seus olhos. No acampamento teve de tudo. Bois que invadiram o campo à noite acordando todo mundo. Ricardinho pegou uma traíra de quatro quilos. Só vendo para acreditar. A luta da lança medieval no remanso da Cascata da Fraternidade valeu o acampamento. A jornada na Caverna do Vento outro. Começava em um lado da montanha e saia do outro lado sempre soprando um som estridente. Mais de dois quilômetros na escuridão. E os pistoleiros? Ficavam escorados no tronco da macaxeira a nos espiar. Seu Molixto dizia que eram de paz. Norbertinho em um jogo noturno caiu de uma arvore. Quebrou a perna. Levado a cidade voltou para o acampamento enfaixado. Ele mesmo fez uma muleta e não chorou. 

                      A falsa baiana em cima do remanso a mais de quinze metros de altura deu o que falar. A ponte pênsil que a Patrulha do Morcego fez durou dois dias com um belo tombo do Japirim. O ninho de águia da Patrulha Coruja dizem está lá até hoje.  Risos. A “desandeira” que deu em todos por comerem muita goiaba deu para rir a beça. Sempre um correndo para o WC que logo encheu! Final de acampamento. Meninos da fazenda chorando. Seu Molixto emocionado fez o juramento e recebeu os dois lenços um de cada grupo. Os dois pistoleiros vieram nos cumprimentar. Tiana me procurou dizendo que me amava e nunca mais ia me esquecer. Nunca mais a vi.  Retorno triste, Chefe Gafanhoto tentando animar. Partida chorosa, nosso caminhão lotado dando adeus. Edinho com sua bandeirola de semáfora transmitia até breve e adeus até o caminhão virar a curva da estrada. Meninos se acenando e chorando. Promessas de um novo reencontro. Amizades que se formaram e duraram por uma eternidade. Janeiro de mil novecentos e cinquenta e nove que entrou para a história.


                      Cinco anos depois recebi uma carta do Chefe Gafanhoto – Chefe Vado estou partindo para a França. Vou me alistar na Legião Estrangeira. Nunca mais o vi. Acho que seu sonho de ser um legionário foi realizado. Ainda deve estar escoteirando nas dunas montanhosas ao norte da Argélia. Sonhos são sonhos. Cada um faz o seu. Belo acampamento. Grande amigo o Chefe Gafanhoto. Nunca mais o vi e nunca mais o esqueci. Ficou marcado para sempre em meu coração.

nota: - Eu fiz centenas de acampamentos em minha vida. Cada um tem uma historia, mas este com a tropa do Chefe Gafanhoto ficou para sempre na memória de todos que estiveram lá. Coisas boas misturadas com fraternidade não dá para esquecer. Viagem comigo nesta bela aventura do passado, misto de sonhos, mas reais!   

sábado, 17 de junho de 2017

O último toque de silêncio!


Lendas Escoteiras.
O último toque de silêncio!

           Tony Blanco chorava copiosamente a minha frente em um bar de uma travessa da Avenida São João. – O Senhor se lembra Chefe Vado do Pintassilgo? – Claro que me lembrava. Ele e Tony Blanco eram amigos inseparáveis. – Pois é nunca tive um amigo fiel como ele. Amigo mesmo. De todas as horas. Éramos de Patrulha diferente da sua. Lembro que o Senhor era da patrulha Lobo e nós da Touro. Mas fizemos juntos muitos acampamentos. Lembra-se daquela jornada na Ilha do Cajuru? Foi demais não? – Eu lembrava. Minha mente passeava pelo passado. – Pois é Chefe Vado, desculpe não sou mais Escoteiro. Eu hoje não sou nada. Um molambo largado na vida. Não tenho família, amigos, nada e nem ninguém que se preocupe por mim.

             A vida é uma surpresa atrás da outra. Havia anos que não ia ao centro e eis ao descer do ônibus na São João senti que ia passar mal. Corri até um bar em uma travessa da avenida e pedi um copo de água mineral. O remédio estava comigo. Ajuda mas não muito. Ficar imóvel e respirar bastante para voltar ao normal. Foi então que o vi. Nada mais nada menos que Tony Blanco. Maltrapilho, sujo, cara lisa, mantinha o mesmo corpo forte do passado quando puseram nele o apelido de Maciste. Mas era uma sombra do passado. A última vez que o vi foi em 1976, em um Seminário Escoteiro em Juiz de Fora. Nunca mais nos encontramos. – Ele me reconheceu. Muitos abraços e seus olhos rasos d’água. Pois é Chefe faz tempo não? Mas ele não sorria. Tony me conte o que aconteceu ao Pintassilgo?

            Morreu Chefe. Morreu. Uma morte horrorosa. Ficamos juntos até 1990. Morávamos juntos, mas sempre mantendo a fleuma de amigos somente. Ele nunca me deixou. Por causa dele não casei com a Das Dores. Gostava dela, mas não daria certo. Dizia sempre para o Pintassilgo arrumar uma namorada. Ele ria e dizia: - Não quero. Se arrumar vou casar. Se casar você deixa de ser meu amigo. Olhe Chefe muitos interpretaram mal esta amizade. Não entenderam que para ser amigos não precisamos de subterfúgios. Basta gostar. Gostar de maneira simples, sem desejos, sem aspirações que não seja estar junto de quem gosta. Das Dores riu de mim quando disse isso a ela. Interpretou mal. Vim para São Paulo. Pintassilgo veio também. Trabalhava em uma construtora como Mestre de Obras. Ele também. Alugamos um barraco no Bairro Cajuru. Pequena mas dava para nós dois.

             - Tony, você ainda toca o Clarim? Perguntei. Lembra quando eu e você nos exibíamos na “banda” do Grupo Escoteiro mostrando nossas qualidades? E quando formos servir no exército? Ficaram em dúvida entre eu e você ser promovido a Cabo Corneteiro da unidade. Ele me olhou com os olhos marejados de lágrimas deu um pequeno sorriso e disse – eu dei meu clarim para um mendigo. – Porque meu amigo? – Pintassilgo um dia desapareceu. Tentei encontrá-lo por toda a cidade. Perdi o emprego por que não ia trabalhar. Passou-se dois meses. Que falta Chefe eu sentia dele. Não conseguia emprego fixo. Fui para as ruas. Virei Morador de rua. Aqui e ali uns trocados. A vida ali é dura, mas hoje aprendi. Sei me virar.

               - Largou mesmo o escotismo? – Larguei. Cheguei a ajudar em um próximo a minha casa. Mas senti dificuldade. Era tudo diferente do que conhecia. Gostava dos jovens, mas implicaram com Pintassilgo. Ele sempre junto. Falaram coisas que não gostei. Não entendiam o valor de uma amizade. – O procurei em várias delegacias, lá zombavam de mim pelo que eu era. Fui a hospitais, Rodei em prontos socorros, fui ao IML e nada. Não dormia direito. Ainda tinha meu clarim guardado na caixa. Havia anos que não tocava. Um dia descendo a Avenida Angélica com minha carrocinha eu avistei o Nonô, o Senhor deve lembrar-se dele. Era Monitor da Pica Pau e mudou de cidade. Não mudou nada, tinha cabelos brancos e seu nariz fino e comprido não dava para esquecer. – Ele me viu e me reconheceu. Convidou-me para tomar uma cerveja e até pagou para mim um almoço. Fazia dois dias que não comia.

                 - Você soube o que aconteceu ao Pintassilgo? Ele disse. – Espantado pedi a ele para me contar. Faz cinco anos que estou procurando disse. – Morreu torturado por traficantes na Favela da Caixa D’água. – Chorei como um bebê. – Por quê? Porque meu Deus? – o confundiram com o Maneco Tiro Certo. Eram quadrilhas rivais. Sei disto, pois sou investigador da 17º Delegacia. Fui ver uma denuncia anônima. Cortaram seus braços e pernas. Depois atearam fogo. – Ficamos em silêncio por muito tempo. Eu não sabia o que dizer. – Perguntei – E onde foi enterrado? Acho que no Cemitério de Vila Alpina. – E você meu amigo, ainda nesta vida de morador de rua? – Conversamos mais algumas horas e ele se foi. Deixou-me um cartão. – Se precisar telefone disse, ainda somos irmãos escoteiros. Lembrei-me do Chefe Tonho que dizia – Um Escoteiro é sempre irmão. Nunca deixa um dos seus na mão.

                     - No dia seguinte fui até o cemitério de Vila Alpina. Tomei um banho no Albergue que fiquei hospedado. Coloquei meu uniforme Escoteiro. Estava guardado. Nunca me desfiz dele. Todos os mendigos de lá assustaram. Peguei um ônibus até Vila Alpina. A mocinha que me atendeu não tirava os olhos de mim. Disse-me onde ele estava enterrado. Joviel Peixoto. Eu sabia seu nome. Não havia sepultura. Um buraco. Mais nada. Pedi uma pá emprestada. Fiz uma tampa de terra. Tirei de outros túmulos um pouco de capim. Claro algumas flores também. Achei duas taboas. Fiz uma cruz. À mocinha me olhava de longe. Já estava escurecendo. Tirei da minha bolsa meu clarim. Meus olhos se encheram de lágrimas. A boca seca. Não conseguia tocar. Era demais! Estava engasgado! - Chefe Vado, eu o vi em pé na sepultura. Sorria, não disse nada, estava de uniforme Escoteiro. Brilhava na escuridão. Fez-me a saudação Escoteira. Desta vez toquei meu clarim com garra o toque de Silencio mais tristonho da minha vida. E como toquei. Chorei copiosamente ao terminar.


                 – Sabe Chefe Vado, eu vi muitas almas que ali morreram ficarem de pé em suas sepulturas calados. Eu vi relâmpagos no céu. Eu vi uma estrela brilhante em cima de nós. - Enquanto ele me contava o acontecido eu me lembrei de um pequeno poema que tinha lido – “Os clarins tocam pelos heróis, que morrem pela ignorância humana. O Silêncio é das vozes que se calam diante das injustiças e barbárie que são cometidas contra quem não pode por si, se defenderem”.  Eu conhecia o toque. O toquei milhares de vezes. É um toque triste. Fiquei ali com Tony. Eu também chorava. O bar vazio. Escureceu. Esqueci o que pretendia comprar na Santa Efigênia. Despedi-me dele oferecendo ajuda. – Obrigado Chefe Vado. Obrigado. Já tenho o suficiente para viver minha vida de morador de rua. É minha sina. Aqui estou vivendo e aqui morrerei. Saiu me dando um aperto de mão e um Sempre Alerta. - Falar mais o que?

nota - “Os clarins tocam pelos heróis, que morrem pela ignorância humana. O Silêncio é das vozes que se calam diante das injustiças e barbárie que são cometidas contra quem não pode por si, se defenderem”. Uma história emocionante. Uma amizade que durou por toda a vida. Dois Escoteiros que nunca se separaram. História que quando escrevi no final foi com lágrimas nos olhos. Fique a vontade para saber por quê!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O último acampamento do Velho Lobo.


Lendas escoteiras.
O último acampamento do Velho Lobo.

                Ele queria fazer seu último acampamento escoteiro. Diziam que estava velho e isto estava de cogitação. Dia e noite ele só falava nisto. Era muito conhecido. Entrou como lobo e nunca mais saiu. Agora aos 85 anos aposentado claudicava, tremia, respira mal e sua voz quase não se entendia. Acordou com um sonho que tinha ido acampar. Ficou com o sonho na mente. Sorria ao pensar no seu último acampamento. Se morrer acampando morrerei feliz dizia. No inicio manteve segredo, mas sabe como são segredos logo todo mundo sabia. Poucos concordavam com este absurdo. Teimoso e obstinado não desistiu. A família tentou demovê-lo e nada adiantou. Amigos Escoteiros não sabiam o que dizer. Sabiam que ele morreria acampando. Um dos filhos médico resolveu autorizar, mas sob a sua supervisão.

                    Chefe Zezé preparou tudo com calma. Do baú tirou sua mochila, seu uniforme que bem passado. Sua manta de Fogo de Conselho, seu chapéu de três bicos e limpou o tope que comprou ainda em 1947. Colocou seu penacho azul. Engraxou sua botina de campanha, olhou seu meião com carinho e separou sua jarreteira. Pediu a esposa para costurar os barretes das medalhas que ganhou. Eram poucas. Sorriu ao pegar sua faca Escoteira, seu facão sua machadinha e sua bússola Silva. Viu que o couro do cinto estava firme e a fivela brilhando. Não se esqueceu da velha Bandeira do Brasil. Ele sonhava dia e noite com seu último acampamento. Seria mesmo o último? Sentia falta, muita falta. Lembrava com saudades seu passado escoteiro e as mais de oitocentas noites de acampamento. Nunca esqueceu as serras e montanhas que escalou.

                    Comprou passagens para a Lagoa Dourada com saída a meia noite. Seu filho sorriu. Tinha tudo planejado, Seria monitorado todos os dias. Preparou sua matutagem para quatro dias. Levou uma pequena lona para servir de abrigo. Não esqueceu a capa de chuva.  Alguns amigos vieram ver sua partida e viram sua alegria. Seu sorriso valia a saga que iria realizar. Seu filho o levou à rodoviária. Seis horas de viagem. Deixou-o no ônibus e foi para casa. Às nove da manhã seu amigo ligou dizendo que ele não chegou no ônibus. Em nenhum dos outros também. Sinal vermelho. Os irmãos se reuniram. Vamos até lá disse um deles. O desespero tomou conta da família. A Polícia foi acionada. Busca em todos os lugares e nada. Chefe Zezé sumiu! Não sabiam mais o que fazer. Um mês depois a polícia desistiu.  Seus filhos precisavam voltar à luta.  Empregos. Esposas, filhos. A vida continua.

           Um mês depois sua esposa parou de chorar. Ainda com os olhos vermelhos inchados. No décimo quinto dia receberam um telegrama. Um vaqueiro dizia ter visto um homem parecido com ele conforme retrato na Televisão. Estava na serra do Canta Galo. Os filhos foram para lá. Mais de nove horas de viagem. Serra desconhecida próximo a uma pequena cidade. Alguns tinham visto quando ele chegou. Conseguiram um guia, encontraram o vaqueiro. Arrumaram cavalos e subiram a serra. Local ermo e de difícil acesso. Tinham medo do que iriam encontrar. Avistaram ao longe uma fumaça cinzenta subindo aos céus. Pequenas esperanças. Quem sabe está vivo? Chegaram ao local. Viram-no encostado em uma árvore como se estivesse dormindo. Correram até ele. Respirava e parecia dormitar. Abriu os olhos, sorriu. – Bem vindo meus filhos!
           O filho médico o examinou. Sua respiração parece ter melhorado. Ele se levantou, olhou para o céu, para as árvores, um pássaro preto em um galho voou. Alguns outros se juntaram a ele voando em volta do chefe Zezé. Borboletas surgiram. Azuis, vermelhas, verdes e amarelas. Vão me levar? Disse. Sua cabeleira branca caia sobre a testa. Começou a cantar uma canção escoteira. Falou alto para a floresta: - Adeus meus amigos, até breve, eu voltarei, disse ele olhando os pássaros, a mata, o riacho e o local onde acampou. Desmanchou o campo com carinho. Arrumou sua mochila, e com ela nas costas partiu a pé. Dizia: - À frente tropa! Bandeiras ao vento! Agradeceu a oferta de ir a cavalo. Andava como uma lebre. Incrível pensavam. Seus filhos viram dois quatis acompanhavam e mais ao longe dois lobos guarás do rabo curto também. Uma passarada foi com eles até a cidade. Os pássaros quando ele entrou no automóvel do filho, chilrearam alto.

                  Soube da história e resolvi fazer uma visita. Recebeu-me com um abraço e um sorriso. O que me contou foi de tirar água na boca. Daria tudo para participar de um acampamento assim. Chefe Vado eu sabia que meus filhos iriam me monitorar. Dei um baile neles. Peguei o ônibus e desci logo em frente. Já tinha comprado passagens para outro destino. A Serra do Canta Galo. Local maravilhoso, linda aguada e um céu incrível para contar estrelas. - Montei um campo de patrulha dos meus velhos tempos. Você sabe como nós velhos escoteiros somos. Minha cabana aguentou chuvas e vendavais. Minha ração foi completada com a fartura que existia ali. Aipim, jabuticabas, bananas, mandioca, taioba, Maracujá, mamões à vontade. Resolvi não voltar mais. Se tivesse de ir para outro plano que fosse ali junto à natureza que amo e que me dava tudo que precisava para viver. Senti-me revigorado, meu ar voltou. Fortaleci nem sei como.

                   Quer saber? Estou pensando em voltar. Fiz amizade com o “Caminheiro e a Midiata” dois lobos Guarás amigos. Sinto saudade dos quatis e os pássaros que não saiam do acampamento. ficamos amigos. Lá Chefe tinha o mais lindo céu de estrelas do mundo. Nunca arrependi do que fiz. Sabia da tristeza da minha esposa e meus filhos, mas o que fazer? - Os pássaros chefes me visitam e ficam horas na Castanheira que tem na praça ao lado. Converso com eles todos os dias. Acredite nunca mais vou esquecer aquela serra que amei. Sei que muitos me acham louco. Risos. Eu não sou meu amigo, não sou. Que pensem assim e não me importo. Quando durmo sonho com minha serra querida. Lá eu não sou um Velho senil, cheio de manias. Vou voltar nem que seja minha ultima viagem.


                       Fui para casa pensando no Chefe Zezé. Sentei na minha varanda e calado meditei por muito tempo. O que ele contou parecia uma fábula daquelas que conto e tento acreditar ser verdade. Ele fez o que é sonho de muitos. Mas lutou pelos seus sonhos e chegou lá. Um dia quem sabe eu faço assim também e parto para meu destino no campo dos meus sonhos? Que Deus me dê forças!

nota: -   Oitenta e quatro anos. Sonhava com seu último acampamento. A família contra. Sabia que se não o deixassem ir iria morrer em breve. Uma história impossível, uma vontade de voltar a ser o que era e superar seus limites. Saudades que machucavam ao lembrar-se dos tempos que se foram e hoje não voltam mais!