sábado, 17 de setembro de 2016

Joe Colosso, um papai coruja. “Este é meu garoto”!


Vale a pena ler de novo.
Joe Colosso, um papai coruja.
“Este é meu garoto”!

          Dona Naná quando o viu cochichou para Dona Sinhá – Ele veio! Se soubesse não tinha vindo. Sempre foi assim, em qualquer reunião de pais no Colégio dom Bosco Joe Colosso estava lá. Até que podia se entender, pois sua esposa faleceu há anos e ele como pai tinha que estar presente. O que ninguém gostava era da sua superproteção do Quinzinho seu filho. Ele achava que a escola devia tudo a ele e ele não devia nada para ela. Não adiantou as dezenas de vezes que Dona Dora a Diretora o chamara em particular – Seu Joe, o Quinzinho não obedece mais ninguém. Diz que se entendam com “seu Pai”. Ele veio aqui para aprender e com sete anos já quer dar ordens a todo mundo! – Mas e daí? Joe Colosso fingia que concordava e sempre no final dava razão ao seu filho. Afinal desde que Soninha sua mãe faleceu que ele sempre foi um pai protetor. Sabia que o menino não tinha mais ninguém.

           Um dia Quinzinho “ordenou” ao seu pai: - Pai me leve nos Escoteiros. Eu gostei da farda deles. Era sempre assim, quinzinho não pedia, ordenava. No sábado eis que Joe Colosso e Quinzinho adentram ao grupo. Ele de uniforme de lobinho com distintivos e seu pai colocou dez estrelas de atividade em sua camisa – Isto é para mostrar a eles que você é o melhor! – Chefe Mattos olhou e não criticou – Seu Joe, ele disse – O Senhor tem de fazer um pequeno curso e então seu filho poderá começar. Foi à conta – Quinzinho começou um berreiro que assustou todo mundo na sede. Seu pai custou para acalmá-lo. Em casa sentou seu filho no colo e disse a ele que aguardasse, aqueles Escoteiros iriam receber uma lição oportunamente. Mesmo assim Quinzinho ficou emburrado por uma semana. Descontou suas contrariedades em Dona Nice sua professora.

            Na data prevista correu para o Grupo Escoteiro. O Chefe já havia avisado para não ir de uniforme, mas ele iria mostrar ao Chefe quem mandava ali. Chegou todo posudo e voltou para a casa em seguida. Sem uniforme disse o Chefe. Pisou com força no chão, gritou, pegou manha, mas o Chefe foi irredutível. Voltou no sábado seguinte sem ele. Não tinha jeito. Explicaram que tinha provas a fazer para a promessa e vestir o uniforme. Reclamou com seu pai que reclamou com o Chefe que levou o caso de Quinzinho ao Conselho de Chefes do Grupo. Chegaram a uma conclusão que ele podia mudar. A Akelá ficou cismada. Na matilha Verde o Primo não aguentava mais. Ele gritava que ia ser o primo, pois tinha mais qualidades. Terrível o Quinzinho. No primeiro acantonamento Joe Colosso pediu para ir. - É o primeiro do meu filho disse. E se ele quiser um biscoito? Um chocolate? E se sentir frio? E se quiser rezar? – Mas ele reza? Perguntou a Akelá Candinha. Todos em volta riram. Joe Colosso não gostou.

          Foram de manhã e a tarde Joe Colosso chegou de carro. - Só passando, só passando! Já estou de volta! – Ficou lá mais de cinco horas. Sempre ao lado do filho perguntando se ele queria alguma coisa. Interessante que Quinzinho se enturmou e esqueceu o pai. Claro até a hora de dormir, pois não queria fazer sua cama. Sempre foi seu pai quem fez. Quinzinho voltou feliz do acampamento e disse ao seu pai que aprendeu a ser homem. Joe Colosso riu. Homem? – Você é um pirralho meu filho. Cresça e apareça. – Disse aquilo e se arrependeu. Foi ciúme dos chefes da Alcateia que fez com que eles o esquecessem. Mesmo assim ao dormir disse para si – “Este é o meu garoto”!

         Joe Colosso já estava enchendo a paciência de todos no grupo. Ninguém aguentava quando ele chegava. Era meu filho prá cá, meu filho prá lá e falando mil maravilhas. Chegou a dizer ao Chefe Mattos que estava na hora de darem uma medalha ao seu filho. O Chefe Mattos um homem calmo e ponderado teve uma ideia. Quem sabe se Joe Colosso ficasse cinco dias acampados com os Escoteiros ele não pudesse ver melhor como se faz um Escoteiro? Ele iria conhecer o método na prática aprender a fazer fazendo, aprender a se virar, aprender a ser independente e então ele vai ver os reais objetivos do escotismo. Afinal um dia não saimos de nossa casa, não iremos viver sozinhos e tomar nossas próprias decisões? – Falou com o Chefe Naldo. Naldo se assustou - Tás brincando Chefe! Não teve jeito. Foi difícil convencer Joe Colosso. Onde deixar seu filho? Alguém pensou que cinco dias na casa de correção de menores até que seria bom. Pagou uma fábula a Dona Inês sua tia para ficar com ele.

        Olhe, foi a maior lição que Joe Colosso teve na vida. Assustou com os meninos viverem em patrulha, a dormirem sós em barracas, a cozinharem eles mesmos. Aquelas construções maravilhosas, e o tal fogo do conselho? Só de meninos e meninas e eles mesmos dirigindo e o Chefe Naldo os deixando fazer fazendo. Que lição aprendeu. Quando um Monitor se apresentava ele pensava na vez de Quinzinho quando fosse eleito. Assimilou o Sistema de Patrulhas no seu todo. Acreditou mais ainda no escotismo e nos resultados que trariam para seu filho. Explicar a ele? Não. Ele deveria aprender por si só. Joe Colosso mudou. E para melhor. Quinzinho se revoltou com aquela mudança. – Pai vou sair dos Escoteiros – Vai não disse! – Vais ficar lá até poder assumir sua própria vida! – Mas pai, lá eu sou mandado e não mando nada – Filho, ele disse, tens de aprender a ser mandado para depois mandar. Só é um verdadeiro líder aquele que lidera e saber ser liderado. Mandar qualquer um pode mandar obedecer é mais difícil.

       Hoje eu sei que Quinzinho se transformou em um verdadeiro homem. Graças ao escotismo e a um programa bem feito. Ainda bem que Quinzinho teve sorte em entrar em um grupo bem estruturado. Um grupo que se orgulha por ser democrático. Onde todos são consultados. Onde no Conselho de Chefes todos tem voz e voto. Onde existe uma bela de uma Corte de Honra e onde seus monitores fazem de uma patrulha seu aprendizado pessoal junto ao Chefe da tropa. Quando visito o grupo sinto-me orgulhoso em ver quinzinho com seu Lis de Ouro. E melhor do que ver seu pai Joe Colosso com sua Insígnia da Madeira e ainda bem sem a pretensão de cargos maiores. Sua luta é na tropa pensando sempre nos meninos como um todo. Seu filho? Faz parte, mas no grupo é igual aos demais. Em casa ele aprendeu a exigir, a solicitar suas notas, a cobrar sua educação e respeito com as professoras. Sei que um dia no colégio Dona Naná quando o viu cochichou para Dona Sinhá – Ele veio! Maravilha amigo. Adoro a presença dele aqui!


É quem te viu e quem te vê!        

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Zezé Saviola, superando limites.


Vale a pena ler de novo.
Zezé Saviola, superando limites.

              Zezé Saviola poderia ter sido um bandido, um marginal ou um traficante de drogas. Não foi. Não foi por um motivo simples. Alguém resolveu ajudá-lo e este alguém se chamava Montana, um simples Chefe Escoteiro. Zezé Saviola era negro, magro e com o rosto marcado pela varíola que sofreu quando criança. Sua mãe vendia drogas e seu pai vigia na prefeitura vivia embriagado. Dona Leôncia morreu crivada de balas em um Beco no Jardim das flores uma favela onde moravam. Zezé não tinha ninguém por ele e por graças de boas almas vizinhas ele ainda tinha uma refeição e alguma roupa que lhe davam. Algumas vezes seu pai acordava sóbrio e olhava para ele chorando. - O que eu fiz? Perguntava a sí próprio ao olhar para seu filho Zezé Saviola. Ele amava o filho, mas era sair de casa seu caminho era cheio de bebidas alcoólicas. Muitas vezes acordava em uma marquise qualquer, em um banco da praça e muitos que o viam bêbado pelas sarjetas juravam que ele chorava.

             Chefe Montana fora Escoteiro quando jovem e se tinha duas coisas que amava na vida era sua esposa Dorinha e o escotismo. Eletricista formado pelo SENAI tinha uma boa casinha, um carrinho simples e não desejava mais nada. Sua simplicidade supria suas dificuldades, pois era fanhoso, e foi muito zoado pela molecada da cidade. Isto o deixava triste, mas nunca enraivecido. Sua Tropa no Grupo Escoteiro Águia de Haia o adorava. Eram 18 Escoteiros e 10 escoteiras sendo estas aceitas quando Dorinha uma senhora que passou a ser Chefe acreditou na coeducação. Chefe Montana era bom. Muito bom em tudo que fazia. Os pais dos meninos escoteiros da Tropa o respeitavam e acreditavam que seus filhos teriam muito a aprender com ele. Era uma Tropa impecável com qualidades incríveis do Sistema de Patrulha. Sempre acampando, excursionando ou fazendo atividades aventureiras. Na sede era uma ou duas reuniões por mês.

                         Zezé Saviola se sentia encurralado. Apesar de não ter medo era obrigado a lutar com muitos que o chamavam de fanhoso. Ele nunca esqueceu um dia quando seis moleques o pegaram no Beco da Saudade e lhe deram uma enorme surra. Por quê? Ele perguntava. Seria pelo seu rosto “perebento” ou por ser filho de um beberrão? Zezé sabia que se tivesse oportunidade para correr ninguém o alcançaria. Corria como o vento e sempre que podia ia para a Estrada do Elefante e ali corria a mais não poder. Naquela tarde no Beco Zezé se preparou para a defesa, com as duas mãos juntas sabia que pelo menos dois iriam arrepender-se de atacá-lo. Todos caíram em cima dele e aos gritos de mata o filho do demônio batiam nele a mais não poder. Uma voz forte gritou alto para largá-lo. A meninada conhecia aquela voz fanhosa e sabiam que não era hora para sorrir. Saíram correndo e gritando – Vai ter outra vez Zezé Bexiguento!

                        Chefe Montana viu que ele sangrava no nariz e na orelha e um olho estava inchado. O levou para sua casa e o tratou. Lourdinha o ajudou como podia. Zezé – Disse Chefe Montana – Quero ver você sábado no grupo escoteiro. Faço questão que seja um de nós – Zezé olhou para Chefe Montana ressabiado. Nunca pensou em ser Escoteiro, mas quem sabe se fosse um a molecada o respeitaria mais. No sábado ele chegou receoso. Assustou, pois foi muito bem recebido e encaminhado para a Patrulha Javali. Com dois meses Zezé se sentiu outro e aquela tristeza que o acompanhava se transformou em um sorriso. Disseram a ele que quem entra no escoteiro se transforma. Passa a acreditar que a felicidade existe. Quatro meses depois a tropa estava alvoraçada, pois sabiam que se aproximava a data das olimpíadas escoteiras distritais. Mesmo treinando muito todas as modalidades sabiam que dificilmente iriam ganhar uma medalha, no entanto isto pouco importava, pois o importante era participar como dizia o Chefe Montana.

         Chefe Montana não gostava muito de participar da Olimpíada. Eram cinco grupos e dois deles se achavam os tais. Viviam se gabando que eram Padrão Ouro e não perdiam para ninguém. Um deles o Grupo Escoteiro Dez Estrelas em todas as atividades que participavam sempre ganhavam. O Chefe deles um fanfarrão dizia que quem quisesse vencer que se “ralasse”, pois o grupo era de gente bem treinada e de posse. Contratavam sempre bons Professores de Educação Física e treinavam quase diariamente. Todos os anos colocavam uma faixa na porta da sede dizendo – Grupo Escoteiro Padrão Ouro! O melhor da cidade! Zezé quando soube pediu para inscrevê-lo em quatro modalidades – Corrida salto em altura, salto em distância e revezamento dos 200 metros. Inacreditável! Todos ficaram boquiabertos com Zezé. Ganhou todas. Nem Zezé sabia que era um triatleta. Zezé foi festejado e o Melhor Grupo da cidade humilhado. Se pelo menos eles tivessem aprendido que a cortesia, a lealdade e a fraternidade escoteira eram um fato então valeu a pena as medalhas que Zezé ganhou.

              Aos desesseis anos já sênior Zezé soube de uma corrida famosa na capital. Não tinha dinheiro para inscrição e o Chefe Montana fez questão de pagar. A tropa fez uma vaquinha para sua viagem e ficaram torcendo por ele. Zezé não tinha roupa apropriada para a corrida, usou a calça e a camisa de Escoteiro e sem calçado foi colocado em um dos últimos lugares da corrida. Os melhores na frente. O mundo se surpreendeu com o maior Corredor brasileiro de todos os tempos. Primeiro lugar disparado e seu prêmio em dinheiro foi de cem mil reais. Na cidade foi ovacionado e até um carro de bombeiro estava lá esperando a chegada do trem. Zezé humilde viu que a multidão aplaudia. Do premio fez questão de doar trinta mil ao grupo apesar do Chefe Montana tentar recusar. Com o saldo comprou uma casinha de alvenaria para seu pai e prometeu a ele que agora tudo ia mudar.


             Mudou mesmo. Zezé Saviola passou a participar de todas as corridas em todo o mundo. Ficou rico e todos se divertiam com ele por correr descalço e com a calça e camisa escoteira. Aonde ia fazia questão de estar com seu uniforme. Dizem que toda história tem final feliz, esta não tem. Poderia ter se não fosse Trinado da Morte, um bandido que morava na capital e recebeu um bom dinheiro de um empresário que queria que seu pupilo ganhasse todas as corridas. Contratou o matador para matar Zezé Saviola. Foi um tiro certeiro, mas Zezé não morreu. Ficou paraplégico. Ainda bem que guardou um bom dinheiro e ele e seu pai tinham o que precisavam para viver. Zezé nunca desistiu de nada. Jurou a si mesmo que voltaria a andar e correr. Cinco anos depois ele sentiu uma perna e dois anos depois a outra. Dez anos passados e Zezé ficou em pé. Quando quinze anos depois se inscreveu em uma corrida novamente foi saudado como herói por todos que o conheciam. Chefe Montana e seus Escoteiros nunca abandonaram Zezé Saviola. Sua bondade, sua simplicidade e sua maneira de ganhar sem se vangloriar serviram de exemplos para eles por toda a vida. Como dizia Ayrton Senna - Se você quer ser bem sucedido, precisa ter dedicação total, buscar seu último limite e dar o melhor de si.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Meu Chefe meu mestre meu herói!


Lendas Escoteiras.
Meu Chefe meu mestre meu herói!

                   Chegou à sexta feira. Eu estava cansado. Precisava de um fim de semana só para mim, mas tinha prometido ao Guilherme meu filho assistir naquele sábado sua primeira partida oficial de futebol. Aceitei sem reclamar. Nos seus nove anos se tornou um filho do qual me orgulhava. Queria ser mais presente e não fui o pai que devia ser. Precisava de umas férias. Joelma reclamava da minha entrega ao trabalho e eu sabia que ela tinha razão. Tinha sido escolhido pelo Conselho da Empresa como o novo Presidente e me agarrei de corpo e alma tentando mostrar que era capaz. Fora um sonho que se realizou. Meu primeiro emprego e agora estava no topo, não podia decepcionar aqueles que confiaram em mim. Cheguei até a janela envidraçada do décimo sexto andar e vi lá embaixo um aparato dos bombeiros e sirenes a zumbir nos céus. – Chamei Dona Marta minha secretária para saber o que estava acontecendo. – Um atropelamento Senhor. Um mendigo, um morador de rua que foi enxotado pela nossa segurança perdeu o equilíbrio e caiu na rua sem desviar do trânsito local.

                     - E o que ele fez Dona Marta para ser expulso do prédio pela segurança? – Senhor, há vários dias ele vem aqui querendo falar com o senhor. Explicamos a ele que seria impossível que o Senhor era o Presidente e não podia falar com qualquer um! - E o que ele queria comigo? - Veja só Senhor, ele dizia que queria abraçá-lo, queria sentir a sua vitória e confirmar se ainda tinha o espirito Escoteiro de outrora. Disse que o Senhor tinha prometido ser um homem de bem e de caráter. – A gente ria dele e ele insistente em falar com o Senhor. – Ele disse o nome Dona Marta? – Não lembro, posso perguntar a recepção se for necessário. Ligue já Dona Marta! Alguns minutos depois ela voltou sorrindo: - Um pobre diabo Senhor, calça rasgada, camisa velha, chinelo e dizia que era o Chefe Conrado! Que o senhor o conhecia. Veja só Senhor, um pé rapado se fazendo de Chefe importante. Chefe de que Senhor? Com aquelas roupas, com aquele cheiro ele não era nada, apenas um pobre diabo que nem um canto para morrer tinha.

                        Dizem que esquecer é uma necessidade. Que a vida é uma lousa, em que o destino sempre nos escreve um novo ocaso. Será que eu tinha apagado a escrita do tempo e o deixei para trás? Meu coração bateu forte. Minhas lembranças voltaram sem pedir permissão. O Chefe Conrado sempre foi minha luz, meu mestre meu herói. Porque não me disseram nada? Eu era importante demais? Logo ele que me deu tudo e eu nunca dei nada para ele depois de rico e famoso? É a experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido. O passado não importa. Sai correndo sem avisar. Foi como um século a descida do elevador privativo até a recepção. O alvoroço foi desfeito. A calçada lavada. Transeuntes nem sabiam o que houve ali. – Para onde o levaram? Perguntei ao Guarda de plantão. – Ele quem Senhor! Ele! Gritei. O que foi atropelado! – Senhor apenas um pobre homem que nada tem a ver com nossa Empresa internacional. Quem liga para ele?

                        Vontade de socá-lo. Resguardei-me para não falar palavrão. Ele sempre me dizia - Escoteiro, o homem civilizado, o homem de caráter e que tem honra, não diz e não fala palavrão! Quantas saudades me vieram à mente. Chamei meio mundo da empresa. Descubram já para onde foi levado. Eu preciso saber e não quero desculpas. – Estava sendo indelicado. Eu não era assim. O Chefe Conrado foi o pai que nunca tive. Foi à mãe que encontrei. Criado pela minha avó eu praticamente não tinha ninguém. Se sou o que sou devo a ele. Minha mente viajou no tempo e foi parar no acampamento do Pico do Falcão. O sol se ponto. Eu e mais três escoteiros monitores sentados olhando para o horizonte. – Veja ele disse. Porque se sentir importante se o sol que se põe toda tarde e volta novamente fazendo o mesmo trajeto, e nunca foi tão importante assim? Quem entendeu? Eu fiquei matutando e a noite depois de que a fogueira foi acesa ele bateu nas minhas costas sorrindo: - “Nunca desista de algo que você não consegue passar um dia sem pensar”.

                     Nossa quanta saudades do meu tempo de Escoteiro. Se eu pudesse ter apenas mais um desejo eu iria pedir voltar no tempo e ser Escoteiro novamente. – Hospital Santo Ângelo Senhor – Dei ordens para preparar o helicóptero. Precisava chegar logo, saber como ele estava. Pagaria tudo que fosse preciso. Não haveria senões, não me importava o preço, o Chefe Conrado merecia isto e muito mais. Subi até o heliporto e parti. No meu destino o Diretor me esperava. A empresa era uma das mantenedoras e a direção sabia disto. Ele estava sendo operado. Costelas, braços e pernas quebrados. Não iria durar muito tempo. – Façam o que for preciso. O possivel agora e o impossível daqui a pouco. – Três horas depois me chamaram até a enfermaria. Ele estava enrolado em um cobertor Velho e mal cheiroso. – Exigi respeito. Foi levado para o melhor apartamento. Ainda estava sonolento e nem me reconheceu. Fiquei ali no quarto por tempo que não soube medir. Liguei para Joelma explicando. Ela sabia do meu amor pelo Chefe Conrado.

                    De madrugada dormitava quando ouvi sua voz – Escoteiro, é você? Levantei chorando de alegria. – Não me abrace, estou moído, me dê somente um aperto de mão! Fiquei com ele toda manhã e voltei à noite para ver como estava. – Chefe, eles não sabiam quem era o Senhor. – Desculpe! – Escoteiro, só existe um universo, oito planetas, 204 países, 809 ilhas, sete mares, sete bilhões de pessoas. Como posso exigir que soubessem quem era eu? E você sempre foi o Escoteiro que me deu tanta felicidade enquanto estivemos ombreando nos nossos acampamentos que nunca esqueci. Eu chorava de alegria. Disse para ele que agora tudo ia mudar. Ele na sua simplicidade disse-me que não queria nada, tinha o mundo, tinha a lua tinha a estrelas que alimentavam seu lar. – Escoteiro! Algumas vezes coisas ruins acontecem em nossas vidas para nos colocar na direção das melhores coisas que poderíamos viver. Nunca sabemos quão forte somos até que ser forte seja a única escolha.


                Um mês depois ele deixou o hospital. Não deixou endereço, não disse para onde foi. Fiz tudo para localizá-lo e não consegui. Chamei Guilherme e perguntei se queria ser Escoteiro. Ele me olhou ressabiado. Pai, não sei o que é isto. Vai saber, vai ver que lá é onde damos os primeiros passos para enfrentarmos as dificuldades da vida! Pai será que vou gostar? Não sei Guilherme, se não gostar terás o direito de decidir. Naquela tarde eu e ele adentramos no pátio dos escoteiros. Uma lembrança forte do Chefe Conrado. Nunca esqueci o que ele me disse quando fui para a faculdade: - Escoteiro, se a caminhada está difícil, é porque você está no caminho certo! E de novo voltei ao meu passado sendo o Escoteiro que eu sempre fui!

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Lendas Escoteiras. O escoteiro Caçador de Onças!


Lendas Escoteiras.
O escoteiro Caçador de Onças!

                 Gente fina Totonho Freitas. Hoje ele estaria com 73 anos e eu passando meus 75 anos. Fomos escoteiros na mesma tropa. Patrulha diferente, mas sempre amigos. Estudamos na mesma classe. Ele se tornou um engenheiro famoso, eu ao contrário me tornei um “velho” rabugento aposentado e duro. Totonho tinha uma veia de poeta. Intercalava o que dizia com frases que não sabia se era dele mesmo. – “A juventude não é uma época da vida, é um estado de espírito” Olhei enigmaticamente para ele. Completou: - - Sabe meu amigo, se eu pudesse voltar à juventude novamente, cometeria os mesmos erros de novo. Só que de maneira mais saborosa, mais aventureira. Lembro muito de Totonho. Era Escoteiro de coração sempre alegre e prestativo. Totonho era não era como eu. Mesmo com 73 anos ele ainda participava do Grupo Escoteiro Estrelas Cintilantes. Eu não. Difícil sair de casa com a saúde que tenho.

                  Célia serviu um cafezinho e algumas guloseimas. Totonho começou a contar o acampamento no sitio das Três Porteiras que não pude comparecer. A gripe me pegou de jeito. Chorei muito, mas o que há de se fazer? Local de grandes acampamentos. O proprietário um amigão do Chefe João Soldado e dizia que a porteira sempre estaria aberta para nós. Interessante que só vi uma. Porque chamavam três porteiras não sei. Local maravilhoso uma linda mata virgem e uma lagoa enorme, duas nascentes e um belo córrego com muitos peixes. O chefe Jonas fez um desafio às patrulhas e elas claro aceitaram. Éramos quatro patrulhas. Lobo, Pantera, Leão e Morcego. Eu da Lobo e Totonho da Morcego. Seriam precisamente três desafios. O primeiro, não levar alimentos de espécie alguma. Só óleo e sal. O segundo não levar barracas e nem material de sapa. E o terceiro nos proibia de dormir no chão depois do primeiro dia. Como era época de férias, seria um acampamento para oito dias. Nas mochilas só uma muda de roupa e um cobertor além dos materiais de higiene pessoal.

                   As patrulhas aceitaram o desafio. Eram patrulhas com grande experiência de campo. Vários primeiras e segundas classe. Totonho me olhava e ria dizendo que perdi o melhor acampamento de minha vida. Quando somos jovens, temos momentos tão felizes que achamos que vivemos em um mundo mágico, como é nossa imaginação. Chefe Jonas dizia que os velhos acreditam em tudo, as pessoas de meia idade suspeitam de tudo, e os jovens, há! Os jovens eles sabem de tudo! Quando me contaram as histórias sorri e pensei que devia ter ido mesmo gripado. Dormir em abrigos feitos no alto da árvore não era difícil. Fizeram uma cabana pequena com galhos quebrados nas mãos, montados em bambu seco encontrados em um bambuzal. O pior estava por vir. A alimentação. O monitor mandou três da patrulha saírem à caça. Ficar cinco dias comendo frutas e só aves na brasa não dava. No inicio uma barra depois se acostuma.

                 Eu não sabia ainda da versão do próprio Totonho. Só sei que aumentaram tanto que não deu para acreditar. Ele e seu monitor saíram à caça. Pareciam dois valentes aventureiros em busca do Leão da Montanha. Totonho armado com seu bastão e muitas pedras no bolso. Encheram os bolsos com pedras retiradas do riacho. Em seguida montaram diversas armadilhas “tipo pirâmides”, tendo como iscas pedaços de mamão. Acreditaram que poderiam pegar umas pacas e se possível um tatu, contava Totonho. Rindo e cantando, voltaram à tardinha com três pacas vivas e um tatu. O duro foi Zé Coringa o cozinheiro matar os bichos. Totonho contava e ria. - Ele olhava nos olhos delas e pensava – Caramba! Nem sabem quem sou eu. Matá-las? Nunca! Muitos fizeram o mesmo. Procuraram o Chefe Jonas no campo de chefia. A surpresa deles foi enorme. – Chefe, não temos coragem. Soltamos os bichos. Uma fome enorme. Alguns já sabiam onde havia vários pés de goiaba e mamão. Goiaba verde. Mamão verde. Comemos assim mesmo. Na madrugada uma tremenda dor de barriga.

                  Passaram a noite toda gemendo e dormindo mal. No dia seguinte a fome aumentou. Fizeram uma Corte de Honra para decidirem se iriam retornar. Ninguém quis dar o braço a torcer. Afinal eram ou não escoteiros? Correr ao primeiro sinal de perigo? Resolveram pescar. Pescar como? Alguns juntaram galhos quebrados em arvores e amarrados com cipó, fizeram uma pequena rede. Deu certo. Muitos lambaris e carás e até mesmo quatro traíras enormes. Acender um fogo era fácil. Todos sabiam como fazer. Nunca comi peixes tão gostoso dizia Totonho. Alguém disse ter descoberto próximo ao riacho, plantas que pareciam inhames. Agora era peixe com inhame. De novo a dor de barriga. Estávamos aprendendo a ter dor de barriga naturalmente. Ficamos craques! Risos. O chefe Jonas não interferia. Era nosso desafio. Só visitava nosso campo pela manhã para inspeção, na hora do almoço e a tarde sempre formava a tropa para um jogo e algum adestramento mateiro. A noite um jogo noturno.

                No dia seguinte achamos que devíamos pegar um animal maior para comer e guardar a carne. Fizemos uma enorme armadilha no chão, um grande buraco e tapamos com capim. Em cima duas rolinhas mortas. No dia seguinte uma surpresa. No buraco uma Onça pintada! Devia pesar uns 80 quilos ou mais. Estava cansada de tanto lutar para sair Dalí. Olhou-nos com aqueles olhos de cachorro ladrão. Totonho contava como se estivesse olhando naquele buraco a enorme com a onça pintada. – Ela parecia ter quebrado as pernas e estava quase morta. Não havia mais jeito de soltá-la para a natureza. A patrulha resolveu dar cabo dela. Matar como? Achamos um pedaço de árvore bem grande. Todos seguravam na ponta e de uma só vez a pancada na cabeça dela foi forte. Escoteiros unidos para matar! A onça morreu. Totonho disse que chorou. Arrependeu-se de votar a favor da morte da onça. Mas agora estava feito. Vado, amarramos pelos pés e mãos, enfiamos um bastão que envergou e foram necessário dois escoteiros se revezando até o campo de patrulha. Foi uma festa. O chefe Jonas e o assistente também. Os chefes ficaram tristes ao ver a onça morta. Todos ficaram.


                  Mesmo com a escoteirada triste foi feito um churrasco. Uma festa regada a tristeza. Desta vez enchemos a barriga. Churrasco de carne de onça. A noite uma enorme tempestade caiu no acampamento. Raios, trovões parecia que o mundo vinha abaixo. Chefe Jonas nos avisou para sair dali. Dito e feito. Uma ventania jogou tudo no chão. Passamos aquela noite debaixo de arvores, mas a chuva ultrapassava as folhas. Alguns se enrolaram em cobertores e mesmo molhados davam alguma proteção. Totonho meu amigo, me diga. É verdade mesmo a historia da onça? – Totonho riu. Claro. Sem ela o acampamento não teria valido a pena.  Não sei hoje se poderia ser feito um acampamento assim. As normas para acampar mudaram. Os chefes também. Não condeno, Risos. Mas eu também fui um. Devia ter ido naquele acampamento. A história da onça pintada de 80 quilos de Totonho é dura de engolir. Mas toda a Tropa confirmou. Enfim um escoteiro tem uma só palavra e sua honra vale mais que a própria vida!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Um monitor a beira de um ataque dos nervos.


Conversa ao pé do fogo.
Um monitor a beira de um ataque dos nervos.

                Pois é Chefe, foi isto mesmo que aconteceu. Para muitos um fato normal para mim quase desisti de ser Escoteiro. Quer saber? Agarrei-me na minha promessa e minha lei para não deixar o cargo de monitor à deriva. Bem, o senhor sabe eu tinha treze anos e experiência nenhuma em liderança a não ser a que aprendi ali mesmo na patrulha. Não era um pata-tenra como monitor isto não, assumira a mais de um ano quando Nonô foi embora com seus pais. Como ele chorou Chefe. Marcou-me muito sua saída. Nós todos tínhamos por ele uma enorme amizade e quem sabe considerado por muitos como um irmão. Por ser muito emotivo não fui à estação despedir dele, depois mandei uma cartinha que contribuiu durante anos manter uma correspondência.

               A patrulha me recebeu bem. Não esperava ser escolhido. Jairo o Submonitor seria a escolha certa. Mas ele mesmo me indicou e disse que não gostaria de ser monitor. Com o Nonô não éramos os primeiros, mas também nunca fomos os últimos. Saímos bem em qualquer acampamento. Quando assumi a patrulha no acampamento de julho no Vale dos Sinos durante dois dias ficamos em primeiro lugar. Um orgulho danado Chefe. Mas tudo que é bom dura pouco. Com a saída de Nonô a patrulha ficou com seis. Abriu-se uma vaga e o Chefe Djalma me chamou na sala da chefia. - Visconde temos muitos querendo participar da Tropa, o mais correto era admitir a reserva mais antiga e não fiz isto. O menino Anthony Lambert é filho do meu Chefe, ou melhor, o dono da fábrica que trabalho. Pediu-me a vaga. Eu não podia negar. No próximo sábado será apresentado à patrulha. Preciso de você para conversar com a patrulha o porquê ele foi escolhido. Diga a verdade. Não sei o que vai acontecer, mas abri uma exceção e não pretendo abrir outra.

                 Não disse nada, a escolha era do Chefe. Fiz minha parte e a patrulha ficou ansiosa para conhecer o novo membro da patrulha. Pois é Chefe ninguém estava preparado nem eu. O menino era um chato, exigente, pensava ser o dono da patrulha. No primeiro dia pegou o bastão da monitoria e disse que seria dele a partir daí. Tomei dele educadamente e saiu chorando procurando o Chefe. Era sempre assim. Se se via tolhido nas suas nuances corria chorando para o Chefe. Assim foram três reuniões. A patrulha se reuniu e pediu a saída dele. E agora? O que fazer? Mas eis que ele chegou naquele sábado com uma pasta cheia de papéis. – Monitor! No próximo acampamento quero fazer estas pioneiras. Tirou da pasta um amontoado de desenhos que nem sei se foi ele quem desenhou. Não disse nada. Já pensava como aguentar o dito cujo por três dias na Fazenda Aconcágua de Dona Iraci.

                 Chefe, não sei se passou por isto, mas eu passei e não quero passar de novo. Falei para o Chefe Djalma que seria seu primeiro acampamento. Que ele prevenisse seus pais sobre o que seria. Mas sabe o que o Chefe Djalma me disse? – Seu pai deu ordens para ele ir. Colocou a caminhonete da empresa a disposição. Caso ele não goste ou se sinta mal, eu devia trazê-lo de volta! – Chefe! O senhor aceitou? – Fui obrigado. Ele vai e aconteça o que acontecer vai ficar todos os dias. No dia da partida lá estava sua mãe com uma lista enorme. – Chefe Djalma dizia ela – Ele deve tomar tais e tais remédios. Ele deve comer quatro vezes por dias nos horários certos. Ele não gosta disto e daquilo. Se tomar sopa ele vomita tudo. Gosta de dormir tarde e levantar depois das dez... Fiquei pensando no que ouvia. Se dependesse de mim ele teria folga. Ou come o que comermos ou passa fome. E tem mais vai levantar as seis em ponto!

                  Quando chegamos ele todo serelepe queria escolher o campo da patrulha. Ameaçou pegar um berreiro se não fosse com os monitores. Pela primeira vez vi o Chefe Djalma dar um grito com ele. Ele correu e se escondeu atrás das árvores. Preveni o Jairo para não dar folga a ele. No primeiro dia ele foi bem. Ajudou nas pioneiras, fez sozinho duas fossas de liquido e detrito que se abriam a um simples toque de pé ou mão. Mas nem bem escureceu me procurou. – Monitor, quero ir embora, a comida do almoço foi uma droga. Aqui tem muito mosquito. Vou e volto amanhã, chame o Chefe para me levar! Chefe Djalma gritou: - Você come aqui, dorme aqui, vai fazer tudo que os outros fazem e se chorar amarro você naquela árvore e vai dormir ali com todo esse frio!

                  Poxa! O Chefe estava arriscando seu emprego. Sabia que podia ser demitido e todos nós sabíamos que se isto acontecesse ele tinha de mudar de cidade para arrumar outro emprego. E quem disse que Anthony Lambert arrefeceu sua gritaria? Necas! Gritou, esperneou, chorou tanto que acreditou mesmo que chorava. Lá pelas nove da noite me pediu um pouco de comida. Flávio o cozinheiro tinha guardado para ele. Ficou manso, sentou-se a mesa de patrulha e comeu com gosto. Tinha de comer, fiz questão de limpar sua mochila dos doces chocolates e biscoitos que sua mãe colocou lá. Chefe, Anthony Lambert mudou e como mudou. Na chegada sua mãe veio correndo abraçar o seu filhinho. Ele disse: Mãe espere tenho de ajudar a patrulha a descarregar o material e guardar. – Seu pai gritou: - Que o Chefe Djalma o faça você vai pra casa! Ele respondeu para o pai: - Aqui sou Escoteiro, vá gritar com seus empregados. Só vou quando terminar e saiu de perto carregando uma barraca!

                   Olhe Chefe, nunca vi uma mudança tão rápida. Precisava ver o novo Escoteiro Anthony Lambert. Eu mesmo não acreditava no que via. O melhor é que ficamos amigos. Ele ia a minha casa e eu na dele. A patrulha fazia muitas reuniões em sua casa. Sua mãe era ótima nas guloseimas e fazia questão de fazer no lugar de Lourdinha sua cozinheira. Quando passei para os seniores ele me disse: - Visconde me espere, breve estarei lá com você! E o tempo passou, cresci estudei e hoje o senhor sabe, sou dono da Fabrica que foi do pai de Anthony Lambert! – Olhei para Visconde. Estava eu ele JF e Juliano sentando em volta de um fogo amigo, na montanha do Grilo. Passava da meia noite. Todos os escoteiros já tinham ido dormir.


                     Visconde! Perguntei, e onde anda Anthony Lambert? Chefe! Oh Chefe! Ele hoje mora em Paris. Casou com a Duquesa de Windsor, vive bem, tem mais cinco fábricas na Europa. Fez questão de me fazer sócio e depois me vendeu sua parte! Olhe me garantiu que viria aqui fazer uma visita. Saiu de Paris as três e deve estar chegando no seu jatinho particular. – Um farol iluminou a estrada dos Afonsos. O carro não podia prosseguir, pois não havia mais estradas. Meia hora depois ele chegou respirando fundo. Em carne e osso Anthony Lambert. Gordo, barrigudo, mas com um sorriso encantador – Preciso voltar ao escotismo disse: - Deu um abraço apertado em cada um. Sentou na beira do fogo, pegou uma banana assada, no caneco tomou um cafezinho. - E então? Vamos continuar a prosa? 

domingo, 4 de setembro de 2016

E lá fui eu sentir novamente o calor de um Fogo de Conselho. Quanto tempo, quantas saudades...


E lá fui eu sentir novamente o calor de um Fogo de Conselho.
Quanto tempo, quantas saudades...

          Crepita a fogueira... Entre nuvens e estrelas, quem sabe uma lua cheia para matar as saudades que são tantas e quando sentei sentindo o calor do fogo, a fumaça da lenha, olhei para a Célia que estava lá e pensei: - Tira de mim este olhar, que queima como fogueira, ilumina igual luar em noite de Lua Cheia! Era verdade. Eu estava ali em volta da chama, coração a bater e lembrar... Quantos? Mais ou menos de mil? Não importava naquela hora. Era um fogo, que aquece que ajuda a gente a meditar o porquê ainda era um Escoteiro. E foi assim que no sábado embarquei com minha amada cara metade e meu filho e fomos escoteirar em volta de um fogo, não tão longe, bem no centro da cidade, mas com o arvoredo e o local parecia que tinha voltado ao a Serra da Castanha, anos que já se foram e não voltam mais...

          E quem disse que éramos muitos? Necas. Meia dúzia ou sete sei lá. Mas ali a quantidade não superou a qualidade. Um cara chamado Lecão, outro chamado Francisco, e dá de bico pois tinha um livreiro com seu filho pioneiro. Quanto tempo conversando virtualmente sem conhecer? Sete, nove ou dez anos? Alô Paulo Jorge, como vai você? Abraços e aperto de mão. Deixaram-me a vontade. Ajudaram-me a caminhar. O Velho Chefe anda escorando nas paredes para não cair. Mas a alma vibrava, o sonho de novo voltou. Lá fui eu em volta de uma fogueira, gostosa, bonita, deliciosa, alegre e viva com seu cheiro de deusa, fumacinha chegando... Ah! Quantas saudades! E a gente cantou, e a gente contou causos e a gente riu e a gente não chorou. Pera aí, não fizemos a cadeia da Fraternidade. Por quê? Francamente nem sei mas não foi o primordial.

              Avião sem asa, fogueira sem brasa não tem graça. Faltou à banana verde caturra, faltou à batata doce faltou sim mas não importou a alegria no lugar. Pois é mais um Grupo Escoteiro morando no meu coração. E foi assim que eu fui ao Encontrão dos Amigos Escoteiros. Magnificamente recebido pelo sonhador e realizador, cara batuta mas que ficou sério e foi preciso eu dizer: Sorria Lecão, aqui é seu encontrão! E o Paulo Jorge? Livreiro de profissão sabe como ninguém falar de escotismo. Sem esquecer o Francisco que já é do peito guardado de outros encontros que vão ficando no passado.

            Foi um sábado supimpa. Amei a jornada com meu filho no volante, filho do qual orgulho. Pai! Eu levo o senhor lá! E levou e chegou e fez amigos, se sente bem em qualquer lugar afinal foi Lis de Ouro meu chapa! Falar da Célia companheira de jornada é chover no molhado, pois ela é um bom bocado e nunca pode faltar em estar ao meu lado, meu avião, meus olhos meu coração. Enfim foi um belo encontrão. Poucos mas já disse, ali a qualidade superava os muitos que se esperava para a confraternização. Vai haver outras, se ainda aguentar mesmo “trupicando”, balançando o corpo para não cair, lá estarei, pois a simpatia e o cuidado me deixou agradecido por cuidarem tão bem deste Velho Chefe Escoteiro que ainda faz horas extras nas atividades que pode comparecer.

               Só posso dizer obrigado, deixar um belo abraço fraterno, dizer um Arrê ou mesmo um bravôo dos bons. Enfim como disse o poeta Escoteiro, eu jamais iria para a fogueira só por uma opinião, afinal amo as coisas de Deus, amo o fogo amigo e ali jurei a mim mesmo que nunca mudaria de opinião. Escotismo é bom demais, amigos que chegam amigos que vão, não importa você sempre dá um jeito de guardar bem no fundo todos eles, lá no fundo do seu coração!


E obrigado Lecão pelo encontrão. Conte comigo hoje e sempre!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Dona Lurdinha. (Uma historia baseada em fatos reais)


Vale a pena ler de novo.
Dona Lurdinha.
(Uma historia baseada em fatos reais)

                      Eu nunca esqueci Dona Lurdinha. Baixinha, cabelos pretos curtos, um sorriso encantador, fazia às vezes de uma bibliotecária da biblioteca da prefeitura da nossa cidade. Aprendeu ali. Não tinha feito nenhum curso. Biblioteca pequena, não mais que uns cinco mil livros, mas era onde podíamos fazer nossas pesquisas. Muitos de nós íamos sempre lá; Não só para ler os livros, mas para “paquerar” as meninas do Colégio das Irmãs.  Pessoas próximas a nós muitas vezes não vemos o que ela é, seus sentimentos e se chora e se ri. Ali naqueles quatros paredes Dona Lurdinha só servia para nos entregar os livros. Se depois que saíssemos ela fosse à mesa onde estivemos para limpar e guardar os livros era como se fosse uma obrigação. Aprendemos muito com as pessoas a nos servirem, mas esquecemos de que servir primeiro e ser servido depois faz parte de um bom Escoteiro.

                       Aluno do Ginásio e Escoteiro eu ia sempre a Biblioteca. Muitas vezes toda a Patrulha. Na Enciclopédia Britânica ou a Barsa devorávamos tudo que se dizia sobre os escoteiros. Dona Lurdinha sempre prestativa com um sorriso. Ela sabia o nome de quase todos nós. Um dia discutimos em Patrulha se BP falecera em Nairóbi ou no Quênia. Não sabíamos que um era a capital do outro.  Uma gostosa discussão em Patrulha. Lá fomos nós a biblioteca. Ela veio prontamente a ler para nós tudo sobre o Quênia e sobre Nairóbi. Ouvíamos com atenção. Afinal achávamos que ela tinha todos os livros na mente.

                         Um dia ao passarmos a porta da biblioteca vimos que ela estava fechada. Escrito em uma folha de papel dizia que Dona Lurdinha falecera. Assustei-me com a notícia. Fomos a casa dela. Uma multidão. Não sabia que era tão querida assim. Disseram que morreu de câncer. Que sofrera muito. Nunca vimos nada. Ela nunca demonstrou para nós sentir dor só nos tratava com bondade e um sorriso. Todo o Grupo Escoteiro foi em peso ao seu funeral. Nunca vi tanta gente no Cemitério como naquele dia. Cantamos para ela a canção da despedida. Como sempre todos chorando. Mas no final uma palma escoteira, um bravo e um arrê com todos os chapéus sendo arremessados para o alto.

                         Uma semana depois colocaram lá o Senhor Carlito. Não era a mesma coisa. Apesar de educado perdia a calma com qualquer um dos jovens que frequentava a biblioteca. Agora ela andava quase sempre vazia. Entrei lá um dia. Estava uniformizado. A missa que frequentávamos tinha terminado. Olhei para todos os lados, as prateleiras, num canto o Senhor Carlito dormitava. Faltaram as moscas para acompanhá-lo. Deu-me uma enorme saudade de Dona Lurdinha. Lembrei-me de Clarice Lispector que dizia: Atitude é uma pequena coisa que faz a diferença. É isto mesmo. Tem pessoas que fazem a diferença, veja o que o Escritor Manoelzinho da pequena Contagem em Minas escreveu:

                            “Para se fazer uma obra de arte, não basta apenas ter talento, não basta ter força, não basta ser inteligente, tudo o que fazermos na vida e uma obra de arte, mas para que uma obra de arte por mais simples que seja se torne um marco para posteridade em nossas vidas devemos executá-la com todo o amor existente em nossos corações porque a nossa vida em si será uma obra de arte que completara e embelezará a vida de quem estiver próximo da gente”.

                            Era verdade. Dona Lurdinha fazia a diferença. Sem ela a Biblioteca perdeu a graça. Pensávamos diferente. Paquerar as meninas, “mandar” ela pegar um livro tal. Para nós sem saber ela era uma serviçal ali para nos servir. Nunca notamos nada, seu sorriso agora fazia falta, sua maneira leve de andar pela Biblioteca sem fazer barulho como se estivesse andando em um gramado nunca foi observado por nós. Incorporou-se a biblioteca. Dona Lurdinha nunca foi escoteira. Nunca vestiu um uniforme, mas hoje eu a tenho como uma das maiores escoteiras que conheci.

Não importa o que ela tenha sido quem nós pensamos que ela fosse ou que desejava na vida, a ousadia em ser diferente reflete na sua personalidade, no seu caráter, naquilo que ela era. E foi assim que sem perceber as pessoas irão sempre se lembrar dela um dia.


Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....