terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

AS AVENTURAS DE TOTONHO, O ESCOTEIRO CAÇADOR DE ONÇAS!


As aventuras de Totonho, O escoteiro Caçador de Onças!

“Felizes dos que, relembrando a juventude, não se lembram de fatos vergonhosos.”
"Se eu pudesse voltar à juventude, cometeria todos aqueles erros de novo. Só que mais cedo."
 (Tallulah Bankhead)

                 As Aventuras de Huckleberry Finn é uma seqüência do livro As Aventura de Tom Sawyer. Delicioso conto de Mark Twain, mostra as aventuras de um jovem que sendo maltratado pelo pai, foge e vai viver com uma senhora de posses. Huck vive bem lá, aprende de tudo, e para fugir do pai novamente, encontra um escravo negro e com ele se refugia em uma ilha. Lá descem o rio Mississipi. Uma grande historia. Quem já leu nunca mais se esqueceu.
             Mas porque estou escrevendo isso? Não sei. Risos. Não sei mesmo. Aqui a história é outra. Quem não tem lembranças “gostosas” de suas aventuras na juventude? Todos nós. Entretanto para aqueles que viveram suas aventuras na juventude e participando do movimento escoteiro tem muito mais o que lembrar. Disseram-me uma vez que na juventude aprendemos e na velhice compreendemos. Interessante não?
                 Uma tarde de dezembro, antes do natal, fiz uma visita a um amigo meu. Totonho Freitas. Ambos beirando os oitenta e dois anos. Eu e ele fomos escoteiros na mesma tropa. Patrulha diferente, mas sempre amigos. Estudamos na mesma classe. Ele se tornou um engenheiro famoso, eu ao contrário me tornei um “velho” rabugento sem emprego. Totonho tinha uma veia de poeta. Ali naquele tarde ele dizia – A juventude não é uma época da vida, é um estado de espírito. Podia até ser. E completava: - Sabe meu amigo, se eu pudesse voltar à juventude novamente, cometeria os mesmos erros de novo. Só que de maneira mais saborosa, mais aventureira.
                 Lembro muito de Totonho. Seu rosto seu semblante quando jovem estava sempre alegre, seus olhos viviam perscrutando tudo a sua volta. Totonho me lembrou de belos fatos que já tinha esquecido. Ah! O passado. Mas olhe, Totonho era diferente de mim. Mesmo com 83 anos ele ainda participava do Grupo Escoteiro Estrelas Cintilantes. Eu devido a uma série de problemas de saúde não participava mais. Recebia sim em minha casa dezenas de amigos que se encontravam na ativa, e ria a mais não poder quando eles me contavam gostosas histórias, de Elos, de ARP, de acampamentos. Eu adorava isto.
                  Totonho se lembrou daquele acampamento no sitio das Três Porteiras que não pude comparecer. Uma forte gripe, uma febre alta e sabia que meus pais não me deixariam ir. Chorei muito, mas o que há de se fazer? Acampamos muitas vezes lá. O proprietário era amigo do nosso chefe e colocou a porteira aberta para nós. Uma só é claro, as outras existiam na imaginação de quem deu o nome ao sítio. Risos.  Quando penso no sítio, não é como os de hoje. Era enorme, linda mata uma lagoa enorme, duas nascentes e um belo córrego com muitos peixes.
                   O chefe Jessé fez um desafio às patrulhas e elas claro aceitaram. Éramos quatro patrulhas. Raposa, Pantera, Leão e Morcego. Eu da Raposa e Totonho da Morcego. Seriam precisamente três desafios. O primeiro, não levar alimentos de espécie alguma. Nem óleo nem sal. O segundo não levar barracas e nem material de sapa. E o terceiro estávamos proibidos de dormir no chão depois do primeiro dia. Como era época de férias, seria um acampamento para cinco dias. Nas mochilas só uma muda de roupa e um cobertor alem dos materiais de higiene pessoal.
                   Todos “toparam” é claro. Afinal as quatro patrulhas possuíam vários primeiras classes, outros tantos segundas e muito poucos noviços. Totonho me olhava e ria dizendo que perdi o melhor acampamento de sua vida. Quando somos jovens, temos momentos tão felizes que achamos que vivemos em um mundo mágico, como é na nossa imaginação. Chefe Jessé dizia que os velhos acreditam em tudo, as pessoas de meia idade suspeitam de tudo, e os jovens, há! Os jovens eles sabem de tudo!
                   Eu fiquei sabendo de muitas coisas deste acampamento. Meu monitor me contou tudo. Dormir em abrigos feitos no alto da árvore não era difícil. Agora a alimentação esta não era fácil. Fizeram uma cabana pequena com galhos quebrados nas mãos, montados em bambu seco que encontramos em um bambuzal. Todas utilizaram árvores perto uma das outras. O pior estava por vir. A alimentação. O monitor mandou três dos nossos saírem à caça. Sim acharam que poderiam ficar cinco dias comendo frutas e aves na brasa. Para quem não está acostumado é uma barra.
                 Eu ainda não tinha ouvido do próprio Totonho sua versão do que aconteceu. Seu relato agora estava sendo feito, mas com essa idade não sei se tem muitos fatos “aumentados”. Continuemos com a explanação de Totonho – Junto com seu Monitor foram à caça. Saíram do campo de patrulhas como dois aventureiros em busca do Vale da Fome. Risos, isso mesmo. Totonho armado com seu bastão e muitas pedras no bolso. Encheram os bolsos de pedras retiradas do riacho. Em seguida montaram diversas armadilhas “tipo pirâmides”, tendo como iscas pedaços de mamão. Acreditamos que poderíamos pegar umas pacas e se possível um tatu, contava Totonho.
                Rindo e cantando, voltamos à tardinha com três pacas vivas e um tatu. Olhe, poderia ter trazido muitas rolinhas bem gordinhas, mas na hora H, não tive coragem de matar. Eu olhava nos olhos delas e pensava – Caramba! Nem sabem quem sou eu. Matá-las? Nunca! Levamos os bichos que pegamos vivos. O monitor me disse que nunca iria matar nenhum deles, se alguém na patrulha topasse tudo bem. Se não levaram para o chefe liquidá-los. Afinal a idéia foi dele!
                  Assim como Totonho e seu monitor, outras patrulhas também trouxeram animais e pássaros vivos. Ninguém teve coragem de matar. Cada patrulha visitou a outra a procura de um “matador”. Nada. Chefe Jessé e o Chefe Munir estavam em seu campo de chefia quando os monitores os procuraram. A surpresa deles foi enorme. – Nunca disseram! Não temos coragem. Soltamos os bichos. Uma fome enorme. Alguns já sabiam onde havia vários pés de goiaba e mamão. Goiaba verde. Mamão verde. Comemos assim mesmo.
                  A noite chegou. Uma tremenda dor de barriga. Totonho contava tudo com uma pitada de Grande Aventura. Eu sei que ele tinha uma só palavra, no entanto fatos que ele narrava não me foram relatados pelos outros na época. Não tinha como duvidar de Totonho. Passaram a noite toda gemendo e dormindo mal. O Chefe pouco pôde ajudar. No dia seguinte uma fome imensa. Fizeram uma Corte de Honra para decidirem se iriam retornar ou um assistente ir até a cidade comprar víveres.  
                  Ninguém quis dar o braço a torcer. Afinal eram ou não escoteiros? Correm ao primeiro sinal de perigo? Resolveram pescar. Pescar como? Alguns juntaram galhos quebrados em arvores e amarrados com cipó, fazendo uma pequena rede. Deu certo. Muitos lambaris e carás. Até duas traíras pequenas a patrulha pegou. Todos em volta do fogo. Brasas. Jogaram os peixes já limpos na brasa. A fome apertava a cada minuto.
                Esqueci de dizer, mas as patrulhas tinham mestres para acender fogo sem fósforos. Ouve outras ocasiões onde por inúmeras vezes treinamentos como fazer. – Continuou Totonho - Os peixes começaram a tostar, ou melhor, queimar. Meu amigo, cada um pegou seu pedaço. Tínhamos muitos peixes. Se você ainda não comeu peixe na brasa, mais sapecado que torrado, e sem sal e óleo, não sabe o que perdeu. Totonho ria a valer à medida que contava. Nunca vi um peixe tão ruim. Mas dizem que a fome é negra. Aquela manhã comemos peixe a mais não poder.                
                 Totonho ria. E como ria quando contava. Eu também me entusiasmei e juntei a ele rindo. À tarde – continuou – Mais peixes. Enganamos a fome. Alguém disse ter descoberto próximo ao riacho, plantas que pareciam inhames. Uma espécie de mandioquinha cinza que minha mãe sempre fazia. Puxamos a planta e belos inhames apareceram. A brasa estava no ponto. Peixe com inhame. Comemos a mais não poder. Não era inhame.  Eram carás, um tipo parecido. Não podia comer na brasa e sim diluído em água na panela. De novo a dor de barriga. Estávamos aprendendo a ter dor de barriga naturalmente. Ficamos craques! Risos.
                  O chefe Jessé não interferia. Era nosso desafio. Só visitava nosso campo pela manhã para inspeção, na hora do almoço e a tarde sempre formava a tropa para um jogo e algum adestramento mateiro. A noite um jogo noturno. No terceiro dia não agüentávamos mais. Inhames espinhentos (carás), peixes, mamão e goiaba verde. Na noite do terceiro dia ele nos ensinou como fazer uma armadilha para pegar um animal maior. Tínhamos que achar cipós grossos, fazer a emenda deles com uma costura de arremate bem firme para que ela tivesse pelo menos doze metros.
                  Não foi difícil. Todas as patrulhas fizeram no dia seguinte. Algumas nem foram usadas e só a nossa deu resultado. E que resultado! Enquanto as outras usaram frutas como isca, resolvemos colocar lá duas rolinhas para atrair um animal maior. À tarde depois de um jogo de Travessia em Alto Mar e antes do banho fomos ver nossa armadilha. Incrível! Uma Onça pintada! Devia pesar uns 120 quilos não sei bem. Presa por um pé só. Estava cansada de tanto lutar para sair Dalí. Olhou-nos com aqueles olhos de cachorro ladrão.
                  Totonho contava como se fosse hoje o que estava vendo. Eu não acreditava muito. Nunca vi falar nessa pintada. Continuou Totonho – Ela parecia ter quebrado as pernas e estava quase morta. Não havia mais jeito de soltá-la para a natureza. A patrulha resolveu dar cabo dela. Matar como? Achamos um pedaço de árvore bem grande. Todos seguravam na ponta e de uma só vez a pancada na cabeça dela foi forte. Escoteiros unidos para matar!
                   A onça morreu. Fiquei triste. Triste mesmo. Se soubesse que seria assim teria dado meu voto contra. Mas agora estava feito. Levamo-la amarrada pelos pés e mãos, enfiamos um bastão que envergou e foi necessário dois. Quase toda a patrulha com os bastão nas costas e a onça no meio. Ao chegarmos todos correram para nossa patrulha. O chefe Jessé e o assistente também. Os chefes ficaram tristes ao ver a onça morta. Todos ficaram. Mas enfim, nem vou contar. Um churrasco foi preparado. Todos ajudaram.
                  Uma festa e uma tristeza. Desta vez enchemos a barriga. Churrasco de carne de onça. Mesmo sem sal a carne da onça era deliciosa. Acho que seu espírito não gostou de nós e de ser morta e comida daquele jeito. A noite uma enorme tempestade se abateu no acampamento. Raios, trovões, mesmo acostumados nos assustamos. Chefe Jesse veio correndo e nos mandou sair das cabanas suspensas. Dito e feito. Uma ventania jogou tudo no chão.
                    Passamos aquela noite debaixo de arvores, mas a chuva ultrapassava as folhas. Alguns se enrolaram em cobertores e mesmo molhados davam alguma proteção. O dia seguinte era o do retorno. Nossas carretinhas não vieram e tivemos que voltar com as mochilas todas molhadas e pesadas. Mas valeu. Nunca tivemos nenhum adestramento de sobrevivência. Aprendemos fazendo. Totonho se calou. As lembranças pesam.
                   Totonho meu amigo, me diga. É verdade mesmo a historia da onça? – Totonho riu. Claro. Sem ela o acampamento não teria valido a pena. – Não sei não pensei. Essa onça não estava no programa e nem nas historias que todos os outros contaram. Mas enfim, que Totonho e sua onça se sintam felizes, mesmo ela descansando o sono eterno na barriga de Totonho e de todos os outros.
                  Não sei hoje poderia ser feito um acampamento assim. As normas para acampar mudaram. Os chefes também. Não condeno, mas olhe, Totonho disse que no Grupo Escoteiro que ele ajuda os meninos e as meninas ainda fazem muitas atividades aventureiras. Deus queira que sim. Disseram-me uma vez que os jovens estão mais aptos a inventar que fazer. Mais aptos a executar que pensar, e são ótimos em iniciativas. Não sei, acho que eles tem hoje um problema. Rebelam-se e não se enquadram ao mesmo tempo. 
                   Quando somos jovens corremos em busca dos nossos sonhos. Ainda acho que só é bom enquanto somos jovens. Á medida que avançamos na idade, não convém que o arrastemos atrás de nós. A juventude é uma coisa maravilhosa. Ainda acho uma pena desperdiçá-las em jovens.  Risos. Mas eu também fui um. Devia ter ido naquele acampamento. A história da onça pintada de 120 quilos de Totonho é dura de engolir. Enfim, ele é um escoteiro e o escoteiro tem uma só palavra e sua honra vale mais que a própria vida!
E quem quiser que conte outra...
* Às vezes é melhor ficar quieto e deixar que pensem que você é um idiota do que abrir a boca e não deixar nenhuma dúvida.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

ESCOTEIRO? O QUE É ISSO?


Amigo, o que é isto? Você é Escoteiro? - Não diga!

      
       Ah! Meu amigo sou sim, com muito orgulho. Estou aprendendo a ser alguém, para que todos que me amam possam um dia orgulhar. Aprendo que o caráter é importante em cada um de nós. Que ser leal é ponto de honra, e minha palavra? Sim é sagrada. Estou aprendendo que a honra faz parte dos honestos. Que a ética é mais que tudo. Aprendo tantas coisas que cada dia que passa mais me orgulho de pertencer ao escotismo.

       Acho que você não sabe, mas são tantas coisas maravilhosas que acontecem comigo, que hoje sei que a felicidade pode ser alcançada e eu a alcancei. Sou um privilegiado por Deus em estar aqui. Sabe, já vi um céu estrelado deitado na relva, em volta de uma fogueira cheia de amigos e amigas. Ali vi as constelações, um cometa que passa, e isso mais e mais me leva a certeza que o escoteiro é puro nos seus pensamentos, nas suas palavras e nas suas ações.

      Gostaria que um dia, pudesse junto comigo dormir sob as estrelas! Ver o sol nascer e ele se pôr ainda vermelho no horizonte deixando uma marca profunda em nossos corações. Quem sabe um dia vai poder saborear o cheiro da terra molhada, do perfume das flores silvestres, do som maravilhoso da passarada, do piar da coruja em um carvalho qualquer. Ver o lenho crepitando em uma bela fogueira onde todos riem, cantam e vão vendo as fagulhas subirem aos céus, languidas e serenas até que a aragem leva-as para longe.

      Olhe, é lindo ser do escoteiro. Acho que é um privilégio de poucos. Quando vejo a chuva caindo em uma floresta, sinto o som imperdível aos ouvidos de um velho mateiro. Saiba que temos uma ternura imensa com a natureza. Para nós é fácil encontrar o Norte e o Sul, seguir a sotavento, sentir o vento no rosto, descobrir as flores desabrochando nas campinas verdejante. É, podemos tirar o calçado e molhar os pés nas águas geladas de um belo riacho. Sentar e tirar uma soneca em uma grande e frondosa arvore e podemos olhar em volta e sentir o cheiro da relva cujo vento sopra com amor em nossa face. E nada mais maravilhoso que chegar ao cume de uma montanha e ver o horizonte! Um espetáculo imperdível meu amigo!

      Mas olhe, não sei se terá a oportunidade de ter o que temos. Aqui aprendemos que o medo é próprio dos fracos. E é preciso ter coragem e amor para conviver em uma vida saudável junto dos demais escoteiros. Se um dia quiser, quem sabe, você pode até entrar em um Grupo Escoteiro. Mas lembro a você que qualquer um pode entrar, mas é importante saber que ser escoteiro não é para qualquer um!

     Se resolver mesmo, seja bem vindo. Espero que você seja mais um irmão de tantos milhões espalhados pelo mundo. E quando for, vai saber que o nosso fundador Baden Powell disse que aqui, somente os valentes entre os valentes se saúdam com a mão esquerda. E pode acreditar que você será muito bem recebido, pois nós escoteiros somos amigos de todos e irmão dos demais escoteiros.

Coloque sua mochila, cante uma canção, e parta conosco nesta bela aventura!


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O ESCOTEIRO JUQUINHA E SUA MARAVILHOSA NOITE DE NATAL


O escoteiro Juquinha e sua maravilhosa noite de Natal

Melhor do que todos os presentes por baixo da árvore de natal é a presença de uma família feliz.

                     Não conhecia a vida de Juquinha. Contaram-me de sua maneira de ser, e como ficou conhecido por todos os escoteiros de sua região. Claro todos vocês conhecem alguém como ele em suas tropas. Ele era aquele que não para quieto nas formaturas, estava sempre rindo, adorava o escotismo, é o primeiro a chegar e o último a sair. Inconfundível.

                     Alguns chefes que procurei me disseram que tais escoteiros eram suas alegrias quando aos sábados encontramos aqueles jovens maravilhosos querendo ser cidadãos, valorosos, sonhadores, enfim, qualidades reconhecidamente de escoteiros espalhados por todo o mundo. Claro, tenho certeza que existem vários Juquinha em seu Grupo Escoteiro.

                     Juquinha, disseram, naquela época era bem gordo para sua idade. Se aproximando dos catorze anos. Na patrulha o chamavam de “meio quilo”. Porque ninguém sabia. Risos. Deveria ser “uma tonelada”. O tempo não ajudou Juquinha a emagrecer. Claro seu corpo se transformou, mas continuava a ser o último da patrulha nas suas andanças com a tropa em atividades aventureiras. A patrulha não se incomodava com isto. Sempre gostavam dele e acostumaram ao seu jeito de ser.

                        O que mais preocupava a patrulha era quando saiam para alguma atividade externa, onde sem transporte móvel, só podiam usar o “ETVV” (Empresa de Transporte Viação Vulcabrás – antiga marca de sapato usado por escoteiros exploradores - risos). Ou seja, a pé mesmo. Mas Juquinha estava aprendendo. Já estava caminhando para a primeira classe. Tecnicamente falando Juquinha era um “craque’. Sabia tudo de tudo. Até seu chefe quando tinha dúvida perguntava a ele.

                      Juquinha era assim. Persistente, muito obstinado. Resolvia-se fazer uma coisa fazia. Logo após entrar para os escoteiros, me contaram que ele resolveu fazer um forno de acampamento. Ficou na historia. Sem ninguém saber fez um bolo de chocolate e que toda a tropa se deliciou. Era escoteiro nato. Tinha um defeito. Era um sonhador. Ri quando me contaram. Ele acreditava mesmo nos seus sonhos. A história das Escarpas Pantaneira quando ele sumiu ficou gravado na mente de todos que lá estiveram. O que ele contou deixou a todos boquiaberto. Mas isto é outra historia claro a primeira historia de Juquinha em busca do vale dos sonhos.

                      Aquele fora um sábado alegre para todos menos para Juquinha. Ultimo dia em que a tropa se reunia, pois nas férias escolares ela também entrava em recesso. Ninguém tinha a menor dúvida que os chefes precisavam de um descanso para si e suas famílias. Todos entendiam, mas Juquinha não. Para ele o escotismo não podia parar. Como todos os anos ele já tinha planejado o que fazer com mais quatro amigos da patrulha e dois de outra. Nada que oferecesse perigo, e de pleno conhecimento de seus pais.

                      Juquinha tinha passado na padaria do bairro, pois sua mãe tinha encomendado uma sacola de pães e outros tipos doces, pois como era sábado ela iria fazer um lanche. Conhecia todos lá. Quando chegava de uniforme o olhavam e o saudavam com o Sempre Alerta. Juquinha era bem quisto. Sorriu com a sacola do lado para todos e saiu da padaria cantando o “Acampei lá na montanha” Era a preferida dele. Nem reparou no garotinho magro, raquítico, com as roupas em frangalhos e com um canivete enorme em suas mãos o ameaçando.

                      Foi um susto. Ele pediu a sacola de pão ou matava Juquinha. Sumiu na esquina com a sacola. Correr não adiantava, ele sabia que não era rápido. Gritar achou que não era bom. O ladrão podia voltar e o ferir com o canivete. Deixou que ele levasse os Paes. Voltou à padaria e comprou outra fornada. Riram quando ele contou o que aconteceu. Disseram a ele que não era a primeira vez que o ladrão de pão tinha atacado.

                     Em casa contou para sua mãe que o tranqüilizou. Ela sabia o filho que tinha. Juquinha ficou pensativo. Começou a andar pelos arredores até que uma tarde o viu próximo a mesma padaria. Viu quando ele ameaçou uma senhora e tomando da sacola de pão saiu em disparada. Juquinha tinha se colocado na esquina do outro lado e viu que ele parou de correr e andar normalmente. Era seu truque. Não ser confundido com um ladrão correndo. Juquinha a uns cem metros atrás o seguiu. Ele entrou em uma viela. Parou olhando os dois lados da rua e entrou num casebre.

                     Viu uma menina de uns três anos e outro menino de dois. A mãe chegou à porta e chamou os dois. Juquinha tomado de coragem bateu a porta. Ela a mãe o olhou assustada. Juquinha contou o que tinha acontecido. Ela começou a chorar. Disse que era culpada. Era doente, não tinha marido, não conseguiram a bolsa família, e até a escola não aceitava mais seu filho. Diziam que ele era um ladrão. Juquinha estava com os olhos cheios de lágrimas. Sua garganta estava seca.

                      Prometeu à senhora que não iria contar para ninguém, mas ela precisa tomar uma atitude, um dia seu filho poderia ser morto tudo por causa de uns poucos pães. Foi para casa inconformado. Achava que a vida era boa para alguns e ruim para outros. Ele tinha tudo eles não tinham nada. Sua mãe contou-lhe um dia que o novo presidente do país disse que não iria descansar enquanto houvesse um brasileiro sem comida na mesa. Seria seu compromisso e pedia ajuda a todas as instituições, todos os partidos, universidade, imprensa e da juventude. Ele era da juventude escoteira e não tinha feito nada.

                      Resolveu fazer alguma coisa. Juquinha era assim. Agora não iria desistir jamais do seu intento. Não falou para sua mãe. Nem com seus amigos. Iria dar um natal aquela família que ela nunca tivera na vida. Planejou tudo. O que comprar como levar até eles na noite de natal. Mas o principal ele não tinha. Condições financeiras para abarcar a compra. Não desistiu. De manhã saiu à procura de uma solução.

                      Parou em frente a um grande Banco muito conhecido na cidade. Entrou e estava apinhado de gente. Procurou o guarda e disse que queria falar com o gerente. O guarda o olhou com aquele olhar arrogante, como se ele não fosse ninguém. Era apenas um menino. Disse que ele tinha mais o que fazer, nenhum gerente ia atender a um menino. Juquinha não gritou. Sabia e cumpria a lei escoteira. O escoteiro é Cortez, educado, sabe à hora certa de dizer desculpa meu amigo, muito obrigado, tudo bem. Eu entendo.

                      Foi para casa. Vestiu seu uniforme escoteiro. Colocou seu chapéu de abas largas, verificou se seu meião estava com a linhagem correta. Seu lenço bem preso com o anel de couro. Pegou seu bastão. Há tempos não o utilizava. Voltou ao banco. O guarda o olhou de novo e não queria deixá-lo entrar. Ele ficou ali na porta em posição de descansar com seu bastão aprumado. Todos que entravam ele dizia – Quero falar com o gerente. O guarda não deixa. Dizem que não atende meninos.

                      Um repórter viu aquilo e gostou. Perguntou o que ele queria com o gerente. Juquinha disse que era uma conversa particular. O repórter insistiu e Juquinha foi inflexível. O repórter ligou para sua emissora. Vieram dois camara-men. Começaram a filmar. Logo uma multidão se formou em frente ao banco. O Presidente da Instituição financeira viu tudo pela televisão. Ficou abismado. Ligou para o gerente do banco. Juquinha foi convidado a entrar.

                     O Diretor Técnico, o chefe da tropa, o Comissário Distrital e até o presidente regional viram tudo também e correram para o banco. Juquinha pediu ao gerente que não deixasse nenhum deles entrar. Era um assunto de homem para homem! O gerente começou a gostar daquele escoteiro gordo e sua obstinação. Quase riu quando ele disse o que queria. A quantia não era pouca e teria que ser exata. Juquinha disse que tinha quer ser tudo. Ele não tinha nada.

                      O gerente ligou para o Presidente do Banco. Este autorizou e queria fazer um grande marketing em cima do episódio. Juquinha disse que se fizessem propaganda ele não queria nada. Tinha de ser confidencial. O gerente ligou de novo para o presidente. Este tinha sido escoteiro. Sabia o que era um escoteiro. Tem uma só palavra, sua honra vale mais que a própria vida. Autorizou o pedido. Juquinha levou o dinheiro vivo. A porta do banco centenas de pessoas. Outros repórteres. Ele não disse nada. Seu pai veio correndo. Juquinha entrou no carro e partiram.

                      Interessante como se desenrolam os fatos quando são dedicados para o bem. Na noite de natal, Juquinha e todas as patrulhas de sua tropa marchavam pela rua em direção à casa do menino ladrão de pão. Em frente à casa, começaram a cantar a canção da promessa, depois cantaram noite feliz e a família assustada ficou da janela olhando desconfiada. Juquinha foi até lá. Convidou todos eles. Fizeram um circulo. Sentaram como se senta em um Fogo de Conselho sem fogo. Foi montado.

                      A patrulha de Juquinha representou o nascimento de Jesus. Outra patrulha os Três Reis Magos e outra imitou o sermão da montanha, onde Jesus se dirigiu a uma multidão falando de seu reino. O bairro inteiro estava em volta dos escoteiros. Todos aplaudiram. Juquinha trouxe um bolo de chocolate. Ele tinha feito. Repartiu um pedacinho com todos em volta. Não deu para todo mundo.

                      Terminou o Fogo de Conselho. Os automóveis dos pais dos escoteiros começaram a chegar abarrotados. Pães, doces, caramelos, bombons, balas de mel. Pedaços de ilusões perdidas, mas uma luz de esperança. Eles não sabiam, mas achavam que Juquinha era o Papai Noel. Aquelas guloseimas coloridas, eram retalhinhos de sonhos de uma vida. Eram visão dourada dos filhos da família pobre.

                       Mas não terminou aí. Vários brinquedos, muitas roupas, todas novas compradas e muitas doadas por generosos lojistas do bairro. Juquinha entregou um cheque para a mãe pobre de mais de trinta mil reais. Disse que era para começar uma nova vida em sua cidade do norte, pois ela havia contado que queria voltar para lá e viver em um pequeno sitio. Uma palma estrondosa da multidão. Olhe quem estivesse lá, nunca esqueceria. Tinha mais de setecentas pessoas. Todos rindo, cantando, uma festa para a família pobre.

                      Não havia mais o rosário de ilusão e a frustração daquela família ficou distante. As brumas embaçadas do tempo se foram como o vento em direção ao mar. O menino ladrão de pão chorava. Dizia que nunca mais, nunca mais faria aquilo novamente. Juquinha o abraçou. O menino arrependido lhe deu seu canivete que usava para assaltar de presente. Juquinha aceitou. Retribuiu dando a ele um uniforme completo de escoteiro que havia comprado na cantina escoteira.

                     A imprensa chegou. A festa acabou. Ninguém conversou com os repórteres e jornalistas. As noticias foram picotadas no jornal noturno. A lembrança daquela noite nunca ficou apagada. Não houve festa na tropa. Não era para ter. Faz parte do escotismo. Juquinha sorria. Chefe, ele disse. - Eu fiz minha boa ação! Nada mais que isto. Uma pequena boa ação! Um dia quem sabe vou fazer uma maior!

                    O menino arrependido cresceu. Misericórdiosas lembranças. O menino ladrão de pão nunca esqueceu aquela noite. Agradecia todo natal a Deus todo Poderoso, por haver transformado o menino ditoso neste homem feliz que hoje sou eu! Um dia voltei naquela cidade. Não encontrei Juquinha. Ninguém sabia onde poderia encontrá-lo. Eu o trago no meu coração. Ele me deu outra vida. Graças a Deus e a ele agora sou um doutor. Formei-me e todos os anos nunca deixo de fazer o meu natal de Fogo de Conselho para os pobres meninos da vida.

E quem quiser que conte outra...

Anônimo
“Oração de Natal de um órfão de guerra”

Papai Noel, você que não se atrasa
Na visita anual que faz a terra
Veja se faz voltar à minha casa,
O meu papai que foi lutar na guerra.

Vê se você que pode mais que a gente
E que tem uma força sem igual,
Traga-me agora este presente
Nesta noite milagrosa de Natal!

Ele partiu em uma noite estranha
Que da lembrança nunca mais me sai,
Disse que ia lutar na Alemanha
E desde então não vejo mais papai.

Ele escrevia sempre, Mamãe lia,
Suas cartas, baixinho... Devagar...
Eu voltarei em breve – ele dizia
Que esta guerra está preste a acabar.

Depois passaram dias, muitos meses
E notícia alguma de papai não veio
E mamãe, na maior das agonias,
Esperava a passagem do correio.

Nada vinha, o silêncio era completo
E até hoje, eu nem sei bem
Mamãe passou a se vestir de preto
E nunca mais sorriu para ninguém.

Até que um dia, com a última batalha
- E só de lembrar o coração me dói
O correio nos trouxe uma medalha
Com as cinco letras da palavra – “Herói”
 
Papai Noel, meu santo e bom paizinho
Porque isso na minha alma me corrói
Se os tais heróis não voltam para casa
Será que vale a pena ser herói?

E ele dormiu... Abraçado ao retrato
Sonhando sonhos de venturas mil,
Acordou e viu de manhã em seu sapato
UMA ENORME BANDEIRA DO BRASIL!

O REQUINTADO E SABOROSO BOLO DE CHOCOLATE DE CARMINHA


O requintado e saboroso Bolo de Chocolate de Carminha

O bolo e a festa
Feito de chocolate,
Com recheio de coco
O chamam de prestígio
Uma cobertura deliciosa
Com uma textura sem igual;
Encho-me a boca dele,
Humm! Que sabor,
Ai quero mais...
Tomo um gole de guaraná,
Hummm! Delicioso!
Mais uma garfada de bolo,
Escorre o chocolate
Que misturado ao coco do recheio
Mistura-se a saliva
E derrete em meio à vontade
Humm! Queres um pedaço?


                Um dia, caminhando pela rua, vi um senhor que tentava por todas as formas, fazer o seu carro funcionar, sem o conseguir. Nem por isso deixou de acreditar que o carro iria funcionar. Chamou um mecânico e, em poucos minutos, lá estava o carro funcionando como nunca. Se alguém disser que existe a possibilidade de você progredir na vida, realizar os seus sonhos, materializar os seus projetos, pelo menos pare um pouco para pensar, antes de responder que é impossível. A vida, com certeza, é muito melhor do que a que você está viver. E é bem maior do que você imagina. Na verdade os outros não são mais que você. É você que se está a diminuir. Se uma pessoa se deita na rua, pode-se queixar de que os outros passam por cima dele? O que deve fazer é levantar-se e seguir o seu caminho. E claro, pode também comer um pedaço de um gostoso Bolo de Chocolate!

               Porque este inicio? Porque me lembrei de Carminha. Com seus dez anos crescera assustadoramente. Quem a visse diria que ela poderia ter 12 ou 13 anos. Tinha os cabelos negros, crespos, olhos castanhos e um porte firme, sempre com um sorriso nos lábios. Uma simpatia! Carminha era lobinha da alcatéia Sambhur (animal forte, elefante ou um grande tigre ou touros selvagens). Era uma alcatéia nova, fora fundada há oito anos. Poucos lobinhos na época, mas agora não. A alcatéia estava agora com 12 lobinhos e 10 lobinhas. Carminha entrou com oito anos, amor a primeira vista entre ela e a alcatéia. Carminha era chamada carinhosamente na sua matilha cinzenta de Raksha.

           Carminha lembrava sempre do seu primeiro dia. Fora apresentada a alcatéia e fizeram o Grande Uivo em sua homenagem. Ela achou aquilo o máximo.  Ali mesmo no seu pensamento, jurou que nunca mais iria sair do escotismo. Ela adorava as reuniões. Cada uma diferente da outra. Os jogos então eram sua paixão, mas logo descobriu que poderia crescer e ter muitos distintivos colocados em sua camisa.

           Mas Carminha estava diante de um grande dilema. Enorme mesmo. As duas coisas que ela mais gostava na sua vida de lobinha. O Acantonamento anual do Distrito, onde centenas de lobinhos e lobinhas estariam reunidos e a festa de aniversário de Isabel, sua prima. Sem contar é claro o delicioso Bolo de Chocolate que Carminha ficava horas e horas admirando quando sua tia fazia com um sorriso no rosto. Como era gostoso! Delicioso. Um sabor sem igual. Carminha esperava todos os anos só para admirar a feitura e depois sentar calmamente, olhar seu “pedaço” e ir saboreando cada colher.

          E agora para sua infelicidade, as duas coisas iam acontecer ao mesmo tempo. Ela estava com a maior indecisão em sua vida. O que fazer? A noite ajoelhou aos pés da cama e pediu a Deus para lhe mostrar o caminho. Mas qual caminho? Ela queria ir ao acantonamento e também estar no aniversário de sua prima e o bolo... Ah o bolo! Ele surgia incessantemente em sua mente todo o tempo. Ficar sem o Bolo de Chocolate? Sua boca enchia de desejos, pois só de pensar em cada garfada de bolo, o chocolate escorrendo, o coco no recheio, sentia sua saliva derretendo, incrível, que vontade de comer o Bolo de Chocolate!

       Para alguns de nós, adultos, era uma decisão fácil de tomar. Afinal não temos mais os sonhos de uma menina, que vivia ainda seu belo conto de fadas. Quem um dia quando criança não se sentiu assim? Uma dúvida atroz, cruel para elas, desumana. Mario Quintana escreveu que só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia-a-dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos..., não sei se concordo com ele. Dizem ainda que as crianças acham tudo em nada e os homens não acham nada em tudo!

        Aquele sábado de reunião foi um tormento para Carminha. Logo após a cerimônia de bandeira, ela se esqueceu das palavras que devia ser dita no Grande Uivo. A Akelá a escolheu para responder – melhor, melhor, melhor e melhor? Sim, melhor, melhor, e melhor! E ela nada. Estava muda. Seu pensamento estava no Bolo de Chocolate e no acantonamento. Todos ficaram intrigados, Carminha sempre era a mais alegre, mais participante e parecia estar nas nuvens. A Kaá fez um jogo de abertura já conhecido e que Carminha adorava. A Baratinha e o inseticida.

 (No começo do jogo é sorteado um lobinho que será o inseticida, os demais participantes serão as baratinhas. As baratinhas devem tentar atravessar de um lado do campo para o outro, já o inseticida deve tentar topar nas baratinhas. No soar do apito as baratinhas devem atravessar. As baratinhas que forem pegas se transformarão em inseticidas. O jogo acaba quando todas as baratinhas se tornam inseticidas ou quando restar apenas uma baratinha. Aconselho a utilizar os muros como os pontos das baratinhas, lá elas estarão salvas, e não poderão ser transformadas em inseticidas.)

         A reunião transcorreu normal, e Aninha não participava. Estava alheia a tudo. Mas quando Hathi contou uma parte da história de Mowgly Trégua das Águas, foi que prestou um pouco mais de atenção. Dizia Hathi:

- A Lei da Jângal – que é a mais velha lei do mundo, atende a quase todos os acidentes que possam acontecer para o Povo da Jângal. Código mais perfeito, o tempo e os costumes nunca fizeram. Mowgly vez por outra ficava impaciente com as constantes recomendações de baloo, o urso pardo, que sempre lhe dizia:

- “Esta é a lei que vigora em nossa selva e que é antiga como o céu” Como o cipó envolve a árvore, a Lei do Lobinho envolve a todos nós. E depois que tiveres vivido tanto quanto eu, irmãozinho, verás que todos os filhos da Jângal obedecem ao menos uma lei, e não vai ser um acontecimento agradável de ver. Essa lição entrou por um ouvido e saiu pelo outro, porque o menino nunca tinha passado problema sério. Hathi continuou contando e desta vez Carminha prestava muita atenção.

       Carminha procurou no final da reunião a Akelá e expôs para ela sua duvida, seu tormento, mas acreditem o aconselhamento da Chefe não ajudou em nada a Carminha. Em casa falou com sua mãe e esta não se mostrou muito interessada no tema. Carminha estava decepcionada. O que fazer? Como agir? Vou para o acantonamento? Não vou e participo do Bolo de Chocolate? Carminha dormiu naquela noite e nas seguintes um sono ruim, sem sonhos, sem perspectivas.

       Não havia como fugir. Ela tinha de ir ao acantonamento. Afinal sua vida também fazia parte da Alcatéia. Ela não poderia decepcionar sua matilha cinzenta. Sabia que a lembrança do Bolo de Chocolate iria se manter viva durante todo o tempo que estivesse acantonada, mas não havia outra saída. O Sábado chegou. Com uma dor no coração Carminha embarcou com a Alcatéia rumo ao acantonamento.

      Chegaram e logo o Balu fez o jogo do labirinto, (trançou-se entre as arvores um sisal esticado a um metro de altura e cada lobo de olhos vendados teria que percorrer o labirinto). Logo após a montagem do campo. Um lanche e foram introduzidas no tema da atividade. A primeira etapa da disputa (história de Mowgly), a segunda (Caçada aos amuletos perdidos) e foram para o almoço. Carminha ainda tinha na mente o seu bolo de chocolate.

      O acantonamento seguiu o previsível. Um tempo livre, uma preparação para a Insígnia Mundial de Conservacionismo, outros jogos, lanche, um ótimo jogo (Batalha entre lobos) e todos foram para o banho. Carminha conheceu Rodrigo, um lobinho da matilha azul, de outra alcatéia do distrito e ficaram grandes amigos. Carminha contou seu problema e Rodrigo entendeu perfeitamente. Solidarizou-se com ela em tudo.

     Logo após o jantar, Carminha viu que sua alcatéia fora chamada sem a presença das outras e ela não soube o porquê. A Akelá a chamou em particular e pediu para ela ir à cozinha e pegar uma colher para ela. Carminha foi correndo. Ela era sempre assim. Disseram uma vez para ela que o escoteiro não anda, voa! E ela levava isso a sério. Mal chegou à cozinha e lá estavam sua mãe, sua tia, sua prima Beatriz e mais outras dez amigas de Carminha. Uma enorme surpresa. Sua tia disse – Carminha, vamos agora fazer o bolo de chocolate e você vai me ajudar!

      A vida nos reserva tantas surpresas, coisas que a gente jamais imagina que vai acontecer. Pode ser lugares que nunca imaginaríamos ver, sentimentos que jamais pensamos em sentir, é poder comer o Bolo de Chocolate, ver sendo feito, junto a amigos do colégio e filhos dos vizinhos ali reunidos era um sonho! A vida é mesmo maravilhosa. Foi um aniversário que ficou para sempre na lembrança de Carminha. Incrível mesmo. Carminha se deliciou com o Bolo de Chocolate. Como era gostoso! E ali naquele acantonamento ele tinha um sabor todo especial.

     E olhe, antes de cantarem os parabéns, lá veio toda a alcatéia e junto aos amigos cantaram como nunca. Carminha estava tão maravilhada que esqueceu que o aniversário não era dela e sim da sua prima Beatriz. Correu até ela e a abraçou dizendo. - Amo você minha prima, seja feliz como eu estou sendo agora. E as duas ficaram ali abraçadas por um bom tempo. Não muito, pois era hora de Carminha comer seu pedaço de Bolo de Chocolate. O Bolo de chocolate de seus sonhos!

     Foi a primeira vez que Carminha enfrentou suas dificuldades. Aprendeu com ela. A vida a partir daí seria outra para Carminha. Como escrito no início do conto, a vida, com certeza, é muito melhor do que a que você está a viver. E é bem maior do que você imagina. Ela sabia agora que tudo tinha mudado. E para melhor. Manteve seus sonhos vivos, acreditou neles e quando foi convidada para fazer a trilha escoteira ela não se fez de rogada.

     Carminha hoje caminha para os seus catorze anos. Já tem seu projeto em andamento para conseguir o Liz de Ouro. E ela vai conseguir, disto tenho certeza, e durante todos estes anos, ela não perdeu nenhum aniversário da Beatriz. O Bolo de Chocolate se manteve como uma tradição e o seu pedaço ela comia saboreando colher por colher. Carminha aprendeu que existem dois objetivos na vida, o primeiro o de obter o que desejamos e o segundo de desfrutá-lo. Dizem que somente os mais sábios realizam o segundo.

     O escotismo é isto. Sonhos se tornando realidade. Amor retribuído em surpresas e amizades. A cada dia, a cada reunião, ou acampamento vamos recebendo passagens maravilhosas que ficam marcadas em nosso coração. Carminha como eu vive o escotismo intensamente. Cada um com uma visão, ela mais jovem e eu um pouco mais velho e ambos sabemos que temos orgulho em participar, viver, amar, sonhar, e acreditar que nosso movimento nos traz tudo àquilo que alguém pode pensar em ter. Não sei, mas acho que o escotismo é minha vida ou quem sabe minha vida é ser escoteiro!

E quem quiser que conte outra

Seja feliz do jeito que você é não mude sua rotina pelo o que os outros exigem de você. Simplesmente viva de acordo com o seu modo de viver.

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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