sábado, 8 de junho de 2019

Contos de Fogo de Conselho. Alfredo.




Contos de Fogo de Conselho.
Alfredo.

Prólogo: - Não deixe que as pessoas te façam desistir daquilo que você mais quer na vida. Acredite. Lute. Conquiste. E acima de tudo, seja feliz. E por favor, meu irmão Escoteiro, cultive o amor por onde você for.

Os trovões ribombavam no ar. Raios explodiam pela Serra caindo em todo lugar. A trilha na subida virou um rio. Subimos em uma saliência e ali enrolado na lona da barraca esperamos o dia clarear. A chuva não parava. As lonas não protegiam. – Olhei para Alfredo. – Menino imberbe, sem experiência. Chorou para vir. – Ele me olhava através da escuridão como a pedir socorro. – Chefe, o medo é demais! – Olhei para ele. Sabia o que ele passava. São aprendizados que nos tornarão mais fortes amanhã. O vento chegou forte e bravio. Lembrei que antes do escurecer a chuva caiu mansa, sem vento, parecendo que logo iria passar. Engano. Nem sempre tudo dá certo e nesta hora nas pequenas batalhas que nos tornamos mais fortes. Alfredo iria entender? – Eram onze escoteiros, duas patrulhas. Muitas experientes, mas Alfredo não. Um pata-tenra legítimo.

Queria ter o dom de mudar o tempo, de abrir o sol, de fechar a torneira da chuva. Eu sabia que não era um herói, mas eram onze meninos escoteiros que dependiam de mim. Forçava minha mente para descobrir a minha força interior. Eu sabia que é dela que viria a solução para superar meus medos e minhas dificuldades. Comecei a tremer. Meus dentes batiam e por mais que tentasse eles não paravam. O medo chegou e sem perceber vi que os onze meninos escoteiros também tremiam. Eu precisava ignorar o passado imperfeito, até mesmo o presente cheio de defeitos. Eu tinha de pensar e fazer um amanhã do meu jeito. Senti alguém segurando minha mão. Era Alfredo. – Chefe acredite que algum maravilhoso vai acontecer! – Assustei. Era eu quem devia dizer isto e não ele. – Ele sorriu. – Calma Chefe, não grite, não adianta usar a força para tudo. Seus gestos agora são importantes. Suas ações nos darão a calma para prosseguir.

Alfredo? O menino escoteiro medroso me ensinando a crescer? – Os demais escoteirinhos se levantaram e todos se abraçaram fazendo um grande circulo de amor. A chuva amainou. No céu apareceu algumas estrelas. Abri os olhos agradecendo a Deus por uma nova noite. Meu coração acalmou. Os meninos escoteiros sorriram. Aprendi naquele momento que teria de dominar meu próprio eu. Agora seria outra pessoa, mas forte, mais experiente seria um desperdício continuar aquele fraco que eu era. Tinha de enfrentar meus medos. Aqueles meninos me ensinaram muito mais que a vida me ensinou. Alfredo pegou na minha mão. – Vamos Chefe? Sorri para ele. Um pata-tenra que cresceu em pouco tempo. Um cozinheiro da Onça Parda cantou uma canção. Era hora de partir. Tínhamos um destino a chegar.

Eu sabia que não era original, único, eu sabia que não era uma fonte de criatividade e intuição, mas tinha de aprender vivendo e fazendo. Um menino Escoteiro me ensinava uma lição. Só você pode ver com seus olhos o que sente seu coração. Era hora de escutar e seguir com fé a jornada que seria nosso destino. Aprendi com meninos escoteiros que a idade não é a única com responsabilidade. Eu vi ali que não era o Chefe, era um irmão mais Velho aprendendo com os mais novos. Aprendi que onde estiver seu coração lá estará a sua verdade. E a minha verdade me fazia vibrar com aqueles meninos escoteiros. E onde tudo vibra a força chega e os sonhos acontecem. Aprendi que era um Chefe aprendiz amadurecendo. Que a gratidão é o sentimento mais doce que existe. Aprendi que sabia amar e que a maturidade não está na idade e sim na mente. Partimos para nosso acampamento. Um doce sentimento nos dizia que o segredo da vida não é ter tudo que queremos, mas amar tudo o que temos. Eu tinha onze meninos escoteiros para guiar e aprender!

- E a lua rechonchuda nos acompanhou por aqueles vales molhados, mostrando que o tempo tem uma forma maravilhosa de nos mostrar o que realmente importa. – Escoteiro? Sim Chefe, com muito orgulho e amor!

Para vocês meus irmãos escoteiros uma ótima noite, um belo amanhecer e um domingo cheio de sol paz e amor. Boa noite.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Aquecendo com a Flor Vermelha. Shery Kan, o Tigre da selva. (Uma história para Lobinhos).




Aquecendo com a Flor Vermelha.
Shery Kan, o Tigre da selva.
(Uma história para Lobinhos).

Prefácio – “O uivo do lobo é perfeito, encanta a sua comunicação. Aparenta ter respeito, Ouvindo na solidão. A comunicar entre a sua alcateia, perfeito é o lobo a uivar. Mete medo uivando na aldeia, quando está pronto para atacar... Lobo cinzento do mato, que luta pra sobreviver. Com a matilha ele é nato, nas lutas que faz para vencer! Já é um vencedor, Este animal escondido. Foge de quem é senhor, para não ser atacado e ferido”! Apenas uma história para lobinhos. Melhor Possível.

- Vô, conte uma história! Zé Patrício olhou para seus netos... Uma história? Qualquer uma? – Não vô a do Shery Kan o tigre cruel! Todos sentaram em sua volta. Dedé, Tilena, Malu Dingo e Tadeu. Ele adorava seus netos. Sempre que iam a sua casa ele voltava no tempo, barulho correria gritos tudo na mais perfeita união de crianças que se divertiam. À noite sempre em volta dele, brincavam, deitavam em sua barriga, puxavam seus cabelos... Vô Zé Patrício adorava seus netos. - Vô Zé sorrindo começou: - Chery Kan era um tigre-de-bengala. Na Jângal era conhecido como tigre-indiano. Era grande enorme. Contam que fica atrás em tamanho só do tigre siberiano. – E ele o da Sibéria era mau também vô? – Vô Zé olhou para Tilena. Quatro anos, tinha voz fanhosa, pois só aprendeu a falar aos três anos. Meus netos, os tigres dificilmente atacam homens. Eles tem pelos curtos alaranjados e listras pretas. Alguns chegam a 260 quilos. – Nossa vô, eu só tenho 35! Vô Zé olhou para Dedé e sorriu. – Sabia que eles correm quase 60 km por hora?

- Todos arregalaram os olhos. – Pois é no verão os tigres ficam sempre perto da água. Ele é um nadador ágil. Sua especialidade é caçar e alimenta-se de animais pequenos. – Eles comem elefantes vô? – Malu de cinco anos estava com medo. – Vô e se Chery Kan comesse a Hathi? – Não Malu, ele só comia macacos, aves, crocodilos e cobras. – Ele comeu a Kaa? Perguntou Dingo. – Não Dingo ele não comeu a Kaa. Dizem que quando está com muita fome ele come Lobos, Leopardos, ursos e outros animais, mas prefere mais os pequenos. - Vô, porque Mowgly matou o Shery Kan? Vô Zé olhou para Tadeu. Com seis anos estava sempre na sede dos escoteiros com sua mãe e não perdia as reuniões. Sonhava fazer sete e um dia ficou todo alvoroçado porque Chefe Molan disse que com seis e meio ele podia ser um lobo. – Tadeu você já ouviu a historia da selva. Quando Mowgly foi expulso por outros lobos, ele foi para a cidade dos Homens. Lá ele viu o fogo que não conhecia. Os antigos lobos e Hathi diziam que era a flor vermelha. Foi com as brasas que ele um dia levou para matar o Shery Kan.

- Mas lembrem-se o Tigre mora na sua casa que é a floresta, tem que lutar pela sua vida, se alimentar, dormir e se defender. Eles tem cheiros que soltam quando vão dormir para ninguém se aproximar. Deixam marcas profundas de suas garras em troncos de árvores para marcar presença. Tem os rugidos mais fortes da selva. Dizem que podem ser ouvidos a mais de três km de distância. – Daqui até a ponte Vô? – Vô Zé sorriu. De sua casa a Ponte Velha era quase dois km. - Mas lembrem-se Shery Kan é uma história. Uma história muito bonita e o herói não era ele e sim Mowgly. Na história Shery Kan morava em uma caverna alguns quilômetros acima do Rio Waingunga e ele obedecia à lei da selva. Eu já contei a história Tigre Tigre para vocês. Todos os lobos tinham medo e raiva de Chery Kan. Ele era o vilão da selva. Afinal a lei da sobrevivência existe entre os animais e eles não tem outra maneira de se alimentar. – Havia uma luta de morte entre Mowgly e Shery Kan.

- Quando Mowgly ergueu-se com a vasilha da Flor Vermelha (nome dado ao fogo) na reunião da Pedra do Conselho, ele magoado gritou! – Ouvi vocês! - Basta de discussão de cachorro! Vocês disseram que eu tenho de provar que sou homem e assim sendo um homem eu vou embora! – Vou para minha gente. A Jângal está fechada para mim. Lembrem-se nunca trairei vocês como fizeram comigo. – O Que fizeram com ele Vô? – Os lobos queriam que ele fosse embora para que Shery Kan não matasse nenhum deles. - Então Shery Kan era mau vô! – Na história ele sempre achou que Mowgly lhe pertencia, mas lembre-se na verdade isso só aconteceu na história. Na realidade nas Selvas da Índia onde ele existe são poucas as histórias que eles atacaram homens. – Vô porque o Lobo Gris disse a Mowgly que Shery Kan queria o matar? - Porque ele sempre defendia o povo livre.  E como foi à história que ele matou o Shery Kan?

- Vô Zé lembrou-se do passado. Quantas vezes contou essa história? – Sorriu e começou: - Mowgly, ajudado pelo Lobo Gris e Akelá, preparou um plano para matar Shere-Khan, ou seja, estes dividiriam a manada de búfalos em duas partes: de um lado os machos, do outro as fêmeas e os filhotes; e fariam um estouro de boiada sobre Shere-Khan que seria esmagado sobre as patas dos búfalos. Este não teria como fugir, pois estaria lerdo pela refeição que acabara de fazer, e cercado por búfalos e pelo barranco. - O plano foi bem sucedido. Mowgly com ajuda dos amigos resolveram retirar a pele de Shere-Khan para apresentá-la à Roca do Conselho. Foi quando apareceu o caçador Buldeo, dizendo que ficaria com a pele de Shere-Khan, pois havia uma recompensa de 100 rúpias (dinheiro) pela morte do tigre. Mowgly recusou-se a entregar a pele a Buldeo e este ameaçou dar-lhe uma surra. Akelá saltou sobre o caçador arremessando ao chão. Buldeo conseguiu se livrar de Akelá pedindo perdão a Mowgly e saiu correndo.

- Os netos olhavam calados para Vô Zé. Tilena cochilava em seu colo. Dedé e Malu quase não se seguravam na cadeira. Só Dingo e Tadeu ainda estavam acordados.  Vô Zé amava seus netos, mas ele também estava com sono. Fechou os olhos lembrando-se daqueles que viveram as margens do Waingunga. Lembrou-se de Kaa dizendo: - Quando nos encontramos nas Tocas Frias, homenzinho, eu já o sabia. Homem vai para homens, embora a Jângal não o expulse. - A Jângal não me expulsa, então? Sussurrou Mowgly. - Os irmãos Gris uivaram furiosamente: - Enquanto vivermos ninguém, ninguém ousará...

 - "Você já é um homem", disse Bagheera mansamente. Com a cabeça enterrada no colo peludo de Baloo, Mowgly chorou...


quinta-feira, 6 de junho de 2019

A incrível paixão de Lourenço Malenkaia. Uma história, uma lenda escoteira.




A incrível paixão de Lourenço Malenkaia.
Uma história, uma lenda escoteira.

                     Era uma vez... Todos gostavam de Lourenço Malenkaia. Querido na tropa e no Grupo Escoteiro. Todos sabiam dos seus feitos nos grandes acampamentos e nas jornadas incríveis que fizeram com ele. Havia um orgulho em ser amigo de Lourenço Malenkaia. Na Patrulha Leão era o mais motivado na hora do grito. Alto, magro, cabelos louros encaracolados Lourenço Malenkaia sabia como fazer amigos. Com quinze anos pediu ao Chefe Para fazer sua jornada sozinho. Vou terminar minha Primeira Classe com chave de ouro. Disse. - Chefe preciso fazer minha jornada antes de ir para Sênior. Pretendo ficar três dias, levando minha faca, meu facão, uma manta, sal e óleo e mais nada. Seria seu desafio. Preciso provar que sei sobreviver.  As outras patrulhas assustaram. Como? – Isto é possível? De Lourenço Malenkaia nada era impossível.

                 Em uma sexta partiu atraindo olhares rumo a Mata do Roncador. Mochila, um bastão a tiracolo cantava o “Avançam as Patrulhas” sorridente. Todos o virão seguindo rumo à trilha do Cardim para atravessar o Rio Jambreiro na parte alta da fazenda Santa Cecília. Era um fato inédito. Uma jornada sozinho? Nunca aconteceu. No domingo a tarde ele retornou na curva do Urubu Rei, próximo à porteira do seu Nonato. Cantando, sorrindo, chapéu jogado para trás, mechas de cabelos louros caindo na testa com passadas que dava inveja, foi direto para a sede se apresentando ao seu Chefe. - Pronto Chefe! Jornada realizada. O Chefe o saudou respeitosamente.

                 Lourenço Malenkaia era filho do médico Doutor Arthur Malenkaia e de Dona Arminda Malenkaia. Não era um aluno brilhante, mas muito querido. Nunca tivemos uma grande amizade. Até hoje não entendi porque ele me procurou naquela manhã de domingo. Não fui acampar com minha Patrulha nas margens do Rio Vermelho. Meu pai adoecera e eu fiquei na sapataria a seu pedido. Ele adentrou na sapataria com os olhos tristes e chorosos. Sozinho engraxando alguns pares de sapato, que me daria uns trocados, me cumprimentou sem nenhuma alegria.

                    Preciso falar com você – disse. Fiquei calado. – Você conhece a Dorita Valverde? – Assustei. Conheço disse. – Estou perdidamente apaixonado por ela, disse de supetão.  Não sei o que fazer. – Falar o que? Dorita Valverde não era bem vista e um dodói da garotada sedenta de amor. Sua fama de namoradeira e outras “cositas más” corriam longe. Muitos diziam que era a única que deixava beijar com beijos de “língua”. Eu mesmo nem sabia o que era isto. Vi que Lourenço soluçava baixinho. – Não sei o que fazer! Não quero conselhos. Acho que estou louco. Nunca pensei em ficar assim. Amor para mim sempre foi uma bobagem que em escoteiros como nós nunca pode acontecer. Quer saber? – Se amar pode nos deixar loucos então estou louco. – Deus do céu! O que aconteceu com Lourenço Malenkaia?

                  Eu sempre fui bom ouvinte. Ficamos horas conversando na sapataria. Nada demovia seu intento. Disse que ela o beijou sem ele esperar no muro atrás do Colégio das Irmãs Caritas. – Fui pego de surpresa – Mas que beijo! Senti sua língua na minha boca. Sensação incrível! Nunca imaginei que isto pudesse acontecer. Tornei-me seu escravo na hora! – Porque não procura o Chefe? Falei. – Não, ele não vai me ajudar. Vai ficar falando, falando dando conselhos e ele nem sabe o que é um amor de verdade. – Mas você só tem dezesseis anos! – Ainda nem sabe o que é a vida! – Sei sim disse, sei que agora minha paixão por ela é única. Sei que ri de mim, fala de mim como se fosse um bobão, mas eu sei que a amo. Meu amor é a essência de minha alma.  Nunca vou deixar de amar Dorita Valverde.

                Já entrando nos meus dezessete anos eu não sabia como aconselhar. Naquela época era inocente destas coisas. Beijo? Nem pensar. De língua então me assustava. Sua vida mudou. Seu pai o deixou preso em casa. Não quis estudar mais. Um desastre na família. O tempo foi passando. Lourenço Malenkaia foi definhando. Quem viu aquele belo Escoteiro não acreditava no que via. O internaram no famoso Hospício que hoje não existe mais. Muitos anos depois estava em Capistrano Ferreira onde tentava vender uma colheitadeira para um fazendeiro. Á noite, cidade pequena, sem cinema, sem TV fui tomar uma cervejinha gelada no “Vale das Flores”. Com trinta e dois anos, casado, era só uma fugidinha. Entrei na Boate da Rosinha. Uma “Minina” me procurou. Não me leve a mal disse. Só uma cerveja, mais nada.

                  Bebia devagar ouvindo um Xaxado e eis que aparece do nada Lourenço Malenkaia! Espantado ele disse: - Vado o Escoteiro engraxate da Patrulha Lobo? – Sorri. Eu mesmo Lourenço Malenkaia. Nunca pensei em encontrá-lo ainda mais aqui. Ele sentou. Sorrindo me contou em poucas palavras sua vida. – Olhe meu amigo, fugi do manicômio, corri atrás dela. Meu amor por Dorita Valverde era doentio, era demais. Nunca a deixei. Hoje sou seu escravo. Dizem meu amigo que o amor é como o vento. Não podemos ver, mas podemos sentir.

                   Ela é dona desta boate. Pouco liga para mim. De vez em quando me dá um pouco de seu carinho. Aprendi a aceitar as migalhas que ela me dá. Sou louco mesmo. Louco de amor. Fiz da minha vida um sonho imperfeito. Só vivo a me arrastar por esta mulher. Se amar é um afeto, uma ilusão eu a amo demais. Pediu um guaraná. Uma mulher meio gorducha, toda “embonecada”, mas com feições belas se aproximou. Deu para reconhecer. Era Dorita Valverde. Deu um beijo na testa de Lourenço Malenkaia e se foi entre as dezenas de clientes da boate que pediam sua companhia. Nem me olhou. Claro não me conhecia - E o escotismo? Perguntei. - Nunca mais. Era um amor que tinha no peito e foi substituído por esta paixão avassaladora. Falar o que? Tomei o último copo e parti. Nunca mais o vi. Vida é vida, história é história. Destino é destino. Escolhas são escolhas e o livro arbítrio de cada um não pode ser alterado ou ignorado.

                    O sonho de um menino Escoteiro fugiu em uma nuvem que se espalhou no céu. Não dá para segurar a brisa e o orvalho da manhã ao mesmo tempo. O melhor é esperar o raiar do dia para ver se conseguiu. São recordações que sumiram como o vento forte que pegou de jeito uma Patrulha em uma ravina qualquer. Nem deu tempo de alertar para fincar os chapéus. Afinal escoteiros também amam? Amor é uma palavra que poucos ainda souberam explicar com exatidão. Mas a felicidade não é a minha. A felicidade é a de quem achou um dia ter encontrado uma razão para viver. Lourenço Malenkaia e Dorita Valverde encontraram seu verdadeiro amor. Que eles sejam felizes para sempre!

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Contos de Seeonee. A cidade dos homens.




Contos de Seeonee.
A cidade dos homens.

Prologo: O abutre Chill conduz a noite incerta... E que o morcego Mang ora liberta, é esta a hora em que adormece o gado, pelo aprisco fechado... É esta a hora do orgulho e da força, unha ferina, aguda garra. Ouve-se o grito: - “Boa caça! Aquele que a Lei da Jângal se agarra”! – Canto noturno da Jângal.

                    Passaram-se três meses que Mowgli havia ido para a cidade dos homens. Andava muito ocupado em aprender os usos e costumes deles. Teve que acostumar-se a usar panos em cima do corpo, o que lhe incomodava muito, a empregar o dinheiro e a usar o arado, que lhe era inútil. Os demais garotos o punham furioso. Felizmente a Lei da jângal lhe ensinara a dominar-se, porque na vida selvagem o alimento e a segurança dependem muito do domínio sobre si próprio.

                   Mowgli desconhecia a sua própria força. Na jângal sentia-se fraco, em comparação com os animais selvagens; na aldeia, os homens o consideravam forte qual um touro, mas nada conhecia a respeito das castas. Tratava a todos com igualdade, o que não agradava a alguns, como o sacerdote. Na aldeia Mowgli conheceu um caçador chamado Buldeo, que reunido com os velhos da aldeia contava muitas mentiras sobre os animais da jângal, inclusive histórias inventadas por ele sobre fantasmas. Mowgli provocava a raiva do caçador ao desmentir as histórias contadas por ele. Ao ser repreendido por meter-se na conversa dos mais velhos, foi mandado a pastorear os bois e búfalos, o que não lhe era nada difícil.

                    Então ele disse aos outros garotos que tomassem conta dos bois, que ele sozinho guardava os búfalos. Como os búfalos gostavam de pontos pantanosos para se refrescarem do calor ele os levou para o extremo da planície, lá onde o Rio Waingunga sai da floresta. Saltou no pescoço de Rama, o chefe do rebanho e correu ao local onde marcara com o Irmão Gris. (Em Rama ele montado, a carga comandou... E o Tigre Traiçoeiro sob as patas terminou!).

                  Buldeo ficara assustado achando que era magia ou feitiçaria, pois jamais vira um humano dar ordens a um lobo. Ao chegar à aldeia contou histórias de feitiçaria e encantamento que deixou o sacerdote assustado. Após retirar e guardar a pele do tigre, Mowgli e os amigos, recolheram novamente os búfalos e retornaram para a aldeia. Ao chegarem viram luzes acesas e pensou "deve ser uma homenagem a mim por ter matado Shere-Khan"; mas uma chuva de pedras fora lançada em sua direção contrariando seus pensamentos.

                 - Feiticeiro Lobisomem! Demônio da jângal! Fora! Fora! Atira Buldeo! Atira! - Mowgli parou assustado com as pedras e os gritos. - Não me parecem muito diferentes dos da alcatéia, estes teus irmãos homens disse Akelá, sentando se calmamente sobre as patas traseiras. Parecem que estão te expulsando do povoado. Outra vez? Exclamou Mowgli. Da primeira vez insultaram-me de homem.  Agora de lobo! - Vamo-nos daqui Akelá.

Uma mulher corre em sua direção e diz:
- Meu filho! Dizem que você é feiticeiro, não creio, mas vai-te antes que te matem Só eu sei que vingaste a morte do meu Nathoo. - Agradecei a Messua, homens; Por amor a ela deixo de invadir a aldeia com meus lobos e caçar a todos. Depois do desabafo, incitou os búfalos sobre quem os apedrejavam, e tomou o caminho da jângal seguido dos dois amigos. Olhava as estrelas e sentia-se imensamente feliz.

                    Ao chegar ao jângal, após rever Mãe Loba, foram a Roca do Conselho, onde Mowgli apresentou a pele do tigre. Os lobos que chegavam à Roca encontravam-se aleijados, mancos e feridos devido terem ficado sem chefe desde que Akelá foi deposto da chefia. Após verem a pele do tigre os lobos pediram para Akelá chefiar novamente a alcatéia. Mowgli, por sua vez resolveu não mais pertencer a alcatéia e caçar sozinho na Jângal somente em companhia dos quatro irmãos lobos, até o dia em que...

Mas isso já é outra história.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Crônicas de um Chefe Escoteiro. “Pelas barbas do Profeta”. Adônis conseguiu sua Insígnia de Madeira.




Crônicas de um Chefe Escoteiro.
“Pelas barbas do Profeta”. Adônis conseguiu sua Insígnia de Madeira.

                     Ninguém acreditava que ele um dia seria mais um Insígnia de Madeira. Claro, todos sabiam que era um Chefe Escoteiro esforçado. Presente. Seus 25 anos lhe davam um aspecto juvenil. Quem não soubesse diria ser ele um Sênior ou Pioneiro. Foi sim Escoteiro quando jovem. Ficou menos de três anos. Não voltou mais. Um dia viu uma Patrulha em um shopping. Não gostou do que viu. Parecia não ter espírito Escoteiro. Não deviam estar preparados para esta atividade. Os interpelou. Não o levaram a sério. Foi para casa pensando. Criticar não adianta. Porque não voltar a participar? – Voltou. Cheio de gás. Foi bem aceito no grupo. Um ano como Assistente. Não perdeu tempo. Engoliu livros, fez todos os cursos que podia fazer. Era o orgulho do seu assessor pessoal.

                     Com dois anos na tropa assumiu a chefia. Não porque quisesse, mas o titular desistiu. Achou que seu tempo estava sendo usado muito no escotismo e sua família estava sendo prejudicada. Adônis deu tudo de si. Os jovens o amavam e ele amava os jovens. Aprendeu a ser amigo. Aprendeu a ser um irmão mais "Velho". Aprendeu a respeitar. Sem ninguém saber começou a responder o questionário. Na parte prática já tinha feito o avançado. Seu “caderno” foi devolvido. O leitor colocou várias ponderações. Estudou tudo e enviou de novo. Mais uma vez devolvido. Espere mais um ano. Você é novo. Só está no escotismo há três anos. Não concordou. Enviou um oficio – Qual a idade para ser um Insígnia de Madeira? O leitor não soube o que dizer. 

                     Um dia, um sábado apareceu um chefe. Desconhecido. Olá! – disse. Entabulou conversa. Cutucou. Olhou seu programa, conversou com alguns meninos. Não disse para que veio, deveria ter dito. Adônis acreditava que entre escoteiros não existe segredos. A lealdade acima de tudo. O Chefe se foi. Dois meses depois o Comissário Distrital e um Assistente Regional apareceram na sede. Após o cerimonial ele foi chamado à frente. Entregaram-lhe a Insígnia. Ele tremeu. Ficou vermelho. O lenço de Giwell agora adornava seu pescoço. Os demais chefes do grupo o saudaram. Não estavam acreditando que ele conseguiu. A maioria tinha seis sete ou mais anos de escotismo.

                     Adônis não dormiu naquela noite. Pensava – O que muda em mim com este lenço? Sei que muitos me olharão com respeito, mas não sou o mesmo quando não o tinha? Meus conhecimentos não eram o mesmo? Agora irão me convidar para muita coisa no escotismo. Deverão achar que agora sou tutor e não mais tutorado. Só um lenço mudou tudo? Já posso dar curso? Serei aconselhador? Serei chefão? Que lenço é este que só me trás duvidas e não certezas? – Adônis dormiu. Sonhou muito. Teve até pesadelos. Leves, mas alguém lhe tomava o lenço no sonho. Acordou suado. Meu Deus! O que é isto?

                     Passou a ir para as reuniões sem o lenço da Insígnia, usava o do grupo não só nas reuniões como também em outras atividades. Deixou em casa também seu colar de contas. Pretendia fazer um enorme quadro com seu certificado. Desistiu. Cobraram dele sua Insígnia. Ele abaixou a cabeça e não disse nada. Durante meses tentava ser o mesmo. Difícil. O que um lenço não faz. Em minutos após você receber passa para outra dimensão. A dimensão dos que tudo sabem. Mas não era o caso dele. O que ele sabia aprendeu antes. O Distrital mandou lhe chamar. – Soube que não tem usado seu lenço? – Por quê? – Não sei respondeu. – Explique melhor – Ele não sabia o que falar. Queria dizer que era mais feliz antes de ter este lenço. Antes eu dava risadas, brincava com todos e achava que era irmão de todos. Agora tudo mudou. Quando me colocaram o lenço disseram que eu era outro, agora eu pertencia ao Grupo do Giwell, que eu devia agir como um líder IM. Os chefes não mais o olhavam olho no olho. Não gostava nada disto.

                     Um fim de semana prolongado resolveu reler o livro O Guia do Chefe Escoteiro de Baden-Powell. Já tinha lido. Ficou o dia inteiro lendo. No sábado seguinte chegou à sede com o lenço e colar. Nunca mais o tirou. Viu que muitos chefes IM em seus grupos usavam o colar com o lenço do grupo. Não fez assim. Amava o Grupo Escoteiro. Todos sabiam disto. Não era usando um lenço do grupo que seu amor iria aumentar. Nunca aceitou nenhum cargo. Nunca aceitou ser considero melhor. Era apenas um Chefe, um Chefe amigo, simples, fraterno, um Chefe como tinha pensado BP no passado. Tinha orgulho do seu lenço, mas seu passado de amigo e irmão dos jovens não ia mudar nunca. Até hoje ele é um portador da Insígnia, mas para seus meninos ele é seu Chefe independente do lenço que usava. Tem mais? Sim, ele nunca aceitou outro cargo fora da tropa. Ali era seu lugar! 


segunda-feira, 3 de junho de 2019

Lendas maravilhosas. A história do toque do Silêncio.


                                            

   
Lendas maravilhosas.
A história do toque do Silêncio.

Prologo: - O silêncio, uma música, um toque, um cheiro e meu pensamento vai parar lá no passado, naqueles belos tempos, todos dormindo e o toque ressoando na floresta sem querer acordar o que ali moravam. Belos tempos que não voltam mais.

                   Capitão Barbosinha não tinha filhos no escotismo, mas sempre estava presente em reuniões de sede e até mesmo em acampamentos ele fazia uma visita relâmpago. Não sei por que o Chefe Tomaz não tomou dele a promessa. Era menino naquela época e quem sabe deveria haver uma história que não poderia ser contada. Todos nós gostávamos muito dele. Calmo, ponderado sempre com uma instrução militar ou uma história para contar.

                   Nunca esqueci aquela tarde, acampados as margens do Rio Guaçuí, ele chegou de bicicleta sem ofegar. Rimos a valer quando ele apoitou em uma árvore e perdeu o equilíbrio caindo como uma fruta madura no chão. Ele era da Policia Militar e muito querido por todos. Um dia me disse que deveria ter sido escoteiro e não foi. Quando notou meu clarim pendurado na ponta da minha barraca ele me perguntou: - Vado, você conhece a lenda do toque do silêncio?

                   Milito e pedregulho ouviu o que ele dizia e por um toque de assovio chamou toda Patrulha. Era nossa maneira de se comunicar. Sentamos a sua volta e ele de cócoras sorriu e começou a contar: - Escoteiros! É uma lenda quando ouve a terrível Guerra Civil Americana, lá pelos idos de 1862. O Capitão Robert Ellicombe do Exercito da União estava com seus homens perto de Harrison’s Landing, na Virginia. O Exército Confederado estava do outro lado de uma estreita faixa de terra. Durante a noite o Capitão Ellicombe ouviu os gemidos de um soldado caído, gravemente ferido no campo.

                 - Sem saber se era um soldado da União ou um Confederado, o Capitão decidiu arriscar sua vida e trazer o homem atingido para cuidados médicos. Arrastando-se deitado em meio ao tiroteio ele o alcançou e começou a puxá-lo em direção ao seu acampamento. - Quando finalmente alcançou suas linhas descobriu que o soldado era na realidade um Confederado, e que ele havia morrido. O Capitão acendeu uma lanterna e na obscura luz viu a sua face. Era o seu próprio filho.

                 - O rapaz estava estudando música no Sul quando a guerra começou. E sem falar com seu pai, alistou-se no Exército Confederado. Na manhã seguinte, o capitão pediu permissão aos seus superiores para dar a ele um funeral com honras militares, apesar de ser um soldado inimigo. Seu pedido foi apenas parcialmente atendido. Ele solicitara que alguns membros da banda militar pudessem tocar um hino para o funeral, mas os comandantes não concordaram, uma vez que o soldado era um Confederado. Mas, por respeito ao pai, eles lhe ofereceram só um musico.

                 - O Capitão escolheu um corneteiro. Pediu a ele para tocar uma série de notas musicais que havia encontrado em um pedaço de papel no bolso do uniforme de seu filho. Nasceu então a triste melodia executada em serviços funerais de militares e que conhecemos como o Toque do Silêncio!

                - Notei que o Capitão Barbosinha estava emocionado ao terminar o conto. Mas todos nós entendemos o porquê ficou triste. Sabiamos que um filho seu morreu de acidente de automóvel há dois anos. Um por um cada um de nós fomos até ele e fizemos questão de um forte aperto de mão e um abraço. Quando chegou a hora de recolher pedi ao Chefe João Soldado se podia tocar o toque do Silencio naquela noite. Autorizado toquei quem sabe o mais lindo toque que já tinha realizado.

                 Se alguns de vocês leitores ainda não ouviram o verdadeiro toque do silencio, no site do Youtube poderão ouvi-lo e ver a beleza de um toque tão triste.

domingo, 2 de junho de 2019

Histórias de fogo de conselho. O quadro.





Histórias de fogo de conselho.
O quadro.

Prólogo: - Uma pequena parábola para nos dar a força e deixar o coração aberto onde todos nossos amigos são bem vindos.

- Era sempre motivo de alegria quando Mano Velho comparecia em alguns dos nossos Fogos de Conselho. Naquela noite já lá pelas tantas pediu a palavra ao animador do Fogo. Posso contar uma história? Disse. – Claro que sim e os lobos e escoteiros abriram os olhos e ouvidos para ouvir Mano Velho, um Chefe admirado e conhecido de todos.

- E ele começou a contar fazendo os gestos que costumava fazer quando contava uma história. - Há muito tempo, um Chefe escoteiro com dotes de pintura, havia pintado um lindo quadro... No dia de apresentá-lo foi até a praça da cidade e convidou todos os escoteiros e o povo da cidade para vê-lo. Compareceram centenas de escoteiros, chefes, autoridades do local, fotógrafos, jornalistas, enfim, uma multidão. Afinal era um Chefe respeitado e famoso e muitos na cidade admiravam seus dotes como pintor de quadros.

Quando a multidão se formou em redor do quadro ele tirou o pano que velava sua obra... Houve um caloroso aplauso!

Era uma impressionante figura de Jesus batendo suavemente à porta de uma casa… O Cristo parecia vivo.

Com ouvido junto à porta, ele parecia querer ouvir se lá dentro alguém respondia.
Houve discurso e elogios, palmas escoteiras Bravôo e muitas palmas escoteiras.
Todos admiravam aquela obra de arte. Porém, um lobinho curioso e observador, achou uma falha no quadro… A porta não tinha fechadura. E intrigado, foi perguntar ao Chefe Artista… – Sua porta não tem fechadura!

– Como se fará para abri-la? – É assim mesmo Lobinho. Respondeu-lhe o Chefe.
– Esta é a porta do coração humano… Só se abre pelo lado de dentro.

Os escoteiros e lobos presentes se levantaram e ovacionaram com um alto Bravôo ao Chefe Mano Velho. E todos foram dormir!

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....