sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Contos de natal. Priscila.




Contos de natal.
Priscila.

... - Tudo muda se renova, se refaz... Basta à gente querer... Hoje mudei minhas estações... Mudei meu radio e minhas ligações não tento nem ao menos mais entender, uso frases curtas, sigo sem você, e bem aqui estou, livre como um pássaro, podendo voar aonde eu quiser...

“Noite feliz! Noite feliz!
Oh, Senhor, Deus do amor
Pobrezinho nasceu em Belém”.

                      Antes fora uma favela. Ainda era só que melhorada. O sonho de todo jovem era sair dali, ir para outro bairro mais bonito, mais pacífico e onde não houvesse tantos marginais que se consideravam dono do lugar. Priscila sabia que só quando tivesse idade poderia procurar outro lugar para morar. Estudava muito. Acreditava que só assim poderia decidir sua vida. Não reclamava, não tinha como. Sua tia foi até bondosa a acolhendo quando sua mãe morreu. Seu pai sumiu e ela nem sabia onde andava. Negra, não se considerava bonita. Nariz fino cabelos encaracolados, mas ela mantinha um ar de menina orgulhosa sem fazer muitos amigos e sem conversar com ninguém. Era de sua casa a escola e algumas vezes a padaria quando sobravam alguns tostões para o pão de cada dia. Como toda criança dos seus doze anos tinha sonhos. A cada ano seu sonho mudava e outros chegavam para encantar suas noites quando pedia a Deus na hora de dormir que a protegesse sempre.

“Eis na Lapa Jesus nosso bem
Dorme em paz, oh, Jesus
Dorme em paz, oh, Jesus”.

               Sua sala de aula não era grande, mas embolava mais de 40 alunos. Ela estava na quinta série e nunca repetiu de ano. Calada era bem quista por dona Rute sua professora. Foi ela quem a convidou para participar junto a outras meninas de aulas de dança clássica. Ela adorou. Nem disse para a tia. Ela não se interessava por nada que fazia. Se não fosse tão responsável estaria hoje entregue ao trafego com a bandidagem. Na primeira aula foi tão bem que a Professora Sarah lhe deu os parabéns. – Menina – Ela disse: - Você tem estilo, se quiser poderá ser uma grande bailarina. A principio a felicidade escondeu que era negra. Bailarina negra? Nunca tinha ouvido falar. Foi para casa cantarolando, pois agora seu sonho era outro. Balé Bolshoi? Ria entregue nos seus sonhos. Ela sabia que quando se quer tudo pode acontecer. Seria a primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Na esquina da Ruela Monte Sinai sentiu uma dor enorme abaixo do joelho. Viu que a carne de sua pele estava espalhada pela calçada. – Meu Deus! Uma bala perdida?

“Noite feliz! Noite feliz!
Oh, Jesus, Deus da luz
Quão afável é Teu coração”.

             Acordou no hospital. Estava em uma enfermaria com mais oito pacientes. Não sentia seu pé direito. Tentou se mexer e não conseguiu. Quis chorar, mas disse para si que ela não tinha este direito. Sonhou e se não conseguiu realizar seu sonho tinha de dar a volta por cima. Mas não era fácil. Dois meses depois lhe deram alta. Uma enfermeira trouxe uma muleta para ela – Quando se acostumar você vai ver que é fácil. Sua tia não veio buscá-la. Ao sair na porta do hospital tropeçou em um menino. Viu que era um Escoteiro e estava correndo. Ambos caíram. Ele não teve nada e ela também não. Um olhou para o outro. O Escoteiro não sabia o que dizer. Ela sorriu mesmo sentindo dores. – Quem corre cansa – disse. O Escoteiro sorriu também. – Desculpe. A culpa foi minha! Ela não disse nada. Não poderia correr com eles. – Quer conhecer minha patrulha? Somos da Pantera, mas de paz! Ele disse. Porque não? Ele a apresentou aos cinco escoteiros da patrulha. Ela gostou de todos eles. – Vocês são bacanas, mas preciso ir para casa, minha tia está me esperando, tive hoje alta no hospital. Perdi um pé. Disse com a maior naturalidade.

“Que quiseste nascer nosso irmão
E a nós todos salvar
E a nós todos salvar”.

               Foi o início de uma grande amizade. Foram com ela até sua casa. Convenceram-na a ser da patrulha. – Eu? Não posso, não posso correr brincar e acampar como vocês. – Pode sim disse Batuel. Nada impede você. Já estamos comprando uma nova perna mecânica. Conseguimos uma doação, você vai gostar, vai poder andar correr e acampar conosco. Foi o Chefe João Batista quem trouxe a perna mecânica. Maravilhosa. Priscila chorou de alegria. Abraçou a todos e começou a andar. Doía um pouco, mas em menos de uma semana acostumou. Em quatro meses Priscila dominava a perna mecânica com maestria. Andava e corria como qualquer menino. Thiago deu para ela um uniforme completo. Tinha dois. Ela fez a promessa e foi o dia mais lindo da sua vida. Não esqueceu seu sonho que um dia pensou em ser uma grande bailarina. Agora precisava refazer seus sonhos. Foi o Chefe João Batista que a apresentou ao professor e técnico de Handebol para pessoas especiais.

“Noite feliz! Noite feliz!
Eis que no ar vem cantar
Aos pastores os Anjos do Céu”.

O tempo passou. Priscila se dedicou como nunca a nova modalidade. Quando foi selecionada para participar de um campeonato estadual cantou aleluia! Agradeceu a Deus pela oportunidade. Um grande conglomerado financeiro financiou seu treinamento e a adotou com atleta. Quem quer anda quem não quer manda. Chorar por quê? Priscila fez seu próprio destino. Hoje está na seleção principal, não abandonou o escotismo. Fez dele sua nova maneira de viver. Foi na noite de natal que ela e sua tia mudaram para a casa nova. Antes de entrar ajoelharam e rezaram na porta agradecendo a Deus. Batuel, e os amigos da patrulha continuaram seus amigos por toda vida. Paciência e perseverança tem o efeito mágico de fazer as dificuldades desparecerem e os obstáculos sumirem. Cada lágrima ensina-nos uma verdade e Priscila venceu. Cair levantar tentar de novo. Ela sabia que as únicas desgraças são aquelas que nada aprendemos. A vida é assim, vence quem acredita e perde quem chora a derrota sem se levantar.
 
Letra e música - Anunciando a chegada de Deus. De Jesus Salvador

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Contos de Natal. Uma canção para o Canário Amarelo de Giacomo. Histórias para contar aos Lobinhos.




Contos de Natal.
Uma canção para o Canário Amarelo de Giacomo.
Histórias para contar aos Lobinhos.

Prologo: - Um filhotinho de canário amarelo caído do alto de uma castanheira em flor. Novo não sabia voar. Sentiu-se só e abandonado. Sua mãe saiu para buscar comida e não voltou. Sozinho a fome aumentando. Sua mãe prevenira do Gavião Malvado. Uma história simples, que terminou bem graças a um Lobinho da Jângal.

♫Imagine que não há paraíso. É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós, acima de nós apenas o céu.
Imagine todas as pessoas vivendo para o hoje ♫.

         Era apenas um filhotinho de canário amarelo caído do alto de uma castanheira em flor. Ficava em pé com dificuldade e sabia que não podia voar. Sentiu-se só e abandonado. Sua mãe saíra para buscar o almoço e não voltou. Estava ali há horas e a fome só aumentando. Tentou um lugar para esconder, pois sua mamãe canária lhe dissera para tomar cuidado com o Gavião Malvado. Ele podia morrer se fosse encontrado só. Mas o que ele poderia fazer agora? Não podia andar e nem voar. Era muito pequeno e ali perdido naquela grama alta seria descoberto logo. Poderia ser pelo Gavião Malvado, poderia ser por um animal da floresta e poderia ser também pelo filhote de homem. Eles gostavam de machucar os pássaros da natureza. Fechou os olhos e chorou. Dizem que canário não chora, mas ele chorava. Saudades de sua mamãe canária, saudades do sua Tia a coruja Buraqueira. Ela também o protegia, mas desapareceu como o vento na tempestade.

♫Imagine não existir países não é difícil de fazer,
Nada pelo que matar ou morrer e nenhuma religião também,
Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz♫.

              Ele ouviu passos. Era de um menino pequeno. O filhote de Canário Amarelo tremeu. Pensou que era sua hora de morrer. Meninos não gostam de pássaros disse sua mamãe canária. O menino vestia de azul com um lenço verde e amarelo no pescoço e um boné azul também na cabeça. Ele não sabia o que era isto. Mas viu que o menino sorria, não o maltratou. Tentou falar com ele, mas ele não o ouvia. O menino viu que ele não podia andar nem voar. Saiu correndo e algum tempo depois voltou. Colocou em sua frente semente de arroz cozido. Em uma latinha havia água de beber. Viu que o menino de azul tinha bom coração. Sentiu-se revigorado após comer e beber. O menino olhava para ele. Um sorriso e dizia: – “Não tenha medo eu tomarei conta de você”. Ele dormiu em paz acreditando no menino de azul. Não sonhou. Canários não sonham. Acordou sozinho, pois o menino de azul se foi. De novo sozinho. De novo o medo. Agora tinha água e comida e mesmo assim ele não podia fugir dos seus predadores.

♫Você pode dizer que sou um sonhador
Mas não sou o único, tenho a esperança de que um dia,
Você se juntará a nós e o mundo será como um só♫.

          A noite chegou. Ele não tinha medo da noite. Para ele o dia e a noite eram iguais. Gostava mais da noite, pois podia se esconder. Sabia que o menino de azul não ficaria por muito tempo. Viu ao longe o dia amanhecendo. Era a alvorada. Onde estaria o menino de azul que lhe deu água e comida? Onde ele foi? Não entendia porque ele sumiu. A comida não iria durar muitos dias. Ele pequeno tinha de comer bastante. Sentiu seu corpo revigorar. Levantou as asas e ela bateu para cima e para baixo. Tomou distância em uma trilha correu e saltou para o espaço. Caiu feito uma abóbora madura. Ainda não estava na hora. Ele tinha de tentar e tentou muitas vezes. Qual foi sua surpresa que de tanto tentar levantou voo. Como era lindo voar. Rodopiou no ar varias vezes e quase foi engolido pelo Gavião Malvado que voava por trás. Ele não viu. Não sentiu o som de suas asas.

♫Imagine não existir posses me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome uma irmandade do Homem
Imagine todas as pessoas compartilhando todo o mundo♫.

                   Viu ao longe uma onça parda olhando por um precipício e sabia que devia ser sua caça. Ela estava à espreita. Voou baixo e viu espantado o menino de azul caído no buraco. Gemia baixinho e com muitas dores chorava e cantava baixinho – “Meu Jesus me proteja, não deixe que nada aconteça comigo neste dia de natal”. Meus pais irão chorar quando não me virem na ceia da meia noite. Senhor Jesus amado, não quero que eles chorem. O filhote de Canário Amarelo sabia que precisava fazer alguma coisa. O menino de azul o salvou e ele tinha de fazer o mesmo. Pousou em um galho de uma arvore pensativo. Viu no céu milhares de Canários Amarelos. Estavam a sua procura. Sua mãe o viu, voou até ele e com bico o beijou varias vezes. Ele contou para sua mamãe sobre o menino de azul. Ela lhe disse para não se preocupar. Mandou-o ficar ali na espreita enquanto ela iria montar um plano para salvar o menino de azul.

♫Você pode dizer que sou um sonhador
Mas não sou o único tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós e o mundo viverá como um só♫.

         Não demorou muito tempo. Milhares de canários chegaram com uma enorme rede de cipó feita por Araras vermelhas, tico tico da floresta, pardais das campinas verdejantes e tantos pássaros para um só objetivo. Tirar o menino de azul do buraco. Quinhentas andorinhas voaram por cima da Onça Parda. Não deram sossego e quando ela se sentiu bicada pelas andorinhas saiu em desabalada carreira. Em pouco tempo os Canários Amarelos jogaram a rede em cima do menino de azul que assustado sentou no meio da rede e foi levado pelos ares até onde estava acantonada sua Alcateia. Os lobinhos e lobinhas quando viram bateram palmas. O menino de azul foi salvo. Naquela noite de natal ele e sua família cantaram felizes por estarem juntos. Os pais não sabiam que ele salvou um Filhote de Canário Amarelo e eles o salvaram de morte certa. O filhote de Canário Amarelo nunca mais esqueceu este dia. O menino de azul foi o melhor natal de sua vida. Ele sabia que ajudar o próximo sempre estará ajudando a sí mesmo. Feliz natal lobos de Seeonee!

A letra da canção “Imagine” é de autoria de John Lennon.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Contos de Natal. O voo 678 do Comandante Escoteiro Noel.




Contos de Natal.
O voo 678 do Comandante Escoteiro Noel.

... - Noel tinha o escotismo no coração e agora como piloto sorria feliz na sua aeronave. Seu batismo era como no primeiro dia de Escoteiro da Pátria e depois ao receber a Insígnia de Madeira. Dominou o avião como dominava suas canções no fogo de conselho. Pousou feliz em saber que tinha dezenas de vidas sob sua responsabilidade como sempre teve com sua patrulha. Uma historia simples, mas com um final feliz!

- Sempre fora seu sonho. Desde Lobinho quando fraturou uma perna pulando de uma árvore com um guarda chuva de seu pai. Como Escoteiro tirou todas as especialidades de aviador e aeronauta. Foi nos seniores que começou sua iniciação como futuro piloto. Sonhava em ser piloto dos grandes aviões e isto lhe deu forças para um dia chegar como comandante de um belíssimo Airbus A330 avaliado em mais de cento e sessenta milhões de dólares. Foi uma longa jornada. Curso de piloto, treinamento intensivo, estágios e como Copiloto transportando milhares de passageiros. Sempre foi um escoteiro obediente e disciplinado.

Ao tomar o assento para o início da sequência de tarefas, lembrou-se dos seus acampamentos quando nunca deixou ninguém a deriva. Mesmo quando teve de diminuir o ritmo de suas atividades Escoteiras devido aos estudos e os cursos que fazia sempre estava com eles. Seu Copiloto e amigo também foi Escoteiro um dia. Vitório era como ele e ambos sonhavam em pilotar gigantescas aeronaves pelos céus do mundo. Componentes ligados, computadores, rota de voo, ajustes e aguardar o embarque dos passageiros e partir. Cumprimentava pelo fone a todos com simpatia. – Senhoras e Senhores passageiros, bem vindos ao voo 678 partindo do Aeroporto de Guarulhos com destino ao Aeroporto de Manaus... Nada tinha mudado e ele como disciplinado que era completou as normas de aviação aos passageiros finalizado que desejava a todos um Feliz Natal.

Noel sorria quando após o ultimo vetor do radar do controle de aproximação realizado, ele manobrou o belo avião rumo à pista de pouso. Estendido os flaps e os slats levantaram voo há uma velocidade aproximada de 907 km/h. Noel sabia que em menos de três horas estariam pousando no aeroporto Internacional de Manaus. Seu coração batia e pulsava de alegria. O A330 obedecia ao seu comando como um bom Lobinho obedece a sua Akelá. Belos tempos de outrora. O Grande Uivo, os acantonamentos e a primeira noite na barraca. Fora demais. O A330 parecia ter sido feito para Noel. O piloto automático, uma breve relaxada e uma volta junto aos passageiros. Nada como dar sempre alerta para saber quantos antigos escoteiros estavam embarcados. Quase quarenta de duzentos e dez passageiros responderam com o sinal escoteiro.

Quando voltava para a cabine sentiu os primeiros tremores na aeronave. Sabia que estavam em uma turbulência de alto nível, pois o céu claro não podia indicar tal anormalidade. Noel não se preocupou, pois no seu treinamento como Copiloto passou por várias fases como esta. Tomou as rédeas de comando e acreditou que seria por pouco tempo. Lembrou-se da tempestade quando acampados na Serra Morena e raios pipocavam em todos os lugares. Não havia onde se esconder. Calmamente Noel conduziu toda a patrulha até uma parte mais alta do morro onde uma pedra enorme serviu de abrigo para a chuva torrencial e os raios. Em questão de minutos sairiam da turbulência e todos voltariam a sorrir novamente.

O Velho mote que jamais uma turbulência derrubou um avião para ele era um mito. Ele sabia que isto podia acontecer. Afinal é como uma pipa de papel enfrenta um forte vento. Tranquilizou os passageiros e pediu as aeromoças alertarem a todos para o procedimento comum nestes casos. Sua tripulação tinha por ele o maior respeito. Foi em Camanducaia que descendo uma encosta com a patrulha o morro derreteu e todos foram levados montanha abaixo. Ninguém se machucou e aproveitaram para rezar. Ele católico fervoroso sempre fazia isto nas decolagens e aterrisagens. O avião sacolejava tanto que parecia um cavalo bravo tentando jogar seu cavaleiro para o chão.     

Tudo complicou quando o avião deu uma guinada de 45º e ele perdeu a direção do manche. Sua primeira viagem como comandante e tudo iria se perder? Lembrou-se de orar. Vitório tremendo o acompanhou. A nave balançava como uma pipa solta ao vento. Era como no acampamento em Verdes Mares quando a tempestade os pegou em cheio. Quatro patrulhas e só ele na chefia. O que fazer? Chamou os monitores. Sugestões? Nonato sempre calmo disse que ficassem ali mesmo na encosta e se amarrassem uns aos outros. Assim foi feito o vento diminuiu e a tempestade passou. Noel não tremia, não tinha medo. Ele sabia que o final seria feliz. Era noite de 11 de dezembro e daí a dias Jesus Cristo ia nascer.
              
Quando viu que a turbulência diminuiu e após receber o último vetor do radar do controle de aproximação, ele manobrou calmamente o seu A330 rumo à pista de pouso, estendeu os flaps e os slats e abaixou o trem de pouso. Cuidadosamente fez a última manobra para tocar o solo com suavidade. O Controlador da Torre informou que estavam autorizados a taxiar até o local designado. Motores desligados, missão cumprida. Embora alguns passageiros tivessem algumas escoriações o voo chegou a Manaus sem maiores contratempos. Noel se sentia aliviado. Foi como no dia que recebeu sua Insígnia de Madeira e viu que todos o ovacionavam. Assim os passageiros fizeram quando taxiou no aeroporto Internacional de Manaus.

                     Era como o fim de um acampamento e a alegria de ter participado. Fez questão de cumprimentar um por um todos os passageiros na descida do avião. O ultimo o abraçou. Obrigado Chefe. Eu sabia que estávamos em boas mãos. Um dia também fui um Chefe e aprendi que além de explorarmos o íntimo de cada jovem e descobrir sua personalidade, o senhor fez o mesmo com todos os passageiros. – Feliz natal chefe. Que todos que labutam no movimento Escoteiro saibam que os chefes sempre estão preparados para ajudar e fazer de tudo que possivel para trazer o sorriso e a felicidade. Até outra viagem Chefe!

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Lendas Escoteiras. “O Tambor”.




Lendas Escoteiras.
“O Tambor”.

Eu ouvia latente nos ouvidos e sorria... Até gostava. Sabia que o som logo iria parar. Maestro Munir ia escutar e uma bronca ele iria levar. Nas palavras do Velho Chefe havia amor naquelas batidas, nem tanto sonoro e sem nenhum clamor musical. Era um dum, dum sem eira nem beira, mas que encantava o aprendiz de tamborista. Quem um dia não sonhou em marchar com o esquadrão, à tropa, como uma legião de valentes soldados ou escoteiros a caminhar em passos firmes para muito além do que poderia imaginar? Buriti sorria, com a baqueta batia leve na pele de carneiro que emplumava a base de metal. Fazia tudo desordenadamente. Ainda não sabia as diversas etapas que o Maestro aprendeu com o Sargento Ramires, da banda do Sexto Batalhão de Infantaria. Para ele as marchas e contra marchas tinham trilhas musicais. Mas aquele som! Era demais. Se Buriti fosse um maestro de sinfônicas famosas e não famosas, veria que seus ouvidos só escutavam a primeira sinfonia de Beethoven a tocar sua “Sonata ao Luar"!

Como eu ele tinha apenas seis meses de tropa. Nos lobos sabia que nunca seria um tamborista, um batedor na Banda do Maestro Munir. Nunca pensou em tocar um clarim, ou tamborilar uma caixa clara e para ele um Bumbo nem existia. Mas nunca deixou de sonhar, em marchar levando um Tambor, quem sabe um Surdo Mor escorado no joelho, jogado para o ar como muitos faziam nos maravilhosos desfiles que só os escoteiros sabiam fazer. Nunca esqueceu seus quatro anos, quando se desgarrou dos seus pais e sumiu na multidão dos marchantes que exibidos se punham a mostrar seus dotes na Avenida principal sob os aplausos dos políticos, do popolucho que lá estava a vibrar também com a banda, com os escoteiros, com os soldados e até mesmo com a garotada do Colégio Mercês ou o Ginásio Tomaz Flores e até mesmo alguns Grupos Escolares que se dispunham a participação da celebração do Sete de Setembro, data que ele nem sabia existir. Buriti era sorriso, alegria contentamento ali na frente da bateria infernal, da banda numero um da cidade, marchava com seus passos miúdos acreditando que era mais um a desfilar. Quando seus pais o acharam ele batia palmas para agrado geral da escoteirada.

Nem bem fez seis anos e meio chorou meio mundo para entrar nos escoteiros. Nem sabia o que era lobinho, ele só queria marchar e tocar seu tambor... Seu sonho seu amor. Com seus irmãos lobos correu pelas estradas, andou nas trilhas de Mowgli entrou na caverna de Shery Khan, nadou no Waingunga e aprendeu a contar estrelas nas noites sem luar nas matas de Seeonee. Conheceu seu novo herói, seu novo exemplo seu amigo e seu irmão, Balu para ele era tudo, sua vida seu futuro e até esqueceu um pouco seu tambor! Viu que enquanto não fosse escoteiro seria apenas um sonho marchar pelas ruas da cidade batendo seu tambor. Quando nos desfiles portentosos, celebrando uma data que nem sabia, lá estava ele na sua Matilha Cinza marchando como se estivesse com seu tambor. Um dia ouviu que iria pular a trilha, subir os Montes Venturosos da Jângal e encontrar sua nova morada... Seria um escoteiro, um homem desgarrado de sua alcateia seu antigo lar. Mesmo com os olhos molhados, foi apresentado aos Morcegos, novos amigos escoteiros que disseram ser seus novos irmãos.

E o tambor? Onde está o meu? Bitiboca o Monitor não riu e nem deixou a Patrulha rir. Buriti, primeiro a marcha na trilha da aventura, dormir na sua barraca, comer a comida de Mindinho o Cozinheiro, construir pioneirías como Zecacortez o nosso construtor. Vais aprender a nadar, pescar, seguir a pista da onça do queixada do Bicho Preguiça. Se for um bom escoteiro serás um segunda classe e vai ralar para ser um primeira classe. Isto se passar na prova de Jornada! Tudo bem, Buriti aprendeu a amar tudo aquilo, já entendia o nascer e o por do sol. Gostava de seguir uma pista de gente de bicho, ou seja, lá o que for. Fez amizade com um pintassilgo, correu léguas atrás de um tatu e o deixou fugir, pois sabia que era amigo dos animais e das plantas. E o Tambor? Ele nunca esqueceu. Com treze anos deu seu nome ao Maestro Munir dizendo que queria ser mais um dos pretendentes e que seu sonho era bater um tambor... Ser um tamborista sim Senhor Maestro Munir!

Seis meses depois foi chamado. Mandaram ficar em posição de sentido por uma hora, não foi fácil nem difícil. Na quinta seguinte foi à vez de fazer seu corpo e sua mão como um cata-vento. Se for uma prova para ter seu tambor Buriti nem pestanejou. Maestro Munir era treteiro. Poderia ter sido um Chefe, um voluntário de horas vagas, casado com Chiquinha pai de Dorinha e Rolimã um escoteiro. Munir amava sua banda, sempre sonhou em tocar nos Fuzileiros e levar para os Escoteiros o que aprendeu por lá naquela fanfarra fenomenal. Era sim um Maestro, aprendeu os movimento com sua “batuta” mágica ensinado pelo Capitão Barbosinha, vivia a bateria, comia com os olhos enquanto com sua “batuta” fininha escrevia o dó ré mi! Viu nos olhos de Buriti um substituto a altura. Se passasse nas provas de classe para ingressar na Banda ele lhe daria a maior atenção. Porque não começar com um tambor? E depois um Surdo Mor? Se tivesse embocadura lhe daria um clarim e por ultimo iria ensinar a ele os toques do Rataplã do arrebol, as batidas do tarol as marchas e contra marchas que aprendeu. Faria dele seu sucessor, um dos maiores maestros escoteiros que o mundo já conheceu!

No dia do seu batismo, Maestro Munir sorrindo separou o seu tambor preferido. Queria ver o sorriso de Buriti, escoteiro que admirava que já conquistara seu coração e a sua segunda classe correndo para picotar nas trilhas da Mata do Tenente sua nova aventura sua jornada para ser um primeira classe. Deram-lhe a notícia... Buriti foi internado as pressas no Hospital Pantaleão. O pulmão não ajudou, seu coração parou. Doutor Lineu não deu esperança. Maestro Munir chorou. Rezou... Ajoelhado na porta do hospital e com ele Bitiboca da Morcego acompanhado de dezenas de escoteiros pediram a Deus pela vida de Buriti, aquele que seria o maior tamborista que o mundo já conheceu... Não ouve festa, não houve tambor e nem um toque de clarim. Joshua Corneteiro perdeu a embocadura de tanto chorar. Naquela sombra tardia no Cemitério do Amor, tentaram cantar o adeus da despedida o que não aconteceu. Ninguém sabe ninguém viu e o som fúnebre de um tambor tocou... E naquela tarde modorrenta pela primeira vez na cidade de Ouro fino o Sol e A Lua se encontram no entardecer pela ultima vez!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O último adeus de Baden-Powell. De 1940 a 2019.




O último adeus de Baden-Powell.
De 1940 a 2019.

... - Não sei a data nem o ano que BP escreveu sua carta de despedida. Como Criador de ventos e inventor de arco-íris, sempre leio a sua ultima mensagem. Ainda não escrevi a minha e nem sei se vou escrever, principalmente quando sinto que meus dias estão diminuindo. Repousar não ajuda e me sinto cada vez próximo da minha estrela. Hoje adquiri alguma força para me reinventar ao seu lado de BP, em PAXTU, numa tarde qualquer antes do natal, mais precisamente em 09 de dezembro de 1940. Seus dias estavam contados, em poucos dias ele subiria ao céu, em uma nuvem azulada, diferente das cores de neve que habitavam a terra. Em sua varanda, usando uma nova Parker 100, cuja elegância e sofisticação tinha comprado meses antes... Avancemos na história...

- Baden-Powell. Olhou no relógio, eram dezessete horas. O sol se punha atrás das colinas do monte Quênia. Seus olhos miúdos cansados de tantas aventuras olhavam a página simples onde estava a escrever sua última mensagem aos escoteiros do mundo. Acreditava que precisava deixar uma mensagem de força e fraternidade entre eles. Olhos simples, calmos, sentindo o piar dos pombos nos olmos próximos começou a escrever:

- Caros Escoteiros.
– “Se por ventura vocês tiverem visto a peça “Peter Pan”, deverão estar lembrados de que o capitão pirata faz antecipadamente seu último discurso, porque receava que, possivelmente, quando chegasse sua hora, não teria tempo de fazê-lo”. - Baden-Powell piscou os olhos cansados... Olhou novamente seu jardim, não era sua velha Inglaterra, mas considerava sua nova morada como sua segunda Pátria. Ajeitou a caneta em suas mãos, e continuou: – “Acontece quase à mesma coisa comigo e, embora neste momento, eu não esteja morrendo – Mas creio que este dia se aproxima, quero enviar a vocês uma palavra de despedida. Pensem que estas serão as últimas palavras que dirijo a vocês e, por isso, peço que as leiam e reflitam profundamente sobre elas”...

- Baden-Powell sentia os braços cansados, queria fechar os olhos e dormir. Lembrou-se de Mafeking onde dormir era um sonho que não podia realizar. Lembrou-se de Brownsea e viu os rostos dos meninos com quem acampou pela primeira vez. Nunca pensou que o movimento seria tão grande como agora. Sorriu e levantou os ombros como a exercitar para mais uma batalha, só que desta vez era usar não um sabre, mas sua nova Parker 100. E continuou a escrever: - Eu vivi uma vida muito feliz. Por isso, desejo que cada um de vocês também tenha uma vida feliz. Acredito que Deus nos colocou neste mundo maravilhoso para que sejamos felizes e para que aproveitemos a vida. “A felicidade não provém do fato de sermos ricos, nem de sermos bem-sucedidos em nossas carreiras e, tampouco de sermos complacentes com nós mesmos”.

- Baden Powell parou de escrever. Ouvia vozes no andar de cima. Deviam ser as crianças a brincarem de esconde-esconde ou quem sabe algum jogo de tabuleiro. Ele sabia que os jogos seriam parte importante na formação de sua estupenda criação e ele pretendia dar aos rapazes com seu novo método do Escotismo algum que nunca foi criado. Afinal as crianças gostam de brincar e desejam cada vez mais jogos mais brinquedos... Continuou: – “O primeiro passo rumo à felicidade é dado quando, ainda jovens, nos empenhamos em nos tornar saudáveis e fortes. Assim quando chegarmos à idade adulta seremos pessoas úteis ao mundo e poderemos aproveitar a vida! O Estudo da natureza mostrará que Deus criou o mundo repleto de coisas belas e maravilhosas para vocês desfrutarem das mesmas. Alegrem-se com o que receberam e façam bom proveito disso. Olhem para o lado brilhante das coisas, ao invés do seu lado sombrio”...

- Baden-Powell parou. Com os olhos cansados e pequenas lágrimas olhou uma névoa violeta subindo as alturas distantes onde o tempo vagou. Sentiu um cheiro de rosas no ar... Um perfume inebriante. Uma torre de arvores aparece nos olmos próximos, em resposta ao distante cantar de uma pomba. Uma abelha cantarolava sonolenta por um mel que não encontrou. Tudo era paz em sua PAXTU ao anoitecer. Não podia parar, a Parker rodopiou fazendo da escrita sua última mensagem: - “Contudo, o verdadeiro caminho rumo à felicidade está em fazer outra pessoa feliz. Tentem deixar este mundo um pouco melhor do que o encontraram e, quando chegar a hora de vocês, que possam partir felizes com o sentimento de que, pelo menos, não desperdiçaram o tempo, mas sim, fizeram o melhor que puderam”...

- Baden-Powell viu que a noite chegou. Era hora de descansar e honestamente sabia que estava cansado. Olhou para trás e deu um pequeno suspiro... Foi um dia carregado de recordações. Sabia que não fora um dia ocioso. De novo ouviu na janela superior risadas de gente jovem indo para a cama. Sabia que amanhã seu dia seria tão feliz como hoje... Sorriu e voltou a escrever: - “Para viverem e morrerem felizes tenham este pensamento como guia e, sem esquecer o lema “Sempre Alerta” sejam sempre fieis a Promessa escoteira e às suas regras, mesmo quando já forem adultos. Que Deus os proteja e os ajude a cumpri-las”.

- Baden-Powell. – Sorriu. Sabia que era um vencedor. Imaginava um Escotismo no futuro cheio de amor paz e fraternidade. Conseguiu terminar. Sabia que seu fim era próximo. Viveu como sempre quis viver sorrindo e sendo feliz. Não havia mais o brilho avermelhado do por do sol para dar luzes e sombras nas florestas que se estendiam abaixo. Uma névoa violeta subia as alturas distantes onde o tempo vagou... Era hora de dormir...
– Do vosso amigo,
Baden-Powell of Gilwell.
E eu daqui a pouco também vou dormir. Quanto tempo ainda tenho? Não sei. Deus é quem decide o caminho de todos nós.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Maneco Cozinheiro azarado e trapalhão. Uma história, uma lenda escoteira.




Maneco Cozinheiro azarado e trapalhão.
Uma história, uma lenda escoteira.

         - A patrulha não sabia mais o que fazer. Maneco tinha um sorriso encantador, mas era um perfeito azarado e porque não dizer desastrado. Lilico o Monitor tentou e tentou e nada. Deu conselhos, ficou ao lado dele, mas parecia que o azar o perseguia. - Chefe! Não dá mais. Se ele continuar na patrulha não ganhamos uma. Ontem mesmo quando o senhor deixou que o chamássemos para o cerimonial ele deu um belo sorriso e depois aprontou aquela. “Aquela” foi um “pum” que de tão alto fez todos gargalharem na ferradura. O Chefe Luiz pensou e pensou. Não era a primeira vez. Maneco cozinheiro além de aprontar sem querer era mesmo um azarado. A patrulha quando ele entrou se divertia com ele. No primeiro acampamento lá foi ele para o “Miguel” e em vez de ter folhas preparadas pegou logo um punhado de urtigas. Deus do céu! Ele gritou feito um louco e por toda a noite não dormiu e não deixou ninguém dormir.

        Aos poucos Maneco cozinheiro foi se integrando a patrulha, mas sempre aprontando. Por sorte ou azar o colocaram como bombeiro/aguador e ele se achava o máximo. Contava para todos que seria o futuro Cozinheiro, pois seu cargo atual na escala hierárquica o próximo seria ele. Todos sabiam que se isto acontece à patrulha ia para o brejo. Maneco Cozinheiro nem sorte tinha. Sua mochila nas marchas de estrada mesmo levando quase nada quebrava sempre as alças. Lá estavam todos para ajudar a costurar. Quando o Comissário Fugi Moto compareceu em um acampamento aceitou o convite de sua patrulha para almoçar. Todos assustados sabiam que Maneco ia aprontar e não deu outra. Todos sentaram nos bancos em volta de mesa e quando ele foi sentar apoiou na mesa e ela veio abaixo. Os pratos esparramados com o almoço pelo chão. Não havia repetição e as demais patrulhas dividiram com eles. Fazer o que? O próprio comissário Fugi Moto riu a valer e achou que isto acontece com todo mundo. Ele não conhecia Maneco Cozinheiro.

                  Pintassilgo era o cozinheiro mor da patrulha. Batuta, um grande cara e um excelente cozinheiro. Fazia milagres com pouca coisa. Saia pelos campos e voltava com um bornal cheio. Sorria e dizia – Comida para dois dias! Ele salvava a patrulha no campo. Podiam perder jogos, inspeção, podiam perder em tudo, mas na cozinha Pintassilgo dava show. Um dia chegou chorando na sede. – Turma, minha mãe vai para a capital, ela quer achar meu pai que sumiu! Careca o sub não acreditou. Perder Pintassilgo e ganhar Maneco Cozinheiro? Que bela troca! Mas não teve jeito, uma semana depois Pintassilgo despediu de todos e foi embora. Jurou que um dia voltaria. Deste que Pintassilgo deu a notícia que Maneco Cozinheiro sorria de orelha em orelha. Fizeram um Conselho de Patrulha. Ele tinha de participar também. Discutiram, discutiram e não teve jeito, Maneco Cozinheiro foi empossado. O mundo desabou em cima dos Corujas. Agora estavam perdendo em tudo.

                No primeiro acampamento os patrulheiros choraram. O arroz queimado. O feijão duro, o bife sem tostar e sangrando. Batatas fritas? Só na terra dele. Perna Curta o Monitor procurou o Chefe – Não dá Chefe, ou mude ele de patrulha ou a nossa não vai ficar ninguém. Chefe Pascoal não sabia o que fazer. Já sabia das aventuras de Maneco cozinheiro e suas trapalhadas. Sempre achou que o tempo iria ajudar e ele ia se incorporar a patrulha. No final de acampamento todos viraram as costas para Maneco Cozinheiro. Ele foi para a casa chorando. Sabia que fez tudo errado, devia ter pedido a sua mãe para ensiná-lo e não fez isto. Achou que olhando Pintassilgo bastava. Pensou em sair do escotismo, quem sabe seria melhor para todos?

                 No sábado seguinte voltou à sede e na bandeira pediu a palavra - Chorando disse que estava saindo do escotismo. A patrulha sorriu os demais disseram baixinho – Graças a Deus. E não é que o Chefe Pascoal tomou as dores dele e não o deixou sair? Devia ter deixado, pois o mastro da bandeira se partiu e caiu na cabeça do Chefe! Bem feito disseram todos. Todos sabiam que ele o Maneco Cozinheiro era mais azarado que Chico Feliz. O danado não era Escoteiro, fez um jogo na sena ganhou e cadê o jogo? Sumiu! Todos seus amigos sabiam dos números que ele jogava, mas não adiantou. A Caixa não pagou. O Chefe Pascoal chamou os monitores. Explicou sua atitude que mesmo razoável não convenceu. Maneco Cozinheiro sabia que todos eram contra ele. Sabia que eles estavam certos. Foi para a casa e passou cinco dias lá trancado no seu quarto pensando.

                  Mandou um recado para a patrulha e o Chefe. – Preciso de uma licença de sessenta dias! Todos aceitaram pulando de alegria menos o Chefe. No tempo determinado Maneco Cozinheiro retornou. Quem o visse não acreditava. Cabelos longos presos por um elástico tipo rabo de cavalo. Porte de atleta, muito bem uniformizado e sempre sério, quase não sorria. A patrulha sentiu força nele. No acampamento deu o maior show. Fez um arroz de forno (o forno ele mesmo construiu) um feijão tropeiro e as batatinhas fritas eram demais. As demais patrulhas ficaram estupefatas. À noite na conversa ao pé do fogo o Monitor Perna Curta insistiu com ele que contasse o que aconteceu. Maneco Cozinheiro sorriu. – Meu Monitor um milagre. Como ele aconteceu fica somente entre Deus e eu. – Todos riram e bateram palmas para Maneco cozinheiro. A Patrulha Coruja nunca mais foi à mesma. Ganhava tudo, era a melhor sempre. E a comida? Nota dez!

                  Maneco Cozinheiro nunca contou que procurou o Professor Sabe Tudo. Abriu-se com ele. Ele sorriu. Ficaram juntos por dois meses e ele ensinou tudo que sabia sobre como conquistar as pessoas. Fez questão que seu Filho um famoso cozinheiro que fez curso na França lhe desse umas aulas. O resto sua mãe terminou. Em casa desenhou fogões, fornos, tipos de fogos e ficou bamba treinando no seu quintal. São coisas que só aqueles que acreditam em mudar acontecem. Ninguém é só aquilo que outros veem. Em cada um de nós existe outro eu. Maneco descobriu o seu. Há cinco anos folheando uma revista enquanto esperava minha vez no dentista, vi uma foto que me chamou atenção. Era Maneco Cozinheiro em um concurso de cozinha em Paris. Tirou o primeiro lugar. De um cozinheiro Escoteiro para um cozinheiro internacional. Como dizem por ai? – Pois é... São coisas de Escoteiros! 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Lendas da Jângal. O ultimo Grande Uivo – É difícil dizer adeus...




Lendas da Jângal.
O ultimo Grande Uivo – É difícil dizer adeus...

... – Ai de mim! Exclamou Mowgly em soluços. Eu não sei o que sei! Não vou, não vou, não quero ir, mas sinto-me arrastado por ambos os pés. Como poderei deixar de viver estas noites do Jângal? – Ergue os olhos, irmãozinho, disse Baloo. Não há mal nisso. Quando o mel está comido, abandonamos os favos. – Depois que soltamos a pele velha, não podemos vestir de novo, ajuntou Kaa. É da lei. A pantera lambeu os pés de Mowgly. – Lembra-te que Bagheera te ama, disse ela por fim, retirando-se num salto. No sopé da colina entreparou e gritou: Boas caçadas em teu novo caminho, senhor da Jângal! Lembra-te sempre que Bagheera te ama.

           Em nossa vida estamos sempre dizendo adeus. Não é um adeus para sempre. Mas para crescer temos que deixar para trás aqueles que amamos e nunca deixaremos de amar. Todos nós um dia deixaremos o nosso lar, sem perceber dizemos adeus aos nossos pais, nossos irmãos, mas continuamos junto a todos eles sempre na mente e no coração. Um dia vamos partir para mais longe, mas o longe é tão perto que nos manteremos unidos em qualquer tempo. Muitas vezes sentimos saudades do passado, buscamos lá no fundo da memória cada ato, cada ação e isto nos trás um bem tremendo. Dizem que recordar é viver. Acredito sim. Drummond dizia que fácil é dizer “oi” ou “como vai?” Difícil é dizer “adeus”... Fácil é abraçar, apertar a mão. Difícil é sentir a energia que é transmitida... Fácil é querer ser amado. Difícil é amar completamente só...

           Realmente é difícil dizer adeus. Uma palavra que não gostamos de usar. No escotismo estamos sempre dizendo adeus. Um adeus diferente, pois estamos a poucos passos daqueles que despedimos. Mas aquela saudade gritante ainda machuca quando partimos para a Cidade dos Homens. Se um dia fomos lobos o nosso amor a nossa Alcateia, a nossa Akelá, nosso Balu, Kaa, Baguera ou Raksha ficará para sempre em nosso coração. Se ali vivemos uma vida cheia de amor, nada poderemos fazer para que um dia cada um de nós fique para trás. Vai chegar a hora de dizermos adeus. Faz parte do nosso crescimento? Sim faz parte. Iremos deixar para trás um pedaço de nós. Não foi assim que disseram? O homem ao homem! É o desafio da Jângal! Já parte aquele que foi nosso irmão. Ouvi, então, julgai, ó vós, gente da Jângal, respondei: - Quem irá detê-lo então?

          Tantos anos, um tempo simples cheio de amigos e sem querer sabemos que o homem vai ao homem, mesmo que saibamos que na Jângal está a nossa trilha, ninguém mais vai poder nos seguir. Nem mesmo Shere Khan. Permanece aquela dúvida cruel de menino lobo, a lembrar de que Mowgly queria ter morrido nas garras dos Dholes, quando sua força esvaiu-se e ele sabia que não foi veneno. Dia e noite ouvia um passo duplo no seu caminho. Quando voltava à cabeça sentia que alguém se esconde atrás. Procurava por toda parte atrás dos troncos, atrás das pedras, e não encontrava ninguém. Chamou e não tinha resposta, mas sentia que alguém o ouvia e se guarda de responder. Ele se lembra de tudo. Sabia que tinha de partir. Se Baloo, Akelá disse que ele iria um dia partir para a Alcateia dos homens não tinha como fugir. Não era a lei? Não foi Kaa quem disse que homem vai para os homens? Mesmo que a Jângal não mais o expulse? É não adiantava mesmo que os irmãos Gris uivem furiosamente dizendo – Enquanto vivermos ninguém, ninguém mesmo ousará!

           Ele sente que já está com saudades. Estão todos prontos para o Ultimo Grande Uivo. Quantas vezes ele os fez? Quantas vezes ele gritou melhor, melhor, melhor e melhor? Quantas vezes a Akelá no centro do círculo de braços abertos olhou para ele e ele sabia o que responder? Tudo agora vai acabar para sempre? Mas ele se lembrava das palavras de Bagheera dizendo que ele deveria seguir novos caminhos – Senhor da Jângal, lembra-se que Bagheera te ama, vai em paz. O Grande Uivo terminou. Era a hora da passagem. Passagem? Ele iria partir? Dizer adeus? Olhou além da floresta e viu os homens meninos o esperando. Ele já os conhecia. Ficou varias luas com eles. Foi bem tratado, aprendeu a dizer o Grito da Patrulha, aprendeu o novo lema à saudação. Aprendeu muitas coisas...

              Ele não sabia se chorava ou se dizia adeus quando se despediu de cada um. Mão por mão. Aquela do coração firme como a dizer: - Estarei sempre aqui e vocês estarão sempre aqui no meu coração. Olhou para Kaa e lembrou que ela chorava e que era difícil arrancar a pele, mesmo que Baloo também chorasse e pedia que antes de partir ele o chamasse. Venha até a mim sábia rãnzinha e ele quase rompeu em soluços naquela despedida dolorida. Não se esqueça de mim. Ele lembrava quando estava partindo e Kaa repetia – “Somos todos, eu e você irmãos de sangue”. Seus olhos estavam molhados de lágrimas. Tinha de partir, sabia que está era sua sina seu destino. Ainda deu para ouvir os soluços e os gritos do Lobo Gris que de olhos erguidos para o céu dizia – Onde me aninharei doravante? Pois agora os caminhos são novos...

          Era seu último Grande Uivo. Mais uma vez olhou lobo por lobo. Nunca mais iria esquecer aquele dia. Hora de partir. Sempre é uma hora difícil de dizer adeus. Mais uma vez ele se lembrou das palavras do seu irmão o lobo Gris – “Filhote de homem, senhor da Jângal, filho de Raksha, meu irmão de caverna, O teu caminho é o meu caminho. A tua caça é a minha caça e a tua luta de morte é a minha luta de morte”. E ele completou gritando para a Alcateia quando partiu - “Boa caçada grande povo da Jângal”! Não tinha mais nada a dizer. Mais uma vez deu seu ultimo adeus e ouvindo a canção do lobinho ele partiu para seu novo mundo. Akelá o levou até a trilha que o levaria a cidade dos homens. Segurou sua mão esquerda e disse – Você sempre será bem vindo ao nosso meio. Quem foi um lobo sempre será um lobo. Vá com Deus e que na cidade dos homens você seja feliz como foi aqui!

        O Monitor e o Chefe o esperavam na trilha da cidade dos homens. Com sorriso saudoso e venturoso ele apertou a mão do Chefe e do seu Monitor. Agora teria uma patrulha, agora ele teria de agir como homem. Sabia que todos iriam ajudá-lo na nova vida. Pois ali disseram eles que seriam um por todos e todos por um. Olhou para trás, acenou para a Akelá e os lobinhos. Seu coração bateu forte. Que vontade de voltar de dizer que não queria ir. Mas agora não era um homem? Suas passadas deviam ser para frente e voltar seria um retrocesso. Pensou consigo como era difícil dizer adeus. Difícil mesmo, mas agora era um homem. Disseram para ele que o homem mais sábio e mais digno de confiança é o que aceita as coisas como são. Ele agora tinha uma nova vida. Sabia que não seria fácil, pois nada neste mundo é fácil. Mowgly não era mais o mesmo quando partiu. Seu coração doído iria se regenerar. Foi saudado por todos na Tropa Escoteira, na cidade dos homens. Fez questão de apertar a mão de todos. Havia aprendido que o Escoteiro é amigo de todos e irmãos dos demais escoteiros.

“O abutre Chill conduz a noite incerta, e que o morcego Mang ora liberta - É esta a hora em que adormece o gado, Pelo aprisco fechado. É esta a hora do orgulho e da força unha ferina aguda garra. Ouve-se o grito: Boa caça aquele Que a Lei da Jângal se agarra”.

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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