quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

COMO ERA VERDE O MEU VALE! A HISTORIA DE ANINHA, UMA LOBINHA INESQUECÍVEL



Como era verde o meu vale!

Nunca conheci meu vale,
Nos meus sonhos era verde na primavera
Lilás no inverno
E dourado no outono
Mas era meu vale, lindo, e ali
E podia viver meus sonhos
Que nunca mais esqueci!

Conheçam a fórmula para a felicidade
 Felicidade = P + (5xE) + (3xA)

. Na equação, P corresponde à pessoa (características da visão de vida, adaptabilidade e flexibilidade), E mede o que é essencial ou existencial (saúde, estabilidade financeira, amizades) e A representa as coisas que o entrevistado considera como "em alta" em sua vida (auto-estima, ambições, expectativas). A auto-estima, expectativas, ambições e senso de humor (H) também são adicionadas, em menor escala.

                     Ninguém acreditou quando viu. Nem eu mesmo. Inacreditável! Impossível! Médicos, psicólogos todos aqueles que deram sua contribuição para a recuperação de Aninha se estivessem alí, estariam tão perplexos como eu. Tudo fora tentando no passado. Longas viagens, passeios, terapia, enfim, seria por assim dizer uma interminável lista, com todos os tipos de tratamento e sujestões. Eu desconhecia esse fato. Nem mesmo me dei por achado quando me falaram de Aninha. Aninha! Olhos negros, pequenos, nariz afilado, cabelos encaracolados negros e cortados curtos. Nos seus sete anos não chamava atenção, quieta no seu canto, sem sorrir, sem olhar para ninguém. Sempre voltada para o nada, como se estivesse em outro mundo, em outra dimensão.

                   Só fui conhecer a historia de Aninha, muitos anos depois quando tentaram enturmá-la em uma matilha na alcateia do grupo que participava. O que me disseram foi uma historia fragmentada, onde nada se ligava, a não ser sua profunda tristeza, fechada em sí propria. Quando nasceu seus pais não observavam nada de anormal em Aninha. Claro, quase nunca chorava. Rir? Nunca viram. Aos dois anos desconfiaram que ela tivesse algum problema. Não sabiam o que era. Não tinham a menor idéia. Entretanto, verificaram que ela tinha toda caracteristica de uma criança autista. Afastava-se do mundo, das meninas de sua idade. Inclusive dos seus próprios pais.

                 Ela vivia sozinha. Fechada em seu mundo. Não fazia amigos. Quando chamada muitas vezes nem respondia. Seus olhos não tinham uma direção fixa. Aqui e ali e nunca olhava ninguem diretamente. Parecia procurar algum no infinito. Brincadeiras com outras crianças? Nunca. Bem Aninha falava corretamente. Pelo menos a fala era perfeita. Mas o que mais entristecia aos seus pais, era o sorriso. Nunca viram Aninha sorrir. Nem chorar. Na escola seus professores sentiam enorme dificuldade em acompanhá-la. Aconselharam aos seus pais que procurassem ajuda especializada. Alí na companhia daquelas crianças ela não se enturmava, não se desenvolvia e tudo que eles fizessem não era do seu agrado.

                Seus pais levaram Aninha a diversos medicos, terapeutas, psicólogos e nenhum deles foram capazes de diagnosticar o que se passava com Aninha. Descartaram a possibilidade de ser ela autista. Todos os testes indicavam o contrário. Os pais de Aninha faziam de tudo. Nos fins de semana a levavam em cinemas, shopings, parques, tudo onde diziam que as crianças sorriam e brincavam. Aninha não. Levavam uma vida modesta. Seu pai trabalhava em um Banco na cidade, e seu salário era acanhado. Mas o suficiente para que desse todo conforto a sua familia e principalmente a Aninha.

                Um dia, eu estava em casa, revendo um filme e que tinha visto diversas vezes. Um dos meus preferidos. “Como Era Verde o Meu Vale". É um daqueles filmes que ficam na lembrança para sempre.  Acho que, mesmo para quem já o assistiu revê-lo é reviver as mesmas emoções movidas pela história do jovem Huw e de sua família.  Há quem diga que ele era o preferido do diretor John Ford.  Talvez uma das grandes causas do sucesso desse filme seja o fato dele criar, de alguma forma, um forte sentimento de família que persiste mesmo enfrentando a pobreza, greves, acidentes etc. Deu-me um estalo! Eureka! Quem sabe o escotismo pode ajudar?

                 Liguei para a Akelá Silvia na mesma hora, passava da meia noite, e falei sobre Aninha. Ela já conhecia a historia. Perguntei se tentaram convidá-la a ingressar na alcatéia. Ela me disse que a familia esteve lá em duas reuniões. Entretanto Aninha não mostrou nenhum entusiasmo. Nem mesmo ficou prestando atenção a movimentação das lobinhas. Não me dei por vencido. Eu acreditava que devia existir uma maneira de Aninha se interessar por alguma coisa que poderia ser a solução para ela. O escotismo poderia ser a fórmula para a felicidade de Aninha. Felicidade = P + (5xE) + (3xA). Não conhecem? Estou conhecendo agora. Eu inventei. E isso me fez acreditar mais e mais no que pretendia fazer. Eu sabia que esta fórmula é a chave mestra da força do movimento escoteiro.

                Estudei meu plano nos minimos detalhes. Falei com os pais de Aninha, com a Akela, com o Diretor Técnico sobre o plano. Riram de mim. Com que base diz isso? Se tantos especialistas tentaram e não conseguiram, voce agora achou a fórmula certa? Falavam. Mas eu acreditava. Queria o aval de todos. Os pais de Aninha não se animaram, mas tampouco foram contra. Tinham tentado tudo e sempre nutriam a esperança de ver Aninha sorrir. Só uma vez bastaria diziam. Não sabiam como era seu sorriso. Ela nunca sorriu.

                 O dia chegou. Eu não tinha medo ou receio. Se desse certo, teria feito meu papel escoteiro da boa ação. Se desse errado, paciencia. Sempre devemos tentar. Se um dia formos nos criticar, que seja por ter feito e não por ter deixado de fazer. O dia foi de sol, a tarde uma linda tarde prenunciava o sucesso no meu empreendimento. Eu acreditava piamente que daria certo. Fui à casa de Aninha. Tudo estava preparado. Esperamos dar umas oito horas da noite. Ela dormia profundamente. Sua mãe a carregou até o carro.

                A viagem foi curta. Chegamos logo ao sitio onde a Alcateia Waingunga acantonava. Eu sabia que o Fogo de Conselho seria por volta das nove da noite. Teriamos que transportar Aninha sem ela acordar, até o local, e ali sentada em uma cadeira de praia e no escuro, Aninha seria acordada com a chegada das lobinhas, que caladas iriam ficar em volta da fogueira e dando as mãos cantariam bem alto a Canção do Fogo do Conselho. Aninha acordaria e vendo as chamas altas e tantas meninas alegres e cantando poderia levar um choque de felicidade. Seria possivel?  Quando contei para os coadjuvantes todo o plano eles riram a valer. Incrédulos! Em acreditava que ia dar certo.

                Todos os chefes presentes e os pais olhavam para Aninha. A espera fora infindável. A canção terminou, o fogo crepitou as chamas subiram ao alto, os pássaros norturnos piavam, até uma coruja voou de seu ninho em busca de sossego. Aninha acordou espantada, surpresa e assustada. Ficou em pé, e vendo tantas lobinhas dançando em volta do fogo, eis que o inusitado aconteceu. Aninha passou a seguir os passos das outras. Cantava baixinho: Na Roca do Conselho, o uivo do Aquelá. E na Jângal distante, respondem os Lobinhos - Au au u u. Au Au u u. ¶¶.

                   Aninha agora sorria, brincava e cantava com as outras meninas. Seus pais pularam de contentes, o sorriso deles era contagiante. Os incrédulos de olhos arregalados, não acreditavam no que viam. Durante todo o Fogo de Conselho Aninha participou ativamente. Esqueceu os seus pais. Suas amigas agora eram as meninas da matilha Marron. Fora adotada e muito bem recebida por elas. Em pouco tempo ela conhecia tudo da Jangal. No monte Seoni, onde habitava a alcatéia sua mente vivia agora. Conhecia o Rio Waigunga, que corre dos montes Seone e forma os pântanos nas baixadas, não esquecia nenhuma parte quando contava a historia de Oodeypore, a cidade onde nasceu Mowgly e onde Bagheera a pantera negra esteve presa.

               Aninha mudou. Muito mesmo. Ninguem explicava como podia ter acontecido assim. Seus pais comentavam com amigos que o escotismo é a formula do sucesso para os jovens. Todos os sábios doutores tentaram e nada conseguiram. Agora em um simples Fogo de Conselho aconteceu à cura de sua filha. Eles se transformaram. Suas tristezas acabaram. Encontraram a fórmula da felicidade junto com ela. Aninha fez a promessa, em um dia sem sol, mas parecia que o vento sul trazia toda a força dos Campos de Bhurtpore.

               Foi um dia que me marcou muito. Claro, eu estava lá. Não podia perder. Era como se Hathi e seus filhos também estivessem presentes. Aninhados em um degrau da escada Baghera e Baloo se deliciavam com a promessa de Aninha. Enroscada no mastro da bandeira, Kaa ria e dizia, “Somos do mesmo sangue, tu e eu!” O lobo Gris e seus irmãos davam um grande uivo de felicidade. Até mesmo os Bandar-log, o povo macaco, agora tambem estava feliz ali, vendo Aninha dizendo com todo amor: “Prometo, fazer o melhor possivel para...”

               Muito tempo depois, fiquei sabendo que Aninha em sua casa chamava seus pais, e alí com o fogo da lareira acesa, contava historias da Jangal. Soube tambem que alguns parentes, vizinhos e amigos se reunião para sentir a força da felicidade de Aninha, quando ela contava ou narrava com sua voz linda, em pé, olhando nos olhos de todos em sua volta e apontando um por um dizia: - Voces precisam conhecer a Lei da Jangal, Baloo, o urso pardo sempre dizia que essa lei vigora na selva e é antiga como o céu. Dizia ainda que assim como o cipo que envolve a árvore, a Lei do Lobinho envolve todos nós.

              Aninha ficava horas narrando. Ninguem arredava o pé. Pareciam encantados como se Kaa a serpente ali tivesse passado. Conheceram todas as personagens, e até tinham medo de Shere Khan.  – Porque voce matou? Perguntou Hathi, pelo prazer de matar? Shere Khan respondeu isso mesmo. Era meu direito. A noite é minha voce sabe. Que direito é esse de que fala Shere Khan? Perguntou Mowgly. É uma historia antiga, tão velha quanto à propria selva. Então Hathi narrou cabisbaixo, descrevendo como o medo se apoderou dos habitantes do outro lado do rio. Mas essa é outra história...



              Foi maravilhosa a recuperação de Aninha. A Alcateia Waingunga passou a ser outra. Agora Aninha dava o toque da alegria e da felicidade. Ninguem ria mais que ela, quando brincava ou jogava era como se fosse à primeira vez. Entregava-se de corpo e alma. A matilha marron nunca mais foi à mesma. Corria, saltitava, gritavam e Aninha mostrava a todos sua mais suprema alegria e felicidade do mundo. É como Aninha mudou. Como o escotismo faz milagres. Lembro-me que um dia lí, não lembro onde, que cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Ela não nos deixa só, porque deixa um pouco de sí e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.

              Não sei por que, me lembrei de outro filme, famoso, uma ficção cientifica cujo título era Blade Runner. Em um momento triunfal, onde a justiça e a coragem se fazem presentes, o androide antes de morrer disse – “Tenho visto coisas que as pessoas nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas mais além Orion. Eu assisti os raios C brilhando no escuro  perto da comporta Tannhauser. Todos esses momentos se perderam no tempo, assim como lágrimas na chuva. Hora de morrer!”. Nada há ver. Não irei morrer. Mas ví muito mais. Ví Aninha sorrir. Valeu uma vida e esses momentos nunca se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Para mim, o sol brilha de uma maneira firme. Quem viu Aninha sorrir pela primeira vez, nunca mais vai esquecer.

             O tempo passou. Mudei de cidade, nunca mais ouvi falar na Aninha. Agora deve estar uma moça feita com seus 18 anos. Tenho certeza que ainda está sorrindo. Sua vida agora é outra. Todo o passado se foi e ela aprendeu a sorrir, descobriu a felicidade. O porquê de antes e o porquê de agora, não sei explicar. Não sou psicólogo. Nem um doutor entendido no assunto. Mas sou um escoteiro, e sei por natureza que o escoteiro vive sorrindo, a vida para ele é bela e é formada de doces e grandes momentos de alegria e felicidade.

            Sei também que as dificuldades ele o escoteiro deixa em um canto do armário, um dia vai lá e dá um jeito nela. Ajudando o próximo, amando seus irmãos e sendo amigos de todos, não importa quem. Ele, o escoteiro faz a sua felicidade. Eu acho que sou feliz, muito. Contribui para que Aninha descobrisse a fórmula. Qual? Felicidade = P + (5xE) + (3xA) resultado- ESCOTISMO! Uma linda e explêndida maneira de viver e ser feliz! Por isso eu amo e adoro ser escoteiro!

E quem quiser que conte outra...

Não me canso de procurar a tal fórmula da felicidade completa e talvez quando a encontrar perceba que sempre faltará um dos elementos...
Talvez aí resida à mágica dessa incansável busca

“ A EMBRIAGUEZ DA PRIMAVERA “

“O homem ao homem!  É o desafio da Jângal!
Já parte aquele que foi nosso irmão.
Ouvi, então, julgai, ó vós, gente da Jângal
Respondei: quem irá detê-lo então?

O homem ao homem! Ele soluça na Jângal!
O nosso irmão se aflige dos males supremos.
O homem ao homem!  Nós os amamos na Jângal!
Esta “é o sua trilha e nós não mais o seguiremos”.

DO LIVRO DA JÂNGAL DE  RUDYARD KIPLING 


ASHANTI, UMA PIONEIRA NO RIO DA ESPERANÇA


Ashanti, uma pioneira no Rio da Esperança

Não peço riquezas nem esperanças, nem amor,
Nem um amigo que me compreenda. Tudo o que eu peço
 É um céu sobre mim e um caminho a meus pés.

      A chalana seguia seu curso rio abaixo. Dos dois lados mata fechada. Já tínhamos passado por dezenas de igarapés. As barrancas mostravam a cheia do ano passado. O rio Madeira ali não era majestoso, dizem que ele tem mais de 2.500 quilômetros de extensão. Dizem ainda ser o maior afluente do rio Amazonas. Diziam também que se chamava Cuyari, assim conhecido pela grande nação dos Tupinambás a muitos e muitos anos atrás.

      Mais de dois dias já haviam se passado desde nossa saída de Humaitá (terra da Mangaba) no norte do Pará. Chegamos ali pela BR-319 que liga Porto "Velho" a Manaus. Bem próximo, a Usina hidroelétrica do Jirau parecia que não ia sair do papel nunca. Um conflito entre o sagrado e profano. Ninguém sabia mais se ali era a Cachoeira do Padre ou o Caldeirão do Inferno. Mas essa é outra historia.
        O comandante do barco, o Velho Mestre Antoninho das Mercês agora um amigo de todos nós, nos dizia que chegaríamos por volta da uma da manhã em Santarém. Passamos pelas pequenas vilas de Trata-Sério Macacos e Ilha Teotônio. Em Santarém tentaríamos um vôo da Força Aérea Brasileira até Cuiabá. No inicio era uma viagem encantadora. Ver a floresta Amazônica e suas vilas ribeirinhas era um grande espetáculo. Agora, no entanto depois de dias ali, o espetáculo não era o mesmo.

       Todos me chamam de Ashanti, apelido dado pelo meu amigo pioneiro Leo. Meu nome mesmo é Loreta Salmineu Montes. Sou pioneira do Clã Guarini (guerreiro lutador em tupi-guarani). Eu gostava do apelido, afinal tinha muito a ver com Baden Powell. Os Ashanti foram muito influentes antes da colonização européia. Histórias e histórias são contadas na vida de BP com eles.  Em Gana as montanhas, florestas e savanas, são exuberantes.

       Éramos doze pioneiros. Cinco moças e sete rapazes. Mas quem freqüentava as reuniões mesmo era eu e mais cinco. Os demais não tinham uma participação constante. Sabíamos que nos clãs isso era difícil. Trabalho, faculdade, uma época que cada um de nós está em busca seu futuro.

       Passava das cinco da tarde quando ouvi um forte estrondo e uma batida. O barco adernou e fui para dentro do rio. Em minutos parte dele ficou submersa. Todos nós pioneiros nessa grande jornada (éramos seis) estávamos juntos na hora. No convés nos divertíamos com um jogo de dama. Dentro do rio procurei nadar até a margem que estava próxima. Leo, Marlon e Fanzini mergulharam até o fundo do barco a procura de sobreviventes. Eu Janete e Lívio chegamos à margem sem problemas.

       Logo a pequena praia estava cheia de sobreviventes. Sempre o Leo, Marlon e Fanzini traziam crianças e mulheres que não sabiam nadar. O Mestre Antoninho também fazia o mesmo. Não sabia quantos estavam na embarcação. Mas não deviam passa de vinte. Eu e Janete ajudávamos os que estavam ainda fora de si com a respiração artificial e tentando esquentar o corpo fazendo fricção. Logo voltavam a si. Meia hora depois, estavam todos na margem. Ninguém chorava a falta de alguém sinal que todos haviam se salvado.

      Nós os pioneiros éramos advindos dos seniores e guias. Exceto Janete, que já entrou com dezenove anos. Os passageiros estavam em pânico e fizemos um pequeno Conselho de Clã para tentar definir um plano de ação. Mestre Antoninho estava exausto. Vimos que ele não estava preparado para liderar. Perguntamos a ele se deu tempo de mandar um S.O.S a capitania. Ele disse que não. O barco afundou muito rápido. Vimos que iríamos passar a noite ali. Todos estavam molhados. Nossos pertences estavam no fundo do rio. Leo disse que ao amanhecer iria tentar recuperá-los.

         Eu gostava do Leo. Para dizer a verdade, uma grande paixão escondida. Um grande pioneiro. Fora lobinho, escoteiro, e se gabava de ter sido um dos Cinco Magníficos da Patrulha Aconcágua quando sênior. Contou para nós historias fantásticas. Quando adentrou no Clã, não se adaptou. Achou muito parado. Muita conversa e pouca ação. Foi bem recebido por todos. No entanto nós já estávamos acostumados com aquela rotina. Nossas atividades eram mais promover em grupos de interesses, as atividades de ajuda ao próximo (muito poucas), algumas de campismo sem aprofundar muito nas técnicas antes realizadas por nós quando seniores/guias.

        Nossa progressividade estava em passo de espera. Ninguém ainda conseguira a Insígnia de BP. O Sr. Bartilio e sua esposa dona Edna, eram respectivamente nosso mestre e nossa mestre pioneira. Tinham feitos alguns cursos de formação, no entanto não eram freqüentes nas reuniões e pouco entendiam de pioneirismo.

       Leo quando fez a investidura, deu um novo ânimo ao Clã. Passou a entusiasmar a todos, criou atividades diferentes. Agora fazíamos nossas áreas de interesse com gosto. Antes desta grande aventura estivemos em duas atividades nacionais, dois mutirões pioneiros e fomos para uma aventura no pico do Itatiaia. Outras tantas foram realizadas e saborosas. Foi muito divertido.

      Foi difícil fazer uma fogueira. Ninguém tinha isqueiros e nem fósforos secos. O Fanzini disse que conseguiria. Entrou um pouco na floresta e voltou com uma madeira verde, vários cipós, fez um pequeno arco e limpou bem uma madeira com ponta nos dois lados. Pegou duas lascas de arvores, furou no meio, e elas serviram de tampa onde girava em boa velocidade um pequeno pedaço de madeira seca. Demorou. Acho que mais de hora. Revezamos na ação. O Braço doía, mas uma pequena fumaça apareceu. Capim seco e logo o fogo brotou. Todos sorriram. Alguns bateram palmas. A fogueira cresceu. Em volta os sobreviventes se achegaram para esquentar e tentar secar suas roupas molhadas.

      Não tínhamos nada para comer. À noite nem sabíamos o que a mata poderia oferecer. Leo pediu ajuda a alguns homens e organizou uma pequena guarda em volta do campo. Duas horas para cada dupla. Foi difícil aquela noite. Muitos não conseguiam dormir. Nós os pioneiros dormimos fácil. Estávamos acostumados. Muitas e muitas noites dormindo ao ar livre, tendo as estrelas como barraca.

      O dia amanheceu. Lindo, um sol maravilhoso. Mestre Antoninho calculou que lá pelas duas ou três horas deveria chegar ajuda. Parentes e encarregados de portos onde o barco devia apoitar, deveriam estar preocupados e avisariam a capitania. Dito e feito, antes das duas o barco patrulha da marinha e um da capitania, surgiram na curva do rio.

      Pela manhã Leo, Fanzini e Marlon mergulharam em busca de nossas mochilas. Foram encontradas. Retiraram também várias malas e sacolas que ainda poderiam aproveitar. Os donos ficaram agradecidos. Mestre Antoninho conseguiu pegar latas de conserva na cozinha submersa. Deu para as crianças e mulheres. Nós não comemos nada. Não dava. No barco da capitania que estava junto ao barco patrulha lanchamos. Chegamos a Santarém a noitinha.

     Quando o Leo apareceu no Clã, senti por ele mais que amizade. Mas ele não demonstrou o mesmo por mim. Ele namorava uma jovem, que não era do movimento e demonstrava ter um grande amor por ela. Tentei esconder meus sentimentos. Nâo era fácil. Afinal estávamos juntos sempre e em atividades por muito mais tempo do que ele ficava com ela. Estava difícil ficar ao lado dele sem ter esperança. Afinal cheguei à conclusão que o Clã era parte da minha vida e o Leo apareceu depois.

     Em um grande mutirão pioneiro realizado no início do ano, conheci melhor a namorada do Leo. Ela a levou. Não sem antes solicitar autorização ao Mestre PI. Olhe, para ser sincera não gostei muito dela. Achei-a meio pedante. Vivia agarrada a ele todas as horas. Um ciúme doentio quando ele estava conosco. Nâo gosto muito de casais assim em atividades pioneiras. Tiram a liberdade dos amigos e outros que querem se aproximar.

     Chegamos a Santarém já à noite. A Capitania nos ofereceu hospedagem em quartos até razoáveis. Não saímos pela cidade. Permanecemos ali, pois o sono era enorme. Aproveitamos para telefonar aos nossos familiares. A noticia do naufrágio já era do conhecimento deles. Diziam ter dado na imprensa a morte de muitos, mais de 20. Barco pequeno, mal cabia vinte. Não morreu ninguém, tenho certeza. Eu e o Leo ficamos na porta do meu quarto conversando. Dizia-me que iria terminar o namoro. Ela não deixava fazer o que mais gosta. Seria uma escolha difícil, ele dizia que a amava, mas seu coração pulsava forte nas atividades escoteiras. Não disse nada, nada poderia dizer naquele momento.

      Fui dormir pensando no Leo. Não muito, dormi logo. Pela manhã fomos ao aeroporto. Demos sorte, um capitão da aeronáutica tinha sido escoteiro e conseguiu um vôo para São Paulo às duas da tarde. Um avião cargueiro. A viagem era tranqüila. Poucos cochilavam. Alguns jogavam damas e eu e Leo conversávamos banalidades. Ele me dizia que o pioneirismo era muito diferente do que pensava. Até concordava com os novos que adentravam direto no Clã. Mas ele se sentia um peixe fora d’agua.

          Essa atividade foi planejada nos seus mínimos detalhes por ele. Afinal todos nós trabalhávamos e não seria fácil ficar mais de 15 dias em atividades aventureiras nessa região. Marcamos as férias em uma só data. No principio nove pioneiros. Cada um ficou encarregado de uma parte. Eu fiquei responsável pelas finanças. Todo mês me davam um valor que depositava em Caderneta de Poupança. O Mestre Pioneiro na iria assim como sua esposa. Depois desistiu o Josiel, e o Marco Antonio. Ambos teriam um estagio e não queriam faltar. Dos sete, tivemos ainda a deserção do Jason.

          A sugestão do Leo era ir à até Belém, de lá a Manaus, e descer o Rio Madeira até Santarém. Uma volta e tanto. Quinze dias de atividades aventureiras para ficar marcado para sempre em nossas vidas pioneiras. Durante toda preparação que demorou um ano e meio, eu sonhava com essa atividade. Antes fomos a Caparaó e subimos o Pico da Bandeira. Passamos quatro dias no Pico do Itatiaia tudo idéia do Leo. Os pioneiros começaram a se motivar e grandes atividades foram realizadas. Só faltava mesmo o nosso Mestre Pioneiro se motivar, pois passava por uma situação crítica (perdeu o emprego).

    Partimos às quatro da tarde. Uma viagem gostosa e tranqüila. Uns dois solavancos, o avião virou de lado. Olhei para o Leo e os demais. Ficamos assustados. Um tenente disse para ficarmos calmos. Apertar bem o cinto. Iríamos fazer um pouso de emergência em uma pista de mineradores perto dali. Pista pequena, mas o piloto era muito experiente. Só havia um problema, a pista estava cheia de buracos, feito pelo exercito com dinamite para que aviões de contrabandistas não usassem. Descemos. Uma pancada forte, fortíssima. O avião rodopiou e se partiu ao meio. Leo foi jogado a grande distancia preso a poltrona. Mais ninguém teve ferimentos graves. Corremos até lá. Leo tinha um corte profundo na perna e outro no couro cabeludo. Muito sangue.

     Um dos tripulantes era medico. Fez ali os primeiros socorros. Senti uma pontada enorme no coração. Não podia perder o Leo.  Que coisa, que aventura estava acontecendo conosco. Nâo foi planejado assim, mas se aconteceram tinham um motivo. Talvez de me aproximar mais do Leo. Meu coração batia forte por ele. Ele, no entanto só me olhava como amiga. Não demorou um helicóptero da FAB chegou. Levou-nos todos até Belém do Pará. Tivemos que ficar mais cinco dias lá. O Léo recuperava bem e deu para retornarmos a nossa cidade.
Eu ia sempre as reuniões de sábado. O Leu não. Não podia andar. Liguei para ele varias vezes, e fui a sua residência. Lá estava à namorada. Dois meses depois ele apareceu. Sorrindo para todos. No final da reunião me procurou e convidou para um cinema. Meu coração explodiu. Ele me disse que tinha terminado tudo. Descobrira que me amava. Incrível! Tudo que eu queria e sonhava. Nosso namoro era lindo. No Clã nunca demonstrávamos isso. Todos sabiam é claro.

    Ficamos juntos no Clã até os vinte e um anos. Léo se formou em Engenharia mecatrônica. Uma grande proposta recebeu de um grande conglomerado de Hospitais sediados em Boston, nos Estados Unidos. Pediu-me em casamento. Queria que eu fosse com ele. Não titubeei um minuto. Meus pais acharam que eu devia me formar. Meu coração bateu mais forte. Em Boston moramos em uma bela casinha. Vi diversas vezes jovens da Boy Scouts na rua e eram em numero considerado. Fizemos uma visita a um grupo em uma quinta a noite. Não sei, não encontrei lá o que tínhamos aqui. Talvez aquele carinho, aquele sorriso franco.

     Ainda moro em Boston. Faz oito anos que estou aqui. Sempre relembro com saudades os belos momentos da minha vida escoteira. Meu antigo Clã não sai nunca da minha mente. Meus amigos também. Aquela aventura no Rio Madeira ficou gravada em minha memória. Não o chamo de Madeira, para mim é o Rio da Esperança. Foi ali que tudo deu certo em minha vida, apesar dos tropeços de um naufrágio e na queda de um avião. Quando conto isso para amigos que temos aqui, eles não acreditam.

                A esperança é a maior e a mais difícil vitória que a gente pode ter sobre a alma. Ela existe, está sempre fincada em nosso pensamento. Antes eu dizia que a esperança poderia alterar qualquer coisa. Claro, no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro. Seria isso mesmo? Sei o que é absoluto porque existo e sou relativa. Minha ignorância é realmente a minha esperança: não sei adjetivar. Olhando para o céu fico tonta de mim mesma.
.
           Tenho dois filhos lindos, são a minha vida. Sempre conto para eles a noite, deitada no tapete azul da sala que chamo de Rio Esperança, em frente à lareira, tudo que senti, vi e aconteceu comigo no escotismo. Eles me olham de maneira enigmática. Não entendem quase nada do que eu falo. Afinal um tem quatro e o outro cinco anos. Mas olho para eles, sorrio, e digo: - Meus filhos nunca percam a esperança. E então me lembro do poeta Fernando Pessoa, que dizia: - Ser feliz é encontrar força no perdão, esperanças nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros. É agradecer a Deus a cada minuto pelo milagre da vida. Amo o escotismo. Sempre amei e nunca irei esquecer os momentos felizes que lá passei...
E quem quiser que conte outra

Viver é acalentar sonhos e esperanças,
Fazendo da fé a nossa inspiração maior.
 É buscar nas pequenas coisas, um grande motivo para ser feliz!

O ULTIMO CHEFE ESCOTEIRO

O último chefe Escoteiro

Congratulamo-nos às vezes, no momento em que despertamos de um lindo sonho. Não poderia ser assim no momento que segue a morte?

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada 
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar 
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso, 
Cidade de meu andar 
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...

                Essa história foi-me narrada por um Comissário Distrital muito meu amigo, quando o visitei em sua residência a muitos e muitos anos atrás. Era comum visitá-lo. Nos conheciamos desde o tempo da patrulha senior. Juntos fizemos belas atividades escoteiras. Aquela de ser metido a herói e fazer escalada sem nenhuma experiência ficou na história. A patrulha inventou de escalar uma montanha onde existia uma pedra muito alta. Subimos 400 metros. Sem condição de prosseguir. Paramos um pequeno lanche para a descida. Descida? Nem pensar. Um medo horrivel. Olhavamos lá embaixo. Vertigem. Tremedeira.

              À tarde, o sol se pondo, os cinco valentes ali no meio da pedra tremendo. Uma noite terrível. Meio metro por dois a saliência era o que tinhamos para cochilar. Só no outro dia os bombeiros da cidade foram acionados. Sempre lembravamos deste fato. Belas risadas. Foram tantas que nossa amizade perdurou durante toda nossa vida. Soube que ele se juntou a turma lá no Grande Acampamento. Que Deus o tenha. Daqui a uns tempos vou dar uma passadinha lá. Não pretendo ficar (risos).

              Bem voltemos ao que  ele me contou.  No seu distrito havia um chefe Escoteiro muito antigo, bem "Velho" alíás. Ficou toda a vida em um só Grupo Escoteiro e era amado e bem considerado por todos. Deixou de frequentar por problemas de saúde. Tinha problemas de pulmão e fazia inalação várias vezes ao dia. Suas forças não eram as mesmas. Claudicava, tremia, respira mal e sua vóz quase não se entendia. Claro, estava com 85 anos e doente. Um dia resolveu lembrar o passado. Comprou um pequeno balão de oxigênio, que dava para vinte dias, preparou um bornal para ele, de maneira a não atrapalhar o que iria fazer.

               Isso mesmo. Seu último acampamento. Ele queria fazer um antes de morrer. Ria e contava para todo mundo. Ninguém acreditava. Afinal com aquela idade quem pensaria tamanho disparate?  Mas ele era teimoso. Muito obstinado. Sua esposa horrorizada tentou demovê-lo da idéia. Não conseguiu. Chamou os filhos (eram três) nada obtiveram. Vieram amigos escoteiros, desistiram em pouco tempo. Chegaram à conclusão que se ele não fosse morreria alí na sua casa em poucos dias. Quem sabe bem tutorado ele podia ir? Claro os filhos sem ele saber iriam vigiá-lo de longe. Um deles era médico. Assim ficou combinado.

              Chefe Zezé (como era conhecido) preparou tudo com calma. Tirou sua mochila do baú, seu uniforme que ele mesmo lavou e passou. Sua manta de fogo de consêlho, seu chapéu de tres bicos, ainda prensado no porta-chapéu. Colocou seu tope que comprou em 1947, seu penacho azul de dirigente (tinha o verde e amarelo de Diretor Técnico, e os demais de outras sessões, hoje não se usa mais). Engraxou sua botina de campanha, olhou seu meião com carinho, a jarreteira deixou no lugar. Não iria usar. Pediu à esposa que pregasse os seus barretes na camisa cáqui. As medalhas ele separou para levar consigo, seria seu troféu de guerra. Ou melhor, seu troféu de campo.

               Estava ainda lá sua faca escoteira, limpa e com saudades viu que ainda possuia o talco que colocou antes de embainhar. Seu facão limpo, sua machadinha pequena e bem escondido em um canto do baú, sua bússola silva. Olhou tudo, viu que o cinto de couro ainda estava firme, e a fivela brilhando. Era de ouro. Madara folhear. Até mesmo uma bandeira nacional bem antiga ele levou. Sentou em sua cama e fechou os olhos. Sua mente só via o acampamento que iria fazer. Tinha de ser superior a todas as suas setecentas noites de acampamento. Nem mais e nem menos. Deveria marcar em sua vida para sempre. Acreditava que não iria ter outra oportunidade.

              Não levaria seu lenço de insígnia. Iria com o verde e amarelo do seu primeiro Grupo Escoteiro quando fez a promessa como lobinho. Um suspiro, quantas saudades. Aproveitou para ver algumas fotos que ali guardava. Seu primeiro acampamento de lobos (na época lobinhos acampavam), sua promessa escoteira como escoteiro, sua patrulha senior, e vários amigos que junto a ele fizeram com que as matas, florestas, campinas,  serras, montanhas e tantos lugares se tornassem reais e incrustadas para sempre na sua memória.

            Disse que iría na semana seguinte. Vale do Rio da Serpente. Iria sozinho. Não queria companhia. Todos os filhos sabiam onde era. Já tinham ido lá com ele várias vezes. Sorriram e não disseram nada. Ele preparou tudo com carinho. Ração C para três dias. Poucas roupas sobressalentes. Capa leve de chuva. Uma lona simples e macia para montar um pequeno toldo de sua cabana (ia fazer uma), seus remédios, seu inalador, e no bornal o bujão de ar. Pelo telefone comprou a passagem. Eram quatros horas de viagem.

           Pediu a seus filhos para o levarem à rodoviária. Estava uniformizado. Tinha orgulho do uniforme. Na entrada subiu sozinho. Deu até logo e disse que não precisava de ajuda. Subiu as escadas com dificuldade. Fingiram não o observar. Viram quando ele entrou no ônibos. Um dos filhos seguiu de carro atrás. O filho chegou à cidade de destino primeiro. Sabia que dali até a subida da serra seriam mais quatro quilometros. Ele disse que iria alugar um animal. Cavalo ou burro. Não dava para subir a pé.

           O ônibos chegou. Desceram todos. Surpresa! Chefe Zezé não estava no ônibos! O motorista disse que ninguém tinha viajado com aquelas características. E agora? Ele tinha visto embarcar no ônibos, ou foi miragem? O filho ligou para os outros. Todos se dirigiram para a cidade de destino. Reunião de família. O que fazer? Onde estaria seu pai? Onde? Procuraram por todos os lugares, por toda a parte. Nada. Voltaram até  sua cidade e foram de novo na rodoviária. Nenhuma informação. A empresa disse que não vendeu nenhuma passagem com o nome de chefe Zezé ou mesmo o nome completo dele.

           Um dia, dois três. Se ele resolveu dar um golpe e seguir sozinho a outro lugar, pois sabia que seria vigiado, deveria estar de volta à noite do terceiro dia. Seria o combinado. Nove da noite. Dez. Meia noite. Nada. O dia amanheceu. A familia desesperada. Policia acionada. Busca em todos os lugares. Bombeiros, elicópteros. Nada. Chefe Zezé sumiu! Abduzido? Não era hora para brincadeiras. Não sabiam mais o que fazer. A polícia desistiu. Ninguém quis mais procurar. Seus filhos precisavam voltar à luta. Tinham seus empregos. Esposas, flhos. A vida continua.

           Cinco dias depois a esposa do chefe Zezé, parou de chorar. Os olhos vermelhos inchados. Dias sem dormir. Seis dias, sete, oito, dez, doze, quinze. No décimo oitavo dia, receberam um recado. Um telegrama. Um vaqueiro disse ter visto um homem parecido conforme foto nos jornais na serra do Canta Galo. Surpresa! Sorrisos! Esperanças renascendo. Todos os filhos foram para lá. Bem longe. Mais de nove horas de viagem. Serra desconhecida para eles. A cidade pequena. Alguns tinham visto quando ele chegou vinte dias atrás.

           Conseguiram um guia, encontraram o vaqueiro que mandou o telegrama. Arrumaram cavalos e subiram a serra. Local ermo e de difícil acesso. Todos estavam com muito medo, não sabiam o que iriam encontrar. Avistaram ao longe uma fumaça branca subindo aos céus. Pequenas esperanças. Quem sabe está vivo? Chegaram ao local. Viram-no enconstado em uma árvore, como se estivesse desfalecido. Correram até ele. Respirava e parecia dormitar. Abriu os olhos, sorriu. - Acabaram com meu sonho, disse. Mais dia menos dia sabia que chegariam aqui.

           O filho médico o examinou. Achou estranho. Sua respiração parecia ter melhorado. Viu o bujão de ar ainda cheio. Não tinha utilizado. Ele se levantou, olhou para o céu, para as árvores, um pássaro preto em um galho voou. Alguns outros se juntaram a ele. Todos voando em volta do chefe Zezé. Borboletas surgiram. Azuis, vermelhas, verdes e amarelas. Chefe Zezé sorria. Fez uma saudação para dois lobos guarás, que estavam escondidos atrás de uma pedra. Afagou um casal de quatís que dormitava aos seus pés e acordaram assustados.

Se nós temos que ir, vamos -  Disse. Com sua cabeleira branca e vasta caindo na testa. Cantava a pleno pulmões – Avançam as patrulhas, ao longe, ao longe! Adeus meus amigos, ou melhor, até breve, eu voltarei, podem me esperar, ele disse olhando os pássaros, a mata, o casal de quatis e os lobos guarás. Uma coruja pousou em seu ombro. Todos se assustaram. Coruja durante o dia?

            Arrumou sua mochila, sempre com calma e bem ajeitada nas costas gritou! - À frente tropa! Bandeiras ao vento! Marche! E lá foi ele a pé, sorrindo e cantando. Os demais foram montados a cavalo, levando a mula que ele tinha alugado. Em hora nenhuma reclamou. Agradeceu a oferta de ir a cavalo. Andava como uma lebre. Incrivel pensavam. Mais acima dois quatís acompanhavam e mais ao longe dois lobos guarás do rabo curto também. Uma passarada foi com eles até a cidade. Uma figura o chefe Zéze. Dizem que na cidade todos bateram palmas. Os pássaros quando ele entrou no automóvel do filho, cantaram alto.

            Mas o que houve com ele? Perguntei ao distrital. Olhe, soube pela esposa que tinha um livro de memórias e anotou tudo que aconteceu. Uma especie de diário. Ela me emprestou. Xeroquei. Vou te dar uma cópia. Ele ainda vive. Está com 86 anos. Não usa mais sua máquina para inalar. Não toma mais remédios. Ainda anda cinco quilometros por dia. Voltou ao Grupo Escoteiro. Ele hoje é chefe Senior e dos bons. Fui para casa e nem bem cheguei “apoitei” em minha poltrona favorita. Lí com sofreguidão e pressa tudo o que o "Velho" Escoteiro escreveu.

            Que doce leitura. Linda. Uma soberba aventura! Que inveja do chefe Zezé. Quanto daria para estar no lugar dele. Querem conhecer o diário? Saber o que  ele escreveu? Voces irão se maravilhar. Sejam meus convidados e vivam comigo essa magnífica historia de um "Velho" que se transformou através de um acampamento só dele. Um acampamento marcante, cheio de amigos, amigos que todos nós gostariamos de ter. Amigos sinceros, leais, sem interesses, e que não ficavam azucrinando com aquelas palavras chatas que ouvia sempre em sua casa. "Velho" gagá, babão, seu lugar é em casa. Não invente!

        - Quinta feira, nove de outubro de 2010 – Preparei tudo. Meu plano fora traçado. Combinei com um chapa carregador de malas, para colocar um chapéu parecido com o meu, e levar minha mochila até o ônibos combinado. Assim ele fez. Fingiu que entrava e deu meia volta. Escondeu-se em outro ônibos cujo motorista era amigo dele. Embarquei duas horas depois. Não fui para o Vale do rio da Serpente. Sabia que iriam me monitorar. Queria liberdade.

       - Sexta feira, dez de outubro de 2010 – Cheguei à cidade de Catuava, e lá aluguei uma mula. Para 30 dias. . Aproveitei e comprei bastante sal e tres latas de oleo de cozinha. Arrumei tudo e parti para a Serra do Canta Galo. Vi em mapas e tinha lido sobre ela. Linda. Achei um local maravilhoso. Um pequeno bosque, mais ao longe uma magnífica mata, próximo uma cascata, águas limpídas, bem arejada. Neste dia montei minha cabana. Ficou “joia” Toda de galhos e folhagem verde. Dava para ficar em pé. À tarde construí uma mesa e o fogão suspenso. Que saudades das que eu fazia no passado. Uma fossa de liquido, outra de detrito e retirado uns 50 metros um WC. O vento soprava do meu campo para ele. Era um verdadeiro campo de patrulha.

         Almocei lingüiça na brasa. Dois pães. Um suco. Mais tarde fiz um café. A pequena cafeteira sempre na brasa. Matei as saudades do meu café mateiro. Atrás de umas folhagens avistei dois quatís. Olhavam-me espantados. Sorri e eles se aproximaram. Daí para frente seriam meus amigos em todos os momentos. Notei que um pássaro preto me encarava. Sorri para ele. Ele cantou uma canção que achei ser um verdadeiro convite a amizade. Outros pássaros se aproximaram. Comecei a conversar com eles. A noite chegou. Uma coruja veio e pousou no meu ombro. Arrumei alguns galhos e fiz uma fogueira.

         Foi minha primeira noite. Antes de dormir lembrei que não tinha feito minha inalação e nem tomado meus remédios. Não sei por que não sentia falta. Não usei mais. Sentia-me bem. O ar entrava em minhas narinas de maneira agradável e apetitosa. Como respirava bem. O sono veio. Nem olhei as estrelas que lá no céu se juntavam com seus brilhos e fulgores inigualáveis. Uma brisa gostosa soprava vinda do norte. Deitei e dormi não sem antes agradecer a Deus por este acampamento maravilhoso que me dava. Há muito tempo não dormia assim. Que sonhos lindos. Que óperas lindas. Parecia que Giuseppe Verdi tocava só para mim La traviata. Acordei com o cantar da passarada na mata.

         Os dias foram passando. Eu não contava. Não iria fazer uma rotina de cidade. Estava vivendo os mais belos dias da minha velhice. Horas? Não tinha interesse. Não levei relógio. Celular. Radio. Nada. Queria viver a natureza em todo seu expledor. Minha ração começou a acabar. Achei na beira do riacho uma boa plantação de “taioba” adorava taioba. Comi taioba por vários dias. Um pequeno remanso e vi trairas e lambarís “bocarra”. Lindos, fáceis de pegar. Comia peixe frito no almoço e na janta. Um pé carregado de maracujá. Minha sopa preferida. Depois vários pés de mamão carregados. Maduros e verdes. Vagem e aipim mais abaixo do riacho. Amoras, goiabinhas anãs, maduras, deliciosas e para surpresa, vários pés de jaboticabas, lindas, apetitosas. Amigos alí era um édem. Poderia ficar a vida inteira neste paraíso.

         Não sei como, a tarde um casal de capivaras apareceu. Ficaram em volta do meu campo por dois dias. No segundo nasceram três capivarinhas. Um espetáculo incrivel. Mas o melhor mesmo foi à amizade que fiz com dois lobos guarás. Eles me seguiam aonde ia e o pássaro preto nunca me abandonou. Uma tarde vi um homem a cavalo. Com tristeza sabia que minha privacidade tinha acabado. Dito e feito. Fui encontrado. Minha familia devia estar preocupada. Deixei lá meu amigo pássaro preto, a coruja “buraqueira”, que me acompanhou todas as noites quando deitava na relva e ficava a imaginar como seria o universo.

          Valeu. Disseram-me que foram vinte dias. Dias maravilhosos. Poderia ficar lá por toda a minha vida. Quantos amigos eu fiz. E olhe só eu falava e eles educadamente me ouviam. E o silêncio quando do nascer e do por do sol era como se fosse ouro encontrado. E com ele eu muitas vezes sabia o que fazer. Não dizem que só o silêncio sabe a resposta?  Ainda vou voltar lá, meu destino está traçado. O caminheiro e a Midiata, nome que dei aos lobos guarás eu sei que estarão lá me esperando.

         Quando chego à janela, olho no horizonte e lá estão na castanheira em frente a minha casa, os sabiás que cantavam na serra e hoje cantam para mim todas as tardes. Sei que acham que sou louco. (Risos) não sou. Que pensem assim. Não me importo. No próximo verão irei voltar. Saudades da minha serra querida, dos meus amigos, bons tempos que não quero que termine nunca mais.

          Fiquei ali na minha poltrona por muito tempo extasiado. Estava fascinado com a narrativa. Parecia um conto espantoso, uma fantasia de um Velho lunático. Sua maneira simples de narrar era tão pulcra, tão luminosa e singela, que muitos iriam dizer que se tratava de uma fábula ou um mito que nunca existiu. A história que poderia ter sido imaginada pelo chefe Zezé não deveria ter existido. Mas eu sabia que não. Era verdadeira. Disto não tinha nenhuma dúvida. Suas palavras marcaram na minha memória.  Lembrei-me de uma fábula que tinha lido a muitos e muitos anos.

             Um jovem mochileiro chega a um pacato vilarejo cercado por correntezas. Toda casa ou construção do vilarejo possui uma azenha (moinho) construída dentro dela. O viajante encontra um velho ancião da vila, muito sábio, que está consertando a roda quebrada de uma moenda. O ancião explica que as pessoas do seu vilarejo decidiram há muito tempo atrás abrir mão da influência poluidora da tecnologia moderna e retornar para uma sociedade mais feliz e limpa.

          Eles escolheram a saúde espiritual a despeito da conveniência, e o mochileiro fica surpreso e intrigado com esta noção. No final da seqüência que é também o final da fábula, a procissão de um funeral de uma mulher ocorre no vilarejo, que ao invés de estar de luto, celebra contentemente o propício fim de uma boa vida.

        O ancião, que até então conversava com o jovem viajante, resolve acompanhar a procissão, não sem antes contar-lhe sobre algo que o jovem presenciou ao entrar na vila - crianças colhendo flores e colocando-as sobre uma pedra ao lado da trilha. O ancião diz que há muito tempo um homem havia morrido ali depois de muito sofrer, e desde então o ato de colocar flores sobre a pedra debaixo da qual foi sepultado se faz uma tradição do vilarejo. O viajante se despede do lugar repetindo o gesto das crianças.

      Não sei se me fiz entender. Acredito que o chefe Zezé encontrou o seu lugar. Uma expécie de Shangri-lá. Não era a cidade lendária descrita no conto de James Hilton, na sua novela Horizonte Perdido onde todos nunca envelheciam. Mas lá na serra do Canta Galo o Chefe Zezé encontrou sua fonte da juventude. Descobriu que lá em plena natureza e junto aos pássaros e animais amigos, ele continuaria eternamente no vigor da sua mocidade, ou melhor, da sua adolescência.

      Eu gostaria de encontrar um lugar assim na minha velhice. Uma Xangri-lá, onde pudesse viver como se vive em um paraíso. Onde ninguém fenece ninguém fica velho e quem sabe eu possa encontrar também uma montanha e lá viver junto à natureza o que o chefe Zezé viveu. São sonhos impossíveis. Irrealizáveis. Mas são sonhos. Eu digo sempre, nunca se afaste de seus sonhos. Porque se eles forem, voce continuará vivendo, mas terá deixado de existir! (Mark Twain)

    Saudades de tudo. Saudades da minha infância. Saudades da minha terra, da minha juventude, das minhas aventuras escoteiras. Tempos que se foram e nunca mais vão voltar. Mas eu luto até hoje para não só eu e sim todos os participantes da fraternidade escoteira, que encontrem sua xangri-lá, sua terra de sonhos. Eu acho que encontrei o meu. No maravilhoso mundo do escotismo nós podemos sempre sonhar. E para que eles se tornem realidade é preciso que acreditemos. Acredito até que no Escotismo, eu estou vivendo em plena Xangri-la!

E quem quiser que conte outra...

“Quando você olha para si mesmo, - você gosta do que vê?
 Se você gosta do que vê, você é a pessoa que deve ser.
Porque o seu reflexo reflete em tudo que faz,
e tudo que você faz reflete em você.
Quando você acorda todos os dias, você gosta de como você se sente?
 Se você gosta de como você se sente, você não tem nada a esconder.
Quando você se deita para dormir - você gosta dos seus sonhos?  Se você gosta de todos os seus sonhos, a vida é tão feliz quanto parece ser... ”


Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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