domingo, 12 de janeiro de 2020

Os Contos da noite. Ruth.




Os Contos da noite.
Ruth.

                      Fim da reunião. Melhor possível, Sempre Alerta e todos se foram para suas casas. Dei uma ultima olhada no pátio da sede onde aconteceu a reunião e não vi ninguém. Como Chefe do Grupo era a minha função olhar não só o campo, mas trancar portas e janelas da sede. Foi uma reunião normal, entreguei lenços de promessa e um certificado de curso ao Chefe Tadeu, que nos motivava com seu sorriso e sua alegria. Foi na saleta que para surpresa encontrei Ruth uma guia da Tropa Sênior sentada em uma cadeira e chorando. – Não era normal. Ela era uma guia das antigas, Lobinha e Escoteira com louvor. Fiquei preocupado. Não sabia o que dizer. Ela me olhou com os olhos rasos d’água. – Chefe, não dá mais. Não consigo pensar viver sem ele, mas com ele nem sei se poderei viver. – Pensei comigo: - O amor é a única loucura de um sábio e a única sabedoria de um tolo.

                  – Quem seria ele? Algum Sênior? Acho que não. Ela era séria demais para esconder um namoro com tal emotividade. - O que dizer para ela? Eu sabia que para os erros, há perdão. Para os fracassos chance. Para os amores impossíveis, tempo. Olhei nos seus olhos negros e continuei calado. Nem sempre temos as palavras certas para dizer.  – Ela se levantou me pediu desculpas me disse Sempre Alerta e vi que iria partir. Precisava dizer alguma coisa para ela, afinal era o Chefe do Grupo e devia ter noções de como apaziguar um coração de uma escoteira. Mas o que dizer? Que não deixasse que a saudade a sufoque, que a rotina acomode e que o medo lhe impeça de tentar? Eu não era um sábio e como aconselhador não fui da turma da primeira classe. Eu sabia que nunca tinha certeza de nada. A minha sabedoria sempre começava e terminava com dúvida.

                   - Pensei em lhe dar um abraço. Sabia que tem palavras que chegam com um abraço... E tem abraços que não precisam de palavras. Não fiz nada disto. Vi que ela estava indecisa esperando uma palavra minha ou um aconselhamento meu. Balançou a cabeça e partiu com o coração em prantos. Eu fiquei ali ruminando e a chamei sem esperança. Ainda não sabia o que dizer. Ela olhou para traz. – Ruth lute pelo que acredita, se nada mudar, invente, e quando mudar entenda. Se ficar difícil não desista, e quando ficar fácil agradeça. Se a tristeza rondar, alegre-se, e quando ficar alegre, contagie. E quando recomeçar acredite você pode tudo. Seria esse meu conselho para ela?

                   - Ela sorriu tristonha e nada disse. No portão da sede parou. Vi que pensou em voltar, mas seguiu seu caminho sem olhar para trás. Sabia que tinha de dizer minhas últimas palavras. Minha função minha obrigação. Falei alto para ela ouvir: - Ruth, tudo é possível pelo amor e pela fé que você tem em Deus! – Ela me ouviu e balançou os ombros. Virou a rua da sede me acenando como a dizer que não era seu último adeus...

sábado, 11 de janeiro de 2020

Lendas da Jângal. A Gata Borralheira do Reino das Folhas Rosa. (uma história baseada no conto da Gata Borralheira).




Lendas da Jângal.
A Gata Borralheira do Reino das Folhas Rosa.
(uma história baseada no conto da Gata Borralheira).

Olá chefes de Alcateias. Uma história baseada no conto da Gata Borralheira. Se ainda não tem uma história para contar aos seus lobinhos e lobinhas, eis aqui uma linda sugestão. Mas se você é Chefe Escoteiro porque não ler? Histórias são histórias e todas elas têm um fundo de verdade para nos dar o verdadeiro caminho a seguir.

                 Era uma vez um Duende que vivia na floresta encantada, e gostava de contar uma antiga lenda, de dois escravos fugitivos de um Faraó do Antigo Egito sem coração. Eles fugiram em uma pequena canoa com uma vela pelo Rio Nilo até o oceano. Anos depois aportaram no Brasil e aproveitando a maré baixa adentrou no Rio Amazonas, até o Rio Negro aonde navegando por vinte luas chegaram a um grande lago azul. Por mais cinco luas velejaram até descobrir uma nascente de um belo rio e ali resolveram dormir. O belo sonho que tiveram os incentivou a entrar selva adentro e lutando contra as adversidades da floresta, abriram picadas por anos e anos. Um dia chegaram a um lindo e enorme vale, florido, cheio de lindas nascentes, onde havia uma grande floresta de árvores de folhas rosa. Conta-se a lenda que ali surgiu um belo reino, e que durante séculos sobreviveu graças à fraternidade existente e também porque nenhum ser humano civilizado pode colocar os pés. Uma enorme nuvem verde pairava sobre o vale, impedindo que aeroplanos pudessem ver aquele reino, onde a Deusa Isis, aquela que nasceu de si mesmo considerada a deusa da fertilidade e do amor fraternal protegia todos habitantes do reino.

                  Nos tempos da lua nova os habitantes corriam em todas as casas para desejar a todos um novo ano de muita felicidade e prosperidade. Eram recebidos com flores, quitutes deliciosos, e abraços fraternais. Iasmim uma linda menina amava esta época onde podia conhecer muitas meninas e meninos e aumentar seu numero de amigos. Seu Professor um bom homem sempre dizia quando a aula terminava: - Mais vale ser pobre e honrar ao Senhor, que ser rico e viver angustiado. Todas as manhãs ela corria pelos montes, brincava com as borboletas, sorria para os Pica paus amarelos e abraçava Cloe uma raposa cinzenta sua amiga. Por maior que seja todo deserto um dia ele se acaba e a vida de Iasmim quase acabou. Sua mãe começou a tossir e foi embora para o reino de Isis para nunca mais voltar. Iasmim chorou por varias luas. Para sua surpresa um dia sua tia Aurora que morava do outro lado do reino veio lhe buscar. Um brilho correu pelo olhar de Iasmim. Agora teria de novo uma família para amar.

                Nem tudo foram flores para Iasmim. A Tia Aurora era exigente, gritava muito com ela e mesmo querendo ser amigas de Flora e Ruana suas primas quase nunca tinha tempo para brincar. Mal podia ir para a escola, pois cuidava da casa, lavava tudo, passava, e ainda tirava um tempo para cuidar do seu canteiro de flores, violetas que ela plantou para lembrar-se de sua mãe querida. Quando Javé o mascate chegava à cidade ela escondido da Tia Aurora se punha na janela para olhar os lindos vestidos, as lindas sedas coloridas e ela sonhava em fazer um belo vestido para quem sabe um dia ser convidada para um Baile de Gala no Castelo do Rei Thor. Era somente um sonho e para ela impossível. Nunca iria conhecer o salão enorme onde centenas de convidados ouviam cantores famosos, orquestras inesquecíveis e valsas incríveis para dançar. Naquele domingo frei Amon no Templo de Isis contou à novidade que deixou a todos espantados: Um Grupo de Meninos e meninas Escoteiras iria se formar no reino das Folhas Rosa.

              O que seriam estes meninos e meninas Escoteiras? Quem participaria? Será que sua Tia Aurora iria a deixar participar? Não. Ela sabia que não. Suas primas sorridentes trouxeram as primeiras novidades. Contavam para sua mãe que elas iriam excursionar acampar e dormir sob barracas, ver melhor as estrelas no céu que no reino era impossível de ver. Eram tantas coisas bonitas que elas contavam que Iasmim ficou com os olhos cheios de lágrimas por não poder entrar. Mesmo lembrando quando sua mãe dizia que melhor é o pão, quando o coração está ditoso, que riquezas com pesar ela chorava baixinho. Ela não entendia o que isto queria dizer. No aniversário do reino, os Escoteiros do Rei desfilaram. Que coisa bonita! Bonita demais pensou Iasmim. Na frente de todos escoteiros, o Príncipe Apolo com seu cavalo branco e de uniforme com um enorme Chapelão e lenço verde e amarelo no pescoço, desfila garbosamente para seus súditos do Reino. Seu pai se orgulhava de seu filho. Um dia ele seria rei.

               Muitos foram convidados para o Baile da Primavera, onde o rei iria cumprimentar todos os Escoteiros e Escoteiras com a mão esquerda e depois a Orquestra Sinfônica do Maestro Baltazar iria tocar a noite toda. – Posso ir Tia Aurora? Ela olhou com desdém para Iasmim. Porque você deveria ir? É feia, tem uma voz escarnecida, não tem vestido e ainda tem duas trouxas de roupa para passar. Iasmim quando viu suas primas com lindos vestidos indo para o baile chorou. Foi para um canto da casa, sentou e chorou lágrimas doídas. Por quê? Perguntava. Por quê? O que eu fiz? Assustou quando olhou pela janela e viu a Maga Julia de Avelã sorrindo para ela. A cidade inteira dizia que ela era uma fada má, que poderia encantar alguém e transformar em vento e soltar na montanha do adeus para sempre. Iasmim olhou para ela com medo – Não fique linda mocinha, ela disse. Você não quer ir para a festa? Pois então, você vai!

              Com uma varinha mágica de condão, vestiu nela o mais lindo vestido que o Reino já tinha visto. Na porta de sua casa uma linda limusine branca com um chofer vestido de Chefe Escoteiro esperava. Lindas joias cobriu seu corpo e Iasmim sem acreditar no que estava acontecendo partiu para o castelo. Quando saiu a Maga Julia de Avelã disse: - Volte antes da meia noite. Depois todo o encanto desaparecerá. Na entrada um coro de trombetas anunciou sua chegada. Todos olharam espantados. Tia Aurora, Flora e Ruana não acreditavam no que viam. O Príncipe Apolo, agora vestido com seu lindo traje de gala Escoteiro a viu e se apaixonou. – Mas ela é apenas uma menina de treze anos pensou! Mas ele sabia que ia esperar ela crescer. Sabia que ela seria sua rainha um dia e disto ele nunca abriu mão. Foi até ela, fez uma mesura e a tirou para dançar. A Valsa dos Sonhos perdidos ecoou pelo salão. Todos embasbacados com o que viam. Quem era ela? De onde veio? Era linda e todos concordavam que fora destinada ao Príncipe que ela um dia seria a Rainha do Reino das Folhas Rosa.

                Iasmim vivia seu sonho. Nunca pensou que isto iria acontecer. Mas tudo que é bom tem que terminar e nem sempre a felicidade dura para sempre. As doze badaladas da meia noite se fez ouvir. Ela saiu correndo e desapareceu na noite escura do reino. O Rei ficou abismado, o Príncipe apaixonado não sabia o que fazer. Viu que ela deixou um lindo sapatinho de cristal na porta do castelo. No dia seguinte, com um séquito de soldados do reino foi de porta em porta. Mandou que viesse todas as moças que moravam ali. O sapatinho de cristal não serviu em ninguém. Na casa de Iasmim, sua tia a prendeu no porão e levou suas filhas sorrindo para calçar o sapatinho. Nada, o príncipe choroso queria desistir. Um Velho Chefe Escoteiro de barbas brancas que era um antigo Escoteiro do mundo passava por lá disse para ele: - No porão vais encontrar sua amada. O casamento se realizou cinco anos depois. Escoteiros e Escoteiras de todo o mundo estavam presente. Durante o tempo que o príncipe a esperou crescer Iasmim foi Escoteira, acampou, amou o escotismo como amava o Príncipe Apolo.

                 E o Reino das Folhas Rosa até hoje está muito feliz com seu rei e sua rainha. Dizem que até hoje no alto Amazonas ninguém consegue achar sua trilha. Diz à lenda que eles viveram felizes para sempre e hoje seus oitos filhos dirigem oito Grupos Escoteiros que faz de toda a juventude do reino, perfeitos Escoteiros e Escoteiras para servir a Deus a Deusa Isis e ao Rei Apolo.            

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Lendas Escoteiras. O doce sorriso de Jota B.




Lendas Escoteiras.
O doce sorriso de Jota B.

Nota - Eu já escrevi muitas histórias sobre o perdão. Todas sempre têm uma palavra de conforto. Chico dizia: - Perdoa agora, hoje e amanhã, incondicionalmente. Recorda que todas as criaturas trazem consigo as imperfeições e fraquezas que lhe são peculiares, tanto quanto, ainda desajustados, trazemos também as nossas.

                Ele não tinha olhos verdes ou azuis. Eram negros, olhos que brilhavam. Sua face era rosada e seus lábios pequenos não diziam nada de sua beleza. Franzino ele conquistava a todos pelo seu estilo franciscano e fraterno.  Jota B era um menino comum. Na Patrulha Lagarto muitas vezes se esqueciam dele. Quase não falava, mas sabia tudo. Nos acampamentos era uma mão na roda. Cozinhava, fazia belas pioneirias, sempre se oferecendo como voluntário em tudo que se pedia. Se ausente todos reclamavam pelo serviço a fazer. O bom em JB era sua brandura, sua calma, seu olhar franco e sem afetação e como sabia ouvir. Nunca ninguém reclamou dele na patrulha. Ao contrário era sempre elogiado. Não só a Lagarto, mas todos na tropa inclusive o Chefe Dakota. Filho de um índio americano com uma brasileira de Porto Seguro Jota B era a personificação da paz. Olhar para ele era como se estivesse olhando um mar de mansidão, harmonia, serenidade e bonança.

               Dona Flora sua Professora o amava como se fosse um filho. Os colegas de classe tinham um respeito enorme por ele e no alto dos seus doze anos sempre o procuravam para aconselhamento, e ter com ele um momento de quietude, mansidão e paz. Dona Carminha e seu Randolp seus pais tinham um orgulho enorme do filho. Ele queria ser um médico para ajudar a todos sem cobrar um tostão. Quem o conhecesse acreditava. Ele tinha tudo, boas notas, bem quisto, amado e claro, um Escoteiro que sabia o valor da Lei, da Promessa e tudo que o Chefe Dakota ensinava. Pastor Rosivaldo da Assembleia de Deus a qual seus pais participavam sorria toda vez que o via. Sempre dizia para ele: - “Jota B, todos nós sabemos que a oração é o único meio de comunicarmos com Deus. É através da oração que resistimos aos ataques do diabo, recebemos vitória sobre nossas fraquezas e aprendemos que conviver com amor faz parte de todos nós”.

               A vida no Bairro Esperança sempre calma e tranquila mudou da água para vinho depois daquele dia. Porque tinha de ser assim? Aconteceu de repente. – Ela bateu de leve em seu ombro. – Jota B, vamos cabular a aula hoje? Ele olhou para ela. Sabia quem era. Era da Turma A e ele da C. Nunca conversaram e nem sabia seu nome, mas o convite o assustou. Ela riu. – Está com medo? Você é santo por acaso? Sempre dizendo sim senhor e não senhor? – Jota B sorriu de leve. Não respondeu. Ela continuou. – Adoro viver em perigo, você não gosta? Fazer o que nunca fizemos. Vamos mudar a rotina, algum diferente, vamos entrar em um ônibus e ir até o centro. Vamos passear de mãos dadas pelas ruas cheias de gente estranha que não sabe quem somos. Quem sabe encontramos uma aventura que você e eu nunca tivemos e nunca vamos esquecer? Ele lembrou seu nome. Dagmar. Não era bonita nem feia. Mas que sorriso ela tinha. Suas palavras entraram fundo em seu coração. Cabular aula? Nunca fiz isto. Não quero, e minha lei Escoteira não permite.  

                Ela o pegou pela mão. Mãos macias agradáveis que deram a Jota B uma sensação diferente, uma vontade de ir, de ver o que iria acontecer, de fazer alguma coisa que nunca fez. Lá foram os dois pela Rua Santa Ângelo atrás do ônibus que os levaria para o centro da cidade. Sentaram bem atrás. Jota B não olhava para ela. Estava envergonhado do que fazia, mas ela era uma tentação. Seu convite, seu sorriso, seu desafio e suas mãos macias foram demais para ele. Ela falava, matraqueava e Jota B encantado com tudo que ela dizia. Falou de seus pais, que não gostavam dela, que nunca perguntavam suas notas. Falou de sua professora que nunca lhe deu um abraço, um elogio mesmo com suas notas que eram boas. Falou, falou e falou. Jota B só ouvia. Não tinha o que dizer. Viu quando o ônibus entrou na Paulista. Nunca fora ali e só conhecia pela TV.

                 Desceram em frente ao MASP que estava cheio de gente. Muita gente. Uns gritavam palavras de ordem com placas nas mãos. A maioria estava escrito: - Cadeia para os corruptos! Juntos aos manifestantes muitos mascarados. Jota B se assustou. Dagmar não, ela o levou mais para dentro da manifestação. Em pouco tempo explodiram bombas de gás. Jota B tinha os olhos cheios d’agua e chorava. Dagmar sorria e dizia que era seu momento. Sempre Sonhou com isto. Um moleque de uns desesseis anos tentou arrancar um pequeno colar que ela usava no pescoço. Dagmar resistiu e chutou o marginal. Ele tirou da cintura uma arma e apontou para Dagmar. Jota B era pacífico. Nunca brigou ou lutou com alguém e nem sabia como lutar. Quando ele viu que o marginal ia atirar pulou em suas costas segurando sua jugular. O marginal mais forte com um solavanco o jogou ao chão e atirou! Jota B sentiu que tudo ficava escuro. Não sentia dor. A escuridão o levou a uma nuvem que viajou rápido para as estrelas. Em uma delas parou e viu que ali tinha inúmeros amigos que sorriam para ele.

                  Jota B sorria também. Ele se lembrava de que um dia morou ali. Sentiu um vento soprando que o jogou em um redemoinho. Foi puxado com força de volta para sua cidade. Tentou abrir os olhos, devagar, piscou algumas vezes, pois tudo estava como se uma nevoa tivesse invadido aquele quarto. Notou seus pais olhando para ele e sorrindo. Notou ao lado deles o Pastor Rosivaldo dizendo: Bendito seja Deus! Notou o Chefe Dakota o olhando severamente, mas com aquela bondade de um segundo pai. – Mamãe, papai! Onde estou? – Você está de volta meu filho, esteve lá na estrela onde sempre morou, mas só vai para lá daqui a muitos e muitos anos, ainda não chegou sua hora! Jota B sorriu, queria perguntar, mas sentiu dificuldade em falar. Sentia dor no peito e quando falava doía. Seu pai disse que seria por pouco tempo, logo ele estaria bom de novo. Sorriu porque não viu neles nenhuma admoestação. O Chefe Dakota deu um passo à frente, olhou para ele e disse: - Jota B, ai fora tem uma menina chorando. Não parou de chorar desde que você foi internado aqui. Quer pedir perdão a você! Posso deixá-la entrar?

“Só quem entende a beleza do perdão, pode julgar seus semelhantes”.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Lendas Escoteiras. Os anjos também sabem cantar.




Lendas Escoteiras.
Os anjos também sabem cantar.

... Uma pequena história... Um diretor de um colégio amargurado, uma Lobinha ensinando a ele que a lei do Lobinho não é só para os pequeninos, mas os adultos também. Vale a pena ler. São meus convidados!

               Teobaldo Sacramento passeava no pátio do colégio onde era diretor. Poucas vezes ele esteve ali. Não sabia como fora parar naquela área que pela primeira vez ele via com olhar diferente. Uma tristeza enorme o invadia e ele olhava melhor as árvores, as áreas ajardinadas e o pequeno riacho cujo som trinavam sons replicantes e intermitentes das pequenas corredeiras. Ele sabia que aos sábados era terreno dos escoteiros. Não tinha a menor ideia porque não sentia nenhuma simpatia por eles. Nunca os cumprimentou, os abraçou e nunca em sua vida ele fora Escoteiro. Quem sabe foi quando foi nomeado diretor na recepção que os professores e pais fizeram a ele não havia nenhum Escoteiro. Tinha uma visão estereotipada de que eles se consideravam superiores e isto trazia para ele uma hostilidade desagradável, quem sabe até mesmo repulsiva que nada dizia das demais organizações que conhecia. Quatro meses haviam se passado e nunca em tempo algum recebeu deles uma visita. Consideravam-se donos e achavam que não deviam satisfações a ninguém.

                       Nunca pensou em lhes dar um bilhete azul, afinal nunca foi vingativo. Nos colégios que tinha dado sua colaboração nunca cruzou com eles. Esta era a primeira vez. Como era cedo ele sabia que só mais tarde eles começavam a chegar com aquele zumbido tétrico de um bando de abelhas entrando em uma colmeia. Ele os viu somente uma vez. Correndo pelo pátio, cantando a pleno pulmões, os chefes apitando feitos loucos e até achou interessante quando hastearam a bandeira Nacional. Teobaldo Sacramento tinha 42 anos. Seu casamento estava indo pelo ralo. Amava Marilda, mas ela depois que sofrera um aborto involuntário parecia acreditar que ele era o culpado. Ele estava dando uma aula de História que tanto gostava, falando de Pedro Alvares Cabral quando recebeu a notícia. Largou tudo e partiu célere para sua casa, mas era tarde demais. Ela sempre o culpou por não estar junto dela. Resolveram mudar de rumo indo para outra cidade, quem sabe novos ares, novos amigos poderiam mudar a vida daquele casal que em tempos áureos foram felizes.

                   Viu uma aroeira enorme e um banco feito artesanalmente, mas convidativo. Sentou-se, não se fez de rogado. Seus pensamentos afloravam claros e azulados como nuvens ao amanhecer. Seu coração partido procurava dar um novo rumo em sua vida no seu novo mundo um novo colégio. Pensou em mudar... Ou melhor, tentou melhorar seu relacionamento com Marilda. Tinha hora que a vontade de chorar era grande. Como Diretor do Colégio Dom Bosco ele sabia que tinha que oferecer um certo respeito, uma certa dignidade e chorar não fazia parte de uma autoridade como ele. Sem perceber viu seus olhos encherem-se de lágrimas. Sabia que estava só e as deixou rolar pela face ate cair ao chão. Ele precisava de um desabafo, de um colo amigo, de um ouvinte sincero. Como era novo na cidade deixou as lágrimas correrem como cascatas brancas caindo nas pedras do caminho das águas. Fechou os olhos e deixou seu pensamento viajar por longas paragens que ele sempre imaginava nos seus sonhos do passado. Grandes gramados, vales enormes, rios caudalosos, flores incríveis espalhadas pelas campinas verdejantes.

                  - Oi! – Alguém disse. De olhos fechados pensou quem era. Quem ousava desnudar seus segredos sem pedir para entrar em seus pensamentos? Abriu os olhos suavemente. Era uma menininha vestida de azul, com um lenço verde e amarelo no pescoço, um bonezinho tipo jóquei e um sorriso incrivelmente belo! – Ela não parava de sorrir. Não o sorriso debochado, escrachado de quem quer ver o seu próximo no fundo do poço. Era um sorriso infantil, daqueles que ninguém deixa de admirar. Victor Hugo dizia que nunca ninguém conseguirá ir ao fundo de um sorriso de uma criança. Era verdade. Ele se levantou olhou para ela e disse: Oi! Não quer sentar aqui? – Posso mesmo? Ela disse.  Claro, afinal estamos só eu e você e porque não nos conhecermos melhor? – A menininha Lobinha riu. – Olhe aceito seu convite, mas primeiro preciso ver seu sorriso! – Teobaldo Sacramento não sabia o que dizer. Como uma menina de menos de oito anos brincava com ele desta forma? – Melhor sorrir, pensou. E sorriu. Não foi aquele sorriso estonteante, mas que ajudou a manter o diálogo com a Lobinha.

                      - Porque você está tão triste? Ela perguntou. – Qual resposta poderia dar? O que ele entende da vida de um adulto? Pensou. Ele não disse nada. Melhor calar do que falar o que não devo. – Akelá Luana nos ensina que sorrir faz bem, ajuda a esquecer as tristezas! – Ele não disse nada. – Eu sempre faço o que ele me diz. Um dia me contou que as dificuldades existem para todos e para ficar livre delas devemos pensar primeiro nos outros e não em nós! Ele prestou atenção as suas palavras. Uma menininha de nada querendo dar lição de moral a ele? Um diretor? Um homem feito? -- Como é seu nome? Ela perguntou. – Teobaldo Sacramento, sou o diretor deste colégio. – Humm! Prazer eu também sou importante, sou segunda prima da matilha Vermelha! Chamam-me de Lis, mas me chamo Lisandra. Já ouviu falar na Lei do Lobinho? Teobaldo quis rir, mas sabia que devia respeitar aquela menina tão cheia de doçura e simplicidade.

                     - Veja, ela continuou – Não somos senhores do tempo, não podemos decidir nossas vidas no futuro. É Deus quem define o que somos e o que seremos por isto devemos sempre ouvir os Velhos Lobos, não existe idade entre o céu e a terra para entender o que dizem. E porque não pensar sempre primeiro nos outros? O senhor faz assim? – Teobaldo não respondeu. Temos que abrir os olhos e os ouvidos para ver no fundo do coração e na alma daqueles que estão ao nosso redor, não é mais fácil assim para respeitar e convivermos mutuamente? Estar sempre limpo não é só nosso o corpo, é nosso pensamento, é a maneira com que vemos as dificuldades, e saber entender que não somos perfeitos! E porque não dizer sempre a verdade? – Ela se levantou. – Diretor! O senhor abraçou alguém que ama hoje? Não? Um abraço abre nossos sonhos para o real, perdoar, entender, amar e sacrificar deve ser nossa meta em qualquer momento das nossas vidas!

                  Ela saiu devagar, olhando para trás e sorrindo. Cantava baixinho uma linda musica escoteira. Sacramento levantou de onde estava. Agora entendia sua vida, sabia para onde devia caminhar. Os escoteiros para ele tinha outra razão de ser. Descobriu que sua vida era oca, sem motivo, somente a se culpar sem dar em troca seu amor a quem precisava nas horas difíceis da vida. Ah! Pensou Teobaldo, ele agora sabia que os Anjos também sabem cantar e... Aconselhar. Ela deu um adeusinho e sumiu atrás de um bosque de árvores floridas.  

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Contos de Fogo de Conselho. Zezito Sansão... Você é um ladrão!




Contos de Fogo de Conselho.
Zezito Sansão... Você é um ladrão!

... -  A historia de Zezito Sansão é considerada exemplo para que os jovens mais humildes possam ter o privilegio de serem escoteiros não importa o Grupo que vão pertencer. Dizem que ele se transformou em um grande escoteiro, um grande homem. - Senhor dai-me força para mudar o que pode ser mudado... Resignação para aceitar o que não pode ser mudado... E sabedoria para distinguir uma coisa da outra. São Francisco de Assis. Nunca esqueçam o escotismo não é para ricos... É para todos!

                      Fiquei bastante emocionado quando Lampião um Chefe visitante em nosso Fogo de conselho, sem muitas delegas contou a história de Zezito Sansão. Não só eu, mas a escoteirada em volta do fogo prestou enorme atenção a sua maneira simpática de contar historias. Em pé em frente à ferradura que fechava a fogueira, com um estilo próprio de matuto nortista ele começou: - Zezito Sansão, você é um ladrão! Assim todos diziam na cidade. - O Delegado Paredes olhava-o com um olhar sem piedade e sem compaixão. Não sabia mais o que fazer. Não foi a primeira vez e ele sabia que nem seria a última que Zezito Sansão iria parar em sua delegacia. O que fazer com este menino? Ele pensou. Olhou novamente para Zezito Sansão. Doze anos, magro, pele morena curtida já que vivia sua meninice na rua a espera de alguém para roubar. Se pudesse o colocaria por uns dias atrás das grandes, Disse o Delgado, mas sabia que não podia fazer isto.

                     Ligou para Nonato Praxedes o responsável do Conselho Tutelar. – Delegado! – Porque o senhor não o envia para a capital? O senhor sabe que não tem outro jeito, disse. Não tinha mesmo. Sua mãe dona Nenê vivia em uma cadeira de rodas, enxergava mal e praticamente surda. Lavava com dificuldades sua roupa deles, passava e cozinhava isto quando Zezito Sansão levava algum alimento para casa. O delegado Paredes o pegou pelo braço e disse: - É a última vez. Na próxima vou levar você para a capital. Lá você vai comer o pão que o diabo amassou. Sua mãe assustou quando ele disse isto. Ela sabia que nada podia fazer. Esperou o delegado sair e olhou com olhos rasos d’água fez um sinal para ele chegar mais perto. Ela o beijou no rosto. Ela sabia que se ele fosse para a capital ela iria morrer em poucos dias. Não tinha o que comer e nem como comprar. Sem ele não era ninguém.

                    Chefe Enzo chegou à casa cansado. Um dia difícil no trabalho e queria um banho, jantar e descansar. Priscilla sua esposa sorriu para ele. Ao tirar a roupa no quarto deu falta de sua carteira. Onde foi que deixei? No serviço não foi, pois pagou a passagem de ônibus. Refez o trajeto. Lembrou-se de esbarrar em Zezito Sansão. Só podia ter sido ele! Conhecido ladrãozinho por todo mundo. Contou para Priscilla. Vou a casa dele. Tem documentos que não posso perder. Era perto, três quarteirões. Ao chegar viu a porta aberta. Entrou sem bater. Iria dar uma carraspatana no menino ladrão. Na cozinha viu Zezito Sansão dar comida a sua mãe. Ela quase não mexia os braços. Ele paciente colocava uma colher de sopa em sua boca sorrindo e ela também. Em cima da pequena mesa viu sua carteira. Zezito Sansão fechou a cara. Encolheu-se de medo. Muitos entraram ali e batiam nele a valer. Chefe Enzo se desarmou. A cena era demais para ele. Sabia que o menino era ladrão, mas fazer o que? Na carteira faltava dez reais. O resto estava intacto. Chefe Enzo viu o medo em seus olhares. Uma ideia surgiu e ele falou – Zezito Sansão quero você na reunião dos Escoteiros no sábado. As duas em ponto. Se não for vou falar para o delegado!

                    Priscilla entendeu o que ele ia fazer. Não existia outro caminho. - Você é um Chefe e sabe que tem de fazer o que é correto, disse. Seria mesmo? Afinal era um menino ladrão. Roubou meio mundo na cidade e até mesmo o Juiz Juvenal e o Padre Antônio não escapou. Se não ajudasse quem iria ajudar? – Sábado, às duas da tarde Chefe Enzo viu Zezito Sansão chegar à sede. Ninguém entendeu porque ele estava ali. Ronaldinho o Diretor Técnico perguntou: – O que vai fazer? Chefe Enzo sabia que toda a chefia não ia aceitar. Lembrou-se das palavras de São Francisco de Assis: - Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível. Ele iria ajudar Zezito Sansão o ladrão. - Disse para Zezito Sansão que ele tinha três oportunidades. Se ele roubasse três vezes seria defenestrado do grupo. Ninguém dos Escoteiros o ajudaria. Nunca ninguém se entregou ao escotismo como Zezito Sansão. Começou a amar o que estava fazendo. Sonhou até em morar com eles, viver e respirar o mesmo ar que eles diziam ser sagrado em um acampamento. Mas e sua mãe? Como ela iria viver? Onde iria comer? Sem perceber roubou o relógio de Monserato o monitor. Vendeu barato e comprou mantimentos para sua casa.

                  No sábado seguinte Chefe Enzo o olhou. – Uma vez se foi Zezito. Dei um relógio para Monserato o Monitor. Você tem mais duas oportunidades. Só duas lembre-se bem. Zezito Sansão chorou muito aquele noite em sua casa. Pensou que seu amor aos Escoteiros nunca seria realizado. Mas não teve jeito. Roubou uma barraca da Patrulha Tigre e não achou ninguém que comprasse. Mesmo assim foi um roubo. Devolveu. Sabia que só teria uma só oportunidade. Chefe Enzo estava com os olhos cheios de lágrimas quando me contava esta história. – Turma! Ele nunca mais roubou. Ajoelhou aos pés do Chefe Enzo e disse que nunca mais faria isto, mas sabia que sua mãe iria morrer. Ela não tinha o que comer! Gentil Monitor da Jaguar perguntou: – E o Chefe Enzo, o que fez? - Chamou a tropa, explicou sem humilhar Zezito Sansão. Cada um tinha obrigação de ajudar. Por muitos anos as patrulhas faziam uma campanha do quilo que ajudava Zezito Sansão e mais cinco famílias. Ele entrou para a escola. A diretora queria recusar, mas a insistência foi grande. Chefe Enzo se responsabilizou. Se ele roubar eu pago!

                    - Chefe Enzo sempre se lembrava de São Francisco. Escreveu que ninguém é suficientemente perfeito, que não possa aprender com o outro e, ninguém é totalmente destituído de valores que não possa ensinar algo ao seu irmão. Ele conseguiu com seu Chefe na oficina que ele ficasse como ajudante aprendiz na área de transporte. Doze anos Enzo? Não podemos. – Enzo se responsabilizou e se ofereceu para pagar seu salário. Não foi preciso. Ele surpreendeu a todos. Zezito Sansão nunca mais roubou. Não sei se foi o escotismo, se foi o dia que jurou a bandeira ser um homem de bem, que iria cumprir a lei, que seria um exemplo para todos e que nada é difícil quando se quer vencer. Chefe Lampião olhou para todos e disse: O Chefe Enzo sempre disse que não se considerava um herói. Dizia que não era melhor que ninguém. Ajudar ao semelhante é obrigação de todos. Disse. - A vida nada mais é que, um grande livro de onde nos são apresentadas lições diárias. Agradeço por tê-las. Eu sei que onde há amor e sabedoria, não tem temor e nem ignorância e isto é um fato. “São Francisco dizia que fazia tudo o que podia, tentava fazer o possível e lá na frente quando olhar pra trás iria ver que fez o impossível”.

                  Chefe Lampião terminou dizendo que Zezito Sansão, cresceu se formou e hoje tem uma esposa, três lindos filhos que são a alegria de quem um dia nada teve e nunca pensou em ter. E aplausos e gritos encerrou aquele Fogo de Conselho que ficou na história da tropa. 



domingo, 5 de janeiro de 2020

Lendas Escoteiras. A solidão de Maria Thereza.




Lendas Escoteiras.
A solidão de Maria Thereza.

... - “Um filho faz o amor mais forte, os dias mais curtos, as noites mais longas, a conta bancária menor, a casa mais feliz, as roupas mais largas (ou mais apertadas), o passado esquecido e o futuro digno de ser vivido.” Amor de mãe vence preconceitos, supera os limites, enfrenta todos os desafios e te ajuda a vencer. Amor de mãe, só Deus para entender. Simplesmente amor.

                    - A solidão de uma criança é diferente das nossas Chefe. Assim me dizia Nany uma chefe Escoteira. Fiquei pensando se era verdade. Mas solidão na mente de cada um de nós não difere de outra a não ser o motivo dela acontecer. Os poetas e os entendidos dizem que a solidão é um sentimento no qual uma pessoa sente uma profunda sensação de vazio e isolamento. A solidão é mais do que o sentimento de querer uma companhia ou querer realizar alguma atividade com outra pessoa não por que simplesmente se isola, mas por que os seus sentimentos precisam de algo novo. Até que concordo com esta explicação. Mas voltando a Chefe Nany ela me contava a história de Maria Thereza. Não sei se era uma historia, ou uma saga. Como sofreu aquela menina. Ainda bem que um dia ela entrou para as Escoteiras. Sei que sua vida mudou e ajudou a suportar o que a vida lhe reservara.

                    - Posso lhe garantir Chefe que Maria Thereza amava a sua mãe. Seus olhos brilhavam quando estava junto a ela. Infelizmente não sei por que Dona Carlota nunca ligou para sua filha. Não a proibia de nada e quando disse que ia ser Escoteira virou de lado lendo um livro e nem tocou mais no assunto. Eu não esqueço o dia que ela chegou ao Grupo Escoteiro. Triste, taciturna, nenhum sorriso e mesmo sendo apresentada a patrulha não disse nada. Se interessou ou não ninguém pode dizer. Eu mesmo Chefe fui algumas vezes a sua casa e conversei com Dona Carlota. Quer saber? – Ela nem nos meus olhos olhava. Para a patrulha Maria Thereza não era um estorvo, mas a continuar com aquela seriedade, com a falta de ambição em fazer as provas e mesmo nem perguntar quando poderia vestir o uniforme fazia dela a única que nunca se entrosou com nada.  

                   - Pois é Chefe, teve um dia que a mãe dela apareceu por lá. A reunião estava calma, ninguém conversando alto e ela chamou de longe sua filha. Maria Thereza sorriu. Que sorriso. A patrulha e a tropa nunca a viram sorrir assim. Sua mãe ali? Deve ter pensado. Mas ela ficou pouco tempo. Só avisou que ia viajar e iria ficar uma semana fora da cidade. Saiu sem mesmo abraçar sua filha. Eu pensei Chefe que depois daquele dia ela não ia mais voltar no grupo. Só disse para ela que se quisesse ficar lá em casa enquanto sua mãe estivesse fora, seria um prazer para mim. Maria Thereza não disse nada. Vi que seus olhos estavam vermelhos. – Sabe Chefe, eu pensava que não poderia haver uma mãe assim. Quando a reunião terminou e fui para casa notei que Maria Thereza estava atrás de mim. Parei e dei a mão para ela. A princípio ela assustou, mas depois apertou minha mão com força. Minha mãe a abraçou quando chegamos. Meu irmão que era sênior deu a ela as boas vindas.

                    - Chefe ela se modificou por completo naquela semana que ficou em minha casa. Acredito Chefe que ela queria ter atenção, amor, abraços e sorrisos o que não tinha em sua casa. Minha mãe, Marcus e eu fazíamos tudo para ela ser feliz. Sua mãe ficou três semanas fora. Maria Thereza neste período nem se lembrava dela e se preparou para as provas como nunca. Logo me disse pronta para fazer a promessa. Pediu-me para ir a casa dela e na volta me deu duzentos reais. – Para o uniforme Chefe! De sua mãe ou seu? Eu perguntei. Chefe, minha mãe me deu para gastar quando quisesse. Era muito para o uniforme e devolvi depois o que sobrou. No dia de sua promessa sua mãe chegou. Foi a sede para buscá-la. Expliquei o que ia acontecer e a alegria de sua filha que tinha mudado. – Bem ela disse, avise a ela que cheguei e estou em casa. Achei aquilo um absurdo. Ela ia saindo e a segurei pelo ombro. Falei tudo que tinha de falar. Dona Carlota se assustou. Parou e me olhou com os olhos húmidos.

                     - Sabe Chefe Nany, desde que Maria Thereza nasceu que fiz tudo para não ser uma mãe amorosa, para que ela não se apegasse a mim, pois eu tenho um câncer em estado avançado. Faz doze anos. Posso morrer a qualquer momento. O que seria de Maria Thereza quando eu morresse? – Pensei bastante e olhe Chefe, eu não sou psicóloga e nem sei nada sobre isto. Só disse para ela: - Dona Carlota, hoje é um dia que Maria Thereza se preparou como nunca. Se a senhora morrer pelo menos dê a ela uma alegria de estar presente. Eu não entendo nada disto, mas se a senhora amanhã se for, que ela tenha uma lembrança de uma mãe que a ame e não que a despreza! - Dona Carlota começou a chorar. Nesta hora Maria Thereza viu sua mãe e veio correndo. Abraçou-a, a beijou a acariciou. Falou coisas lindas para ela.

                     - Chefe me pareceu que uma luz do céu desceu ali no pátio e os anjos fizeram coro em uma canção de amor. Não sou espiritualista, mas vi um clarão azulado protegendo mãe e filha. Eu mesmo nunca vi um abraço como o de Maria Thereza e Dona Carlota. Se o mundo mudou para mãe e filha eu posso garantir que sim. Nunca mais vi Maria Thereza sozinha, taciturna e triste. Transformou-se por completo. Hoje ela é monitora na Tropa Sênior. Dizem que é a guia que mais distribui sorrisos. Eu Chefe fico pensando. O que um amor filial pode fazer? Ela não sabia que amava a filha e a filha nunca duvidou de seu amor por ela. O futuro agora seria feliz para sempre no coração das duas. E quer saber o melhor Chefe? Fiquei em Espera Feliz por muitos anos e enquanto morei lá Dona Carlota estava viva, agora trabalhando muito, pois era uma ótima costureira e sempre tinha ao seu lado Maria Thereza a filha que sempre a amou e dizem que até hoje depois de sua partida, sorri quando vai a sua morada e reza.

                                    

sábado, 4 de janeiro de 2020

Borboletas também querem voar!




Borboletas também querem voar!

Não fuja deste desejo, te quero por inteiro,
Sem pensar num amanhã...
Quero viver o agora, quero delirar de prazer,
Realizar todas suas fantasias,
Ser possuída e dominada
Por você...

Nota – Não é um conto escoteiro. Também escrevo outros tipos de contos. Quem sabe acharão pesado, erotismo demais e tema já conhecido. Aos que gostam deste tipo de histórias são meus convidados. Abraços fraternos.

                Esta historia aconteceu na Itália na cidade de Milão, acho que foi em meados de janeiro de 1965. Não sei onde li ou se foi eu quem escreveu. Risos. Não sei se é verdadeira, se é real, não sei mesmo. Minha mente se confunde.                 Ela era jovem, cabelos compridos castanhos avermelhados, olhos castanhos, linda. Lábios carnudos, pedindo beijos. Tinha sonhos, como todas de sua idade. Escondidos claro, ninguém sabia. Gostava de sorrir, de sentir o mundo, fantasiava sair por aí, conhecer outros lugares, viver, sonhos que toda jovem tem.

               Todas as manhãs lá estava na janela. Observava as pessoas passando, uns vindo, outros indo caminhando com olhos baixos parecendo não ter destino certo. Sempre reparara nele. Um jovem de aparência meiga, olhos negros, andava de cabeça curvada como se soubesse seu destino. Parecia firme nos seus passos. Ela sentiu desejos pelo jovem. Desejo só seu. Ninguém podia saber. Católica fervorosa escondia de si e de seu Deus. Tinha medo. Rezava. Pedia perdão. Mas dentro de si, fervia estas fantasias pecaminosas. Ele sempre a via, de soslaio, sem encarar. Tinha medo, Nunca teve uma garota, nunca beijou. Mas sentia por ela um desejo profundo. Amor? Paixão? Não sabia.

              Chegava a casa, sentava em seu banquinho e ficava com a mente em devaneio, procurando concatenar um presente sólido para ela e para ele. Morava só. Seus pais haviam falecido. Era carpinteiro. Aprendera com o pai. Tinha medo de se aproximar. Tinha medo de ser repelido. As fantasias dele ficavam escondidas no recôndito de sua memória, feito monstros poderosos, que não deixavam ver a beleza de um amor profundo. Planejou, mentalizou um plano sórdido. Era um maldito. Achava ter nascido para o mal. Não era religioso, diziam que ele era frio, calculista, não tinha amor, não tinha passado. Ela sempre ia só à igreja à noite. Ele a espreita já sabia seu destino, onde passava e em um beco, subjugou-a colocando um lenço embebido em éter em seu rosto, ela desmaiando em seguida.

            Tinha alugado uma casa, na periferia afastada de tudo e de todos. Levou-a até lá. Até o porão, fechado, sem janelas, só com uma porta. Tinha preparado tudo. Iluminação, cama, água, roupas, alimentos. Deixou-a na cama, fechou a porta e se foi. Voltou dois dias depois. Abriu a porta, ela desesperada, gritando, explodindo e dizendo, maldito, filho da puta, desgraçado o que fez comigo? Ela o arranhava, o mordia, tentava fugir. Ele mais forte, a dominava. Nada dizia, permanecia calado. Uma semana, duas, ele sempre levava duas vezes por semana, sua alimentação e roupa de cama limpa. Sentava num banquinho de madeira e ficava olhando para ela, sempre de cabeça baixa, admirando, sonhando, mas sem nada fazer.

            Ela não parava de gritar. Palavrões que nunca tinha dito. Maldito! Perverso, desgraçado filho do Demônio do Príncipe das Trevas, O que queres de mim? – Queres me possuir? Possua filho da mãe, mas me solte pelo amor de Deus! Ele nada dizia. Permanecia calado e ia embora. Ela se desesperava. Quem era? Seu nome? Sua voz? Meu Deus! Um mês, dois meses. A rotina de sempre. Agora ela ficava sentava na cama, olhando para ele com os olhos vermelhos, inchados de tanto chorar. Calada também. Viu que gritar e xingar não adiantava. Tentou todas as formas de fuga. Bateu com o banquinho em sua cabeça quando entrou. A casa de grade não deu para fugir. Ele não reagiu. De novo em seu banquinho, sem falar, sem tentar nada, ficava ali sentado de cabeça baixa.

          Seis meses, ele sabia das buscas, das investigações na cidade. Desistiram. Acharam que ela tinha fugido da cidade com outro. Nada descobriram. Um ano. Ela calada, ele calado. Ela nunca entendeu. Quem era ele? Um Louco? Um psicopata? Que era isso meu Deus? Como um homem podia agir assim? Nunca pensou que este era seu destino. Quem era ele? Como seria ele? O que fazia o porquê de tudo aquilo? Sem respostas. Ele sempre calado. Quase dois anos. Começou a se apaixonar por ele. Calada, nada dizia. Mas as fantasias voltaram. Uma vontade louca de fazer amor com ele. Um dia ficou em sua frente, tirou suas roupas e o possuiu ali mesmo com ele sentado no banquinho, sem dizer nada, sentiu seu corpo por inteiro colado ao seu. Fechou os olhos. Sentava e levantava. Que prazer meu Deus! Ele aceitou que ela conduzisse. Não falou nada. Ela sentiu um prazer imenso. Nunca havia sentido prazer assim em sua vida. Ele não gemeu uma única vez.

          Foi embora. Ela sabia. Ele nunca mais iria deixá-la sair. Uma ou duas vezes chegava, sentava no banquinho, ela o possuía, tirava suas roupas ali ou na cama. Apossou-se do seu corpo fazia o que pensou em fazer. Ele sempre calado, viu que sentia tudo, gemia rouco, ela fazendo amor bruto e animal com ele, de todo jeito, ele nada dizia, pois era ela quem comandava tudo. Cinco anos. Ela estava perdidamente apaixonada por ele. Desgraçado. Mudou sua vida. Donzela virgem e agora amante do homem que a sequestrara. Seus desejos de fugir acabou. Não tinha mais sonhos. Esquecera sua família. Esquecera-se de tudo. Aceitava ser uma prisioneira. Era agora sua vida. Se conformava. Contava os dias que ele iria aparecer. Era sua única forma de combater a solidão.

        Quinze anos. Seus cabelos começaram a embranquecer. A rotina de sempre. Ele chegava, ela olhava para ele com olhos de gazela faminta. Esquecia tudo. Fazia amor com ele. Gritante, calmo, sensual. Gostava do seu jeito, adorava quando estava dentro dela. Esquecia-se de tudo quando sentia o jorro quente dentro de sí.  Ele sempre ali, olhando para ela, nada dizia. Agora ele demonstrava prazer e ao terminar vestia as roupas e ia embora. Ela não sabia seu nome e nem conhecia sua voz. Trinta anos prisioneira. Uma tosse rouca, seu corpo definhando, ele lhe dando remédios, uma semana, duas e ela se foi.

Ele se dirigiu a um bosque de azinheiro, procurou a árvore mais alta e se enforcou. Alguns meses depois o encontraram pendurado, com o corpo perfeito sem nenhum sinal cadavérico. Descobriram a casa. No porão a encontraram. Bonita, deitada na cama rosto angelical, vestida de noiva, cabelos soltos. Nada parecia que ela estivesse morta. Sorria, como se alguém estivesse com ela.  Comentaram muito do acontecido, mas ninguém, ninguém mesmo até hoje foi capaz de explicar o que aconteceu.

Milão, outubro 1998. Uma nota no jornal Corriere Della Sera falava pouco do acontecido. Quase não dizia nada. Alguém se interessou pelo fato. Ele conhecia uma moça, linda, sempre a via quando passava. Quem sabe?...

Me chama me conta, me diz
Como vai sua vida
Mas diz a verdade com jeito,
Para não machucar
Engana que sente saudades
Que ainda não me esqueceu
Que seu amor ainda sou eu...

Confessa que eu tinha razão
E você estava errada, disfarça
E não diz que esse outro
Te faz feliz, me engana
Me esconde a verdade
Sonhar é melhor que sofrer,
Mente para mim, me ajuda a viver!
(José Augusto).

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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