terça-feira, 6 de agosto de 2013

O fantástico curso da Insígnia da Madeira do Chefe Bola Branca.

A razão pela qual algumas pessoas acham tão difícil serem felizes é porque estão sempre a julgar o passado melhor do que foi, o presente pior do que é e o futuro melhor do que será.




O fantástico curso da Insígnia da Madeira do Chefe Bola Branca.

           Gente fina, um andar cheio de trejeitos, mas diziam que era duro na queda. Soube de fonte fidedigna que enfrentou seis em frente ao Cinema Palácios em uma noite de natal. Ficou famoso por causa disto e daí em diante ninguém mais ria dele. Nasceu no escotismo, sua mãe uma Chefe de Alcateia deu a luz em um acantonamento em Rosário. E olhe quase todos os lobinhos ajudaram. Disseram que houve uma grande festa e Bola Branca sorriu a noite toda. Já sabem, filho de Chefe tem direitos que outros não têm. Alguns juram que não, mas Bola Branca aos cinco já era lobinho. E ai de quem falasse que não podia. Bola Branca foi tudo que podia no escotismo. Primeira Estrela, Lis de Ouro, Escoteiro da Pátria, Insígnia de BP, Chefe de Alcateia, Tropa Escoteira, Sênior, Mestre PI, Diretor Técnico, Comissário Distrital e só não foi escoteiro Chefe porque foi trabalhar na Austrália e só voltou dez anos depois. Esqueci-me de dizer, recebeu sua Insígnia da Madeira com dezoito anos. Acho que foi o Chefe mais novo a receber.

         Acredito que ele deva ser mais velho que eu uns vinte anos. Hoje estou com quarenta e cinco e ele já de cabelos brancos parecia um pouco cansado, mas com uma vivacidade incrível. Sempre que nos encontrávamos ele me contava histórias incríveis. Como eu o considerava um técnico escoteiro sui generis eu gostava de ouvi-lo. Tinha combinado encontrar com o Chefe Matusalém no bar do Moita, pois lá ficaríamos mais vontade para discutirmos o 6º ADIP Regional, (acampamento distrital de patrulhas), Eu era o Comissário Regional naquela época e no ano anterior por decisão imposítória de todos os chefes fui eleito como responsável para sua organização este ano. Cheguei mais cedo e o Chefe Matusalém ainda não havia chegado. Tomando um chopinho eis que como em um passo de mágica aparece o meu amigo Chefe Bola Branca e sempre mexendo o corpo pra lá e pra cá. Sente-se meu amigo eu disse. Estou esperando o Chefe Matusalém e você é bem vindo. Quem sabe pode até me ajudar?

               O atrasado chegou em seguida. Já conhecia o Chefe Bola Branca. A conversa ficou animada. Quem estivesse perto só ouvia escotismo, escotismo e escotismo. Tinha outro assunto mais importante por acaso? Alguém arrastou uma cadeira. – Posso me sentar com vocês? Fui escoteiro e vendo vocês conversarem sobre o movimento me deu saudade. – Fique a vontade meu amigo. O fique a vontade foi dado há mais cinco que também queriam ouvir o que nós dizíamos. Uma mesa grande, chopes e salgados eram servidos. Plateia formada a gosto do meu amigo Chefe Bola Branca. Falamos de tudo. Por último dos novos cursos escoteiros. Cada um tinha uma opinião. Chefe Matusalém era da Equipe de Formação. Achava tudo perfeito. Ele e o Chefe Bola Branca tiveram uma boa troca de opiniões. Cada um convencia até que o outro usava da palavra. – O mundo moderno exige Chefe Bola Branca. Não vivemos mais na época das cavernas disse o Chefe Matusalém.  

               Chefe Bola Branca não disse nem sim e nem não. Aproveitei a oportunidade para perguntar como conseguiu a Insígnia da Madeira com dezoito anos. Ele primeiro floreou sua história. Começou contando quando foi Chefe de uma tropa de escoteiros. Ficou lá por doze anos. Viu jovens crescerem, constituírem famílias, alguns assumindo posições na comunidade e em suas atividades profissionais. Nunca esqueceram o Grupo Escoteiro. Pelo menos uma vez por ano iam fazer uma visita. Quase todos colaboravam financeiramente com o Grupo. Eu perdia poucos jovens - dizia. Eles adoravam as atividades de campo que fazíamos. Os monitores da tropa não eram os melhores, mas não deixavam a desejar. Olhe meus amigos, eu fiz outros cursos que não os do escotismo. Fiz também alguns que não posso menosprezar, mas o meu primeiro. Ah! O meu primeiro foi único, foi o que me deu base para saber conduzir uma tropa escoteira. Se não fosse ele não seria o que sou hoje. Passei por poucas e boas no escotismo. Poderia ter saído, mas não sai. Ainda me lembro, pois completava meus dezoito anos, recém-saído das fileiras do exército, ainda não tinha nada decido em minha vida. Hoje um curso assim nunca nossos diretores vão realizar.

            Um dia recebi em minha casa uma correspondência estranha vinda da Direção escoteira regional. Dizia – Iremos fazer um curso da Insígnia da Madeira ramo escoteiro. Escolhemos 32 chefes. Você é um dos escolhidos. Não é um curso qualquer. Estamos fazendo uma experiência piloto. Caso se interesse mande-nos um telegrama até o fim deste mês. O curso terá duração de dez dias. A partir de 08 de fevereiro próximo. Não é um curso para pata-tenras. Só mesmo para os que chegaram à primeira classe e eficiência II. Uma verdadeira prova de sobrevivência. Caso aceite as passagens ida e volta será por conta da Região escoteira. Não haverá taxas. – Dizer o que? Claro que aceitei. Nunca fugi de desafios. Um mês antes do inicio do curso recebi as passagens e um envelope que dizia: - Só abra o envelope na saída três da rodoviária quando chegar. Isto tem de acontecer às sete da manhã. Se chegar antes espere a hora e se chegar depois dê meia volta para casa.

               Vi cadeiras se arrastando e cada um chegando mais perto do Chefe Bola Branca. A história parecia ser interessante, eu mesmo nunca tinha ouvido falar de um curso assim. – Continuou o Chefe Bola branca – Cheguei na rodoviária às seis e meia. Dei uma busca completa para ver se tinha algum Chefe escondido para me observar. Não vi ninguém. Fui para a saída três e esperei dar às sete horas. Abri o envelope. Um mapa pequeno mais parecendo um croqui e escrito – Boa sorte. Tem uma hora para chegar ao ponto de reunião. Saquei minha bussola silva. Tomei o rumo do mapa e parti a pé. Notei que eram mais de quinze quilômetros nunca chegaria em uma hora. Deveria ter algum mais na carta prego. Virei-a do avesso e não descobria nada. Aí que prestei mais atenção e entre o boa e sorte havia o numero 22 bem pequeno. O que significava? Logo vi um ônibus passado – numero 22! Chapecó – Tinha de ser. Embarquei no ônibus. Pura sorte! Acompanhei seu trajeto com o mapa. O ônibus estava vazio. Alguns passageiros estranhavam aquele Escoteiro mochileiro cheio de bugigangas.

                No mapa vi uma estrada secundária sem residências. A mais ou menos oito quilômetros da rodoviária. Fiquei de olho pela janela. As casas começaram a rarear. Logo a estrada surgiu. Desci e parti em passo Escoteiro e claro usando meu passo duplo. Um rio apareceu. Havia uma barca pequena e o barqueiro parecendo me esperar. Logo ele apareceu. – Mais Um, acho que você é o último. - Ultimo? Perguntei. Ele nada disse. Do outro lado perguntei – Para onde foram os outros? – Disseram-me que vocês sabem seguir pistas, portanto se vire meu amigo e deu meia volta com sua barca. As pistas eram visíveis. Não dava para errar. Como tinha treinamento quando jovem deu para ver um gordo, um magro e vários mais altos que os demais. Quase no alto da colina avistei um Velho sentado em um toco. Chamou-me – Graças a Deus você é o último. Aqui está seu envelope. Boa sorte para você!

                No envelope dizia – Não abra, só quando encontrar sua patrulha a um quilometro rumo sul sudoeste. Se até as dez e meia não encontrá-la dê meia volta. Eles já foram para o ponto de reunião. Olhei o relógio. Dava tempo tinha ainda vinte e cinco minutos. Logo avistei todos eles debaixo de um Jatobá enorme. Receberam-me com alegria. – Pensamos que não chegaria! Ri sem alarde. Afinal eles não me conheciam. Apresentamo-nos – Norberto, Acácio, Jonny Marcus, Pierre, Leonardo, Paulo Antonio e eu Romualdo. Disse para eles que podiam me chamar de Bola Branca. Eles riram. Conforme as instruções a abertura dos envelopes deviam ser pela ordem de chegada. Acácio foi o primeiro a chegar e abriu seu envelope, dizia pouco. - Do rio das aventuras... Logo abriu seu envelope o Pierre que era o segundo – Na grande curva do Castello. E assim foi Paulo Antonio, Norberto, Leonardo, Norberto e eu. Juntamos todas as palavras – “Do rio das aventuras, na grande curva do Castello, um bosque de acácias amarelas, irão viver grandes aventuras”. Às onze e meia em ponto, a bandeira vai farfalhar no vento. Aguardamos vocês. Sejam bem vindos!

               Notei que agora a roda aumentara. Até quem nunca foi Escoteiro estava participando. Todos de olho em Bola Branca. Um narrador perfeito e mesmo não sendo uma história das arábias ela chamava a atenção. Bola Branca parecia estar inebriado com sua narrativa. Olhava para um e outro, gesticulava, sentava e voltava a ficar em pé e sem levantar a voz continuou - Foi divertido descer a toda a colina. O rio do alto era lindo. Quem visse ali aqueles homens vestidos de calça curta e chapelão correndo em uma descida perigosa, iriam achar que eram uma turma de loucos. Logo fomos nos conhecendo naquela descida de uma trilha certeira e em menos de meia hora chegamos ao ponto de reunião. Todos estavam lá. Todos não. Dois convidados não conseguiram chegar. Se perderem no caminho. Claro estavam desclassificados do curso. Duas patrulhas de sete e duas de oito. Como se tivessem surgido do nada os quadro diretores apareceram. Misturaram-se conosco. Abraços, apresentação, sorrisos. Eu gostei muito deles. Tinha receio de serem como os sargentões do exército.

               Um deles com uma trombeta na mão fez a chamada geral. Depois fui saber que a trombeta seria o famoso Chifre do Kudu. Um dos diretores no quinto dia contou a história de como Baden Powell trouxe ao movimento este chifre que é famoso até hoje. Não vou repetir aqui toda a história, pois é muito longa. Formamos por patrulha. Ao Monitor novamente foi entregue um envelope. Dez minutos. Tudo era com tempo marcado. A não ser a apresentação na chegada os diretores pouco falavam. – Nome de patrulha – grito – Lema, encargos de patrulha de cada um (mudar a cada 24 horas). Meus amigos, o curso começou de fato. Entregaram-nos uma caixa de patrulha, cada uma escolheu seu campo e o correm corre começou. Uma hora e meia para fazer almoço, vinte para lavar e limpar campo, o danado do chifre berrando e a gente correndo, façam uma ponte, façam uma paliçada, façam uma ponte elevadiça, façam isto façam aquilo. Às seis da tarde nos deram duas horas para preparar o jantar. As oito e meia o chifre berrava e a gente correndo. Um jogo noturno com os de olhos vendados e amarrados uns aos outros.

                 No quarto dia eu estava pregado e olhe tinha dezoito anos na flor da idade e recém-soldado do exercito. Foi no quarto dia que começamos a nos estranhar. Cada um começou a analisar o outro da patrulha e então apareceu os defeitos. Fulano não ajuda sicrano só quer sombra e água fresca e assim os demais. Caras amarradas, respostas curtas, eu mesmo não posso dizer que fiquei amigo de alguém até ali. Os chefes já esperavam por aquilo. Sempre fazíamos conversas ao pé do fogo e eles nunca falavam muito. Davam um tema e um tempo para discutirmos. Primeiro as patrulhas se dividiam em dois depois em quatro e finalmente em oito. Depois duas patrulhas e a tropa toda. Nunca ficamos mais de que quarenta minutos discutindo algum tema. E nunca no mesmo lugar. Quando foi apresentado As normas e regulamentos para banhos e outros similares o Chefe nos chamou dentro do rio. Tirar a roupa e pular na água foi agradável, o que não foi era ficar ali discutindo. Dois a dois, quatro a quatro, oito a oito, duas patrulhas e a tropa toda. Quarenta minutos. Mas quer saber? Eu aprendi muito. Muito mesmo.

                 Havia queira ou não uma solidariedade grande entre nós. Só no sexto dia fomos conhecer o campo de chefia. Era atrás de um pequeno morro. Eles tinham tudo feito por eles mesmos. Suas pioneiras eram perfeitas. Eles faziam suas refeições. A roda d’água que fizeram para levar água ao campo de chefia era perfeita. Havia um respeito enorme durante a noite. Sempre dormíamos às sete horas e meia programada. Mas o Chifre do Kudu quando tocava era um terror. No sétimo dia começamos a nos entender. Cada um sabia até onde o outro poderia ir. Isto me valeu muito para entender as patrulhas de jovens quando não se entendem. Foi no oitavo dia que aconteceu a surpresa. Estava pregado. Cansado mesmo. Fomos dormir às onze e meia da noite. Às três da manhã acordei assustado. O Toque alto do Chifre do Kudu no alto do morro. Levantamos as pressas e mal deu para vestir os uniformes. Chovia a cântaros. Na subida um Chefe chamou duas patrulhas para ir com ele e às outras com outro Chefe. No alto do morro ele pediu para deitarmos um ao lado do outro. Deitamos. – Ele começou a transmitir uma mensagem de ouvido em ouvido. “O acampamento foi atacado”. Índios Carijós destruíram tudo. Vocês devem tentar reaver tudo que perderam se não irão dormir ao relento e comer bananas verdes! Ficamos ali pensando. O Chefe desapareceu.

                     Só encontramos nossas tralhas com o sol nascendo. Não foi fácil debaixo do temporal encontrar nossa tralha. Ao retornarmos ao campo encontramos tudo destruído. As duas patrulhas separadas também fizeram o mesmo jogo. Sentamos pensativos o que seria tudo aquilo – A chuva amainou e horrorizados olhamos nosso campo. Armar tudo de novo? Montar de novo as pioneiras? De novo o toque do Chifre do Kudu – Hoje vocês terão folga até às quatro da tarde. Montem seus campos e tirem uma soneca de seis horas. A Chefia vai servir um café reforçado e quando acordarem um delicioso almoço com frango caipira! Gritos de urras! De Bravos! De Anrê! Amigos, no décimo dia eu estava em pandarecos. Mas querem saber? Nunca aprendi tanto.

                 Hoje quando lembro sobre acampamentos à moda de Giwell, e as discussões em grupo que fizemos acreditem, nunca esqueci. Foram tantas que algumas marcou. O sistema de patrulhas, a Corte de Honra, programando o programa, aprender a fazer fazendo, padrões de acampamento, lei e promessa, normas e regulamento e tantos outros temas que nos foram apresentados que dou graças a Deus por ter feito este curso. E sabe a surpresa? No último dia ali no cerimonial de bandeira, com a tristeza da partida os quatros dirigentes do curso tomaram a frente e um deles disse – Vocês se mostraram autênticos conhecedores. Estão perfeitamente aptos a receberem o premio a que tem direito sem necessidade de cumprir a etapa um e três (um era o questionário e a três observação). Foi um susto. Mas que surpresa agradável. Um por um éramos chamados à frente e recebíamos o anel de Giwell o Lenço, o colar e o certificado. Pode? Sem observador? Sem parte I? Mas que valeu, valeu. Até hoje me orgulho do meu lenço. Lutei por ele e não me comparo nunca os que receberam de outra maneira.

                       O discurso do Diretor do Curso foi maravilhoso. Convidou-nos a cada três anos participar de um curso de apoio e aperfeiçoamento. Seria como ele dissesse uma volta a Giwell, terra boa. Porque não? Eu nunca perdi um. Fui em cinco depois tudo mudou. Mas mesmo assim ainda vou em algum curso para me atualizar. Preciso aprender o que a nova metodologia tem de bom como dizem por aí. Sei que muitos não vão entender, mas um desafio como foi feito a nós acredito que ainda tem muitos que gostariam de participar. Afinal se vamos dar aventuras aos nossos jovens temos que saber como elas são. Foi para mim marcante. Uma aventura que marcou a todos. Mantivemos contatos por muitos anos. Várias vezes encontramo-nos em vários acampamentos nacionais e internacionais. Sei que dos trinta participantes mais de vinte ainda estão até hoje no escotismo. Hoje tenho orgulho e muito do meu lenço. Alguns me contam como conseguiram o seu. Claro o orgulho é próprio e devemos valorizar sempre o que conquistamos.

                       Uma da manhã. O Mota dono do bar nos olhava desconsolado – Não tem mais histórias? Perguntou. Não mota eu disse. Se possível traga a salgada. Ela sim vai ser uma boa história para cada um dos presentes pagar sua parte sem chiar. Rimo-nos a valer. Cada um dos presentes foi saindo de mansinho. Claro depois do rateio das despesas que não foi pouca. Ficamos eu, Bola Branca, Matusalém e o Mota sentados em volta da mesa. - Tenho que ir meus amigos eu disse. Ainda tenho um pedaço de chão para chegar em casa, nada que seja um percurso de Giwell bem bolado, mas sabe como é a esposa me ama, mas chegar neste horário é demais. Um abraço, um aperto de mão e o Mota me perguntando – Chefe, quando voltarão novamente? Estas histórias são supimpas para fazer a turma beber e gastar! E deu boas risadas. Fui embora pensando. Eu gostaria de ter feito um curso assim. Será que ele vale mais do que os de hoje?   

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.



quarta-feira, 10 de julho de 2013

O Mistério do Corvo da pena dourada.

Lendas escoteiras.
O Mistério do Corvo da pena dourada.

Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa ai, cessa! Clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua. "
E o Corvo disse: "Nunca mais.”.
Edgar Allan Poe.

                  Tanto tempo são passados, mas as lembranças permanecem eternas. Quem me contou foi Lávio, ou melhor, o Chefe Lávio quando em uma noite linda sem luar, reunida em volta de uma
fogueira perdida na margem do Rio Vermelho um sono enorme e eis que ele começa a contar uma história, parecendo tirar as palavras de dentro do chapéu de três bicos que foi trazida pelo vento noturno que soprava o sudoeste do acampamento. Era um acampamento de chefes. O terceiro que participava. A cada dois anos se fazia convite aos grupos, e cada um levava seus chefes em patrulhas de cinco, com seu material de sapa e intendência. A taxa era mínima e este ano não passou de dez reais para que cada um recebesse um distintivo e uma pasta pequena com lembranças do campo. Sempre fora sucesso na região. Neste terceiro passávamos de quatrocentos chefes. Uma apoteose. A cada ano um nome diferente de uma tribo indígena brasileira. Este era o III Kalapalo. Tribo da região do Alto Xingu no Mato Grosso.


                   Eu sabia que a história do Chefe Lávio seria diferente. Já o conhecia de outras plagas. O típico Chefe que não ri. Discreto um olhar profundo e muito ponderado. Mas sabia que sua Tropa o adorava. Deitei em minha manta, o céu lindo estrelado, sorria a passagem de uma estrela cadente. A aragem vinda da margem do rio era gostosa e saudável. – Foi a muito, há muito tempo. Ele começou. Eu ainda morava em Monte Azul. Uma pequena cidade esquecida de Mato Grosso do Sul. Vida simples, meninada solta nas ruas a soltar suas pipas, a brincarem com suas bolinhas de gude, abaixar a cabeça em sinal de respeito para dona Marly ou dona Noêmia nossas professoras quando passavam. Na missa de domingo a melhor roupa. Eu mamãe e papai nunca faltamos. Padre Lemos na porta a nos esperar. Cumprimentar um a um. No púlpito uma surpresa. Um calafrio correu na meninada presente – Amigos! Nossa cidade vai organizar um grupo de Escoteiros. Inscrições abertas no Clube Remanso todo sábado à tarde!

                    Acordei às três da manhã. Papai! Vamos! - Onde? Fazer minha inscrição. Nem almoçamos. Uma fila enorme. Chefe Noel risonho cumprimentava a todos. A inscrição está feita. Agora é aguardar. Iremos treinar alguns para serem os lideres e daqui a três meses vamos chamar todos. Não foram todos. Eram muitos os inscritos. Tempos depois, eu quase esquecendo um Escoteiro uniformizado bateu em nossa porta avisando. A vaga do Lávio está aberta. Deve comparecer sábado às duas da tarde. Poxa, o tempo não passava. As onze almocei e as doze lá fui eu levando meu pai pelas mãos. Meu primeiro dia. Sorteio. Tropa I. Patrulha Corvo. Que orgulho. Sete patrulheiros. Era mais um. Leones o Monitor nem sempre calmo com a gente. Primeiro acampamento em Águas Cantantes. Fiquei maravilhado. Nunca me senti herói como agora. Não falava outra coisa. O Monitor disse que eu devia passar um dia na biblioteca para conhecer nosso líder. O Corvo. Decorei tudo. Não faltou nada. Orgulhava-me de ser um corvo.

                     Seis meses depois já me considerava um veterano. A Patrulha se movimentava bem e apesar de não ser a melhor não devíamos nada as demais. Quando fizemos um ano de Patrulha fizemos um acampamento em Morro Sião. Ao pé do morro uma formidável cascata formando um lago ideal para dar uma boa pescada. Dizem que não é verdade, mas em um campeonato de pesca noturna com vara pesquei uma traíra de mais de três quilos. Ficamos acampados por quatro dias. No terceiro estava programada uma jornada de seis quilômetros, que o Chefe chamou de Procura da Mina do Fantasma. Deu a cada Patrulha um croqui, uma bussola, e uma carta prego. Nela as instruções eram claras. Duas horas de caminhada rumo NNE, encontrar uma grande seringueira de mais de quinze metros de altura. Virando-se para WSE encostados a árvore devíamos seguir por cento e cinquenta metros a contar no passo duplo. Sem erros. A Patrulha era boa nisto. Assim foi feito. Havia uma passagem em um barranco, largo, mas que dava para um enorme despenhadeiro. Ficamos longe dele.

                   Precisávamos tomar novo rumo. E a bússola? Quem ficou responsável? Era eu. Não achei em meus bolsos e nem no bornal que levei. Deu vontade de chorar. Leones me olhou com cara feia. Jair nem falou. Até Nonato o cozinheiro meu amigo não disse nada. – E agora? – Pense Lávio. Tente lembrar onde pode ter esquecido! – Fiz tudo e nada. Resolvi voltar pela trilha. No Barranco na trilha onde passamos parte dele cedeu. Toda a patrulha foi arrastada para o fundo do despenhadeiro. Mais de oitenta metros de queda. Ainda bem que não foi queda livre. No fundo da ravina caímos em vários arbustos cheios de espinhos. Uma dor horrível. Eu gritava de dor e meus companheiros também. Ficamos em pé. Difícil de mexer. Todos sentindo dores enormes. Tínhamos de sair dos espinheiros. Para onde ir? Até o Leones Monitor não sabia o que fazer. Ouvimos ao longe um grasnado de um Corvo. “Croc, Croc, Croc.” O avistei a uns cem metros em uma árvore. Ele voou em cima de nossas cabeças. Sempre indo a uma direção.

                   Não sei por que falei para o Leones que devíamos seguir o corvo. – Por quê? Ele disse. – Porque ele é o guia de nossa Patrulha. Ninguém riu. Com dificuldade conseguimos sair do espinheiro no
rumo que o Corvo voava. Paramos a beira de uma pequena nascente para retirar os espinhos. Grande jogo de seis horas porque levar primeiros socorros? Começou a escurecer. O corvo sempre voando sobre nossas cabeças e depois indo a uma direção. Perdemos a noção de tudo. Mas sempre seguindo o Corvo. Escureceu. Não dava para andar mais. O Chefe e as demais patrulhas devem estar aterrorizados com nosso sumiço. Fazer o que? Um frio forte trazido por uma bruma da ravina nos pegou em cheio. – Alguém tem fósforos? Ninguém. – Lembrei que papai colocou um isqueiro na minha mochila. Porque cargas d’água o coloquei no bolso não sei.

                    Na ravina dava para avistar o céu. Ficamos em baixo de uma Guaritá frondosa. Dormir com aquele frio? Melhor acender um fogo. Com muito custo recolhemos vários gravetos e duas boas achas de madeira. Olhei para um galho na árvore e lá estava o corvo. Ele desceu voando e pousou no meu ombro. Todos dormiam ninguém viu. Interessante que uma pena sua era dourada e as demais pretas. Ele no meu ombro me fixava como se me conhecesse. Ficou ali por muito tempo. Acordei com a alvorada e o fogo apagado. Leones começou a cantar e dançar a musica dos cavalos trotando. Todos nos o acompanhamos. Deu para esquentar. O corvo de novo voando sobre nossas cabeças e seguindo em uma direção. Lá fomos nós. Duas horas depois avistamos o acampamento. Eu agradeci a Deus e quase chorando todos nós nos abraçamos. Não houve acesso de gritos do Chefe a não ser a gozação das demais patrulhas.

                   Até o dia seguinte na partida o corvo ficou lá, próximo ao nosso campo sempre voando e grasnando. Croc. Croc. Croc. Na partida ele nos acompanhou por muitos quilômetros. Da janela do ônibus eu o avistava e ele muitas vezes bicou os vidros querendo dizer alguma coisa. Um sono pesado e dormi feito um anjo. Confesso que nunca achei mais a bússola. Ofereci-me pagar e o Chefe não aceitou. – São coisas que acontecem claro, desde que lhe sirva de lição! Ele disse. No sábado seguinte a Tropa formada para o Cerimonial de Bandeira. Ao final do hasteamento fui convidado para dirigir a oração. Fiquei no meio da Ferradura. - Senhor ensinai-me a ser generoso, a servir-vos como mereces, a dar sem contar, a trabalhar sem descanso... Parei. O corvo estava ali voando em círculos sobre nós. Chamou a atenção de todos. Ficamos olhando seu bailado. Ele desceu até onde estava. Pousou no meu ombro. Tinha preso no bico uma pena dourada. Vou para cima do meu chapéu de três bicos. Colocou lá a pena e saiu voando e grasnando rumo sul. Sumiu no céu azul daquela linda tarde de primavera.

                  Um silencio sepulcral. Ninguém dizia nada. Até o Chefe estava extático e deslumbrado com o fato. Ele sabia da história do Corvo. Não acreditou em nós quando contamos. Tirei meu chapéu. Coloquei a pena dourada do meu querido corvo entre a correia e meu chapéu. Não ficou ali para sempre. Só colocava o troféu do meu amigo corvo nas atividades e solenidades que participávamos. A pena dourada fez história. Tornou-se um mito. Está lá em letras de forma toda a história no livro de Ata da Patrulha. Contam até hoje sua saga em todas as Patrulhas e no Grupo Escoteiro. – Olhei para o Chefe Lávio. Todos olhavam para ele com um ar de incredulidade. Ele se levantou e foi até sua barraca voltando em seguida. No topo do seu chapéu de três bicos lá estava a pena dourada. Linda, nunca tinha visto igual. Ah! Histórias são historias. Algumas marcam outras lembramos de tempos em tempos. E como diz um Velho Chefe Escoteiro:

Boi não é vaca, feijão não é arroz... E quem quiser que conte dois!


E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!


terça-feira, 25 de junho de 2013

A história de Brian, culpado por suspeita.

Quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão; poderá morrer de saudades, mas não estará só.

Histórias que os Escoteiros não contaram.
A história de Brian, culpado por suspeita.

                              Uma vez eu li não sei onde que ser feliz não é
pecado. A felicidade é desprezada por muita gente. A pessoa feliz sofre o preconceito de parecer uma pessoa vazia, sem conteúdo. No entanto, algo ela tem, senão não incomodaria tanto. Será que é porque ela nos confronta com nossa própria miséria existencial? É irritante ver alguém naturalmente linda, rica, simpática, inteligente, culta, talentosa, apaixonada e, ainda por cima, magra! Nem sei por que estou citando tudo isto, mas quando conheci o Brian pela primeira vez ele era tudo isto. Ele conseguiu dar alma ao Grupo Escoteiro Ventos do Norte. Trouxe o sorriso que faltava e todos ali o amavam. Disseram depois que seu jeito, sua maneira de falar e andar, sua voz cheia de trejeitos poderia transmitir resultados danosos ao movimento Escoteiro. Isto não partiu do Grupo Escoteiro. Nem os pais nunca em tempo algum fizeram qualquer comentário.

                              Brian apareceu do nada e do nada se solidificou como pessoa importante na parte burocrática e em tempo algum alimentou seu sonho de um dia ser um Chefe Escoteiro ou de lobinho. Doutor Janilson o Diretor Técnico até hoje não soube explicar de onde ele veio. Não tinha filhos no Grupo e alguns o conheciam na cidade porque era gerente das Lojas Abil, famosa pelos seus vestidos feitos pelos maiores estilistas do mundo. Ali se encontrava um Gabriell Miuccia Prada, um Bonheur Chanel, um Christian Dior ou mesmo um John Galliano sem falar nas famosas bolsas Louis Vuitton. Era bem quisto pela sociedade local e muitas madames o procuravam diretamente e só queriam ser atendidas por ele. Mas Brian tinha um grande amor. O Escotismo. Como surgiu ninguém soube. Era incansável na colaboração ao Grupo Escoteiro. Conseguiu com suas amizades vultosas colaborações financeiras para o Grupo.

                              Nunca fez a promessa e quando isto acontecia ele corria para o cerimonial e ficava ali, olhando com olhos de inveja, de vontade de ser mais um sem poder ser pois sabia que nunca iriam lhe dar esta honra. Ele tinha certeza que no Grupo Escoteiro seus trejeitos eram considerados normais pois sabia que uma pessoa com preconceito é, uma pessoa que não merece respeito. E ele respeitava a todos. Mas não era o que pensava Jonny Vampuso. Ele mesmo se perguntou varias vezes se estava certo eles terem no Grupo Escoteiro um sujeito que era conhecido como um homossexual ou um sapatão. Verdade ou não ele descartava o que um dia um filosofo disse que devemos evitar toda “precipitação” e todo o “preconceito” ao analisar um assunto e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto.

                               Uma das maiores alegrias de Brian foi quando a Akelá Sophia o convidou para ajudar no acantonamento distrital. Brian nunca se sentiu tão feliz. Parecia estar em casa ou melhor no paraíso. Os lobinhos o adoravam e os chefes passaram a ter por ele um carinho todo especial. Quando retornaram pensou que o Doutor Janilson o Diretor Técnico o convidasse para ser um assistente. Mas nada aconteceu. Ele não sabia mas seu algoz Jonny Vampuso já tinha feito sua cama não só com o Chefe do Grupo mas com boa parte do Distrito e região. É melhor não falar que eram preconceituosos, que julgavam ser conhecer pois a maioria dos preconceitos são reflexos de defeitos não revelados pelos preconceituosos (Alberto Pires).

                               Não se sabia o porquê de um dia o chamarem no Escritório Regional. O Doutor Janilson disse não saber e nem se ofereceu a ir com ele. Brian sentiu-se um cordeiro a mercê dos lobos a sua volta. Eram quatro. Sisudos. Cara feia. Nem um sorriso. Eram chefes Escoteiros zelando pelo bem e da moral escoteira.  Fizeram mil perguntas e no final da reunião um querendo mostrar ser boa praça o convidou para um café. Falava baixinho, sobre o que pensavam dele, sobre os resultados maldosos que o escotismo poderia ter com sua presença, chegou até a citar Paulo Coelho que disse que quem tentar possuir uma flor, verá sua beleza murchando.
Mas quem apenas olhar uma flor num campo, permanecerá para sempre com ela. – Você meu amigo ele disse, sabe que não o aceitam em todos os lugares, infelizmente este mundo nosso é cruel. Vamos evitar que façam uma demissão sua, pois você tem o registro anual e seria melhor você pedir demissão do seu cargo no Grupo Escoteiro. Isto evitaria rusgas e processos inúteis.

                                Brian foi para casa com uma emoção profunda. Ele sabia o que era e a vida o obrigou a fingir o que não era. Chorou no ônibus, e a tristeza o invadiu por muito tempo. Saiu do Grupo Escoteiro Ventos do Norte. Ficava aos sábados sonhando com seu passado Escoteiro que para dizer a verdade nunca existiu e se isto tivesse acontecido agora não existia mais. Ele sabia que as nuvens das tristezas são como o vento. Quando desaparecem o dia fica lindo. Pensava em enfrentar a todos os maledicentes, aos preconceituosos que a verdade não é só deles. Falava para si mesmo que nunca devia deixar de fazer algo de bom que seu coração pede. Se isto acontecer o tempo poderá passar e as oportunidades também. Ele já sabia o que iria fazer.

                                  Quando naquela tarde Jonny Vampuso entrou na loja com sua noiva para comprar um vestido ele pensou em não atendê-lo. Afinal ele sabia que o dedo duro foi ele. Porque fizera isto? Ele nunca lhe tinha feito nenhum mal. Pensou e pensou mas seu coração não sabia odiar. O atendeu até melhor que muitos que ali estiveram. A noiva de Jonny Vampuso se encantou com Brian. Na saída Jonny Vampuso num impulso de bom Escoteiro foi até ele e lhe pediu desculpas. Brian pensou consigo se o pedido de desculpas resolveria toda a mágoa que tinha guardado em seu peito. Sabia que Jonny Vampuso errara e será que ele não merecia o perdão? Pensou mesmo em não apertar sua mão. Mas quando viu que ele lhe dera a esquerda, aquela que dizem ser do coração e que o próprio Mestre Baden Powell disse que só os valentes entre os valentes podem se saudar assim, ele aceitou. Quando Jonny Vampuso foi embora as lagrimas desceram novamente.

                                As flores não murcham na primavera mas a vida de Brian se encerrou ali. Naquele mesmo dia dois menores entraram
para roubar e deram um tiro certeiro em Brian. Morreu na hora. A sociedade em peso tristonha mas não participativa. As Madames que ele sempre atendia com presteza ele sempre soube que para elas era como se ele fosse um cão abnegado. Como se elas gostassem que ele disse sempre – Sabe Madame! Eu sou aquele que sempre lhe espera. O som de seu carro tem para mim o valor especial. Eu posso reconhecê-lo entre mil. Os seus passos têm timbre de magia e eles são música para mim. A sua voz Madame é o sinal maior do meu momento feliz e às vezes Madame, vocês não precisam nem falar, eu sei o que querem!

                                 Eu fui ao enterro de Brian. Simples. Não vi lá nenhuma Madame. Talvez a sociedade não perdoasse tal bajulação. Escoteiros? Vi poucos. Uns dez lobos e uma Akelá chorosa. Doutor Janilson apareceu para dizer olá e se foi. Jonny Vampuso também apareceu mas ficou pouco tempo. Quando a terra sagrada o cobriu avistei uma senhora magrinha, vestida simplesmente, com um menino nos braços e em uma das mãos uma menina de uns oitos anos todos chorando. Não tendo mais ninguém lá elas se aproximaram da última morada de Brian. Fiquei curioso. Aproximei-me. – Vocês o conheciam? – A menina chorando e soluçando disse – Era meu pai! A Senhora me contou que era sua esposa. Ele fez um trato com ela quando casaram. Tenho meu amor que fingir o que não sou. Meu trabalho me obriga. A sociedade que eu atendo se sente satisfeita com minha voz, meus trejeitos e sabe, um dia vamos embora daqui.

                                 Que vida, pensei. Ninguém deu nada por ele. O acusaram de ser o que não era. Mas de quem seria a culpa? Dele? Dos que viveram a sua volta? Ou dos preconceitos que norteiam uma sociedade que não aceita os direitos dos que se acham possuídos dele? Não diziam e não dizem que meu direito começa onde termina o seu? Dizem eu não sei que um dia isto vai mudar. Se alguém demonstra respeito, se demonstra caráter e se tem ética este alguém não deve ser visto como um homem ou uma mulher de bem? Eu sei que no escotismo não estamos preparados para isto. Conheço muitos que dizer ser sem terem sido. Mas quem sou eu para julgar? Se um bom trabalho é realizado merece toda nossa consideração. Melhor parodiar Paulo Coelho quando disse – “Daqui por diante, o Universo vai boicotar as pessoas preconceituosas. A energia da terra precisa ser renovada constantemente. O corpo e a alma precisam de novos caminhos para se unirem harmoniosamente. O futuro bate à nossa porta, e todas as ideias - exceto as que envolvem preconceitos - terão chance de aparecer e serão valorizadas pelas pessoas”.

Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça de que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade.



domingo, 16 de junho de 2013

A lenda do Escoteiro do mar. Só o vento do mar azul sabe a resposta.

A lenda do Escoteiro do mar.
Só o vento do mar azul sabe a resposta.

Não te prometo a terra, nem o céu, nem o mar; Mas pra sempre, eu vou te amar!

                        Uma linda tarde de setembro. Um céu azul, um vento
sul soprando perfumes que o mar generosamente nos oferecia sem nada em troca. Minhas tardes de sábados estavam chegando ao fim. A Bandeira tinha sido arreada. Os sete silvos do apito de marinheiro ainda corriam pelos cantos da sede como se fossem ecos perdidos no tempo. O Grupo Escoteiro do Mar Almirante Graça Aranha teve mais um dia de história. História que ficaria na mente de todos como fantasmas amigos para sempre. Os lobinhos ainda tinham no rosto aquele mote de quero mais. Os Escoteiros aqui e ali se reunião em seus cantos de Patrulha para os avisos finais. Posicionei-me como sempre fazia na saída da sede. Uma rotina. Fazia questão de apertar a mão de cada um e dizer – Obrigado por estar conosco. Conto com você na próxima reunião. Sempre fiz isto nos últimos setenta anos. Poucos ligavam para o que eu fazia. Não davam nenhum valor. Nunca me importei com isto. Chamavam-me de Almirante Ramon. Eu sabia que não era e nunca fui almirante. Para dizer a verdade nem me lembro de quem me apelidou assim. Claro eu amava com todas as forças os Escoteiros do mar. E toda minha vida sempre tive em meu coração o Grupo Escoteiro do Mar Almirante Graça Aranha.

                         Fui até o escritório. Precisa mais de mim? Perguntei ao Chefe Cornélio. - Não Almirante pode ir – respondeu. Sai devagar e com calma. Meu andar já não era o mesmo. Muitas vezes cambaleava e alguns transeuntes achavam que eu tinha bebido. Risos. Quem sou eu. Fui sim um alcoólatra, mas hoje não sou mais graças a ela. Precisava de uma bengala. Meus proventos do INSS não dava. Eu sabia aonde ia. Sempre fiz este trajeto todos os sábados por muitos anos. Menos de um quarteirão descia uma pequena encosta e o mar com todo seu esplendor ali estava a me esperar. Amo o mar. Sempre amei. Só ela estava acima deste amor que eu tinha por aquelas águas azuis que encantaram e encantam gerações. Avistei o Scaler de fibra de vidro, ao lado o Caique (alguns chamam de caiaque), o bote também de fibra de vidro e o barco de alumínio fundo chato movido a motor de popa. Todos do meu querido Grupo do Mar Almirante Graça Aranha.

                         Já não eram os mesmos do meu tempo, afinal fazia mais de setenta anos que tudo aconteceu. De dentro do barco tirei meu banco de madeira. O sol em pouco tempo ia se esconder no horizonte. Engolido pelo mar. Sentei como sempre fazia e esperava ela chegar. Nunca se atrasou. Fazia questão de ver o por do sol junto comigo. Eu sempre sonhei em participar como Chefe. Tirar minha carteira de habilitação de Arrais, e sabia que a Capitania dos Portos nunca ia me reprovar. Todos os chefes do grupo tinham sua habilitação. Seis jovens seniores de dezesseis anos conseguiram autorização para conduzirem suas embarcações sozinhos. Ostentavam com orgulho o seu distintivo de Veleiro. Como sempre meus pensamentos eram como ventos revoltos. O passado não me abandonava. Meus sonhos nunca se concretizaram. Nem Chefe me autorização ser. Dizia que eu não falava muito, que não ria que meu semblante não transmitia o oitavo artigo da Lei do Escoteiro. Para ser Chefe diziam tem de ter estilo, aparência e um histórico diferente do meu.

                          Nunca desisti de ser Escoteiro do Mar. Mesmo depois que tudo aconteceu eu Insistia em ir ao Grupo Escoteiro todos os sábados. Pela manhã passava a blusa, a calça com perfeição. O meu chapéu de Marinheiro de brim branco nunca perdeu o vinco. A camisa e o calção de brim mescla nunca mudei. Meu cinto de couro tinha o maior carinho. Meu ritual começa ao colocar o meião preto, e ver se os sapatos estavam engraxados. Fazia questão de o lenço estar bem postado. Nem um botão desabotoado. Ao sair ainda dava outra olhada no espelho. 86 anos. 76 fazendo o mesmo todos os dias. Sempre pensei em comprar um dia o uniforme de gala. Nunca tive condições financeiras. O tempo! O tempo não se apaga, ele faz questão de mostrar que nada pode ser esquecido. Se ele pudesse falar diria que só assim poderemos crescer na eternidade. Como esquecer Bella? Como?

                         Lembro-me de tudo. De cada minuto que a conheci e vivi ao seu lado. Não era da minha patrulha. Eu fui da Lobo e ela da Onça Parda. Quando ela foi apresentada ao grupo no cerimonial o
Chefe fez questão de tocar seu apito de marinheiro por sete vezes. Uma espécie de saudação pela primeira jovem que iniciava conosco. Ali, aqueles meninos do clube do bolinha que só sabiam pensar nas aventuras que poderiam fazer no mar não olharam com bons olhos. Eu e Bella ficamos amigos. Passamos a nos encontrar durante a semana não todos os dias. Um dia sim um dia não. Seu pai nos encontrou. Eu tinha quatorze anos e ela treze. Tentei explicar que era Escoteiro do mesmo grupo, mas ele nem deu resposta. Procurou o Chefe da Tropa que me proibiu de vê-la. Impossível. Eu só pensava nela. Até meus estudos estavam sendo prejudicados. Minha mãe me chamou atenção. Meu pai eu não sabia quem era. Sumiu no mundo e nunca mais voltou.

                         Olhei de novo para o horizonte. Mais alguns minutos o sol iria se por. Mais alguns minutos ela ia chegar. Meu coração sempre batia descompassadamente. Pensando no meu passado relembrei um poema que li em um blog – O Escoteiro do Mar representa a água, que garante a vida de todos. Peço a ajuda de Poseidon para que mande um Tsunami e destruir as maldades do mundo, das injustiças e peço também a este Tsunami que se transforme em um manso regato para acalmar todos os corações aflitos e ansiosos. Quando lembrava uma emoção tomava meu ser. Machucava. Amar alguém sem poder tocar? Sem estar junto todos os segundos do tempo? Afinal o que é o tempo? Eu não sabia das respostas. Mas como se fosse um grande tela de cinema, comecei a ver o meu passado que os ventos do sul me traziam. Era assim todos os sábados. Por quê? Eu sabia de tudo. Cada segundo estava preso no fundo do meu coração. Não precisava recordar.

                            Bella! Venha comigo, vamos dar uma volta no mar? Só próximo à praia. Não tem perigo! – Bela me olhava curiosa e renitente. Sorria. Que sorriso. Nunca esqueci. Treze anos e linda como uma deusa. Joguei o Barco de alumínio nas ondas que insistiam em ir e vir. Dentro dois remos comuns. O motor não estava lá. Bella não queria. Uma volta somente eu prometi. Você sabe, vou passar uma semana sem ver você. Sei pai disse se nos ver juntos tira você do Grupo Escoteiro. Ainda não escureceu. A reunião hoje acabou mais cedo. Temos tempo. Ela não queria. Encontrávamo-nos ali onde ficavam as embarcações do grupo. Por ser distante de residências tínhamos liberdade de correr, de sorrir e uma vez ou outra eu pegava em sua mão. Quente. Macia, perfumosa. Ia para casa sentindo o aroma de seu perfume. Relutava em tomar banho. Não queria que ele desaparecesse.

                              Entrei no barco e ela entrou comigo. Eu ria, cantava, fiquei empolgado e em minha mente sonhava estar singrando os mares em um grande veleiro, ela ao meu lado sorrindo, perfumosa e eu a beijava. Um beijo a moda antiga. Um roçar de lábios que marcaria a minha vida para sempre. Até hoje não sei o que aconteceu. Estávamos a menos de vinte metros da praia. Um pé de vento? Um retorno mais forte de uma onda que voltou da praia? Não sei. Nosso barco começou a se afastar da costa. Gritava para ver se alguém nos ouvia. Ninguém. A terra sumiu. Em todos os lados só água e água. Na Patrulha aprendemos que se vai para o mar, avie-te em terra. Não tínhamos nada. Nem água. A noite chegou brava. Nuvens escuras apareceram. O barco a deriva mais a deriva ficou. Não tinha condições de remar. Nem ela. Meus braços que tentaram muito agora estavam prostrados. A tempestade gritava com trovões assustadores e seus raios iluminavam as enormes ondas que se formavam.

                               Eu sabia me orientar. Mas para que? A chuva e o vento forte faziam do barquinho uma folha de amoreira. Mesmo que avistasse o farol do Forte nada adiantaria. Pedia a Deus que outras embarcações quem sabe poderiam aparecer e nos ajudar. Mas quem sabia onde estávamos? Ninguém nos viu. Lembro-me das palavras do Chefe, nunca bebam água do mar. Ainda bem que chovia em um canto do barco a água empossou. Eu e ela estávamos de uniforme, mas sem nenhum apetrecho. Cantil? Em reuniões comuns? Deus ainda ajudou, pois o barquinho aguentou as enormes ondas. A chuva amainou. Estava molhado e cansado. Eu e ela dormimos ali aquela noite. Dois perdidos no meio do oceano. Acordamos pela manhã. Não havia pássaros sinal de que estávamos longe da terra. O sol chegou forte. Ainda deu para beber o resto da agua que se armazenou no bote. Era pouca. Logo ela sumiu. À tarde a sede era enorme. Ainda não tinha fome e nem ela. Ela chorou só noite. Encostou sua cabeça em meus ombros e chorou por muito tempo. Eu não sabia o que dizer. Consolar como? Estávamos perdidos e só Deus poderia nos salvar.

                              No segundo dia comecei a ficar desesperado. Foi ela quem teve as palavras de consolo. Não se desespere! Disse. Lembro que minha Chefe me dizia que o que aconteceu não tem volta. Nunca deveríamos ter saído despreparado. Nem uma lona temos para armazenar água. Se tudo agora aconteceu precisamos manter a calma. Dormi a pior noite da minha vida. Bella me abraçou. Acordamos com o sol queimando meus olhos e o dela. Deitados no
barquinho sentimos que ele estava parado balançando com as ondas. Levantei com dificuldade. Meu Deus! Era uma ilha ou o continente. Acordei Bella. Ela gemia. Estava febril. Com muito custo saímos do barco. Puxei-a pelos ombros até sair da água. Vi ao longe uma senhora correndo em nossa direção. Desmaiei. Acordei dois dias depois. – Dona! Onde está Bella? Pelo amor de Deus me diga que ela está bem! – Está sim. Seus pais vieram buscá-la. Ela não os reconheceu. Parecia estar cega!

                               O tempo passou. Um ano talvez. Sempre ficava horas e horas em frente à casa de Bella. Nunca ela apareceu. Um dia na Missa de São Pedro eu a vi. Usava óculos escuros. Foi como uma faca penetrando em meu coração. Pensei em me aproximar, mas o olhar de seu pai me assustou. Fora tudo culpa minha. Quase não ia mais ao grupo. Parecia que eu era culpado sem direito a defesa. Era mesmo. Provoquei tudo. O tempo foi passando e um dia tomei uma decisão. Bati a porta da casa de Bella. Sua mãe assustou. – Bella vai casar comigo. Eu a amo. Nós vamos ficar juntos para sempre! – Demorou para convencer seus pais. Fiz dezoito anos e ela com dezessete me abraçou e jurou ser minha para sempre na Igrejinha de São Raimundo. Voltamos a frequentar o grupo. Era minha segunda paixão. Não fui o escoteiro do mar que deveria ter sido. Mas com Bella ao meu lado eu seria de novo. Mesmo sem enxergar eu seria seus olhos. Eu mostraria a ela a beleza das flores, ela iria sentir o perfume da primavera. Nada iria faltar. Trabalhava na Fabrica do Doutor Romeu.

                              Dez anos de casado. Dez anos de felicidade. Bella tinha uma angina no peito. Ninguém sabia. Morreu de um ataque fulminante num dia qualquer de janeiro. Eu queria morrer com ela. Não podia. Não tinha condições de viver sem ela. Dediquei-me mais ao Grupo do Mar. Era minha segunda paixão. Quem sabe ele poderia me dar à paz que eu queria? Cada sábado era esperado como se fosse ontem. Parei de sorrir. Não havia motivos. Falar? Falar o que? Por muitos anos todos me culparam pelo acontecido. A chefia do Grupo foi contra meu retorno. Mas aceitaram. Passei a ser um faz tudo no grupo. Nunca seria Chefe. Ninguém iria confiar em mim para sair mar adentro. Também não insisti, não adiantava. Ali no grupo Escoteiro eu a via em todos os lugares. Falava com ela. Riam de mim. - Agora deu para isto diziam. 

                             Olhei de novo para o mar. Meus pensamentos desapareceram. Ela estava chegando. A mais linda gaivota que um dia existiu. Não era uma gaivota qualquer. Era branca como a neve e eu sempre quando a via ficava fascinado pela sua beleza. Não chegava sem antes fazer lindas acrobacias. Desenhava no céu com suas asas enormes nomes que ninguém nunca soube o que era. Só eu. Ela com seus escritos fantásticos no céu dizia – Amo você! Amarei por toda vida! Eu ali com meu garboso uniforme de Escoteiro do Mar me levantava. Ela vinha suavemente pousar em meu ombro. Bicava de leve minhas faces. E juntos ficávamos vendo o por do sol, até ele sumir do outro lado do oceano. Ficávamos os dois até altas horas da noite. Quem um dia passasse por ali diria que era loucura. Uma gaivota não fala. Um Velho a conversar com ela?

                              Demorou-se mais de uma semana para darem falta do Almirante Ramon. Ninguém nunca pensava nele como mais um. Não havia mais rancores, mas ele era apenas uma figura apagada. Deram falta de um caíque. Seis meses depois uma fragata da marinha o encontrou a deriva bem longe da costa. Em um sábado uma Patrulha de valorosos Escoteiros do Mar preparava-se para partir rumo a Ilha das Cabras. Acampamento de dois dias. Puseram-se no mar e um deles percebeu duas gaivotas sobrevoando seu Scaler. Todos olharam para o céu e pareciam que elas queriam dizer alguma coisa. Maria Bonita uma escoteira do Mar conseguiu ler. Não acreditou, mas mostrou aos demais Escoteiros o que estava escrito. – Bons Ventos escoteiros do Mar! Não façam do mar um obstáculo, pois ele é o caminho (Amyr Klink). Todos ficaram estupefatos. O vento soprou com mais força, a vela esticou suas asas para frente. Um sorriso brotou e logo o barco navegava para mais uma aventura. Era como se fosse o Rataplã dos Escoteiros do mar! Alguém gritou – Rumo sota-vento! Em frente vamos navegar!


Seja como as ondas do mar
que mesmo quebrando contra os obstáculos,
encontram força para 
recomeçar.


** -- Alguns termos técnicos usados neste conto, foi uma colaboração do Chefe Ronaldo Morgado.


Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....