terça-feira, 8 de novembro de 2016

Enzo, o Monitor da Tropa Caapora.


Lendas Escoteiras.
Enzo, o Monitor da Tropa Caapora.

                   Enzo estava pensativo. Passaram duas semanas e na patrulha não se falava outra coisa. O Arthur ia passar para os sêniores no mês que vem. Arthur era Monitor. Todos acreditavam que o Murilo seu Submonitor seria seu substituto mesmo sendo norma a eleição na patrulha. A eleição sempre foi uma norma desde que a tropa fora fundada. Enzo sonhava ser um Monitor. Não foi primo e nem segundo na Alcatéia e acreditava que na Tropa seria um monitor ou Submonitor. Sabia que tinha de esperar sua vez e para isto sempre foi participativo no trabalho e nas ideias da patrulha. Eram grandes amigos, mas havia Julia uma escoteira. Ela também sonhava. Um dia ela disse para ele. – Enzo, eu também sonho em ser uma monitora. Os demais não tinham essa preocupação. Para eles tanto fazia ser como não ser. Enzo não entendia porque, afinal seu pai um dia disse para ele que quem fica parado é poste. – Siga seu próprio nariz se quer ser alguma coisa na vida, dizia o Chefe Tomaz. Era seu direito em sonhar e a Julia era páreo duro. Primeiro tinha um sorriso cativante e ele sabia que seria difícil alguém dizer não. Ela sabia conquistar e fazer amizades.

                 Arthur o Monitor achou por bem fazer um Conselho de Patrulha. Explicar sua saída para os seniores e combinar a data da eleição do novo Monitor. Arthur tinha suas vantagens e defeitos. Muitos o achavam mandão demais. Era sim um bom comandante, mas exigia demais. Quando na inspeção se a patrulha falhasse todos sabiam que ia haver sermão. Arthur não era participativo. Dificilmente comentava o que discutiram na Corte de Honra. Nas outras patrulhas havia comentários, mas na Tamanduá não. Robertinho da Patrulha Arara seu vizinho eram grandes amigos. Para eles não havia segredo e sempre comentavam tudo que ouviam na Tropa Caapora. Enzo nunca escondeu sua decepção com a patrulha no último acampamento. Não se classificaram tudo porque o Arthur dormiu mais do que devia e era sempre ele que acordava a patrulha. Resultado não deu tempo para preparar o campo e na hora da inspeção a tampa da fossa de líquidos estava quebrada, no fogão suspenso havia muita cinza, uma das barracas tinha a forquilha solta e isto bastou para que a patrulha ficasse em terceiro lugar. Enzo se sentiu arrasado. Contava com a classificação em primeiro.

                - Sabe Robertinho, disse Enzo – Eu queria ser Monitor, queria mostrar a todos como ser um Monitor eficiente. Ele leu um dia o que Baden-Powell escreveu sobre os monitores: - Quero que vocês, monitores, entrem em ação e adestrem suas patrulhas inteiramente sozinhos e à sua moda, porque para vocês é perfeitamente possível pegar cada rapaz da Patrulha e fazer dele um bom camarada, um verdadeiro homem. De nada vale ter um ou dois rapazes admiráveis e o resto não prestando nada. Vocês devem procurar fazê-lo todos positivamente bons. – Robertinho comentou que não era fácil conduzir uma patrulha. Cada Monitor tem um estilo. Veja o Joel nosso Monitor. Todos o acham paradão e se não fosse o Cassio o Sub a patrulha já tinha ido para o brejo há muito tempo. Enzo lembrou quando entrou para a tropa e o antigo Chefe Josias com sua barriga e suas pernas curtas nunca acompanhou como devia a tropa. Só sabia gritar e quando ia fazer algum comentário deixava todos de pé por vinte ou trinta minutos.

              - Ainda bem que ele foi embora e entrou o Chefe Marcelo. Ele é bom demais. Amigo, compreensivo, educado e só chama a atenção de alguém em particular. Na semana seguinte o Conselho de Patrulha votou que a eleição seria na próxima semana. Qualquer um poderia ser candidato. Arthur perguntou a cada um se queria ser candidato e só Enzo e Julia se apresentaram. Claro que ele aproveitou para fazer uma preleção sobre como devia ser o Monitor, mas não disse que deviam ser diferente dele. Ninguém reconhece seus erros só os acertos. Tudo ia bem quando na quinta o mundo de Enzo desabou. – Não era possivel! Ele pediu tanto a Deus e agora? Seu pai naquele dia entrou em casa sério, chamou Enzo, Norma sua irmã e sua mãe dizendo que tinha um importante comunicado da fazer – Entrou logo no assunto: - Fui transferido para Monte Azul. Meu salário terá um aumento considerável e lá serei o Diretor da Secretaria Fazendária. Enzo foi para seu quarto e chorou a noite toda.

          Nunca na vida Enzo chorou tanto. Queria tentar entender, mas sua mente só tinha uma preocupação: - Seu amor pelo escotismo e o sonho de ser Monitor. Sonho que estava tão perto! Naquele sábado as suas pernas não ajudavam. Enzo foi para a reunião com uma enorme magoa no peito. Mesmo com a mudança da família ser em janeiro ele não podia se contentar em ser monitor por tão pouco tempo. Seu pai iria antes. Quando chegou a sede viu a alegria tão conhecida, as patrulhas reunidas, muitos de pé lhe dando o Sempre Alerta, os lobinhos em uma correria sem fim. – Será que vou aguentar? Ainda faltam quatro meses para a mudança, mas eu conseguirei continuar aqui? Meu coração pesa, minha mente está em pedaços, meu Deus não sei o que fazer! A reunião começou. Enzo sabia que o Conselho de Patrulha para a eleição seria feita no final da reunião. Quando Arthur chamou a patrulha para se reunirem na sede, Enzo fechou os olhos e rezou pedido a Jesus que lhe desse força.

          Aberta a reunião do Conselho Enzo pediu a palavra. Contou tudo. Seus olhos estavam marejados de lágrimas. Não haveria volta ele ia partir. Durante segundos e minutos ninguém disse nada. Todos sabiam que Julia agora seria a nova monitora. Ela pediu a palavra – Patrulheiros, pela primeira vez eu senti que não seria digna de ser monitora, não neste momento. Se todos concordarem Enzo será nosso Monitor até janeiro quando vai embora. Acho que ele merece isto. Uma tremenda salva de palmas aconteceu. Até Arthur no alto de sua pose de Monitor, levantou da cadeira e deu um grande abraço em Enzo. Este não sabia o que dizer. Não sabia se chorava ou se ria. Monitor por um dia? Por meses? Porque não? Todos correram a abraçá-lo e jogá-lo para o ar. Se em todos os monitores do mundo existe uma força que o faria ser por tão pouco tempo um grande Monitor, Enzo não decepcionou.


           No dia da partida foi uma festa. Uma festa que ficou marcada na vida de Enzo para sempre. Partiu sorrindo e chorando. Deixar para trás a tantos que sempre amou não era fácil, mas eles foram dignos com ele. Mereciam que ficassem presos em seu coração para sempre. Se lá em Monte Azul não houver um Grupo de Escoteiros, Enzo faria tudo para que exista um. Coração de Escoteiro é assim, não desiste nunca. Não importa onde, não importa o lugar, Escoteiro é Sempre Escoteiro. Enzo foi um dos maiores monitores da história do escotismo. Esteja onde estiver eu sei Baden-Powell estaria orgulhoso dele!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Melinda, eu ontem pensei em você...


Crônicas de um Velho Escoteiro
Melinda, eu ontem pensei em você...

                   Pensei comigo mesmo, eu nunca esqueci você. Acredite em mim esteja onde estiver. Não duvides, pois você sabe da minha palavra meu caráter e minha honra e como Escoteiro ninguém nunca me viu mentir. Eu sempre penso em você. Você sabe como eu sou e quando estávamos juntos quantas coisas eu disse e sabia que você me entendia, apesar de ficar calada e nada dizer. Afinal lembranças são lembranças e elas ficam presas no coração da gente e fazemos tudo para ela não partir. Muitas vezes voltamos no tempo, através de um pensamento, e tudo volta como se o tempo não tivesse passado. Eu nunca me esqueci de você. Se quiseres saber a verdade já tentei muitas vezes te esquecer e não consegui. Quando fiquei longe não queria que me visse chorar... Por você! Mas hoje meu amor eu já desisti de tentar. Pensei até em fugir e seguir por aí. Quem sabe te encontro? Se em um deslumbre, um pensamento nobre, uma lembrança perdida e se por acaso eu te esquecia isto me machucava. Saudades doidas, pois não se esquece fácil de quem se ama.

                      Desculpe. Perdoe-me, mas até pensei em sumir, desaparecer, despistar, fugir. Só para não me lembrar de você. Tudo bem eu sei que sou culpado e você sabe sem nossas lembranças e esperanças somos mortos vivos pensando que ainda vivemos. Temos que andar prá frente, você mesma me disse naquele dia tão longe naquela subida que pensei em maldizer você. Mas logo me refiz e dai em diante enquanto estivemos juntos valeu por toda uma vida. Você se lembra? Eu tentei fazer uma poesia para você, linhas bem feitas, palavras bonitas. Não consegui. Hoje quando estava anoitecendo e a chuva começou a cair lá vinha você em todo seu esplendor como a dizer que não posso te esquecer. Tem hora que me recordo, não esqueço o que fizemos nas jornadas infinitas, nos morros íngremes que você pedia para parar. Quantas noites enluaradas vendo seu olhar espantado como se estive apaixonada por mim.

                      Eu não tinha ciúmes de você. Eu sabia que era apaixonada também pelos demais. Não podia ter. Você nunca foi só minha eu sabia disto. Você era de todos. Eu sei que o tempo passou, mas qual tempo que não passa? O tempo você sabe não pede passagem, ele não nos dá a chance de dizer não. Eu sei que amanhã é seu aniversário. Fiquei matutando que presente te dar. Mas cadê você? Eu poderia te dar o céu, mas ele é tão grande que não ia caber em você. Quem sabe abraçar um punhado de estrelas e presentar você? Liguei para os outros e poucos ainda se lembram dos belos tempos de outrora que juntos corremos pelas trilhas das montanhas a cantar o Rataplã. Eu, eles e você. Nesta última noite não dormi. Virava na cama prá lá e prá cá. Deveras impaciente. Até me sentei no escuro e pensei: - Não é a posição que ficava quando ao seu lado eu dormia só pensando em você.

                  Não há saudades que sustente, não há lembranças que aumente todo o amor que eu tive por você. Aceitava que todos estivessem apaixonados, afinal os direitos são iguais. Sei que você nunca decidiu a quem dar seu coração. Eu sabia que era de todos e nunca foste só minha. Que saudades quando no silêncio da madrugada, eu via você quieta, sem falar, quem sabe esperando o alvorecer era bom demais. Muitas vezes sentava na grama ao seu lado, com meu olhar apaixonado e cantava músicas românticas, me lembrava de momentos inesquecíveis, das peripécias marcadas, de uma vida que Deus nos reservou. Que coisa boa era acordar, o lusco fusco do sol saudando belos momentos, a gente sem argumentos tentar fazer você acordar. Sorria como sorri na ponte do adeus que atravessamos, e eu ainda a vejo a sorrir alma linda sorridente, momentos inesquecíveis que ficaram marcados para sempre.

                        Quando penso, fico em silêncio tão profundo que machuca meu coração. Eu e os outros sabíamos que você era nosso sentido da vida. Você foi nosso amor ontem, hoje amanhã e sempre. Nunca esqueci aquele dia lindo quando você nasceu e te chamamos de Melinda, Deus que coisa linda era chamar você. – Em frente, Melindaaa! - Nos acompanhou por toda a vida, sempre nos deu guarida por onde pusemos nossos pés. Hoje aqui sozinho, sem ter os outros amigos, vivendo só para o momento que sempre nos reservou. Ah! Minha linda carrocinha, amiga de todas as horas não só eu e todos nós da Patrulha Leopardo. Você sempre nos deu alento, viajando com ou sem o vento, subindo serras sem fins. Melinda, você nunca nos decepcionou. Por onde fomos quantos caminhos cruzados e foi você, sim, foi você mesmo quem sempre nos ajudou. E quando no campo armado, você sempre ao nosso lado, com sua capa faceira, duas rodas na algibeira, mostrando ser boa Escoteira, a gente sempre pensava, que naqueles belos momentos, momentos sem ser finitos, era você nossa guia, nosso amor de carrocinha.

                        E o tempo passou e nem sei onde você está. Ainda viva? Ainda rangendo bonito no morro do papagaio nas mãos de uma patrulha qualquer? Sei que ninguém me entende, pois amar uma carrocinha são coisas de escoteiros, alegres e bons faceiros que dão a vida por uma que os leve por aí. Os tempos se foram, eram seis jovens meninos Escoteiros, que um dia fizeram você e se apaixonaram pela sua criação. Carrocinha verde e amarela a rodar por longas estradas sem medo sem aflição. Dizem que escoteiro não desiste de quem ama. Ele sabe o amor que tem, pois ser Escoteiro não exige perfeição. Você minha amiga Melinda, nossa linda carrocinha da patrulha Leopardo, nos trouxe a paz e o amor. Mas hoje com minha idade, eu sinto uma enorme saudade... De você!

Melinda! Onde está você?

domingo, 6 de novembro de 2016

Era uma vez... Na Morada da felicidade...


Vale a pena ler de novo.
Era uma vez... Na Morada da felicidade...

                    Era uma vez, em um país muito distante, havia um Grupo Escoteiro que se chamava a Morada da Felicidade. Era um grupo onde todos eram muito felizes. O sorriso ali era espontâneo. Uma prática que todos os membros do grupo faziam questão. Os abraços, os apertos de mão, os elogios, e a vontade de servir eram ponto de honra para todos. Não havia tristezas e parecia que eles tinham alcançado o Caminho para o Sucesso, ou melhor, da felicidade.

                   Barbas Brancas era o "Chefe" Escoteiro deles. Um verdadeiro pai. Amigo, sincero e sempre junto para ajudar no que fosse necessário. Havia inúmeros chefes. Rosa Prateada a Akelá, Esquilo Sorridente o Chefe da tropa, Lobo Vermelho o Chefe Sênior e tantos outros que se amavam e se respeitavam. Nos dias de reuniões, parecia que o céu ficava mais azul e o sol brilhava só para os escoteiros. As estrelas cintilantes escondidas naquela hora do dia ficavam aguardando ansiosas quando eles estiverem cantando em um fogo de conselho lá na mata verdejante, ou no bosque da Prosperidade onde sempre montavam suas barracas verdes e amarelas.

                        Um dia, porém o inevitável aconteceu. O pároco da igreja onde eles tinham a sede chamou Barbas Brancas e deu a notícia fatídica – Vocês infelizmente têm dois meses para desocupar. Recebi instruções de Vossa Eminência o Bispo Matusalém, que todas as paróquias devem ter uma sala própria para utilização das Congregações que iram se formar. Infelizmente – continuou – Só temos essa.

                        Não haveria acordo. Não haveria recuo. Dois meses e a sede desocupada. Trinta anos ali, trinta anos formando cidadãos honestos na comunidade. O coração de Barbas Brancas bateu forte. Seus olhos ficaram molhados das lágrimas que caiam. Um conselho de chefes tomou conhecimento de tudo. Planos, discussões foram postos em prática. Dois meses. Muito pouco tempo. Eles não sabiam como agir. Nunca tiveram ódio, rancores e nem sabiam como brigar pelos seus direitos. Em seus corações só habitavam o amor e o carinho.

                          Na reunião da semana, no cerimonial de bandeira todos foram comunicados. De felizes agora só se ouviam lamentações, lágrimas, queixas e todos acreditavam que a Morada da Felicidade nunca mais iria existir. Aguas cristalinas, uma guia chorou alto. Serra Alcantilada o Monitor Sênior começou a rezar. Até Ventos na Face um Pioneiro antigo não sabia o que dizer.

                          Olhos azuis um lobinho da matilha cinzenta e Sorriso Encantador uma lobinha sua amiga foram para um canto da sede e não choraram. Eles eram firmes nas suas palavras e ações. Diziam que deveria haver uma saída. Deixaram a reunião, subiram as escadas e procuraram o pároco. Este nem ligou. Se querem resolvem falem com o Bispo Matusalém. Foi ele quem ordenou.

                      Pegaram o ônibus. Palácio Episcopal. O Secretario dizia que o bispo não podia atender. Por quê? Se ele viveu tanto, mais de mil anos deve ser um sábio. Afinal todos dizem que ele é um homem bom. Filho de Enoch, e agora não pode nos receber? – O Bispo Matusalém passava ali na hora. Sorriu divertido. – Quem são vocês? Perguntou. – Eu sou Olhos Azuis, lobinho da matilha cinzenta. Sou segundo primo e tenho a segunda estrela, essa é minha amiga, Sorriso Encantador, também segunda estrela e da minha matilha. Sabemos a lei do lobinho de cor e sabemos que o senhor é o culpado da nossa infelicidade.

                      Logo a seguir beijaram o anel pastoral e fizeram uma genuflexão diante dele. O Bispo Matusalém assustou. Por quê? Disse – Porque Vossa Eminência tomou nossa sede, o pároco disse que temos de morar na rua! E agora? Pensou ele. Venham comigo disse. Foram até a sala de visitas. O Bispo Matusalém serviu chocolate e biscoitos amanteigados. Obrigado Eminência, mas não podemos. Na matilha ou todos comem ou não comem ninguém!

                      O Bispo mandou seu secretário preparar o carro. Foi até a sacristia e pegou duas latas de biscoitos amanteigados e muitos chocolates. Olhos Azuis e Sorriso Encantador entraram no carro e foram com o bispo até a sede do Grupo Escoteiro Morada da Felicidade. Uma festa. Veio o pároco. Ordem do Bispo, a sede é de vocês por centenas de anos! O Bispo Matusalém distribuiu chocolate e biscoitos amanteigados a escoteirada. Ficou amigo de todos. Barbas Brancas sorria. Águas Cristalinas, Serra Alcantilada e Ventos na Face batiam palmas.


                       A paz voltou a reinar no Grupo Escoteiro Morada da Felicidade. O sorriso ali nunca deixaria de existir. Sempre teria alguém para encontrar o caminho do sucesso. Desta vez foi Olhos Azuis e Sorriso Encantador. Mas sabiam que nas dificuldades sempre temos alguém preparado para pular por cima. Já diziam os poetas que as dificuldades são como as montanhas, aplainam-se quando avançamos sobre elas e quanto maior a dificuldade, tanto maior é o mérito em superá-las.

A fabulosa odisseia da Matilha cinzenta.


Lendas escoteiras
A fabulosa odisseia da Matilha cinzenta.

                       - Tiquinha, quando vai terminar as férias? – demora ainda Patropi. Mister Mosca era o único que estava plugado na Internet. Neka e Grilo jogavam paciência e o Professor era o único que estava a escrever em um caderno. – Todas as terça eles se reuniam em casa de um dos participantes da Matilha Cinzenta. A alcateia estava em férias. Sempre fora assim nos meses de férias escolares. – Precisamos mudar isto, não dá sem reuniões só porque alguns chefes vão viajar, disse Neka – Eu concordo com você, sem uma reunião uma excursão ou um acantonamento e sem escola o tempo não passa! Disse o Grilo. – Olhem, não somos uma matilha? Afinal na jângal os lobos não se viravam sozinhos? Disse o Professor. Todos olharam para ele. Fale mais Professor. – Porque não fazer uma atividade de um dia só para nós, não estamos em férias?

                         Estavam juntos a mais de dois anos exceto a Tiquinha e o Grilo com um ano. Aprenderam a se encontrar uma vez por semana na casa de um deles. Hoje estavam na casa do Professor. Dona Filó sua mãe sempre atenta em tudo que faziam. Hora de preparar um lanche para eles. Ela gostava da amizade deles. Jovens naquela idade não costumava ser assim. O que ela não sabia era o que eles estavam planejando. Meninos nesta idade tem que se ficar de olho. Passava das sete da noite quando os pais foram buscá-los. Ninguem sabia o que tinham planejado. Iriam em lugarejo antigo, onde existia um trem que aos sábados e domingos era explorado turisticamente. Na internet viram as fotos. Lindas, maravilhosas. E a bruma na cidade? Escolheram aonde ir nas várias estradinhas e trilhas que começava na cidade. Sonhavam com pedras, regatos, cascatas e acreditavam que podiam encontrar a Pedra do Conselho. Adrenalina à flor da pele. Uma lista foi passada do que tinham de levar. – Lanche, lanterna, e bússola. Alguém sabe como orientar? Riram de tudo. Iriam ficar fora o dia inteiro teriam de mentir. Detestavam isto, mas não tinha saída.

                          Com um gravador com a voz dentro de um latão imitaram a voz do Balu. Falavam para a mãe de cada um que os lobos teriam uma reunião especial. Iria durar o dia inteiro. Cada pai ou mãe deveria levá-lo pela manhã e buscar a noitinha. Nenhum dos pais duvidou da voz do Balu. No dia marcado todos lá a espera que os pais fossem embora. Pegaram o ônibus até a estação de trem. Estou com medo – disse Neka. – Calma, vais ver que será tão divertido que você vai esquecer isto, disse Patropi. Na estação o trem não demorou. Os passageiros sorriam com aqueles seis jovens de mochila e uniformizados de azul. Ninguém perguntou onde estavam os chefes.

                          Duas horas de viagem. A estação era bem antiga. Desceram e subiram uma grande escada de ferro. Na passarela tiveram uma bela visão. A cidade aos seus pés e a bruma cinzenta em volta. O Professor sabia onde deviam ir. Pesquisou muito. Atravessaram a cidade e ninguém estranhou aqueles jovenzinhos de azul boné estiloso e mochila as costas sem um adulto.  Avistaram a estradinha. Linda. Arvores em todo lugar e muitos pássaros e beija flores coloridos.  Estavam maravilhados com tudo. A estrada diminuiu. Agora uma trilha. Cada um se sentia em plena Jângal. A mente distraída era como se estivessem na Jangal de Mowgly. Sonhavam em encontrar à Pedra do Conselho. Foi Patropi que disse estar com fome. Pararam para um lanche. Enquanto lanchavam faziam perguntas que o outro não sabia responder.

                         Duas e meia da tarde, hora de voltar. Encontraram um riacho com cascatas de águas cristalinas. Patropi perguntou onde seria a Pedra do Conselho. – Neka marcava o tempo para voltar. Seguiriam por meia hora. Encontraram um riacho e resolveram tomar banho. Brincaram, cantaram, riam cada um olhando para o outro e mostrando a alegria de estarem ali. O tempo passou. O sol sumiu. Agora era voltar, mas para onde? A noite chegou e nada se via. Não enxergavam nada. Resolveram sentar e esperar. Esperar o que? – Que burrice fizemos? Disse o Mister Mosca. Só Patropi e o Professor mantinham a calma. Seguiriam no dia seguinte. Somos lobos e não temos medo! O que os pais iriam dizer ficaria para depois. Tiquinha descobriu um isqueiro em sua mochila. Juntaram uns gravetos. A fogueira foi uma salvação para dormir.

                      Acordaram pela manhã com a passarada fazendo algazarra e cantando. E a trilha? Tiquinha começou a chorar. Neka também. Patropi soluçava. Mister Mosca e Professor de olhos fechados não sabiam o que fazer. Só o Grilo ainda sorria. De que ninguém sabia. – Na sede os pais desesperados. Policia, bombeiros, O Diretor Técnico, a Akelá, o Balu e vários Escoteiros falavam ao mesmo tempo. - Onde foram? Ninguém sabia. Buscas na redondeza. Ninguém viu. – Capelão um bêbado do bairro disse que eles pegaram o ônibus da estação ferroviária. Ninguém acreditou nele. – Farofa era Monitor da Falcão. Chamou a patrulha. Vamos achá-los disse. Faremos duplas, uma delas vai até a estação. Tendo alguma noticia ligue para os outros.

                   Pais desesperados. Sabiam que a noite ninguém podia fazer nada. Na mata a Matilha não tinha saído do lugar. Choravam o tempo todo. Dividiram os lanches para dois dias. Muitos saquinhos de biscoitos, batatas palhas e balas. Neka segurou na mão de Tiquinha, que pegou na mão de Patropi e assim todos deram as mãos. Resolveram rezar. – Pai nosso, que estais no céu, santificado seja o teu nome... Se alguém pudesse ver aqueles seis lobinhos rezando em plena mata escura também iria chorar junto a eles. Outra noite dormindo abraços uns aos outros Uma fogueira cujas fagulhas subiam aos céus. Até uma coruja astuta apareceu. Acordaram na segunda feira.

                    Farofa não desistia. Na estação perguntaram a todos os funcionários. – Farofa, não adianta, ninguém viu e ninguém sabe, disse Lumpaza. Mas Farofa não desistia. Risoleta trabalhava na banca de jornal. Viu os Escoteiros perguntando. Lembrou-se dos lobinhos. – Foram no trem de sábado para Paranapiacaba. Não vi eles voltarem. Uma pista. Farofa ligou para o Chefe Trovão. Sabia que ele daria noticia a todos. Sabia que em pouco tempo Paranapiacaba ira fervilhar de bombeiros, policias, a turma de sobrevivência na selva e helicópteros. – Vamos no próximo trem disse – Toda a patrulha disse que agora era questão de honra eles serem os primeiros a encontrarem os cinzentos. Em Paranapiacaba só um guarda civil lembrou deles. – Pegaram a estradinha da serra do mar. Farofa conhecia tudo ali com a palma da mão.


                    Dividiram em duplas. Cada um pegou uma estrada e uma trilha. Eles sabiam seguir pistas e viram as pegadas deles. Mais meia hora e os encontram chorando e abraçado uns aos outros. Quando viram os Escoteiros foi um grito de esperança. Um mês depois eles contaram na Alcateia tudo que aconteceu com eles. Seus pais choraram tanto de alegria que nem brigaram. Mas ficaram de castigos em casa por três meses. Foi uma odisseia nunca esquecida. Uma fama se criou e até hoje naquele Grupo Escoteiro as historias contadas não condizem com a realidade. Mas todos têm seus heróis aventureiros. Se fosse para o bem que seja. Não faria mal a ninguém. Seja sim ou não, que a Matilha cinzenta aprenda com seus erros. 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Os ventos noturnos de Baependi.


Vale a pena ler de novo.
Os ventos noturnos de Baependi.

                   Um tiquitito de gente, Magro não mais do que doze anos. Cabelos crespos e banguelo com um dente na frente. Todos os sábados lá estava ele encarapinhado no pé de Abacate, que servia de muro entre a sede escoteira e a Rua das Palmeiras. Sua pele morena clara parecia precisar de sabão. Os escoteiros e lobinhos o apelidaram de ferrugem. Nunca falou com ninguém e um dia a Chefe Maria o chamou para conversar. – Quem é você? Não quer ser Escoteiro? Ele só balançava a cabeça como a dizer sim e não. Quiosque monitor da Pica Pau riu quando notou que ele era mudo. Não era um riso de ridículo, nada disto, mas ele conhecia outros que não falavam nada e o chamavam de mudinho. Chefe Maria desistiu. Não entendeu nada. Tentou até que Loveiro trouxe uma caneta e papel – Dê a ele Chefe, peça para escrever. Nada. Simplesmente nada. – Ele não sabe escrever ela disse.

                  A vidinha da Tropa continuou seu rumo. Não se esqueceram de Ferrugem. Ele sempre encarapinhado no pé de abacate a olhar a reunião dos sábados. Quando saiam para atividades fora da cidade ele acompanhava por alguns quilômetros e depois desaparecia. Cotovelo jurou que o viu no acampamento do Vale Feliz.  Por pouco tempo é claro, pois quando se aproximou ele sumiu. A escoteirada da Tropa andava preocupada. Diversas vezes viram a Chefe Maria com os olhos vermelhos parecendo que tinha chorado. A vida dela se transformou num inferno depois que Caledônio começou a beber. Era seu marido e todos sabiam que ele sempre dava uma surra nela quando estava bêbado. Quando sóbrio era um primor de homem, e a carregava no colo, ria, beijava e dizia que era o homem mais feliz do mundo. A Chefe Maria entrou por causa de Judith sua filha. Com onze anos queria ser escoteira e Caledônio foi contra, mas aceitou quando ela começou a participar.

                       Um fato estranho aconteceu. Ferrugem desceu da árvore e foi até ela fazendo sinais. Ela nada entendeu, mas ele entrou no meio da patrulha Pica Pau e ficou ali como se foi mais um patrulheiro. Ela sorriu e não disse nada. Chamou Quiosque. – Vamos deixar, dizem que assim se amansa boi bravo! E riu sem ofensas. A cidade de Baependi acostumou com Ferrugem vestido de Escoteiro com sua marcha solene pela manhã e a tarde. Aparecia em uma rua e sumia em outra. Vinagre tinha um irmão que foi para a Capital e doou o uniforme para Ferrugem. A vida seguiu seu destino, a Tropa andando com suas próprias pernas, Chefe Maria procurando um Chefe homem para ajudar, pois eram 19 meninos e cinco meninas. A cidade de Baependi se revoltou um dia. Viram Caledônio tentando bater nela de cinta no meio da rua. O povo correu em cima dele que só pode se salvar se trancando na cadeia do Delegado Tostino.

                        Ficou preso por dois meses. Um sossego para Chefe Maria e Judith. Mas ela sentia saudades dele, sabia que ele não era assim nunca foi quando namoravam. Ela o amava demais. Até beber bebia moderadamente. Nos primeiros anos de casado ela sorria e pensava ser a mulher mais feliz do mundo. Dona Elza e Dona Lorena diziam para ela largar dele. Era professora, não dependia de homem nenhum. Ela sorria, mas seu coração chorava. Ela o amava mais que tudo. Quando foi fazer seu primeiro curso Escoteiro quase desistiu. Ele raivoso disse que não. Mulher dele não iria se misturar com homens em um acampamento. - Veja só disse – Se for vou lá e te dou uma surra quando menos esperar. Vais apanhar quando a bandeira arvorar!

                        Deixou Judith com Dona Elza e com a proteção de Deus foi. Ele ficou fulo, disse o que não disse e as ameaças se espalharam no ar. – Quando chegar não vai mais me encontrar aqui disse ele. – Ela chorou e muito aprendeu no curso, mas uma pontada no coração a fazia sempre se lembrar dele. – Se ele se for vou sentir muito sua falta, mas fazer o que? – Ela durante o curso dava sorrisos não por causa do curso, mas porque viu diversas vezes Ferrugem encarapinhado em uma árvore qualquer a olhar para ela. Assim foi os dois dias lá no campo. À noite no fogo de conselho o viu sobre as cabeças dos chefes, em uma pitangueira, ao lado de uma coruja que olhava espantado para ele, sorrindo e a cantar a Arvore da Montanha. Claro só seu lábios cantavam, pois voz não saia. Ficava pensando onde ele dormia, onde comia, pois seu sorriso era contagiante em qualquer hora do dia ou da noite.

                         Quando desceu do jipe do Chefe Gentil da equipe do curso o viu na porta de casa. Ao seu lado Judith. – Gritou alto – Aqui você não entra nunca mais! Ela não sabia o que fazer, disse ao Chefe Gentil que fosse embora, pois se não ia piorar muito mais. Ela sentiu alguém lhe dando a mão. Uma mãozinha pequenina, frágil e viu que era Ferrugem. Ele a olhou e ela viu nos seus olhos como se estivesse sinalizando para ir em frente. Ela foi segurando a mão dele. Caledônio se assustou com aquele mudinho, um tiquitinho de nada que dava a mão sua esposa pensando que com isto pudesse enfrentá-lo. Cento e vinte quilos contra mais ou menos quarenta. Um disparate. Uma cusparada e ele morreria afogado. Riu quando pensou assim. Sabia que ia dar um cascudo no moleque e um tapa na cara da Chefe Maria para ela aprender.

                         Caledônio foi ao encontro de sua mulher no portão de sua casa. Judith chorava alto. Era uma menina loira magra e linda, mas não podia fazer nada. Chefe Maria pensou em parar, mas Ferrugem a puxou pela mão. Ficou entre ela e Caledônio. Fez um sinal para ele sair da frente. Caledônio sentiu uma mão invisível o puxando. A vizinhança apinhava na rua para ver o desfecho. Ferrugem o olhou dentro dos olhos, pela primeira vez Caledônio teve medo. Chefe Maria passou abraçou Judith e entrou em casa. Na porta ficou Ferrugem de braços cruzados. O delegado chegou correndo pesando que poderia acontecer uma tragédia. Viu caledônio sentado na porta de sua casa chorando e Ferrugem com as mãos em sua cabeça o abençoando.


                         O tempo passou. Caledônio nunca mais bebeu. Agora ajudava Chefe Maria na Tropa escoteira. Ferrugem continuava na Patrulha Pica Pau. Chamado para a bandeira ferrugem olhou para a Chefe Maria. Foi até ela, olhou dentro dos seus olhos. Ela emocionada o ouviu dizer baixinho – Te amo! Ela sorriu com amor. Também o amava e mais agora que o tinha registrado como filho. Caledônio orgulhoso era o responsável pelo cerimonial de bandeira. A cidade em paz. Nunca mais o casal se desentendeu. Caledônio mudou e toda vez que olhava para Ferrugem o agradecia com os olhos. A alegria voltou, a primavera se foi e os ventos noturnos voltaram a soprar em Baependi! 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

As nuvens de Outono.


Lendas Escoteiras.
As nuvens de Outono.

               Posso te ajudar meu Filho? – Me ajudar? Olhei para o Padre sem nada dizer. Nem sei por que entrei na igreja naquela tarde de outono modorrenta de um mês de agosto cujo ano nem me lembrava. Estava desanimado, apático, sonolento e forçando meu pensamento a procurar no passado quem era eu. – O Padre repetiu: - Filho, esta é a casa de Deus. Quem sabe se eu não puder Ele pode te ajudar? Senti-me indiferente com suas palavras. – Ele me deixou sozinho. Quieto no último banco pensei em orar, mas não sabia como. Tristonho, querendo saber quem eu era e o que estava fazendo ali. Vi que estava sobre a Nave, bem na ala central onde a maioria dos fieis se reúnem, mas vazio naquela hora. Porque não disse para ele que estava tentando lembrar e nem sabia quem era eu? No lado direito vi uma imagem da Virgem Maria. Levantei-me e fui até ela, pois alguma coisa me dizia que ela sim poderia me ajudar.

                    Ajoelhei-me a sua frente. Meu corpo tremeu e senti que a vida é como o brilho de um relâmpago no céu. Minhas memorias tinham sido levadas por uma torrente montanha abaixo. Pensei em sair dali, mas ir para onde? Uma luz ascendeu a minha frente e ouvi sua voz repetindo o que já tinha me dito um dia: - Quero apenas cinco coisas... Primeiro é o amor sem fim, à segunda é ver o outono e a terceira é o grave inverno. Sua imagem surgiu em meu pensamento. Aurora! Quem seria? Uma doce namorada? Uma amiga? Alguém que repartia comigo sua vida? Ah! Nossa existência é transitória como as nuvens de outono. Não importa o nascimento da vida ou a morte irreversível que nunca nos deixará fugir. – Pai! Porque se foi? – Impossível! Aurora era do meu sangue. Minha irmã? Minha filha? Eu tinha de descobrir.

                   Um leve perfume de rosas vermelhas adentrou na igreja. Petulantemente olhei quem era. Uma menina moça de uniforme Escoteiro. Escoteiro? Como eu sabia? Já tinha sido um? Quando algo que você goste acabar, ou simplesmente ir embora, lembre-se que as folhas do outono não caem porque querem e sim porque é chegada a hora. Ela sentou ao meu lado, mas não me olhou. Parecia que falava comigo, pois num sussurro calmo a ouvi dizer: - Repara que o outono é mais uma estação da alma do que da natureza. – O que ela queria dizer? Seus olhos negros me fitaram: - Chefe! Está na hora de voltar! – Voltar? Para onde? – Ela se levantou e de novo me disse: Chefe é hora de voltar. De novo Aurora me apareceu e eu só via uma menina, pequena, sorrindo e nada dizia nada falava. Ouvi alguém sussurrando novamente: - “Porque de uma coisa a gente sabe, a vida é injusta e quem devia ficar sempre vai.”.

                      Lembrei que tinha um carro. Verde abacate. Devia estar em frente à igreja. Levantei e o padre veio me dizer adeus. – Vá devagar Chefe, não corra, a vida continua e tem alguém a lhe esperar! – Olhei para ele, sorriu e se foi sem me explicar porque disse aquilo. Vi meu carro embaixo de uma árvore. Dizem que uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se em feiura, a juventude em velhice e o erro em virtude. Nada será sempre igual e por sinal nada existe realmente. Abri a porta, sentei, coloquei as mãos no volante e uma estrada me apareceu dizendo que era por ela que devia voltar. Do outro lado da rua a Escoteira sorria e me acenou. Parti a procura da estrada do meu retorno. Embalado por mãos invisíveis cheguei à outra cidade. A reconhecia era a minha cidade. Muitos vieram à porta para me ver. Quem era eu? Quem poderia ser para ser tão aplaudido silenciosamente por muitos?

                     Parei em frente a uma casa. Uma casa simples, branca, janelas e portas azuis. Parecia ter sido pintada de novo. Quantas flores em volta mesmo sendo outono. Na varanda vi Aurora. Linda, uma menina tão linda que comecei a chorar. De alegria por ter retornado. Nunca devia ter partido. Meninos e meninas Escoteiras surgiram em todas as esquinas. Alguém falava alto para todos ouvirem. - Ele voltou! – O Chefe está de volta! Minha mente embaralhava. Aos poucos comecei a recordar. Saudades de novo entraram em meu coração. Olhei para o alto, Maria Rosa sorria. Era como uma nuvem de outono me acenando. Lembrei-me de tudo. Ela tinha partido. Doutor Donato chegou para tentar me acalmar. Só me disse com os olhos rasos d’água: “Chefe porque de uma coisa a gente sabe, a vida é injusta e quem ficar sempre vai”. A mulher da minha vida tinha partido me deixou sem dizer adeus. Um ataque fulminante. Uma jovem de vinte e dois anos partindo assim era para morrer em seguida.


                  Aurora correu a me abraçar. Uma coisinha pequena, linda demais. Escoteiros e Escoteiras me abraçando. Todos dizendo que eu fiz muita falta. Eu queria chorar, mas Maria Rosa na nuvem branca do céu disse que não. Disse que eu tinha de refazer minha vida. Olhei para Aurora ela me apontou: - É sua razão de viver. E completou: - Quando algo que goste acabar ou for embora se lembre das folhas de outono. Elas não caem porque querem e sim porque chegou a hora! Na entrada da cidade vi o Padre acenando. Como ele chegou aqui? – Pai, nunca mais me deixe só! – Olhei para Aurora. Chorando a abracei com força e a beijei como se estivesse beijando alguém que fazia parte de minha vida para sempre. Os meninos e meninas Escoteiras gritavam palavra de ordem. – Ele voltou! Nosso Chefe chegou para nos dar o amor que sempre deu! Agradeci e entrei em casa. Era outra casa, quando parti era penumbra agora era luz, era vida, ali morava o amor!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A Árvore da Montanha. (Um tributo à canção símbolo dos escoteiros do Brasil)


A Árvore da Montanha.
(Um tributo à canção símbolo dos escoteiros do Brasil)

¶ A árvore da montanha
Ole-li aio...

        Não se mede o tempo. O tempo não pode ser medido. O tempo existe para lembrar os tempos de outrora. Cada história tem seu tempo. Cada história tem seu passado. Contam que a patrulha Quati foi acampar na Chapada dos Lagos Negros. Uma estradinha de terra e a carretinha seguia gemendo com aquele barulho peculiar dos eixos das rodas. Nas retas bastavam dois para empurrar e nas subidas todos colaboravam. Moleque o intendente sabia do seu ofício. Ganhou do Seu Toledo do Posto de Gasolina um galão de graxa. Das boas. Durou anos. Todo mês lavava a carretinha e lubrificava. Fazia isto com um carinho enorme. A carretinha era como se fosse sua vida.

¶ Esta árvore tinha um galho O que galho, belo galho.
Ai, ai, ai que amor de galho. E o galho da árvore...

                   Os sete patrulheiros se divertiam com a jornada. Mais um acampamento para deixar saudades. Gostavam das surpresas quando acampavam na Chapada dos Lagos Negros. Sabiam que depois da Curva do Lobo Cinzento chegariam ao Sitio do Seu Modesto. Gente boa, grande amigo. Gostava dos escoteiros como se fossem seus filhos. Tinha dois, cresceram e mudaram para a capital. Dona Salete morrera há muitos anos e ele fazia de tudo para não decepcionar a escoteirada. Não o viram na varanda quando se aproximaram, mas viram a porteira, enorme imponente, há mais linda Porteira que tinha conhecido. Dava um ar clássico e acolhedor às paisagens do campo. Entre as duas sebes os mourões de madeira de lei se sobressaiam. Quem a fez era um artista. Ela era verde, uma verde oliva que se sobressaia na entrada do sitio. Ao chegar todos tiraram suas mochilas e sem avisar ao Seu Modesto encarapitavam em cima dela no primeiro vão entre uma taboa e outra. Um empurrava até o barranco, dava seu pulo certeiro e lá ia ela correndo ao vão do outro lado com aqueles sete Escoteiros sorrindo de felicidade.

¶ A arvore da montanha
Ole-li aio...

      Os rangidos da porteira era uma melodia suave para a audição de Escoteiros mateiros. Seu Modesto chegou à varanda e sorriu ao ver os escoteiros Querem almoçar? – Grato Seu Modesto, temos de partir, queremos chegar até às duas da tarde! E despedindo dele e da porteira partiram. Agora era o Morro da Saudade. Quase dois quilômetros de subida. Todos em volta da carretinha empurrando. Sabiam que logo após a Curva do Sol Poente ela estaria lá, imponente, a desafiar a natureza com sua arrogância da melhor de todas com uma altura e copa sem igual. A Castanheira se destacava sozinha naqueles pastos verdejantes. Única no seu estilo a desfilar pelas terras do seu Modesto. Magnifica em sua pose reinava sozinha. Hora de encher os cantis na nascente e molhar o rosto, tirar os sapatos e sentir a água fria nos pés. Uma delicia incomparável! Depois um descanso embaixo dela, descanso que muitas vezes ficavamos até o raiar do outro dia. A Castanheira nos fazia sonhar, uma Árvore na Montanha que chegava aos céus.

¶ Este galho tinha um broto Ó que broto, belo broto.
Ai, ai, ai que amor de broto. E o broto do galho E o galho da árvore.

          As mochilas se faziam de travesseiros para descansar embaixo daquele sombreiro maravilhoso. A Árvore da Montanha parecia sorrir. Desta vez não ficaram muito tempo. Hora de partir, podia chover ou escurecer e precisavam chegar. Partiram. Sempre olhando para trás como a dizer a Castanheira que não era mais que um até logo, não era mais que um breve adeus. A volta já estava marcada. No topo da serra onde a Árvore da Montanha reinava avistaram a Chapada dos Lagos Negros. Dois lagos pequenos com um grande bosque em volta. Quantas vezes acamparam ali? Tantas que nem podiam imaginar. Nunca se esqueceram da Montanha onde tinha uma Árvore.

¶ A arvore da montanha
Ole-li aio (bis)...

           Sonhos não morrem jamais, sonhos vividos são lembranças na mente que dificilmente esquecem. Acampamentos? Amavam acampar... Cada um com historia para ser marcada no livro da vida. Os campos que os recebiam, as selvas que se apaixonaram por eles, os vales que se deleitavam com suas presenças. Uma noite, duas um punhado. Sem novidades no Front. Na Chapada dos Lagos Negros era o epicentro dos acampamentos inesquecíveis. Um vento sul, brisas frescas, sem chuvas, lagos para se refrescarem em suas águas cristalinas. No penúltimo dia quando a noite chegou fizeram um fogo estrela no centro do campo de patrulha. Escoteiros sorrindo, uma conversa ao pé do fogo, canções indo e vindo e sempre a lembrar de sua majestade a Árvore da Montanha. Uma saudade enorme resolveram partir antes do dia marcado.

¶Este broto tinha uma folha. E esta folha tinha um ninho.
E este ninho tinha um ovo.

            O acampamento inesquecível foi anotado em mentes de jovens meninos escoteiros. Agora era matar a saudade da Árvore da Montanha. Partiram à tardinha. Iram passar a noite com ela. Avistaram-na ao longe, pomposa, imponente como a dizer: – Sabia que viriam! Montaram rancho ao pé da árvore. Um jantar delicioso, um fogo quadrante sem fumaça para não machucar a Castanheira. A noite calma e estrelada veio de mansinho.  Nunca tiveram problemas... Sete Escoteiros sob a Árvore iriam tê-la por uma noite inesquecível. Acima dela às estrelas cintilantes como uma barraca, zelavam pelos escoteiros. A Árvore da Montanha estava feliz. E ela junto aquelas sete almas nobres também dormiu. Era como se estivessem abraçados. Tornaram-se um só. Brancas nuvens no céu sorriram. A estrela Dalva apareceu como se fosse um anjo para olhar aqueles heróis e aquela Árvore centenária que abrigou para sempre todos os Escoteiros do Brasil. Da árvore do silêncio pende seu fruto, a paz.


¶ E este ovo tinha uma ave. E esta ave tinha uma pluma. E esta pluma tinha um índio.
¶ E este índio tinha um arco. E este arco tinha uma flecha. Esta flecha foi na árvore ó que árvore, bela árvore. ¶ Ai, ai, ai que amor de árvore.
E a árvore da montanha
Olé-li-aio (bis).

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....