sábado, 25 de maio de 2013

Mefistófeles, um Demônio trapalhão.

Mefistófeles, um Demônio trapalhão.
(uma deliciosa sátira de ficção, onde os apreciadores do além túmulo podem gostar).

Eu não tenho medo de lobisomens ou hotéis assombrados, eu só tenho medo do que seres humanos reais fazem com outros seres humanos reais.

Walter Jon Williams.


                      Não gosto muito de histórias de terror. Se a vida já é
difícil para que complicar com o além do mal? Mas não era assim que pensava Lascanio dos Anjos. Quando eu o conheci jurei a mim mesmo que era uma figura parecida com aqueles donos de funerárias, com um terninho feito sobre medida, gravata borboleta e um chapéu coco. Bem ele me disse que não. Magro, alto, branco como leite se vangloriava sempre em ter amigos no inferno. Deus meu! Que cara eim? Ele mesmo me disse que seu irmão Funério tinha uma fábrica de esquifes no interior. A cada dia ficava mais rico. - Sabe Chefe qual foi o único negócio que não foi afetado pela crise? Fabrica de caixões. Meu irmão tem uma, é o dono e presidente da Associação dos Bem Felizes Desencarnados. Fatura quase três milhões de dólares por ano. Engraçado que ele me disse um dia em uma reunião de distrito nunca ter conversado com os mortos, mas eu o peguei um dia no maior papo com Mefistófeles a quem ele chamava de demônio trapalhão.

                     Eu tentava ao máximo me desvencilhar dele, mas o danado parecia ter um pacto com o demônio e me descobria sempre quando ia tomar meu chopinho e comer minha empada de camarão com azeitonas pretas. Era eu sentar e ele com aquela cara de cadáver ressuscitado brotava do nada e ficava ali a minha frente sempre dizendo: – Sempre Alerta Chefe! Sentava e sem pedir nada para comer ou beber, lá vinha ele com suas histórias tenebrosas, aterradoras que mexia comigo e muito. Afinal do ponto de ônibus até minha casa eram mais de quinhentos metros sem luz e residências numa trilha dentro de um matagal. Bem eu não era medroso, mas cá pra nós, mexer com o diabo ou cutucar com vara curta a gente sempre se da mal. Isto minha Avó sempre dizia.

                    Naquele dia ele veio com uma conversa enviesada que eu precisava conhecer Mefistófeles um demônio trapalhão e quem sabe dar a ele alguns conselhos sobre o que ele pretendia fazer. Logo eu? Conversar com um capeta da vida? Maldita hora que o deixei há muitos anos atrás a ir conosco em uma jornada a pé de oitenta quilômetros até Ribeirão Vermelho. Doze dias, doze dias sofrido com Lascanio dos Anjos a rir de suas próprias piadas aterradoras. O moço era Sênior e dizia falar com os mortos. A princípio achamos graça, mas depois quando estávamos atravessando um povoado chamado Cruzes dos Mortos Vivos não paramos de correr antes de deixar a cidade para trás.

                  O pior, Lascanio dos Santos ficou lá, conversando com cada alma penada que ali fizera sua morada. Achamos melhor deixá-lo lá onde Judas perdeu as botas e nós não queríamos perder nossa alma. E não que o danado, oito quilômetros mais a frente, nos esperava sentado ao lado de uma cruz de madeira na curva do Rio Menino? Como ele passou na nossa frente eu juro que não sei, mas daí em diante tomei um medo danado dele. Agora insistia que eu fosse ver o tal Mefistófeles. Disse que ele estava sendo perseguido por Baphomet, filho de Caramulhão e sobrinho de Lúcifer. Nem morto meu amigo, nem morto! – Chefe é melhor vir comigo. Se não falar com ele não posso lhe garantir nada. Será perseguido pelo resto da vida! O capeta é vingativo. Putz grila! – Bem, façamos o seguinte, você me pega depois da reunião de sábado, lá pelas sete. Mas lembre-se não posso ficar muito tempo. Tenho compromisso às dez da noite!

                  Sete em ponto, sai da sede pé ante pé tentando fugir do Lascanio e cacilda, lá estava ele me esperando em um carro fúnebre, negro usado para transporte de defuntos. Sempre Alerta Chefe, pé na estrada que Mefistófeles nos espera! Ele não gosta de atrasados. Era o jeito. Fugir não dava. Entrei e atrás um caixão enorme. – Tem defunto? Perguntei. – Tem é o Dagomar Peixoto. Morreu ontem. Alguém o matou cortaram seu pescoço com um machado e tiraram seus dois olhos colocando no lugar limões verdes. Não sei por quê. Prometi levá-lo até Mefistófeles antes que Lúcifer encontra-se sua alma. Ele tinha um carinho enorme pelo Dagomar. Foram amigos de infância.

             – Onde fui me meter? Um escoteiro bem vivido como eu e agora ali no meio da capetada? Chegamos ao Cemitério Flores do Mal que se encontrava escuro feito breu. O grande portão de ferro abriu para nós rangendo como se fossem correntes sendo arrastadas por mil almas do outro mundo. Mefistófeles estava soberbo na porta daquele enorme mausoléu. Um manto vermelho enorme que saia chispa de fogo, calçava enormes botas vermelhas e como sempre o "Velho" e gostoso tridente que todo capeta gosta de carregar. Um moço ainda tinha um belo chapéu vermelho estilo espanhol com uma pena de Abutre do deserto da Morte. Será que o usam no inferno para os que estão lá queimando feitas brasas de Fogo de Conselho?

                 Sem delongas ele me mandou entrar. Dentro pouca iluminação. Duas tochas acesas somente. Um cheiro de enxofre no ar. – Apontou-me um caixão fechado. Sente-se Chefão! Tenho
acompanhado o senhor nas redes sociais. Tenho enorme admiração! – Deus do céu! Quem poderia pensar que os demônios também estão lá no Facebook? – Ele não foi de delongas, entrou logo no assunto – Chefe eu quero organizar um Grupo Escoteiro aqui. Quem quiser participar eu o tirarei do inferno em chamas e nunca mais vai voltar. Ficará aqui em local privilegiado, mas enterrado a sete palmos. Só sai nos dias de reunião. Garanto que muitos vão querer. Quem gosta de fogo no rabo? – O Belzebu era maldoso e falador de palavrões. Precisava tomar cuidado. – Ele continuou – Preciso da sua ajuda nos primeiros três meses enquanto o senhor treina Baphomet, Caramulhão e Belzebu para chefes. Eu ficarei com Diretor Técnico. Se possível quero que os inscreva nos cursos de Formação do Escotismo e claro, iremos fazer o registro e pagar todas as taxas. Não queremos nada de graça! A coisa estava pegando fogo, ou melhor, já queimava há muito tempo. Não tinha saída a não ser dizer sim. Faria minha parte que os membros da direção nacional fizessem a deles. Eles bem que mereciam uma vista desta turma de Belzebus do inferno. Que se danassem!

                 Durante três meses fui lá ao Cemitério Flores do Mal. Fiz o que pude. Os três capetas foram bem treinados. Claro que davam risadas quando falava para eles que na promessa eles tinham de prometer a Deus e a pátria. Eles diziam sim com os dedos cruzados. Nunca vi tanto defunto na fila no dia da inscrição. Cada um fedia mais que o outro e davam risadas enormes de satisfação. E depois dizem que o Escoteiro é limpo de corpo e alma. Será que eles vão cumprir este artigo? Pensei comigo eles chegando a uma atividade distrital regional ou nacional. Será que iriam despertar surpresas nos demais participantes? Consegui a custos com o Comissário Distrital Malevides uma autorização provisória. Ele riu de mim quando falei o que seria, mas ao receber a visita de Mefistófeles ele nem pestanejou. Sugeri a Mefistófeles que levasse o registro pessoalmente em uma reunião da direção regional. Ninguém ia dizer não. Soube depois que ele levou dois diamantes enormes para eles e logo recebeu de uma só vez a Insígnia de Madeira, os quatro tacos para DCIM e o Tapir de Prata. Nada como um bom capeta endinheirado para entrar de cara na turma. (brincadeirinha – risos).

                 Uma noite bebericava meu chopinho e me deliciava com três empadinhas de camarão com azeitonas pretas quando brotou do nada o meu amigo Lascanio dos Anjos. – Cacilda, o homem, ou melhor, o capeta não me deixava em paz. - Chefe, ele disse – Mefistófeles agradece sua colaboração. Disse que o Senhor pode contar com ele nesta vida e algum dia morrer será bem recebido nas “prefundas dos infernos”. Não precisa ir mais lá ao Cemitério Flores do Mal. Ele manda avisar ao Senhor quando todos forem fazer a promessa. Me garantiu que será uma festa do mal para ninguém botar defeito. Em cada ponto do universo onde houver um capeta ele será convidado. Ele me disse que estarão presentes vários políticos que se aliaram com ele aqui na terra. Senadores, deputados, ministros e até disse que teríamos uma surpresa. Um ex-presidente também viria. Mandou montar varias arquibancadas vermelhas com mais de cinco mil lugares, com grandes fogueiras acesas e queimando sem parar. Todos os grandes cantores que morreram e que estão lá no inferno irão participar. Será o maior show musical já realizado por Belzebu, o rei dos capetas.

                 E ele continuou - Virão vários dirigentes da região e da nacional. Já foram notificados. Quem não for se verá com ele no futuro. Será uma grande festa na inauguração do Grupo Escoteiro Satã de Satanás. Ele mesmo o Belzebu o rei dos capetas e sua corja estarão presentes. Ele vai presentear a cada dirigente presente com a Ordem dos Capetas do Mal. Cada um vai receber também um tridente vermelho com um dispositivo para sair chamas quando acionados. Poucos receberam até hoje. Eles são privilegiados. Ele acha que eles vão gostar! Disseram para ele que tem muitos dirigentes que adoram uma medalhazinha! Ele gostou muito do Senhor. Já mandou fazer uma medalha especial. O senhor vai ser o único a receber. A Ordem da Gran Cruz Capetícia. Disse que não precisa ter medo. Quando na vida se sentir no aperto é só gritar: - Capeta dos Infernos! E logo alguém aparece para socorrê-lo. E melhor, se ao desencarnar não o levarem para uma gostosa colônia dos altos espíritos do Senhor (ele não falava Deus e nem Jesus Cristo) que pode ficar tranquilo. Sempre haverá uma casinha para o Senhor e de graça nas “prefundas do inferno”!

                 Sabe meus amigos. A partir daquele dia passei a rezar de manhã, à tarde e a noite. Levantava de madrugada e rezava de novo. Olhe que conheço muito de escotismo. Já vi tantas coisas que não me surpreenderam. Agora escotismo em cemitérios e dirigidos pelo povo do mal não. Desta turma quero distância. Que Deus me proteja! E por favor, esqueçam-se de me falar um dia que fui para o tal Grande Acampamento! E se tudo isto foi um sonho, por favor, nunca mais quero sonhar com tal história. De moradores do inferno eu quero distância! Nem sei bem o que tem lá! Pai nosso, que estais no céu...

As ideias que arrastam os povos não passam, geralmente, de ilusórios fantasmas; todavia, quando estes fantasmas contendem, devastam o mundo e cavam abismos de ruínas e de desolação.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Lendas escoteiras. Judas... Da galileia.





"Diga-me com quem andas e dir-te-ei [que língua, a nossa!] quem és. Pois é: Judas andava com Cristo. Cristo andava com Judas"

Lendas escoteiras.
Judas... Da galileia.

                  Existem acasos e ocasos. Ocasos porque foi seguindo um belo por do sol e acaso porque sem querer fui parar em Galileia. Don Janvier de Waldívian me procurou um dia. Osvaldo eu estou precisando achar bons curtumes para me fornecer boas “vaquetas” você sabe, aqueles couros curtidos e preparados à mão. São para calçados finos de uma fábrica em Perúgia na Itália. Disseram-me que são calçados especiais e estão à procura de bons couros. Como sócios podemos ganhar algum. Ideia na cabeça pé no caminho e lá fui eu por informações encontrar o Curtume do Salgado em Tainhomim. Na época tinha uma vespa que mais quebrava que andava. Disseram-me que não era longe, uns duzentos e trinta quilômetros de estrada de chão batido. Isto se fosse pela serra da Bodoqueira. Quatro horas depois a pobre da vespa começou a pipocar. Vi uma estradinha pequena e uma placa – Galileia, seis quilômetros – A vespa aguentou firme até lá. Anoitecia. Cidadezinha deserta. Um guardinha me mostrou a pensão da Dona Inês. Melhor pernoitar. Amanhã consigo algum eletricista para ver o que tem a vespinha.

               Não vi a Dona Inês. Um garoto de uns quinze anos me atendeu. Um quartinho simples e disse-me que o jantar seria até às oito da noite. Banho no chuveiro do corredor, e lá fui eu para o restaurante. Pequeno, oito ou dez mesas. Apenas eu de hospede na hora. Sentei e logo trouxeram uns paizinhos deliciosos. Depois uma sopa de cebola estupenda. Ainda trouxeram um arroz solto, feijão preto e costelinhas de porco frita com torresmo. Deus do céu! Eram quase oito da noite e aquele manjar dos deuses iriam me fazer mal e muito mal. Mas dizem que escoteiros são gulosos e não medem as consequências. Comia gulosamente bebericando uma cervejinha e uma senhora escura, gorda, cabelos presos por um lenço azul e de uma simpatia tremenda sentou-se ao meu lado. – Olá, sou a Inês. Seja bem vindo a minha humilde pensão! Simpática. Muito. – Já conhecias Galileia? – Não eu disse. – Aqui já foi uma bela cidade. Chegamos a ter mais de trinta mil habitantes. Hoje? – Nem oito mil e a cada dia mais e mais moradores se mudando.

                 - Fiquei ali ouvindo sua história sobre a cidade. – Olhe, ela disse – A mais de quarenta anos Galileia crescia a olhos vistos. Tínhamos quatro olarias, um enorme curtume e o Prefeito pretendia montar uma indústria têxtil e uma malharia. Foi nesta época que Judas da Galileia nasceu. A Parteira saiu correndo ao ver a marca de corda em seu pescoço. Seus pais arregalaram os olhos. Logo o povo todo da cidade sabia. O tabelião Juventino benzeu o menino, mas aceitou registrá-lo como Judas da Galileia. O porquê sua mãe escolheu este nome ninguém sabia. Judas cresceu se escondendo nas sombras da cidade. A meninada quando o via saia correndo atrás gritando Judas! Judas! Traidor de Jesus! – Quando ele fez dezesseis anos um dia na Rua do Caroço ele parou – Virou para a molecada, botou a língua para fora, dizem alguns que mais de meio metro e deu um urro tão grande que todos correram como corre o diabo da cruz. Deste dia em diante ele andava no meio da rua e ninguém aparecia nem para olhá-lo. As janelas fechavam a sua passagem.

                   Quando ele fez vinte anos queria ir embora da cidade. Não conseguia emprego. Uma tarde uma turma de escoteiros chegou à cidade de bicicleta. Eram uns doze aparentando quinze a dezessete anos. Armaram barracas no campinho do Zé das Coisas e atraíram atenção de boa parte da meninada. Judas da Galileia também foi lá. Um dos escoteiros o chamou para jantar com eles. Não perguntaram da marca de seu pescoço, não perguntaram nada. O trataram muito bem. Foi à primeira vez em sua vida que Judas da Galileia foi bem tratado. Até seus pais não conversavam com ele. Judas da Galileia chorou muito quando eles foram embora. Foram dois dias os mais lindos que teve em sua vida. Deixaram com ele dois livros que disseram ser do fundador. Escotismo para Rapazes e o Guia do Chefe Escoteiro. Judas da Galileia ficou uma semana lendo os livros. Leu uma, duas, três e até quatro vezes.

                  Judas da Galileia queria ser Escoteiro. Sonhava ser Escoteiro. Na sua cidade seria difícil. Não tinha grupo e ninguém interessado em organizar um. Só havia uma solução. Ele mesmo fundar um. Mas como? – Dona Inês me cativava com sua narrativa. Era uma emérita contadora de histórias. Sabia como falar, como mostrar e seus gestos eram perfeitos. – Sabe Seu Osvaldo, eu nunca me aproximei de Judas da Galileia. Eu tinha medo. Achava que ele podia ser o próprio Judas reencarnado. O traidor de Jesus. Mas ele me procurou um dia. Olhou-me com uns olhos tão chorosos que não pude dizer não. – Pediu se meu filho o Florindo podia participar. Chamei florindo e ele de cabeça baixa concordou. Outros pais ficaram sabendo. Ele conseguiu oito meninos. Andava com eles para todo lado. Marchando, fazendo acampamentos, fazendo nós, sinais, tinham umas bandeirolas que se divertiam na praça e assustar as moçoilas com os recados que iam e viam dos quatro cantos da cidade.

                 - Lembro bem  que foi em um domingo a tarde que Anselmo Três Dedos chegou à cidade com mais de vinte bandidos. Cercaram tudo. Prenderam o delegado, o prefeito, o juiz e mais oito ordenanças na cadeia local. Vários bandidos deram ordens para ninguém sair de casa. Se uma janela se abrisse eles entravam e matavam todo mundo. Um medo geral. O gerente do Banco do Brasil foi obrigado a abrir a agencia e o cofre. Foi nesta hora que Judas da Galileia adentrou a cidade com seus oitos escoteiros vindo de um acampamento. Notou a movimentação dos bandidos. Mandou os escoteiros correrem para suas casas. Anselmo Três Dedos o viu parado em frente à fonte da praça. Gritou para ele correr. Ele não correu. Devagar com seu olhar mortífero se dirigiu até a onde estava Anselmo Três Dedos. Colocou a mão em sua testa. Anselmo gritou. Um grito horrível. Mesmo assim puxou o gatilho do seu quarenta e cinco. Seis tiros. Judas da Galileia continuou imóvel. Anselmo Três dedos caiu morto. Parecia que um raio o matou. Estava queimado feito carvão.

                        Coloquei os braços na mesa. Parei de comer. Olhava sem tirar os olhos de Dona Inês. – Ela continua séria, contando sua história infernal. – Os bandidos que assistiram aquilo saíram correndo da cidade. Não ficou ninguém. Judas da Galileia foi devagar até a praça e sentou ali, naquele banco amarelo. – Olhei pela janela e vi o banco – Todos os políticos vieram abraçar Judas da Galileia. Mas ele estava sentado, calado, de olhos abertos e morto. Não havia mancha de sangue nos buracos das balas. Só na marca da corda de seu pescoço escorria sangue. Ninguém mexeu no corpo. No dia seguinte o corpo desapareceu. Ninguém nunca mais soube de nada. – Parecia que uma praga caiu sobre a cidade. A cada mês, a cada ano famílias e famílias iam embora. Hoje a cidade morreu. Aqui não se vê alegria, ninguém brinca ninguém canta. Dizem e eu posso afirmar que a noite sempre está lá no banco da praça, o mesmo amarelo, Judas da Galileia. Fica lá hora sem se mexer. De vez em quando parece que se ouve um tal de Rataplã cantado com voz rouca.

                 Ela se calou. Olhei para a praça. No banco amarelo vi um vulto. De uniforme caqui e chapéu de três bicos. Assustei-me. Sai correndo em direção à praça. Precisava ver de perto. No banco não tinha ninguém. Voltei e ouvi baixinho alguém cantando o Rataplã! De novo não vi ninguém. Dormi pensando em tudo aquilo. No dia seguinte Joel Boca Torta arrumou minha vespa. Parti sem dar adeus a ninguém em Galileia. Nem a Dona Inês. Perguntei por ela ao menino porteiro. – Minha mãe morreu há muito tempo ele disse. Aqui só minha Vó e minha Tia. Falar mais o que? Ainda bem que fiz bons negócios em Tainhomim. Nunca mais voltei em Galileia. Outro dia procurei no mapa. Nada. Olhei no Google, nada. Mas acreditem, havia um Judas da Galileia. Lá constava que era Escoteiro no céu. Foi perdoado e agora faz parte da tropa do além. Deus me livre. Que ele seja feliz e não venha à noite cantar para mim o Rataplã!  
     
"Se no passado não crucificaram "Judas" porque hoje fazemos isso com nossos irmãos ?


segunda-feira, 29 de abril de 2013

A grande festa de Lagoa dos Açores. O Escoteiro Chefe lusitano vai chegar!


As pessoas tomam caminhos diferentes em busca da felicidade e da satisfação. O fato de que o caminho de alguém não coincida com o seu não quer dizer que vocês se perderam. (H. Jackson Browne)

A grande festa de Lagoa dos Açores.
O Escoteiro Chefe lusitano vai chegar!

                     O boato correu de boca em boca em Lagoa dos Açores. O Escoteiro Chefe de Portugal vinha ao Brasil! Mas precisamente em nossa cidade. Um clima de festa tomou conta. Ninguém sabia quem contou e como souberam. Dizem, ou melhor, dona Flancácia quem sabia de tudo quem contou para dona Naninha que contou para dona Bucycleide, que contou para dona Pamonia... Bem isto não importa. Afinal devia ser uma figura importante. O Brasil não tem Escoteiro Chefe e eles os portugueses tem. Maravilha. Acho que foi Tumenodes da venda Dom Cabral quem disse que ele era Duque. Descendente do Marques de Pombal. Mas qual o nome dele? Que dia ia chegar? Doutor Macbeti o prefeito mandou chamar o Delegado Pancrácio, Dona Flancácia, Doutor Jacumé o Juiz de Direito e os Chefes dos Grupos escoteiros da cidade. Uma grande reunião foi feita. Cada um ficou responsável por uma responsabilidade.

                 Lagoa dos Açores passava conforme o último senso de trinta e cinco mil habitantes. Foi fundada em mil novecentos e cinco por Don Panchito Das Torres Altas, um português que aqui chegou com uma mão na  frente e outra atrás, mas logo enricou. Seus patrícios vieram em peso. Lagoa dos Açores pela sua pujança em produzir café de primeira qualidade, teve o privilegio de receber a visita do Presidente da Republica o Doutor Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca. Ninguém nunca soube dizer o que ele foi fazer lá. Dizem que foi a mando de Don Panchito. Será? Mas isto ninguém perguntou e nem se interessou. Só sabiam que ele prometera a ferrovia até a cidade. Foi uma festa quando a Estrada de Ferro Leopoldina Railway mandou o primeiro comboio com a “Jamiloca” a primeira Maria Fumaça a aportar na Estação Linda Coimbra. Soltaram foguetes, Bandas de Musica, danças, desfiles e uma “comidaria”  que durou mais de três dias. Agora sim, podia-se ir a capital em apenas vinte e duas horas e dormindo! Havia vagões dormitórios, um luxo que poucas cidades tinham.

                Seu Samuel Ramalho Ramires Ramos, o mais antigo padeiro de Lagoa dos Açores dava risadas o dia inteiro. – Um patrício! Graças a Deus! Se  for um Duque vou dar a ele uma corrente de ouro de São Fidelis. Chefe Micaleide Soraia convidou os chefes de todos os grupos escoteiros para uma reunião. Lagoa dos Açores se orgulhava dos seus seis grupos escoteiros. Todos irmãos. Eram dois da UEB, dois da FET e dois da AEBP. Dois Pastores planejavam criar no Templo Evangélico da Rua Mascarenhas um grupo de desbravadores. Quem viessem. Seriam bem vindos. A cidade poderia ser chamada de cidade escoteira. Quase todas as autoridades foram ou participaram por pouco ou muito tempo em algum grupo escoteiro. Nada faltava para eles. Todas as contribuições eram religiosamente dividas entre os seis. A verba da prefeitura era gorda. Nunca faltou.

                Os chefes reuniram-se no domingo no Theatro Municipal Don Panchito. Pena que ha mais de dez anos nada se apresentou no Theatro, mas Totonho o vigia o mantinha limpo e bem arrumado. Estavam presentes mais de oitenta chefes. Cada grupo esbanjava seus voluntários que sofreram para ser aceitos. Não era qualquer um que podia participar da equipe de chefes. Diziam, não posso afirmar que muitos davam boas gorjetas para serem aceitos. Chefe Ronsato falava pelos AEBP. Chefe Jarisol pelos FET e o Chefe Micaleide pelos UEB. Uma discussão gostosa. O que fazer – como fazer – quando fazer e quem vai fazer. Um esboço do programa foi levado ao Doutor Macbeti o prefeito. Ele olhou, pegou um enorme carimbo, molhou com tinta, deu uma forte carimbada e disse: - Aprovado! Moçoilas corriam as ruas de Lagoa dos Açores para em grupo enfeitarem a cidade de bandeirolas – Qual a cor da Bandeira de Portugal? Vermelho, verde, amarelo, azul, branco e preto disse o Professor Arquimomedes o sábio da cidade.

               Pitito Modinha era um escroque. Varias vezes foi preso por enganar os outros. No fundo não era um mau sujeito. Afinal seus pais foram os maiores fraudadores e vigaristas que o estado conheceu. Dizem que até hoje estão no xilindró na Ilha de Alcatraz. Isto mesmo. Tentaram enganar o famoso General Douglas Mac Arthur um americano e se danaram. Pitito Modinha nunca matou ninguém. Enganar sim. Afinal para que trabalhar? Ele dizia. Ria quando era preso e o delegado Caroço de Manga dava uma prensa nele. Pitito mude de vida. Um dia alguém vai te dar um balaço bem nas “orêias” o tiro vai entrar em uma e sair cheio de cera na outra para não dizer outra coisa. Pitito fingia que ia mudar, mas ao entrar na cela sua velha conhecida dizia – Enquanto houver otário São Judas não anda a pé. – O delegado ria e dizia - São Jorge Pitito, São Jorge! Putz! Não interessa. E ficava cinco trinta dias preso. Uma vez ficou  um ano atrás das grades. Pitito Modinha leu a noticia quando cortava o cabelo na Barbearia do Carioto Cariado quando pegou um jornal velho e leu – Lagoa dos Açores vai entrar em festa por três dias. Vai chegar à cidade em julho de 1959 o Marquês de Pombal, Conde de Caravelas, Infante Duque de Bragança, Príncipe Regente, Grão-prior do Crato, Escoteiro Chefe Dom Manuel Pero Vaz de Caminha de Portugal e do mundo o maior Escoteiro Chefe de todos os tempos!

               Minino! Meu Deus! Deu certo! Desta vez vou enricar mesmo. Olhou no espelho da barbearia, sorriu e disse: Pitito Modinha você é bom cara, muito bom! - Tudo começou quando ele na biblioteca atrás do fazendeiro Bom Senso a que queria surrupiar a carteira, sentou em uma cadeira num canto e viu na mesa um livro escoteiro de Portugal. Viu a foto de um lusitano a quem chamavam Escoteiro Chefe. Pitito não era bobo. Correu as páginas do inicio ao fim. Leu tudo sobre os escoteiros da terrinha. Cacilda! Desta vai vou acender charuto com nota de cem! Bolou um plano. Ficou dias pensando. Prá dar certo tenho de fazer um uniforme, mas eles lá da terrinha usam outro. Melhor fazer igual o deles. Calça marrom, sapato preto, camisa marrom clara e um chapéu. Não vai ser mole. Mas tenho tempo. Procurou Praquitinha sua noiva. - Me empresta um dinheiro? Vais receber em dobro. Praquitinha sabia que não ia receber nada de volta mais ela gostava de Pitito. Não ia negar.

                  Enviou um telegrama para Seu Samuel Ramalho Ramires Ramos da padaria. Daí as viúvas lavadeiras, era um pulo. Logo a cidade toda sabia. A escoteirada ficaria alvoraçada e assim o plano começou. – Mais um telegrama e Seu Samuel correu até a prefeitura da cidade. Seu prefeito o Doutor Makbeti suava, gordo, barrigudo sonhava que agora Lagoa dos Açores seria conhecida “nos estrangeiros” -  O telegrama dizia - Chego no dia nove de julho próximo. Irei só. Quero conhecer a cidade dos meus conterrâneos os escoteiros. Diga a eles que vou levar uma grande foto do nosso
Fundador. Lordi Badi Pawell. As ruas enfeitadas. A praça um brinco. A escoteirada pintou tudo. Não havia um toco de cigarro jogado. As filhas de Maria ensaiaram uma canção Escoteira. Zé Calango dos Vicentinos fez uma poesia. Nos grupos escoteiros  uma preparação enorme. – Todos de luvas brancas. Treinaram evolução, a banda, a turma da bandeira, Todos iriam com suas mochilas e montaram em cima de cinco caminhões diversas pioneiras, pois sabiam que os português eram bambas no assunto.

                 Cilene Maria era lobinha. Quieta. Quase não falava. Diziam que era uma menina possuída. Só porque lia tudo que encontrava desde os dois anos. Na escola com oito já tinha feito o ginásio. Nos lobinhos adorava. Sentia-se bem na matilha azul. Poderia ser prima, mas achou melhor não. Evitava ler os livros escoteiros para que os outros não se sentissem humilhados. Ela não queria isto. Queria que eles a considerassem uma irmã, uma amiga que gostava de todos eles. Quando iam acantonar ela ficava encantada com as árvores, com a grama, com os lagos e riachos de águas frias e gostosas. Adorava ver  por e o nascer do sol. Conhecia uma por uma as constelações no céu. Naquele sábado a Akelá Juely comentou sobre a honra que todos teriam em conhecer o Escoteiro Chefe de Portugal. Contou para os lobos que ele lá em Portugal era querido, todos faziam continência, era carregado quando visitava os grupos escoteiros, enfim era um Escoteiro inigualável.

                 Cilene Maria ficou desconfiada. Sua mente rebuscava na memoria todos os livros escoteiros que lera. Sabia que havia não só uma, mas três associações escoteiras em Portugal. De qual ele representava? Sabia também que ninguém tinha mais esta enormidade de nome como o dele. -  Marquês de Pombal, Conde de Caravelas, Infante Duque de Bragança, Príncipe Regente. Grão-prior do Crato, Escoteiro Chefe Dom Manuel Pero Vaz de Caminha de Portugal e do mundo. Impossível. Só reis tinham tanto nome. E ele misturava tudo. Conde com Duque, com infante, com príncipe regente que só Dom Pedro II foi quando seu pai voltou para Portugal. Não estava certo. Muita coisa errada. Soube que ele o Escoteiro Chefe mandou varias fotos de Baden Powell que ele chamava de Lordi Badi Pawell. Ele era analfabeto? Impossível! E a foto? Não tinha nada do fundador. Era de um homem magrelo, novo, cabelo preto, e uma das fotos sorrindo. Era banguelo. Faltava dois dentes na frente. Aquele não era e nunca foi Lord Baden Powell.

                 Cilene Maria procurou a Akelá. Ela não acreditou. Procurou o Chefe  Micaleide Soraia. Ele também duvidou. Ninguém acreditava nela. Sabia que o talzinho que se fazia passar por Escoteiro Chefe era um enganador. Procurou então o Seu Samuel Ramalho Ramires Ramos da padaria. Ele a ouviu calmamente pensando. Também tinha duvidado do primeiro telegrama. O que ele vinha fazer aqui? Porque não na capital? Disse a Cilene Maria que ia investigar. Passou um telegrama para seu irmão em Coimbra e pediu que investigasse. Cinco dias mais tarde chegou à resposta. Chamou Cilene Maria e mostrou o que seu irmão escreveu. Ela também havia investigado a foto do tal Lordi Badi Pawell. Agora era armar um plano. O delegado entrou no meio. O dia chegou!

                      O Trem serpenteava na beira do Rio Luar do Sertão. Em cada curva o Seu Japinondas o maquinista apitava. Na beira da linha a molecada corria com o trem. Uma fumaceira danada na chaminé anunciava a modernidade. Ele sabia que uma alta autoridade estava viajando no seu trem. Seu bisavó Tutunael sempre contou quando era maquinista que trouxe muitas “otoridades” para Lagoa dos Açores. Agora ele podia contar para seus netos que também carregou um. Pitito Modinha viajava de Primeira Classe. Com seu uniforme de Escoteiro lusitano e seu chapéu que custou a encontrar para comprar todos o tratavam como um rei. Quando levantava todos levantavam. Mandou fazer um lindo lenço dourado. Amarelo, verde e um pouco de azul. Comprou um anel grande de brilhantes para prender o lenço. Na mala alguns presentes que conseguiu comprar nas mãos do Caixeiro Paraguaise.

                         Quando atravessaram à ponte do Rio Luar do Sertão ele viu pela janela a cidade. Riu de leve. Depois riu mais. Agora gargalhava. Disse para sí baixinho – Pitito Modinha, você é brilhante. Será o maior golpe de todos os tempos. Desta vez vou encher as burras de dinheiro. Praquitinha iria saber quem ele era. Iria visitar a “horopa” com ela. Ela ia ver a Torri efailde. O Arco do Truque. Contaram para ele maravilhas do tal Palácio das Vertentes. Iria mostrar para ela o Bigue Bend. E depois nas Américas ela ia ver a Estatueta qui liberta tamem. Eles iriam falar gringo, falar françoá, ingreis. Seriam recebidos por reis e rainhas e quem sabe teriam um tituro de pobresa? Já pensou? - Lord Duque Pitito Modinha? Misse Duquesa de Orleanas dona Praquitinha Castiana? E assim ele sonhava. O trem apitando. A cidade chegando. Ele sorrindo de oreia a orêia.

                Olhou pela janela, a estação apinhada de gente. Uma escoteirada sem tamanho. Todo mundo ali para vê-lo. Pensou de novo consigo mesmo. Pau que nasce torno não tem jeito morre torno. Ops! Nada disto. Pau que nasce torto e é sabidão e morre ricasso. E ria, e ria. O trem parou. Silêncio. E a Banda que pediu? Pegou sua mala, desceu. Ninguém bateu palma. Cacilda, o que houve? Onde eu errei? Meu uniforme está impecável aprendi a fazer o nó de escoita e barso pelo seio. Até sei fazer a saudação deles e eles estão me olhando deste jeito? Uma mão bateu em seu ombro. – Olá Pitito Modinha. Quanto tempo eim? Meu Deus! Era a voz do delegado Caroço de Manga! Uma longa salva de palmas. O delegado agradeceu. Colocou as algemas em Pitito Modinha. Entraram de novo no trem. Uma vaia sem tamanho.

                   Por muitos anos Pitito Modinha foi cantado em prosa em todos os fogos de conselhos que a cidade conheceu. Cilene Maria recebeu todas as honras possíveis. Não só do Grupo Escoteiro, mas de toda a cidade. Ela dizia que não tinha feito mais que sua obrigação, era lobinha, mas não dizem que os escoteiros estão Sempre Alerta? Alguém disse para ela - SAPs Cilene! Valeu! SAPs? Que isto? Não é Sempre Alerta? Risos. Escoteiros, ah Escoteiros. Estão aí por todo lado, observando, olhando, escolhendo, sorrindo, apertando mãos dos amigos e irmãos, e claro sabendo sempre o que acontece em sua volta. Eles são espertos, bons meninos e meninas, vivendo a lei e a promessa como um dia juraram em suas promessas. Eles estão sempre alerta sempre e nunca SAPs sempre. Mais risos.  E eu? Eu nunca esqueço Pitito Modinha e o que disse o meu amigo Dalai lama: - “Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”!

  Quem pergunta permanece ignorante durante somente cinco minutos, mas quem não pergunta será um ignorante para sempre. (provérbio chinês)


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Ei você? Ainda não é Escoteiro?




Ei você? Ainda não é Escoteiro?

Hoje acordei nostálgico. Vivo falando e comentando sobre o movimento escoteiro. Sempre foi assim desde que entrei nos longínquos anos de mil novecentos e quarenta e sete. Passaram-se muitos anos. Eu ali firme. Setenta e dois anos! Tanto tempo assim? Tantas mudanças! Mas o amor ao escotismo? Continua o mesmo. Isto faz parte de todo nós que nos orgulhamos do que somos. Leio aqui e ali alguém dizendo que “não tenho vergonha de ser Escoteiro!”. Vergonha? – Nunca! Eu tenho é orgulho e alardeio aos quatros ventos: - “Escoteiros de todo o mundo! Que os ventos do norte, que os ventos do sul do leste e do oeste, façam com que eu e todos os meus amigos escoteiros possam ir como os pássaros a buscar o sol na montanha desconhecida”. Será lá que iremos mais e mais nos orgulhar do nosso passado escoteiro.
Sempre quando leio aqui algum parecido, dando a impressão que somos um movimento arredio, gosto de publicar o artigo que fiz há muitos e muitos anos. Este é o escotismo que amo e tenho certeza todos os escoteiros do mundo!

Amigo, o que é isto? Você é Escoteiro? - Não diga!
    
       Ah! Meu amigo sou sim, com muito orgulho. Estou aprendendo a ser alguém, para que todos que me amam possam um dia orgulhar. Aprendo que o caráter é importante em cada um de nós. Que ser leal é ponto de honra, e minha palavra? Sim é sagrada. Estou aprendendo que a honra faz parte dos honestos. Que a ética é mais que tudo. Aprendo tantas coisas que cada dia que passa mais me orgulho de pertencer ao escotismo.

       Acho que você não sabe, mas são tantas coisas maravilhosas que acontecem comigo, que hoje sei que a felicidade pode ser alcançada e eu a alcancei. Sou um privilegiado por Deus em estar aqui. Sabe, já vi um céu estrelado deitado na relva, em volta de uma fogueira cheia de amigos e amigas. Ali vi as constelações, um cometa que passa, e isso mais e mais me leva a certeza que o escoteiro é puro nos seus pensamentos, nas suas palavras e nas suas ações.

      Gostaria que um dia, pudesse junto comigo dormir sob as estrelas! Ver o sol nascer e ele se pôr ainda vermelho no horizonte deixando uma marca profunda em nossos corações. Quem sabe um dia vai poder saborear o cheiro da terra molhada, do perfume das flores silvestres, do som maravilhoso da passarada, do piar da coruja em um carvalho qualquer. Ver o lenho crepitando em uma bela fogueira onde todos riem, cantam e vão vendo as fagulhas subirem aos céus, languidas e serenas até que a aragem leva-as para longe.

      Olhe, é lindo ser do escoteiro. Acho que é um privilégio de poucos. Quando vejo a chuva caindo em uma floresta, sinto o som imperdível aos ouvidos de um velho mateiro. Saiba que temos uma ternura imensa com a natureza. Para nós é fácil encontrar o Norte e o Sul, seguir a sotavento, sentir o vento no rosto, descobrir as flores desabrochando nas campinas verdejante. É, podemos tirar o calçado e molhar os pés nas águas geladas de um belo riacho. Sentar e tirar uma soneca em uma grande e frondosa árvore e podemos olhar em volta e sentir o cheiro da relva cujo vento sopra com amor em nossa face. E nada mais maravilhoso que chegar ao cume de uma montanha e ver o horizonte! Um espetáculo imperdível meu amigo!

      Mas olhe, não sei se terá a oportunidade de ter o que temos. Aqui aprendemos que o medo é próprio dos fracos. E é preciso ter coragem e amor para conviver em uma vida saudável junto dos demais escoteiros. Se um dia quiser, quem sabe, você pode até entrar em um Grupo Escoteiro. Mas lembro a você que qualquer um pode entrar, mas é importante saber que ser escoteiro não é para qualquer um!

     Se resolver mesmo, seja bem vindo. Espero que você seja mais um irmão de tantos milhões espalhados pelo mundo. E quando for, vai saber que o nosso fundador Baden Powell disse que aqui, somente os valentes entre os valentes se saúdam com a mão esquerda. E pode acreditar que você será muito bem recebido, pois nós escoteiros somos amigos de todos e irmão dos demais escoteiros. Seja bem vindo meu amigo!

Coloque sua mochila, cante uma canção, dê um belo sorriso e parta conosco nesta grande aventura!

domingo, 24 de março de 2013

Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso.


Só existe uma coisa importante em nossas vidas: viver a nossa lenda pessoal,
a missão que nos foi destinada. Mas sempre terminamos nos sobrecarregando
de ocupações inúteis, que acabam por destruir nossos sonhos (Maktub).

Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso.

“Terra do belo Olmeiro, lar do castor,
Lá onde o alce airoso, é Senhor,
Em um lago azul rochoso, eu voltarei de novo”!

                Era uma linda tarde de outono, mas Lisabel estava cansada. Afinal não era para menos. Quinze lobinhos ali soltos naquele sitio e só ela como responsável daria dor de cabeça em qualquer um. Lorraine e Javier na última hora disseram que só poderiam chegar no sábado à noite. Desmarcar o Acantonamento era impossível. Tudo tinha sido preparado. E lá foi Lisabel a enfrentar o desafio. Chegaram e logo arrancharam no Sitio Mimoso. Quinze lobos? Meu Deus, agora pareciam cem! Lisabel gritava chamando e logo eles corriam para todo lado. Conseguiu uma árvore próxima a casa e lá arvorou a Bandeira Nacional. Tinha no programa um estoque de jogos, brincadeiras, canções tudo que uma boa atividade deste porte requer. Mas não estava sendo fácil. Não mesmo. Ainda bem que dona Mercês mãe do Gustavo foi para a cozinha. Ela dava mais trabalho que seu filho. Queria ficar junto dele para protegê-lo, enfim uma mãe super-protetora.

              Após o almoço Lisabel reuniu os lobos e foram até próximo a um pequeno lago, e ao pé de um lindo Cajueiro, sentaram. Os lobinhos inquietos. Alguma coisa fazia ondas sobre as águas do lago. Lisabel não acreditou. Era um castor que logo mergulhou. Isto mesmo. Só se o proprietário do sitio o tivesse levado. Não havia no Brasil. Ela começou a cantar com eles uma canção. “A promessa de Mowgly”. Fizeram um jogo de faz de conta. Viu que a tarde se aproximava. Ainda bem. Logo seus assistentes chegariam e ela poderia descansar. Uma forte dor de cabeça. Os lobos sentaram em sua volta. Ia começar a contar uma história. Não lembrava. Assustou-se ao olhar novamente para o lago, parecia emergir de dentro das águas um velho com um chapéu e uma indumentária típica dos grandes caçadores de peles do passado. Um verdadeiro Mountain Men, ou melhor, um homem da montanha! Sorria, deu um olá simpático, chamou a atenção dos lobos. Eram seis meninas e nove meninos.

               - Sabem! Disse ele. Faz tempo que não vejo um Cub Scout. Quantas saudades! – O que é um CubScout logo perguntou uma lobinha. – Meninos lobinhos como vocês. – Lisabel ficou impressionada e assustada com ele. Uma figura imponente. Um cajado lindo. – Posso? Ele perguntou a Lisabel se poderia sentar com eles ali. – Claro que sim ela respondeu. – Por acaso viram um castorzinho deslizando há poucos instantes sobre o lago? Não? Vocês já ouviram falar de Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso? – Também não? - Não Senhor responderam todos. - Querem conhecer sua história? Palmas e gritos. A lobada gostava de uma boa historia. – Bem vou contar, mas é uma historia triste, muito triste. Faz tempo, muito tempo quando conheci o John, ou melhor, o John Colter. Um pioneiro e um dos primeiros caçadores de pele a ser chamado de “homem da montanha”. Ficamos amigos em St. Louis uma cidade americana, lá pelos idos de 1807. Com ele fizemos uma serie de expedições até o rio Missouri para caçar castores e tirar suas peles.

               Os lobinhos assustaram-se. – Calma, foi em um passado muito distante. Nós vivíamos disto. Chegamos até a montar uma empresa de nome Rocky Mountan Fur só para vender as peles que conseguíamos caçar. - Mas vamos ao que interessa. Eu e o velho John rodamos meio mundo. Das Montanhas Rochosas até os grandes lagos de Michigan, Huron, Erie e Ontário. Diziam que eu e o John só caçávamos peles dos castores, mas não era verdade. Amávamos explorar o Velho Oeste americano. Nunca esqueci quando conheci Pigmor, o castor manco. Para ser sincero eu e o meu amigo chegamos às margens do Lago Grande Urso numa tarde de novembro. Eu nunca tinha ido ali e nem ele. O frio intenso, pois nevava a mais de seis dias. Montamos uma pequena cabana e quando ascendi o fogo vi um castozinho chegando e mancando. Assustei, pois sabia que eram ariscos e não se aproximavam. Sabia que ele e seus companheiros formavam uma colônia deviam ter um dique no fundo do lago. Nunca andavam sozinhos. Nós sabíamos que enquanto não passasse a nevasca nunca poderíamos caçá-los.

              - Olhei para o John e disse rindo: Não parece o Pigmor aquele velho caçador de ouro que morreu em Blue River Valley? Coitado. Achou que a riqueza fácil seria dele ali na região das Montanhas Rochosas. Morreu abraçado a um grande urso que encontrou na caverna do Mandor. Belas lembranças da famosa corrida do ouro em Breckenridge. Mas voltemos a historia. Vi que vocês querem saber tudo! Pigmor chegou até próximo ao fogo. Achamos ele diferente. Logo batizamos com o nome do meu amigo já falecido. Eu e o John ficamos calados. Não valia a pena dar um tiro ou mesmo matá-lo com um facão. Era raquítico, pequeno e descarnado. Seus olhos pareciam vermelhos e sentia que chorava por dentro. Ficou ali horas aproveitando o calor do fogo. Foi quando levamos o maior susto. Pigmor de cabeça baixa, deitado bem próximo à fogueira soluçou várias vezes. Começou a contar uma historia estranha. Isto mesmo, Pigmor estava falando. Como não sei. Castor falante? Nunca ouvi falar.


              Lisabel não estava acreditando no que via. Um velho curtido, uma capa estranha, botas de pele de urso, um lenço azul amarrado ao pescoço e um boné de peles de castores, de cócoras no meio do circulo, contava aquela história de uma maneira tão linda que até ela mesmo estava sendo encantada pelas palavras daquele velho caçador de peles. Notou que em nenhum momento os lobinhos tiravam os olhos dele. Sua dor de cabeça e seu cansaço havia desaparecido. – O Velho caçador continuou – Isto mesmo. Pigmor contava uma história muito triste, que aconteceu uma semana antes. Ainda não estava nevando e ele e seus irmãos da Colônia tinham terminado o dique onde iriam passar o inverno e aconteceu uma matança. Dois homens chegaram atirando. Pigmor correu para uns arbustos, mas levou um tiro na perna direita. Seu pai e sua mãe morreram na hora. Viu que somente Nakim, Molevo, Pariá e Jasmiel tinham se salvado pulando nas águas geladas do lago. Os dois homens jogaram uma banana de dinamite e quase destruíram o dique. Os quatro castores escondidos lá ficaram presos.

                  - Pigmor levantou a cabeça e me olhou dentro dos meus olhos. Depois olhou para John e continuou – Mergulhei até lá, estavam presos em uma toca sem poder sair. Tentei tudo. Jasmiel a Castora que seria minha esposa estava quase morta. Não sabia o que fazer. Melhor morrer com eles. Subi a tona e vi vocês. Acreditei que iam atirar em mim. Podem atirar. Eles irão morrer e eu quero morrer com eles. Iremos nos encontrar nas Grandes Tocas do Navarra onde se encontram os nossos ancestrais. – Pigmor se calou. Só ouvia soluços. Olhem não sei o que deu em meu amigo John. Não sabia que ele um dia poderia gostar de bichos, animais, ou seja, lá o que for. Mas mesmo naquela nevasca, escuro feito breu, o frio de rachar ele tirou a roupa e mergulhou nas águas profundas do lago. Passaram-se segundos e minutos. Nada do John vir à tona. “Diabos” pensei, será que ele morreu? A água estava um gelo! – Eis que os primeiros castores apareceram e logo em seguida o John com um castor no colo que julguei ser Jasmiel, a namorada de Pigmor.

                       Todos eles correram para a beira do fogo. Olhe eu juro pelas barbas do Coyote mais arisco de Yellowstone, pelas corcundas de um Bufallo das pradarias próximas a Little Bighorn em Montana que é verdade. Ficaram dois dias conosco. Pigmor e os seus irmãos mergulhavam de vez em quando para consertar sua toca no dique do lago. Uma semana depois Pigmor deu adeus. Hora de partir. Mergulharam na água do lago Grande Urso e sumiram. Nunca mais voltei lá. Disse ao John que minha vida de caçador peles e de castores tinha se encerrado ali. Ele nada disse. Juntamos nossas tralhas e partimos. Sabíamos que no então Território do Dakota seria feita uma grande corrida do ouro. Em Montana, Arizona, Nevada e Colorado só se falava nisso. Milhares de garimpeiros acorreram. Acampamentos e cidades mineiras surgiam da noite para o dia. Fomos para Black HIlls e ficamos ricos. Um dia John se desentendeu com um fora da lei. Morreu em um duelo em Virginia City. Eu resolvi fazer uma cabana nas montanhas e passar lá o resto de minha vida. Tropecei em um lago ao sul de Sonora. Vi um castor manco. Seria Pigmor? O levei comigo. Estamos juntos até hoje.

                           Ninguém falava nada. Lisabel viu que o velho caçador se levantou, deu um leve sorriso e disse adeus. Foi em direção ao lago. Andando sobre as águas todos notaram cinco castores nadando ao seu lado. Em segundos despareceram no fundo daquele pequeno lago do Sitio Mimoso. Um barulho de carro. Deviam ser Lorraine e Javier chegando. Eles adoravam os lobos. Um grito: - Lobo, lobo, lobo? E os lobinhos como a acreditar que outra linda história estava programada para eles, correram em direção ao Balu e a Bagheera. Lisabel ficou ali. Olhando para as águas do lago, que agora já noitinha uma bruma cinza se espalhava por sobre as águas. – Eu sonhei? Pensou Lisabel. Se sonhei os lobos também sonharam. Mas não é bom sonhar? Com terras altas, montanhas geladas, picos altos e longínquos, grandes lagos, é bom sonhar sonhos como este. Gostaria de ter conhecido Pigmor o castor manco do lago Grande Urso. mas...



“Tenho saudades daqui, destas campinas...
Ao norte eu voltarei, para as colinas,
Em um lago azul rochoso eu voltarei de novo”!

Como na lenda da Águia, que arranca suas penas e bico pra renascer como uma Fênix das cinzas, eu gostaria de perder a memória, me desfazer dos paradigmas, das inseguranças e medos, me perder em mim mesmo e começar do zero! Já que não é possível voltar no tempo, que Deus me de a dádiva do esquecimento.


domingo, 17 de março de 2013

Gloria feita de sangue. A última Luta de Manuelito.


Atenção! Se você tem coração fraco, não leia esta história. Pode se emocionar demais.

As mais lindas histórias escoteiras.
Gloria feita de sangue. A última Luta de Manuelito.

                      Não dá para esquecer, foi no último verão de sessenta e um. As chuvas de Santo Inácio que todos esperavam não aconteceram como o previsto e ali, a beira da Lagoa do Lagarto, o fogo de conselho já havia terminado. A escoteirada já se recolhera. Aqui e ali a fogueira ainda se esforçava para mandar aos céus uma ou outra fagulha brilhante. Todos já haviam se recolhido e eu resolvi ficar. Panchito me fazia companhia. Bom amigo. Conhecemos-nos em Aguascalientes no sul do México em cinquenta e oito. Ele já morava no Brasil há vinte anos, mas seus pais residiam nesta cidade e ele a cada cinco anos voltava para fazer uma visita. O motivo porque estava em Aguascalientes fica para outra história. Deitamos a beira da lagoa sobre uma lona leve e admirávamos o vai e vem dos cometas e satélites que giravam em torno da terra a grandes velocidades. Já sentia o orvalho da madrugada se aproximando quando vi que Panchito chorava baixinho. – O que foi? Perguntei. Olhe Chefe, sempre quando me lembro de Manuelito meu coração bate forte.

                      Deixei que ele se acalmasse e foi assim que ele me contou toda a história de Manuelito. – Era um jovem de seus doze anos. Magro, raquítico, tamanho normal para sua idade. Cabelos loiros, olhos negros fundos, nariz afilado estava na tropa havia oito meses. Falava pouco e ficamos amigos. Assim como ele eu também era da Corvo. O Gentil era o Monitor. Ótima pessoa. Tudo começou quando Gentil comentou que na Corte de Honra foi discutido a data do próximo Grande Desafio. Nos últimos três anos sempre foram realizados. Nunca fiquei sabendo como tudo começou. Toda a tropa só comentava a vinda de mais três tropas de cidades vizinhas. Ia ser um espetáculo a parte as disputas naquele ano. Seriam realizadas no Estádio do Azulão Futebol clube, pois no ano anterior houve grande aglomeração de pessoas no campinho de pelada em frente à sede prejudicando em parte a visão de todos. – Não estava entendendo, mas deixei que Panchito continuasse sua narrativa. – Chefe, precisava ver o olhar de Manuelito quando disse que o primeiro lugar ganharia uma Faca Suíça e um Cantil do Exército. Nunca o vi sorrir daquele jeito. – Fiquei com pena. Manuelito não tinha a mínima condição de chegar as finais.

                  - Sabe Chefe quando conto esta história para alguém, dão risadas. – Uma simples briga de galo? – Mas isto se faz em todas as tropas a século! Mas Chefe, conosco era diferente. Havia uma técnica própria. Cheguei a ver em um ano dois contendores ficarem uma hora e meia lutando. Vi tantas lutas que eu mesmo desisti, pois nunca cheguei além do nono lugar. Manuelito não. Perguntou-me a data, como ia ser a seleção e se todos podiam se inscrever. – Disse a ele tudo que perguntou e mais alem, disse também que ele nunca tinha lutado. Pediu-me que mostrasse como se luta. Ficamos uma hora lutando. Ele mal se matinha em pé. Caia sempre. Desistir? Jamais. Manuelito sonhava com a Faca Suíça. Só falava nela. Queria ter uma e sabia que nunca poderia comprar. Uma semana antes da seleção, que seria feita com todas as patrulhas por duplas Manuelito disse que estava preparado.

                     - Chefe, Manuelito estudou tudo. Desenhou. Treinou horas e horas em sua casa a ficar parado ou pulando em um só pé. Suas mãos as costas pareciam aço. Não se soltavam. Sabia fazer com perfeição uma Asa Direita ou esquerda (cotovelos em forma de V). O Joelho do Papagaio aprendeu rápido. Mas era magro, respirava com dificuldade e mesmo assim se mostrou um valente. O primeiro, segundo e terceiro lugar já tinham dono. Neco, Lastimer e Juventino eram os melhores. O quarto lugar foi disputado com galhardia. Manuelito a muito custo conseguiu o quarto lugar. O Chefe Wantuil não acreditava no que via. Ele ficou preocupado. O corpo de Manuelito não foi feito para aquele tipo de luta. Tentou falar com seus pais que sempre arredios não iam à sede. Desistiu e deixou que Manuelito participasse. Arrependeu-se muito depois. O grande dia chegou. Centenas de pessoas já estavam alojadas nas arquibancadas. Poderia jurar que ali no inicio do Grande Desafio tinha mais de três mil pessoas. Os parentes e vizinhos das outras três cidades compareceram em peso.

                       Chico Nonato o comissário distrital abriu a competição. Chamou um a um os dezesseis finalistas gritando alto seus nomes e conquistas escoteiras. Quatro por tropa. Formaram em linha. Todos parrudos, fortões e Manuelito se destacava pela sua magreza. Nas arquibancadas gritavam – Tira o magrelo! Tira o minhoca! Ele de cabeça baixa não se incomodava. Sonhava com a Faca Suíça. Ele sabia que não poderia ficar lutando por muito tempo. Sabia o que tinha internamente e se ele brotasse em seu estomago iria ser levado à boca e aí não ia ser fácil. Seria desqualificado na hora. Isto não poderia acontecer! – Não foi difícil para Manuelito chegar as quartas de finais. Aprendeu e treinou dias e dias a rodopiar com seu Joelho do Papagaio e deixava que os outros pulassem sobre ele. A Joelhada era fatal. Ninguém acreditava no que via. Ficaram quatro competidores finais. Ele ia lutar com um dos campeões do passado. Matusalém era famoso. Quando ele olhou para Manuelito sorriu. – Este está no papo. - Não quer desistir? Perguntou. Uma hora de luta. Sempre Manuelito se esquivando. Manuelito o sentiu no estomago. Deus! Deus meu! Não deixe que suba! Ajude-me. Eu preciso desta Faca Suíça! E meu sonho meu Deus!

                       Ganhou para espanto de todos. Sentiu que suas pernas e suas entranhas não aguentariam a final. Botelho Papa Léguas era o finalista da Tropa de Jaguatiruna. As apostas perdiam a graça. Ninguém apostava em Manuelito. Eram trinta por um e à medida que ele vencia caia. Agora estava em dez por um. Um silêncio enorme e a luta de morte começou. Ambos se estudando. Botelho Papas Léguas não subestimou Manuelito. Se ele chegou até ali é porque era bom. Viu uma brecha, viu os olhos de Manuelito piscando e se fechando. Deu oito saldo longos e pegou Manuelito de jeito com a asa direita. Manuelito conseguiu se esquivar, mas a esquerda roçou com força seu olho direito. Uma dor incrível! Manuelito quase perdeu o equilíbrio. Não iria aguentar outra. O sangue agora estava enchendo sua boca. A hemorragia que seu pai sempre falava estava chegando. Sabia que uma ou duas veias tinham partido. Se não parasse iria morrer.

                        Não podia, não podia parar! Meu Deus me ajude! Dê-me mais uns minutos, daria minha vida para ter esta Faca Escoteira!  Botelho Papa Léguas não sentiu piedade. Ele também queria ser o campeão do torneio. Nunca tinha ganhado. Entrara para o escotismo pelo premio e claro pela fama. Afinal perder para aquele escoteirinho de nada? Raquítico, pequeno, e agora chorando? Sim Manuelito tinha os olhos cheios d’água. A asa esquerda o pegou de jeito entre os olhos. O sangue quente na boca. Firmou os lábios. Tentou engolir. Não deu. Não iria soltar o sangue na grama verde. Seria desqualificado! Pulou uma duas vezes. Fez um sinal para Botelho Papa Léguas como a dizer – Venha moleza! Botelho Papa Léguas não se fez de rogado. Pulando com uma rapidez incrível preparo sua asa direita para liquidar logo esta contenda. Infelizmente ele sabia que Manuelito ia se estatelar no chão. Mas não podia ter pena nem dó e nem piedade. Como dizia sua Avó, jogo é jogado e lambari é pescado.

                        Manuelito viu num relance o que Botelho Papa Léguas ia fazer. Sabia que não podia desviar muito. Se pulasse o sangue ia jorrar de sua boca. Ele sentia mais e mais a pressão do sangue subindo goela acima. Uma dor incrível no cérebro, o corpo tremendo. Esperou. Faca Suíça! Não vou perder você. Deus vai me dar forças! Manuelito esperou até que Botelho Papa Léguas se virasse e novamente usasse a lateral esquerda para lhe bater a toda no seu ombro com a Asa Direita. Quando sentiu o hálito quente da respiração de Botelho Papa Léguas, Manuelito abaixou e levantou de uma vez. Pegou Botelho Papa Léguas desprevenido. Ninguém esperava que ele usasse este truque. Velho conhecido de todos. O vai e vem do corpo subindo e descendo. Botelho Papa Léguas perdeu o equilíbrio. Nas arquibancadas um murmúrio alto. Todos ficaram em pé. Não acreditavam no que viam. Todos só viram Botelho Papa Léguas se esparramar pelo chão. Os apostadores não acreditavam na cena estática que se apresentava. Eram dez por um. Impossível diziam.

                  Manuelito se equilibrou ainda na perna direita por alguns segundos. Suas mãos se soltaram e foram forçadas no ventre como a querer interromper o sangue que agora saia aos borbotões dos seus lábios. Não dava para segurar mais. Rodopiou em si mesmo e caiu esparramado no chão gemendo alto e querendo sorrir. Afinal ele ganhou a luta. A Faca Suíça era sua! O sangue vermelho se misturou ao verde da grama. Um colorido sem graça. Vários chefes acorreram. Viram Manuelito com enorme hemorragia interna. Desmaiado. A morte parecia que ia chegar. Um carro apareceu no campo. Ele foi transportado para o hospital da cidade. Uma semana depois souberam que ainda estava na UTI. Perdera muito sangue. Precisava ir para a Capital. Seus pais choravam, mas não condenaram o filho. Se ele morrer foi porque sabia que seu sonho seria maior que a morte!

                   Seis meses depois em uma tarde de agosto bolorenta, um sol preguiçoso no céu Manuelito apareceu na sede em uma cadeira de rodas uniformizado. A tropa parou espantada. Ele sorria, um sorriso tênue como se o sol ali como ele estivesse esperando para levá-lo. Seu pai estava junto. Disse que ele insistiu em vir. Queria receber a Faca Suíça dos seus sonhos. O Chefe Wantuil foi até sua casa e voltou com ela. Todo o grupo se formou. Honra ao mérito ao escoteirinho herói. Como bons escoteiros todos prestaram continência em posição de sentido a Manuelito. Pediu que eu entregasse a ele a faca e colocasse no seu cinto do lado direito. Uma honra para mim Chefe! Um Anrê foi dado. Uma explosão de alegria em todos os presentes. Um exemplo para ser lembrado por toda a vida.

                  Manuelito ainda viveu mais um ano. Morreu com treze anos. Só então ficamos sabendo que ele era tuberculoso. Sua família também. Uma época em que a medicina não tinha cura nestes casos.  Seu pai sabia, mas como tantos outros escondiam, pois ele tinha exemplos de pessoas portadoras de tuberculose que foram defenestrados pela sociedade. Eram párias abandonados à própria sorte.  Uma semana antes de morrer, Manuelito me pediu que quando fosse para o Campo Santo, que a Faca Suíça estivesse no cinto, pois queria estar uniformizado. Chefe, meu Deus! Quanta tristeza. Milhares de gente ali em volta da sua ultima morada chorando. Eu Chefe, era o que mais chorava. Não sabia como enfrentar tudo daí para frente. Ate hoje ainda vou lá visitá-lo. Falo com ele sempre. Sei que ele não está ali, mas isto alivia minha dor e me conforta.

                 Panchito se levantou. Chorava copiosamente. Desculpe Chefe. Desculpe. Melhor é ir para minha barraca. E lá foi ele me deixando ali a beira daquela lagoa cinzenta, ao lado de uma fogueira apagada, só cinzas e um orvalho caindo e molhando minhas faces. Vi que as minhas lágrimas também se misturavam ao doce orvalho do amanhecer. Uma bruma cinzenta pairava sobre a lagoa. Pensei em ir dormir e ir para minha barraca. Não fui. Sentei a moda índia e fiquei ali até o amanhecer de olhar fixo no horizonte, acima da Lagoa do Lagarto. Não houve sol aquele dia. Uma chuva leve e intermitente começou a cair. Um peixinho pulou sobre as águas cinzentas da lagoa. Minha mente voltava ao passado. Manuelito, um sonho realizado. Uma morte honrosa. Um menino que foi homem para aceitar o seu maior desafio. Uma luta sem gloria. Ou melhor, Gloria feita de Sangue! 


Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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