quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Maneco Cozinheiro, o Escoteiro azarado e trapalhão.


Vale a pena ler de novo.
Maneco Cozinheiro, o Escoteiro azarado e trapalhão.

        A patrulha não sabia mais o que fazer. Maneco tinha um sorriso encantador, mas era um perfeito azarado e porque não dizer desastrado. Lilico o Monitor tentou e tentou e nada. Deu conselhos, ficou ao lado dele, mas parecia que o azar o perseguia. - Chefe! Não dá mais. Se ele continuar na patrulha não ganhamos uma. Ontem mesmo quando o senhor deixou que o chamássemos para o cerimonial ele deu um belo sorriso e depois aprontou aquela. “Aquela” foi um “pum” que de tão alto fez todos gargalharem na ferradura. O Chefe Luiz pensou e pensou. Não era a primeira vez. Maneco cozinheiro além de aprontar sem querer era mesmo um azarado. A patrulha quando ele entrou se divertia com ele. No primeiro acampamento lá foi ele para o “Miguel” e em vez de ter folhas preparadas pegou logo um punhado de urtigas. Deus do céu! Ele gritou feito um louco e por toda a noite não dormiu e não deixou ninguém dormir.

        Aos poucos Maneco cozinheiro foi se integrando a patrulha, mas sempre aprontando. Por sorte ou azar o colocaram como bombeiro/aguador e ele se achava o máximo. Contava para todos que seria o futuro Cozinheiro, pois seu cargo atual na escala hierárquica o próximo seria ele. Todos sabiam que se isto acontece à patrulha ia para o brejo. Maneco Cozinheiro nem sorte tinha. Sua mochila nas marchas de estrada mesmo levando quase nada quebrava sempre as alças. Lá estavam todos para ajudar a costurar. Quando o Comissário Fugi Moto compareceu em um acampamento aceitou o convite de sua patrulha para almoçar. Todos assustados sabiam que Maneco ia aprontar e não deu outra. Todos sentaram nos bancos em volta de mesa e quando ele foi sentar apoiou na mesa e ela veio abaixo. Os pratos esparramados com o almoço pelo chão. Não havia repetição e as demais patrulhas dividiram com eles. Fazer o que? O próprio comissário Fugi Moto riu a valer e achou que isto acontece com todo mundo. Ele não conhecia Maneco Cozinheiro.

                  Pintassilgo era o cozinheiro mor da patrulha. Batuta, um grande cara e um excelente cozinheiro. Fazia milagres com pouca coisa. Saia pelos campos e voltava com um bornal cheio. Sorria e dizia – Comida para dois dias! Ele salvava a patrulha no campo. Podiam perder jogos, inspeção, podiam perder em tudo, mas na cozinha Pintassilgo dava show. Um dia chegou chorando na sede. – Turma, minha mãe vai para a capital, ela quer achar meu pai que sumiu! Careca o sub não acreditou. Perder Pintassilgo e ganhar Maneco Cozinheiro? Que bela troca! Mas não teve jeito, uma semana depois Pintassilgo despediu de todos e foi embora. Jurou que um dia voltaria. Deste que Pintassilgo deu a notícia que Maneco Cozinheiro sorria de orelha em orelha. Fizeram um Conselho de Patrulha. Ele tinha de participar também. Discutiram, discutiram e não teve jeito, Maneco Cozinheiro foi empossado. O mundo desabou em cima dos Corujas. Agora estavam perdendo em tudo.

                No primeiro acampamento os patrulheiros choraram. O arroz queimado. O feijão duro, o bife sem tostar e sangrando. Batatas fritas? Só na terra dele. Perna Curta o Monitor procurou o Chefe – Não dá Chefe, ou mude ele de patrulha ou a nossa não vai ficar ninguém. Chefe Pascoal não sabia o que fazer. Já sabia das aventuras de Maneco cozinheiro e suas trapalhadas. Sempre achou que o tempo iria ajudar e ele ia se incorporar a patrulha. No final de acampamento todos viraram as costas para Maneco Cozinheiro. Ele foi para a casa chorando. Sabia que fez tudo errado, devia ter pedido a sua mãe para ensiná-lo e não fez isto. Achou que olhando Pintassilgo bastava. Pensou em sair do escotismo, quem sabe seria melhor para todos?

                 No sábado seguinte voltou à sede e na bandeira pediu a palavra - Chorando disse que estava saindo do escotismo. A patrulha sorriu os demais disseram baixinho – Graças a Deus. E não é que o Chefe Pascoal tomou as dores dele e não o deixou sair? Devia ter deixado, pois o mastro da bandeira se partiu e caiu na cabeça do Chefe! Bem feito disseram todos. Todos sabiam que ele o Maneco Cozinheiro era mais azarado que Chico Feliz. O danado não era Escoteiro, fez um jogo na sena ganhou e cadê o jogo? Sumiu! Todos seus amigos sabiam dos números que ele jogava, mas não adiantou. A Caixa não pagou. O Chefe Pascoal chamou os monitores. Explicou sua atitude que mesmo razoável não convenceu. Maneco Cozinheiro sabia que todos eram contra ele. Sabia que eles estavam certos. Foi para a casa e passou cinco dias lá trancado no seu quarto pensando.

                  Mandou um recado para a patrulha e o Chefe. – Preciso de uma licença de sessenta dias! Todos aceitaram pulando de alegria menos o Chefe. No tempo determinado Maneco Cozinheiro retornou. Quem o visse não acreditava. Cabelos longos presos por um elástico tipo rabo de cavalo. Porte de atleta, muito bem uniformizado e sempre sério, quase não sorria. A patrulha sentiu força nele. No acampamento deu o maior show. Fez um arroz de forno (o forno ele mesmo construiu) um feijão tropeiro e as batatinhas fritas eram demais. As demais patrulhas ficaram estupefatas. À noite na conversa ao pé do fogo o Monitor Perna Curta insistiu com ele que contasse o que aconteceu. Maneco Cozinheiro sorriu. – Meu Monitor um milagre. Como ele aconteceu fica somente entre Deus e eu. – Todos riram e bateram palas para Maneco cozinheiro. A Patrulha Coruja nunca mais foi à mesma. Ganhava tudo, era a melhor sempre. E a comida? Nota dez!


                  Maneco Cozinheiro nunca contou que procurou o Professor Sabe Tudo. Abriu-se com ele. Ele sorriu. Ficaram juntos por dois meses e ele ensinou tudo que sabia sobre como conquistar as pessoas. Fez questão que seu Filho um famoso cozinheiro que fez curso na França lhe desse umas aulas. O resto sua mãe terminou. Em casa desenhou fogões, fornos, tipos de fogos e ficou bamba treinando no seu quintal. São coisas que só aqueles que acreditam em mudar acontece. Ninguém é só aquilo que outros veem. Em cada um de nós existe outro eu. Maneco descobriu o seu. Há cinco anos folheando uma revista enquanto esperava minha vez no dentista, vi uma foto que me chamou atenção. Era Maneco Cozinheiro em um concurso de cozinha em Paris. Tirou o primeiro lugar. De um cozinheiro Escoteiro para um cozinheiro internacional. Como dizem por ai? – São coisas de Escoteiros!  

Pequenas historias de Mowgly. Uma pequena viagem no Livro da Selva.


Pequenas historias de Mowgly.
Uma pequena viagem no Livro da Selva.

- Finalmente chegou à noite da lua cheia e o Pai Lobo e Mãe Loba levaram seus filhotes e junto com eles, Mowgli para a Roca de Conselho. Lá, sentados em cima de uma pedra alta, estava o Akelá, o Velho Lobo solitário que há alguns anos estava dirigindo a Alcatéia, respeitado por sua força e astúcia. Houve pouca discussão na Alcatéia e um por um os novos filhotes estavam sendo apresentados, levados a frente pelo Akelá.

- Vós conheceis a Lei! Olhai bem o Lobo! Olhai bem! E assim finalmente chegou a vez de Mowgli. O Pai Lobo o empurrou para o centro do círculo.   O Akelá, sem olhar, repetiu o seu “Olhai bem, ó Lobos” quando de repente ouviu-se a voz do tigre manco. - Esse filhote de homem é meu! Que tem o Povo Livre com o filhote de homem?  

- Alguns dos Lobos acharam justa a pergunta do tigre, afirmando que o filhote de homem não tem nada a ver com a vida na Alcatéia. Surgiu um pequeno tumulto. Nos casos de dúvida, manda a Lei que para alguém ter direito a ser admitido na alcatéia, tem que ter dois votos em seu favor.

- Quem se apresenta para defender este filhote?   – Akelá perguntou. Não houve resposta e Raksha já se preparava para uma luta de morte, caso o incidente fosse resolvido contrário ao que seu coração pedia. O único animal não lobo que tem direito a palavra no Conselho é Baloo, o velho urso que ensinava os pequenos lobos a Lei do Jângal. E então ouviu- se a voz do urso.

- Eu sou a favor do filhote de homem, não vejo mal nenhum que ele possa causar permanecendo entre nós. Baloo lhe ensinará as Leis da nossa vida e futuramente ele
Poderá ser um grande e de grande utilidade para nós. Mas faltava uma voz a favor de Mowgli. De repente uma grande sombra preta atravessou o círculo: era a pantera negra, Bagheera. Todos a conheciam e se afastaram do seu caminho por muito respeito a sua força.

- Akelá, direito eu não tenho de falar neste Conselho, mas a Lei do Jângal diz que se na dúvida quanto à vida de um filhote, esta vida pode ser comprada por certo preço. Pois eu ofereço esse preço pela vida do filhote de homem –os lobos pediram para Bagheera continuar – é uma vergonha matar um indefeso filhote de homem que mais tarde, como falou Baloo, pode ser de grande utilidade para todos nós.

- Ofereço pela vida dele um touro gordo que acabo de matara uma milha daqui. Aceitam minha proposta? Houve um clamor de vozes e todos aceitaram a oferta de Bagheera. E dirigiram-se para onde estava o touro gordo. Ficou só Shere Khan urrando de raiva e despeito:
- Urra, urra! Urra que o tempo virá que esta coisinha pequena te fará urrar noutro tom.

Muitos anos depois...

- Mowgly de repente lembrou-se das estranhas palavras ditas por Akelá antes de morrer... - Não, não sou homem, sou da Jângal – pensou. De longe apareceu a búfala selvagem Mysa e com desprezo respondeu a búfala. - Não é homem, não, é sim o lobo da Alcatéia de Seeonee. Em noites como essa costuma errar pela Jângal. Mysa perguntou se Mowgli estava em perigo. Mas este em resposta cutucou-a com a ponta da faca, para ver se ainda tinha poder para enfurecer o animal. - Não fique bravo, Mysa, com esse pequeno arranhão. Podes tu indicar onde há um antro de homens aqui por perto? Desconheço essa Jângal. - Segue para o Norte – rugiu colérico o búfalo – vai para lá e conta aos da aldeia a tua má ação junto a esta búfala. Mowgli deixou Mysa e a sua companheira pela beirada do pântano, quando voltou para a Alcatéia de Seeonee. Muito tempo se passara desde que Mowgli viu a Alcatéia dos homens.

Mas nesta noite algo o atraía nesta direção. Mesmo lembrando-se que fora expulso da aldeia por Buldeo, chegou-se a porta de uma cabana e viu uma mulher botando uma criança para dormir falando baixinho. - Esta voz, esta voz... Eu a conheço! E para se certificar, chamou baixinho: - Messua, Messua. - Quem me chama? – indagou a mulher. - Já se esqueceste de mim? – perguntou Mowgli, com a garganta curada – Nathoo – respondeu ele. Pois como todos sabem, foi este nome que dera quando o encontrara pela primeira vez. - Venha meu filho. A mulher o chamou, e Mowgli veio e pôs os olhos naquela que tinha sido boa para ele e que ele salvara da raiva e dor da aldeia. Era ela bem mais velha. E ela também se espantou vendo este homem feito, alto, forte, forte e belo, e que era seu filho. - Tu és meu filho, porém parece mais um deus da Jângal. Que queres comer ou beber? Tudo aqui é teu. A ti devemos a vida. Messua contou a ele toda a sua vida, desde que foram expulsos daquela aldeia e vieram para este lugar.

- Encontraram esta casa e trabalharam no campo para ter o que comer. O marido dela morreu há um ano e ela ficou com uma criança de duas chuvas. Messua então pediu que se Mowgli fosse Nathoo, que o tigre raptara que ele recebesse aquela criança como irmão e que desse a benção do irmão mais velho. - Eu? Que se eu disse que chamas a benção? Não sou nem Deus, nem seu irmão e... Mãe, mãe, meu coração está pesado dentro de mim. - É febre – disse Messua, e deu-lhe algo quente para beber e ao mesmo tempo batia-lhe carinhosamente no ombro como se fosse um bebê, conseguindo acalmá-lo. O leite quente fez efeito no organismo cansado de Mowgli, deitando e dormindo em instantes, mergulhando num sono profundo. Dormiu ele à moda da Jângal...

E a história continua...

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Doninha.


Doninha.

Não tive dúvidas. Era Doninha sem tirar nem por. Pois é, as voltas que o mundo dá estavam agora vivas na minha mente. Era normal. Eu agora sentia o efeito delas. Pensei em fugir dali. Afinal eu era culpado? Aproximei-me. Posso sentar ao seu lado Doninha? Um sorriso triste, apagado, sem vida. – Sente-se Monitor. – Assustei. Como ele sabia que era eu? – Não quis perguntar e me sentei ao seu lado no banco verde, naquela praça florida local de muitas idas e vindas na minha jornada da vida. Ficamos ali os dois calados sem nada dizer um ao outro. Ele envelheceu. Afinal tinha passado mais de 50 anos, mas para mim era como se fosse ontem. – Como vai Monitor? Bem Doninha disse com a voz engasgada. – Porque está triste Monitor? – Doninha usava uns óculos escuros e ao seu lado uma bengala bem trabalhada e tendo desenhado no cabo uma flor de lis. – Não estou triste Doninha. Faz parte da minha vida. – Pois é Monitor, quanto tempo se passou e vejo que você nunca esqueceu. Eu peguei minhas tristes lembranças empacotei e despachei para o Pico da Tristeza. Doninha riu mais alegre.

Não tinha voz e nem assunto para responder a ele. Minha mente voou no tempo, naquele fatídico dia que tudo aconteceu. Porque aceitei aquele jogo? Aquela fama de durão? Não devia ter sido amigo de todos e irmãos dos demais? – Monitor, ninguém irá embora da sua vida sem apagar as memórias até ensinar tudo àquilo que você precisa aprender! Olhei para ele atônito. Estava lendo meus pensamentos? – Doninha permaneceu calado. Olhava para longe como se estive no Pico do Redentor naquele inverno que eu e ele esperávamos ansioso o sol nascer. – Para mim Monitor foi o dia mais bonito em minha vida. A minha também. – Ainda Escoteiro Doninha? Não Monitor, depois daquela suspensão resolvi nunca mais voltar. Você lembra, tinha o escotismo em meu coração. Vibrava com tudo, era o primeiro a chegar e o último a sair. Hoje tenho saudades dos nossos acampamentos, excursões e nunca esqueci aquela jornada no Vale da Redenção. Meus olhos estavam vermelhos e as lagrimas começaram a cair.

Meu Deus! O que eu fiz? Achava que era um Salomão, e por voto de minerva aprovei sua suspensão. Cinco meses! Porque tanto? Ele não era um criminoso, não era um malfeitor. Lembro-me de tudo como se fosse hoje. A patrulha se reuniu e decidiram que Doninha não podia mais ficar na Touro. Sempre me perguntava se ele era culpado ou se outro Escoteiro por sentir inveja de suas qualidades não tentou incriminá-lo. Porque o Chefe Zafir não investigou melhor? Afinal nós éramos crianças, tomar tal decisão era demais. Afinal a Corte de Honra tem essas prerrogativas? E porque os pais de Doninha não procurou a chefia para saber o que ouve? Eram tantos porquês que eu sempre tive dúvida de quem estava com a razão. – Condenamos por uma simples traquinagem e eu depois fiquei sabendo que não foi ele. Trocou o sal pelo açúcar e deixou a intendência aberta onde perdemos todos os mantimentos trazidos. Duas ferramentas desapareceram. Porque ele não se defendeu? – Monitor, por que acusar alguém? Não seria ele mesmo que devia se declarar culpado?


Monitor, não se sinta responsável. Vocês eram oito e com os dois chefes dez participantes da corte. Mesmo com você me acusando os demais não precisavam segui-lo como seguiram. Poderia dizer hoje aqui, pois somos dois anciãos sem necessidade de mentir que nossa historia foi mal contada. Não fui eu! Poderia dar minha palavra escoteira, mas fiz isto e ninguém acreditou em mim. – Eu estava calado. Ajoelhei-me perante Doninha. Com meus setenta anos eu chorava a cântaros. Pedi perdão a ele. Ele me levantou, me abraçou e disse: Monitor, o tempo não volta mais, eu sei dos seus sentimentos e quer saber? Sempre tive você em meu coração. Muitas pessoas que passavam pela praça não entendiam o que se passava. Dois velhos de cabelos brancos se abraçando e um chorando. – Vamos tomar um café e relembrar os velhos tempos? Era demais para mim. Doninha me mostrou o verdadeiro caminho do perdão. Saímos abraços e fomos de bengala em punho a procura de uma nova redenção.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Patu o Caolho, o bandido cruel da Caverna do Morcego.


Vale a pena ler de novo.
Patu o Caolho, o bandido cruel da Caverna do Morcego.

          Passava das dez da noite e ainda estávamos papeando em volta do fogo comendo bananas assadas e tomando um delicioso café no bule que esquentava nas brasas da fogueira. Cortiço um sênior magro e alto, cabelos encaracolados estava em pé de costas para a floresta contando uma história fantástica. Cortiço tinha o dom da palavra, dos gestos e da imaginação. Todos nós da patrulha Serpente tínhamos admiração por ele. Nunca conheceu seus pais e foi criado pela Avó que lhe deu carinho e amor. Cortiço terminou dizendo: - Se quiserem podemos ir lá agora. Não é longe. Em nossas bicicletas é só atravessar O Pontilhão Negro da estrada de ferro, em menos de uma hora chegamos a Riacho Grande. De lá é fácil atingir a curva do Índio. Dizem que embaixo da pequena ponte de madeira do rio Amarelo as cavernas estão lá para quem quiser explorar!

         Um silêncio profundo se fez. Todos pensavam a mesma coisa. Será que iria valer a pena? A lenda que Cortiço poderia ser verdade ou não. Não seria fácil atravessar o Pontilhão da estrada de ferro. Não havia saída de emergência e se um comboio de minério aparecesse para não morrer todos tinham que pular no rio. E as bicicletas? Perder tudo? O que dizer aos nossos pais? – Vagonete o Escriba falou baixinho: - Uma aventura e tanto, mas atravessar a ponte? Se o fantasma do Patu o Caolho estivesse lá tudo bem, a gente já enfrentou fantasmas antes, mas a ponte era um desafio infernal. Pikitito que pouco falava concordou e foi mais além. – Se conseguirmos será a primeira vez que vou viver uma grande aventura. Orelhudo o Monitor não disse nada. Porteira o sub. riu baixinho. – Sei não disse – Se conseguirmos seremos os primeiros a aventurar em uma travessia mortal. Que eu saiba ninguém nunca tentou. Não deu outra, todos se levantaram, fecharam suas barracas com cipó bem preso para evitar bichos, vestiram seus casacos simples e sem ostentação, montaram em suas bicicletas e partiram. Eram dez e meia da noite.

                Contavam-se fábulas e relatos nem sempre verdadeiros de Patu o Caolho. Lá pelas bandas de Derribadinha e Riacho Grande ele era famoso. Seria o máximo se encontrassem com ele. Em meia hora avistaram pontilhão. Pararam na entrada. Nenhum som. Cada um olhou para o outro e o coração disparou. – Orelhudo pediu que usassem os cabos que usavam na cintura para amarrar uma bicicleta na outra. Se tivermos que pular pelo menos poderemos recuperar todas elas no fundo do rio. Nem bem se levantarem e ouviram o apito do trem. Sorriram. Se esperassem ele passar teriam alguns minutos para correr dentro do túnel escuro do pontilhão até o outro lado. O trem passou. Do outro lado do rio sorriram aliviados. Vinte minutos depois margeando o Rio do Peixe viram a entrada da caverna. Escura, fantasmagórica. A noite parecia a morada do demônio. Medo para eles era uma palavra que não existe.

               Levaram um lampião pequeno a querosene. Foi aceso e não iluminava mais que dois metros à frente. E daí? Era o suficiente. Pikitito ficou responsável para marcar o caminho. A certeza da volta sem sobressaltos dependia dele. Ele sabia de sua responsabilidade. Cortiço tentava recordara o que lhe contaram. Havia duas bifurcações na caverna. Uma levava a sala dos morcegos assassinos. Milhares deles. Quem chegou ali foi morto em segundos com suas mordidas fatais. A outra levava a um salão enorme. Diziam que Patu o Caolho morava lá com a sua winchester e seu parabélum na mão. Diziam que o teto da caverna era enfeitado de cabeças dos meganhas que ele matou. Pé ante pé eles desceram uma rampa e avistaram a bifurcação. Qual escolher? Na moeda? Não tinham nenhuma. Eram os seniores mais duros que existiam, mas para eles dinheiro nunca foi problema. Orelhudo mostrou que era o Chefe. Vamos pela direita! Falou. Ninguém disse nada e o seguiram.

              Quinze minutos depois uma visão do inferno. No salão, bem no meio, Patu o Caolho sentado à moda índia, de costas para eles falou baixinho – Aproximem-se! Eu sabia que vinham! Porteira que sempre ria queria chorar. - E agora? Pensou? O bandido vai matar um por um! Vagonete parecia ser o único a não ter medo. Aproximou-se do bandido e sentou ao lado dele. Um pequeno fogo um tropeiro simples e uma artimanha assando o animal qualquer. – Comam a vontade disse o Bandido. Parecia apetitoso. Pescoço tirou sua faca e tirou uma lasquinha. – No ponto pensou. Todos fizeram o mesmo. Ninguém falava. – Meia hora depois Patu o Caolho começou a falar: - Nunca fui bandido, Capitão Micunha da Policia de captura se “arrebicou” pela minha mulher. Não me respeitou como homem. Fui obrigado a cortar a garganta do meganha filho da mãe. Aqui escondi. De vez em quando um pequeno batalhão aparece. Era só fechar a entrada da direita e eles caiam direitinho no salão dos morcegos assassinos. Nunca escapou ninguém. Vou vez ou outra a noite até Derribadinha ou Riacho Grande para pegar mantimentos. Sem dinheiro era só dar uns tiros para o ar e o prefeito abria a porta do armazém sem reclamar.

              Orelhudo, Porteira, Pescoço, Vagonete, Pikitito, Cortiço e Pé de Chumbo da patrulha Serpente calados ouviam a história de Patu o Caolho. Não tinham nada para dizer. Ficaram em pé e Orelhudo agradeceu o petisco que comeram. Era hora de voltar. Pé de Chumbo fez a pergunta que todos queriam fazer: - E as caveiras senhor Patu? – Ele fez um gesto. Ainda sentado à moda índia o salão se iluminou. Centenas de caveiras penduradas no teto. Todos balançando. Todas com o uniforme da policia de captura! – Obrigado e até senhor Patu. Que vamo que vamo para nosso acampamento. Patu olhou para eles – Boa viagem. Sempre os vi lá acampando. Todos se entreolharam. Em fila indiana fizeram o caminho de volta. No Pontilhão da estrada de ferro não deu outra. Na metade da ponte um trem enorme, com faróis incríveis apareceu sobre eles. Pularam no rio. Quase vinte e cinco metros de altura. Moleza para aqueles seniores. Foram até a margem tiraram as roupas e voltaram para buscar suas bicicletas no fundo do rio.


              Sei que a Patrulha Ventos do Norte também se arriscou e foi até lá. Sei que a última não achou Patu o Caolho. Sumiu neste mundo de Deus. O fato é que Patu o Caolho ficou amigo dos Escoteiros e sempre os tratou muito bem. Alguns seniores passaram a contar uma história diferente. De Bandido passaram a contar que era um homem perseguido que merecia nosso respeito. Coronel Saldanha do Batalhão militar não gostou. Deu um ultimato: - Se continuarem com esta história acabo com vocês! Pelo sim e pelo não calamos. Afinal respeito é bom e todos nos gostamos. Kkkkkkkkk!   

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

As vozes do silêncio.


As vozes do silêncio.

          Foi um poeta que escreveu que o sentimento mais profundo de um ser humano é o silêncio. – “Se você não consegue entender o meu silêncio de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos”. Eu gosto do silencio, de ouvir, interpretar as palavras, olhar nos olhos e pensar se era isto mesmo que eu queria dizer. Paulo Coelho diz que nós vivemos em um universo que é, ao mesmo tempo, gigantesco o suficiente para nos envolver e pequeno o bastante para caber em nosso coração. Na alma do homem está à alma do mundo, o silêncio da sabedoria. Deve ser fantástico passear pelas estrelas, sentir o som do silencio velejando pela via láctea, ver o brilho de um comenta passante, tentar entender o universo mais lentamente, sem pressa... Passar por um buraco negro sem saber o que encontrar... Ah! O silêncio. Dizem que ele e oração dos sábios.

            Fico extasiado ao ler Saramago gritando ao mundo o seu silêncio: - Não direi: - Que o silêncio me sufoca e amordaça. Calado está calado ficarei, Pois que a língua que falo é de outra raça. Palavras consumidas se acumulam se represam cisterna de águas mortas, ácidas mágoas em limos transformadas, vaza de fundo em que há raízes tortas. - Não direi: Que nem sequer o esforço de dizê-las merece, Palavras que não digam quanto sei neste retiro em que me não conhecem. Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, nem só animais boiam, mortos, medos, túrgidos frutos em cachos se entrelaçam no negro poço de onde sobem dedos. - Só direi, Crispadamente recolhido e mudo, Que quem se cala quando me calei Não poderá morrer sem dizer tudo. Não só ele, mas eu também me extasio com as vozes do silêncio.

             Quem já teve a felicidade, a alegria, a satisfação de acampar onde não se ouvia o cantar de um ser humano? As vozes gritantes pululantes procurando destruir o maravilhoso som do silencio da natureza? Quanto deleite. Quanta satisfação e contentamento em apagar a voz, deixá-la escondida na garganta e sentir o fundo musical do tempo que nada diz e a gente se transforma em um ser humano imortal. Um dia tentei interpretar o silencio das matas, do alto de uma montanha, na cascata sorridente de um vale feliz. Lá fui eu com uma mochila, uma matutagem, um cantil uma faca escoteira e viajar na trilha da bem-aventurança. Era só eu. Sozinho naquele cercado de um lugar chamado paraíso. Ninguém mais pode entender meu prazer, meu deleite e a euforia de estar ali... Em silencio! Já ouviu a voz do vento? Ele canta divinamente. Canta para embalar as árvores, para alegrar as flores do campo, ele canta para dizer que existe que o mundo não e o que pensamos, mas é uma nascente de Deus.


          Não há como viver na natureza. Audição ao vivo ao ouvir o som das arvores balançando ao receber sua aragem nas folhas, nos galhos, macaquinhos pulando ao alegre ventar. Não importa de onde veio ou para onde vai. Tente ficar de olhos fechados, deixe seu pensamento se misturar com os sons da floresta, sinta o vento no corpo, estremeça deixe fremir o seu olfato, percorra com sua audição seu jubilo de ouvir tão linda canção... Do vento! Só sendo Escoteiro é que podemos interpretar a voz da cascata murmurante, sua fonte e o borbulhar das águas cristalinas. Nunca esqueci no alto daquela montanha, uma vista de tirar o folego, eu ali calado, em silencio, tentando imaginar tudo aquilo e o dom de quem criou tão bela imagem. Fiquei parado. Extasiado.

        Os minutos se passaram, e tudo estava calmo, exceto a minha respiração. Ela dava arrancos, entrecortada, tendendo a soluçar em silêncio. A música expressava o que não pode ser dito em palavras, mas não pode permanecer em silêncio. Uma voz da noite me disse: Escuta e serás sábio. O começo da sabedoria é o silêncio. Não sabia o que dizer ou fazer. Estava parado estático. Lembrei-me de uma poetisa que dizia: - O silencio de Deus nos ensina, antes de reclamar que Ele não te respondeu tente entender o que Ele está te ensinado. Fechei os olhos. Não queria abrir, só queria ouvir. Nunca na vida tinha me sentido assim. Era como se eu estivesse sozinho abraçando um fogo de conselho, luzes de algodão vermelho querendo subir aos céus. Céus? Lindas estrelas no firmamento. Queria pegá-las, acariciá-las, levá-las comigo para não esquecer aquele momento. Uma orquestra noturna de grilos e pirilampos com suas luzes brilhantes começaram a tocar uma linda melodia. Uma coruja buraqueira rindo cantava: - Linda é à noite, tente ouvir o Senhor, pois muitas vezes Deus se cala... Mas o silêncio de Deus não significa que Ele desistiu de nós.


       Tenho que retornar, me enrosco em minha manta azul como o céu que vejo e amo. Existe um vento calmo no ar. Brisa gostosa. Ouço ao longe o cantar do Uirapuru. Sinto pardais dedilhando um violão encantando. Uma melodia toca no violão apaixonado. Sinto pedacinhos molhados gotejando na minha face. Sei que são lágrimas de alegria. O que dizer de tudo que sinto que vi e amo ao sentir o silencio maravilhoso em mim? Como Einstein em penso noventa e nove vezes o que sou e nada descubro. Deixo de pensar e continuo em profundo silêncio. E eis que a verdade vai aos poucos me revelando: - Você Escoteiro é filho da natureza. Reconhece nela o Criador e por isto sente falta dela. Não sei mais o que dizer. Volto à civilização. Civilização? Deve ser quem sabe um dia todos aprenderam a voz do silencio, ouvir, entender, sorrir sem discutir quem está com a razão.   

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A solidão de Maria Thereza.


Lendas Escoteiras.
A solidão de Maria Thereza.

                    - A solidão de uma criança é diferente das nossas Chefe. Nany uma chefe Escoteira é quem me dizia. Fiquei pensando se era verdade. Mas solidão na mente de cada um de nós não difere de outra a não ser o motivo dela acontecer. Os poetas e os entendidos dizem que a solidão é um sentimento no qual uma pessoa sente uma profunda sensação de vazio e isolamento. A solidão é mais do que o sentimento de querer uma companhia ou querer realizar alguma atividade com outra pessoa não por que simplesmente se isola, mas por que os seus sentimentos precisam de algo novo. Até que concordo com esta explicação. Mas voltando a Nany Escoteira ela me contava a pequena epopéia de Maria Thereza. Epopéia? Nem sei se podia chamar de saga, aventura ou desventura. Como sofreu aquela menina. Ainda bem que um dia ela entrou para as Escoteiras. Não vou dizer que sua vida mudou, mas ajudou a suportar o que a vida lhe reservava.

                    - Posso lhe garantir Chefe que Maria Thereza amava a sua mãe. Seus olhos brilhavam quando estava junto a ela. Infelizmente e não sei por que Dona Carlota nunca ligou para sua filha. Não a proibia de nada e quando disse que ia ser Escoteira virou de lado lendo um livro e nem tocou mais no assunto. Eu não esqueço o dia que ela chegou ao Grupo Escoteiro. Triste, taciturna, nenhum sorriso e mesmo sendo apresentada a patrulha não disse nada. Se interessou ou não ninguém pode dizer até hoje. Eu mesmo Chefe fui algumas vezes a sua casa e conversei com Dona Carlota. Quer saber? – Ela nem nos meus olhos olhava. Para a patrulha Maria Thereza não era um estorvo, mas a continuar com aquela seriedade, com a falta de ambição em fazer as provas e mesmo nem perguntar quando poderia vestir o uniforme fazia dela a única que nunca se entrosou com nada.  

                   - Pois é Chefe, teve um dia que a mãe dela apareceu por lá. A reunião estava calma, ninguém conversando alto e ela chamou de longe sua filha. Maria Thereza sorriu. Que sorriso. A patrulha e a tropa nunca a viram sorrir assim. Sua mãe ali? Deve ter pensado. Mas ela ficou pouco tempo. Só avisou que ia viajar e iria ficar uma semana fora da cidade. Saiu sem mesmo abraçar sua filha. Eu pensei Chefe que depois daquele dia ela não ia mais voltar no grupo. Só disse para ela que se quisesse ficar lá em casa enquanto sua mãe estivesse fora, seria um prazer para mim. Maria Thereza não disse nada. Vi que seus olhos estavam vermelhos. – Sabe Chefe, eu pensava que não poderia haver uma mãe assim. Quando a reunião terminou e fui para casa notei que Maria Thereza estava atrás de mim. Parei e dei a mão para ela. A princípio ela assustou, mas depois apertou minha mão com força. Minha mãe a abraçou quando chegamos. Meu irmão que já era um sênior deu a ela as boas vindas.

                    - Chefe ela se modificou por completo naquela semana que ficou em minha casa. Acredito Chefe que ela queria ter atenção, amor, abraços e sorrisos o que não tinha em sua casa. Minha mãe, Marcus e eu fazíamos tudo para ela ser feliz. Sua mãe ficou três semanas fora. Maria Thereza neste período nem se lembrava dela e se preparou para as provas como nunca. Logo me disse pronta para fazer a promessa. Pediu-me para ir a casa dela e na volta me deu duzentos reais. – Para o uniforme Chefe! De sua mãe ou seu? Eu perguntei. Minha Chefe, minha mãe me deu para gastar quando quisesse. Era muito para o uniforme e devolvi depois o que sobrou. No dia de sua promessa sua mãe chegou. Foi a sede para buscá-la. Expliquei o que ia acontecer e a alegria de sua filha que tinha mudado. – Bem ela disse, avise a ela que cheguei e estou em casa. Achei aquilo um absurdo. Ela ia saindo e a segurei pelo ombro. Falei tudo que tinha de falar. Dona Carlota se assustou. Parou e me olhou com os olhos húmidos.

                     - Sabe Chefe Nany, desde que Maria Thereza nasceu que fiz tudo para não ser uma mãe amorosa, para que ela não se apegasse a mim, pois eu tenho um câncer, isto já faz doze anos. Posso morrer a qualquer momento. O que seria de Maria Thereza quando eu morresse? – Pensei bastante e olhe Chefe, eu não sou psicóloga e nem sei nada sobre isto. Só disse para ela: - Dona Carlota, hoje é um dia que Maria Thereza se preparou como nunca. Se a senhora morrer pelo menos dê a ela uma alegria de estar presente. Eu não entendo nada disto, mas se a senhora amanhã se for, que ela tenha uma lembrança de uma mãe que a ame e não que a despreza! - Dona Carlota começou a chorar. Nesta hora Maria Thereza viu sua mãe e veio correndo. Abraçou-a, a beijou a acariciou. Falou coisas lindas com sua mãe.

                     - Chefe meu amigo, parece que uma luz do céu desceu ali no pátio e os anjos fizeram coro em uma canção de amor. Não sou espiritualista, mas vi um clarão azulado protegendo mãe e filha. Eu mesmo nunca vi um abraço como o de Maria Thereza e Dona Carlota. Se o mundo mudou para mãe e filha eu posso garantir que sim. Nunca mais vi Maria Thereza sozinha, taciturna e triste. Transformou-se por completo. Hoje ela é monitora na Tropa Sênior. Dizem que é a guia que mais distribui sorrisos. Eu Chefe fico pensando. O que um amor filial pode fazer? Ela não sabia que amava a filha e a filha nunca duvidou de seu amor por ela. O futuro agora seria feliz para sempre no coração das duas. E quer saber o melhor Chefe? Fiquei em Espera Feliz por muitos anos e enquanto morei lá. Dona Carlota estava viva, agora trabalhando muito, pois era uma ótima costureira e sempre tinha ao seu lado Maria Thereza a filha que sempre a amou e dizem que até hoje depois de sua partida, sorri quando vai a sua morada e reza.


“Um filho faz o amor mais forte, os dias mais curtos, as noites mais longas, a conta bancária menor, a casa mais feliz, as roupas mais largas (ou mais apertadas), o passado esquecido e o futuro digno de ser vivido.” Amor de mãe vence preconceitos, supera os limites, enfrenta todos os desafios e te ajuda a vencer. Amor de mãe, só Deus para entender. Simplesmente amor!                                        

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Sustenidos e bemóis, coisas de pardais no ar.


Sustenidos e bemóis, coisas de pardais no ar.

                    A peregrinação me fazia repensar o porquê elevando ao quadrado um sonho abstrato em matemática era como se dirigir ao meu coração que batia calmamente obedecendo às normas surreais de um passeio não programado. Não corria, trilhava o asfalto quente sem eira somente. Pisante macio era como se naquela tarde eu velejava em mar aberto em um céu de brigadeiro. Tarde quente, sol longe do poente. Eu não o via. Estava eu escondido naquela selva de pedra onde se sobressaiam os arranha-céus que queriam tocar as nuvens, mas elas se desmanchavam na poeira do vento amigo. Mente deletéria imaginava como seria fácil ir de encontro ao impossível coisa que não acreditava que pudesse fazer. Sons de veículos passantes, buzinas estridentes, passadas no chão corrente tentando voltar ao lar. Uma gota pequenina de suor correu de mansinho em minha face e se esparramou borrachuda no chão pedregoso. Pensei no homem que faz trabalho penoso, vive do suor do povo. Mentira? Mas não dizem que é fruto de uma jornada, o suor no rosto é custa de muito esforço e grandes penosos sacrifícios?

                  Parei... Eis que sintomaticamente avistei um pequeno parque surgido do nada como se o Mágico Houdini me revelasse que ali era meu lugar. Bonito, resplandecente agora eu ia parquear. Escondido entre as avenidas asfálticas, prédios gigantescos parece que agora encontrei o meu lar. Banco de madeira convidativo, lugar sedutor. Sombra cativante árvores atraentes e áreas esplendidamente vazias. Sentei, me acomodei corporalmente nas curvas gostosas do banco acolhedor. Pensei em voltar meu rosto na direção do sol, e então, as sombras lentamente foram ficando para trás. Amigo, meu objeto direto do desejo de admirar o belo perdido entre as sombras, me alertava que o campo dos sonhos não é onde estamos. Só lá sombras verdadeiras de arvoredo dão as sombras que precisamos. Deixei me levar pelos sonhos. Lembrei-me de Michelle quando escreveu: - Fechei os olhos e me comprometi a sonhar com você. Disse ao sono: venha logo, para que eu possa vê-lo, para que eu possa senti-lo, para que eu possa ter um pouco mais do pedacinho do céu. Logo adormeci. De repente o sol poente estava sumindo.

                            Foi então que me dei conta que era ela que me fazia sonhar. Linda Arvore enorme, verde que te quero verde, uma sombra que se espalhava ao redor do meu mundo que encontrei perdida naquela praça desaparecida entre os prédios daquela cidade de pedra. Olhei para ela, como era bela, era como se eu disse sem dizer, “eu sei que já faz tempo, mas ainda amo você”! Sombra enorme, vivente, escondida do sol poente braços enormes, me voltei no tempo. Ah! De Camisa de Escoteiro subia como anarquista, explorador, batedor ou pioneiro a descobrir ate aonde ia e onde podia chegar. Elas as árvores que me acolheram sorriam sem me condenar. Venha! Suba você não é um agitador ou um anarquista, aproveite dos meus galhos faça de mim o que quiser... E lá eu ia na correia de mateiro, como bom e valente Escoteiro a explorar as alturas do Jequitibá, da Peroba Rosa, do Pau Brasil e de tantas que se alegraram em me abraçar...

                          Eu absorto naquele lugar encantado, pensativo e concentrado olhava a árvore como se ela sempre fizesse parte da minha vida. A tarde foi se aconchegando no horizonte. Eu me sentia abraçado, amado, e por ela adotado tinha certeza que éramos um só. Eu e a árvore da Praça do arredor. Um bordel de sons começou a se formar. Ventania de revoada, como se fossem trovões tocados ao longe por uma mão invisível naquele céu escuro do alvorecer. Olhei para o céu espantado e vi que a hora tinha chegado. Milhões deles, já iam se recolher. Como se fosse uma sinfonia com sustenidos e bemóis vi que eram coisas de pardais no ar. Nada de novo no front para um Velho que tinha a natureza na alma e viveu tantas sinfonias de rádios de pássaros errantes tocadas em plena floresta do Pica Pau e o Bem ti Vi. Eles foram alcançando os mais altos galhos, os grasnados foram escasseando. Aos poucos o silencio retornou com a brisa fresca do ar. Os pardais dormiam. Hora de partir, levantei tropegamente.

                            Uma partida silenciosa. Não iria acordar a orquestra sinfônica que resolveu se acomodar na mais bela árvore do lugar. Uma duas três passadas trêmulas. Parei. Voltei o rosto para a praça. Tudo quieto, tranquilo, calmo e sossegado. Os pardais dormiam sobre a proteção da árvore da vida. Árvore tão querida que os passantes do dia não sabiam o tesouro que tinham ali intocável, mas que todos podiam usufruir ou desfrutar. Mudei de pensar, sorri ao andar, pensei que nada seria como hoje para mim dora em diante. Pião de madeira... Carrinho de ferro... Tudo era tão solido... Ah! Vida tão cheia de vida, mas que um dia vai acabar...

Gosto quando me falas de ti... e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos
Tranquilos

Gosto quando me falas de ti... e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs...

J.G. de Araújo Jorge.

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....