terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A Árvore dos esquecidos.


Lendas Escoteiras.
A Árvore dos esquecidos.

                          Ela sempre esteve ali, na curva do Gavião Vermelho bem próximo as corredeiras do riacho Alegre onde íamos acampar. Era uma linda árvore, pena que não a identifiquei. Eu me esquecia dela sempre, pois muitas vezes só valorizamos os que estão ao nosso lado e esquecemo-nos dos outros que um dia fizeram tudo por nós. De vez em quando ela me vinha à mente. Não me pergunte seu nome. Não sei. Sabia que era frondosa, pois em sua volta sempre havia uma enorme sombra e nós escoteiros nos deliciávamos com o frescor que ele produzia para aqueles que se deliciavam como nós. Da cidade até a Porteira do Rancho Estrela Verde era mais de seis quilômetros. Interessante, nunca fiquei sabendo o nome do dono do rancho.

                         A porteira era sempre esperada na jornada ou nas caminhadas. Grande, enorme, parecia nova e o vai e vem sensacional. Passávamos para o outro lado com a carrocinha e lá a deixávamos. Todos voltavam e se encarapitavam na porteira. Um de nós a levava até o barranco e soltava. Ela saia a toda velocidade passava pelos dois troncos centrais, ia ao outro lado, voltava e ficava assim quatro ou cinco vezes em um delicioso movimento de vai e vem. Nunca apareceu ninguém para nos chamar a atenção. Quando o sol ia a pino era hora de partir. Na volta sairíamos mais cedo para nos divertir na Porteira do Racho Estrela Verde. A partida era sempre triste, todos olhavam para ela com saudades.

                       Era hora da subida. Deus do céu! Era o pior da jornada. Quando da primeira curva no alto da serra já avistávamos a Arvore dos Esquecidos. Porque este nome? Quem batizou? Ninguém sabia. Meia hora depois lá estávamos. Ainda bem. O suor escorrendo no pescoço e na testa. Agora era hora de tirar uma soneca e aproveitar a brisa gostosa que a Árvore dos Esquecidos fazia questão de nos presentear. Era a única naquela subida. Claro havia alguns arbustos, mas ela era sensacional. Meia hora de cochilo. Acordamos com o barulho dos trovões. Olhamos para o céu e vimos nuvens negras bem no rumo do nosso destino. Pé na taboa e Deus que nos ajude. Nem despedimos da Árvore dos Esquecidos. Deveríamos, mas que ia adivinhar?

                       Não foi difícil montar o acampamento debaixo do temporal. Estávamos acostumados. O local era ótimo. Centenas de coqueiros anões. As folhas serviam como toldo e até a noite duas barracas montadas, mesa, toldo, bancos e quase terminado o fogão suspenso. Alguns já rachavam lenha, pois sabíamos que no meio estavam secas. A sopa esquentou o estomago e o corpo daquela escoteirada. Melhor não fazer fogueira. Tínhamos pouca lenha rachada e seca. Fomos dormir naquele primeiro dia mais cedo. Foram três dias acampados, sempre com uma chuvinha miúda. O programa teve que ser alterado. No domingo levantamos acampamento às duas da tarde. Sem dificuldade. Três e meia à bandeira descia do mastro. Uma oração e lá fomos nós estrada acima.

                      A subida na volta não era tão íngreme. Ao dar a volta no alto da serra não vimos ao longe a Arvore dos Esquecidos. Árvore? Não existia nenhuma árvore. O que houve? Ficamos preocupados. Mais meia hora e chegamos. Uma cena dantesca. A Árvore jazia a seis metros de onde deveria estar. Caída, parecendo morta! Um raio a cortou no tronco bem rente ao chão. Ela ainda estava verde, as folhas balançavam, mas estava agonizante. Não havia retorno. Não podíamos fazer nada. Ficamos em volta dela. Muitos choravam. E agora? Como tirar aquela soneca gostosa da subida até a curva do Gavião Vermelho? Ficamos ali por muito tempo. Em silêncio. Prestando a nossa homenagem a uma Arvore que agora sabíamos que era dos esquecidos. Todos nós um dia iríamos nos esquecer de sua beleza, de sua sombra do seu orvalho.

                      A tarde chegou, hora de partir. O ultimo adeus. O sol inclemente dos dias que virão iria fazer com que ela possa dar seu último suspiro. As folhas vão secar os troncos também. Agora nós sabíamos que algum mateiro a passar por ali, iria se servir de troncos e galhos para fogo. Triste destino de uma árvore que nos deu tudo. Partimos em silêncio sem olhar para trás. Era triste demais ver aquela que um dia foi amiga fiel do sol inclemente. Na Porteira do Rancho da Estrela Verde não nos divertimos como fazíamos sempre. Passamos direto. Não havia ânimo. Estávamos cabisbaixos, tristes, perdemos uma amiga que nem sequer nos lembrávamos sempre. Mas ela eu sei que ficou marcada para sempre no coração de todos.


                  Nunca mais voltamos lá. Nunca mais acampamos no Rancho da Estrela Verde. Nunca mais vimos à porteira da felicidade. Seria difícil muito difícil suportar a subida até a curva do Gavião Vermelho onde sempre avistamos com alegria e agora não existia mais. Ficou na lembrança para sempre. A Árvore dos Esquecidos!

Velhos fantasmas me visitaram hoje, 
e tinha muito mais do que lembrava, 
estavam ocultos e esquecidos, 
como fantasmas passavam por mim 
e eu nem os percebia... 
apenas os sentia, 
mas nem sequer os compreendia...
Dos meus sonhos tão vividos,
Da árvore, dá arvore dos esquecidos...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Pequena lenda escoteira. Será? Uma pequena longa historia.


Pequena lenda escoteira. Será?
Uma pequena longa historia.

                   - Porque esta pose chefe? Ele me deu uma olhada daquelas de matar qualquer um. Se soltasse fogo nas narinas eu morreria queimado. – Quem é o senhor? – Eu? Ninguém, apenas um velho Escoteiro aposentado que não tem o que fazer. Estou aqui admirando seu estilo ao comandar estes meninos. – O que o senhor entende disto? - Ele perguntou. Cocei a cabeça. Era sempre assim. Sempre aquele estilo de dizer: - Eu sou eu e você? Não tinha mesmo nada com isto. Cada pai cada mãe sabe onde coloca sua cumbuca. Ops. O filho é claro e ele não é uma cumbuca. Insistente perguntei novamente: - O senhor é Chefe, líder, comandante gerente ou o maioral da meninada? – Seus olhos saiam chispas. Fomos interrompidos porque um dos meninos caiu ao chão. Afinal estavam ali ouvindo o brutamontes há tempos. O sol inclemente não perdoava ninguém.

                    - Vá procurar quem te quer e me deixe em paz! Ele remendou antes de ir socorrer o menino que caiu ao chão. – Fui atrás. Sou insistente já disse. Gosto de dizer o que sinto sem subterfúgios. – É insolação eu disse. Compressas frias na testa e ele volta ao normal. O chefão se levantou, pois olhava o menino e quase me agrediu. Se ele me desse um soco eu cairia feito manga madura no chão. Ploff! – O menino melhorou. Tinha um semblante de que nunca mais voltaria. Mesmo eu aconselhando que fizesse sua palestra na sombra o Comandante continuou sua palestra indefectível para os meninos debaixo do sol inclemente. Ele parecia o Fidel que discursava por horas e horas. – Ele me pegou pelo colarinho. Dois arrancos e me deixou em paz. – Suma daqui Velho Escoteiro! Ele disse. – Humm! Não vou não. O local é público e se não quiser me ouvir nem ver saia o senhor!

                     Ele usou a pose numero não sei quanto, deu três apitos longos. Eles correram prá lá e prá cá e formaram em linha. – Gostei Chefe! Eu disse. Notei que o senhor apita muito bem! Tem estilo, isto é bom. – O que o senhor entende disto? Eu? Com a cara mais inocente do mundo disse que era um pata tenra escoteiro. Gostava mais de usar o Chifre do Kudu na minha época para formar. Ele franziu a testa. – E o que é um pata tenra paspalho? “Bão”, agora a coisa complicou! – Pata tenra é aquele que não sabe nada chefão, um aprendiz, agora paspalho me desculpe, mas não sou! – Ele viu que eu estava glosando com sua cara. – O senhor é Escoteiro ou já foi? – Bem foi em outra época. A gente menino tinha vez. Nosso Chefe ouvia mais que falava. – De novo ele ficou vermelho. – Olhe moço, sou Chefe a mais de nove anos, tenho a Insígnia da Madeira e fui convidado para ser DCB! – Nossa! Chefe o senhor é importante demais! Mas olhe, caiu outro menino. O sol não perdoa...   


                    Fui saindo de mansinho, olhei para trás e vi meninos escoteiros desanimados, monitores escorando no bastão para não cair. Fiquei pensando quando aquilo ia acabar.  Virei à esquina e o sol inclemente me mostrou que o mar não estava para peixe. Melhor voltar para minha casa. E os meninos escoteiros? 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Raphael.



Raphael.

                 Raphael era um Chefe Escoteiro que tinha o hábito de explodir em acessos de fúria e culpar os outros chefes ou os escoteiros quando as coisas davam errado. Decidiu um dia afastar-se da causa de seus problemas e foi acampar em uma floresta densa onde não tinha contato com outros seres humanos. Pensava que lá poderia ver melhor sua vida e porque era assim.

                 Partiu em uma segunda feira. Seu plano era ficar lá uma semana e para isto pediu licença na fábrica onde trabalhava. Precisava colocar sua vida a limpo e para isto foi sozinho para um local bem distante e difícil acesso. Sem ninguém para culpar, montou um campo só para ele, e passou a viver pensando o porquê era assim tão possesso. Certa manhã, após ter instalado tudo que precisava no seu campo que seria sua nova morada por uma semana, esbarrou acidentalmente na Moringa de Lona que continha água e lhe derramou o conteúdo.

                 Ficou enfurecido, mas não havia nenhum Chefe ou Escoteiro por perto a quem culpar. Encheu novamente a Moringa. Pouco tempo depois, o mesmo fato se repetiu. Num ímpeto de ira, arremessou a Moringa ao chão, cuja lona se rompeu e á agua esparramou na grama. Quando a noite chegou repassou o acontecido. Sentando em frente a sua barraca acendeu um pequeno fogo e chegou à conclusão de que seu mau humor era problema dele mesmo e não dos outros. Inteligente Raphael, mas ele precisava disto.

                 Uma semana depois retornou do acampamento, No primeiro sábado seguinte quando das reuniões de sessões todos notaram sua mudança. Raphael era outro Chefe e sabia que agora tinha muito por fazer, um grande número de portas para abrir, aventuras com seus jovens para se divertir e aprender com eles a ser feliz! Assim Raphael se tornou mais amigo, mais compreensivo e aprendeu que respeitar o próximo é aprendizado que começa no berço e com os anos se aprimora.




               

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

50 anos depois...



Lendas Escoteiras.
50 anos depois...

                    Parei o carro em frente à pensão Estrela. Fora uma nova pintura nada mudou. A Praça Dom Giovani era a mesma. Somente às árvores cresceram. Novos canteiros de Tulipas, Rosas brancas que Jânio o Velho jardineiro tão bem cuidava. A Poeira fina que o vento trazia do Morro dos Vaqueiros era a mesma. Uma velha mina ouro abandonada. A Rua do Outono e a Ambares que tantas lembranças eu tinha eram como se fosse um retrato do passado. Moradores nas janelas vendo quem chega e quem vai. A saudade não vê mudanças e tudo permanece como queremos lembrar. Porque voltei? Não tinha jurado nunca mais voltar? Era como poema quem alguém escreveu: - Querido passado, obrigado por tudo que me ensinou... Querido futuro, pode vir! Seria isto mesmo? Afinal 50 anos se passaram e sonhei em abrir um consultório e morrer em paz.

               As paredes da prefeitura descascadas. Saudades do Benevides um prefeito amigo dos escoteiros sempre pronto a ajudar. Resolvi sentar no Banco da Praça para recordar. Valeria a pena? Um perfume de jasmim brotava no ar. Duas senhoras passaram me olhando espantadas. Eu sabia como era. Cidade pequena com os mesmo costumes que nunca mudam. A Macaxeira cresceu. Sua sombra era um convite para dormitar. Senti uma pontada no peito. Eu nunca perdi as esperanças. A gente nunca sabe o que o amanhã vai nos trazer. Fechei os olhos e deixei a memória viajar no tempo. Era como se menino Escoteiro ainda estivesse ali vendo-a correr entre as flores do jardim, colhendo rosas, tulipas vermelhas... Além dela meu pensamento me fez recordar de Zezito. Meu amigo, meu Submonitor da Patrulha Morcego. Sorria ao lembrar as aventuras na Serra do Lagarto, nas Montanhas do Falcão, nas várzeas do Quati. Lágrimas caíram. Lembrar não me fazia bem.

                  E os meus sonhos impossíveis com Ana Luzia? Ah! Casar morar em uma casinha branca de janelas azuis, muitas flores e quem sabe um Jequitibá para sombra e descansar? Levantar cedo, ir para o meu consultório e ajudar os doentes mais humildes que não podiam pagar. Voltar ver a chaminé com sua fumaça cinzenta, sinal que ela fazia o jantar. Ela sorridente chegaria à varanda, com seu vestido de chita azul, me daria um beijo apaixonado e um sorriso entre palavras: - Meu amor, o jantar está pronto! Sonhos de menino Escoteiro, sonhos que nunca se realizaram. Passei a sonhar com ela noite e dia. Nos meus novos sonhos acabaram-se os acampamentos, as aventuras e jornadas a procurar novos rumos para explorar. Até mesmo Zezito meu amigo do peito sumiu nas sombras de minha mente. Eu só tinha pensamentos para Ana Luzia. Sempre acreditei que um dia ela seria minha princesa e seriamos felizes para sempre como nos contos de fadas.

                     Um dia ela se foi. Fiquei arrasado. Zezito contou que ela fugiu com Capistrano. Logo ele? Um mau caráter, marginal nunca foi Escoteiro nunca foi amigo de ninguém. Porque Zezito ela fugiu com ele? Será que ela não sabia do meu amor? Da minha paixão, dos meus sonhos construídos do nada para fazer dela a mulher mais feliz do mundo? Ah! Que saudades do seu beijo e do seu abraço que nunca tive saudades do seu sorriso do seu cheiro, meu Deus quantas saudades dela. Esqueci minha patrulha, meu cordão dourado os sonhos da Lis de Ouro. Isto agora não tinha mais importância. Meu mundo ruiu, acabou. Minha mãe nem ligava e nem queria saber o que eu sentia. Meus Deus! Que burrice que eu fiz. Peguei minha mochila, meu cantil, minha capa negra e parti sem rumo. Só por causa dela? Um benfeitor invisível me dizia: - Escoteiro você ainda tem uma vida pela frente um futuro incrível, sua estrada nunca terá fim!

                        Parti sem dizer adeus a ninguém. Nem mesmo a Zezito. A estrada foi minha morada por muitos meses. Um ano depois parei. Sentei na beira do caminho e chorei. Por ela? Por minha mãe? Por Zezito ou meus amigos escoteiros? Eu chorava por todos. Perdi os sentidos e cai na beira do caminho. Um Velho passou a cavalo e me socorreu. Acordei em um catre em sua cabana. Havia me alimentado. Ele sorrindo me perguntou quem eu era. Engasgado com o choro na alma não sabia responder. – Você pode ficar aqui enquanto quiser. Aqui sempre terá um lar. Eu estava magro, osso puro e quase não comia, mas aos poucos as recordações foram ficando para trás. Morei com ele quase três anos. Recuperei minhas forças, resolvi partir. Um dia antes ouvi um tossido forte, corri até ele. Levou a mão no meu peito e falou baixinho: - Sempre há outra chance, uma outra amizade, um outro amor. Para todo fim, um recomeço. Em seguida morreu em meus braços. O enterrei no sopé da montanha ao lado de Marta sua esposa que morrera anos atrás.

                    Parti rumo ao Rio de Janeiro. Trabalhei duro como ajudante de pedreiro, ajudei a construir arranha-céus, pontes avenidas. Não deixei de estudar. Com trinta anos me formei em medicina. Vez ou outra avistava escoteiros em ônibus, estradas, shoppings e me batia uma saudade enorme. Pensei em me apresentar, mas tinha vergonha do que fiz ao deixar minha patrulha ao léu. Um dia conheci Maria Bonita, casei, dois anos depois fugiu com um bancário e nunca mais voltou. Clinicava dia e noite. Muitas vezes sem cobrar. Fiz milhares de amigos. Os anos foram passando e resolvi voltar. A saudade de Ana Luzia era demais. Quem inventou a distância nunca sofreu a dor de uma saudade. Teria este direito? Ainda teria amigos? Amigos da clinica choraram quando parti. Eu sabia que não haveria volta. Um vulto sentou ao meu lado no banco da praça. Barbas brancas enormes. Cabelos grisalhos. Um boné amarelo um sorriso que me lembrou alguém. Olá Juvenal ele disse. Olhei para ele. Meus olhos piscaram, era Zezito meu Sub Monitor.

              Incrível este reencontro! Choramos abraçados. Contei para ele minha vida, ele contou a sua. – Vai para minha casa até achar um lugar para morar. - E o escotismo? Perguntei. – Até hoje mora no meu coração. Mas desde que você partiu, ele não foi o mesmo. – Me convida a visitar? Perguntei. Ele sorriu. Bem vindo Doutor. Primeiro matar as saudades. Tenho a chave da sede. Vai ver que nada mudou. Queria perguntar, mas não sabia como. Não sei se ele iria entender. – Ele me olhou. Abaixou a cabeça e disse – Sei o que está pensando. Sim Ana Luzia voltou cinco anos depois que você partiu. Nunca perguntou por você. Nunca perguntou por ninguém. Ela hoje vive na Casa de Repouso Dom Martinho. Lugar simples, doente dos pulmões não se lembra de ninguém. Pedi a ele que me levasse lá. Ele sorriu novamente. O passado não perdoa. Olhei para ele e nada disse. Bons amigos não fazem perguntas.


               Um novo momento um novo recomeço iria dar forma em minha vida. Não foi por isto que voltei? Não sei se o futuro seria melhor e nem pensava nisto. Meu pensamento era só ela. Um grande amor ressurgiu das sombras para o meu presente que sempre sonhei. O sol estava se pondo no Morro dos Vaqueiros. O mesmo sol de antigamente. Quem sabe um novo sol em minha vida? O futuro? Só Deus para dizer. A distância pode impedir um beijo, um toque, um abraço. Mas não pode impedir um sentimento. Eu queria ser feliz e tinha este direito!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

“Emmanuel”.


“Emmanuel”.

                 Timóteo foi o primeiro. Sempre fora assim desde que ele entrou para os escoteiros. Era uma alegria vê-lo chegar. Ficar só na sede, mesmo acostumado ele sentia falta. Ele se juntava a todas as patrulhas. Não tinha nenhuma especial. Sabia o nome de cada um: Mozart, Luiz, Totonho, Antonio, Pedro, Zacarias... Sabia do acampamento no próximo mês. Sonhava. Afinal ficaria dias e noites junto a eles era uma alegria infinita. Lembrava pouco do seu passado. Nos últimos trinta anos fez tudo para esquecer. Um pai cruel, uma mãe que não ligava para ele, uma morte em uma curva onde todos eles partiram para o outro lado da vida. Sombras tenebrosas levaram seu pai e sua mãe e ele ficou. Perambulou pelas ruas, ficou na sua casa, mas a briga dos tios pelo espólio o enojava. Descobriu os Escoteiros. Ali fez sua morada.

                Conheceu centenas deles. Afinal trinta anos produziu muitos homens feitos. Assustou quando Braguinha disse que o via, mas não escutava. Sorriu para ele e se tornaram amigos até que um dia ele partiu. Quantos chefes? Dezenas. Nunca esqueceu o Chefe André Luiz. Dizia belas palavras: - O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte. Nunca esqueceu quando a noite no Pico das Agulhas Negras disse; - Assim como a semente traça a forma e o destino da árvore, os teus próprios desejos é que te configuram a vida.

                Aos poucos foi vestindo peça por peça do uniforme. Lembrou-se de um anjo que lhe disse: Você é somente espírito e estes não tem corpo. Muitas vezes tentaram levá-lo, mas ele insistia em ficar. Gostava dali, seu pai nunca o deixou ser um. – Filho isto é coisa de “boiola”, você é meu filho macho, e tem de demonstrar desde cedo que sabe mandar e matar se preciso. Naquele dia chorou. Lembrou mais uma vez do Chefe André Luiz: - A grandeza do amor repousa invariavelmente na conjugação do verbo servir.

                 Viu um clarão azul como se fosse uma lua cheia diferente. – Filho, chegou a hora de partir! – Era um Velho de roupas brancas e alvas, envolto em luzes brilhantes. – Porque Senhor? – Esqueceram-se de você. Seu pai e sua mãe ainda estão acertando suas dívidas com Deus. – Braguinha foi quem nos alertou. – Braguinha? Onde ele está? – venha comigo, e vais encontrá-lo bem no centro do universo. Ele pensou e pensou. Senhor! – Posso pelo menos ir ao meu último acampamento? – O Velho sorriu. Ele sabia que as verdadeiras afeições são eternas. Não começam e não terminam em uma existência. "À proporção que se liberta, a alma encontra-se numa situação comparável àquele que desperta de profundo sono. Bem diverso é, contudo, esse despertar".


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Serenata ao luar.


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Serenata ao luar.

             Enfim de volta ao campo! Saudade danada de dormir sob o céu estrelado e um bom bocado de um luar apaixonado. Quantas vezes fiz isto? Perdi a conta. Era bom demais. Sozinho eu Deus e a natureza em flor. Bom demais ficar quieto, mudo, silencioso, ouvindo a floresta, os bichos, pássaros e afins em todo seu esplendor. Meu bastão ia à frente explorando a trilha, batendo o mato verde, mas com cuidado para não machucar uma plantinha que iria desabrochar. Eita mata linda! Copada, verde que te quero verde... O poeta canta em voz doce e suave que tudo na natureza depende da forma como se vê... Ela é linda demais e a vida é bela para ser olhada e aproveitada. Cheguei onde queria chegar. Um pequeno oásis em plena floresta, pássaros cantantes, brisa gostosa, sombras fincadas embaixo das asas de uma árvore adormecida. Parei e cantarolei meus versos de amor. Mostrei meu apreço por um lugar tão lindo que vale a pena ali morrer... Insigne natureza em flor, que se esgueira longe do asfalto, como és bela, delicada e forte...

            Arvorei uma lona lonada para as chuvas de verão quando elas chegassem. Um galho verde alceado para segurar minha caldeirinha, onde iria surgir o feijão, uma sopinha, ou quem sabe um quentado de peixes do remanso do pequeno riacho que corria para o mar. Águas límpidas cristalinas para matar a sede de um ser vivente Escoteiro que ama acampar em plena natureza. Os sons eram lindos, galhos fazendo toada, passarada procurando seu ninho, onde os filhotinhos brotavam a olhar o Escoteiro passante que resolveu ali acampar. Água fervendo, pó brincando nas asas da fervura, açúcar cande adoçando a cantilena de boas doses de um café puro em plena mata. Tudo era paz tudo era harmonia. Eu voltava no tempo dos meus sonhos reais de um passado que não quero esquecer jamais. À tarde vai chegando de mansinho, escondendo entre as folhas os raios de sol que se recusavam partir.

            Esperava o anoitecer. Era o mais belo no seio da mata escura, esperando o clarão das estrelas, brilhantes piscantes deixando passar vez ou outra um cometa intrometido, na sua viagem sem destino, mas que alegravam as moçoilas que na terra olhavam para o céu pedindo um amor de um príncipe, que fosse apaixonado, educado, cavalheiro e que desse a ela toda sua paixão. Um pardal voou ao meu redor. Picotou à moda do Pica Pau um galho onde ia dormir. Esperava a rainha da noite chegar. A coruja de olhos verdes cedo ou tarde iria sorrir para mim. Com aqueles olhos grandes, quem sabe esverdeados, na cumeeira de um Jatobá centenário arrepiando seu canto apaixonado. Tão longa a distancia tão longe a saudade e tão bela espera, lá estava ela, a rainha da noite dos meus sonhos de verão. Cantei uma canção para ela, e ela agradeceu com duas balançadas de cabeça aprumada como se fosse sorrir. Onze horas a noite já avançava para a madrugada.

           O foguito pequeno quentito batatas cozidas, bananas na fieira, que mais eu iria querer? Hordas de vagalumes chegavam sem pedir mostrando seu brilho soltavam chispas para mostrar quem manda no lugar. Quanta felicidade! Quantas saudades de tantas noites que acampei. Quantas vezes meu anjo protetor sorria me dizendo que ali era Nosso Lar. Ah! Natureza em flor. Se você não é minha nem eu sou seu, porque brilha tanto no teto do céu? Disseram-me certa vez que vivendo de acordo com as leis da natureza, nunca serei pobre, mas não serei nada se viver pensando nas opiniões alheias, pois elas nunca me faram rico. Fechei os olhos e deixei a brisa da noite me levar... Quantos montes, quantos horizontes viajei com a brisa e a natureza que abrilhantava o lugar?


          Ah! Quanta felicidade! Bem perto uma sonata de Uirapurus como se fosse uma orquestra mágica, tocava melodias com violinos mágicos no seio da mata escura. A música é celeste, e a natureza divina realça tal beleza que encanta a alma e nos eleva acima do que somos, pois eu sabia que a natureza não faz nada em vão. Dormi acordado esperando o amanhecer. Queria ver o sol brilhante entre as folhas das belas arvores do lugar. Não deu, tudo que eu não queria aconteceu. – Marido! Hora de acordar, o café está pronto e tem bolo de chocolate com pasteizinhos de queijo. Levantei sorrindo, mas com saudades dos meus sonhos e da minha natureza em flor! Ah! Como é bom sonhar...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A parábola da rosa.



A parábola da rosa.

                     O Chefe Conrado naquela noite em frente sua barraca nos recebeu com um delicioso cafezinho. Deixou-nos a vontade, pois à noite estava linda e o céu estrelado. Sorrindo falou em voz baixa: - Vocês sabiam que as pessoas desabrocham assim como as rosas? Ficamos olhando para ele espantados. – Saibam que precisamos aprender a ver a essência das pessoas, a beleza interior e não a beleza externa de cada um. Vou contar para vocês uma parábola que um dia ouvi de um mestre Escoteiro, quando sem querer em um vale florido ele começou a narrar uma historia que nunca tínhamos ouvido.

                    - Meus queridos escoteiros, um certo homem plantou uma rosa e passou a regá-la constantemente e, antes que ela desabrochasse, ele a examinou: - Ele viu o botão que em breve desabrocharia, mas notou espinho sobre o talo e pensou: - Como pode uma bela flor vir de uma planta rodeada de espinhos tão afiados? – Entristecido por este pensamento, ele se recusou a regar a rosa, e, antes que estivesse pronta para desabrochar, ela morreu. – Assim é com muitas pessoas. Dentro de cada alma há uma rosa. As qualidades dadas por Deus e plantadas em nós crescendo em meio aos espinhos de nossas faltas. Muitos de nós olhamos para nós mesmos e vemos apenas os espinhos, os defeitos. Nós nos desesperamos, achando que nada de bom pode vir de nosso interior. Nós nos recusamos a regar o bem dentro de nós, e, consequentemente, isso morre. Nós nunca percebemos o nosso potencial. Algumas pessoas não veem a rosa dentro delas mesma; Alguém mais deve mostrá-la a elas.

                   Olhando na face de cada um de nós ele terminou: - Um dos maiores dons que uma pessoa pode possuir ou compartilhar é ser capaz de passar pelos espinhos e encontrar a rosa dentro de outras pessoas. Esta é a característica do amor — olhar uma pessoa e conhecer suas verdadeiras faltas. Aceitar aquela pessoa em sua vida, enquanto reconhece a beleza em sua alma e ajuda-a a perceber que ela pode superar suas aparentes imperfeições. Se nós mostrarmos a essas pessoas a rosa, Elas superarão seus próprios espinhos. “Só assim elas poderão desabrochar muitas e muitas vezes.”.


                  O Chefe Conrado piscou o olho e como um bom poeta que era finalizou: - Eu queria ser uma rosa branca, mas do que me adianta ser branca se ao ser branca deixa de ser rosa, por tanto permaneço em mim transparente e habitante do planeta amor, firme na idéia caule só pra ver aonde broto flor.

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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