terça-feira, 16 de abril de 2019

Lendas Escoteiras. A montanha dos amores perdidos.




Lendas Escoteiras.
A montanha dos amores perdidos.

(Ele há viu um dia com os lobos e se apaixonou. Nunca fora Escoteiro e dizia que nunca seria. Sabia que ela era a mulher dos seus sonhos e fez tudo para ela ser sua para sempre. Uma história de amor, uma paixão avassaladora que quase acabou com sua vida. A sorte foi o escotismo que de uma maneira ou de outra pode ajudar...).

                  Ele sentia uma dor profunda no coração. Doía demais. Estava enlouquecendo e ninguém podia ajudar. Sabia que se continuasse assim perderia tudo, seu emprego, sua família e seus amigos. Quem ousava aproximar ele gritava, dizia coisas absurdas, renegava a Deus, renegava ao diabo nada para ele servia. Pensou em morrer e até hoje não soube por que não acabou com sua vida. - Meu Deus! O que fizeste comigo? Eu merecia? Nunca fiz mal a ninguém, ajudei a quem precisava fiz tudo para dar apoio a ela no seu amor que ela sentia dentro de si. E você a levou? Com que direito? Nunca tive um amor como foi com ela, a transformei em minha princesa. A amei desde o primeiro dia em que a vi. Deixei amigos, deixei tudo para ficar sempre ao lado dela e você sem mais nem menos tira de mim a única coisa por que valia viver? Ele não se conformava, era uma faca cravada em seu coração que não saia. Sangrava, machucava, agora não chorava mais. Não adiantava. Para que chorar?

                   Ele a conheceu quando em domingo de sol a viu passando com uma turma de guris. Todos sorrindo e cantando. Quando ela olhou para ele com aqueles olhos de mares do sul de um azul profundo, ele viu que era a mulher dos seus sonhos. Seria ela sim que ele daria tudo para fazê-la feliz por toda a vida. Ficou ali estático até vê-la sumir na curva da Praça Real. Não se deu por vencido. Seguiu-a. Encontrou-a brincando com seus meninos de azul da cor de seus olhos. O que ela tinha que as  outras não tinham? Ele não sabia. Sabia sim que o amor explodiu dentro de si e que uma paixão avassaladora tomou conta de todo seu ser. Pensou em entrar naquele pátio e se declarar, mas sabia que  faria papel de bobo. Viu que eram Escoteiros. Ele nunca foi e nunca teve vontade de ser. Esperou pacientemente tudo terminar e ela sair. Não ia perder aquela oportunidade. Quando ela abriu a porta do carro ele chegou e se apresentou. Ela nada disse, sorriu e disse baixinho: - Sou a Clarisse Escoteira.

                  Entrou no carro e partiu. Ele estava a pé, não deu para ter seu telefone e nem saber aonde ia ou onde morava. Esperou com angustia enorme toda a semana passar e a tarde correu até a porta da sede onde se reuniam os Escoteiros. Lá estava ela, com os meninos de azuis a brincar, a cantar e eles a adoravam. Chamavam-na de Akelá. Desta vez ele sabia que não ia deixar a oportunidade passar. Entrou, foi até o circulo e olhando para ela que espantada não entendia o que ele queria, o ouviu dizer: - Clarisse,  eu estou apaixonado por você! Nunca a vi e quando a encontrei nunca mais quero perder você! Quer ser minha namorada? – Os lobos caíram na gargalhada. Uma palma esquisita ele ouviu. Ela sorria e que sorriso. – Moço, podemos conversar mais tarde? – Não moça eu quero sua resposta. Por ela sei se vou viver ou morrer. Clarisse espantada não sabia o que dizer. – Podemos tomar um café juntos quando a reunião terminar? Ela disse.

                 Foi assim que surgiu o maior amor do mundo. Ele a cortejava como um cavalheiro a moda antiga e ela passou a gostar dele também. Sentiu que ele seria sua voz, sua maneira de ser, sua estrela que ela tanto esperou. Casaram-se oito meses depois. Ele não era rico, mas trabalhou com afinco para fazer seu novo lar. Ela enfermeira em um grande hospital da cidade não tinha hora para chegar. Isto não o entristeceu. Fazia o almoço, o jantar, chegou a lavar roupa e passar. Ele jurou a sí mesmo que a faria feliz para sempre. Ela ficou grávida. – Um filho Nestor. Vamos ter um filho! Incrível! Ele ia ser pai! Ele pediu a ela que diminuísse suas atividades nos Escoteiros, mas ela sorria e dizia: - Não me peça isto meu amor, antes de você era tudo que amava. – Ela o convidou tantas vezes a entrar e ficar com ela na mesma Alcateia, mas ele nunca aceitou. Por quê? Ele mesmo não sabia.

                Foi em um sábado triste, chuvoso, que ela lhe disse que iria acampar. – Vem comigo! Você não precisa fazer nada! Ele agradeceu, mas não foi. Clarisse está quase no tempo para nascer Nestor. Você não pode adiar? Não adiantou. Ela foi. Às duas da manhã foi avisado que ela sofreu um aborto abruto ao cair em uma vala para socorrer um lobinho. Ele gritou de medo. Correu para o hospital. Ela estava morta. Quando alguém morre, ele deixa tudo o que tem e o que poderia ter um dia. Morria ali tudo que ele lutou para ser o homem mais feliz do mundo. Agora sabia que nunca seria. Nestor foi salvo e ele o renegou. Sua vida daí por diante não tinha valor. Chorou quando ela foi colocada em um simples jazigo, chorou quando viu dezenas de meninos Escoteiros cantando dizendo que não era mais que um até logo. Chorou e os maldisse para sempre. Malditos, foram vocês que tiraram Clarisse de mim.

               O tempo passou. Um dia Nestor sorriu para ele. Era o sorriso dela. Ele tentou sorrir também e não conseguiu. Mas foi o primeiro sorriso de uma grande união. Aos poucos ele saia com Nestor, brincava na gangorra, corria com entre flores no jardim do parque para ver seu sorriso com as borboletas que ele espantava a voarem para os céus. Um ano, dois e quando Leonel com sete anos pediu para ser lobinho, seu mundo desabou. De novo? Não posso perder mais um. Não ele disse. Mas dormiu e sonhou com ela. Clarisse sorria para ele e viu ao seu lado Nestor com o uniforme de lobo. No sábado o levou até o grupo. Todos sabiam quem ele era. O trataram desconfiado que ele pudesse desabar e maldizer a todos os culpando pela morte de Clarisse. Ele sentou na escada da biblioteca e viu a alegria estampada em Nestor. Se ele era feliz porque ele também não poderia ser? Conversou com o chefão, entrou, e hoje passou a ter o escotismo em seu coração... Ao lado dela e de Nestor! Nunca esqueceu Clarisse. Hoje ele sabe que o escotismo lhe trouxe de volta seu grande amor e um novo amor a se juntar ao dela!

                        Ah! Poetas, como eles são perfeitos em descrever os grandes amores e as grandes decepções. Dizem eles que só há uma força capaz de tentar matar o amor: a morte – que nos separa das pessoas que amamos. Entretanto, há uma única força capaz de sobreviver à morte é o amor – porque o fato de nos separarmos de quem amamos não nos impede de continuar a amá-los. O amor sobrevive à morte porque continuamos amando a pessoa que morreu. E, no nosso amor, ela continua a viver para sempre. Que Deus nos ajude a honrarmos a sua memória.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Lendas Escoteiras. E um Príncipe Inglês foi Escoteiro por um dia.




Lendas Escoteiras.
E um Príncipe Inglês foi Escoteiro por um dia.

Prólogo: - Uma história de Reis? De Príncipes e Escoteiros? Pode ser. Ele era um príncipe e tinha uma grave doença. Sempre sonhara ser escoteiro e no seu país não podia. Acharam que ele melhoraria com a mudança do clima. Verdade ou não o príncipe foi Escoteiro por um dia. Para quem gosta de minhas histórias.  

                        Ninguém piscava. A lobada abobalhada. A escoteirada sem saber o que dizer. Afinal nunca tinham visto um príncipe e ali estava um em carne e osso. Osso? Bem o menino era osso só. Magro, raquítico e de olhos azuis. Para uma meninada abaianada com cabelos negros e lábios grossos aquele menino parecia um anjo caído do céu. Kelámariana não sabia o que dizer. Chefe Lontra caladão. Esperavam o Chefe Corvo que na sede conversava com Manfred, o mordomo do rei. O menino de olhos azuis sorria e não dizia nada. Dizer o que? Em “Ingreis”?  Se ele soubesse alguma coisa de baianes ainda vá lá. Finalmente o Chefe Corvo apareceu, formou uma grande ferradura e explicou: - Lord Tim é filho do Príncipe Leonard de Cavalliere e mora no Palácio de Drottningholm uma residência particular da Família Real Sueca,  disse o Chefe Corvo. Saltimbanco nosso Monitor olhou para mim. Vai ficar em Lua Prateada por alguns meses. Os médicos dele disseram que aqui tem o melhor clima do mundo e ele pode sarar logo de uma doença rara que tem!

                        O menino parecia seda. Branquelo, mas o que todo mundo olhava eram seus olhos azuis. Enormes coisa do outro mundo todos pensavam. Ali onde moravam não tinha ninguém de olho azul. Saltimbanco me cutucou: - É coisa de Reis Juventino. Só eles têm olhos azuis. Todo mundo queria saber qual patrulha ele iria ficar. Escolheram a Tigre. Bem lá só tinha grandões e até fiquei com pena dele. Iria ser chacoalhado toda vez que chorasse ou pedisse mamãe! – Chefe Corvo continuou - Este é Manfred, seu mordomo e conselheiro do príncipe. Ele vai ficar aqui para olhar e ver se o príncipe precisa de alguma coisa. - Olhei para Saltimbanco. Ele sorriu. - Mordomo? Coisa de lorde rico eu disse rindo baixinho. Chefe Lontra tentava continuar a reunião. Ninguém prestava atenção nele e nem na patrulha. Todos esperavam ver o Príncipe Lord Tim cair no chão e quebrar como porcelana. Ainda não entendiam que ele era de carne e osso. – Será que ele vai ao acampamento em Cachoeira da Ema? – Sei não disse. Eles nunca iam deixar o príncipe ir lá.

                No primeiro dia nada aconteceu. A lobada de olho e a escoteirada torcendo para o ver cair no chão. Bizonte da Patrulha Morcego deu nele um tranco no jogo do Palhaço Mamão. Ele deu um salto no ar e caiu em pé. “Impossível” pensei. Não vi nenhum osso quebrar! Um dia ele caiu do pé de abacate. Mais de seis metros e caiu em pé. Claro que foi Bizonte o culpado. Deu para ele uma corda estragada e podre. Paciência, não dizem que só se aprende a fazer fazendo? Aos poucos a escoteirada foi se acostumando com Lord Tim. Magro sim, osso puro sim, mas era duro de roer. Que o Diga Micoestripa. No jogo da briga de galo Micoestripa ria a valer. Vou mandar este Lord Ingrêis prus estrageiros e ele nunca mais vai voltar aqui. Ninguém esperava, mas o Lord saiu da asa esquerda dele e com sua direita bateu bem em cima da orelha de Micoestripa. Ele caiu de rodela no chão. E não é que o danado do Lorde o ajudou a levantar e deu a mão esquerda?

                   Bem a tropa agora já tinha certo respeito. Não gostava do Mordomo com seu cavanhaque chapéu de coco e com cara de defunto. Risos. Branco, vestido com um esquisito paletó, uma gravatinha borboleta no pescoço e sapatos extramente bem engraxados. Nunca correu para acudir Lord Tim. Para ser sincero um dia achei que ele tinha dado um sorriso no Quebra Canela que o Chefe deu. O bastão abaixado por Moroalto e Bigode bateu a toda na sua canela e ele deu um grito enorme de dor. Mas foi por pouco tempo, logo se refez e falou baixinho com o Chefe Lontra. Que será que ele falou? Chefe Lontra nada disse. Antes do encerramento deu a palavra ao Lorde. Ele nada falou. Começou a fazer gestos, imitou os japoneses que ficam abaixando e levantando a cabeça. Depois mostrou o aperto de mão Escoteiro. Depois deu a entender como ser cortes e leal. Não falou uma palavra, mas quer saber? Ele deu uma verdadeira aula à tropa sobre cortesia e lealdade.

                             O melhor mesmo foi no acampamento em Cachoeira da Ema. Não é que o Lorde desafiou todo mundo para um salto lá de cima da cachoeira? Mais de quinze metros. Eu olhei para Saltimbanco e ele me olhou. Desafio feito desafio aceito. Ele pulou primeiro. Parecia uma flecha no ar caindo com perfeição no remanso. Eu cai de barriga e gemi por dois dias. Saltimbanco desistiu. Menino, nem te conto, o Lord Tim era bom mesmo em pioneiras. Trabalhava com encaixe e os nós perfeitos. Nunca em minha vida vi nós e amarras como ele dava. Foram quatro dias e eu aprendi a gostar de Lord Tim. Era bamba em nós, cozinheiro de mão cheia e bamba em pioneiras e nos deu muita orientação sobre tudo. Melhor mesmo foi quando Mocreia o desafiou na Semáforas e ele transmitiu quase setenta letras em um minuto. Todo mundo ficou boquiaberto.

                            Um dia ele começou a tossir. Tossia sem parar. Notei um filete de sangue na sua boca. Que seria? Manfred veio correndo o pegou no colo, colocou no carro e partiu. Ninguém ficou sabendo de nada. Ah! Sim... A tarde um helicóptero pousou no campo do Esporte Clube Barroso. Corri até lá, mas já havia levantado voou. Na reunião seguinte um silêncio enorme na reunião. Olhei para Saltimbanco e ele me olhou. Falei baixinho – Sabe! Uma saudade danada de Lord Tim. Ele balançou a cabeça concordando. Dois meses depois três helicópteros pousaram em Lua Prateada. Nunca vi tanta gente branca e magra. Tinha um com roupa de marinheiro cheio de medalhas. Depois fiquei sabendo que era o Rei pai do lord Tim. Foram a sede e com um interprete deixou uma mensagem. Vi que os olhos do príncipe estavam cheios de lágrimas. O que o interprete disse todos já imaginavam. Lord Tim havia morrido. Deixou uma mensagem para nós e como era bonita, Deus do céu:

                           Meus caros amigos Escoteiros e lobos. Vocês não imaginam quanta felicidade eu tive quando estive junto de vocês. Pela primeira vez ninguém se curvava ninguém fingia me cumprimentar. Aqui no palácio todos sabem que tenho uma doença terminal. Todos me dão carinho e amor, mas não como tive aí com vocês.  Foi demais conviver com pessoas como os Escoteiros e lobos de Lua Prateada. Nunca em minha vida fiz tantos amigos como fiz aí com vocês. Aqui no palácio não tenho amigos e confesso que vivi em Lua Prateada os melhores anos de minha vida. Eu sei que irei partir, pois o que tenho não tem cura. Já aceitei meu destino e sei que vou partir para uma estrela no céu. Queria ter me despedido de um a um, mas minha partida foi brusca. Não duvidem, pois mesmo longe em me sinto muito perto de vocês. Muito obrigado a todos pelos melhores anos de minha vida. Fiz questão de pedir ao meu pai que presenteasse o grupo com tudo que ele precisava para acampar e brincar nas reuniões. Logo um caminhão cheio de presentes chegará em sua cidade. Mas o meu presente é especial – Um viva aos Escoteiros e lobos, um abraço apertado em Saltimbanco e em Juventino (eu). Fiquem com Deus!

                            Ninguém dizia nada. Um silencio enorme, gargantas secas. Olhos marejados de lágrimas. Era como o poeta estivesse ali dizendo: Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso. Adeus Lord Tim. Você marcou para sempre todos que tiveram a honra de apertar sua mão!

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Lendas Escoteiras. A conspiração do silêncio.




Lendas Escoteiras.
A conspiração do silêncio.

(esta é uma história fictícia. Qualquer semelhança com fatos, pessoas vivas ou mortas é mera coincidência).

Prólogo: - Conspiração conta a historia do Chefe Leo, homem humilde, com um coração aberto e amigo de todos sem distinção. Acredita na verdade tem uma só palavra e tem a ética tão esperada em um homem escoteiro. Lembrei-me de Mário Quintana: – O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você. – Perdoar é bom, e amar o próximo é melhor ainda!

               Dizem que o começo da sabedoria é encontrado na dúvida. Duvidando começamos a questionar, e questionando podemos achar a verdade. Este é um breve relato da história do chefe Leo um ex-Comissário de um Distrito Escoteiro. Foi lobinho escoteiro sênior e Chefe. Ficou quase vinte anos como distrital. Tornou-se uma lenda quando o destituíram do cargo. Por quê? Isto me intrigou muito. Todos tinham por ele um grande respeito. O escotismo tem uma filosofia de vida que encanta. Ele nos vende uma premissa de fraternidade e lealdade e nem sempre isso é verdade. Como em todas as instituições com voluntários nosso movimento peca com os mesmos pecados. A inveja, a soberba e o desejo de ser o melhor são fatos que ninguém pode contestar. Dizer que isto era um mal menor seria desmerecer a nossa lei e promessa.

             Quando soube de sua exoneração e os motivos obscuros eu fiquei preocupado. Tinha de me inteirar dos fatos e não dos boatos. Fui procurá-lo pessoalmente. Fui recebido como se fosse um "Velho" companheiro de armas. Durante nossa conversa tentei saber o motivo de sua saída. Nada disse. Só frases decoradas – O Chefe Leo era um cavalheiro e em tempo algum iria condenar alguém. Disse-me que tinha chegado sua hora. Precisam de sangue novo Chefe, o escotismo hoje é outro. Sua lealdade não o deixava falar. Afinal sou um Velho Escoteiro que conhece muito da vida. Não se manda um homem como ele para o olho da rua sem ter um motivo forte. Eu só queria a verdade. Durante meses visitei os grupos que compunham o seu Distrito Escoteiro. Alguns grupos bons e outros não.

              Todos unânimes em dizer maravilhas do Chefe Leo. Ouvia mas entendia que nem todos diziam a verdade. Havia alguma coisa no ar. Não sou psicólogo para entender as nuances da vida. Havia muita fachada por trás de tudo e senti falta de sinceridade por parte de alguns chefes. Conversa aqui, ali aos poucos a verdade começou a vir à tona. Juntando as peças cheguei à conclusão que alguns chefes fingiam dizer o que não sabiam e acusavam ser saber por que. Um buchicho sem pé e cabeça. Não aceitar acusações sem provas e o que diziam era totalmente descabido.

                      Mas onde tudo começou? Uns disseram que foi do Grupo Ventos do Deserto, outros do Grupo Montanha Azul. Não importava. Um nome surgia e logo vi que o novo distrital era o protagonista. Seu nome? Aqui não importa. Pouco mais de cinco anos de escotismo já havia conseguido a insígnia de madeira. Um sonhador a altos cargos no escotismo. Conheço o tipo. Ele ainda participava do seu grupo. Alto, forte, bonachão, aquele sorriso que encanta aquele forte aperto de mão. Abraçou-me com força e deu um sorriso forçado que não acreditei. Apresentou-me a todos do grupo. Muitos não o olhavam nos olhos. Vi que não simpatizavam com ele. Muito falastrão. Abraços exagerados e sempre a dizer meu grupo, meus chefes, meus escoteiros meu distrito. O dono de tudo.

                            Não comentou sobre o Chefe Leo. Só foi sincero em dizer que o distrito precisava de sangue novo. Fui a Região Escoteira para me inteirar. O Presidente não me recebeu bem. É sempre assim. Vivi neste meio por muito tempo. Há sempre certa antipatia no ar. Por quê? Bem sou muito loquaz no que penso e nem todos gostam disto. Perguntou de maneira galhofa qual o meu interesse. Expliquei. Não gostou. Até mesmo deixou no ar uma ameaça. – Chefe cuidado no que vai dizer e publicar. Posso processá-lo pelas inverdades. Deu-me “ordens” como se fosse meu patrão. Disse a ele que estávamos em uma democracia e eu publicaria o que quisesse. Interessante nosso movimento. Não temos salários, somos voluntários e uma lei escoteira que fala de paz e amor. Esta hierarquia escoteira deixa muito a desejar. Dizem que os homens se tornam arrogantes com o sucesso e têm o mau hábito de menosprezar a quem não nutrem simpatia. Para encerrar a conversa disse que o assunto era confidencial, discutido na Comissão de Ética e esta tinha resolvido exonerar o Comissário Joe. Pedi para ler a ata e ele riu na minha cara. Ata? Confidencial Chefe!

                     Ao sair uma funcionária simpática me fez um sinal. Disse para esperar após o expediente no bar da esquina. Contou o que sabia. Disse que um Chefe chamado Renildo (o novo distrital) foi quem fez um ofício acusando o Chefe Joe de homossexual e pedófilo. Caramba! Que acusação! E o pior ele nem sabia disto. O julgaram e não teve nenhuma chance de defesa. Que base eu perguntei? Ela não soube responder. Agradeci e prometi não dizer uma palavra que ela tinha me contado. Aos poucos fui desvendando o fio da meada.  Uma senhora que fazia faxina na casa do Chefe Leo me contou reservadamente: - Um filho do Chefe Leo de uma aventura que teve quando jovem e procurado pela policia pediu para se esconder por uns tempos em sua casa. O Chefe Leo não negou. Manteve-o escondido por seis meses. Depois a policia descobriu o verdadeiro ladrão. Um belo dia sumiu. Chefe Leo preocupado não sabia o que fazer. Os amigos escoteiros não entenderam. Acharam que ele estava apaixonado pelo homem estranho na sua casa.

                        A verdade finalmente veio à tona. Lembrei-me das palavras de Santo Agostinho. – Factum audivimus, mysteria requiramus. (ouvimos o fato, busquemos o significado oculto). Pensei comigo: – Vivemos num mundo tão falso, que a verdade virou sinônimo de mentira. Procurei o Chefe Joe. Eu não iria calar. Contei para ele tudo que sabia. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Insistiu para não comentar o acontecido. O escotismo é lindo e simplesmente maravilhoso e aceita tudo com remissão tudo que acontece em suas volta. Olhei para o Chefe Leo e vi um grande homem. Talvez um dos maiores escoteiros que tinha conhecido. Maior que o novo Distrital que em sua pequenez não era nada diante da sua insignificância.

                      Tudo na vida tem uma maneira de acontecer. Hoje o Chefe Leo e quantos são acusados sem serem culpados? Um aprendiz de distrital e um regional que se achavam dono da verdade. Uma Comissão de Ética feita para julgar e só servir aos poderosos. Naquela tarde dei nele um abraço. Apertado. Fiquei ali dizendo baixinho que o admirava mais que tudo. Disse a ele mais – Chefe Leo, homem de verdade é difícil de encontrar, o senhor para mim é um deles. Um dos poucos que conheci. Aceite meus parabéns e me tenha como seu amigo para sempre! E a vida continua nada muda, os homens são os mesmos para julgar!


quarta-feira, 10 de abril de 2019

Lendas Escoteiras. Maria Morena Escoteira que nos fez sonhar...




Lendas Escoteiras.
Maria Morena Escoteira que nos fez sonhar...

¶ Linda morena, morena, morena que me faz penar
A lua cheia que tanto brilha, não brilha tanto quanto o teu olhar.¶

              Ah! Rotina. Quanta rotina nos meus sábados Escoteiros. Não que eu não gostasse de estar lá com a meninada. Nada disto, eles para mim eram parte da minha vida, mas vai chegando momentos que a gente não se motiva, nada ajuda uma tarde modorrenta e mesmo acampando aquele “Tchan” do começo não existe mais. Vez ou outra eu me perguntava o que estava fazendo ali em Luar do Sertão. Já devia ter ido embora há muito tempo. Afinal estava solteiro vinte e cinco anos em uma cidade onde só se falava da vida dos outros, onde os velhos sentavam na praça a jogar damas, e o programa aos sábado se resumir a um baile no Clube Mediterrâneo, ou um sessão no cinema Palácios. Não podia reclamar, tinha um bom emprego no Banco do Brasil. Bem quisto e me disseram que seria um futuro gerente, pois meu trabalho era elogiado. Mas não era só isto, meus pais velhinhos não podiam ser abandonados pelo seu único filho. E os Escoteiros? Nasci lá como lobo e até hoje sou um eterno apaixonado.

¶ Tu és morena uma ótima pequena não há branco que não perca até o juízo
Onde tu passas sai às vezes bofetão toda gente faz questão do teu sorriso ¶

           Mas era só. As moçoilas de Luar do Sertão eram insossas, sem graça e até que namorei umas três, mas não deu certo. No inicio como Chefe estranhei. Queria era continuar Escoteiro, fazendo estripulias no campo, pioneirías impossíveis, descobrir novos campos campinas e montes onde eu achava que ninguém ainda conhecia. Mas o tempo foi passando, a rotina seguia seu rumo e o vento da alegria esqueceu-se de me dar um luar com muitas estrelas no céu. Os meninos Escoteiros da tropa estavam enfadados, já havia alguns que não apareciam sempre. Naquele sábado nem sei por que estava fazendo o jogo de feiticeiros e estátuas. Jogo chato, amolante e sem graça. Eu não gostava dele e sabia que a meninada Escoteira também não. Matias Risonho me fez um sinal – O que foi Matias? – O chefão está chamando. – De novo pensei. De vez em quando Matusalém o Diretor Técnico dava nos nervos. O cara era de doer e gostava de falar. Olhei para trás e até pensei em deixá-lo de molho por alguns minutos. Ele merecia.

¶ Teu coração é uma espécie de pensão de pensão familiar à beira-mar
Oh! Moreninha, não alugues tudo não deixe ao menos o porão pra eu morar.¶

               O que? Quem estava com ele? Quem era ela? Uma Deusa? Desceu do céu? Onde ele arrumou aquilo tudo? Uma linda morena como nunca tinha visto, linda? Não mais que isto estupenda morena. Larguei a tropa jogando e fui em passos rápidos até ela. Ela sorria para mim, meu Deus! Que sorriso! Morena linda, esgalga, penumbrosa, parece à flor colhida ainda orvalhada no justo amanhecer. Apresentou-se – Maria Morena, Escoteira da cidade do Garanhuns. Sou Chefe lá! Pronto! Já sabia qual cidade ia morar para sempre! Graças a Deus que naquele sábado de homem só eu. Mais Elisete, Elizabeth e Noreth da Alcateia. Estava pasmado, ou melhor abestalhado com tão magnifica mulher. Uma morena de olhos grandes, parecendo jabuticabas colhidas na hora do amanhecer, lábios carnudos avermelhados, sorrisos que derrubavam os maiores exércitos que marchavam para a guerra. Era um sorriso de Atena, deusa da guerra, da sabedoria, da habilidade a titã da sabedoria.
    
¶ Por tua causa já se faz revolução vai haver transformação na cor da lua
Antigamente a mulata era a rainha desta vez, ó moreninha, a taça é tua.¶

             Dei um sempre alerta sem graça tentando fazer uma pose de Brad Pitt. Meu corpo tremia, meu coração batia e abestalhado por ver tão linda mulher no pátio da sede. Ela me olhou com os olhos húmidos brilhantes e com uma voz de Afrodite a dizer que seus exércitos iriam vencer a mais sublime das batalhas me perguntou: Posso fazer um estágio com o Senhor por dois meses? – Dois? Nunca, você vai estagiar comigo para sempre! Agora meu coração é seu e a tropa é sua, pensei. Uma voz chata me dizia – “Ah, porque não a deixa intocada Chefe Poeta, tu que és Chefe, na misteriosa fragrância do seu ser, feito de cada Coisa tão frágil que perfaz esta rosa”! – Uma voz esganiçada, grossa, feia, mil vezes maldita ecoou no ar – Mozinho! Vai demorar? – Olhei para o maldito. Moreno brabo, feio, atarraxado, pior vestimentado com camisa solta endiabrado uniforme disformado, de uma vez só estraçalhou meu coração! Seu marido? Noivo? Acosturado? Pé de Café? Danado, estragou tudo! – Olhei para ela, ela desanuviou o horizonte que despontava raios e trovões e disse: – Já vou Mozinho! Virou para mim, com aquela cara inocente, tão doce, tão amada, tão linda, tão adocicada e disse: – Posso voltar no sábado? 

- ¶ Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste agora que ela é rosa comovida
De ser na tua vida o que buscaste tão dolorosamente pela vida ? Ela é morena rosa, poeta... Assim se chama... Sente bem seu perfume... Ela te ama...¶

Linda Morena, uma marchinha de Lamartine Babo.

Alguns versos de Vinicius de Morais. 

terça-feira, 9 de abril de 2019

Lendas Escoteiras. A árvore da colina.




Lendas Escoteiras.
A árvore da colina.

Prólogo: - Quem era? Nunca soube. Só sei que ele veio do céu. Porque eu não sei. Eu era apenas um Escoteiro a ir para seu acampamento. Meu café ele tomou sorrindo sinal que não era ruim. Nunca contei esta história para ninguém. Quando partiu meu mundo se transformou. Sabia que agora a paz morava em mim. A harmonia e o amor reinavam. A paz de um sorriso predominava. Agora eu sabia que naquele dia, naquela Árvore da Colina, Jesus me deixou entrar em seu coração!  

                - Eu só o vi uma única vez na vida. Na verdade foi um dia especial, não me perguntem por quê. Notei sua figura surgindo na estrada do Alencar, a pé, com um cajado simples, mas com passadas belas sem se mostrar cansado. Ele não me disse quem era e nem eu perguntei. Quando se aproximou de mim senti um brilho em sua figura e inexplicavelmente ele se transformou. Juro que ao longe estava com uma bata branca e ali na minha frente estava esplendidamente uniformizado como escoteiro. Como ele podia fazer aquilo? Era mágico? Se foi um truque era perfeito. Não usava o chapéu. Ele com certeza não queria tirar aquela aura brilhante de sua pose Badeniana. Quem seria? Ele sorria para mim, um sorriso gostoso, dentes alvos olhos negros, cabelos castanhos compridos.

                  Parei ali para descansar um pouco da minha jornada e fazer um café. Precisava. A Árvore da Colina já era minha velha conhecida. Pequena, mas com uma folhagem com uma sombra invejável. Não havia nascente, não havia rios e nem tampouco regatos por perto. Somente a árvore para nos dar o descanso devido. Pensava em chegar ao acampamento da patrulha ao entardecer. Combinei com eles quando terminasse meu trabalho. O destino não era longe. Após a curva do Falcão se avistava a mata pequena, a cascata e o bambuzal. Tirei a mochila, pendurei meu chapéu em um galho e duas achas facilitarem o Tropeiro que iria fazer. Na mochila tinha café e pó. Meu canecão militar serviria para esquentar a água.

                  Levantei quando ele chegou e disse bem vindo! Ele sorria. Não era bonito, mas tinha alguma coisa especial que encantava. Em vez de sapatos usava uma sandália. Calado se assentou a sombra junto ao tronco. Fechou os olhos e parecia rezar. Passei o café e ofereci a ele. Olhou meu cantil, estava cheio pela metade. Passei para suas mãos e ele bebeu devagar, parecia sorver o líquido com carinho de quem tem sede. Tomou o café me olhando nos olhos. Minha caneca de esmalte parecia brilhar em suas mãos. Fechou os olhos e dormiu por alguns minutos. Acordou sorrindo e levantou. Colocou a mão em minha cabeça e disse – “Que a paz esteja convosco”. Partiu sorrindo acenando com a mão. Ao virar na trilha notei que estava com seu cajado e a bata branca.

                   Sozinho na sombra da Árvore da Colina pensei. Quem seria? De onde veio e para onde iria? O sol ia se por na Montanha do Cavalo. Hora de partir. Ainda havia mais duas horas de jornada. Conhecia o caminho. Limpei o fogo, joguei uma pitada de água do meu cantil nas brasas, mochila nas costas e parti. Não olhei para trás. A Árvore da Colina tinha o dom de não deixar ninguém partir. A noite chegou mansa e calma. Meu caminho estranhamente era claro, uma estrela no céu jorrava raios brilhantes na trilha. Nunca tinha visto nada igual. Do alto da Colina avistei a curva do Falcão. Estava perto. Meus pensamentos giravam entre chegar e lembrar-se daquela figura tão simples, com um sorriso inesquecível e com uma áurea brilhante que me encantou para sempre.

                     Nunca soube quem era. Não perguntei. Acho que ele sabia que um dia eu iria lembrar-se dele e saber que ele veio do céu. Porque eu não sei. Eu era apenas um Escoteiro a ir para seu acampamento. Meu café ele tomou sorrindo sinal que não era ruim. Nunca contei esta história para ninguém. Eu sabia que ao partir meu mundo se transformou pra sempre. Sabia que agora a paz morava em mim. A harmonia e o amor reinavam. A paz de um sorriso predominava. Agora eu sabia que naquele dia, naquela Árvore da Colina, Jesus me deixou entrar em seu coração!  

E que a paz esteja sempre convosco!

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Lendas Escoteiras. A escoteirinha e a Árvore da Vida.




Lendas Escoteiras.
A escoteirinha e a Árvore da Vida.

Prólogo: - As pessoas quando acreditam sempre tem aquilo que desejam. A Escoteirinha sabia que um dia teria seu desejo realizado. Sonhe, sonhe muito Escoteirinha! Acredite em seus sonhos. Alguém não disse que o futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos?    

                            Conta uma lenda muito antiga, que existia em uma pequenina cidade, uma linda árvore que foi plantada em frente ao coreto da praça. Ela sempre atendia aos pedidos dos meninos e meninas que sentavam em sua sombra e pediam com bondade e lealdade sem mentir. Nunca! Ninguém sabia se era um abacateiro, ameixeira, ou mesmo uma árvore comum. Interessante. Nunca deu flores. Nunca floriu na vida. Talvez esta tenha sido sua maior tristeza. Não atendia aos adultos. Apesar de ser uma velha árvore ela sempre se sentiu como uma jovem e sabia que na mente dos jovens existia a pureza, os sonhos eram mais azuis e a vida era mais bela.

                                      Nem sempre os jovens lhe pediam o que ela poderia oferecer. Ficava triste com isto e a sua maneira tentava ajudar. Conhecia quase todos que um dia sentaram em sua sombra. Sentia-se alegre e feliz quando tinha companhia de um deles. Mais ainda quando podia atender seus pedidos e ver em seus rostos a alegria que ele podia dar.

                              Em uma tarde quando o sol ainda não havia se escondido atrás das montanhas, antes mesmos dos pardais fazem sua algazarra antes do sol se por e procurarem seu ninho, ela viu pela primeira vez uma menina, pequena, miúda, rostinho simples, e com um lindo uniforme de Escoteira. Ela nada disse e voltou muitas vezes para usufruir de sua bela e linda sombra. Tentava falar com ela, mas não conseguia. Todos os sábados ela passou a visitar a Arvore da Vida. Ficava até o escurecer. Não pedia nada, só a olhava e sorria.

                               A Árvore da Vida gostava de sua companhia. Pensava e pensava... Será que ela não tem sonhos? Gostaria tanto de ajudar! Quando a escoteirinha se aproximava parecia que o dia seria outro. Mais alegre mais feliz. Um sábado ela conseguiu entrar na mente da escoteirinha e espantada viu o que ela pensava. Ela se preocupava com a Árvore da Vida, isso foi demais. – Porque você não tem flores? Não tem fruto? Á Árvore da Vida se emocionou. Ninguém nunca se preocupou com ela e aquela escoteirinha se preocupava.

                           Foi então que há escoteirinha passou a levar uma sacola de esterco e em uma das mãos uma pequena lata com água, e colocava aos pés da Árvore da Vida. Á Árvore da Vida chorava de alegria. A escoteirinha dizia para ela: – Árvore, vou lhe chamar de Árvore da Vida e do amor. Você vai reviver. Você terá flores e será a única Árvore da Vida no mundo que vai dar todas as espécies de frutos.

                      A Árvore da Vida chorava de emoção. – Como? Pensava. Ninguém nunca ninguém se preocupou se ela era uma árvore comum, se era uma árvore que pensava. Ninguém falou com ela a não ser para pedir. Sim, ela gostava de ouvir os sonhos e os pedidos da meninada. Ela sabia que muitos meninos um dia descansaram nas suas sombras e agora uma simples escoteirinha se preocupava com ela.

                        – Mas um dia, sem nuvens e parecendo que ia chover ela viu a escoteirinha sentar-se e encostar a cabeça em seu tronco e a Árvore da Vida viu que ela chorava. A Árvore da Vida ficou triste. Muito triste. Viu que a Escoteirinha em seus pensamentos chorava, pois não iria a um grande encontro que os escoteiros faziam e que chamavam Jamboree. Seus pais não podiam pagar. O quer fazer? Como ela podia ajudar a escoteirinha? Á Árvore da Vida soprou em sua fronte, uma brisa fresca, perfumada de suas folhas verdes e a escoteirinha dormiu.

                   A escoteirinha acordou em um lugar lindo, com arco íris de todas as cores. Azuis, amarelos, verdes, uma relva cheia de flores silvestres e ela viu ao longe um enorme acampamento. Muitas barracas e milhares de escoteiros e escoteiras de todo o mundo. Assustou, pois ao seu lado a Arvore da Vida estava segurando suas mãos e dizia – Vamos minha amiga. Você vai participar do primeiro Jamboree Escoteiro no mundo! Vai conhecer seu fundador. E a Escoteirinha sorria. Um sorriso que poucas escoteiras sabem dar.

                    Eram milhares de jovens, todos segurando sua mão e dizendo “Sempre Alerta” linda Escoteirinha! Era a maior felicidade que ela podia alcançar. Viu alguém batendo em suas costas se voltou e viu que era o fundador do escotismo. Abraçou-a e disse - Minha jovem escoteirinha, acredite, você é quem faz seus sonhos e os transforma em realidade. Nem todos podem ter o que querem, mas devem lutar para ter. Acredito em você. E você deve acreditar na sua promessa!

                 Quem tivesse passado ali no coreto naquela tarde viu que o sol apareceu, nuvens brancas se formaram e os passarinhos começaram a cantar. Em pouco tempo centenas de habitantes da cidade se aglomeraram, pois deitada encostada no tronco da Arvore da Vida que a maioria dos habitantes adultos não dava valor, uma Escoteirinha sorria, em volta dela lindas borboletas de todas as cores sobrevoavam em sua volta, os pássaros cantando nos galhos próximos.

                    A Árvore da Vida parecia adormecida. Acordou junto com a Escoteirinha e viu que suas folhas estavam floridas, e dos galhos frutos doces e maduros. Incrível! Nunca viram nada parecido. Uma brisa gostosa soprava trazendo perfumes de flores silvestres, e um papagaio verde e amarelo pousou em seu ombro e cantava – “Ela foi para o Jamboree, ela foi para o Jamboree!”.

                 A história chega ao fim.  Ela sonhou.  Amou o sonho e a transformação da Árvore da vida. Ela não foi ao jamboree real, mas viu o fundador e todos os seus amigos que o ajudaram a criar o escotismo. Ela sabia que um dia iria trabalhar e iria participar de um Jamboree, mas nunca seria como aquele. Ela esteve lá. E a Escoteirinha daquele dia em diante sempre trazia água para a Árvore da Vida. E a Árvore da Vida que existiu em seus sonhos nunca mais a abandonou.

domingo, 7 de abril de 2019

O último por do sol. Uma história, uma lenda escoteira.




O último por do sol.
Uma história, uma lenda escoteira.

Prologo: - Faz anos... Muitos... Uma pequena fogueira, chefes cantantes e eis que um se põe a chorar. – Todos preocupados. Chefe Thadeu não se fez de rogado e começou a contar uma das histórias mais tristes que já ouvi. Naquele dia chorei. E até hoje quando conto a historia ainda choro. Assim ele começou:

                  - Eu era Chefe de uma tropa Escoteira perto da minha casa lá no Bairro do Berilo. Gostava de ir a pé. Era uma boa tropa. Eu tinha bons Monitores que me ajudavam muito. Não era um grupo grande, mas com uma união formidável. Havia um escoteiro que era especial apesar de não ter preferencia, pois todos eram meus preferidos. Waldo era diferente. Nos seus quatorze anos tinha todas as qualidades que se pensava em ter “Espírito Escoteiro”. Na Patrulha Quati Waldo era um amigo e conselheiro de todos. Não era o Monitor, mas cativava pela sua ponderação, pelo seu exemplo não só na tropa como na escola e em sua vida familiar. Eu me acostumei quando aparecia algum problema chamar o Waldo. Tinha um jeitinho próprio de conversar que conquistava qualquer um que estivesse ao seu lado.

                      Foi em um sábado de maio ao chegar à sede não vi o Waldo. Era o primeiro a chegar e o último a sair. Perguntei a Tonho seu Monitor se ele sabia de alguma coisa. Não sabia. Pensei comigo que ele devia ter um motivo muito forte para ter faltado. Liguei para ele a noite. Quem atendeu foi sua mãe. – Chefe, o melhor é o Senhor vir aqui em casa. Não dá para falar por telefone. Fiquei preocupado. O que seria? A Mãe dona Aurora e o pai seu Rodolpho me receberam na porta. Estavam tristes e taciturnos. – Chefe, falou dona Aurora, Waldo me pediu para ele mesmo dizer. Acho que o Senhor deve ficar prevenido. A notícia vai chocá-lo muito. – Vi que lagrimas caiam dos olhos de ambos. O Senhor Rodolpho tinha a voz embargada.

                       Subi ao quarto de Waldo. Me esperava sentado na cama. Senti nele um sorriso triste e sua voz baixa e rouca. Seus cabelos estavam caindo e aquilo me assustou. – Olá Chefe, Sempre Alerta! - Ele tinha ficado em pé. Dei-lhe um aperto de mão e um abraço. – Waldo, todos estão sentindo muito sua falta e as saudades são grandes. Ele sorriu. – É Chefe, vai ser difícil minha volta. Vou direto ao assunto. Melhor ser franco com o Senhor. Estou com Leucemia no cérebro. O médico disse para minha mãe que eu tenho no máximo quatro meses de vida. - Foi como se eu tivesse levado um soco, uma pancada. Fiquei chocado. Sentei em sua cama. – Calma Chefe, isto acontece, eu fui o escolhido por Deus desta vez e sorriu. – Meu Deus! Pensei. Que calma deste garoto! Incrível! – Olhe Chefe, eu convenci minha mãe. Ela e meu pai não queriam, mas eu gostaria antes de partir para o céu ir ao acampamento do próximo mês no Vale dos Sinos.

                        – Mas como Waldo? Você mal fica em pé e nem pode andar direito! – Eu sei Chefe, mas eu preciso. Não posso partir sem ver o último pôr do sol nas escarpas cintilantes. - Me lembrei do que ele falava. O Pôr do sol nas escarpas era maravilhoso. O mais lindo que tinha visto. Eu nunca pensei que ele pudesse lembrar e nem eu mesmo lembrava mais. Olhei para Waldo. Não podia negar aquele seu pedido. Se ele queria eu não iria dizer não. Combinei com seus pais de passar lá no dia do acampamento pela manhã para pegá-lo. Não disse nada para a tropa e nem para os chefes. Insisti para que ninguém faltasse. Queria dar a ele uma despedida inesquecível. Seria o maior Fogo de Conselho para ninguém mais esquecer. – Passei lá no dia determinado. No acampamento ele insistiu em ficar com sua Patrulha. Estava tremendo, fraquejava, mas dizia que iria dormir na barraca da Patrulha.

                       Poderia ter armado uma barraca só para ele, mas foi enfático em ficar na patrulha e não queria dormir sozinho. – Chefe, é câncer! E sorria. Nada mais que o cancerzinho idiota. Não vai ter perigo para ninguém. Ele não é contagioso! – Meu Deus! Que Escoteiro era aquele? Waldo de quatorze anos me dando lição? Eu tinha levado uma cadeira de praia e ele recusou. O dia que ele quisesse eu o levaria em minhas costas até as Escarpas Cintilantes. – Chefe vou fazer a minha de madeira, devagar, mas vou fazer. A Patrulha viu que ele estava doente. Disse para ela que ele estava se recuperando de uma forte pneumonia. Ele quase não participava das atividades, mas ajudava na cozinha. Fez uma bela cadeira. Sentava e fechava os olhos. Seus lábios entreabertos pareciam sorrir. No penúltimo dia vi que ele respirava com dificuldade. – Waldo eu vou levá-lo para sua casa. – Chefe nem pensar. Me leve agora até as Escarpas Cintilantes. Meu tempo está acabando.

                            Fui sozinho com ele. Em principio foi andando depois o vi fraquejar. O coloquei no colo. Uma palha de tão magro. Em menos de meia hora chegamos. Sentei junto com ele na pedra onde se avistava todo o Vale dos Sinos. Um espetáculo a parte. Deviam ser umas cinco e meia da tarde. Chefe eu posso fazer meu último pedido? Claro meu amigo. Claro. - Quando eu estiver indo para a terra dos meus ancestrais no campo santo, eu não quero que cantem a canção da despedida. Cantem todas aquelas alegres que sempre cantamos para que eu tenha boas lembranças. Não disse nada. Não havia nada para dizer.

                          O sol foi aos poucos se escondendo atrás das montanhas do Vale dos Sinos. Waldo sorria. Não tirava os olhos do horizonte. Eu engasgado. Danação! Eu não era como ele. Estava difícil aguentar. Queria chorar e não podia. Não podia chorar naquele instante. Não podia. Eu sabia que eram seus últimos momentos. Waldo me olhou. Piscou os olhos e me disse – Chefe foi a maior alegria da minha vida. Vou levar para sempre esta lembrança. Obrigado Chefe. Obrigado. Foi aos poucos deitando no meu colo. Esticou suas perninhas secas. Waldo morreu sorrindo no meu colo naquele anoitecer frio de junho. Ficou ali imóvel como se estivesse dormindo.

                    Fiquei ali chorando por muito tempo abraçado ao corpo de Waldo. Alguém bateu no meu ombro. Olhei e não vi ninguém. Aonde o sol se punha vi uma nuvem branca brilhante que logo desapareceu. Desci as escarpas com ele no colo. Uma eternidade até chegar ao acampamento. Uma dor profunda. Toda a tropa chorava. Voltei para a cidade. Meus olhos vermelhos e as lagrimas não paravam de cair. Meu coração batia sem parar. Minha vontade não era minha. Naquele momento achei que eu também tinha morrido com o Waldo. No dia seguinte estávamos todos na sua exéquias. Cantamos ao som de um violão a Stoldola, Avante Escoteiro, Lá ao longe muito distante e outras. Todos cantavam com vigor escoteiro. Muitos choravam. Eu também. Não dava para segurar.

                   Os anos passaram. Nunca me esqueci de Waldo. Nunca me apareceu em sonhos. Nunca falou comigo em espírito. Deve estar feliz, muito feliz em Capella, a terra dos seus ancestrais. - Chefe Thadeu parou de contar. Chorava copiosamente, eu e os outros com os olhos cheios d’água tentávamos raciocinar. Sem condições. Ninguém falou nada. Um silêncio profundo e ali ficamos até o raiar do dia...

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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