sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Contos de Natal. Milagres existem, é só acreditar.




Contos de Natal.
Milagres existem, é só acreditar.

♫ “Rataplã do arrebol, Escoteiros vede a luz”!
Rataplã olhai o sol, do Brasil que nos conduz” ♫

               Liminha não pensou duas vezes, se tinha de pular não ia discutir com o Monitor. Tomou distância e correu, pulou e quase alcançou a margem do outro lado. Não conseguiu, caiu por uns bons cinco metros e sentiu a pancada nas costas. Foi a primeira vez que sentiu uma dor enorme. Foi também que descobriram que ele estava com leucemia. Não foi assim tão rápido. Começou quando após a queda sentia uma dor de cabeça que não passava. Uma fraqueza e cansaço tremendo. Viu manchas arroxeadas na pele e sentia dor nos ossos e articulações. Apareceram outros sintomas, mas os médicos diagnosticaram facilmente. Liminha nunca pensou que podia ter esta doença. Era um Escoteiro alegre, Corredor, valente nas atividades e sempre se sobressaindo em tudo. Quando seus pais souberam acharam que o escotismo era o culpado. A dor é muito forte e achar a culpa de alguém é mais fácil para enfrentar o desespero que passavam. Liminha nunca chorou na presença dos seus amigos de patrulha. Aceitou e muitos estranharam por vê-lo sempre sorrindo.

♫ “Alerta, ó Escoteiros do Brasil, alerta!
Erguei para o ideal os corações e flor!
A mocidade ao sol da Pátria já desperta
A Pátria consagrai o vosso eterno amor” ♫.

               Seus pais não mediram esforços para tentar uma cura. A leucemia era uma doença cruel. Primeiro os medicamentos e a poliquimioterapia. Era demais para ele. Mas com três meses começou a se sentir melhor. Exigiu voltar para sua patrulha. Não pediu e disse aos seus pais que sem o escotismo ele iria morrer logo. Na primeira reunião de patrulha disse para todos o que tinha, mas não queria compaixão – Vocês tem que me considerar como um igual. Se acharem que estou doente nunca mais eu conseguirei melhorar! O escotismo era um balsamo para Liminha. Não perdia um acampamento e com tristeza não pode participar de um bivaque. Seria muitos quilômetros e o próprio Chefe o aconselhou a não ir. Foi a primeira vez que Liminha o viu. Tinha quase sua idade e sem nenhum fio de cabelo, mas com um belo sorriso. Ficaram amigos e seus pais ficaram mais ainda preocupados. Liminha apresentou seu amigo, mas ninguém via ninguém. Um amigo que foi tirado da sua imaginação, todos pensaram. A contra gosto aceitaram. Se isto o fazia feliz porque não? Liminha o chamava de Tércio. Passavam horas conversando.  

♫ “Por entre os densos bosques e vergéis floridos,
Ecoem nossas vozes de alegria intensa!
E pelos campos fora em cânticos sentidos
Ressoe um hino avante à nossa Pátria imensa”! ♫.

           Quatro meses depois Liminha teve outra recaída e desta vez passou meses internado no hospital. – Só um transplante de medula óssea poderia resolver, aconselharam. Mas e como achar um doador perfeito? Vários membros da família se revezaram nos exames, mas nenhum serviu. Liminha se tornou um exemplo para os internos do hospital. Vivia sempre sorrindo e contava longas histórias para os meninos internados no mesmo quarto que ele. Todos aprenderam a reconhecer quando Tércio estava com ele. Tércio sabia tantas histórias e mesmo não o vendo eles se divertiam. Até mesmo os Escoteiros da sua patrulha e da tropa gostavam de ir ao hospital para não só visitá-lo, mas para mandar um abraço a Tércio. Um Tércio que só Liminha conseguia ver. Liminha não melhorava. Pediu aos seus pais que trouxessem o seu uniforme. Gostaria que quando houvesse visita ele estivesse com ele. Era contra as normas do hospital, mas os médicos autorizaram. Quinze dias antes do natal Liminha piorou. Quase não falava. Os médicos comunicaram aos seus pais que não havia retorno. A vida de Liminha era uma questão de dias.

♫ “Unindo o passo firme à trilha do dever,
Tendo um Brasil feliz por nosso escopo e norte
Façamos ao futuro, em flores antever
A nova geração jovial confiante e forte”! ♫.

            Liminha pediu e foi autorizado que fizessem uma reunião de tropa em uma área ajardinada do hospital. Era o dia 24 de dezembro. Ele foi em uma cadeira de rodas. O Chefe Escoteiro emocionado fazia tudo para que Liminha participasse sem notar que o programa tinha sido feito para sua participação. Liminha ria a valer nos jogos e gritava a mais não poder para Tércio seu amigo imaginário. No final da reunião na cerimonia de encerramento antes da bandeira Liminha pediu ao Chefe se seu Amigo Tércio poderia fazer a promessa. O Chefe Escoteiro não sabia o que dizer ou fazer. Os pais de Liminha em um canto choravam lágrimas doídas. – Deus oh Deus porque tudo isto? Dizia sua mãe em prantos. Liminha na cadeira de rodas foi até o centro da ferradura e apresentou seu amigo Tércio a tropa. Quando assustado o Chefe Escoteiro tomava a promessa uma forte luz azul se fez presente. Ninguém entendia nada, mas todos viram em uma névoa branca um menino de branco, com a meia saudação a dizer: - Eu prometo, pela minha honra, fazer o melhor possível para: Cumprir o meu dever para com Deus e a Pátria, ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer à lei do Escoteiro!

♫ “E se algum dia acaso a Pátria estremecida,
De súbito bradar: Alerta aos Escoteiros,
Alerta respondendo, à Pátria a nossa vida
E as almas entregar iremos prazenteiros!
Alerta! Alerta! Sempre Alerta”! ♫

       A emoção foi demais. Lágrimas foram derramadas por todos. Liminha assustou todo mundo quando ficou de pé e corria rindo em volta do arvoredo do pátio do hospital. Ele gritava: Não vá embora Tércio. Não me deixes! Quero ir com você! Todos viram um redemoinho que se elevava aos céus. Alguns juram que ouviram Tércio dizer que voltaria. Seria por pouco tempo. Liminha chorava e andando normalmente pediu aos seus pais que o levassem para casa. Os médicos sem saber o que fazer concordaram. No outro dia ele voltaria ao hospital. Liminha voltou, mas para surpresa de todo mundo ele estava curado. Não sentia mais nada. Um milagre. Um milagre de Natal. Tércio no céu sorria. Liminha na terra sorria. O mundo Escoteiro voltou a pensar que no escotismo tudo pode acontecer. Foi o próprio Liminha quem disse ao seu pai e sua mãe:
♫ “Não é mais que um até logo,
Não é mais que um breve adeus” ♫.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Contos de natal. O feliz natal da Família Borelli.




Contos de natal.
O feliz natal da Família Borelli.

   O mundo, desde quando surgiu à vida humana, sempre foi moldado pelas pessoas sonhadoras que têm coragem de colocar seus sonhos em prática, de lutar por eles e provarem que, sim, vale a pena sonhar. São essas pessoas que fazem as maiores descobertas, mudam o planeta e nos fazem evoluir. Uma história simples, contada sem tropeços. Afinal nas noites de natal todos tem direito a um milagre!

                   Quantos anos ele estava naquela vida? Dois? Cinco? Dez anos? Ele não tinha ideia. O tempo não importava. Aprendeu a viver com a luz do dia e o brilho das estrelas a noite. Comia dia sim dia não. Seu corpo era um trapo jogado nas sombras de um viaduto naquela grande cidade. Na Padaria do Seu Matheus sempre conseguia um pão para comer. Sua barba cresceu enormemente. Vez ou outra quando chovia ficava em seu calção velho e desbotado e gargalhava com a cascata que brotava de cima do viaduto. Era seu banho mensal ou anual... Não lembrava seu nome. O chamavam de Jesus. Ele sorria quando alguém dizia assim. Mas o pior é que ele nem se lembrava quem foi Jesus. Apanhou muito e até tentaram fazer dele uma tocha para alegrar um costume da rapaziada.

                    Esqueceu-se de chorar, mas ainda bem que sabia sorrir. Sua pele agora escura pela sujeira e o tempo no sol nada dizia de seu passado. Um dia vários meninos de uniforme e chapelão pararam a sua frente no Viaduto Santa Efigênia. – Moço! Queremos ajudar o senhor! Ele olhou aqueles pivetinhos empertigados na sua apresentação. – Me ajudar? Sorriu. Era bom sorrir principalmente para meninos que ele tinha na lembrança que um dia conheceu um. – Moço, hoje é dia da nossa boa ação de Patrulha. Queremos ajudar. O Chefe nos deu a chave da sede. Se o Senhor quiser poderá tomar um banho e vamos servi-lo com um lanche que compramos com a nossa mesada. Iremos dar ao senhor varias roupas usadas para trocar por esta.

                   - Porque não? Pensou. Nem lembrava mais quando tomou um banho de sabonete. Uma toalha limpa, uma mesa para almoçar um pedaço de Peru que a mãe de um deles fez para ele. – Moço, porque não dorme aqui na sede hoje e amanhã fica para a reunião? – Ele olhou para aquele menino que fazia um convite que há muitos anos não recebia. Dormiu em um colchonete e nem reclamou do frio do pátio iluminado. Sentiu-se um rei. Era bom demais. As pedras jogadas, os chutes da rapaziada, o frio e a chuva que recebia embaixo do viaduto não aconteceu. Não sabia por que aqueles meninos o tratavam com tanto carinho. Acordou com um canto de pardais que pensou ter voltado no tempo. Havia um bosque próximo ao salão da sede. Deu uma volta e uma angustia enorme percorreu todo seu ser. O que seria?

                Viu a algazarra dos meninos chegando. Eram azuis, outros de chapelão e adultos que ele olhou de soslaio com medo de ser expulso. Sentiu um calafrio com o grito de vários meninos, uma lágrima rolou quando viu a bandeira subindo aos céus. O corre-corre, os pequeninos gritando lobo, o jogo do quebra queixo havia alguma coisa no ar que ele conhecia. Um Velho de calças curtas se aproximou dele. Um semblante simpático e amigo. – Olá! Como vai? – O que dizer para ele? A vida dele era assim, chutado e escorraçado e agora alguém perguntava se ele ia bem? – O velho chegou mais perto. Olhou seus olhos, tampou sua barba embranquecida, chamou outro Chefe e falou baixinho em seu ouvido sem ele nada ouvir.

                Vieram outros adultos, começaram a fazer perguntas. – O chamavam de Tiago, da cidade de Ouro Negro. Ele tinha relances, mas logo sua mente escurecia e ele não se lembrava de nada. O Velho sorrindo disse para ele ficar a vontade. Agora a sede dos escoteiros era seu lar. Ele poderia ficar tranquilo, estava no meio de amigos. Telefones voavam como vento de outono para Ouro Negro. Um corre, corre em pleno sábado véspera de natal. Vários automóveis pararam em frente à sede e uma senhora desceu de um veículo correndo até a sede. – Onde ele está? Meu Deus! Tem de ser ele. Quando o viu não teve dúvidas. O abraçou chorando. Vários outros também o abraçaram. – Papai! Papai! Ele espantando não sabia o que dizer. Todos choravam não de tristeza, mas de alegria!

Prologo:
- Em Ouro Negro Tiago Bernabeu dos Santos era amado e respeitado. Com 32 anos era um Chefe Escoteiro que todos admiravam. Casou com Nora Amâncio filha do senhor José Silva Amâncio um próspero fazendeiro que o adotou como filho. Tiago era de linhagem simples, funcionário da Fábrica Alvarez. Ele e Nora tiveram quatro filhos uma menina e três meninos. Casou em 1966 e já tinham passado mais de 15 anos desde que ele desapareceu. Tudo aconteceu quando ele e mais seis pioneiros resolveram escalar a Serra dos Andradas. Ele escorregou em um penhasco e apesar das buscas por mais de cinco meses seu corpo nunca foi encontrado. O Grupo Escoteiro de Ouro Negro nunca o esqueceu. De histórias encheram-se as paginas dos livros de atas e afins.

- Ele aos poucos tinha lampejos de lembranças e isto o fazia feliz. Conta à lenda que Tiago ficou ainda muitos anos sem memória e aos poucos ela foi retornando. Viveu feliz com sua família até o final de sua vida. Nunca pensou que a felicidade pudesse ser duradoura. A vida que ficou para trás nunca foi motivo de vergonha ou mesmo de arrependimentos. Foi um aprendizado para seu crescimento espiritual. Naquele ano de retorno, a família e ele abraçados, foram participar da Missa do Galo. Tiago chorou. De alegria. Pensou que se não tivesse sido Escoteiro não teria um final feliz. Olhando Jesus na manjedoura se lembrou de seu passado. Era como tudo estivesse guardado e voltado para que ele pudesse de novo renascer! Feliz Natal na paz do Senhor!   

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Contos de natal. “Texaco”




Contos de natal.
“Texaco”

... - A fé em Deus nos faz crer no incrível, ver o invisível e realizar o impossível. Uma história para quem acredita que para o Senhor nada é impossível.

- Seu apelido veio do local onde trabalhava. Posto Texaco. Todos os dias pegava sua bicicleta e viajava 30 quilômetros até o local de trabalho. Nunca reclamou das doze horas que ficava lá. Molambo era seu companheiro e ambos davam pulos quando os caminhoneiros se misturavam com os carros para abastecer. Gostava de seu nome, José Antônio da Silva, mas quase ninguém conhecia. Todos o chamavam de Texaco. - Naquele sábado ia displicentemente na estrada pensando no filme que ia estrear no cine Palácio. “Da terra nascem os homens”. Adorava um faroeste e este era com Gregory Peck, Jean Simmons e Charlton Heston. Um elenco estrelar. Não ia perder. Conversou com o Senhor Ademar para sair às sete da noite. Iria pegar a sessão das nove. Tudo aconteceu na Curva do Onça. Um carro a toda velocidade fez a curva aberta na contramão e o pegou em cheio.

- Não sentiu nada. Rodopiou no ar e caiu na lateral da estrada ficando estirado no chão. Olhou para o céu e as nuvens balançavam de um lado a outro. Nuvens balançando? Viu quando alguém chegou correndo. – Ele está vivo! Ouviu uma vozinha de criança dizer. Vivo? Achou que estava morto. Não sentia dores, parecia estar em um anfiteatro com uma orquestra tocando belas musicas dos seus filmes favoritos: - Dança com Lobos, Em algum lugar do passado e a maravilhosa musica de Max Steiner em o Vento Levou. - Seus olhos abriram-se lentamente. Viu o rosto de alguns meninos em sua volta. Eram escoteiros, ele já os tinha visto passando em fila em frente ao posto para acampar. – Oi moço, não durma, o socorro já vem! Disse um deles. – Acho que precisamos fazer alguma coisa disse o outro! – fazer o que ele pensou. Sentia o corpo quebrado em vários lugares, só conseguia ver de um olho. Um deles segurou na sua mão. Sentiu as mãozinhas de uma criança tentando lhe dar nova vida.

- Nico, você não tem a especialidade de enfermeiro? A voz trêmula de Nico se ouviu a seguir. – Monitor! O que eu posso fazer? Ele está todo ensanguentado e veja as suas duas pernas tem fraturas expostas! Lembra do bombeiro que disse que não devemos interferir nas fraturas e esperar ajuda especializada? Alguém passava um pano molhado em sua testa e seu rosto. Era reconfortante. Viu a face da menininha escoteira. Sorria para ele. – Moço, vai passar tudo passa nessa vida e logo estará bom de novo! - Texaco queria sorrir, sua face era uma máscara vermelha de sangue que a doce escoteira tentava limpar com seu lenço escoteiro e água do seu cantil. Sua mente estava em dois lugares simultaneamente. Lembrava-se das palavras de José um caminhoneiro: - Olhe Texaco, É difícil acreditar em uma vida após a morte, mas é deprimente acreditar que nós simplesmente morremos. Será que chegou minha hora? Pensou!

- Ele não tinha medo da morte, sabia que um dia ia morrer só não sabia como. Ouviu ao longe uma sirene. Seria seu socorro? A escoteira sorria para ele. – Calma Senhor. A fé em Deus nos faz crer no impossível, ver o invisível e realizar o inimaginável. Por isso, creia e deixe tudo nas mãos Dele e Ele fará o melhor pra ti, basta ter fé! Texaco olhou para ela. Tão jovem e tão filosófica. Lembrou-se de sua mãe que já tinha partido para o céu. - Sentiu mãos vigorosas o segurando. Perdeu os sentidos na terra, mas eles continuaram no céu. Ouviu a voz dela a dizer: - Texaco, para Deus não haverá impossíveis. Basta tirar as duas letras iniciais da palavra Im para que tudo se torne real na sua vida. Texaco dormiu. Um sonho gostoso sem dor.

Dois anos depois...
- 22 de dezembro véspera de natal. Na grama verde do pátio ele ouviu chamando. Eita Texaco, agora é sua vez! Acordou assustado. Era a patrulhinha escoteira a brincar com ele em uma cadeira de rodas. Viu Leninha a escoteirinha que lhe afogou a face ensanguentada com seu lenço. – Conseguiu limpar? Perguntou. Ela sorria e disse que não, mas que se fosse ele quem lhe deu a vida tinha valido a pena. Texaco deixou lágrimas rolar pelo rosto. Viu sua mãe ali segurando sua mão. Filho... A fé em Deus nos faz crer no incrível, ver o invisível e realizar o impossível. - Um homem de uniforme escoteiro chegou. – E então Texaco, pronto para a reunião? Ele olhou em volta, quanta alegria quanta compreensão. Notou que estava com um uniforme e usava um lenço igual da menina... Na cadeira de rodas sem poder andar pensou: - Você diz... Isso é impossível e Deus responde: - Tudo é possível. Você interpela... Eu já estou cansado. E Deus responde: - Eu te darei repouso.  Você completa... Não vejo saída... E Deus responde: - Eu guiarei teus passos! Feliz natal Texaco! Que a paz do senhor esteja convosco!

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Lendas escoteiras. Uma noite maravilhosa de Natal!




Lendas escoteiras.
Uma noite maravilhosa de Natal!

                 Eu sempre tive um carinho enorme pela noite de natal. Família reunida, muitos presentes, abraços uma bela ceia isto sempre me encantou. Triste eu ficava quando lembrava que muitos não tinham esta minha felicidade. Já passava da meia noite e junto com minha esposa admirávamos na varanda os foguetes e a luzes no céu. Uma enorme tristeza se abateu sobre mim.  Lembrei-me da última visita que fiz na casa do Chefe Maninho. Sempre foi um pai para nós escoteiros de Esperança Feliz. Dizem que ele entrou para o Grupo em 1946 Ficou mais de sessenta anos no escotismo. Sempre notei nele uma pessoa triste, um olhar perdido no horizonte, olhos fundos e sempre com uma lágrima furtiva que ficava tentando esconder.

                  Chefe Maninho morreu há dois meses. Nas suas exéquias poucos foram. Esperava uma multidão e não foi quase ninguém. Claro era difícil vê-lo sorrir. Acho que ninguém nunca recebeu dele um abraço. Era muito fechado em si mesmo. Nunca esqueci o que ele me contou um dia. O Fogo do Conselho havia terminado e ficamos eu ele, Rosa uma Chefe Escoteira, Nair sua Assistente e Paulo Alberto um Chefe de tropa. Ficamos conversando e a meia noite todos foram dormir. Só eu e o Chefe Maninho ficamos em volta do fogo às vezes sorrindo ao ver um cometa passar. Não sei por que ele estava com os olhos marejados de lágrimas. – Chefe, perguntei está se sentindo mal? - Não meu amigo, respondeu. São as lembranças que não cessam. E então, começou a contar parte de sua vida que acredito era desconhecido por todos que ficaram ao seu lado por muitos e muitos anos.

                 - Chefe, eu perdi meu pai quando tinha cinco anos. Eu o adorava. Ele era tudo para mim. Levava-me aos parques de diversões, me levava em alto mar para pescar, fomos acampar em lugares inóspitos e eu vibrava em sua companhia. Ele era Militar das Forças Armadas. Segundo Sargento do Regimento de Infantaria e todos o admiravam pelo seu caráter, por ser tudo o que hoje não sou. Um pai alegre, prestativo, amigo e muito respeitado não só em seu regimento como em toda vizinhança. Ele mesmo me contou com orgulho que fora incorporado ao 3º Regimento do Exercito Brasileiro. Um regimento da Força Expedicionária Brasileira. Em poucos meses ele partiu para a guerra na Itália. Eu e mamãe choramos muito quando ele partiu. Sabe Chefe, ele partiu em uma noite estranha, cuja lembrança nunca mais me sai. Chamou-me e disse – Filho, seu pai vai lutar lá na Alemanha. Vou me cuidar. Ainda vamos fazer grandes coisas, eu e você. Eu voltarei.

                  - Nos primeiros meses ele escrevia sempre. Mamãe, minha querida mamãe! Ela lia suas cartas, baixinho devagar, dizia que logo estaria de volta, pois a guerra estava prestes a acabar. Todos os dias ele vinha em meus sonhos, e nele retornava como se estivesse me abraçando. Passou um ano e ele não voltou. No natal escrevi para o Papai Noel uma carta. Uma carta simples, só pedia ao meu bom amigo que trouxesse de volta o meu papai que foi lutar na guerra. – Olhe Papai Noel, você que pode mais que a gente, e tem uma força sem igual, me dê Papai Noel este presente, se possível nesta noite milagrosa de natal. Mas nada. Nem resposta. No ano seguinte escrevi de novo. – Papai Noel, meu santo e bom paizinho, eu tenho meu coração como uma brasa, nesta hora triste em rezar ao Senhor eu venho. Papai Noel, se todos têm o seu papai em sua casa, só eu Papai Noel é que não tenho?

                Os dias, os meses foram passando. Mamãe só vivia pelos cantos chorando. As cartas não vieram mais. O silêncio era completo. Lembro-me que um dia mamãe passou a se vestir de preto e nunca mais sorriu para ninguém. E para piorar tudo, um tarde chuvosa do mês de julho, bateram em nossa porta e dois oficiais do Exército Brasileiro entregaram a minha mãe uma medalha. Disseram a ela que ele tinha sido um herói. Mamãe, mamãe, eu quero meu papai! Ela calada, taciturna não chorou mais. Seu rosto lindo que nunca esqueci agora parecia uma mascara de cera. Na missa dos domingos ela disse para o Padre Antonio que estava perdendo a fé. Perdeu seu marido na guerra, ainda tinha seu filho, mas o mundo para ela desmoronou.

                 Sabe Chefe, aquele mil novecentos e quarenta e cinco foi o ano que mais chorei. Eu sempre a noite rezava. Não acreditava que ele tivesse morrido. Jesus, meu amado e bom mestre eu dizia, se os tais heróis não voltam para casa, será que vale a pena ser herói? Senhor Jesus, meu santo e bom paizinho, me dê neste natal um presente. Acabe com minha revolta e me traga de novo o meu papai que foi brigar na guerra. Eu sei que o Senhor pode tudo e sei que vai dar um jeitinho de mandar o meu papai de volta. – Olhei para ele e ele chorava. Um "Velho" de oitenta anos chorando. Continuou a narrar sua história. - Olhe Chefe não dá para esquecer. Acho que mamãe sempre ouvia minhas preces, pois um dia, naquela noite de natal, eu dormi abraçado com o retrato do meu pai. E confesso que tive lindos sonhos com ele. E sabe Chefe, ao acordar gritei surpreso, pois lá estava enrolada em meu sapato uma enorme bandeira do Brasil!

               Sem palavras. Chorava ali com aquele Velho Chefe Escoteiro naquele fogo que aos poucos se apagava. A brisa vinha de leve a nos dar um pouco de calma, de frescor. As pequenas fagulhas ainda existiam naquela fogueira que eram cinzas e mesmo assim algumas se arriscavam ainda a subir aos céus para logo serem levadas pelo vento. Papai Noel. E quem ainda não acredita nele? O natal, linda noite para alguns, muitas tristezas para outros. Abracei com força o Chefe Maninho. Ficamos ali até o amanhecer.  Nunca mais o esqueci. Que Deus esteja com você meu amigo, nestes pastos verdejantes do céu, junto ao seu papai e sua mamãe!

(História baseada no poema de Orlando Cavalcante, “Oração de natal de um órfão de guerra”).
     

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Contos de natal. Os sete filhos de Moisés.




Contos de natal.
Os sete filhos de Moisés.

... - Até o dia 25 de Dezembro deste ano, estarei publicando contos de natal para comemorar e relembrar histórias que escrevi sobre o tema. Feliz Natal a todos, boas entradas e meu cordial e fraterno abraço. Sempre Alerta para Servir!

                 Foi um natal inesquecível. Nunca esqueci. Tudo aconteceu no dia 24 de dezembro ao pé do monte Canaã, bem próximo ao Mar da Galileia. Portentoso o Rio Jordão corria para terminar no Mar Morto. Eu nasci em Israel cidade abrigada por montanhas centrais e que até hoje faz parte da história do Velho Testamento. Canaã era uma cidade pequena e lindamente florida. Na Rua dos Reis Magos morava Moisés, um homem alto, forte que todos diziam ter mais de 100 anos. Moisés tinha um belo sorriso e admirado por todos os habitantes de Canaã. Zípora sua esposa faleceu e o deixou com sete filhos seis homens e uma mulher.  Idades próximas já que havia dois pares de gêmeos Thiago e João Lucas, Davi e Josué. Só Ismael Ruth e Israel não eram gêmeos.  Conta uma lenda que Deus por meio do seu espírito tomou a forma humana para abençoar e batizar os filhos de Moisés.

                  Aarão Chefe Escoteiro me contou está história. Parei para tomar um refresco já que a tarde estava quente em sua Taberna vazia. Conversa vai conversa vem sentamos em uma varanda com uma linda vista do Mar Morto. Aarão falava baixo, voz rouca e vestia um saiote escocês que até hoje não entendi porque usava ali. Dizem que Escoteiros sabem quem são e não passam despercebidos. Convidou-me para pernoitar ali à noite. Poucos transeuntes sentia falta de bons papos principalmente dos que participavam do movimento escoteiro. Todos os viajantes gostavam dos habitantes de Canaã. Uma cidade tranquila que acolheu muitos deles vindo do norte. Àquela hora da tarde não havia ninguém a vista. Hora da “siesta” rotina de muitos que vieram da Mesopotâmia e que resolveram arranchar na cidade. Aarão era semita, oriundo da Babilônia bem próximo ao Rio Eufrates.

                Aarão não fora Escoteiro. Convidado montou uma Tropa e por pedido dos pais aceitou algumas meninas. Moisés o procurou oferecendo ajuda e foi um baluarte na montagem do grupo em seu início. Inscreveu seus sete filhos e por votação eles decidiram ter sua própria patrulha a qual deram o nome de Garça Branca. Nunca tinha ouvi falar em uma patrulha formada por irmãos e me interessei pela história. Decidiram em Conselho de Patrulha que o Monitor seria eleito conforme a necessidade da atividade dando condições para que cada um pudesse ter a experiência e aprender a ser um líder de patrulha. Eram exemplos para os demais escoteiros. Nunca houve uma altercação, uma discussão, uma palavra áspera, pois levavam ao pé da letra a Lei Escoteira e sem esquecer também a Lei de Moisés. – Sabe amigo – Dizia Aarão, foi numa terça feira, férias escolares, que me pediram para acampar.

                              Moisés aprovou, pois se eles queriam e sabiam o que fazer nada os impediria de acampar. – Aarão – dizia Moisés - Me prometeram que estariam de volta a noitinha do 24 de dezembro, para a missa do galo que frei Kety e Frei Ramsés com mais dois monitores iriam celebrar. Nunca perderam essa missa e Moisés confiava nos seus filhos. Partiram ao alvorecer, ainda com o orvalho caindo nas montanhas do Monte Sinai. O dia prometia. Em fila os habitantes sorriram a vê-los passar cantando o Rataplã. Foi Ruth quem contou como tudo aconteceu depois. Onze da noite do dia 24 de dezembro e não haviam chegado. – Chefe contou Ruth, seguimos pelos Pirineus até a trilha do Monte Carmelo onde montamos o acampamento. Tudo transcorria bem preparávamos as etapas de Primeira Classe e a Correia de Mateiro de João Lucas.

                            Em dado momento sentimos falta de Israel. Isto não era comum. Davi usou seu apito sonoro, sinalizando o S.O.S e nada. Saímos para procurar. João Lucas era mestre em pista. Encontrou uma pegada de Israel. Fomos a todos os lugares possivel. Do alto do Monte Carmelo dava para avistar o Monte Tabor e até o Monte das Oliveiras onde Jesus fez seu sermão da montanha. As pistas eram fáceis de seguir e nada de Israel. À tardinha antes do escurecer voltamos para o acampamento. Thiago chorava baixinho e eu também. Todos não sabiam o que fazer.  João Lucas, Josué e Ismael cabisbaixo também choravam. Davi ajoelhou e começou a rezar. Ajoelhamos com ele. Eles lembravam que ele não queria vir ao acampamento, era o menorzinho dos irmãos. A noite chegou. Não havia fome, não ouve jantar. Não sabíamos o que fazer. Só Deus para nos ajudar.

                     Moisés na praça esperava inquieto a chegada dos filhos. Não queria terminar sua vida assim. Pensou se Deus o abandonara, mas rezou de novo e acreditou que teria ajuda. Nem sempre entendemos principalmente o modo como Deus age. Quando tudo diz que não há solução acontece então os milagres. Moisés amava seus filhos. Ele sabia que sua vida foi repleta de ensinamentos. Ele sabia do modo como Deus o moldou e o fez capaz de criar seus filhos. Ele sorria como se fosse o verdadeiro Moisés das Taboas da Lei. Ele sabia que nunca foi abandonado e mesmo não sendo filho e neto de um rei ele soube criar seus filhos muito bem. Confiava neles, deu a eles os melhores ensinamentos, e uma vida cristã invejável. Onde estariam àquela hora? – Deus! Oh meu Deus! Não posso perdê-los. Fazei de mim seu instrumento, fazei o que quiser, mas traga-os de volta para mim!

                      Os sete jovens ajoelhados em frente à barraca, bem próximo ao Monte Sinai avistaram um imenso vermelhão no céu. Uma estrela enorme que iluminava tudo a sua volta. Descendo a montanha Israel vinha devagar, segurando um cajado e atrás dele viram três velhos pastores montados em camelos. Vestiam túnicas azuis, grandes barbas brancas, e o elevarem no ar até onde estavam. – Um deles falou como um Rei dizendo – Está tudo bem, vão para casa, seu pai os espera na igreja. Thiago, João Lucas, Davi, Josué, Ismael e Ruth abraçaram Israel. Um milagre aconteceu. Ele caiu em uma cascata de pedras e quebrara o joelho. Não podia andar. Os três homens que estavam montados em camelos o socorreram – Disseram para ele: - Vamos Escoteiro, vamos levar você aos seus irmãos. Temos que ir embora, pois Jesus de Nazaré vai nascer! Partiram e lá no céu cantavam: £ “Jesus nasceu. O mundo vai mudar...” £. E foi assim que Melchior, Baltazar e Gaspar partiram para estarem com Jesus.

                     Voltei para casa pensativo. Seria verdadeira a história de Aarão? Perguntei a ele onde morava Moisés e ele sorriu sem me dar resposta. Até hoje me pergunto se poderia haver uma patrulha de irmãos. Não sei. Aarão me disse que sim. Bem quando tudo parece perdido, melhor é procurar refletir o que a gente sente e o que poderá ser. Feliz noite de natal, paz na terra aos homens de boa vontade!

domingo, 15 de dezembro de 2019

Os contos de Natal. Maria.




Os contos de Natal.
Maria.

... - Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá. Quem se nega a castigar seu filho não o ama; quem o ama não hesita em discipliná-lo. – Um conto dos dias atuais de Maria e seu esposo José. Mais um conto de natal. Saudações natalinas.

¶ - Olhe o que foi meu bom José, se apaixonar pela donzela
Dentre todas a mais bela, de toda sua Galileia.

- Nove horas, nuvens escuras cobriam o Bairro de Belém. Maria na janela de sua casinha olhava a rua com um sorriso inocente. Soprava um vento calmo e ela nem imaginava que prenunciava uma forte chuva que já despontava no horizonte. Maria tinha um sorriso maravilhoso. Aos setenta e quatro anos com seus cabelos curtos que um dia foram loiros e hoje de cor metálica parecia uma santa a abençoar os passantes na rua onde morava. Os vizinhos sorriam para ela, todos a conheciam e sabiam que ela sofria falta de memória, não tinha a mente fértil, quase não se lembrava do seu passado e o que aconteceu ontem e só o hoje ainda era lembrado. Ela sabia o que era felicidade, pois demonstrava isto a todo instante. Ainda lembrava quando José saiu para ir trabalhar na marcenaria. José seu marido era para ela tudo na vida. Não lembrava, mas sabia que foram muitos felizes e ainda eram. Uma pequena lembrança de Tiago. Onde ele andava? Foi até o portão. Sempre estava trancado com um cadeado, pois José toda manhã o trancava. Ela não podia sair pela rua. Se isto acontecesse se perderia, pois não tinha mais a mínima noção onde moravam.

¶ - Casar com Debora ou com Sara meu bom José, você podia
E nada disso acontecia, mas você foi amar Maria.

José trabalhava com afinco. Tinha dois aprendizes. Marcenaria pequena, mas muito procurada. Ele era considerado um dos melhores profissionais marceneiros na cidade. Maria para ele era tudo. Sempre a amou desde que a viu pela primeira vez com seu lindo uniforme de Bandeirante. Um azul que nunca mais esqueceu. Ela o olhou e sorriu. O trevo de quatro folhas estava em sua blusa e ele viu que tinha sonhado com ela. Apresentou-se. Ela sorria inocente. Era um amor perfeito. Casaram-se dois anos depois ela ainda com dezoito anos e ele com vinte e um. Seu pedido de continuar como bandeirante foi bem aceito por José. Como negar? Foram cinco anos de casamento para o nascimento de Tiago. Seu único filho. Maria lhe disse que era a mulher mais feliz do mundo. Ele não sabia por que não tiveram mais filhos. Desígnios de Deus? Sua preocupação com Maria era enorme. Precisava trabalhar, mas tinha medo que ela um dia resolvesse passear pelo bairro. Sabia que ela nunca mais iria encontrar o caminho de volta. Ah! Doença que só Deus sabe e podia explicar.

¶ - Você podia simplesmente, ser carpinteiro e trabalhar
Sem nunca ter que se exilar, e se esconder com Maria.

Tiago infeliz nunca teve paz em seu casamento. Ele e Sara nunca conseguiram ter filhos. Sara amarga, pouco conversavam e quando ele achava que estavam em paz os desentendimentos aconteciam. Ela não se perdoava por não ser mãe. Chorava se chamava de desnaturada e muitas outras coisas. Tiago tentou convencê-la a adotar um bebê. Mas ela não queria. A preocupação de Tiago agora era com sua mãe. Seu pai nunca lhe pediu, mas ele sabia que em seus olhos havia a suplica de diariamente levar sua mãe para sua casa até ele voltar. Ele queria, mas Sara não. Eles brigaram tanto que Tiago desistiu. Não seria difícil para ele levar sua mãe todos os dias para sua casa, não era longe e no seu carrinho seria um pulo ir e voltar. Sara dizia: - Ela entra por uma porta e eu saio na outra! Dizer o que? Ele sabia do Alzheimer.

¶ - Você podia simplesmente, ser carpinteiro e trabalhar
Sem nunca ter que se exilar, e se esconder com Maria.

Maria sorriu ao ver o portão aberto. Lembrou-se das reuniões bandeirantes. Correu ao quarto e retirou de uma mala antiga seu uniforme. Estava guardado num Velho bau, mas muito desbotado. Vestiu. O chapeuzinho quase não serviu. Saiu sorrindo pelo portão sem saber para que lado seguir. Nenhum vizinho a viu subindo a rua em passadas simples e calmas. Passou por muitas pessoas que a cumprimentaram. Um sorriso espontâneo brotava em seu rosto. Viu um ponto de ônibus. Pegou o primeiro que passou. Perguntou ao Motorista onde era a reunião da Companhia das Bandeirantes. – Desculpe Dona, mas não sei! – Desceu em uma praça pensando ser a praça onde conheceu José. Alguém deu nela um empurrão. Sentiu várias mãos forçando a retirada de sua bolsa. Lá não tinha nada, nenhum documento. A bolsa estava vazia. Alguém lhe deu um chute e gritou – Velha danada, nem dinheiro tem! Maria sentiu uma dor enorme. Procurou um banco e sentou. O tempo foi passando e a fome chegou. Onde comer? Tinha de voltar para casa, lá ela tinha no forno um “quentado” do jantar de ontem que José deixou.

¶ - Meu bom José você podia, ter muitos filhos com Maria
E teu oficio ensinar, como teu pai sempre fazia.

José recebeu um telefonema. Trabalhava até tarde naquele 24 de dezembro para atender um amigo. Era um policial militar dizendo que sua esposa estava na 45º Delegacia do Bairro do Jaçanã. José levou um choque. Como? Será que tinha se esquecido de trancar o portão? Não se perdoava por isto. Ligou para Tiago que chegou correndo com seu fusquinha. Foram direto para a Delegacia. Maria estava sentava em uma poltrona sorrindo e vestida com seu uniforme bandeirante. Tinha no colo um bebê lindo de olhos azuis. Uma menina de doze ou treze anos também bandeirante estava com ela. – Senhor José! – A bandeirante disse: - Eu a vi na Praça do Bom Jardim, sorrindo com esta criança no colo! Quando vi seu uniforme sabia que era uma coordenadora Bandeirante. Chamei um guarda e fomos para a delegacia. Lá no fundo da sua bolsa tinha um telefone. Era o do Senhor! – E de quem é esta criança? José perguntou. – Ela disse que era sua neta! – disse o delegado. Veja como a criança sorri em seu colo. Ela a chama de Madalena! – José não sabia o que fazer. O delegado disse para levarem a criança. Ele se encarregaria de avisar ao Juizado de Menores.

¶ - Porque sera meu bom José, que esse teu pobre filho um dia
Andou com estranhas ideias, que fizeram chorar Maria.

Na casa de Tiago tudo era festa. Sara não tirava Madalena do colo. Ela sabia que o Juiz daria para ela adotar. Tiago era um marido mais feliz do mundo. José não cabia de contente. Maria só dizia que ganhou uma neta. Uma estrela brilhou no céu. No passado em uma manjedoura Jesus nasceu. Ali naquela casinha uma menina tinha muitos pais que a amavam. Feliz natal, que os sonhos seus se realizem!

- Me lembro às vezes de você, meu bom José, meu pobre amigo
Que dessa vida só queria, ser feliz com sua Maria. Bom José. Nalva Aguiar

sábado, 14 de dezembro de 2019

Contos de natal. E aí Pedrão Pioneiro, nada como um dia após o outro!




Contos de natal.
E aí Pedrão Pioneiro, nada como um dia após o outro!

... - Só dê ouvidos a quem te ama. Não te preocupes com o que acham de ti. O que te salva não é o que os outros andam achando, mas é o que Deus sabe a teu respeito! História de Pedrão Pioneiro que sabia o valor do lema “Servir”. Feliz natal!

♫ “Em uma montanha bem perto do céu, se encontra uma lagoa azul que só a conhecem aqueles que têm a dita de estar em meu clã”!♫

           E quem disse que a vida do Pedrão Pioneiro era fácil? Ele sabia que não, mas como bom Escoteiro que sempre foi enfrentava tudo com um sorriso nos lábios. Enquanto sua mãe cozinhava para a Fábrica de Motores ele podia estudar. Agora não mais. Ela ficara doente e a mandaram embora. Reclamou na justiça e eles recorreram. O advogado disse que poderiam protelar por muitos anos. Ficaram a Deus dará. Ele seu irmão Juventino de seis anos e sua mãe que já estava chegando aos setenta. Pedrão Pioneiro tinha 21 anos e trabalhava em uma loja de calçados. Salário Mínimo e comissão. Tirava uns mil e trezentos por mês. Pagava sua faculdade novecentos. Não dava para a família comer. Teve que trancar a matrícula. O pior aconteceu. Devido dar muita atenção a sua mãe que mal podia andar faltava muito ao serviço e foi demitido. Chorou e implorou ao seu Nonato para ficar. Nada feito. Seu Nonato foi inflexível. O pior que isto aconteceu uma semana antes do natal. Belo presente de Papai Noel pensou. O Clã partira para o Rio de Janeiro. Foram convidados por pioneiros cariocas a passarem o réveillon com eles. Ele não foi. Ir como? Sem dinheiro? Deixar sua família em dificuldade? 

♫ “A sede de riscos que nunca se acaba, as rochas que há a escalar o rio tranquilo que canta e que chora jamais poderei olvidar”. ♫

           Pedrão Pioneiro soube que havia uma vaga na loja de calçados do shopping Sol Nascente. Levantou cedo e partiu. Seu dinheiro acabara e nem para o ônibus tinha mais. Seguiu a pé. Não era longe, menos de doze quilômetros. Quantas vezes ele fez mais que isto nos Escoteiros? Riu com as lembranças. Mas no fundo chorava sem ninguém ver. Ele sabia que só tinham alimentos para mais dois dias. Depois só Deus para ajudar. Quando atravessou a Avenida Rebouças uma multidão correndo. Ele se assustou e ficou em pé em frente a um bar que já havia descerrado suas portas. Vários policiais o agarraram e batendo com seus cassetetes gritavam – “Toma seus Black Bloc filhos da mãe”! Pedrão Pioneiro tinha ouvido pela TV da baderna que faziam. Cruz credo logo ele um Escoteiro, um amante da paz apanhando daquele jeito? Levaram-no preso para o oitavo distrito. Foi jogado em um camburão com mais seis. Um inferno! Não podia se mexer e feriu seus pulsos com a algema que lhe colocaram. Os que estavam com ele logo foram soltos. Na delegacia advogados estavam lá a espera. Ele? Um pobre coitado sem eira e nem beira e nem conversou com o delegado. O levaram para o cadeião de pinheiros. Jogaram-no em uma cela de três por quatro junto com mais vinte presos.

♫ “No alto da serra na gruta escondida, foi lá que eu fiz o meu lar”. “Subindo e descendo com corda ligeira, eu vi o meu clã acampar”.

            “Meu Deus!” rezava Pedrão Pioneiro. Ajuda minha mãe e meu irmão ela está doente e ele só tem seis anos! Pedrão Pioneiro no noticiário das seis apareceu como Chefe dos Black Bloc. – Preso o mais perigoso arruaceiro de São Paulo! Diziam em alto e bom som. Logo ele? Um Escoteiro? Uma pessoa que nunca fez mal a ninguém? Passou mais três dias na cadeia. Todas as noites seus olhos se enchiam de lágrimas a pensar em sua mãe e seu irmão. Dia 24 de dezembro véspera de natal ele foi solto. Esperava-o na Secretaria da Cadeia o Delegado Paulo Santos. Olá Pedrão Pioneiro, o que eles fizeram com você? O delegado Paulo Santos quando ele passou para Escoteiro com onze anos estava nos seniores fazendo a Ponte Pioneira. Pedrão Pioneiro tinha se esquecido dele, mas ele não se esqueceu de Pedrão Pioneiro. Foi ele quem o soltou. Deu uma carona até sua casa e Pedrão Pioneiro não aguentou. Chorou de felicidade em saber que amigos no escotismo são amigos para sempre. A surpresa maior foi ver na porta de sua casa dezenas de Escoteiros e chefes do seu grupo e de outros da redondeza. Eles souberam do acontecido e em nenhum momento acreditaram na acusação. Uma campanha do quilo e o problema da comida de Pedrão e sua família estava resolvido por alguns meses.

♫ “O sol no caminho, a seguir direciona, o vento estimula a andar, paredes e vidros e grandes rochedos, repetem o eco a cantar”! ♫

           Era noite de natal. A mãe de Pedrão Pioneiro fez uma linda ceia. Convidou o Delegado Paulo Santos que ficou por alguns instantes. Tinha de partir para ficar com a família dele. Dois pioneiros que não viajaram para o Rio de Janeiro ficaram com ele até a meia noite. Uma parte resolvida pensou Pedrão Pioneiro. Pelo menos comida eles teriam por alguns meses, mas e depois? Pedrão Pioneiro sorria ao ver o irmão Juventino brincando com amigos. Uma hora da manhã e uma perua parou em sua porta. Pedrão a viu, pois estava no portão vendo o belo céu cheio de estrelas. Viu que era a Perua da Loja de calçados que trabalhava. O próprio “Seu” Nonato desceu e chorando pediu desculpas a Pedrão Pioneiro.

          – Olhe eu fiz um cálculo errado na sua rescisão de contrato. Faltaram doze mil reais e fiz questão de trazê-lo pessoalmente. E quero que volte. Você foi nosso melhor funcionário que já tivemos. “Seu” Nonato, muito obrigado, mas não me tenha como vingativo. Eu agradeço, mas sabe? Com este dinheiro vou abrir na minha garagem uma lojinha de pequenas coisas. Minha mãe vai cuidar e tenho certeza que poderei estudar e voltar a tempo para administrar com ela! E a vida voltou a sorrir para Pedrão Pioneiro. Nada como um dia após o outro!

É melhor não contar, mas Pedrão Pioneiro se formou e hoje é dono de uma grande rede de lojas de calçados. Dizem que têm filiais até nas “Horopas e America”

♫ “Põe tuas mágoas bem no fundo do bornal e sorri”!
O que importa é vencer o mal, mantenha sua alegria,
“Não importa você se zangar, pois o mal vai acabar”! ♫

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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