quarta-feira, 2 de outubro de 2013

As aventuras de Maneco Papa Léguas, um Monitor das Arábias.

"Se você que ser feliz por uma hora, tire uma soneca; por um dia, vá pescar; por um mês, case-se; por um ano, herde uma fortuna; pela vida inteira, ajude os outros." (Ditado chinês).

As aventuras de Maneco Papa Léguas, um Monitor das Arábias.
Nunca é tão fácil perder-se como quando se julga conhecer o caminho.

           Ninguém acreditava quando ele foi eleito Monitor. Impossível diziam uns,
incrível diziam outros. A patrulha Gavião do Mar não sabia o que dizer. Melhor pensar que pimenta nos olhos dos outros é refresco. Será? Pode ser, pois quem com ferro fere com ferro será ferido.  Alguns meses depois é que conversando com um e outro todos ficaram sabendo que tudo não passou de uma brincadeira. Brincadeira? Sim, isso mesmo, Zezito votou nele para zuar. Pensava que seria o único voto. Nonô pensou a mesma coisa. Malemali fez o mesmo e até o Joca o Monitor que saia do cargo também votou nele. Coitada da patrulha Gavião do Mar. Agora ela seria sempre a ultima. Mas águas passadas não movem moinho. Nos últimos tempos ela não ia bem. Não era sempre a última, mas nunca chegava ao primeiro lugar. Virou motivo de piadas na tropa a eleição de Maneco Papa Léguas.


           Dizem por aí que não há mal que sempre dure. Dito e feito como o velho proverbio que dizia não faltará rei que vos mande, nem papa que vos excomungue a Patrulha Gavião do Mar se sentiu humilhada. Reuniram-se na casa de Maneco Papa Léguas. Ele estava meio “vexado”. Claro quando viu que teve quase todos os votos riu de orelha a orelha. Nem notou o espanto da patrulha. Ele sempre dizia para si que não há capuz por mais santo em que o diabo não possa meter cabeça. Ia mostrar a todos da tropa Agulhas Negras que ele seria o melhor Monitor até então. Ele iria aprender, jurou que iria aprender tudo e ser o melhor Monitor que já existiu no Grupo Escoteiro Olavo Bilac. Iria com calma, pois quem corre cansa, e quem anda alcança. Precisava da colaboração dos outros, pois ele sabia que uma andorinha só não faz verão.

          Maneco Papa Léguas nasceu sorrindo. No inicio seus pais não notaram. É sempre assim quando somos bebês. Mas cesteiro que faz um cesto faz um cento. E eles um dia descobriram que ele era lerdo, ou melhor, vagaroso e mesmo sabendo que cachorro que muito anda, apanha pau ou rabugem eles não desanimaram. Fizeram tudo para que Maneco Papa Léguas acompanhasse seus amigos de classe. O apelido de retardado era comum nos colegas de classe. As professoras gostavam dele. Calado, nunca reclamava, mas seu aprendizado deixava a desejar. Elas sabiam que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura e assim aos trancos e barrancos ele foi passando de série em série. Mas sempre foi motivo de piada no Grupo Escolar Padre Coimbra. Ele abaixava a cabeça e não dizia nada. Pimenta nos olhos dos outros é refresco dizia. Que aproveitem agora, pois ele um dia seria o prefeito da cidade. Mesmo com dificuldade ele se esforçava. Ele sabia que quem guarda o que convém um dia a te servir bem.

           Entrou no Grupo Escoteiro com oito anos. Seus pais explicaram aos chefes como ele era. Eles sorriram e disseram que ele era bem vindo. Seu pai pensou que quem a boca do meu filho beija a minha boca adoça. Não colocaram apelido nele quando lobinho. Ao passar para a tropa dos escoteiros em uma excursão viram que ele andava bem devagar, alguém riu e disse que ele era um papa léguas. O apelido ficou. Não conseguia acompanhar os demais com as provas de classe. Só com treze anos e com muita dificuldade conseguiu a segunda classe. Ele sabia que quem não valoriza a candeia próxima, dificilmente entenderia o esplendor das estrelas. Nunca pensou em ser Monitor. Ele amava o escotismo ao seu modo. Sentia-se bem ali. Sabia que cada dia ensina algo ao dia seguinte.

              A reunião da Patrulha em sua casa o encheu de alegria. Ele sabia que amigos verdadeiros são como o sol, não precisam aparecer todos os dias para saber que eles existem. Combinaram de fazer da patrulha uma união perfeita. Um por todos e todos por um seria o lema agora. Maneco Papa Léguas chorou de alegria. Foi uma surpresa na reunião seguinte. Viram Maneco Papa Léguas na frente da patrulha sem olhar e ela bem formada. No primeiro jogo do Vira Latas ele levou a patrulha com maestria. O Chefe Ziraldo ficou boquiaberto. Nunca pensou que a patrulha Gavião do Mar se transformasse tanto. Disse para si mesmo que tudo o que somos é o resultado do que temos pensado. Se uma pessoa fala ou age com pensamento ruim, a dor a segue, tal como a roda segue a pata do boi que puxa a carroça... Se uma pessoa fala ou age com um pensamento puro, a felicidade a segue como uma sombra que nunca a abandona.

             Estava aproximando a data do acampamento de verão. Sempre a tropa vibrava naqueles dias principalmente se o local escolhido fosse bem arborizado, boa aguada, bambus e um remanso que não fosse fundo e com corredeiras. Maneco Papa Léguas o novo Monitor achou que podia e não sabia que poder é ter o que fazer. Na Corte de Honra tentou uma autorização para só a patrulha fazer um acampamento de fim de semana. Não aprovaram. Com muito custo os deixaram fazer uma atividade em um domingo no sítio do Prefeito Galo Preto que era Presidente do Grupo. Se você vai fazer alguma coisa errada, aproveite. Não é assim que falam? Todas as três patrulhas esperaram o pior nesta atividade. O próprio Chefe Ziraldo achava que se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. Ele estava com medo.

              O Chefe Ziraldo se preparou para monitorar de longe a patrulha Gavião do Mar. Ele sabia que a condenação do silêncio é mais eficiente que as acusações ruidosas. Mas não se sabe como o Chefe Ziraldo dormiu até tarde. Acordou já era mais de meio dia. Pegou sua bicicleta e saiu a toda até o Sitio do Prefeito Galo Preto. Esqueceu-se de pensar como fazia sempre. Antes de começar o trabalho de mudar o mundo, dê três voltas dentro de sua casa. No sitio não encontrou ninguém. O caseiro disse que chegaram lá e partiram. Para onde ele não sabia. Pensou que nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto à explicação do manual. Ele era um bom mateiro e iria encontrá-los. Viu suas pegadas na beirada do córrego do Caiapó. Eles passaram por ali a mais ou menos três horas. Esperava que tudo estivesse bem com Maneco Papa Léguas e seus patrulheiros. Ele sabia que a felicidade é uma pausa na inquietação da vida.

               Os Gaviões do Mar estavam se divertindo a beça. Já tinham tomado um banho num lindo remanso. Ele agradecia ao bom Deus que lhe deu este premio. Ele não era o que diziam. Ele sabia que aquele que não agradece pelas pequenas coisas não agradece o bastante. Sentados em uma pedra observando a queda de uma enorme cascata Maneco Papa Léguas ouviu um gemido. Pediu silêncio a patrulha. Ninguém ouviu nada. Continuaram em silêncio. De novo o gemido. Os patrulheiros achavam que Maneco Papa Léguas não estava bem com suas ideias. Sabiam que aquele que pergunta é um tolo por cinco minutos, mas aquele que não pergunta permanece um tolo para sempre.             

                  Maneco Papa Léguas chamou a patrulha e pediu para segui-lo. Eles acharam mesmo que seu Monitor não era o que pensavam. Tentaram demovê-lo, mas uma mente fechada é como um livro fechado; somente um bloco de madeira. – Vocês me desculpem, mas não vou arredar o pé de dar uma busca naquela pequena mata. Se vocês forem patrulheiros disciplinados me sigam ou então fiquem aqui. Ele sabia e tinha certeza que iria descobrir o motivo do gemido. Nada que se compare aquelas seis fases de um projeto: Entusiasmo; Desilusão; Pânico; Busca de culpados; Punição dos inocentes e gloria aos não participantes. Que seja. Subiu morro acima e não demorou em encontrar um automóvel todo destruído. Ainda saía fumaça dos motores.

                 Viu que toda a patrulha estava com ele. La dentro viu um motorista ensanguentado e ao seu lado uma mulher também. Atrás um bebê sorrindo em uma cadeirinha preza ao banco trazeiro. Ele sabia que o tempo não apaga o tempo. A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional
ao valor do carpete. Não podiam pensar. Tinham de socorrer. Com muito custo tiraram a mulher e o homem. Sangue para todo o lado. Foi nesta hora que chegou o Chefe Ziraldo. Tomou conhecimento da situação. Onde está o Maneco Papa Léguas? – Tentando socorrer um bebê preso no banco trazeiro. Chefe Ziraldo foi correndo até lá. Viu que começava a sair chamas pelo capô do motor. Sabia que o carro iria explodir logo que as chamas atingissem o tanque de gasolina. Gritou chamando Maneco Papa Léguas. – Vai explodir Maneco! Saia daí urgente! A confiança é aquele sentimento que você tem antes de compreender a situação. Era assim que o Chefe Ziraldo pensava e não sabendo o que fazer.

               Nada é tão ruim que não possa piorar. Ele sabia que o material é danificado segundo a proporção direta do seu valor. A morte de Maneco Papa Léguas seria sua derrocada. Ele nunca deveria ter aceitado a eleição na patrulha. Um clarão se elevou aos céus e um enorme estrondo aconteceu. O carro havia explodido. Toda a patrulha e o Chefe Ziraldo estavam prostrados a olhar de longe aquela fumaça da explosão que praticamente dizimou a vida de Maneco Papa Léguas. Qualquer esforço para se agarrar um objeto em queda provocará mais destruição do que se deixássemos o objeto cair naturalmente. Era assim que todos pensavam. O impossível aconteceu. Maneco Papa Léguas bem queimado trazia no colo o bebê que chorava. Como ele conseguiu ele mesmo nem sabia. Os assuntos mais simples são aqueles dos quais você não entende nada.

               Em menos de quatro horas o socorro chegou. Os bombeiros agiram rápidos. Dizem que depois da tempestade vem a bonança. Era hora de ver se errar é humano, se persistir no erro é americano e acertar no alvo é mulçumano. A ação de Maneco Papa Léguas chegou rápido a cidade. A patrulha salvou um dos mais altos dignitários da nação, nada mais nada menos que Excelentíssimo Doutor Pocahontas Nonato. Homem que todos admiravam pelo seu trabalho na Suprema Corte Brasileira. A patrulha teve uma homenagem especial em Brasília. Cada um recebeu um certificado parabenizando o que fizeram. Maneco Papa Léguas recebeu a Medalha de Mérito Nacional.

               Onde Maneco Papa Léguas passava era saudado como herói. A imagem que faziam dele de retardado desapareceu. Ele sabia que quem é sábio procura aprender, mas os tolos estão satisfeito com sua própria ignorância. Ele não se enfeitou com todas as bajulações, mas confiava em sua patrulha em sua tropa. Maneco Papa Léguas cresceu. Formou-se em técnico agrícola. Aos vinte e cinco anos foi eleito prefeito da cidade. É o tal negócio quem procura ter sabedoria ama a vida, e quem age com inteligência encontra a felicidade. No escotismo encontramos todo tipo de pessoas. Mas sabendo que água mole em pedra dura tanto bate até que fura sabemos que o crescimento individual e coletivo é infalível. Enfim como disse Salomão, o sábio esconde sabedoria, o tolo anuncia a sua ignorância.

Nota – Diversos provérbios foram colocados no desenrolar da história.

A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede.



terça-feira, 10 de setembro de 2013

O enigma da Cidade misteriosa da Vovó Mafalda.


“Nunca se sabe quando portais para outra dimensão são abertos. O que acontece quando isso ocorre? Que efeitos podem provocar? O que atravessa por esses portais? Que caminhos surgem e para onde levam? Isso ninguém sabe, por enquanto...”.

(A Patrulha Touro é formada por Caititu, Fumanchu, Cabeçudo, Vara de Marmelo, Língua Grande, Zé Lorota e eu o famoso Perna Seca!).

O enigma da Cidade misteriosa da Vovó Mafalda.

               Não gosto de contar esta história. Todos me ouvem com um sorriso de incredulidade no rosto. É chato isto. Afinal então porque me pedem para contar historias? Quer saber? Tem hora que dá vontade de não contar, mas eles insistem mesmo não acreditando. Quando contei para eles da cidade misteriosa da Vovó Mafalda eles deram grandes risadas – Perna Seca, você é um pândego! Danado! Além de rir de mim e duvidar nem pelo nome me chama. Tudo bem. Na próxima ele vai ver. Não deveria haver nada de anormal na jornada. Tínhamos feito à mesma rota no ano passado. Carioca de Lagoa Dourada mandara o telegrama na ultima hora. Achávamos que eles iriam cancelar este ano. Não houve problemas e na sexta pela manhã partimos. Todos os anos sempre fomos lá. Era gostoso participar. Na primeira vez os Cucos, os Maçaricos e nós os Touros participamos em conjunto. Carioca tinha uma bela Patrulha. Depois não sei por que desistiram e só nós íamos.

                  A fazenda do pai do Carioca era linda. E a Mata da Coruja sempre me fazia calafrios. Era de uma beleza sem par. Uma aguada de tirar o chapéu. O madeirame existente ajudava em muito na construção das Barracas suspensas. Barraca suspensa? Meu amigo não é uma barraquinha qualquer. Precisava ficar a mais de dez metros de altura e tinha de ter elevador e água potável. Está rindo? Mas isto não tem segredo, não para nós da Patrulha Touro. A pequena cascata na subida do morro do roncador e os bambus gigantes eram uma benção para aqueles que gostam de uma grande pioneiría. Caititu, Fumanchu, Cabeçudo, Vara de Marmelo, Língua Grande e Zé Lorota eram grandes companheiros de patrulha. Só eu com a segunda classe. Os demais todos tinham a primeira classe e acima do bolso esquerdo as estrelas de atividade estavam lá para que todos soubessem que ali não tinha patas tenras.

                  Sabíamos que Lagoa Dourada não era longe. Menos de cem quilômetros. Saindo cedo até o meio dia chegaríamos. O mais difícil era a Serra das Brumas Negras. Difícil e íngreme. Só nela perdíamos mais de uma hora empurrando nossas bicicletas. Naquela sexta o sol estava a pino. Bom sinal. As nove iniciavam a subida da Serra. Interessante que uma cerração forte tomou conta de toda a montanha e mal enxergávamos dez metros a frente. Ouvimos um barulho de carro. Vinte minutos depois encontramos com um jipe. Nele quatro frades capuchinhos. Eles riram ao nos ver e um deles nos benzeu. Pararam o jipe e se aproximaram de nós. Começaram a contar que também foram Escoteiros na Itália. Um deles disse que era Insígnia de Madeira. Achei interessante àquela prosa e estava até gostando.

                   Um dos capuchinhos nos fez um desafio – Tem café? Claro que não, mas Cabeçudo o nosso cozinheiro riu e disse – dez minutos e vão tomar o melhor café que já tomaram em sua vida. Ali na beira da estrada paramos. Uma ração de pó e duas de açúcar era o bastante. O Cantil cheio o restante. Não foi difícil algumas pedras e alguns galhos e capim seco. A serração não tinha formado ainda o orvalho que molhava tudo.  Sentamos em volta do fogo. Os capuchinhos contavam casos e casos. Nós ficamos calados, meninos ainda tínhamos muito respeito com adultos principalmente padres. Um deles de nome Vincenzo era o mais palrador e alegre. Tomando um cafezinho quente na minha caneca, contou como era sua cidade, no sul da Itália, seu Grupo Escoteiro e de um acampamento que realizaram nas proximidades de Pozzuoli uma pequena comuna italiana na região da Campania, província de Nápoles.

                    O tempo estava passando e os capuchinhos não paravam de falar. Vara de Marmelo nosso Monitor pediu desculpas, pois precisamos chegar a Lagoa Dourada antes do meio dia. Eles agradeceram o café, sorriram entre si e um deles nos benzeu dizendo – Que Jesus os proteja. Agora o caminho vai ser fácil. Partiram em grande velocidade. Daquele jeito iriam despencar na primeira curva. Eu jurava que o jipe deles levantou voou. Caititu também achou só os demais não observaram nada. A cerração não diminuía. Vimos que estava dando uma da tarde e já era hora de descer a serra. Foi então que tudo aconteceu. A subida acabou. A serração diminuiu um pouco. Dava para enxergar um pouco mais além. Avistamos uma pequena cidade. Que cidade? Nunca há tínhamos visto. Estávamos curiosos. Chegando mais perto vimos que não era uma cidade. Uma rua somente. Bem calçada com ladrilhos negros e riscas brancas. As casas todas iguais. Avistamos um bar. Lindo bar. Pessoas sentadas nas mesinhas à porta. Não conversavam. Todos se vestiam iguais. Calça cinza, camisa cinza, sapatos cinza e um chapéu de couro.

                     Paramos para perguntar onde seria a saída da cidade, pois nosso destino era Lagoa Dourada. Ninguém respondeu. Cabeçudo me disse que todos tinham a mesma cara. – Perna Seca, observe cara de um focinho de outro. Ele estava certo. Não havia mulheres nem crianças. Um homem de azul se aproximou. – Tem autorização para entrar em Espectro? – Ficamos pasmados. Nunca ouvíamos falar. – Se não tem me acompanhem, vão falar com o Delegado. A delegacia ficava uns duzentos metros à frente. Paramos, Vara de Marmelo pediu a Zé Lorota ficar tomando conta das bicicletas. – Ninguém fica – entram todos! Disse o homem de azul. Entramos. O delegado estava de costas. O homem de azul explicou. Ele nem se virou – Leve-os ao Juiz e veja o que ele diz. – Ora, pensei morrendo de medo – Quem é este juiz? E porque isso? Nunca soube ser proibido entrar em qualquer cidade!

                     O juiz estava no tribunal. Não havia ninguém. O homem de azul explicou. ´- Já estou sabendo disse. Cinco anos de prestação de serviços no Alambique de Vovó Malfada. Vara de Marmelo tentou explicar – Doutor Juiz, somos escoteiros, não fazemos mal a ninguém, só ajudamos.  – O juiz irredutível – Doutor, disse Fumanchu, temos escola segunda. Nossos pais irão ficar preocupados! – Problema seus não meu. Quem mandou entrar aqui em Espectro? Cabeçudo sempre foi valentão. Olhe Doutor não vamos ficar. Não podemos. Somos menores. O senhor não pode fazer isto conosco. O juiz levantou e disse – Levem-nos. Se continuarem a criar caso desçam a borracha! Quatro homens de azuis apareceram. Arrastaram-nos pela rua deserta. Pelas frestas das janelas víamos que estávamos sendo observados.

                      A casa da Vovó Mafalda ficava no fim da rua. Nenhum de nós estava acreditando no que acontecia. Cinco anos? Impossível. Tínhamos de fugir dali. A Vovó Mafalda tinha idade indefinida. Educadamente nos disse que se fossemos obedientes e disciplinados poderíamos ter dias de folga, descanso e muito mais. O Contrário nada disto iria acontecer. Língua Grande disse que viu nossas bicicletas com toda nossa trabalha atrás da casa da Vovó Mafalda. Vara de Marmelo disse que a noite iriamos fugir. Uma da manhã. Todos fingiam dormir. Saímos pé ante pé. Na porta apareceu como um fantasma a Vovó Mafalda. Vão com Deus disse. Vovó, perguntou Caititu, o que é isto aqui? Que cidade é esta? - Vocês sem perceber devem ter passado para a quarta dimensão na Serra das Brumas Negras. Encontram os quatros padres capuchinhos? É sempre assim. Voltem pelo mesmo lugar. Onde pararam parem também. Tentem ver através da bruma, a um clarão corram em direção dele.

                       Ninguém na cidade nos viu. Seguimos as instruções de Vovó Mafalda. Onde fizemos o café para os padres capuchinhos paramos. Desconfiei daqueles padres. Um clarão se fez na estrada. Corremos em direção a ele. Atravessamos uma espécie de nuvem espessa. Uma estrada nova apareceu. Nossa conhecida. Ao longe Lagoa Dourada. Carioca e seus amigos nos esperavam. - Chegaram no horário disse. Combinamos em manter em segredo a história. Ninguém ia acreditar. Voltamos para nossas casas três dias depois. Na serra uma serração baixa. Um jipe apareceu na curva. De novo os padres – Tem café? Perguntaram. Zé Lorota gritou – Tem não! Eles riram – Não dá para fazer? – “Dá não falou Cabeçudo”. Eles sumiram na bruma negra que tomava conta de tudo.

                          Na descida avistamos a estrada federal. Agora sabíamos que estávamos
em casa. Combinamos em não contar para ninguém. Mas eu? Não sei guardar segredo. – Perna Seca, esta sua história é para boi dormir. Diziam. Ninguém acreditou mesmo. Uma tarde comprava um jornal para o meu pai na Banca do Gumercindo quando virando a rua avistei Vovó Mafalda. Corri atrás dela, ela se virou deu um sorriso abanou as mãos em forma de adeus e desapareceu. A Patrulha ficou “Cabrera”. Vara de Marmelo o Monitor nos disse para tomar cuidado. Mas eu gostaria de voltar lá. Um dia li que Albert Einstein escrevera que as coisas mais maravilhosas que podemos experimentar são as misteriosas. Elas são a origem de toda verdadeira arte e ciência. Aquele para quem essa sensação é estranha, aquele que não mais consegue parar para admirar e extasiar-se em veneração, é como se estivesse morto: seus olhos estão fechados.

                        O homem é provavelmente o ser mais misterioso do nosso planeta. Muitas questões para responder. Quem somos de onde viemos e para onde vamos? Como sabemos em que devemos acreditar? Por que acreditamos em alguma coisa, sequer? Inúmeras perguntas em busca de uma resposta, uma resposta que dará origem a uma nova pergunta e a nova resposta dará origem a nova pergunta, e assim por diante. Mas, no final, a pergunta não será sempre a mesma? E sempre a mesma resposta? É como disse Dimos Iksilara, desvendar o misterioso, perceber o extraordinário, realizar o impensável, é apenas parte da jornada de ser humano, na sua busca pela superação do impossível.

No mistério do sem-fim equilibra-se um planeta. E no planeta um jardim e no jardim um canteiro no canteiro uma violeta e sobre ela o dia inteiro entre o planeta e o sem-fim a asa de uma borboleta.



quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O repouso do Guerreiro.





Nós não herdamos a Terra de nossos antecessores, nós a pegamos emprestada de nossas crianças.

Lendas escoteiras.
O repouso do Guerreiro.

           Ele não podia medir o tempo. Seus antepassados não lhe ensinaram. Mas ele sabia que muitas luas haviam se passado e seu fim estava próximo. Ele não foi o único, seus pais já tinham ido para as Terras Bravias do Sol Nascente. Seus dias estavam próximos a terminar. Ele sabia que breve iria se juntar a eles. Não ia deixar nada escrito, pois na tribo somente as lendas passavam de pais para filho. Ele era uma lenda? Não era. Nunca foi. Sabia que era um simples índio que conhecia as histórias dos seus ancestrais, pois conseguiu sobreviver de muitas guerras com os Tapuias, os Caraíbas e tantas outras tribos que sempre tentaram raptar suas mulheres e tirarem o que era deles. Foi o único que sabia conversar em Macro-Jê, Tupi e Arauak. Aprendeu nas guerras e nas inúmeras vezes que fora aprisionado. Acostumou-se a sentar embaixo da Aroeira que dizem os espíritos foi plantada por Aplanã, um valente guerreiro, que dizem que correu pelos céus a mil luas atrás. Seus olhos miúdos percorriam as inúmeras Tabas de sua aldeia. Quanto tempo! Nada é mais como antes. O homem branco nada trouxe de bom.

           O Grande Espirito já o tinha avisado que sua morte seria breve. Não tinha medo dela. Nunca teve. Já a enfrentara inúmeras vezes. Afinal fora um guerreiro cujo nome se espalhou por toda a Floresta de Akanã. Amanara sua mulher o olhava de longe. Porque nunca tiveram filhos? Ele daria tudo para ter um herdeiro que levasse seu nome através da história. Que pudesse narrar seus feitos. Sabia que quando fosse para as Terras Bravias nada sobraria de sua vida na terra. Seus pensamentos velejavam através das nuvens brancas espalhadas pelo céu. Teria milhares de coisas para recordar. Viveu uma época que hoje seus descendentes não irão viver. O homem branco agora mandava. Eles não passavam de meninos obedecendo para onde ir, o que fazer e que comer. Desobedecer? Muitos da sua tribo se tornaram homens sem valor. Bebiam, faziam arruaça, viajavam e diziam representar a tribo. Nunca seriam nossos representantes. Eram sim de si próprios em busca de facilidades que um verdadeiro guerreiro desprezaria.  

           O viu chegando em sua jangada como sempre fazia quando atravessa o Rio do Morcego. Não sabia o que ele vinha fazer. A cada cem ou duzentas luas ele aparecia. Lembrou quando chegou pela primeira vez. Jovem ainda, sempre com cabelos brancos soltos ao vento, olhos pequenos azuis, um chapéu esquisito, um lenço amarrado no pescoço, um calção da cor da camisa da cor de uma folha de bananeira desbotada, uma meia que ia até os joelhos e uma botina preta. Desceu de sua jangada e fez um sinal de alô. Não disse mais nada. Ele nunca falou. Aproximou-se de mim e levou sua mão esquerda ao meu coração. Como ele sabia? Nos velhos tempos só os fortes entre os mais fortes se saudavam assim. Fiz o mesmo que ele e um sinal a Ibaretama aquele que veio do céu para que não o matasse com sua lança. O homem branco nunca fora bem recebido na Aldeia. Uma época que os Bororós eram temidos. Cabelos da Neve sentou embaixo da Aroeira. Cruzou as pernas como se fosse um de nós, tirou de seu bornal um cachimbo pequeno e o fumou por horas. Não disse nada. Chegou calado e calado ficou. Lembro que Amanara levou-lhe uma cuia com cuscuz cozido e ele comeu com gosto.

           Otinga o Pajé logo que a noite chegou começou uma pajelança pela cura de Oititaba, um jovem que caiu da Pedra Solta bem depois da curva do rio do Morcego. O viu bebendo o tafiá e mesmo evocando os espíritos de seus ancestrais e muitos animais da floresta não houve cura de Oititaba. A tribo dançou com ele euforicamente e fez as mimicas conhecidas do animal que estava incorporado a Otinga. Oititaba morreu pela manhã. Cabelos da Neve recusou dormir em alguma Taba ou mesmo na sua. Dormiu ali embaixo da Aroeira sob o calor de um pequeno fogo que fez. Não o vi pela manhã. Ao raiar do dia deve ter partido. Sua jangada não estava apoitada na areia branca do rio do Morcego. Passaram mais de duzentas luas quando ele voltou. Parecia mais Velho assim como eu. De novo nos cumprimentamos e pouca conversa. Ele nunca falava. Apontou a Montanha dos Abutres. Por sinal por a mão em meu peito e me convidou sem falar a subir até o topo.

          Não podia ir. Minhas pernas recusavam a obedecer. A tribo aprendeu a admirá-lo. Colocou sua mochila, atravessou seu bornal e partiu rumo à montanha. Uma semana depois voltou. Descansou por algumas horas e em sua Jangada sumiu nas águas tranquilas do Rio do Morcego. Mais uma vez fiquei só. Ou melhor, sempre estava só, mas quando Cabelos da Neve aparecia havia no ar um certo encantamento. O passado não perdoa o presente. Éramos milhares e hoje? Um punhado que vinte ou trinta tabas acomodavam todos. As nações indígenas foram dizimadas. Caçar, plantar, pescar já não era a maneira correta de sobrevivência. Um posto da Funai nos dava o que Comer. Parecíamos mendigos sem nome, sem honra a depender do homem branco a nossa sobrevivência. A nossa terra não era mais nossa. Nossas crenças desapareciam. As forças da natureza que nos impeliam a continuar não existiam mais. Os espíritos dos nossos antepassados riam de nos. Deuses e espíritos fugiram das nossas cerimonias, dos rituais e festas. O Pajé era uma figura que ninguém mais dava valor.

           Na centésima lua desde que ele se foi fiquei doente. Muito. A pajelança não adiantou. Era questão de dias para me encontrar com os espíritos dos meus pais e dos meus ancestrais. Já tinha passado o meu poder de Cacique ao Conselho da Tribo. Cabia a eles agora escolher quem devia conduzir a aldeia, as mudanças e as guerras se elas tivessem que existir. A mim me restava à lembrança do que fui e do que sou. Preferia não olhar o mundo ao meu redor. Quanta injustiça, quanto sofrimento e dor. Eu sabia que todo mundo sofre insuportavelmente até a morte. Um guerreiro tem de saber enfrentar tudo em qualquer situação mesmo que a falta de amor, da indiferença e da ambição fosse como uma espada a cair sobre ele. Mesmo nos meus últimos dias eu ainda me considerava um guerreiro. Vieram me dizer que ele chegou. Cabelos da Neve com seu chapéu esquisito cumprimentou-me a moda índia. Na taba em que eu agonizava ele sentou com as pernas cruzadas. Tirou seu cachimbo e rolos de fumaça encheram o recinto.

           Deixaram-me só com ele. Ele me olhava e eu a ele. Tirou o chapéu e fez uma espécie de saudação. Com as mãos no peito começou a cantar baixinho uma canção. Dizia que não era mais que um até logo, não era mais que um breve adeus. Eu não o ouvia mais. Meu espirito abandonava meu corpo e me vi junto aos meus ancestrais. Eram centenas de amigos que agora estavam ali nas Terras Bravias do Sol Nascente. Voltei um dia depois. Meu funeral não teve nada diferente. Envolvido na rede dentro da minha maloca, fiquei por dois dias. Nivelaram a superfície da minha sepultura com barro socado. Quando me retiraram a maloca foi queimada. Seria abandonada para sempre. Todos os meus pertences estavam comigo. Em cima da minha sepultura Cabelos de Neve colocou uma placa de metal em formato de uma flor de lis. Todos já tinham ido e ele permanecia sentado de pernas cruzadas, fumando seu cachimbo e olhando para o céu. Eu o ouvia cantar a mesma canção: - Não devemos perder as esperanças de um dia tornar a nos ver.

           Uma semana depois ele se levantou. Deu um leve sorriso, fez o gesto de amizade colocando a mão esquerda no meu coração invisível. Fiz o mesmo com ele. Parece que ele sabia que eu estava ali, pois disse baixinho que breve, muito em breve nos tornaremos a nos ver. Entrou em sua jangada e partiu nas aguas calmas do Rio do Morcego. A história não termina aí, os dois guerreiros repousaram e dizem que até hoje se encontram sempre na Aroeira que um dia pertenceu à tribo dos Bororós e que hoje não mora mais ninguém.

Sou índio, sou africano, sou europeu
Sou budista, sou cristão, sou judeu
Sou amarelo, sou branco, sou negro
Sou mistura do mundo, com prazer sou brasileiro.



terça-feira, 6 de agosto de 2013

O fantástico curso da Insígnia da Madeira do Chefe Bola Branca.

A razão pela qual algumas pessoas acham tão difícil serem felizes é porque estão sempre a julgar o passado melhor do que foi, o presente pior do que é e o futuro melhor do que será.




O fantástico curso da Insígnia da Madeira do Chefe Bola Branca.

           Gente fina, um andar cheio de trejeitos, mas diziam que era duro na queda. Soube de fonte fidedigna que enfrentou seis em frente ao Cinema Palácios em uma noite de natal. Ficou famoso por causa disto e daí em diante ninguém mais ria dele. Nasceu no escotismo, sua mãe uma Chefe de Alcateia deu a luz em um acantonamento em Rosário. E olhe quase todos os lobinhos ajudaram. Disseram que houve uma grande festa e Bola Branca sorriu a noite toda. Já sabem, filho de Chefe tem direitos que outros não têm. Alguns juram que não, mas Bola Branca aos cinco já era lobinho. E ai de quem falasse que não podia. Bola Branca foi tudo que podia no escotismo. Primeira Estrela, Lis de Ouro, Escoteiro da Pátria, Insígnia de BP, Chefe de Alcateia, Tropa Escoteira, Sênior, Mestre PI, Diretor Técnico, Comissário Distrital e só não foi escoteiro Chefe porque foi trabalhar na Austrália e só voltou dez anos depois. Esqueci-me de dizer, recebeu sua Insígnia da Madeira com dezoito anos. Acho que foi o Chefe mais novo a receber.

         Acredito que ele deva ser mais velho que eu uns vinte anos. Hoje estou com quarenta e cinco e ele já de cabelos brancos parecia um pouco cansado, mas com uma vivacidade incrível. Sempre que nos encontrávamos ele me contava histórias incríveis. Como eu o considerava um técnico escoteiro sui generis eu gostava de ouvi-lo. Tinha combinado encontrar com o Chefe Matusalém no bar do Moita, pois lá ficaríamos mais vontade para discutirmos o 6º ADIP Regional, (acampamento distrital de patrulhas), Eu era o Comissário Regional naquela época e no ano anterior por decisão imposítória de todos os chefes fui eleito como responsável para sua organização este ano. Cheguei mais cedo e o Chefe Matusalém ainda não havia chegado. Tomando um chopinho eis que como em um passo de mágica aparece o meu amigo Chefe Bola Branca e sempre mexendo o corpo pra lá e pra cá. Sente-se meu amigo eu disse. Estou esperando o Chefe Matusalém e você é bem vindo. Quem sabe pode até me ajudar?

               O atrasado chegou em seguida. Já conhecia o Chefe Bola Branca. A conversa ficou animada. Quem estivesse perto só ouvia escotismo, escotismo e escotismo. Tinha outro assunto mais importante por acaso? Alguém arrastou uma cadeira. – Posso me sentar com vocês? Fui escoteiro e vendo vocês conversarem sobre o movimento me deu saudade. – Fique a vontade meu amigo. O fique a vontade foi dado há mais cinco que também queriam ouvir o que nós dizíamos. Uma mesa grande, chopes e salgados eram servidos. Plateia formada a gosto do meu amigo Chefe Bola Branca. Falamos de tudo. Por último dos novos cursos escoteiros. Cada um tinha uma opinião. Chefe Matusalém era da Equipe de Formação. Achava tudo perfeito. Ele e o Chefe Bola Branca tiveram uma boa troca de opiniões. Cada um convencia até que o outro usava da palavra. – O mundo moderno exige Chefe Bola Branca. Não vivemos mais na época das cavernas disse o Chefe Matusalém.  

               Chefe Bola Branca não disse nem sim e nem não. Aproveitei a oportunidade para perguntar como conseguiu a Insígnia da Madeira com dezoito anos. Ele primeiro floreou sua história. Começou contando quando foi Chefe de uma tropa de escoteiros. Ficou lá por doze anos. Viu jovens crescerem, constituírem famílias, alguns assumindo posições na comunidade e em suas atividades profissionais. Nunca esqueceram o Grupo Escoteiro. Pelo menos uma vez por ano iam fazer uma visita. Quase todos colaboravam financeiramente com o Grupo. Eu perdia poucos jovens - dizia. Eles adoravam as atividades de campo que fazíamos. Os monitores da tropa não eram os melhores, mas não deixavam a desejar. Olhe meus amigos, eu fiz outros cursos que não os do escotismo. Fiz também alguns que não posso menosprezar, mas o meu primeiro. Ah! O meu primeiro foi único, foi o que me deu base para saber conduzir uma tropa escoteira. Se não fosse ele não seria o que sou hoje. Passei por poucas e boas no escotismo. Poderia ter saído, mas não sai. Ainda me lembro, pois completava meus dezoito anos, recém-saído das fileiras do exército, ainda não tinha nada decido em minha vida. Hoje um curso assim nunca nossos diretores vão realizar.

            Um dia recebi em minha casa uma correspondência estranha vinda da Direção escoteira regional. Dizia – Iremos fazer um curso da Insígnia da Madeira ramo escoteiro. Escolhemos 32 chefes. Você é um dos escolhidos. Não é um curso qualquer. Estamos fazendo uma experiência piloto. Caso se interesse mande-nos um telegrama até o fim deste mês. O curso terá duração de dez dias. A partir de 08 de fevereiro próximo. Não é um curso para pata-tenras. Só mesmo para os que chegaram à primeira classe e eficiência II. Uma verdadeira prova de sobrevivência. Caso aceite as passagens ida e volta será por conta da Região escoteira. Não haverá taxas. – Dizer o que? Claro que aceitei. Nunca fugi de desafios. Um mês antes do inicio do curso recebi as passagens e um envelope que dizia: - Só abra o envelope na saída três da rodoviária quando chegar. Isto tem de acontecer às sete da manhã. Se chegar antes espere a hora e se chegar depois dê meia volta para casa.

               Vi cadeiras se arrastando e cada um chegando mais perto do Chefe Bola Branca. A história parecia ser interessante, eu mesmo nunca tinha ouvido falar de um curso assim. – Continuou o Chefe Bola branca – Cheguei na rodoviária às seis e meia. Dei uma busca completa para ver se tinha algum Chefe escondido para me observar. Não vi ninguém. Fui para a saída três e esperei dar às sete horas. Abri o envelope. Um mapa pequeno mais parecendo um croqui e escrito – Boa sorte. Tem uma hora para chegar ao ponto de reunião. Saquei minha bussola silva. Tomei o rumo do mapa e parti a pé. Notei que eram mais de quinze quilômetros nunca chegaria em uma hora. Deveria ter algum mais na carta prego. Virei-a do avesso e não descobria nada. Aí que prestei mais atenção e entre o boa e sorte havia o numero 22 bem pequeno. O que significava? Logo vi um ônibus passado – numero 22! Chapecó – Tinha de ser. Embarquei no ônibus. Pura sorte! Acompanhei seu trajeto com o mapa. O ônibus estava vazio. Alguns passageiros estranhavam aquele Escoteiro mochileiro cheio de bugigangas.

                No mapa vi uma estrada secundária sem residências. A mais ou menos oito quilômetros da rodoviária. Fiquei de olho pela janela. As casas começaram a rarear. Logo a estrada surgiu. Desci e parti em passo Escoteiro e claro usando meu passo duplo. Um rio apareceu. Havia uma barca pequena e o barqueiro parecendo me esperar. Logo ele apareceu. – Mais Um, acho que você é o último. - Ultimo? Perguntei. Ele nada disse. Do outro lado perguntei – Para onde foram os outros? – Disseram-me que vocês sabem seguir pistas, portanto se vire meu amigo e deu meia volta com sua barca. As pistas eram visíveis. Não dava para errar. Como tinha treinamento quando jovem deu para ver um gordo, um magro e vários mais altos que os demais. Quase no alto da colina avistei um Velho sentado em um toco. Chamou-me – Graças a Deus você é o último. Aqui está seu envelope. Boa sorte para você!

                No envelope dizia – Não abra, só quando encontrar sua patrulha a um quilometro rumo sul sudoeste. Se até as dez e meia não encontrá-la dê meia volta. Eles já foram para o ponto de reunião. Olhei o relógio. Dava tempo tinha ainda vinte e cinco minutos. Logo avistei todos eles debaixo de um Jatobá enorme. Receberam-me com alegria. – Pensamos que não chegaria! Ri sem alarde. Afinal eles não me conheciam. Apresentamo-nos – Norberto, Acácio, Jonny Marcus, Pierre, Leonardo, Paulo Antonio e eu Romualdo. Disse para eles que podiam me chamar de Bola Branca. Eles riram. Conforme as instruções a abertura dos envelopes deviam ser pela ordem de chegada. Acácio foi o primeiro a chegar e abriu seu envelope, dizia pouco. - Do rio das aventuras... Logo abriu seu envelope o Pierre que era o segundo – Na grande curva do Castello. E assim foi Paulo Antonio, Norberto, Leonardo, Norberto e eu. Juntamos todas as palavras – “Do rio das aventuras, na grande curva do Castello, um bosque de acácias amarelas, irão viver grandes aventuras”. Às onze e meia em ponto, a bandeira vai farfalhar no vento. Aguardamos vocês. Sejam bem vindos!

               Notei que agora a roda aumentara. Até quem nunca foi Escoteiro estava participando. Todos de olho em Bola Branca. Um narrador perfeito e mesmo não sendo uma história das arábias ela chamava a atenção. Bola Branca parecia estar inebriado com sua narrativa. Olhava para um e outro, gesticulava, sentava e voltava a ficar em pé e sem levantar a voz continuou - Foi divertido descer a toda a colina. O rio do alto era lindo. Quem visse ali aqueles homens vestidos de calça curta e chapelão correndo em uma descida perigosa, iriam achar que eram uma turma de loucos. Logo fomos nos conhecendo naquela descida de uma trilha certeira e em menos de meia hora chegamos ao ponto de reunião. Todos estavam lá. Todos não. Dois convidados não conseguiram chegar. Se perderem no caminho. Claro estavam desclassificados do curso. Duas patrulhas de sete e duas de oito. Como se tivessem surgido do nada os quadro diretores apareceram. Misturaram-se conosco. Abraços, apresentação, sorrisos. Eu gostei muito deles. Tinha receio de serem como os sargentões do exército.

               Um deles com uma trombeta na mão fez a chamada geral. Depois fui saber que a trombeta seria o famoso Chifre do Kudu. Um dos diretores no quinto dia contou a história de como Baden Powell trouxe ao movimento este chifre que é famoso até hoje. Não vou repetir aqui toda a história, pois é muito longa. Formamos por patrulha. Ao Monitor novamente foi entregue um envelope. Dez minutos. Tudo era com tempo marcado. A não ser a apresentação na chegada os diretores pouco falavam. – Nome de patrulha – grito – Lema, encargos de patrulha de cada um (mudar a cada 24 horas). Meus amigos, o curso começou de fato. Entregaram-nos uma caixa de patrulha, cada uma escolheu seu campo e o correm corre começou. Uma hora e meia para fazer almoço, vinte para lavar e limpar campo, o danado do chifre berrando e a gente correndo, façam uma ponte, façam uma paliçada, façam uma ponte elevadiça, façam isto façam aquilo. Às seis da tarde nos deram duas horas para preparar o jantar. As oito e meia o chifre berrava e a gente correndo. Um jogo noturno com os de olhos vendados e amarrados uns aos outros.

                 No quarto dia eu estava pregado e olhe tinha dezoito anos na flor da idade e recém-soldado do exercito. Foi no quarto dia que começamos a nos estranhar. Cada um começou a analisar o outro da patrulha e então apareceu os defeitos. Fulano não ajuda sicrano só quer sombra e água fresca e assim os demais. Caras amarradas, respostas curtas, eu mesmo não posso dizer que fiquei amigo de alguém até ali. Os chefes já esperavam por aquilo. Sempre fazíamos conversas ao pé do fogo e eles nunca falavam muito. Davam um tema e um tempo para discutirmos. Primeiro as patrulhas se dividiam em dois depois em quatro e finalmente em oito. Depois duas patrulhas e a tropa toda. Nunca ficamos mais de que quarenta minutos discutindo algum tema. E nunca no mesmo lugar. Quando foi apresentado As normas e regulamentos para banhos e outros similares o Chefe nos chamou dentro do rio. Tirar a roupa e pular na água foi agradável, o que não foi era ficar ali discutindo. Dois a dois, quatro a quatro, oito a oito, duas patrulhas e a tropa toda. Quarenta minutos. Mas quer saber? Eu aprendi muito. Muito mesmo.

                 Havia queira ou não uma solidariedade grande entre nós. Só no sexto dia fomos conhecer o campo de chefia. Era atrás de um pequeno morro. Eles tinham tudo feito por eles mesmos. Suas pioneiras eram perfeitas. Eles faziam suas refeições. A roda d’água que fizeram para levar água ao campo de chefia era perfeita. Havia um respeito enorme durante a noite. Sempre dormíamos às sete horas e meia programada. Mas o Chifre do Kudu quando tocava era um terror. No sétimo dia começamos a nos entender. Cada um sabia até onde o outro poderia ir. Isto me valeu muito para entender as patrulhas de jovens quando não se entendem. Foi no oitavo dia que aconteceu a surpresa. Estava pregado. Cansado mesmo. Fomos dormir às onze e meia da noite. Às três da manhã acordei assustado. O Toque alto do Chifre do Kudu no alto do morro. Levantamos as pressas e mal deu para vestir os uniformes. Chovia a cântaros. Na subida um Chefe chamou duas patrulhas para ir com ele e às outras com outro Chefe. No alto do morro ele pediu para deitarmos um ao lado do outro. Deitamos. – Ele começou a transmitir uma mensagem de ouvido em ouvido. “O acampamento foi atacado”. Índios Carijós destruíram tudo. Vocês devem tentar reaver tudo que perderam se não irão dormir ao relento e comer bananas verdes! Ficamos ali pensando. O Chefe desapareceu.

                     Só encontramos nossas tralhas com o sol nascendo. Não foi fácil debaixo do temporal encontrar nossa tralha. Ao retornarmos ao campo encontramos tudo destruído. As duas patrulhas separadas também fizeram o mesmo jogo. Sentamos pensativos o que seria tudo aquilo – A chuva amainou e horrorizados olhamos nosso campo. Armar tudo de novo? Montar de novo as pioneiras? De novo o toque do Chifre do Kudu – Hoje vocês terão folga até às quatro da tarde. Montem seus campos e tirem uma soneca de seis horas. A Chefia vai servir um café reforçado e quando acordarem um delicioso almoço com frango caipira! Gritos de urras! De Bravos! De Anrê! Amigos, no décimo dia eu estava em pandarecos. Mas querem saber? Nunca aprendi tanto.

                 Hoje quando lembro sobre acampamentos à moda de Giwell, e as discussões em grupo que fizemos acreditem, nunca esqueci. Foram tantas que algumas marcou. O sistema de patrulhas, a Corte de Honra, programando o programa, aprender a fazer fazendo, padrões de acampamento, lei e promessa, normas e regulamento e tantos outros temas que nos foram apresentados que dou graças a Deus por ter feito este curso. E sabe a surpresa? No último dia ali no cerimonial de bandeira, com a tristeza da partida os quatros dirigentes do curso tomaram a frente e um deles disse – Vocês se mostraram autênticos conhecedores. Estão perfeitamente aptos a receberem o premio a que tem direito sem necessidade de cumprir a etapa um e três (um era o questionário e a três observação). Foi um susto. Mas que surpresa agradável. Um por um éramos chamados à frente e recebíamos o anel de Giwell o Lenço, o colar e o certificado. Pode? Sem observador? Sem parte I? Mas que valeu, valeu. Até hoje me orgulho do meu lenço. Lutei por ele e não me comparo nunca os que receberam de outra maneira.

                       O discurso do Diretor do Curso foi maravilhoso. Convidou-nos a cada três anos participar de um curso de apoio e aperfeiçoamento. Seria como ele dissesse uma volta a Giwell, terra boa. Porque não? Eu nunca perdi um. Fui em cinco depois tudo mudou. Mas mesmo assim ainda vou em algum curso para me atualizar. Preciso aprender o que a nova metodologia tem de bom como dizem por aí. Sei que muitos não vão entender, mas um desafio como foi feito a nós acredito que ainda tem muitos que gostariam de participar. Afinal se vamos dar aventuras aos nossos jovens temos que saber como elas são. Foi para mim marcante. Uma aventura que marcou a todos. Mantivemos contatos por muitos anos. Várias vezes encontramo-nos em vários acampamentos nacionais e internacionais. Sei que dos trinta participantes mais de vinte ainda estão até hoje no escotismo. Hoje tenho orgulho e muito do meu lenço. Alguns me contam como conseguiram o seu. Claro o orgulho é próprio e devemos valorizar sempre o que conquistamos.

                       Uma da manhã. O Mota dono do bar nos olhava desconsolado – Não tem mais histórias? Perguntou. Não mota eu disse. Se possível traga a salgada. Ela sim vai ser uma boa história para cada um dos presentes pagar sua parte sem chiar. Rimo-nos a valer. Cada um dos presentes foi saindo de mansinho. Claro depois do rateio das despesas que não foi pouca. Ficamos eu, Bola Branca, Matusalém e o Mota sentados em volta da mesa. - Tenho que ir meus amigos eu disse. Ainda tenho um pedaço de chão para chegar em casa, nada que seja um percurso de Giwell bem bolado, mas sabe como é a esposa me ama, mas chegar neste horário é demais. Um abraço, um aperto de mão e o Mota me perguntando – Chefe, quando voltarão novamente? Estas histórias são supimpas para fazer a turma beber e gastar! E deu boas risadas. Fui embora pensando. Eu gostaria de ter feito um curso assim. Será que ele vale mais do que os de hoje?   

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.



quarta-feira, 10 de julho de 2013

O Mistério do Corvo da pena dourada.

Lendas escoteiras.
O Mistério do Corvo da pena dourada.

Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa ai, cessa! Clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua. "
E o Corvo disse: "Nunca mais.”.
Edgar Allan Poe.

                  Tanto tempo são passados, mas as lembranças permanecem eternas. Quem me contou foi Lávio, ou melhor, o Chefe Lávio quando em uma noite linda sem luar, reunida em volta de uma
fogueira perdida na margem do Rio Vermelho um sono enorme e eis que ele começa a contar uma história, parecendo tirar as palavras de dentro do chapéu de três bicos que foi trazida pelo vento noturno que soprava o sudoeste do acampamento. Era um acampamento de chefes. O terceiro que participava. A cada dois anos se fazia convite aos grupos, e cada um levava seus chefes em patrulhas de cinco, com seu material de sapa e intendência. A taxa era mínima e este ano não passou de dez reais para que cada um recebesse um distintivo e uma pasta pequena com lembranças do campo. Sempre fora sucesso na região. Neste terceiro passávamos de quatrocentos chefes. Uma apoteose. A cada ano um nome diferente de uma tribo indígena brasileira. Este era o III Kalapalo. Tribo da região do Alto Xingu no Mato Grosso.


                   Eu sabia que a história do Chefe Lávio seria diferente. Já o conhecia de outras plagas. O típico Chefe que não ri. Discreto um olhar profundo e muito ponderado. Mas sabia que sua Tropa o adorava. Deitei em minha manta, o céu lindo estrelado, sorria a passagem de uma estrela cadente. A aragem vinda da margem do rio era gostosa e saudável. – Foi a muito, há muito tempo. Ele começou. Eu ainda morava em Monte Azul. Uma pequena cidade esquecida de Mato Grosso do Sul. Vida simples, meninada solta nas ruas a soltar suas pipas, a brincarem com suas bolinhas de gude, abaixar a cabeça em sinal de respeito para dona Marly ou dona Noêmia nossas professoras quando passavam. Na missa de domingo a melhor roupa. Eu mamãe e papai nunca faltamos. Padre Lemos na porta a nos esperar. Cumprimentar um a um. No púlpito uma surpresa. Um calafrio correu na meninada presente – Amigos! Nossa cidade vai organizar um grupo de Escoteiros. Inscrições abertas no Clube Remanso todo sábado à tarde!

                    Acordei às três da manhã. Papai! Vamos! - Onde? Fazer minha inscrição. Nem almoçamos. Uma fila enorme. Chefe Noel risonho cumprimentava a todos. A inscrição está feita. Agora é aguardar. Iremos treinar alguns para serem os lideres e daqui a três meses vamos chamar todos. Não foram todos. Eram muitos os inscritos. Tempos depois, eu quase esquecendo um Escoteiro uniformizado bateu em nossa porta avisando. A vaga do Lávio está aberta. Deve comparecer sábado às duas da tarde. Poxa, o tempo não passava. As onze almocei e as doze lá fui eu levando meu pai pelas mãos. Meu primeiro dia. Sorteio. Tropa I. Patrulha Corvo. Que orgulho. Sete patrulheiros. Era mais um. Leones o Monitor nem sempre calmo com a gente. Primeiro acampamento em Águas Cantantes. Fiquei maravilhado. Nunca me senti herói como agora. Não falava outra coisa. O Monitor disse que eu devia passar um dia na biblioteca para conhecer nosso líder. O Corvo. Decorei tudo. Não faltou nada. Orgulhava-me de ser um corvo.

                     Seis meses depois já me considerava um veterano. A Patrulha se movimentava bem e apesar de não ser a melhor não devíamos nada as demais. Quando fizemos um ano de Patrulha fizemos um acampamento em Morro Sião. Ao pé do morro uma formidável cascata formando um lago ideal para dar uma boa pescada. Dizem que não é verdade, mas em um campeonato de pesca noturna com vara pesquei uma traíra de mais de três quilos. Ficamos acampados por quatro dias. No terceiro estava programada uma jornada de seis quilômetros, que o Chefe chamou de Procura da Mina do Fantasma. Deu a cada Patrulha um croqui, uma bussola, e uma carta prego. Nela as instruções eram claras. Duas horas de caminhada rumo NNE, encontrar uma grande seringueira de mais de quinze metros de altura. Virando-se para WSE encostados a árvore devíamos seguir por cento e cinquenta metros a contar no passo duplo. Sem erros. A Patrulha era boa nisto. Assim foi feito. Havia uma passagem em um barranco, largo, mas que dava para um enorme despenhadeiro. Ficamos longe dele.

                   Precisávamos tomar novo rumo. E a bússola? Quem ficou responsável? Era eu. Não achei em meus bolsos e nem no bornal que levei. Deu vontade de chorar. Leones me olhou com cara feia. Jair nem falou. Até Nonato o cozinheiro meu amigo não disse nada. – E agora? – Pense Lávio. Tente lembrar onde pode ter esquecido! – Fiz tudo e nada. Resolvi voltar pela trilha. No Barranco na trilha onde passamos parte dele cedeu. Toda a patrulha foi arrastada para o fundo do despenhadeiro. Mais de oitenta metros de queda. Ainda bem que não foi queda livre. No fundo da ravina caímos em vários arbustos cheios de espinhos. Uma dor horrível. Eu gritava de dor e meus companheiros também. Ficamos em pé. Difícil de mexer. Todos sentindo dores enormes. Tínhamos de sair dos espinheiros. Para onde ir? Até o Leones Monitor não sabia o que fazer. Ouvimos ao longe um grasnado de um Corvo. “Croc, Croc, Croc.” O avistei a uns cem metros em uma árvore. Ele voou em cima de nossas cabeças. Sempre indo a uma direção.

                   Não sei por que falei para o Leones que devíamos seguir o corvo. – Por quê? Ele disse. – Porque ele é o guia de nossa Patrulha. Ninguém riu. Com dificuldade conseguimos sair do espinheiro no
rumo que o Corvo voava. Paramos a beira de uma pequena nascente para retirar os espinhos. Grande jogo de seis horas porque levar primeiros socorros? Começou a escurecer. O corvo sempre voando sobre nossas cabeças e depois indo a uma direção. Perdemos a noção de tudo. Mas sempre seguindo o Corvo. Escureceu. Não dava para andar mais. O Chefe e as demais patrulhas devem estar aterrorizados com nosso sumiço. Fazer o que? Um frio forte trazido por uma bruma da ravina nos pegou em cheio. – Alguém tem fósforos? Ninguém. – Lembrei que papai colocou um isqueiro na minha mochila. Porque cargas d’água o coloquei no bolso não sei.

                    Na ravina dava para avistar o céu. Ficamos em baixo de uma Guaritá frondosa. Dormir com aquele frio? Melhor acender um fogo. Com muito custo recolhemos vários gravetos e duas boas achas de madeira. Olhei para um galho na árvore e lá estava o corvo. Ele desceu voando e pousou no meu ombro. Todos dormiam ninguém viu. Interessante que uma pena sua era dourada e as demais pretas. Ele no meu ombro me fixava como se me conhecesse. Ficou ali por muito tempo. Acordei com a alvorada e o fogo apagado. Leones começou a cantar e dançar a musica dos cavalos trotando. Todos nos o acompanhamos. Deu para esquentar. O corvo de novo voando sobre nossas cabeças e seguindo em uma direção. Lá fomos nós. Duas horas depois avistamos o acampamento. Eu agradeci a Deus e quase chorando todos nós nos abraçamos. Não houve acesso de gritos do Chefe a não ser a gozação das demais patrulhas.

                   Até o dia seguinte na partida o corvo ficou lá, próximo ao nosso campo sempre voando e grasnando. Croc. Croc. Croc. Na partida ele nos acompanhou por muitos quilômetros. Da janela do ônibus eu o avistava e ele muitas vezes bicou os vidros querendo dizer alguma coisa. Um sono pesado e dormi feito um anjo. Confesso que nunca achei mais a bússola. Ofereci-me pagar e o Chefe não aceitou. – São coisas que acontecem claro, desde que lhe sirva de lição! Ele disse. No sábado seguinte a Tropa formada para o Cerimonial de Bandeira. Ao final do hasteamento fui convidado para dirigir a oração. Fiquei no meio da Ferradura. - Senhor ensinai-me a ser generoso, a servir-vos como mereces, a dar sem contar, a trabalhar sem descanso... Parei. O corvo estava ali voando em círculos sobre nós. Chamou a atenção de todos. Ficamos olhando seu bailado. Ele desceu até onde estava. Pousou no meu ombro. Tinha preso no bico uma pena dourada. Vou para cima do meu chapéu de três bicos. Colocou lá a pena e saiu voando e grasnando rumo sul. Sumiu no céu azul daquela linda tarde de primavera.

                  Um silencio sepulcral. Ninguém dizia nada. Até o Chefe estava extático e deslumbrado com o fato. Ele sabia da história do Corvo. Não acreditou em nós quando contamos. Tirei meu chapéu. Coloquei a pena dourada do meu querido corvo entre a correia e meu chapéu. Não ficou ali para sempre. Só colocava o troféu do meu amigo corvo nas atividades e solenidades que participávamos. A pena dourada fez história. Tornou-se um mito. Está lá em letras de forma toda a história no livro de Ata da Patrulha. Contam até hoje sua saga em todas as Patrulhas e no Grupo Escoteiro. – Olhei para o Chefe Lávio. Todos olhavam para ele com um ar de incredulidade. Ele se levantou e foi até sua barraca voltando em seguida. No topo do seu chapéu de três bicos lá estava a pena dourada. Linda, nunca tinha visto igual. Ah! Histórias são historias. Algumas marcam outras lembramos de tempos em tempos. E como diz um Velho Chefe Escoteiro:

Boi não é vaca, feijão não é arroz... E quem quiser que conte dois!


E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!


Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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