domingo, 18 de maio de 2014

A classe dominante vai ao escotismo.


Lendas escoteiras.
A classe dominante vai ao escotismo.

(Uma pequena homenagem a Carlos Kohl, um grande amigo gaúcho que hoje mora lá no céu).

(esta é uma história de ficção, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência).

Sou gaúcho forte, campeando vivo
Livre das iras da ambição funesta;
Tenho por teto do meu rancho a palha,
Por leito o pala, ao dormir a sesta.
Monto a cavalo, na garupa a mala,
Facão na cinta, lá vou eu mui concho;
E nas carreiras, quem me faz mau jogo?
Quem, atrevido, me pisou no poncho?

                   Vertentes da Saudade era uma cidade pequena, antiga e ainda enraizada nas velhas tradições gaúchas. Ficava a oeste de Uruguaiana mais de oitocentos quilômetros de Porto Alegre. Nada mudou em Vertentes nos últimos trezentos anos. Os antigos donos da terra os Índios Guaranis eram sombra do orgulho do passado. Uma estátua centenária do Padre Jesuíta Cristóvão de Mendonça estava encravada na praça central e hoje poucos param para ver o que está escrito em sua placa de bronze. Havia no ar uma melancolia talvez por falta do que fazer pois a população vivia do plantio do feijão e criação de gado. Ali em Vertentes da Saudade os direitos de cria recria e engorda tinha dono. O Coronel Totonho Mercês Almeida Pais reinava absoluto sobre os demais estancieiros. Ele praticamente era o juiz, o prefeito e o delegado e ninguém poderia de maneira alguma contrariar suas ordens. E olhe que estávamos no século vinte e um.

          O menino Luiz Mercês Almeida Pais com onze anos tinha puxado o pai. Orgulhoso, andava de nariz empinado e conversava com os outros como se estivesse dando ordens. Ninguém tinha coragem de olhar nos olhos diretamente do pai e do filho, diferente de Dona Leonor Mercês Almeida Pais esposa do Coronel Totonho. Uma alma caridosa, nunca levantou a voz para ninguém. Todos a procuravam nas horas mais difíceis e ela sempre bondosa não negava ajuda. O Topógrafo Siqueira Nantes Leal nascera em Vertentes da Saudade e nem sabe como resolveu um dia fundar um Grupo Escoteiro na cidade. Houve uma revoada geral na meninada. De boca em boca o assunto correu e alvoraçou a cidade. Gaúcho de verdade não abandona a sua terra e leva no peito a saudade, que toda tarde, trás dela, assim pensava Siqueira que nunca abandonou sua cidade por nada. Dona Filó diretora do Grupo Escolar Flores da Cunha comprou a ideia e logo ofereceu o pátio e duas salas para que o grupo arranchasse para sempre. Assim ela pensava.

      Siqueira Nantes amava Amelinha Salsaparrilha e ela como boa moça quando o viu cantou baixinho: - “Erva, cuia, chimarrão. Não é apenas costume, é amor e tradição. Ela não liga para status, beleza ou dinheiro. O importante para ela, é que ele seja Gaúcho, campeiro e Romântico”. O namoro durou meses e casaram-se na igrejinha do Padre Antonio Feijó numa tarde linda de setembro. Siqueira nem lua de mel teve. Um trabalho encomendado pela Ferrovia do Trigo, que ligava Passo Fundo a Porto Alegre a pedido do Coronel Totonho pensava em fazer um ramal até Vertentes da Saudade, uma linha regular de passageiros e porque não transportar o gado do coronel. Siqueira Nantes não abandonou seu projeto de organizar o grupo escoteiro. Convidou oito jovens e com mais dois professores da escola além da diretora, escolheram o nome do grupo e definiram quando seria feita a solenidade de promessa do grupo. Tudo andava de vento em popa. Siqueira comentava onde passava: “Vai Tche! Por este mundão véio sem porteira, proseando do evangelho, espaiando as boas novas do escotismo prá tudo que é vivente”!

         O menino Luiz Mercês ficou uma fera quando soube que não fora convidado para participar da primeira patrulha do grupo. Falou com seu pai e este mandou chamar Siqueira Nantes para se explicar. De cabeça baixa ele disse que logo teria uma vaga para seu filho. O Coronel Totonho não acreditava no que ouvia. Mandou Zepileu seu secretario chamar os dirigentes do escotismo rio-grandense para se explicarem a ele em sua cidade. Doutor Alfredo Maristo era o Presidente da Região Escoteira. – Que boa bisca é este Siqueira? Se não vou fico de entremeio com a liderança politica. Tenho de ir lá e me rebaixar para um coronelzinho de araque. Doutor Alfredo chegou cedo a cidade. Logo foi levado a presença do Coronel. Com seu vozeirão ele foi dizendo aos gritos de modo mal educado: Moço! Assuma, ou suma da minha frente, pois chega de lero-lero. Se tu não sabes o que quer, eu sei o que eu quero e papo enrolão de homem-banana, é um abacaxi que não quero! Doutor Alfredo tentou se explicar mas não adiantou. – Quem manda na cidade sou eu. Avisa a este sacropanta que se diz Chefe Escoteiro que ele come na minha mão!

          Doutor Alfredo conversou com Siqueira Campos. Um pobre diabo pensou por que foi logo nascer aqui onde Judas perdeu as botas. – Doutor Alfredo, vou desistir. Não quero mais ser Chefe – Na verdade, de que adianta ter a faca e o queijo na mão, quando não se tem mais um fio de vontade, de motivação? Não adiantou a desistência de Siqueira, Coronel Totonho contratou dois profissionais Escoteiros e lá fez um grande grupo que chamaram de Grupo Escoteiro Coronel Totonho. Doutor Alfredo foi obrigado a dar autorização pois ao contrário o Governador do Rio Grande acabaria com ele. E assim fundou-se ou afundou-se as boas práticas escoteiras em Vertentes da Saudade. – Como dizem por aí, Siqueira que nunca foi Chefe e pensou que seria um cantava baixinho: - Vai Tche! Por mundão veio sem porteira, proseando do evangelho, espraiando as boas novas pra tudo que é vivente! – Tô loco de faceiro Tche! Convidaram-me prá ir à casa do patrão celestial pois aqui em Vertentes da saudade nunca mais eu voltarei. Se trouxeres teu orgulho de ser brasileiro, te entregarei a minha honra de ser gaúcho mas nunca submisso.

      Sei que Siqueira foi para outra cidade, se tornou um grande Chefe Escoteiro e até hoje a gauchada de lá o carregam para todo lado a saudar como se ele fosse um herói. Levantar com o pé direito ou esquerdo, não vai determinar se o seu dia será bom ou ruim, suas atitudes sim! Chega um dia que a gente simplesmente muda, os sentimentos mudam e o coração faz novas escolhas. E assim vou terminando este novo conto onde o Escotismo não se abaixou para a classe dominante e nas palavras do gaúcho do Rio Grande eu vou dizendo: - Bueno vou me largando, mais tarde temo aí de novo. “Forte quebra de costela prá toda a gauchada conectada”!


Ó Rio Grande, terra de homens bravos
E mulheres lindas e apaixonadas;
Do chimarrão que aquece noites geladas,
Jardim de sonhos, de rosas e cravos...

Pelo pampa fértil, pelo planalto
Cavalgam gaúchos de olhar obstinado
Rumo ao futuro, relíquias do passado
Que amam a terra e execram o asfalto...

Namoram-no os olhos da Argentina,
Romântica e poética dançarina,
Eterna e apaixonada donzela.

Rio Grande, estado egrégio do sul,
Coberto de oiro sob celeste azul...
Ó terra nobre, ó terra tão bela!
(Luís R Santos) 


sábado, 17 de maio de 2014

A escoteira Gigi, o rouxinol da montanha.


A escoteira Gigi, o rouxinol da montanha.

Longe um trinado.
O rouxinol não sabe
que te consola.
 "Se você ama a música a ponto de servi-la humildemente, o sucesso acontecerá automaticamente”.
– Maria Callas

                      Quando nasceu Maria Eugenia não chorou. Os médicos estranharam. Ela os olhava com seus lindos olhos verdes bem abertos. Quando a colocaram junto à mãe, ela sorriu. Incrível! Gigi falou as primeiras palavras aos oitos meses e com nove já andava pela casa toda. Mas a surpresa maior foi quando ela fez dois anos. Ouvia musicas junto aos seus pais e cantava. Uma linda voz, mas ainda em fase de desenvolvimento. Gigi foi crescendo e quando fez seis anos seus pais se assustaram. Gigi não era uma boa aluna. Só mesmo uma cantora excepcional.

                     Seus pais eram pessoas humildes. Sem posses, mal uma casinha simples na periferia da cidade. Ela convivia com meninas da sua idade, mas tão pobre como ela. Dificilmente os pais podiam comprar um presente para ela no natal. Mas nunca deixaram de dar, sempre um presente simples. Gigi não se importava. Gostava de sentar na frente de sua casa e com as amigas ela cantava, todos calavam e ficavam de olhos e ouvidos fixos em Gigi. Ainda cantava musicas comuns.

                     Quando fez sete anos, viu na escola uma menina de uniforme e ficou encantada. Perguntou o que era e soube que ela era lobinha. Encantou-se. Queria ser uma delas. Sua mãe uma simples lavadeira nem entendeu direito seu pedido. Seu pai, um pedreiro sem emprego, trabalhando como diarista tentou dissuadi-la. Não conseguiu. Ela não chorava, sabia de sua condição humilde, mas tanto falou que sua mãe e seu pai um dia de sábado vestiram suas roupas de ir à missa. As melhores que tinham e a levaram ao Grupo Escoteiro.

                      Seus pais se sentiram um peixe fora d’água quando chegaram ao Grupo Escoteiro. Em um canto do pátio observavam tudo até que um chefe bem educado os procurou. Explicaram o porquê estavam ali. Deixaram bem claro suas condições financeiras. Nunca poderiam arcar com despesas se ela fosse aceita. O chefe Carlos foi calmo e sorrindo explicou que não se preocupassem. O Grupo Escoteiro tinha uma verba para ajudar aos jovens mais pobres. Mas que para isso eles deveriam também estar presentes à vida do grupo, para qualquer tarefa. Quais eles seriam cientificados posteriormente.

                        Um mês depois Gigi foi apresentada a Alcatéia Seeonee. Foi o dia mais feliz para Gigi. A princípio a Akelá a achou meio “sapeca”. Não levava a serio sua matilha. Alguns meses depois Gigi se transformou. Nelsinho o primo da matilha era um dos seus melhores amigos. Infelizmente Nelsinho não ficou muito tempo. Seus pais mudaram da cidade. Foi nesse dia que descobriram na Alcatéia a voz que Gigi tinha. Ela cantou sozinha a canção da Despedida. Não houve quem não chorasse. Baloo sorriu e disse para Bagheera em seu ouvido – “Incrível! Será uma das maiores cantores do nosso país.”.
   
                        Mas Gigi se revelou mesmo quando a Alcatéia foi ao parque municipal, em um domingo ensolarado. Quando das brincadeiras e desenvolvimento da reunião especial, deram falta de Gigi. Encontraram-na próximo ao anfiteatro ao ar livre. Uma orquestra sinfônica fazia uma apresentação com vários cantores. Acredito que foi a primeira vez que Gigi ouviu alguém cantando Tosca, de Giacomo Puccini. Ela estava de olhos arregalados e pediu a Akelá que esperasse até a música acabar.

                        Não sei e não posso explicar, mas quando acabou uma salva de palmas explodiu de todos os ouvintes, Gigi começou a cantar a Tosca. Sem orquestra. Como se diz na gíria, a “escoteira”. Um silêncio enorme de todos os presentes. O maestro acorreu mais perto para ver. Pediu para ela subir ao palco, uma estrondosa palma. Gigi não se abalou. Quando o maestro ia agradecer a ela veio outra surpresa. Gigi começou a cantar Madama Butterfly Lib. Incrível! Incrível mesmo! Ninguém agüentou. Emocionados ficaram de pé aplaudindo Gigi.

                         Ela com seu uniforme de lobinha sorria. Linda a Gigi. Linda mesmo a Gigi. Saiu correndo e voltou para sua Alcatéia sem se despedir de ninguém. Os chefes e as chefes da Alcatéia Seeonee estavam mudos. Não sabiam o que dizer. Foram procurados pelo maestro. Explicaram que não eram os pais de Gigi e não podiam tomar nenhuma atitude a respeito. Que ele desse um cartão e eles falariam com seus pais. Gigi a princípio passou a ser olhada de outra maneira. Mas por um ano ela não cantou. Todos esqueceram o dia no parque. Entregaram o cartão aos pais de Gigi, mas eles acharam prudentes não fazer nada.

                         Ao fazer dez anos, a Alcatéia participou de uma grande atividade do distrito e da região. Mais de quinhentos lobinhos presentes. Cada Alcatéia deveria fazer uma apresentação no ultimo dia. Não seria por matilha, seria por Alcatéia. Dez minutos no máximo. Resolveram fazer um jogral que sempre faziam na sede. Uma apresentação musical contando a historia da cidade onde moravam. Interessante, parecia que todos da Alcatéia sabiam o que ia acontecer.

                         Ao subir ao palco, todos os lobinhos formados um ao lado do outro. Os demais lobinhos e lobinhas assistentes faziam uma enorme algazarra. Claro, quinhentos e oitenta e cinco lobinhos e lobinhas. Quem daria conta de calar a todos? Gigi tomou a frente da Alcatéia e começou a cantar. A principio ninguém notou, mas o silencio em poucos minutos se fez ouvir. Gigi cantava La Traviata. ACT 1. Linda, uma musica que ninguém entendia, mas interpretada por Gigi todos ficaram maravilhados. As palmas e bis mostram que ela podia cantar mais e como cantou. Norma, Lá Wally, Mefistole, Ebbem. Crianças de sete a dez anos sentindo a musica no coração. O tempo correu, Gigi parou e desceu o palco correndo como sempre o fazia.

                           Todos os chefes de lobinhos e lobinhas não sabiam o que fazer. Em coro os lobinhos gritavam – Gigi! Gigi! Gigi! Era incrível mesmo. O tempo passou. Gigi fez a trilha escoteira. Chorou muito quando foi para a patrulha Touro. Não queria. E pouco tempo se acostumou. Em pouco tempo aprendeu a gostar de sua nova vida. Agora era uma escoteira e adorava os acampamentos, excursões e todas as atividades da tropa. Uma nova vida, e não gostava muito quando insistiam para ela cantar. Achava que o tempo era para aprender técnicas escoteiras, fazer boas ações, viver em plena natureza.

                             Gigi adorava deitar na relva e olhar o céu em uma tarde qualquer quando estavam acampadas. Lorena sua monitora uma vez perguntou por quê. Ela custou a responder e disse. Encontro-me no céu. Lá vejo musicas que não conheço. Alguém as dita para mim. Não sei quem é. Nunca vi seu rosto, nem sei sua voz. Vem em forma de sussurros na minha mente. Para sua surpresa seus pais comentaram com ela que tinham recebido um convite de um grande maestro para um teste na orquestra sinfônica da cidade. Gigi não deu muita importância. Nunca se mostrou entusiasmada com convites. Cantava por cantar.

                             Seus pais com as roupas domingueiras levaram Gigi ao teatro Municipal em uma quarta feira à noite. Gigi insistiu em ir de uniforme escoteira. O que aconteceu foi o normal. Todos abobalhados com Gigi. Não podiam acreditar que uma menina (ela já estava com catorze anos) como aquela poderia ser uma copia fiel de Maria Callas. Alguns chegaram a dizer que seria mais famosa que Maria Bárbara Júdice da Costa, ou mesmo que Emma Shaplin ou superior aos homens. Achavam que nem Enrico Caruso se fosse vivo poderia se igualar.

                              Fizeram um contrato. A principio queriam tempo integral. Gigi foi elegante, mas exigente. Minha participação do Grupo Escoteiro não seria abandonada. Não poderia participar de nada da orquestra quando fosse fazer as atividades escoteiras. Para isso ela traria sempre o programa anual para eles. O sucesso explodiu na vida de Gigi. Aos dezesseis anos já participando da tropa de guias, ela foi ao exterior. A orquestra fez um giro por países sul-americanos e onde passavam Gigi era ovacionada de pé por todos. No Teatro/ópera do Chile Gigi se superou. Ao cantar Lá traviata, o teatro veio abaixo. O público aplaudiu por dez minutos seguidos. Os pedidos de bis evocaram pelo anfiteatro.

                             Jornais do mundo inteiro ficaram sabendo de Gigi. Interessante. Na ultima musica apresentada, ela fazia questão de vestir seu uniforme de escoteira. O maestro ria e não se importava. Isto dava uma nova figuração à apresentação. Em sua turnê por Nova Iorque Gigi se apresentou no Orpheu Theatre por duas semanas. A Boy Scout soube que se apresentava de uniforme e comentou em seus boletins e emails a todos os Grupos Escoteiros do país. (diferente do Brasil onde os mais novos entram para uma sessão chamada de Iger Cubs e os mais velhos na Varsity Scout).

                            Não havia mais ingressos disponíveis no teatro durante sua apresentação por duas semanas. Os lideres da Boy Scout procuraram Gigi e o maestro. Combinaram de fazer uma apresentação gratuita no domingo pela manhã, se possível no Conservatory Waty no Central Park onde ao ar livre pudesse reunir o maior numero de escoteiros. Os jornais do outro dia diziam ter participado mais de cem mil escoteiros. A Polícia de Nova Iorque falou que havia menos, uns sessenta mil. Não importa. Gigi impecável no seu uniforme escoteiro cantou Suor Angelica ‘Sister, Mefistofele, Ebbem? Ne andro, Addio Del Passado e Spargi d’amaro pianto. No final cantou Tosca de giacomo Puccine e os escoteiros gritaram entusiasmados aplaudindo. Uma estrondosa palma repercutiu em vários pontos do Central Park.

                             A fama de Gigi se espalhou. Já não era pobre. Ganhava muito. Muito mesmo. Seus pais viviam confortavelmente em uma bela casa em sua cidade. Ma Gigi não estava gostando. Não era bem o que pensou para sua vida. Com vinte e oito anos resolveu parar. Ninguem podia acreditar. A maior cantora lírica de todos os tempos não se apresentar mais aos seus inúmeros fãs em todo o mundo? Foi então que um dia quando estava com seus pais, afastada do palco, recebeu a visita do chefe Carlos, e de muitas amigas que agora tinham crescido e foram com elas lobinhas, escoteiras e guias.

                            Uma delas disse a Gigi que falava em nome de todas. Pediam para ela continuar. Pela primeira vez a juventude se interessava por um tipo de musica. Pela primeira vez a musica clássica ou até a música erudita era apreciada por jovens de todo o mundo e até no Brasil. Afinal era um tipo de musica que é fruto da erudição e não de práticas folclóricas e populares. – Você sabe Gigi, dizia o chefe Carlos, hoje nossos jovens estão vendo o outro lado da musica. Estão aprendendo a gostar de algum que nunca se interessaram.

                            Você com sua voz nos fez entrar em um mundo de sonhos. Onde podemos meditar e viajar com um som inimaginável. Hoje espiritualmente aprendemos a reparar no que estamos ouvindo, o porquê da musica, e quando você canta nos transporta para os grandes acampamentos, onde a noite respiramos a relva, a seiva da árvore, a aragem que sopra o som dos animais noturnos. Você com sua voz harmoniosa e quando seus clássicos são cantados é incomparável. Quem ouve sabe, ela a musica que você canta fala por si só.

                           Quando se foram, Gigi foi para a varanda de sua casa. Era noite de lua cheia. Gigi ficou ali olhando o céu lindo, vontade de trazer a lua perto dela e abraçar. Sentir através dela o mundo. Esqueceu que só tinha amado o escotismo. Seu tempo sempre curto não viu ninguém para amar, entregar seu coração. Mas Gigi sabia. Um dia ele iria aparecer. E ela não iria parar nunca de cantar. Riu quando pensou sobre isso, a lua neste instante parece que riu também com ela. Uma aragem gostosa bateu no rosto de Gigi.

                            Não sei o que aconteceu depois com ela. Soube que agora mora na Itália. Canta por toda a Europa. Gigi a Escoteira ficou conhecida do mundo todo. Tenho todos seus CDs. Agora fez mais um DVD. Continua linda. Dizem que tem um namorado. Nunca vi a foto dele. Mas tenho certeza que Gigi é feliz. Ela se encontrou na musica e no escotismo. Ainda ouço falar de suas apresentações em Jamborees onde sempre é ovacionada pelos milhares escoteiros e escoteiras de todo o mundo.

                           Saudades de Gigi. De sua alegria, de sua voz. Quando me lembro dela coloco em minha vitrola seu CD. Sento na varanda de minha casa e os sonhos entram pela minha mente de volta ao passado. Agora ouço Madama Butterfly. Meus olhos choram. Lagrimas descem pela face. Sempre fui assim. Um apaixonado pela musica linda de Gigi. Espero que ela tenha alcançado a felicidade. Ela sempre mereceu. Teve tudo na vida que uma jovem não teve e teve mais ainda, a felicidade de amar um movimento, movimento que lhe deu a vida, lhe deu o sentido da vida e a revelou para o mundo!

Bravôô Gigi! Bravôô! Que você seja feliz para sempre!

A esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe à crença. Vão-se sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança.



sexta-feira, 16 de maio de 2014

O último chefe Escoteiro


O último chefe Escoteiro

Congratulamo-nos às vezes, no momento em que despertamos de um lindo sonho. Não poderia ser assim no momento que segue a morte?

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...


                Essa história foi-me narrada por um Comissário Distrital muito meu amigo, quando o visitei em sua residência a muitos e muitos anos atrás. Era comum visitá-lo. Nos conheciamos desde o tempo da patrulha senior. Juntos fizemos belas atividades escoteiras. Aquela de ser metido a herói e fazer escalada sem nenhuma experiência ficou na história. A patrulha inventou de escalar uma montanha onde existia uma pedra muito alta. Subimos 400 metros. Sem condição de prosseguir. Paramos um pequeno lanche para a descida. Descida? Nem pensar. Um medo horrivel. Olhavamos lá embaixo. Vertigem. Tremedeira.

              À tarde, o sol se pondo, os cinco valentes ali no meio da pedra tremendo. Uma noite terrível. Meio metro por dois a saliência. Só no outro dia os bombeiros da cidade foram acionados. Sempre lembravamos deste fato. Belas risadas. Foram tantas que nossa amizade perdurou durante toda nossa vida. Soube que ele se juntou a turma lá no Grande Acampamento. Que Deus o tenha. Daqui a uns tempos vou dar uma passadinha lá. Não pretendo ficar (risos).

              Bem voltemos ao que  ele me contou.  No seu distrito havia um chefe Escoteiro bem antigo, bem "Velho" alíás. Ficou toda a vida em um só Grupo Escoteiro e era amado e bem considerado por todos. Deixou de frequentar por problemas de saúde. Tinha que inalar várias vezes ao dia e suas forças não eram a mesma. Claudicava, tremia, respira mal e sua vóz quase não se entendia. Claro, estava com 82 anos. Um dia resolveu lembrar o passado. Comprou um pequeno balão de oxigênio, que dava para seis dias, preparou um bornal para ele, de maneira a não atrapalhar o que iria fazer.

               Isso mesmo. Seu último acampamento. Ele queria fazer um antes de morrer. Ria e contava para todo mundo. Ninguém acreditava. Mas ele era teimoso. Muito obstinado. Sua esposa horrorizada tentou demovê-lo da idéia. Não conseguiu. Chamou os filhos (eram três) nada obtiveram. Vieram amigos escoteiros, desistiram em pouco tempo. Chegaram à conclusão que se ele não fosse morreria alí na sua casa em poucos dias. Quem sabe bem tutorado ele podia ir? Claro os filhos sem ele saber iriam vigiá-lo de longe. Um deles era médico. Assim ficou combinado.

              Chefe Zezé (como era conhecido) preparou tudo com calma. Tirou sua mochila do baú, seu uniforme, ele mesmo lavou e passou. Sua manta de fogo de consêlho, seu chapéu de tres bicos, ainda prensado no porta-chapéu. Colocou seu tope que comprou em 1947, seu penacho azul de dirigente (tinha o verde e amarelo de Diretor Técnico, e os demais de outras sessões, hoje não se usa mais). Engraxou sua botina de campanha, olhou seu meião com carinho, a jarreteira deixou no lugar. Não iria usar. Pediu à esposa que pregasse os seus barretes na camisa cáqui. As medalhas levaria consigo, mas guardadas na mochila. Seria seu troféu de campo.

               Estava ainda lá sua faca escoteira, limpa e com saudades viu que ainda possuia o talco que colocou antes de embainhar. Seu facão limpo, sua machadinha pequena e lá bem escondido em um canto do baú, sua bússola silva. Olhou tudo, viu que o cinto de couro ainda estava firme, e a fivela brilhando. Até mesmo uma bandeira nacional bem antiga ele levou. Sentou em sua cama e fechou os olhos. Sua mente só via o acampamento que iria fazer. Tinha de ser superior a todas as suas 780 noites de acampamento. Nem mais e nem menos. Deveria marcar sua vida para sempre.

              Não levaria seu lenço de insígnia. Iria com o verde e amarelo quando fez a primeira promessa. Um suspiro, quantas saudades. Aproveitou para ver algumas fotos que ali guardava. Seu primeiro acampamento de lobos (na época lobinhos acampavam), sua promessa escoteira, sua patrulha senior, e vários amigos que junto a ele fizeram com que as matas, florestas, campinas,  serras, montanhas e tantos lugares fossem incrustados para sempre na sua memória.

            Disse que iría na semana seguinte. Serra do Rio da Serpente. Sozinho. Não queria companhia. Todos os filhos sabiam onde era. Já tinham ido lá com ele várias vezes. Sorriram e não disseram nada. Ele preparou tudo com carinho. Ração C para três dias. Capa leve de chuva. Uma lona simples e macia para montar um pequeno toldo de sua cabana (ia fazer uma), seus remédios, seu inalador, e no bornal o bujão de ar. Pelo telefone comprou a passagem. Eram quatros horas de viagem.

           Pediu a seus filhos para o levarem à rodoviária. Estava uniformizado. Na entrada subiu sozinho. Deu até logo e disse que não precisava de ajuda. Subiu as escadas com dificuldade. Fingiram não o observar. Viram quando ele entrou no ônibos. Um dos filhos seguiu de carro atrás. O filho chegou à cidade de destino primeiro. Sabia que dali até a subida da serra seriam mais quatro quilometros. Ele disse que iria alugar um animal. Cavalo ou burro. Não dava para subir a pé.

           O ônibos chegou. Desceram todos. Surpresa! Chefe Zezé não estava no ônibos! O motorista disse que ninguém tinha viajado com aquelas características. E agora? Se eles o viram embarcar no ônibos, ou foi miragem? O filho ligou para os outros. Todos se dirigiram para a cidade de destino. Reunião de família. O que fazer? Onde estaria seu pai? Onde? Procuraram por todos os lugares, por toda a parte. Nada. Foram de novo na rodoviária, nenhuma informação. A empresa disse que não vendeu nenhuma passagem com o nome de chefe Zezé ou mesmo o nome completo dele.

           Um dia, dois três. Se ele resolveu dar um golpe e seguir sozinho a outro lugar, pois sabia que aonde ia seria vigiado, deveria estar de volta à noite do terceiro dia. Nove da noite. Dez meia noite. Nada. O dia amanheceu. A familia desesperada. Policia acionada. Busca em todos os lugares. Bombeiros, elicópteros. Nada. Chefe Zezé sumiu! Abduzido? Não era hora para brincadeiras. Não sabiam mais o que fazer. A polícia desistiu. Ninguém quis mais procurar. Seus filhos precisavam voltar à luta. Tinham seus empregos. Esposas, flhos. A vida continua.

           A esposa do chefe Zezé, parou de chorar. Os olhos vermelhos inchados. Seis dias, sete, oito, dez, doze, quinze. No décimo quinto dia, receberam um recado. Um telegrama. Um vaqueiro disse ter visto um homem parecido conforme foto nos jornais na serra do Canta Galo. Todos os filhos foram para lá. Bem longe. Mais de nove horas de viagem. Serra desconhecida para eles. A cidade pequena. Alguns tinham visto quando ele chegou quinze dias atrás.

           Conseguiram um guia, encontraram o vaqueiro. Arrumaram cavalos e subiram a serra. Local ermo e de difícil acesso. Tinham medo, muito medo do que iriam encontrar. Avistaram ao longe uma fumaça branca subindo aos céus. Pequenas esperanças. Quem sabe está vivo? Chegaram ao local. Viram-no enconstado em uma árvore, como se estivesse desfalecido. Correram até ele. Respirava e parecia dormitar. Abriu os olhos, sorriu. Como me encontraram disse?

           O filho médico o examinou. Achou estranho. Sua respiração parece ter melhorado. Viu o bujão de ar ainda cheio. Ele não tinha utilizado. Ele se levantou, olhou para o céu, para as arvores, um pássaro preto em um galho voou. Alguns outros se juntaram a ele. Todos voando em volta do chefe Zezé. Borboletas surgiram. Azuis, vermelhas, verdes e amarelas. E então vamos? -  Disse. Com sua cabeleira vasta e caindo na testa, cantava a pleno pulmões – Avançam as patrulhas, ao longe, ao longe! Adeus meus amigos, ou melhor, até breve, eu voltarei, disse ele olhando os pássaros, a mata, o riacho e não viram mais nada.

            Arrumou sua mochila, sempre com calma e bem arrumada nas costas gritou! - À frente tropa! Bandeiras ao vento! Marche! E lá foi ele a pé, os outros a cavalo levando a mula que ele tinha alugado. Em hora nenhuma reclamou. Agradeceu a oferta de ir a cavalo. Andava como uma lebre. Incrivel pensavam. Mais acima dois quatís acompanhavam e mais ao longe dois lobos guarás do rabo curto também. Uma passarada foi com eles até a cidade. Uma figura o chefe Zéze. Dizem que na cidade todos bateram palmas. Os pássaros quando ele entrou no automóvel do filho, cantaram alto.

            Mas o que houve com ele? Perguntei ao distrital. Olhe, soube pela esposa que tinha um livro e anotou tudo que aconteceu. Uma especie de diário. Ela me emprestou. Xeroquei. Vou te dar uma cópia. Ele ainda vive. Está com 91 anos. Não usa mais sua máquina para inalar. Não toma mais remédios. Ainda anda cinco quilometros por dia. Voltou ao Grupo Escoteiro. Ele hoje é chefe Senior e dos bons. Fui para casa e nem bem cheguei “apoitei” em minha poltrona favorita. Lí com sofreguidão e pressa tudo o que o "Velho" Escoteiro escreveu.

            Que doce leitura. Linda. Que aventura! Que inveja do chefe Zezé. Quanto daria para estar no lugar dele. Querem conhecer o diário? Saber o que  ele escreveu? Não sei. Não sei se devo. Mas olhem, não dá para esconder. Vivam comigo essa explêndida historia de um "Velho" que se transformou através de um acampamento só dele. Cheio de amigos, amigos que todos nós gostariamos de ter. Amigos sinceros, leais, sem interesses, e que não ficavam azucrinando com aquelas palavras chatas que ouvia. "Velho" gagá, babão, seu lugar é em casa. Não invente!

        - Quinta feira, nove de outubro de 2010 – Preparei tudo. Meu plano fora traçado. Combinei com um chapa carregador de malas, para colocar um chapéu parecido com o meu, e levar minha mochila até o ônibos combinado. Assim ele fez. Fingiu que entrava e deu meia volta. Escondeu-se em outro ônibos cujo motorista era amigo dele. Embarquei duas horas depois. Não fui para a Serra da Serpente. Sabia que iriam me monitorar. Queria liberdade.

       - Sexta feira, dez de outubro de 2010 – Cheguei à cidade de Catuava, e lá aluguei uma mula. Para 20 dias. Arrumei tudo e parti para a Serra do Canta Galo. Vi em mapas e li sobre ela. Linda. Achei um local maravilhoso. Um pequeno bosque, mais ao longe uma mata linda, próximo uma cascata, águas limpídas, bem arejada. Neste dia montei minha cabana. Ficou “joia” Toda de galhos e folhagem verde. Dava para ficar em pé. À tarde construí uma mesa e o fogão suspenso. Que saudades das que eu fazia no passado. Uma fossa de liquido, outra de detrito e retirado uns 50 metros um WC. O vento soprava do meu campo para ele. Era um verdadeiro campo de patrulha.

         Almocei lingüiça na brasa. Dois pães. Um suco. Mais tarde fiz um café. Saudades do meu café mateiro. Atrás de umas folhagens avistei dois quatís. Olhavam-me espantados. Sorri e eles se aproximaram. Daí para frente seriam meus amigos de todos os momentos. Notei que um pássaro preto me encarava. Sorri para ele. Ele cantou uma canção noturna. Outros pássaros se aproximaram. Comecei a conversar com eles. A noite chegou. Uma coruja veio e pousou no meu ombro. Arrumei alguns galhos e fiz uma fogueira.

         Foi minha primeira noite. Antes de dormir lembrei que não tinha feito minha inalação e nem tomado meus remédios. Não sei por que não sentia falta. Não usei mais. Sentia-me bem. O ar entrava em minhas narinas de maneira agradável e apetitosa. Como respirava bem. O sono veio. Nem olhei as estrelas, nem a brisa gostosa que soprava. Deitei e dormi não sem antes agradecer a Deus pela vida maravilhosa que me dava. Há muito tempo não dormia assim. Que sonhos lindos. Que canções lindas. Acordei com o cantar da passarada na mata.

         Os dias foram passando. Eu não queria contar. Estava vivendo os mais belos dias da minha velhice. Horas? Não tinha interesse. Não levei relógio. Celular. Radio. Nada. Minha ração começou a acabar. Achei na beira do riacho uma boa plantação de “taioba” adorava taioba. Comi taioba por três dias. Um pequeno remanso e vi trairas e lambarís bocarra. Lindos, fáceis de pegar. Peixe frito no almoço e na janta. Um pé de maracujá. Minha sopa preferida. Depois dois pés de mamão carregados. Maduros e verdes. Vagem mais abaixo do riacho. Amigos alí era um édem. Poderia ficar a vida inteira neste paraíso.

         Não sei como, a tarde um casal de capivaras apareceu. Ficaram em volta do meu campo por dois dias. No segundo nasceram três capivarinhas. Um espetáculo incrivel. Mas o melhor mesmo foi à amizade que fiz com dois lobos guarás. Eles me seguiam aonde ia e o pássaro preto nunca me abandonou. Uma tarde vi um homem a cavalo. Ví que minha privacidade tinha acabado. Dito e feito. Fui encontrado. Deixei lá meu amigo pássaro preto, a coruja “buraqueira”, que me acompanhou todas as noites quando deitava na relva e ficava a imaginar como seria o universo.

          Valeu. Disseram-me que foram quinze dias. Dias maravilhosos. Quantos amigos eu fiz lá. E olhe só eu falava e eles educadamente me ouviam. Ainda vou voltar lá, O caminheiro e a Midiata, nome que dei aos lobos guarás eu sei que estarão lá me esperando. Quando chego à janela, olho no horizonte e lá estão na castanheira em frente a minha casa, os sabiás que cantavam na serra e hoje cantam para mim todas as tardes. Sei que acham que sou louco. (Risos) não sou. Que pensem assim. Não me importo. No próximo verão irei voltar. Saudades da minha serra querida, dos meus amigos, bons tempos que não quero que termine nunca mais.

          Fiquei ali na minha poltrona por muito tempo. Parecia um conto inexplicável, contado de uma maneira tão simples, tão pulcra, que muitos iriam dizer que se tratava de uma fábula. Que seria uma história inverossimel mal contada e que o chefe Zezé nunca existiu. Lembrei-me de uma fábula que tinha lido a muitos e muitos anos.

             Um jovem mochileiro chega a um pacato vilarejo cercado por correntezas. Toda casa ou construção do vilarejo possui uma azenha construída dentro dela. O viajante encontra um velho ancião da vila, muito sábio, que está consertando a roda quebrada de um moinho. O ancião explica que as pessoas do seu vilarejo decidiram há muito tempo atrás abrir mão da influência poluidora da tecnologia moderna e retornar para uma sociedade mais feliz e limpa.

          Eles escolheram a saúde espiritual a despeito da conveniência, e o mochileiro fica surpreso e intrigado com esta noção. No final da seqüência que é também o final da fábula, a procissão de um funeral de uma mulher ocorre no vilarejo, que ao invés de estar de luto, celebra contentemente o propício fim de uma boa vida.
        O ancião, que até então conversava com o jovem viajante, resolve acompanhar a procissão, não sem antes contar-lhe sobre algo que o jovem presenciou ao entrar na vila - crianças colhendo flores e colocando-as sobre uma pedra ao lado da trilha. O ancião diz que há muito tempo um homem havia morrido ali depois de muito sofrer, e desde então o ato de colocar flores sobre a pedra debaixo da qual foi sepultado se faz uma tradição do vilarejo. O viajante se despede do lugar repetindo o gesto das crianças.

      Não sei se me fiz entender. Acho eu que o chefe Zezé encontrou o seu lugar. Uma expécie de Shangri-lá. Não era a cidade lendária descrita no conto de James Hilton, na sua novela Horizonte Perdido onde todos nunca envelheciam. Mas lá na serra do Canta Galo o Chefe Zezé encontrou sua fonte da juventude. Descobriu que lá em plena natureza e junto aos pássaros e animais amigos, ele continuaria eternamente no vigor da sua mocidade, ou melhor, da sua adolescência.

      Eu gostaria de encontrar um lugar assim na minha velhice. Um Xangri-lá, onde pudesse viver como se vive em um paraíso. Onde ninguém fenece ninguém fica "Velho" e quem sabe eu possa encontrar também uma montanha e lá viver junto à natureza o que o chefe Zezé viveu.

          Saudades de tudo. Saudades da minha infância. Saudades da minha terra, da minha juventude, das minhas aventuras escoteiras. Tempos que se foram e nunca mais vão voltar. Mas eu luto até hoje para não só eu e sim todos os participantes da fraternidade escoteira, que encontrem seu xangri-lá, sua terra de sonhos. Eu acho que encontrei o meu. No maravilhoso mundo do escotismo onde todos podem  sonhar e realizar seus sonhos!

Nessa vida de mistérios

onde tudo pode acontecer,
eis que depois da tempestade,
na luta constante prá sobreviver,
encontramos um mundo,
onde a bonança haverá de se fazer…



Nossa dor, às vezes nos arrasta,

nos faz perder a esperança,
mas não desistamos,
pois um dia encontraremos
a paz que tanto buscamos…
Nesse mundo de ilusões,
de fantasias, de sonhos guardados
eis que avistamos ao longe
um caminho,
que nos trará felicidade
Shangri-la, terra de sonhos
onde o tempo não passa,
e somente alegria se faz…
um horizonte perdido,
que buscamos ao longo da vida
onde a felicidade se perpetuará.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Era uma vez... Uma onça pintada guia de um Escoteiro cego.


Lendas escoteiras.
Era uma vez... Uma onça pintada guia de um Escoteiro cego.

            Quando eu batia palmas no portão de sua casa para entregar alguma correspondência eu ouvia o barulho da bengala de Joel Fantin. Não sei, mas acho que tínhamos a mesma idade. Eu sabia que ele agora trabalhava nos correios e quando conseguiu o emprego se transformou em outro homem. Eu também trabalhava lá como carteiro. Conhecia um mundão de gente, mas Joel Fantin era único. Era cego, ou seja, um deficiente visual. Perdera a visão há oito anos atrás. O que me contaram eu entendi que foi uma fatalidade. Joel era Escoteiro. Entrou como lobo com oito anos. Quando passou para a tropa resolveu subir em uma árvore. Natural todo menino sobe em árvore, mas com Joel foi diferente. O galho seco não lhe deu sustentação e ele caiu de costas batendo a cabeça em um tronco. Levado ao hospital os médicos viram que ele perdera a visão. Cidade pequena sem recursos, Joel vivia com seu pai um carroceiro que fazia entrega de areia retirada do Rio Pombo.

              A mãe de Joel morrera quando ele nasceu. Um parto mal feito. O pai de Joel não sabia o que fazer. Um filho de treze anos cego? Como cuidar dele? Interessante que em tempo algum Joel perdeu a esperança. Mesmo sem enxergar tinha um sorriso nos lábios. Sua Patrulha a Onça Parda lhe deu todo apoio. Em conselho de patrulha ficou determinado que pela manhã, à tarde e a noite sempre um da patrulha iria a sua casa ajudar nas tarefas e conversar com Joel. As outras patrulhas também fizeram o mesmo. Era comum chegar a sua casa e encontrar quatro ou oito Escoteiros a brincarem e conversarem. O Senhor Juventino seu pai quando chegava e encontrava tudo arrumado, jantar pronto, e vários Escoteiros ele se emocionava. Nunca pensou que eles por muito tempo dessem o apoio que sempre deram. Aos sábados alguém o levava a reunião. Quando ele quis ir aos acampamentos a chefia ficou em polvorosa. Ninguém sabia como agir ou fazer. Joel foi, esticaram um sisal por onde ele precisaria andar no campo de patrulha. Da cozinha a barraca, da barraca a mesa de refeições e até o WC atrás do campo de patrulha.

               O tempo foi passando e Joel quando fez dezessete anos seu pai faleceu vitima de uma dengue hemorrágica. Só souberam que era dengue depois de morto. Desta vez Joel chorou. Agora não sabia o que fazer. Cego e sozinho mesmo com ajudas dos seus irmãos Escoteiros seria uma “barra” para enfrentar. Uma semana duas e mesmo com a presença dos Escoteiros em sua casa ele nada dizia. Seus olhos que não viam nada ainda tinham lágrimas que caiam sem cessar. Joel pensou em tirar sua vida e quem sabe ir morar com sua mãe e seu pai no céu. Tirou logo da cabeça este pensamento. Se até hoje ele enfrentou a vida e nunca desistiu porque desistir agora? Joel sorria quando os Escoteiros chegavam. Mas ele sabia que cada um deles tinha sua família e não iriam ficar com ele para sempre. Ninguém nunca me contou os detalhes, mas fiquei sabendo que Joel Fantin foi a um acampamento na Serra do Falcão. Para ele não havia dia ou noite, pois vivia em completa escuridão.

            Nos acampamentos não demorava muito para Joel Fantin decorar cada passo e onde podia ir. Era no campo que ele se completava. Gostava de sentir o orvalho na pele, do vento soprando sobre ele, do som que ouvia da passarada e do canto da cotovia. Ele tinha ideia de como eram as estrelas no céu, de como era uma lua cheia, mas estas visões aos poucos estavam sendo esquecidas. Em contra partida seus sentidos de audição e olfato se transformaram. Qualquer som ele sabia o que era o cheiro da terra, o cheiro do lago, das árvores e da sopa de Marcelinho um cozinheiro que fazia estalar a língua nas refeições. Tudo aconteceu na ultima noite após o Fogo de Conselho em que ele participou de um esquete com a patrulha. Não se sabe como eles se esconderam atrás de uma árvore para serem chamados pelo Monitor e cada um iria apresentar uma piada para quando todos tivessem terminados rolassem no chão de tanto rir. As piadas eram sem graça, mas quando rolavam no chão a tropa também rolava de rir com eles.

            Quando Joel Fantin foi chamado ele não veio. Não é possivel pensou o Monitor, ele estava sentado atrás do castanheiro e tão perto da ferradura que não tinha como se perder. Nesta hora todos abandonaram o fogo e partiram a procurar seu patrulheiro naquela noite escura e sem luar. Duas horas depois ouviram um apito e todos acorreram para lá. Um susto tremendo, nunca viram tal coisa – Joel Fantin estava sentado acariciando uma enorme onça pintada. Grande, mais de 160 quilos, robusta e eles sabiam que a potencia de sua mordida era considerada como a maior entre os felinos de todo o mundo. A onça balançava a cauda como se estivesse gostando das carícias de Joel Fantin. Ninguém disse nada, assustar a onça podia haver uma alteração de amizade com a crueldade com que ela estava a agir no momento. Joel Fantin ouviu os sons de seus amigos e os chamou – Podem aproximar, ela me disse que não fará mal a ninguém.

        A maioria não foi, mas sua patrulha a Onça Parda sabia que devia considerar o nome que escolheram e foram até lá. Dizem que os sorrisos as alegrias e o ronronar da onça foi de perder o folego. O Chefe estava lá e não acreditava baixinho chamou todos para retornar ao acampamento. A onça pintada foi atrás. Uma amizade incrível aconteceu entre ela e Joel Fantin. E quando me contaram o desfecho da história eu não acreditei. Sei que o Escoteiro tem uma só palavra, mas aquela história era inverossímil demais para mim. Eles levaram no ônibus a onça pintada, ela foi morar com Joel Fantin e agora era sua guia por toda a cidade. O próprio Chefe que era carteiro e me contou disse que Joel Fantin morrera com mais de 90 anos e a onça viveu com ele até o seu ultimo dia na terra. Eu sabia que uma onça tem no máximo 25 a 35 anos de vida e isto reforçava minha incredulidade na história. Foi então que o Chefe ligou sua TV e colocou em um aparelho um DVD onde mostrava tudo que um dia aconteceu entre Joel Fantin e sua amiga a Onça Pintada.


        Histórias são histórias, alguns acreditam outros não. Eu conheço centenas de historias algumas vi com meus próprios olhos que a terra há de comer, outras foram causos contados nos acampamentos e nas clareiras de uma floresta qualquer. Para dizer a verdade não queria contar esta, pois todos vão duvidar e eu não posso provar. Portanto só posso dizer antes de terminar que “boi não é vaca, feijão não é arroz e quem quiser acreditar que conte dois”!


sexta-feira, 2 de maio de 2014

Takala, o vira latas que só sabia amar.



Lendas escoteiras.
Takala, o vira latas que só sabia amar.

“Recolha um cão de rua, dê-lhe de comer e ele não morderá: eis a diferença fundamental entre o cão e o Homem”.

            Ele tentava entender o porquê, mas era um cão, um mísero cão vira lata que achou que tinha um lar para morar. Cão não fala e dizem que não pensam. Ele nem mesmo raciocinava quando ela o jogou pela porta do carro no meio da rua naquela tarde fria e com uma chuvinha intermitente. Pensou que era uma brincadeira apesar de que ela nunca brincou com ele. Batia sim, chutava seu corpo e um dia lhe deu varias varadas porque ele queria fazer xixi e a porta estava fechada. Tentou correr atrás do carro de sua dona, mas já era Velho demais para isto. Logo ela sumiu em uma esquina e ele perdeu o carro de vista. Ficou parado no meio da rua e vários carros desviando e por pouco não foi atropelado. Alguém lhe deu um chute e ganindo correu para o passeio debaixo de uma marquise. Ele ficou ali por pouco tempo todos que passavam lhe davam um ponta pé ou gritavam com ele. Molhado ele gania de frio. Não sabia o que fazer. Nunca passou por isto, nunca.

           Takala não sabia quando era feliz ou quando estava triste. Era um cão um vira lata com mais de doze anos. Sempre vivera perdido em um sitio pobre e quando o menino da cidade começou a brincar com ele sua vida rejuvenesceu. Ele nem entendeu porque sua mãe o deixou levar para sua casa. Durante meses foi feliz enquanto ele estava junto. Brincavam corriam e Takala se sentia outro. Um dia o menino sumiu. Sua mãe chorando pelos cantos. Ele não sabia o que houve, pois era um cão vira lata e cão vira lata não pensa. Quando ela o pegou pelo rabinho e o jogou no carro ele não entendeu nada muito menos quando ela o jogou porta afora. O que fazer? A chuva apertava cada vez mais. Correu pela calçada até encontrar um viaduto. Ali escondeu em um buraco pequeno, mas que ninguém poderia bater nele. A fome chegou. Comia pouco, pois sua dona não lhe dava quase nada só o menino que sumiu. O dia clareou e a chuva passou. Precisava encontrar comida e água. Ainda havia algumas poças que ele saboreou.

        Começou a passear pelas arvores e flores que havia em baixo do viaduto. Viu do outro lado da rua um menino assoviando para ele. Sorriu. Será que terei um novo dono? O menino o chamou. Estava vestido de azul com um lenço no pescoço. Para Takala a roupa pouco importava ele queria era um dono amigo, que gostasse dele. Correu atrás do menino e eles ficaram brincando de pega, pega e o menino de azul sorria a mais não poder. Chegaram a um portão. Takala sabia que não o deixariam entrar. Sempre foi assim, cão vira lata ninguém gosta e ele nunca teve pedigree. O menino de azul entrou e o portão fechou. Takala ficou ali, pois pensava que alguém poderia lhe dar alguma coisa para comer. Algum tempo depois o portão se abriu e apareceu o menino de azul sorrindo o chamando para entrar. O rabinho de Takala nunca balançou tanto. Ao entrar viu muitos meninos de azul, de chapéu todos gritando e sorrindo. O menino de azul o levou até uma cobertura. Fez sinal para ele ficar ali.

       Outros meninos e muitas meninas de azul se aproximaram de Takala. Ele sorria nunca pensou em ter tantos amigos. Latiu, um latido fraco quase mudo. Vários meninos correram e trouxeram comida para ele. Era muita comida ele nunca viu tantas assim. Comeu e quando comia levantava a cabeça com medo de um chute de um tapa, pois sua dona sempre fazia isto. Já escurecia e os meninos estavam indo embora. O menino de azul veio com uma moça e Takala viu que conversavam muito. O levaram até um galpão coberto e aberto na laterais. O menino de azul mostrou para ele um pequeno capacho, uma vasilha d’água e muita comida encostada a parede. O pegou no colo e o beijou. Takala viu que seu coração batia. Nunca ninguém o beijara. Ele ficou ali naquele galpão, pois agora era seu novo lar. Sempre a esperar que o menino de azul chegasse.

     Um dia eles chegaram cedo. O sol mal tinha nascido. Takala sorriu, pois ele agora amava aqueles meninos e meninas de azuis. O seu amigo o pegou no colo e entrou com ele em um ônibus. Takala tremeu, de novo não! Pensou em latir, em morder e só o medo de ser jogado pela porta de novo o fez calar. Fechou os olhos embaixo da poltrona. Ele não sabia rezar, mas seu instinto o alertava para tudo. Durante horas ele ficou no ônibus tremendo de medo. Quando chegaram foi uma algazarra, todos correndo e Takala correndo atrás deles. Nunca Takala o vira latas foi tão mimado, tão cercado de amigos e a noite ele uivava para a lua como a dizer – Agora eu sou feliz, pois posso amar... No terceiro dia ele correu atrás do seu amigo de azul que se embrenhou em um bosque. Takala adorava aquela brincadeira. Sentia seu coração batendo, seu corpo tremendo, mas ele sabia que não podia parar. Correram tanto que uma hora ele deitou. Uma dor incrível no seu coração. Coração velho de vira latas que só sabem amar.

      Ao seu lado o menino de azul ria e rolava no capim verde chamando Takala. Ele não aguentava mais. A dor era muito forte. Viu uma serpente enorme se enroscar para dar o bote no menino de azul. Ele sabia o que era uma serpente, pois quando jovem seus donos corriam delas no sitio em que morou. Takala fez um esforço enorme. Levantou gemendo, pulou em cima da serpente latindo fraco, respiração ofegante. A serpente o mordeu na sua jugular. O menino de azul saiu correndo chamando a moça que tomava conta. Vieram vários. Não encontram a serpente e nem Takala. Os meninos e as meninas de azuis choravam. Ao voltar para a fazenda viram ao longe uma serpente e um cão lutando. Correram até lá. Tarde demais. Takala estava morto, mas conseguiu matar a serpente. Aquela noite nunca se viu tantos meninos e meninas de azul a chorarem. Custaram para dormir.

      De manhã uma surpresa. O sol brilhava nunca se viu tantos pássaros no céu. Uma revoada sempre acontecia em cima deles. A moça amiga do menino de azul fez um lindo esquife verde. Ela reconheceu que Takala foi um herói e precisava ser homenageado. Onde seria a cerimonia fúnebre fizeram um grande círculo. Para um simples vira lata Takala teve honras de estilo. Quando o cobriram cantaram uma linda canção. Para os Escoteiros era conhecida - A Canção da Despedida. Takala não sabia o que era esta canção, sentado perto dali estranhava que ninguém o via. Só o menino de azul que sorria para ele. Viu em uma nuvem branca uma grande Vira Latas branca, sorrindo para ele, focinhos com focinhos ela e ele deixavam as lágrimas de alegria cair. Ela deu um latido leve e correu pela nuvem, Takala correu atrás dela e sumiu no horizonte azul. O menino de azul também chorava e ao chamado da moça todos ficam firmes e fizeram uma saudação que Takala já conhecia. Era o Grande Uivo. Feito em homenagem a Takala, um vira latas que só sabia amar e foi para o céu.


- “A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de carácter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem. A compaixão por todos os seres vivos é a prova mais firme e segura da conduta moral.”
- “O Homem tem feito na Terra um inferno para os animais”.

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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