sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Apenas uma lágrima. “Lágrima aflora. Na música lá fora, uma alma chora”.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Apenas uma lágrima.
“Lágrima aflora. Na música lá fora, uma alma chora”.

... - Sou lucidamente insano, malucamente calmo. Sou lágrima, sou sorriso. Pureza e pecado. Sou silêncio contido, palavras abstratas. Sou eterno no amor e efêmero na mágoa. Sou tudo ou nada!

                  “Contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no teu odre: não estão elas inscritas no teu livro?” Salmos 56:8. Lágrimas, muitas vezes expressam o mais puro dos sentimentos, mas outras vezes a dor. Elas expõem o interior ferido e abatido, mas também pela alegria sentida ou pela partida de alguém. Um susto o Chefe escoteiro valente sente ao sentir uma lágrima a correr pela face e cair ao chão. Ele corre para com as costas da mão tentar fazê-la desaparecer. Não fica bem para um líder mostrar sua lágrima mesmo nos momentos mais felizes de sua vida. Diferente da Chefe Escoteira que sorri quando vê a lagrima caindo, ela se lembra do seu amigo que dizia que sorrir pode trazer a felicidade. Aquele mais afeito as sensações românticas, inesquecíveis, devaneios da vida quando sente a lagrima cair e rolar pela face, pensa que não é possível chorar e pensar ao mesmo tempo, pois cada pensamento vai absorver uma lágrima e elas sem pedir permissão irão rolar nas faces até cair ao chão.

                     Quantas lágrimas sentimos na vida escoteira, na alegria e na tristeza, quantas vezes há vimos correr pela face e sem saber por que elas estão ali sem pedir permissão? São tantas as nuances Escoteiras, são tantos os acontecimentos que não dá para lembrar e medir todas elas. Uma Lobinha que sorri, olha para você com seus olhos brilhantes e sonhadores e com aquela vozinha pequenina a dizer: - Melhor Possível Chefe! Será possível evitar uma lágrima nesta hora tão sublime? Ou então sentir o orgulho do Escoteiro que recebe uma comenda escoteira. Um Lis de Ouro, um Escoteiro da Pátria, uma Insígnia de B-P. Olhar nos seus olhos, sentir sua força por tudo que fez para ter este direito, seu trejeito sem saber onde pisar, pois cada passo dado foi uma vitória e agora chegou sua hora: - Grupo Escoteiro firme. Escoteiro! Com orgulho entrego a você seu quinhão que tanto lutou para conquistar! - Uma lágrima aparece, corre pela face e cai ao chão abençoado.

                       Não só na dor e na tristeza, mas também nas belezas dos fatos e atos que vemos a cada dia e faz a gente vibrar, sem perceber lá vem ela distraída, quem sabe adormecida a cai devagar, a rolar na face sem pedir sem avisar. Mas aquela lágrima doida, da perda de alguém, de sentimentos insistentes que não querem ser esquecidos eis que a alma que está abatida, para ela o mundo se fechou, não se consegue enxergar mais nada em volta. É hora de lágrimas quentes sair dos olhos. Elas insistem em não obedecer e rolam na face simplesmente. Não tem como segurar. É mais forte que tudo. Nesta hora sufocada pelos sentimentos o coração bate apertado. Não tem jeito, só resta deixar a lágrima rolar para aliviar a dor e lavar a alma. Disseram-me ou me contaram que um dia a lágrima disse ao sorriso: - Invejo-te porque vives sempre feliz. O sorriso respondeu: - Engana-te, pois muitas vezes sou apenas o disfarce de sua dor...

                        É... Não sei se a lagrima vem ou ordenamos que ele chegue. Mesmo sabendo que o Chefe é forte pela razão, a Chefe é invencível pela lágrima. A razão convence; a lágrima comove. Já sentiu o sonho de um filho Escoteiro partir para uma grande atividade escoteira? A gente quer dar um sorriso, quer sentir força para saber que ele voltará sorrindo, mas eis que ela a lágrima aparece, calma, simples rolando pela face sem pedir para cair ao chão e desaparecer. Ah! Há lágrima chega é o momento em que subimos nossos olhos ao céu para não deixar cair uma lágrima no chão. Quantas vezes vi varonis chefões escoteiros, de mãos entrelaçadas ao redor da fogueira a cantar displicente a canção do Adeus. Ah! Como são bobos, eles não querem olhar para ninguém, tentam evitar que vejam suas lágrimas que caem pela face rolando pelo rosto e sumir na escuridão.

                       Eu vi chefes chorarem em um desfile encantado com o orgulho de seus meninos escoteiros vi tantos fatos e ocasos em lugares nunca antes imaginados meninos e meninas Escoteiras cantando o Rataplã. Hora de esquecer o tempo e sentir a lágrima rolando pela face caindo como uma folha no pé da mata verde que te quero verde. Eu vi uma escoteira sorrindo e uma lagrima caindo quando ela saudou o novo dia de sua promessa que nunca mais esqueceu. Mas a lágrima mais bela, mais singela foi quando o Monitor de uma patrulha na jornada do sol de meio dia gritou: - Chefe uma nascente a sudoeste! Hã! Quanta sede que se escondeu naquele calor, naquela Tropa cansada e agora chega para ouvir tanta pomposidade em uma frase tão simples... Uma nascente a sudoeste... Quantas lágrimas surgiram? Quantas lágrimas caíram e rolaram pela face até chegar ao chão?

                     Qual o valor de uma lágrima? Acho que está no valor que você da à vida, no sentido em que deixa sua vida caminhar. Se você deixar seu coração quebrantado deixará lágrimas valiosas rolarem, mas se endurecer seu coração colherá lágrimas de amargura e sofrimento. Deus resiste aos soberbos, mas aos mansos concebe graça e sabedoria. “Olharei o mundo através das lágrimas. Talvez eu veja coisas que eu não veria estando secos.” (Nicholas Wolterstorff). As lágrimas nos fazem entender o perdão, mesmo que leve tempo para isso. Menino Chefe escoteiro! Eu juro! Eu dou minha palavra de Escoteiro! Eu vi milhões de lágrimas rolando pelas faces Escoteiras neste mundo afora. Nos Jamborees, nos acampamentos, nos cursos e Indabas quando milhares de jovens ou adultos se despediam, eram lágrimas simples, lágrimas alegres, lágrimas chorosas. Lágrimas que valeram tanto que transformaram corações duros em corações cheio de amores e alegrias.

                    Escoteiros do mundo, escoteiros que tem sentimentos, que gostam de contar estrelas, que amam seu país e o nosso Deus. Escoteiros que amam a natureza, que sentem uma lágrima cair quando ouvem o cantar de um pássaro no céu ou em uma árvore florida. Escoteiros que sabem o valor de uma amizade, que gostam de dar as mãos, pois para eles o escotismo não tem fronteiras nem riquezas, nem cor, nem razões para odiar. Escoteiros que sabem o valor de sua lei, o quanto vale um abraço, um sorriso franco, aqueles que a gente vê uma lágrima, apenas uma lágrima aparecer escondida e rolar na face até cair ao chão. Escoteiros que sabem que a verdadeira lágrima não é a que escorre dos olhos e desce pela face, mas sim aquela que cai no coração e permanece na alma...

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Feliz ano novo!




Feliz ano novo!

O caminho é longo, mas a vitória é certa. Assim disse para mim mesmo... Desistir jamais! Às vezes eu mesmo tinha dúvidas se desistir não seria o melhor caminho. Os anos não perdoam na terceira idade. Percorri 2019 com poucas forças, mas com muita fé. Confesso que fraquejei, corri atrás de uma saúde que não tinha. Chegando aos 79 anos fico a insistir chegar nos 80... Será? Virei cliente de Prontos Socorros do SUS, que nem sempre atendem bem... Viajei nos conselhos médicos e os exames pedidos se perderam no emaranhado burocrático e não fui atendido. Não reclamo, afinal não fiquei rico e se não posso pagar me contento com o que podem me dar... Não posso mais escoteirar junto à meninada. Não dá mais... Respiro com dificuldade e ando aos trancos e barrancos. Sei que poucos grupos escoteiros iriam me aceitar... Afinal sou um Velho Escoteiro das antigas não tão bem visto pelas autoridades escoteiras atuais. Alguns dizem que sou Hathi, o elefante longevo uma referência por sua experiência e sabedoria. Não sou. Sou apenas um aprendiz de escritor contando aos pedaços uma vida escoteira que não foi tão brilhante. Tentei e tento ao meu modo passar o que sei... Alguns escrevem agradecendo e outros dizem ler com amor. Tenho escrito pouco, meus contos já não surgem com todo o encanto do passado. Escrever escotismo é uma das poucas coisas que ainda posso fazer! 2019 vai ficando na trilha por onde passei... Vem aí 2020, até quando? Sinceramente não sei! Luto para prosseguir, seguro minha bengala e de novo faço meu caminho a seguir... Trêmulo os dedos procuram as letras... Quantos contos mais? Quantos ainda puder escrever. Aos amigos e irmãos escoteiros obrigado pela amizade, que ela seja até a eternidade. Bons ventos e bons caminhos em 2020, que todos tenham uma vida longa, próspera e feliz. Que Deus decida até onde eu posso ir! Sempre Alerta do Velho Chefe que sempre foi e sempre será um escoteiro até quando Deus quiser!
Até o próximo ano, feliz 2020 e que a felicidade aconteça no coração de todos.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Tudo vale a pena.




Tudo vale a pena.

- Foi em uma noite de Natal que Conrado um Akela de Lobinhos como fazia sempre foi dar um passeio na praia próximo a sua casa. Ele gostava de estar ali às tardes para admirar e ver o sol se por. E quando a noite surgia ele sentava na areia branca e ficava horas olhando as estrelas no céu. Naquela noite ele precisava voltar logo, seus filhos iam chegar. Conrado não era tão velho, mas gostava de ficar sozinho e lembrar-se do seu passado, do que fez e do que deixou de fazer. Foi então que avistou ao longe um Lobinho de uniforme que se abaixava, pegava algo no chão e atirava de volta ao mar. O que ele fazia ali? A Alcatéia não tinha entrado de férias? Preocupado caminhou em direção ao jovem lobinho observando que ele fazia. Viu que ele repetia um gesto incessantemente. - Quando se aproximou bem próximo, notou que ele pegava as estrelas-do-mar que estavam ali na beirada da praia e as atirava de volta para a água para que não morressem.

Ao perceber do que se tratava, dirigiu-se ao Lobinho dizendo: “O que você está fazendo Lobinho?” - O Lobinho com um olhar esperançoso respondeu: “Salvando as estrelas-do-mar da morte Akelá!”. - Conrado viu que haviam milhares delas ali na areia e, achando inútil o que o lobinho fazia, disse com ar sábio: “Você está perdendo o seu tempo! Não percebe que são muitas estrelas e que não vai fazer diferença o que está fazendo?”. - O Lobinho olhou humildemente o Akelá, abaixou- se, pegou mais uma estrela, atirou ao mar e respondeu: “Para essa aí vai fazer diferença, ela vai continuar viva Akelá!”.

- Percebendo como havia pensado pequeno, Conrado o Akela engoliu seco, tirou os sapatos as meias e começou a ajudar o lobinho a salvar as estrelas-do- mar...

- E você meu caro escoteiro, em vez de reclamar da vida, levante a cabeça, sacuda a poeira e dê a volta por cima. Afinal, dias ruins são necessários para que os bons valham a pena! Quando você chora, três coisas são limpas: os olhos, o coração e a alma. Sempre Alerta paz no coração e tenha um ótimo ano para vencer suas dificuldades.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

“O Monitor”.




“O Monitor”.

                 Olhou para seu monitor e pensou em dar uma resposta à altura. Eram da mesma idade e Torpedo só mandava e nada fazia. Deu para empurrar a patrulha quando em fila. O jogou no chão algumas vezes. Fervia de raiva. Porque aceitar aquilo? Não era o escotismo que sonhou. Prometeu a si mesmo sair depois do acampamento em Aguas Formosas. Sonhava com ele. Um ano de preparação. Perder tudo que criou na sua mente? E o Ninho de Águia? E a Ponte Pênsil? Treinou amarras, costuras, desenhou. Deixar tudo para trás? Será que o Chefe não via as ações de Torpedo? Porque aceitar um monitor sem qualidades, mandão, déspota, prepotente a “comandar” uma patrulha que nunca iria aprender a andar com suas próprias pernas dirigidas por um monitor sem formação?

                  Foi para casa pensando o que fazer. Contou nos dedos quantos entraram na patrulha e saíram. Há dois anos quando entrou a patrulha tinha sete, Torpedo foi eleito Monitor e muitos entraram e saíram. Toninho seu amigo o convidou ir para outro Grupo Escoteiro. Ele quase aceitou, mas era um escoteiro leal. Afinal o Chefe o tratava com cortesia e fraternidade. Ele sabia que era um dos poucos que ficou e nem sabia o porquê. Resolveu falar de homem para homem. Já tinha passado o tempo para dizer a ele tudo que sentia. Foi à casa de Torpedo. Ficou horrorizado com o que viu. Seu padrasto com uma correia na mão lhe aplicava a maior surra. Sua mãe corria pedindo perdão. Torpedo chorava e gritava. A patrulha policial chegou. Levou o Padrasto de Torpedo. Sua mãe o levou para o hospital, pois estava todo machucado.

                 Foi para casa horrorizado com o que viu. Nunca imaginou que esta era a sina de seu monitor. Chegou sábado na sede e abraçou Torpedo. Este espantado não sabia o que dizer. Amâncio sorriu. – “Torpedo, a amizade desenvolve a felicidade e reduz o sofrimento. Duplica a nossa alegria quando dividimos a nossa dor”. Você sabe como eu sei que somos irmãos de sangue! Tu e eu! - Torpedo sorriu e abraçou forte Amâncio. Ficaram amigos para todo o sempre!
“Amizade verdadeira não é ser inseparável. É estar separado, e nada mudar. Enquanto alguns escolhem pessoas perfeitas, eu escolho as que me fazem bem”.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Era apenas uma menininha, uma lobinha. “Tininha”.




Era apenas uma menininha, uma lobinha.
“Tininha”.

                  Abriu os olhos lentamente. Tateou com sua mão direita procurando Fofinho seu ursinho de estimação. Nada! – olhou para o lado e viu Betinha sua amiga lobinha deitada ao seu lado. Levantou a cabeça e se assustou. Não era seu quarto. Olhou para a porta de lona esperando sua mãe entrar para dizer que estava na hora da escola. Sua Mamãe não entrou. Ouviu uma voz conhecida gritando Lobo, Lobo, Lobo! Levantar com este frio? Nem morta.

                  Virou para o lado e tentou dormir mais. Sua mente passeava. Onde estava? O que fazia ali? Dormia em uma barraca e nunca dormiu assim. Sorriu, era diferente era bom demais. Sabia que gostava. Lembrou que era Lobinha e as lobinhas são espertas, obedientes e disciplinadas. Será que tinha de lavar o rosto e escovar os dentes como sua mãe fazia quando acordava?

                  Outra vez o mesmo grito. Desta vez mais forte. Lobo, Lobo, Lobo! Levantou. Betinha acordou e olhou para fora da barraca. Já é hora? Tininha sorriu. Saiu devagar da barraca, um frio de rachar. Pegou sua blusa de frio. A Alcatéia se formava, mas faltavam muitos que ainda dormiam. O Balu e a Bagheera iam de barraca em barraca. Tininha sorriu. Foi à primeira vez que dormiu em uma barraca de pano.

                   Acantonou antes, mas dormiram em um quarto bagunçado de tantos lobinhos. Gostava. Divertia-se, se sentia bem com as outras lobinhas. A Akelá era simpática, o Balu fazia cara de feroz, mas logo em seguida dava uma boa gargalhada. Bagueera era mãe, pai, tia e avó. Olhou para o céu e viu o sol chegando. Olhou para a Akelá e ela sorria.

                      Sabia que seria mais um dia divertido. Correu a formar. O dia passou e ela nem se lembrou da mamãe, do papai e do Fredinho seu irmão e do seu urso Fofinho. Quantos dias ainda ficariam ali? Não sabia, não importava, amava muito tudo isto. Na matilha Cinzenta ouviu um trinar de um passarinho.

                      Olhou e ele estava em um galho próximo cantando. O mundo sorria, Tininha sorria, a Akelá sorria. Isto era bom demais. Sabia que seria uma Lobinha da selva de Mowgly para sempre. – Melhor Possivel Akelá!  

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Saudades da minha terra!




Saudades da minha terra!

Oh! Que saudades que tenho, da aurora da minha vida,
Da minha infância querida que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais! (G.D).


- 2019... Vêm aí 2020... O tempo passa, e sem perceber a gente passa com ele. Mesmo que ele não espere você minhas lembranças nunca são esquecidas. Olho para mim e vejo quanto mudei. Já fui um homem da terra. De muitas terras. De algumas cidades. Adoro o poema de Paulo Gondim. Lembranças do seu lindo Ceará. - “Minha terra tão querida, a quem sempre vou amar. Um dia eu deixei, mas voltarei, ao meu lindo Ceará”. Ninguém esquece sua terra natal. Sua cidade, seu estado, seus amigos, suas histórias tão queridas. Tive a honra de nascer na minha querida Minas Gerais. “Oh! Minas Gerais! Quem te conhece não esquece jamais”. Nasci em uma cidade perdida no longínquo norte do estado, Barra do Cuieté, pequena, sem prefeito, medico, com suas casas de adobe sem ruas calçadas, uma Igrejinha uma pracinha onde as famílias à noite se encontravam para ver o trem passar. Morava a três quadras de lá. Casa de taipa, esburacada, rua sem calçamento, esgoto a céu aberto, doenças. Três irmãs foram para o céu ainda pequerruchas, vitimas de varicela, coqueluche e sarampo com menos de quatro anos. Eu quase fui.

Dois anos que não lembro e o que sei foram contadas por meus pais e irmãs. Sobraram duas delas e eu. Meu pai seleiro, família pobre, lá fomos nós para uma fazenda. Não me lembro de nada. Menos de um ano e de novo outra cidade do outro lado das Minas Gerais. Poucas lembranças. Mais três anos e de novo outra e outra até que com seis fincamos o pé por muitos anos em uma maior, bem ao lado do formoso Vale do Rio Doce. Rio Doce! Quantas saudades, quantas travessias, jangadas, comer ingá nas suas margens nas cheias, quantos peixes. Hoje soube que está como o Tietê. Dói-me fundo. Ali praticamente cresci. Fui lobinho, Escoteiro, sênior e pioneiro. Andei a pé, de bicicleta, a cavalo, de trem de carroceria de Fenemê! Uma vida de aventuras que me marcou para sempre. Junto a minha Patrulha Lobo voltei em todas as pequerruchas cidades que vivi. Fiquei tempos na terra onde nasci. Amei o Cuieté Velho e o novo. Vi a casa onde comecei minha vida de homem terreno. Nas outras poucas lembranças de uma época que minha memória não arquivou. Nada mudou conforme a visão dos meus pais. Em Figueira do Rio Doce hoje Governador Valadares fiquei por treze anos, de alegria, felicidades até que um dia a mudança aconteceu.

Meu pai doente, diabete ainda desconhecida era melhor procurar médicos especialistas. Capital do Estado. Nova vida e sempre escoteirando. Novo emprego. Usina Siderúrgica. Peão de obra. Muito orgulho graças a Deus. Nunca fomos ricos. Houveram fases difíceis. Melhor nem comentar. Estudo? Mal cheguei ao terceiro ano de ginásio. Iletrado. Nunca fui Doutor. Aprendi muito na Escola da vida. Não sei como fui convidado para ser o chefão Escoteiro do estado. Comissário Regional. Outra escola que me deu conhecimentos imensos do escotismo. Cidades e mais cidades foi por mim engolidas pelo escotismo. Centenas de novos amigos, verdadeiros irmãos escoteiros. Quantas histórias, quantas estradas percorridas, quantas coisas ficaram para trás. Mas o tempo não para. Um dia alguém chegou para mim – Queres ser um Peão de Fazenda? Administrador meu caro, pago bem! Putz! Não pensei duas vezes. Celia ao meu lado. Incomparável mulher. Quase dez mil cabeças. Meu Deus! Que isso? Botas no pé, chapéu de couro, perneira, meu lindo gibão cravejado, um peitoril simples e lá estava eu vaquejando aqui e ali pelas largas e capoeiras do Rio das Velhas e do meu querido São Francisco, o muito amado Velho Chico.

Quantas aventuras. Viagens incríveis no Rio das Velhas, Sucuri de dez metros, enfrentei a correnteza do São Francisco. Conheci pistoleiros morrendo de medo. Pescarias, criação a parte, porcos, galinhas, tratores, um D-8 da Caterpillar, enorme me hipnotizava. Com filhos de peões da fazenda e outros posseiros formei duas patrulhas escoteiras. Diversão à parte. Comprei uma vacada de um fazendeiro em Barra do Guaçuí. 220 quilômetros. Achei melhor trazer por terra. Para mostrar ao Diretor que era econômico. Pobre “bunda”. Seis dias ida e volta a cavalo. Levando um gado fácil, mas trabalhoso. Nunca esqueci... Uma das maiores aventuras que vivi! Cinco anos maravilhosos. Filhos crescendo. Precisavam de bons colégios. São Paulo. Meu destino final. Empregado. Luta constante. Osasco era minha morada, ou melhor, ainda é. A luta é renhida, difícil. Sempre ao olhar minha vida lembro-me do poema de Gonçalves Dias. - Juca-Pirama. “Sou bravo, sou forte, sou filho do norte”. Andei longes terras, lidei cruas guerras, vaguei pelas serras dos vis Aimorés...

Ei, calma! Não sou bravo e nem forte, quem sabe mais para um “fracote”. O tempo passou. Não deu mais para trabalhar. Uma vil aposentadoria. Mas feliz. Muito feliz. Quatro filhos criados e casados. Oito netos e agora uma bisneta. Uma linda árvore genealógica dando prosseguimento as lides traçadas por milhares de anos no espaço. Rodei meio Brasil. Pisei em outras terras. Conheci outros rumos, outros destinos. Mudei demais. Não sei se fiz bem. Não me arrependo de nada, vivi como escolhi viver. Tenho dúvidas não arrependimento. Quem sabe nem todas as trilhas deram em boas estradas. Um dia destes irei por aí. Sei aonde vou. Não posso levar mais minha barraca, minha mochila e meu chapelão escoteiro. Dizem que lá tem verdes campos, córregos dançantes de águas tão claras que dá para ver o passado e o futuro. Onde as florestas são densas e as flores as mais lindas do universo.

Gosto de lembrar-me do caminho que percorri. Ás vezes choro, às vezes sorrio.  Mas no fundo mesmo fui feliz. Nunca fui rico. Morei em casa de taipas. Morei em tantos lugares que de vez em quando perco a memoria onde estou. Meu carrinho tem dezesseis anos, e choramingando me acompanha quando preciso. Minha rotina nos meus 78 anos é simples. Caminhadas, às vezes exercícios e vou forçando meus passos com minha amada bengala até quando puder andar. Melhor assim, pois vivi escoteirando andando com minhas pernas... Por aí... Viajei meio mundo no lombo de uma bicicleta. Com meu Vulcabrás conquistei montes e vales desconhecidos. Adoro o que fiz. Adoro o que sou. Não tenho duvidas do que serei.

Eu gosto de São Paulo. Fiz dele minha morada desde 1977 quando aqui cheguei. Não fui muito feliz em fazer amizades. Carrancudo às vezes torrão deixei muitos por aí. Os mais chegados já partiram. Breve se me aceitarem estarei com eles. Não sei se Deus me reservou outro destino. Seja ele o que for estarei pronto quando for chamado. Sinceramente não tenho medo, não tenho receios. O que tem de ser será. Não podemos fugir do nosso destino.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Contos de Natal. O último adeus do Velho Lobo.




Contos de Natal.
O último adeus do Velho Lobo.

                           ♫ “O espírito da coruja mora neste acampamento!” - Para ele seria o mesmo natal de sempre. A família reunida, os netos correndo pela casa, as conversas dos filhos, nada diferente, mas sempre com um sabor especial. Terça feira 24 de dezembro. Ele acordou cedo. Tomou seus remédios e sem o desjejum partiu. Era sempre assim. Uma volta no bairro para sua caminhada matinal e comprar dois paizinhos. Uma para ele e outro para sua mulher. Sabia que no retorno o café fumegante estaria pronto. A família se reunia na tarde do dia 24 e por volta da meia noite todos iam a mesa para se refastelarem com o magnifico manjar da Mama. Ele já havia notado uns lapsos de memória e sabia a tempos que seus pensamentos se misturavam.

             ♫ “A Santa Catarina pirolim pirolim pom pom, era filha do Rei”♫. - Sentiu-se cansado, sentou em um ponto de ônibus em frente á padaria. Fechou os olhos para tudo voltar ao normal. Não sabia como, mas o ônibus chegou e ele entrou. Sentou na frente. Porque fazia isto? Ele não sabia. Nunca fez isto antes. Na viagem começou a lembrar do seu passado. Viu-se menino escoteiro na Mata do Morcego. Encurralado em uma árvore por uma jaguatirica. Ela o olhava com olhar amigo. Ele não acreditava.

             ♫”Acenda, Fogo, acenda, Acenda essa fogueira”. Aqueça minha tenda e ilumine essa clareira! ♫... - Senhor aqui é o ponto final! – disse o motorista. – O senhor não vai voltar? – Espere o próximo ônibus. Este vai recolher a garagem! Ele desceu. Não sabia onde estava. Lembrou-se quando sênior acordou em um vale enorme, cheio de pássaros cantantes e uma cascata que faziam um barulhão. Ele não sabia onde estava quando saiu da barraca. Chegaram à noite perdidos e sem rumo certo.

            ♫ “Acorda escoteiro que o galo já cantou, cantou, cantou o galo já cantou"... Co-co-ro-có.... ♫. Olhou para um lado e para o outro, uma enorme avenida e milhões de carros passando. Prédios enormes. Qual ônibus para voltar? Ele não sabia. Não sabia de mais nada. Esquecera seu telefone e endereço. Nunca saia com seus documentos, pois sua volta no quarteirão era pequena. – Seu guarda, preciso voltar para casa – Onde o senhor mora? – Não sei! – Seu nome? – Não lembro. Sei que me chamavam de Velho Lobo, eu fui escoteiro. – O guarda o olhou de esguelha. – Não posso ajudar, atravesse a rua e ande dois quarteirões. Vais encontrar uma viatura equipada com rádio. Quem sabe podem ajudar o senhor!

           ♫ “Avançam as Patrulhas, lá ao longe, lá ao longe”. Avançam as Patrulhas, cantando com valor, lá ao longe!”. Teve medo ao atravessar. Nunca viu tanta gente correndo e querendo chegar do outro lado. Confundiu-se e no meio do caminho. Sua mente o levou até o Despenhadeiro do Lobo. Um medo incrível de escorregar e cair. Ele ficou pendurado em um galho e se não fosse o Nonato cozinheiro tinha morrido. 

           ♫ “Rigor, Boom, rigor, boom. Vem correndo depressa Escoteiro Ajudar o cozinheiro a fazer um jantar supimpa, supimpa Parazibum, zibum” ♫. Parou no meio da avenida. Nunca sentiu tanto medo. Ninguém se preocupava com ele. Com seus 87 anos ele ainda pensava que podia manter o domínio de sí mesmo. Em passadas largas atravessou a outra parte da avenida. Sentiu que alguém o segurava por trás e na frente um jovem lhe deu um murro na barriga. Ele sentiu uma dor tremenda. Estava sendo assaltado por pivetes e ninguém o socorreu.

           ♫ “Como é feliz o acampamento na floresta, Junto de nós passa um riacho a murmurar, cantam as aves em seus ninhos sempre em festa, o vento sopra a ramagem a cantar!” ♫. Uma moça o pegou com braço e mandou-o sentar próximo ao vão do MASP. Eram duas da tarde, ele precisava dos seus remédios. A fraqueza chegava e ele sabia que não ia aguentar. Precisava comer. Em sua casa já teria almoçado. Lembrava que nem o café da manhã tomou. Levantou com dificuldade. Viu uma lanchonete, viu coxinhas, e bolinhos de carne. – Moço eu posso comer uma e pagar depois? – O garçom riu. - Sem dinheiro necas meu Velho. Saiu andando em passos trôpegos. Começou a sentir tontura. Sabia por quê. A diabete fazia efeitos em seu corpo.
          
            ♫ “Quando se planta la bela polenta, la bela polenta, Se planta cosi. Se planta cosi. Oh, oh, oh, bela polenta cossi” ♫. A tarde chegou de mansinho e as luzes dos postes se ascenderam. O frio começou a fazer efeito em seu corpo. Não tinha blusa. Uma senhora negra riu quando viu que ele tiritava de frio. Lembrou-se quando se aventurou no Deserto de Atacama e no Vale da Morte. No dia um calor de rachar a noite o frio era demais. – Venha comigo ela disse. Debaixo do viaduto tem fogueiras feitas pelos meus amigos. Ele foi.

              ♫ “Em Silêncio acampamento, este canto vinde ouvir, são fagulhas da fogueira que nos dizem escoteiros a Servir” ♫... A noite foi cruel. Mesmo em volta daquela fogueira ele pensava que não iria resistir até o outro dia. Carros passavam proximo buzinando. Era noite de natal e ele não se lembrava do seu nome, de sua família só lembrava-se do seu apelido. Velho Lobo. Lembrou-se também da subida no Pico da Manada no Peru. Dormiram encostados em uma enorme pedra onde cabia só dois e eram cinco! Foi lá que pela primeira vez viu a neve que caia em flocos brancos e lindos de ver.

              ♫ “Longo é o caminho, longo, longo, mas andaremos sem parar! Duro é o caminho, duro, duro, cantemos para não cansar!” ♫... Dormia e acordava, dormia encostado a lateral do viaduto. Os seus novos amigos dormiam tendo como cobertor papelões que eles guardavam das lides onde recolhiam lixo reciclado para sobreviver. Ouviu ao longe alguém cantando uma canção de natal. Lembrava vagamente quando em uma reunião de Giwell em um Jamboree alguém contou uma história de natal. A lembrança o emocionou.

           ♫ “Eu era um bom lobo um bom lobo de lei. Não estou mais lobeando, o que fazer não sei, me sinto velho e fraco não sei mais lobear, logo a Gilwell Assim que eu possa vou voltar” ♫... O dia amanheceu. Ele estava mal. Sentia falta de ar, tremia e quase não ficava em pé. Seu corpo estava um trapo. Como um robô saiu cambaleando pela rua. As pessoas desvencilhavam-se achando que ele estava embriagado. Viu uma senhora dizer: – “Com esta idade e bêbado pela manhã”? Ele começou a se sentir mal. Uma dor enorme no peito. Sabia que era seu fim. Seus olhos se fecharam.

          ♫ “Prometo neste dia, cumprir a lei, sou teu escoteiro, Senhor e Rei. Eu te amarei pra sempre, cada vez mais. Senhor minha promessa, protegerás” ♫... Viu sua mãe sorrindo, como ela era bela e nova. Viu seus irmãos e irmãs que já tinham partido ali acenando. Fechou os olhos e esperou ser chamado para subir aos céus com eles. Acordou assustado em sua cama em seu quarto. Toda sua família em volta sorrindo. Era sua mulher, eram seus filhos, seus netos e vizinhos. O quarto cheio de gente. Bem vindo Papai, bem vindo marido, Vovô estava morrendo de saudades! Então não tinha morrido? Viu próximo uma jovem uniformizada de Escoteira. – Quem é você? Foi sua esposa quem contou – Ela viu você caindo e dizendo ser um Velho Lobo. Sabia que você era um Escoteiro. Pediu um taxi e o levou ao pronto socorro. Telefonou para várias delegacias e uma delas já sabia do seu sumiço. Comunicaram por telefone. Ela meu marido, foi seu anjo de natal!

♫ “Bravo, bravo Bravo, bravíssimo, bravo, bravo bravo, bravíssimo bravo, bravíssimo bravo, bravíssimo bravo, bravo bravo, bravíssimo” ♫...

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....