terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Rudá, o cão sarnento do Vale do Eco.


Lendas Escoteiras.
Rudá, o cão sarnento do Vale do Eco.

                - Hoje não o tenho visto mais. Nem mesmo Uiara que acredito lhe deu os momentos mais belos em sua vida. – Olhei para Montezuma. Não havia como duvidar. Seu porte, seu olhar ainda era de um índio orgulhoso como todos aqueles que nasceram na nação Xavante. Mesmo que seus irmãos não tem mais aquela postura do passado ele ainda mantinha seus hábitos, costumes e tradições. Ficamos calados por instantes. O único som era da cachoeira do macaco, onde estávamos sentados observando a secura do rio que outrora fora um gigante de águas caudalosas. Ficamos amigos há tempos. Ele me respeitava como Chefe Escoteiro e eu tinha por ele um orgulho em saber que era um autêntico Xavante orgulhoso de sua tribo. – Ele me olhou, e orgulhosamente completou: - “Chefe dos meninos do bem”, eu digo e repito se você fala com os animais eles falaram com você e se reconhecerão uns aos outros. Se não falar com eles você não os conhecerá e o que você não conhece você temerá. E terminou dizendo – E aquilo que tememos nós destruímos!

                  - Eu o vi um dia na Beira do Lago Salgado, em uma tarde modorrenta com mais dois chefes escoteiros que me acompanhavam. Não vi Uiara sua companheira. Era um cão feio, sarnento com um dos olhos furados talvez por uma lança ou por um tiro de espingarda. Queria saber sua história, queria saber onde dormia onde morava. Montezuma não se fez de rogado quando o visitei naquele verão cujas chuvas não estavam mais caindo do céu. – Pensei em ver lágrimas em seus olhos, mas um bravo não chora. Prefere a morte a mostrar que um índio possa ser igual as suas mulheres. – “Chefe dos Meninos do bem”, Rudá era um cão do Pagé Kopenak que não era amigo dele. Nunca o alimentou e quando Uiara apareceu e ele a seguiu Kopenak não se importou. Os viu desaparecendo na curva do Touro das Águas Mornas. Ele nunca mais voltou à tribo e ninguém deu por falta dele.

                     Foi no inverno das cinco luas que ele apareceu novamente. O pelo amarelo cresceu, havia outro porte, outra maneira de andar e olhar. Suas orelhas ficaram pontiagudas e seu rosnado tinha um que de feroz que assustava. O Pagé Kopenak quando o viu tentou se aproximar. Desistiu, pois viu que os olhos de Rudá agora estavam vermelhos como brasas do sol poente. Uiara de longe só observava. Rudá ficou em pé no centro da taba do Cacique e latiu. Um latido forte que parecia um ganido de um cão raivoso e que assustou toda a tribo. O dia virou noite, não havia estrelas no céu. O ribombar dos trovões pipocavam, mas não havia raios nem chuva. Uiara deitou a sua frente em pose submissa e não latiu. De longe a tribo assustada olhava aquele cão que quando sarnento escorraçado pela tribo. Agora parecia um animal enorme, uma onça pintada daquelas que só encontramos nas margens do Rio Piquiri longe de Cuiabá bem perto do maior lago do Pantanal Brasileiro.

                    - “Chefe dos meninos do bem”, ninguém sabia o que dizer. Aquele cão sarnento agora tinha o espírito do Deus dos animais, parecia vivo vindo dos altos Solimões onde habitavam os Mavutsinim, o primeiro índio criador dos povos do mundo, da serpente, do fogo e da água. Um clarão fez aparecer junto a Rudá à bela filha de Marangatu, Kerana, como se seu espirito fosse revivo quando morreu nas águas turvas do Rio Corumbá. Ela levantou as mãos e pediu silêncio. A tribo ajoelhou assustada com aquela volta de alguém que já tinha partido para a “Aldeia Divina” e sob as bênçãos do Pagé. Todos tinham visto que seu caminho foi o mesmo de muitos que também se juntaram aos grandes espíritos que hoje moram nos céus. Kerana de mãos levantadas começou a cantar uma canção que Montezuma conhecia. – “Nesta mata distante sob a luz do luar, ouço uma canção linda que não pode parar, pescadores de sonhos são defensores da vida, eles dançam em roda para comemorar. Os pés descalços há muito tempo vivem aqui. São os Índios valentes, Tupi Guarani”.

                 - Em seguida ela orou ao Deus Anhangá emocionando toda a tribo que chorava copiosamente. - Ó Grande Espírito, cuja voz ouço nos ventos, cujo sopro anima o mundo, ouça-me. Sou pequeno e fraco, preciso de sua força e sabedoria. Permita que eu caminhe na Beleza, e faça que meus olhos contemplem para sempre o vermelho e a púrpura do sol poente. Faça com que minhas mãos respeitem todas as coisas que o Senhor criou. Faça meus ouvidos aguçados para que eu ouça a sua voz. Faça-me sábio para que eu possa entender tudo aquilo que ensinou ao seu povo. Permita que eu apreenda os ensinamentos que escondeu em cada folha, em cada pedra. Busco força, não para ser maior do que meu amigo, mas para lutar contra meu maior inimigo – eu mesmo. Permita que eu esteja sempre pronto para ir até o Senhor de mãos limpas e olhar firme. Assim, quando a minha vida estiver no ocaso, como o sol poente, que meu Espírito possa ir à sua presença, sem nenhuma vergonha.

                     Um enorme clarão e Kerana desapareceu. Rudá e Uiara partiram devagar sem olhar para trás. Foi um dia que marcou a tribo e que aprendemos a respeitar os animais, pois no fundo eles são melhores que nós. – Fiquei ali olhando para Montezuma. Pensei em perguntar onde poderia encontrar Rudá e Uiara. Ele me olhou com aqueles olhos negros profundos como a dizer que nunca me diria. Passei quase um ano sem voltar à tribo dos Xavantes e quando estive lá pela última vez não encontrei mais Montezuma. – Só me disseram que ele partiu rumo a Grande Aldeia do Universo. Confesso que me deu enorme tristeza, pois Montezuma era um dos poucos amigos índios que ainda preservava. No passado tive outros que também se foram com os grandes espíritos em busca dos seus ancestrais na eternidade.

                        Naquela noite retornando no Trem Noturno me lembrei do poema de Tecumseh – Viva sua vida de forma que o medo da morte nunca possa entrar em seu coração. Nunca incomode ninguém por causa de suas escolhas. Respeite os outros em seus pontos de vista, e exija que eles respeitem os seus. Ame sua vida, aperfeiçoe e embeleze todas as coisas em sua vida. Busque fazer sua vida longa e de serviços para seu povo. Prepare uma canção fúnebre nobre para o dia quando você atravessar a grande passagem. Sempre dê uma palavra ou sinal de saudação quando encontrar ou cruzar com um estranho em um local solitário. Demonstre respeito a todas as pessoas, mas não se rebaixe a ninguém. Quando se levantar pela manhã agradeça pela luz, pela sua vida pela sua força. Dê graças por seu alimento e pela alegria de viver. E Quando chegar sua hora de morrer, não seja como aqueles cujos corações estão preenchidos de medo da morte. Cante sua canção de morte, e morra como um herói indo para casa.

                     Ah! Nunca esqueci meus amigos índios, hoje vivo de minhas lembranças de Rudá que só vi uma vez e nunca encontrei com Uiara que hoje vivem felizes nas matas verdes do meu Brasil!


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A escoteirinha foi morar no céu!


Lendas Escoteiras.
A escoteirinha foi morar no céu!

                Ela nem se lembrava como fora parar ali. Sentia falta de visitas inclusive sua família que a visitava poucas vezes. Nati e Andi duas enfermeiras faziam o papel de mãe e pai. Ela amava as duas mais que seus próprios pais. Ela também tinha dois tios que a faziam rir e sonhar que um dia poderia voltar para casa, correr na escola, abraçar amigos. Joshua o Contador de Histórias e Titio Aquiles, que se vestia de pirata ou palhaço eram tudo para aquela garotada naquela Ala C do hospital. No inicio sofreu muito. Seus pais não explicaram a ela o que tinha, e um dia a levaram para o hospital e ela nunca mais saiu de lá. Custou a entender o que lhe aplicavam três vezes por semana. Depois soube que se chamava quimioterapia e Dona Alma uma enfermeira sua amiga disse que só assim um dia ela podia voltar para casa. Ela chorava nos dias que precisava fazer a tal quimioterapia. Vomitava, gritava de dor e muitas vezes teve que ser levada a força. Seis meses e nada de melhorar. Tinha saudades de mamãe Eulália e do papai Alfredo. Filha única ela tinha tudo e agora não tinha nada.

                 Aconteceu em um domingo quando aqueles dois meninos e duas meninas de uniforme escoteiro disseram que iriam formar ali na ala C, uma tropa de Escoteiros. Ela riu quando disseram isto. Não sabia o que eram os Escoteiros e nem tampouco uma tropa. Os quatros eram formidáveis. Riam, cantavam, faziam jogos e ensinavam as técnicas Escoteiras. Maryany passou a ver sua vida de outra forma. Agora ia para a Quimio mais alegre mesmo sabendo que ia sofrer. Disseram para ela que os Escoteiros não tem medo, que sorriam nas dificuldades. Eram doze naquela ala do hospital. De vez em quando um ia embora e Nati ou Andi diziam que ele tinha partido para uma estrela no céu. Maryany ficava imaginando quando fosse chegar seu dia, se era longe ou perto demais.

                 Miro o Monitor dos Escoteiros não sabia ficar sério. Sempre sorrindo e brincando. Alencar sorria também, e Lena e Tatiana eram uns amores. Ficaram muito amigas de Maryany. Em pouco tempo a Tropa Escoteira Dos Guerreiros da Ala C aprendeu tudo para fazer a promessa. Adoravam quando um deles fazia um jogo, ensinavam um nó, cantavam uma canção. E a lei dos Escoteiros? Maryany sabia de cor. Naquele sábado de setembro ela sentiu no peito uma enorme pressão, calor falta de ar e uma dor enorme, mas não disse nada a ninguém. A quimio fazia efeitos terríveis. Mesmo assim participou de tudo que os meninos escoteiros fizeram. Sempre batiam palmas quando cantavam a canção das panelas. Riam demais pensando como seria lavar panelas. – Quando terminarem as provas, disse Miro, eu vou chamar o Chefe para fazer a promessa de vocês! – E o uniforme Miro? – Vamos trazer para cada um. Todos sorriam e ficavam esperançosos em vestir o uniforme dos Escoteiros.

                 Nati e Andi as enfermeiras sentiam-se felizes com os escoteiros. Choravam quando alguém era levado às pressas para a UTI. Elas sabiam que de lá não voltariam nunca mais. Mesmo amando aquelas crianças escondidas em um lugar qualquer do hospital deixavam uma lágrima correr pela face. O Doutor Pascoal sempre cobrando para endurecer o coração, mas era impossível. O câncer é terrível e nas crianças é mais terrível ainda. Na Ala C todos os médicos e enfermeiras sabiam que não tinha volta. Só um milagre para voltar novamente para casa. Todos sabiam que era terrível compartilhar com aquela doença e nas crianças era pior ainda. Vê-los sorrir, chorar, cabeça raspada, uma bata branca Sabiam que a esperança dificilmente faria morada na Ala C.

                 Aconteceu em um domingo. Miro disse a Maryany que ela Ia fazer a promessa. Prometeu trazer o uniforme dela no domingo seguinte. Disse que o Chefe e toda a Tropa Escoteira estariam presentes. Nunca se viu um sorriso como o dela. Nunca uma alegria foi tão forte naquela menina. Nem bem eles foram embora à dor no peito quase a levou. Foi uma semana onde Laura e Emília partiram para morar na Estrela do céu. Apesar de rotina todos sabiam que as experiências mesmo as mais difíceis são provas para que possamos crescer mais espiritualmente e aprender com os erros e entender a vida como ela realmente é.

                  Maryany na quarta gemia de dor. O doutor Pascoal pediu a Nati e Andi que a levassem para a UTI. Ela não iria sobreviver por mais do que uma semana. Com os remédios ele sabia que a dor seria menor e só com o um coma ela iria aguentar ate seu último dia. Seus pais não tinham mais esperanças. Tudo foi explicado a eles. Quando Maryany viu que ela seria levada para a UTI seu mundo desabou. Gritou, chorou, implorou que a levassem na segunda. - Doutor Pascoal! Vou fazer a promessa no domingo, é meu sonho! – Se for sei que nunca mais iria voltar. Preciso fazer a promessa. Irei dizer a Deus e a Pátria que serei uma boa Escoteira na Estrela do céu onde vou morar. Prometeu com água nos olhos que não iria chorar de dor. O doutor Pascoal nunca ficou tão emocionado. Aplicou nela uma dose extra de um forte analgésico para ela aguentar até domingo.

                   Não foi fácil para Maryany sobreviver àqueles dias. Sua força de vontade era tão grande que quando viu adentrarem na Ala C os Escoteiros ela esqueceu a dor que sentia. Quando Lena e Tatiana vestiram nela o uniforme ela chorava de alegria. Queria levantar e não conseguia. Estava fraca demais. Miro tirou seu lenço e amarrou na base onde estava colocado o soro e prendeu seu braço mais alto para que ele fizesse o sinal Escoteiro quando de sua promessa. Formaram em volta dos meninos e meninas da Ala C que acreditam em um milagre. Miro falou disse ao Chefe – Chefe! Apresento Maryany, uma Escoteira que está pronta para fazer a promessa. – Todos fizeram o sinal Escoteiro. Uma Bandeira Nacional foi desfraldada.
                  Quando o Chefe ia dizer para ela repetir ela carregada de emoção começou – Prometo pela minha honra, fazer o melhor possivel para – Cumprir os meus deveres para com Deus e a minha Pátria... Maryany não terminou. Seu semblante sorria, seus lindos olhos negros fitavam o infinito. Seu espirito havia partido. Ela não estava mais ali.


                  Um silêncio sepulcral tomou conta da Ala C. O Chefe foi até ela e colocou o lenço. Miro o Monitor colocou nela o distintivo de promessa. A tropa cantava baixinho a Canção da Promessa. Maryany partira, mas sabia o que estava acontecendo. Amparada por anjos escoteiros estava feliz e orgulhosa com seu uniforme. Finalmente ela descansou. Foi morar na estrela que escolheu. Todos ali na Ala C sabiam que Maryany foi para o céu!

sábado, 14 de janeiro de 2017

Libachy, o lobo Vermelho do Vale da Coruja.


Lendas escoteiras.
Libachy, o lobo Vermelho do Vale da Coruja.

                      Ele sentou sob suas duas patas, pois estava cansado demais. Suas orelhas levantaram. A respiração ofegante terminara e agora seu sentido de observação estava em ação. Libachy o Lobo Vermelho passou todo o dia correndo no vale da Coruja para encontrar alguma caça. Quase se afogou na Vertente do Rio Pucumé. Com muito custo conseguiu pegar sua presa. Um quati raquítico e magro e ele quase desistiu. Ele sabia que seu pai Inûnpiac precisava comer. Dois dias sem nada no estomago. Libachy sabia que dia menos dia ele iria partir para a Estrela dos ventos Amigos, onde diziam os lobos vivem felizes para sempre. Agora precisava tomar uma decisão. Nascera há muitos anos ali na Caverna do Morcego e toda a sua vida ele viveu no Vale da Coruja. Sua história poderia já ter terminado. Ele era o último da estirpe dos Lobos Vermelhos. Antes eram centenas deles. Lembrava ainda quando nasceu. Sua Alcateia era forte, respeitada entre os demais lobos do Vale da Coruja.

                 Libachy olhava espantado para sua trilha que estava toda tomada por jovenzinhos humanos, com chapéus esquisitos e montando barracas por onde ele iria passar. Ele lembrava que há muitas luas outros haviam tentado atravessar o vale e desistiu. Pensou que nunca mais voltariam e ali estavam de volta. Nunca fez mal a eles. Libachy era um lobo amigo e não desejava mal a ninguém. Diferente de Sangue nos Olhos, a Onça Negra de mais de dois metros e que também era a única a afugentar todos os bichos do Vale do Morcego. Ele sabia que ela era a única culpada por todos os seus infortúnios. Há muitas luas todos viviam felizes e até mesmo Sangue nos Olhos não fazia mal a ninguém. Mas um dia resolveu ir para outras paragens e matou um bezerro recém-nascido. Foi à conta. Os fazendeiros em grupo foram à caça. Mataram quase todos de sua raça e de Sangue nos Olhos. Seu pai não conta, pois desde a lua nova dos tempos das chuvas mansas, que ficou aleijado não podendo mais andar. O Vale da Coruja não era mais o mesmo. Todos tinham medo de todos. O espirito andava sempre alerta para não ser morto por um tiro ou um animal mais forte e esfomeado.

                Libachy olhou de novo para a menininha que vinha em sua direção. Ele sabia que não ia lhe fazer nenhum mal, mas e ela? Iria gritar e ele tinha de fugir deixando sua caça para trás. – Viu “quando ela riu e disse – Olá lobinho, eu também já fui uma lobinha” – Libachy assustou. Ele entendia tudo que ela falava. Como? Nenhum humano jamais conversou com ele. Pensou em sair correndo, mas viu a paz nos olhos da menininha. – Eu preciso passar ele disse. Ela sorriu e replicou – Pode passar sim, ninguém vai proibir você. Como? Libachy criou coragem, pegou sua presa e correu como nunca. Chegou esbaforido na Caverna do Morcego onde estava seu pai. Pensou em não dizer nada para não assustar. Libachy aprendeu a dizer sempre a verdade – Seu pai o ouviu calado e no final disse – Um dia tudo vai terminar Libachy, enquanto os humanos não matarem Sangue nos Olhos e você, eles não ficaram felizes. Você está pagando por um crime que não cometeu.

                 Libachy não dormiu bem à noite. Um medo enorme dos caçadores. A menininha podia ter comentado com outros e eles não ficariam satisfeitos enquanto não exterminassem o último lobo vermelho e a última Onça Negra do Vale da Coruja. Mas ninguém veio. Pela manhã foi ver se já tinham ido embora. Eram muitos e divididos em turma. Em uma delas havia três menininhas e cinco menininhos. Educados, não gritavam, sorriam muito e cantavam canções que maravilhou Libachy. Seu medo agora era se Sangue nos Olhos não iria fazer mal a eles. Resolveu ficar ali e esperar. Se Sangue nos Olhos aparecesse ele os defenderia. Sabia que não podia enfrentar a Onça Negra, mas não iria deixar que ela fizesse mal aos meninos e meninas.

                   Sentiu que alguém acariciava sua pelagem ainda espessa.  Olhou e viu a menina de ontem. Olá meu amigo, ela disse. Sou Olhos Brilhantes, monitora da Patrulha Águia, e você tem nome? – Libachy falou de uma só vez. Vocês não devem ficar aqui. – Por quê? Se Sangue nos Olhos ficar com fome será um perigo para vocês! Ela ficou pensativa. – Olhe porque não vem à noite? Teremos fogo de Conselho e vou apresentar você à tropa. Assim poderá contar porque corremos perigo. Libachy aceitou o convite. Seu pai disse para ele tomar cuidado. Nunca confiou muito nos humanos. Ao descer a trilha da montanha avistou dois cavalos. Um perigo. Sempre eram caçadores. Pensou em voltar, mas seguiu em frente. Encontrou todos em volta de uma grande fogueira. Olhos Brilhantes a escoteirinha correu para ele dizendo - Bem vindo meu amigo! Fique ao meu lado, vou apresentar você. Foi bem recebido por uma palma escoteira.

                 Lá pelas tantas o convidaram para falar. Falou pouco. A menina Escoteira traduzia o que ele falava. Disse que era um dos últimos dos lobos vermelhos. Todos seus irmãos foram mortos por caçadores. Agora era difícil viver ali. Ele não podia ir muito longe à procura da caça, poderia levar um tiro. Contou sobre Sangue nos Olhos a Onça Negra da Caverna do Urso. Que ela era como ele, não tinha mais amigos, só vivia fugindo. Nisto ouviram um barulho – era Sangue nos Olhos, uma enorme onça negra. Entrou no circulo dos Escoteiros sem medo. Pediu a palavra – Os fazendeiros me condenaram. Um dia um bezerrinho fugiu da sua mãe e entrou na grota do quati, se perdeu e acabou morrendo lá no alto da cascata do Véu da Noiva. Eu estava com fome. Os abutres iriam comer o bezerro e porque não eu? Porque não podia aproveitar também? Mas me condenaram. Disseram que fui eu. Minha linhagem desapareceu. Todos que moravam junto comigo foram mortos por caçadores.

                Seu Normando um fazendeiro amigo dos Escoteiros que foi convidado para a cerimonia pediu a palavra. – Escoteiros e animais, ele disse – Não sabia disto. Achei que eram muitos. Eu mesmo matei muitos lobos e onças negras. Confesso que estou arrependido. O Vale da Coruja são terras minhas. A partir de hoje nenhum caçador vai entrar aqui. Todos os animais poderão viver em paz como sempre viveram. Uma estrondosa palma ecoou por todo o vale. Olhos Brilhantes a escoteirinha veio abraçar Libachy, abraçou também Sangue nos Olhos. A partir daquele instante ficaram irmãos de sangue. Como na história da Jângal fizeram um juramento que iria valer por toda a vida. Escoteiros, lobos e onças seriam felizes e irmãos para sempre.


                   Contaram-me que quatro anos depois já se avistava matilhas de lobos vermelhos a correr pelo vale. Muitas vezes acompanhados por grande quantidade de onças negras que vagam pelo vale e nunca mais ninguém soube de mortes ou mesmo de brigas entre eles. Dizem ainda que Sangue nos Olhos e Libachy sempre andam juntos e que se alguém atacar um tem de atacar os dois. Inûnpiac o pai de Libachy morreu alguns anos depois. Morreu sorrindo, pois seu vale agora era só de paz e felicidade. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O Papagaio verde esmeralda do Capitão Lockhart.


Lendas Escoteiras.
O Papagaio verde esmeralda do Capitão Lockhart.

                 Calma. Nada a ver com o filme de Anthony Mann, Um Certo Capitão Lockhart. Mas Dona Etelvina assistiu ao filme e batizou seu filho como Capitão Lockhart. A princípio o tabelião se recusou, mas Dona Etelvina foi dura e enfática. Tem de ser este ou não será nenhum. Capitão Lockhart ficou conhecido na cidade de Pedra Roxa. A princípio só curiosidade depois ninguém ligava mais. Na escola era bom aluno e todos os colegas gostavam dele por ser prestativo e educado. Capitão Lockhart tinha duas paixões. Papagaios (pipas) e escotismo. Quando fez sete anos lá estava ele se matriculando como lobinho. Não sabia que precisa de sua mãe para isto. Ela foi. Seu pai foi pracinha e morreu na Batalha de Monte Castelo quando ele ainda estava hibernando na barriga de sua mãe.

               Capitão Lockhart fazia papagaios como ninguém. Nos campeonatos anuais na cidade de Pedra Roxa quando não ganhava ficava em segundo. Cada ano mais ele se aprimorava. Sabia escolher o melhor bambu para as varetas, ele mesmo fazia a cola em sua casa usando limão galego, comprou uma tesoura sem ponta e usava sua régua e caneta da escola. Na Casa Ultimato, onde vendiam papeis de seda ela ficava horas escolhendo. Sempre tinha cinco ou seis carreteis de linha dez de reserva. Capitão Lockhart chegava da escola, fazia suas tarefas e a tarde ia até a colina do Morto Enterrado. Lá soltava seus papagaios analisando o peso, a força do vento, as linhadas, tudo para que não perdesse nada na hora de um bom campeonato.

             Capitão Lockhart era da Patrulha Corvo. Seu Monitor Nininho era meio mandão, mas todos gostavam dele. As quintas feiras a Patrulha se reunia na sede, onde eram passadas as provas para cada um. A Patrulha tinha dois primeiras classes, três segundas (inclusive Capitão Lockhart) e dois noviços. Ziri era um deles. Quiseram apelida-lo de Polegar, mas alguém achou melhor Ziri. Esqueceram que seria Siri e não Ziri. Mas apelido posto só sai morto. Aos sábados o Chefe Martinho não dava folga. Cobrava dos Monitores, cobrava dos subs, cobrava de todo mundo. Capitão Lockhart amava tudo aquilo. A tropa vivia acampando, fazendo excursões, e varias vezes ao ano ele o Chefe deixava as Patrulhas acamparem sozinhas, principalmente em acampamentos volantes bem planejados.

              Em novembro a prefeitura da cidade estava programando a primeira Olimpíada do Papagaio de Pedra Roxa. Capitão Lockhart soube que o premio seria de dois mil reais. Precisava ganhar este prêmio. Prometera dar o uniforme e o equipamento de campo ao Ziri, pois ele estava com cinco meses e ainda não conseguiu ter o suficiente para fazer e comprar. Promessa é promessa e o Capitão Lockhart não podia fraquejar. O dia chegou. Capitão Lockhart sabia das regras das Olimpíadas. Usar dois carreteis de linha dez com cento e cinquenta metros cada um, o papagaio tinha de puxar toda a linha, (os fiscais iriam olhar na manivela), ficar duas horas no ar e ganhava em primeiro lugar aquela com mais pingos de chuva no papel de seda. Tudo bem. Não era segredo para o Capitão Lockhart.

               O dia chegou. A cidade presente em peso. Mais de duzentos competidores. Capitão Lockhart fizera uma pipa de bom tamanho, mais ou menos oitenta por quarenta, passara quinze dias preparando as varetas, cortou o papel de seda harmoniosamente sem pontas e para montar seu papagaio ficou dois dias ali debruçado na sua mesinha que sua mãe lhe dera de presente. Às nove da manhã se encontrou com a Patrulha. Estavam todos uniformizados. Várias outras patrulhas, lobinhos, seniores e os pioneiros também lá estavam. O Chefe Martinho tinha orgulho do Capitão Lockhart. Adorava o menino. Ele era viúvo e namorava dona Etelvina a mãe do Capitão Lockhart. Nada contra. Formavam um belo casal e juntos também foram assistir a vitória ou derrota do Capitão Lockhart.
   
              Não vou entrar em detalhes, mas foi uma disputa renhida. No final ficaram oito competidores. Passado às duas horas foi dado à ordem de descer os papagaios. Um por um foram chegado. O povo todo se amontoando para ver qual estava marcado com pingos de chuva. A do Capitão Lockhart tinha oito pingos. A do Murilo da Birosca do Pedro Mocho (bar) tinha oito também. E agora? Mais trinta minutos no ar. Então após veriam o provável vencedor. Não podia haver empates. Foi emocionante! Muito mesmo. Um frenesi no ar e em terra. Uma torcida vibrante. Os escoteiros pulando e gritando. Terminou o tempo. As pipas desceram. Capitão Lockhart ganhou com mais dois pingos. A do Murilo só um. Foi carregado entre a multidão.


                      No sábado no cerimonial de bandeira, o Chefe Martinho fez uma entrega de um certificado de mérito ao Capitão Lockhart não só por ter representado o grupo nas olimpíadas, como também pelo seu belo gesto em dar ao Escoteiro Ziri um uniforme completo, um cantil, uma faca Escoteira, uma bússola e um cabo trançado de dez metros. A tropa saiu de forma. Os sêniores também. Os lobinhos se juntaram a algazarra. Abraçavam e beijavam o Capitão Lockhart. Uma apoteose que nunca tinham visto nada igual. Soube que meses depois o Chefe Martinho casou com dona Etelvina. Comentaram que eles viveram felizes para sempre. Soube por fontes fidedignas que o Capitão Lockhart foi reconhecido como o maior soltador de papagaios do Brasil e esteve em diversos campeonatos no “estrangeiro”. Que ele seja feliz com sua gostosa habilidade. Histórias são como feijão com arroz, e quem quiser que conte dois!    

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O inesquecível Chefe Gafanhoto. (baseada em fatos reais)


Lendas escoteiras.
O inesquecível Chefe Gafanhoto.
(baseada em fatos reais)

               Gente boa. Educado. Sabia ouvir, sabia cantar, era um grande mateiro, sempre sorrindo e com uma tropa Escoteira maravilhosa. Tinha um sonho. Um sonho maluco – Chefe Osvaldo, se Deus quiser um dia eu vou me alistar na Legião Estrangeira. – Você sabe o que é isto? Perguntei. - Claro, sei que quando se alista são cinco anos sem poder sair. Bem cada um com seus sonhos.  Eu o conheci em um curso Escoteiro. Foram oitos dias na mesma Patrulha. Chefe gafanhoto praticamente liderou a patrulha. Surpresa foi quando me disse que morava em Barra das Vertentes. Menos de cento e cinquenta quilômetros de onde eu morava. Tinha sido promovido a Chefe da Tropa há poucos meses. O CAB me deu um novo caminho a seguir.

               Chefe! Que tal acamparmos juntos? Minha tropa e a sua. – Grande ideia Chefe Gafanhoto. Quando? Vamos aproveitar janeiro do próximo ano. Falta menos de seis meses. Ficamos combinados. O local ainda iriamos decidir. Em fins de outubro recebi uma carta dele. – Chefe, o Senhor Molixto, pai de um Escoteiro tem uma fazenda próxima a Três Estrelas. Metade do caminho para mim e você. Acho que uns noventa quilômetros de sua cidade. Você passa Três Estrelas e marca mais cinco quilômetros. Vais ver uma bifurcação. Alí será o ponto de encontro. Até a fazenda são mais oito km. Fui ate lá e vi o local. Maravilhoso. Boa aguada e lenha à vontade. Bambus e local de banho perfeito. Ele irá nos ceder dois carros de bois para transporte do material do entroncamento até o local. Garantiu também que será por conta dele a carne de porco, de boi, gordura, arroz, feijão, batata e verduras e frutas. Ele tem isto na fazenda!

                  Beleza! Mandei outra carta confirmando o horário de encontro. A tropa vibrou quando contei do acampamento. Consegui na prefeitura um caminhão lonado, Chefe João Soldado conseguiu o que precisávamos de alimentos no Armazém do seu Amadeus. Iriamos com quatro patrulhas. Fizemos dois Conselhos de Tropa e duas Cortes de Honra. Metade do programa nosso e a outra do Chefe Gafanhoto. Seriam seis dias acampados. Partimos em uma manhã chuvosa. O caminhão estava lonado. Rio Bahia, estrada de terra ainda sem asfalto. Noventa quilômetros. Chegamos às nove e meia da manhã. Corre daqui, corre dali, tralha nas costas, chuvinha intermitente e pegamos a bifurcação. Vimos à tropa do chefe Gafanhoto do outro lado de um pontilhão de madeira. O córrego cheio. Imenso. Passava por cima da ponte. Não dava para atravessar. Um barulhão tremendo das corredeiras.

                  A Patrulha Raposa montou um posto de transmissão de semáforas. Entendemo-nos. Armamos barraca debaixo de chuva e combinamos esperar a enchente diminuir. As patrulhas improvisaram um toldo e um fogão tropeiro. Saiu uma sopa com pão fresco. À noite as patrulhas resolveram conversar por Morse. A turma do Chefe Gafanhoto era boa na sinalização. Dormimos cedo. De manhã sem chuva, mas cinzento o céu. A enchente diminuiu. Rogério Monitor me procurou. Chefe, as barracas estão cheias de escorpiões. Ensinei o que deveria ser feito para empacotar o material de campo e individual. Graças a Deus ninguém foi mordido. Resolvemos atravessar sem a ponte, pois se não iriamos perder alguns dias o que não estava no plano. Cada Patrulha fez uma pequena jangada. Uma festa. A outra tropa gritando e ajudando. Às onze da manhã estávamos do outro lado.

                   Abraços, saudações, apertos de mão, uma festa. Partimos. Os carros de boi lotados. Rangendo e cantando como sempre. Adorava isso. Chefe Gafanhoto brincando com todos, animando, todos rindo. Oito quilômetros tirados de letra. Uma hora da tarde chegamos. Seu Molixto gente boa. Comemos goiabas e bananas. Ele tinha uma carne de porco frita. Beliscamos mas iriamos fazer o almoço. Fomos para o campo. Lindo local. A cascata era linda. Tem nome? Perguntei. Não. Eu te batizo como Cascata da Fraternidade. E assim foi dito, e assim foi feito e assim lavrado em ata. Seis dias maravilhosos. Parecia que os sessenta jovens ali presentes se conheciam a longo tempo. Mais que irmãos. Seu Molixto um gentleman. Dois meninos filhos de um meeiro (mora nas terras da fazenda, planta e dá uma parte para o dono) se encantaram. Chefe Gafanhoto os colocou cada um em uma Patrulha.

                      Tiana filho do Seu Molixto uma bela morena dos seus dezessete anos não tirava os olhos de mim. Fiquei triste quando partimos e ela chorou. Lagrimas e lagrimas em seus olhos. No acampamento teve de tudo. Bois que invadiram o campo à noite acordando todo mundo. Ricardinho pegou uma traíra de quatro quilos. Só vendo para acreditar. A luta do bastão no remanso da Cascata da Fraternidade valeu por um acampamento. A jornada na Caverna do Vento outro. Começava em um lado da montanha e saia do outro lado. Mais de dois quilômetros na escuridão. E os pistoleiros? Sempre escorados no tronco da macaxeira a nos espiar. Seu Molixto dizia que eram de paz. Norbertinho em um jogo noturno caiu de uma arvore. Quebrou a perna. Foi levado a cidade e voltou para o acampamento enfaixado. Ele mesmo fez uma espécie de muleta e não chorou. Aproveitou tudo do acampamento.

                      A falsa baiana em cima do remanso a mais de quinze metros de altura deu o que falar. A ponte pênsil que a Patrulha do Morcego fez durou dois dias com um belo tombo do Japirim. O ninho de águia da Patrulha Coruja dizem está lá até hoje.  Risos. A “desandeira” que deu em todos por comerem muita goiaba deu para rir a beça. Sempre um correndo para o WC que logo encheu! Final de campo. Meninos da fazenda chorando. Seu Molixto emocionado fez o juramento e recebeu os dois lenços um de cada grupo. Os dois pistoleiros vieram nos cumprimentar. Tiana me procurou dizendo que me amava e nunca mais ia me esquecer. Nunca mais a vi.  Retorno triste, Chefe Gafanhoto tentando animar. Partida chorosa, nosso caminhão lotado. Dando adeus. Edinho com sua bandeirola de semáfora dizendo e repetindo um até logo até o caminhão virar a curva da estrada. Meninos se acenando dizendo adeus. Promessas de um novo reencontro. Amizades que se formaram e duraram por uma eternidade. Janeiro de mil novecentos e cinquenta e nove que entrou para a história.


                      Cinco anos depois recebi uma carta do Chefe Gafanhoto – Chefe Osvaldo, estou partindo para a França. Vou me alistar na Legião Estrangeira. Nunca mais o vi. Acho que seu sonho de ser um legionário foi realizado. Ainda deve escoteirando nas montanhas ao norte da Argélia. Sonhos são sonhos. Cada um faz o seu. Belo acampamento. Grande amigo o Chefe Gafanhoto. Nunca mais o vi e nunca mais o esqueci. Ficou marcado para sempre em meu coração.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Chefe Teobaldo, um Diretor Técnico Escoteiro.


Lendas Escoteiras.
Chefe Teobaldo, um Diretor Técnico Escoteiro.

                    Eles foram chegando e se assentando. Um a um. A sala da sede era pequena, mas ele sabia que eram tão poucos e que teria lugar parar todos. No semblante aquela empáfia de quem não estava gostando. Chefe Teobaldo sabia disto. Afinal eram anos de convivência. Já chegaram a ter maior número de adultos, mas hoje não passavam de seis. – Chefe, precisamos fazer uma reunião do Conselho de Chefes. – Para Que Chefe Teobaldo? Para que? Nunca precisamos disto! No passado ele fazia e depois desistiu. Ele tinha os quatro “chefes de ouro” como ele dizia. Não importava se chovia canivete e lá estavam eles. Claro, hoje pareciam sempre estar com pressa. A maioria deixava o uniforme na sede. O vestia lá. Outros traziam no carro. Chegavam em cima da hora e quando terminava a reunião diziam Sempre Alerta e sumiam!

                     Chefe Teobaldo já não era mais aquele homem que tinha prazer em ir para a sede nos dias de reunião. Ele sabia que de alguns anos para cá, nem tudo eram flores. O sucesso do passado estava desaparecendo. Com tristeza via os lobinhos diminuindo. Antes chegaram a ter duas alcateias. Uma masculina e uma feminina. Hoje era uma só. Menos de quinze lobos. Mas nem onze estavam presentes nos últimos meses. E na tropa Escoteira? Que desastre. De duas tropas uma masculina e uma feminina agora eram um só e mista. Quando iniciava as reuniões e formavam as sessões ali estavam três patrulhas com menos de três ou quatro gatos pingados em cada patrulha. Como fazer reunião assim? Seniores? Menos de seis. Se não fossem os namoricos acho que não teriam nem isto. E os chefes? Entravam três ou quatro por ano e em pouco tempo davam uma desculpa e iam embora. Por quê? Qual o motivo? Ele sabia que eram conhecidos.

                 O nome do grupo estava gravado em muitos estados brasileiros. Afinal eles tinham quatro jovens de famílias abastadas e que compareciam em todas as atividades nacionais e até internacionais. Distribuíam o lenço do grupo, distintivos, uma festa. Um pai de um deles inclusive dava uma boa soma mensal ao grupo. Mas era certo isto? E os demais escoteiros? Eles não podiam participar. Como pagar? Logo desistiam em pouco tempo saiam do Grupo.

                   Chefe Teobaldo sentou. Olhou para todos. Exceto dois novos chefes a maioria estava pedindo a Deus para terminar logo. O que houve com eles? Pensava. Porque esta debandada? Será que é culpa minha? Porque não havia mais procura como antigamente? Porque os adultos que vinham oferecer ajuda em pouco tempo se afastavam? Chefe Teobaldo sabia por quê. Não ligava, pois tinha os “chefes de ouro”. Mas estava certo? Eles nunca se encontravam. Até nas festividades de fim de ano era um sacrifício. Ele sabia. Precisavam mudar. Urgente! Deveriam voltar às reuniões de Patrulha. Os Conselhos de Tropa, Os Conselhos de Chefes. E a Corte de Honra? Onde foi parar? Meu Deus! Pensou. Estava tudo errado. Vamos fazer trinta e cinco anos e a cada ano mais e mais diminuímos.

                    Ele sabia que precisam de um “choque de gestão”. Não era assim que faziam as empresas que estava fracassando?  Ele hoje iria falar. Falar da amizade. Do amor. Da bondade. Iria falar que precisamos nos cumprimentar mais. Precisávamos entender o ponto de vista do outro. Precisávamos respeitar ideias, respeitar direitos e saber até onde ia nosso dever. Precisávamos sim de uma boa dose de democracia. E o mais importante. Fazer programas e saber cumpri-los. Ele já tinha tomado sua decisão. Reunião de Chefes uma vez por quinzena até acharem onde estava o erro e o consertar. Ele pessoalmente iria conversar com cada um dos que se foram e procurar entender o motivo dos seus afastamentos. A idade pesava e Chefe Teobaldo agora tinha maturidade e tinha encontrado mesmo que tardiamente a voz da razão. Iria exigir mais. Iria cobrar de cada um os programas. Não aqueles feitos as pressas, mas com o auxilio das patrulhas, dos assistentes. Iria exigir que eles se reunissem pelo menos uma vez por mês. Não iria deixar que isto fosse feito virtualmente. O grupo era uma família e devia se portar como tal. Deveriam entender o que era calor humano.

                     Chefe Teobaldo olhou nos olhos de cada um. Eram seis. Não seria assim mais. Ele queria vinte. Vinte? Sim, ele queria vinte chefes. Um Grupo onde todos se respeitassem. Ele queria uma Alcatéia completa. Uma tropa completa. No mínimo dezoito seniores e guias e jurou a si próprio que iria conseguir. Agora eles iriam fazer escotismo. Nada de namoricos. E quando recebesse convites para atividades nacionais ou regionais ou iriam todos ou não iria ninguém! Iria dizer aos diretores do distrito e região que só participariam de uma por ano. Eles que decidissem qual. Ele agora queria ver acantonamentos, acampamentos, excursões, atividades aventureiras. Iria exigir isto no programa. Que se dane os que não concordassem. Ele sabia que os “chefes de ouro” iriam ficar espantados. Achou até que alguns se demitiriam. Mas sua decisão estava tomada. Agora ele sabia que o Grupo Escoteiro se transformaria em uma grande família Escoteira, onde o respeito, a ordem, o aperto de mão sincero e principalmente a Lei e Promessa Escoteira seriam ponto de honra para todos.


                     Senhores! – Começou Chefe Teobaldo. Nossa reunião hoje terá duração de duas horas. Nem mais nem menos. Teremos a partir de agora duas reuniões por mês até entrarmos na curva da estrada que nos levará ao caminho para o sucesso. Espero contar com todos. Mas aqueles que acham que não irão mais participar, podem sair. Eu ficarei triste e de antemão agradeço pela linda e bela colaboração que deram até agora. Vou contar com aqueles que amam o grupo e querem fazer dele uma verdadeira “Família Escoteira”. E a reunião começou. Chefe Teobaldo era outro homem. Outro Chefe. Fiquei orgulhoso quando ouvi esta história. Hoje aqui vendo tantos desistindo acho que precisamos de mais Chefe Teobaldo na liderança de grupos escoteiros. Quem sabe assim iremos perder menos chefes e escoteiros? Quem sabe irão aparecer mais Chefe Teobaldo por ai?

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Rosana.


Rosana.

                 - Aceito a aposta. Espero que vocês cumpram a palavra empenhada e me paguem por cada mês que estiver lá! – Rosana era considerada uma jovem frívola, fútil, inconstante e mesmo tendo amigas no Colégio eram poucos que se aproximavam. Seu ar pedante afastava quem queria se aproximar. Não era rica, família classe média e seus pais gastavam o que não podiam para que ela chegasse pelo menos na faculdade. Tudo começou quando um Chefe Escoteiro autorizado pela Diretoria fez uma pequena palestra em sua sala de aula sobre o que é e o que pretende o escotismo. A maioria dos alunos acharam interessante, mas teve aqueles que acharam que era o maior blefe de todos os tempos.

                   Na hora do recreio Anita brincando fez o desafio. Aposto que você não fica um mês! Joelma e Toninha disseram o mesmo. – Quanto? Perguntou Rosana. 50 pratas por mês que você ficar lá. Se conseguirem cinco meninas para apostar eu topo. Estou sem dinheiro e meu pai disse que mesada só se melhorar minhas notas. Se eu perder o que irei pagar? – O mesmo Rosana, 50 pratas para cada uma. Mas lhe damos três meses para pagar. Aposta feita e lá foi Rosana e sua mãe no sábado para fazer a inscrição. No trigésimo segundo dia cobrou sua aposta. As colegas riram, mas pagaram os duzentos e cinquenta que deviam. – Cochicharam dizendo que ela não ia aguentar mais um mês.

                   Quatro meses depois pediram “arrego”. – Você está ficando rica com nosso dinheirinho. È melhor parar por aqui! Rosana riu. Sabem aonde vai o dinheiro? Para o Caixa da Patrulha Gavião. – Você não vai sair mais? – Nunca mais disse Rosana. – Mas o que te prende tanto assim nesta turma sem graça com um uniforme militar e fica em fila feito soldadinha de chumbo? Rosana olhou uma por uma. Querem mesmo saber? Quando entrei nem pensei que seria assim. Pensava que ia lucrar um ou dois meses e ganhar o dinheiro da aposta. Nunca pensei que estava enganada e que Baden-Powell iria mudar minha vida.

                   Baden-Powell? Ele mesmo, um general inglês que fez um movimento que hoje passa de trinta milhões. Que mais de setecentos milhões já passaram nas sendas Escoteiras. As colegas caladas. – Rosana continuou: - Sou reconhecida como alguém que aprendeu a ser fraterna. Respeitam-me na patrulha. Ninguem é uma só e somos todos unidos por uma lei e uma promessa que fiz e quase chorei. Brincamos com lealdade, respeitamos nossas individualidades, mas sempre tem alguém para nos ajudar a vencer as adversidades. As colegas espantadas ouviam tudo que Rosana dizia.

                    Lá tudo é belo, belo as idéias, belo a filosofia, belo minha patrulha, belo o meu novo crescimento individual. Belos os meus chefes que me tratam com
carinho não gritam e me respeitam. Vocês nem imaginam como são nossos acampamentos. Lindos demais. O ar do campo sempre agradável, a brisa da madrugada que aqui na cidade nunca tinha ouvido falar. Nem imaginam as tardes a passarada cantando procurando seus ninhos os seus hotéis cinco estrelas. Pensem em um céu estrelado tão lindo que a gente quer tocar, quer contar quantas são e chora de alegria só em ver.

                   - E dormir em uma barraca ouvindo através da lona, os pingos da chuva caindo? E na penumbra da noite com uma coruja tomando conta de você? O anoitecer é tão belo que eu fico embriagada do perfume que se espalham no ar. Beija flor se despedindo, a última abelha levando seu néctar para alimentar suas irmãs de colmeia. E os pirilampos? Os grilos falantes? Belo demais ouvir o cantar de uma cigarra. Tudo isto faz da boca da noite uma espetacular orquestra com o maestro invisível lá em cima no céu sorrindo e fazendo vibrar os ruídos da noite em nossos ouvidos humanos. A madrugada então é mais bela. O nascer do sol, a lua se escondendo os pássaros voando no ar para mais um dia de vida na selva que é o seu lar.


                    - Rosana se calou. Seus olhos humedecidos mostravam o seu novo amor conquistado. Ela agora tinha outra vida. Outra filosofia. Outro céu, uma barraca que não precisava armar nas noites enluaradas. As suas amigas olhando pensavam onde ela poderia ter tirado tanta beleza na vida aventureira, no seu contato com a natureza. Rosana sabia que agora seria escoteira para sempre. Gostava de ficar só nas tardes dos acampamentos pensando e olhando longe uma árvore copada que parecia estar de braços abertos para ela: Sou escoteira, vou continuar sendo e levarei o espírito de B-P para sempre em minha vida. Ah! Escotismo que conquista quem tem uma força sem igual. Rosana não convidou ninguém, ela sempre pensou que cada um tem sua hora, a dela aconteceu. Afinal se ela amou e ama o escotismo ela sabe que nem todos podem pensar como ela, mas um dia, qualquer dia irão descobrir e irão amar para sempre!

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....