segunda-feira, 29 de abril de 2013

A grande festa de Lagoa dos Açores. O Escoteiro Chefe lusitano vai chegar!


As pessoas tomam caminhos diferentes em busca da felicidade e da satisfação. O fato de que o caminho de alguém não coincida com o seu não quer dizer que vocês se perderam. (H. Jackson Browne)

A grande festa de Lagoa dos Açores.
O Escoteiro Chefe lusitano vai chegar!

                     O boato correu de boca em boca em Lagoa dos Açores. O Escoteiro Chefe de Portugal vinha ao Brasil! Mas precisamente em nossa cidade. Um clima de festa tomou conta. Ninguém sabia quem contou e como souberam. Dizem, ou melhor, dona Flancácia quem sabia de tudo quem contou para dona Naninha que contou para dona Bucycleide, que contou para dona Pamonia... Bem isto não importa. Afinal devia ser uma figura importante. O Brasil não tem Escoteiro Chefe e eles os portugueses tem. Maravilha. Acho que foi Tumenodes da venda Dom Cabral quem disse que ele era Duque. Descendente do Marques de Pombal. Mas qual o nome dele? Que dia ia chegar? Doutor Macbeti o prefeito mandou chamar o Delegado Pancrácio, Dona Flancácia, Doutor Jacumé o Juiz de Direito e os Chefes dos Grupos escoteiros da cidade. Uma grande reunião foi feita. Cada um ficou responsável por uma responsabilidade.

                 Lagoa dos Açores passava conforme o último senso de trinta e cinco mil habitantes. Foi fundada em mil novecentos e cinco por Don Panchito Das Torres Altas, um português que aqui chegou com uma mão na  frente e outra atrás, mas logo enricou. Seus patrícios vieram em peso. Lagoa dos Açores pela sua pujança em produzir café de primeira qualidade, teve o privilegio de receber a visita do Presidente da Republica o Doutor Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca. Ninguém nunca soube dizer o que ele foi fazer lá. Dizem que foi a mando de Don Panchito. Será? Mas isto ninguém perguntou e nem se interessou. Só sabiam que ele prometera a ferrovia até a cidade. Foi uma festa quando a Estrada de Ferro Leopoldina Railway mandou o primeiro comboio com a “Jamiloca” a primeira Maria Fumaça a aportar na Estação Linda Coimbra. Soltaram foguetes, Bandas de Musica, danças, desfiles e uma “comidaria”  que durou mais de três dias. Agora sim, podia-se ir a capital em apenas vinte e duas horas e dormindo! Havia vagões dormitórios, um luxo que poucas cidades tinham.

                Seu Samuel Ramalho Ramires Ramos, o mais antigo padeiro de Lagoa dos Açores dava risadas o dia inteiro. – Um patrício! Graças a Deus! Se  for um Duque vou dar a ele uma corrente de ouro de São Fidelis. Chefe Micaleide Soraia convidou os chefes de todos os grupos escoteiros para uma reunião. Lagoa dos Açores se orgulhava dos seus seis grupos escoteiros. Todos irmãos. Eram dois da UEB, dois da FET e dois da AEBP. Dois Pastores planejavam criar no Templo Evangélico da Rua Mascarenhas um grupo de desbravadores. Quem viessem. Seriam bem vindos. A cidade poderia ser chamada de cidade escoteira. Quase todas as autoridades foram ou participaram por pouco ou muito tempo em algum grupo escoteiro. Nada faltava para eles. Todas as contribuições eram religiosamente dividas entre os seis. A verba da prefeitura era gorda. Nunca faltou.

                Os chefes reuniram-se no domingo no Theatro Municipal Don Panchito. Pena que ha mais de dez anos nada se apresentou no Theatro, mas Totonho o vigia o mantinha limpo e bem arrumado. Estavam presentes mais de oitenta chefes. Cada grupo esbanjava seus voluntários que sofreram para ser aceitos. Não era qualquer um que podia participar da equipe de chefes. Diziam, não posso afirmar que muitos davam boas gorjetas para serem aceitos. Chefe Ronsato falava pelos AEBP. Chefe Jarisol pelos FET e o Chefe Micaleide pelos UEB. Uma discussão gostosa. O que fazer – como fazer – quando fazer e quem vai fazer. Um esboço do programa foi levado ao Doutor Macbeti o prefeito. Ele olhou, pegou um enorme carimbo, molhou com tinta, deu uma forte carimbada e disse: - Aprovado! Moçoilas corriam as ruas de Lagoa dos Açores para em grupo enfeitarem a cidade de bandeirolas – Qual a cor da Bandeira de Portugal? Vermelho, verde, amarelo, azul, branco e preto disse o Professor Arquimomedes o sábio da cidade.

               Pitito Modinha era um escroque. Varias vezes foi preso por enganar os outros. No fundo não era um mau sujeito. Afinal seus pais foram os maiores fraudadores e vigaristas que o estado conheceu. Dizem que até hoje estão no xilindró na Ilha de Alcatraz. Isto mesmo. Tentaram enganar o famoso General Douglas Mac Arthur um americano e se danaram. Pitito Modinha nunca matou ninguém. Enganar sim. Afinal para que trabalhar? Ele dizia. Ria quando era preso e o delegado Caroço de Manga dava uma prensa nele. Pitito mude de vida. Um dia alguém vai te dar um balaço bem nas “orêias” o tiro vai entrar em uma e sair cheio de cera na outra para não dizer outra coisa. Pitito fingia que ia mudar, mas ao entrar na cela sua velha conhecida dizia – Enquanto houver otário São Judas não anda a pé. – O delegado ria e dizia - São Jorge Pitito, São Jorge! Putz! Não interessa. E ficava cinco trinta dias preso. Uma vez ficou  um ano atrás das grades. Pitito Modinha leu a noticia quando cortava o cabelo na Barbearia do Carioto Cariado quando pegou um jornal velho e leu – Lagoa dos Açores vai entrar em festa por três dias. Vai chegar à cidade em julho de 1959 o Marquês de Pombal, Conde de Caravelas, Infante Duque de Bragança, Príncipe Regente, Grão-prior do Crato, Escoteiro Chefe Dom Manuel Pero Vaz de Caminha de Portugal e do mundo o maior Escoteiro Chefe de todos os tempos!

               Minino! Meu Deus! Deu certo! Desta vez vou enricar mesmo. Olhou no espelho da barbearia, sorriu e disse: Pitito Modinha você é bom cara, muito bom! - Tudo começou quando ele na biblioteca atrás do fazendeiro Bom Senso a que queria surrupiar a carteira, sentou em uma cadeira num canto e viu na mesa um livro escoteiro de Portugal. Viu a foto de um lusitano a quem chamavam Escoteiro Chefe. Pitito não era bobo. Correu as páginas do inicio ao fim. Leu tudo sobre os escoteiros da terrinha. Cacilda! Desta vai vou acender charuto com nota de cem! Bolou um plano. Ficou dias pensando. Prá dar certo tenho de fazer um uniforme, mas eles lá da terrinha usam outro. Melhor fazer igual o deles. Calça marrom, sapato preto, camisa marrom clara e um chapéu. Não vai ser mole. Mas tenho tempo. Procurou Praquitinha sua noiva. - Me empresta um dinheiro? Vais receber em dobro. Praquitinha sabia que não ia receber nada de volta mais ela gostava de Pitito. Não ia negar.

                  Enviou um telegrama para Seu Samuel Ramalho Ramires Ramos da padaria. Daí as viúvas lavadeiras, era um pulo. Logo a cidade toda sabia. A escoteirada ficaria alvoraçada e assim o plano começou. – Mais um telegrama e Seu Samuel correu até a prefeitura da cidade. Seu prefeito o Doutor Makbeti suava, gordo, barrigudo sonhava que agora Lagoa dos Açores seria conhecida “nos estrangeiros” -  O telegrama dizia - Chego no dia nove de julho próximo. Irei só. Quero conhecer a cidade dos meus conterrâneos os escoteiros. Diga a eles que vou levar uma grande foto do nosso
Fundador. Lordi Badi Pawell. As ruas enfeitadas. A praça um brinco. A escoteirada pintou tudo. Não havia um toco de cigarro jogado. As filhas de Maria ensaiaram uma canção Escoteira. Zé Calango dos Vicentinos fez uma poesia. Nos grupos escoteiros  uma preparação enorme. – Todos de luvas brancas. Treinaram evolução, a banda, a turma da bandeira, Todos iriam com suas mochilas e montaram em cima de cinco caminhões diversas pioneiras, pois sabiam que os português eram bambas no assunto.

                 Cilene Maria era lobinha. Quieta. Quase não falava. Diziam que era uma menina possuída. Só porque lia tudo que encontrava desde os dois anos. Na escola com oito já tinha feito o ginásio. Nos lobinhos adorava. Sentia-se bem na matilha azul. Poderia ser prima, mas achou melhor não. Evitava ler os livros escoteiros para que os outros não se sentissem humilhados. Ela não queria isto. Queria que eles a considerassem uma irmã, uma amiga que gostava de todos eles. Quando iam acantonar ela ficava encantada com as árvores, com a grama, com os lagos e riachos de águas frias e gostosas. Adorava ver  por e o nascer do sol. Conhecia uma por uma as constelações no céu. Naquele sábado a Akelá Juely comentou sobre a honra que todos teriam em conhecer o Escoteiro Chefe de Portugal. Contou para os lobos que ele lá em Portugal era querido, todos faziam continência, era carregado quando visitava os grupos escoteiros, enfim era um Escoteiro inigualável.

                 Cilene Maria ficou desconfiada. Sua mente rebuscava na memoria todos os livros escoteiros que lera. Sabia que havia não só uma, mas três associações escoteiras em Portugal. De qual ele representava? Sabia também que ninguém tinha mais esta enormidade de nome como o dele. -  Marquês de Pombal, Conde de Caravelas, Infante Duque de Bragança, Príncipe Regente. Grão-prior do Crato, Escoteiro Chefe Dom Manuel Pero Vaz de Caminha de Portugal e do mundo. Impossível. Só reis tinham tanto nome. E ele misturava tudo. Conde com Duque, com infante, com príncipe regente que só Dom Pedro II foi quando seu pai voltou para Portugal. Não estava certo. Muita coisa errada. Soube que ele o Escoteiro Chefe mandou varias fotos de Baden Powell que ele chamava de Lordi Badi Pawell. Ele era analfabeto? Impossível! E a foto? Não tinha nada do fundador. Era de um homem magrelo, novo, cabelo preto, e uma das fotos sorrindo. Era banguelo. Faltava dois dentes na frente. Aquele não era e nunca foi Lord Baden Powell.

                 Cilene Maria procurou a Akelá. Ela não acreditou. Procurou o Chefe  Micaleide Soraia. Ele também duvidou. Ninguém acreditava nela. Sabia que o talzinho que se fazia passar por Escoteiro Chefe era um enganador. Procurou então o Seu Samuel Ramalho Ramires Ramos da padaria. Ele a ouviu calmamente pensando. Também tinha duvidado do primeiro telegrama. O que ele vinha fazer aqui? Porque não na capital? Disse a Cilene Maria que ia investigar. Passou um telegrama para seu irmão em Coimbra e pediu que investigasse. Cinco dias mais tarde chegou à resposta. Chamou Cilene Maria e mostrou o que seu irmão escreveu. Ela também havia investigado a foto do tal Lordi Badi Pawell. Agora era armar um plano. O delegado entrou no meio. O dia chegou!

                      O Trem serpenteava na beira do Rio Luar do Sertão. Em cada curva o Seu Japinondas o maquinista apitava. Na beira da linha a molecada corria com o trem. Uma fumaceira danada na chaminé anunciava a modernidade. Ele sabia que uma alta autoridade estava viajando no seu trem. Seu bisavó Tutunael sempre contou quando era maquinista que trouxe muitas “otoridades” para Lagoa dos Açores. Agora ele podia contar para seus netos que também carregou um. Pitito Modinha viajava de Primeira Classe. Com seu uniforme de Escoteiro lusitano e seu chapéu que custou a encontrar para comprar todos o tratavam como um rei. Quando levantava todos levantavam. Mandou fazer um lindo lenço dourado. Amarelo, verde e um pouco de azul. Comprou um anel grande de brilhantes para prender o lenço. Na mala alguns presentes que conseguiu comprar nas mãos do Caixeiro Paraguaise.

                         Quando atravessaram à ponte do Rio Luar do Sertão ele viu pela janela a cidade. Riu de leve. Depois riu mais. Agora gargalhava. Disse para sí baixinho – Pitito Modinha, você é brilhante. Será o maior golpe de todos os tempos. Desta vez vou encher as burras de dinheiro. Praquitinha iria saber quem ele era. Iria visitar a “horopa” com ela. Ela ia ver a Torri efailde. O Arco do Truque. Contaram para ele maravilhas do tal Palácio das Vertentes. Iria mostrar para ela o Bigue Bend. E depois nas Américas ela ia ver a Estatueta qui liberta tamem. Eles iriam falar gringo, falar françoá, ingreis. Seriam recebidos por reis e rainhas e quem sabe teriam um tituro de pobresa? Já pensou? - Lord Duque Pitito Modinha? Misse Duquesa de Orleanas dona Praquitinha Castiana? E assim ele sonhava. O trem apitando. A cidade chegando. Ele sorrindo de oreia a orêia.

                Olhou pela janela, a estação apinhada de gente. Uma escoteirada sem tamanho. Todo mundo ali para vê-lo. Pensou de novo consigo mesmo. Pau que nasce torno não tem jeito morre torno. Ops! Nada disto. Pau que nasce torto e é sabidão e morre ricasso. E ria, e ria. O trem parou. Silêncio. E a Banda que pediu? Pegou sua mala, desceu. Ninguém bateu palma. Cacilda, o que houve? Onde eu errei? Meu uniforme está impecável aprendi a fazer o nó de escoita e barso pelo seio. Até sei fazer a saudação deles e eles estão me olhando deste jeito? Uma mão bateu em seu ombro. – Olá Pitito Modinha. Quanto tempo eim? Meu Deus! Era a voz do delegado Caroço de Manga! Uma longa salva de palmas. O delegado agradeceu. Colocou as algemas em Pitito Modinha. Entraram de novo no trem. Uma vaia sem tamanho.

                   Por muitos anos Pitito Modinha foi cantado em prosa em todos os fogos de conselhos que a cidade conheceu. Cilene Maria recebeu todas as honras possíveis. Não só do Grupo Escoteiro, mas de toda a cidade. Ela dizia que não tinha feito mais que sua obrigação, era lobinha, mas não dizem que os escoteiros estão Sempre Alerta? Alguém disse para ela - SAPs Cilene! Valeu! SAPs? Que isto? Não é Sempre Alerta? Risos. Escoteiros, ah Escoteiros. Estão aí por todo lado, observando, olhando, escolhendo, sorrindo, apertando mãos dos amigos e irmãos, e claro sabendo sempre o que acontece em sua volta. Eles são espertos, bons meninos e meninas, vivendo a lei e a promessa como um dia juraram em suas promessas. Eles estão sempre alerta sempre e nunca SAPs sempre. Mais risos.  E eu? Eu nunca esqueço Pitito Modinha e o que disse o meu amigo Dalai lama: - “Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”!

  Quem pergunta permanece ignorante durante somente cinco minutos, mas quem não pergunta será um ignorante para sempre. (provérbio chinês)


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Ei você? Ainda não é Escoteiro?




Ei você? Ainda não é Escoteiro?

Hoje acordei nostálgico. Vivo falando e comentando sobre o movimento escoteiro. Sempre foi assim desde que entrei nos longínquos anos de mil novecentos e quarenta e sete. Passaram-se muitos anos. Eu ali firme. Setenta e dois anos! Tanto tempo assim? Tantas mudanças! Mas o amor ao escotismo? Continua o mesmo. Isto faz parte de todo nós que nos orgulhamos do que somos. Leio aqui e ali alguém dizendo que “não tenho vergonha de ser Escoteiro!”. Vergonha? – Nunca! Eu tenho é orgulho e alardeio aos quatros ventos: - “Escoteiros de todo o mundo! Que os ventos do norte, que os ventos do sul do leste e do oeste, façam com que eu e todos os meus amigos escoteiros possam ir como os pássaros a buscar o sol na montanha desconhecida”. Será lá que iremos mais e mais nos orgulhar do nosso passado escoteiro.
Sempre quando leio aqui algum parecido, dando a impressão que somos um movimento arredio, gosto de publicar o artigo que fiz há muitos e muitos anos. Este é o escotismo que amo e tenho certeza todos os escoteiros do mundo!

Amigo, o que é isto? Você é Escoteiro? - Não diga!
    
       Ah! Meu amigo sou sim, com muito orgulho. Estou aprendendo a ser alguém, para que todos que me amam possam um dia orgulhar. Aprendo que o caráter é importante em cada um de nós. Que ser leal é ponto de honra, e minha palavra? Sim é sagrada. Estou aprendendo que a honra faz parte dos honestos. Que a ética é mais que tudo. Aprendo tantas coisas que cada dia que passa mais me orgulho de pertencer ao escotismo.

       Acho que você não sabe, mas são tantas coisas maravilhosas que acontecem comigo, que hoje sei que a felicidade pode ser alcançada e eu a alcancei. Sou um privilegiado por Deus em estar aqui. Sabe, já vi um céu estrelado deitado na relva, em volta de uma fogueira cheia de amigos e amigas. Ali vi as constelações, um cometa que passa, e isso mais e mais me leva a certeza que o escoteiro é puro nos seus pensamentos, nas suas palavras e nas suas ações.

      Gostaria que um dia, pudesse junto comigo dormir sob as estrelas! Ver o sol nascer e ele se pôr ainda vermelho no horizonte deixando uma marca profunda em nossos corações. Quem sabe um dia vai poder saborear o cheiro da terra molhada, do perfume das flores silvestres, do som maravilhoso da passarada, do piar da coruja em um carvalho qualquer. Ver o lenho crepitando em uma bela fogueira onde todos riem, cantam e vão vendo as fagulhas subirem aos céus, languidas e serenas até que a aragem leva-as para longe.

      Olhe, é lindo ser do escoteiro. Acho que é um privilégio de poucos. Quando vejo a chuva caindo em uma floresta, sinto o som imperdível aos ouvidos de um velho mateiro. Saiba que temos uma ternura imensa com a natureza. Para nós é fácil encontrar o Norte e o Sul, seguir a sotavento, sentir o vento no rosto, descobrir as flores desabrochando nas campinas verdejante. É, podemos tirar o calçado e molhar os pés nas águas geladas de um belo riacho. Sentar e tirar uma soneca em uma grande e frondosa árvore e podemos olhar em volta e sentir o cheiro da relva cujo vento sopra com amor em nossa face. E nada mais maravilhoso que chegar ao cume de uma montanha e ver o horizonte! Um espetáculo imperdível meu amigo!

      Mas olhe, não sei se terá a oportunidade de ter o que temos. Aqui aprendemos que o medo é próprio dos fracos. E é preciso ter coragem e amor para conviver em uma vida saudável junto dos demais escoteiros. Se um dia quiser, quem sabe, você pode até entrar em um Grupo Escoteiro. Mas lembro a você que qualquer um pode entrar, mas é importante saber que ser escoteiro não é para qualquer um!

     Se resolver mesmo, seja bem vindo. Espero que você seja mais um irmão de tantos milhões espalhados pelo mundo. E quando for, vai saber que o nosso fundador Baden Powell disse que aqui, somente os valentes entre os valentes se saúdam com a mão esquerda. E pode acreditar que você será muito bem recebido, pois nós escoteiros somos amigos de todos e irmão dos demais escoteiros. Seja bem vindo meu amigo!

Coloque sua mochila, cante uma canção, dê um belo sorriso e parta conosco nesta grande aventura!

domingo, 24 de março de 2013

Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso.


Só existe uma coisa importante em nossas vidas: viver a nossa lenda pessoal,
a missão que nos foi destinada. Mas sempre terminamos nos sobrecarregando
de ocupações inúteis, que acabam por destruir nossos sonhos (Maktub).

Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso.

“Terra do belo Olmeiro, lar do castor,
Lá onde o alce airoso, é Senhor,
Em um lago azul rochoso, eu voltarei de novo”!

                Era uma linda tarde de outono, mas Lisabel estava cansada. Afinal não era para menos. Quinze lobinhos ali soltos naquele sitio e só ela como responsável daria dor de cabeça em qualquer um. Lorraine e Javier na última hora disseram que só poderiam chegar no sábado à noite. Desmarcar o Acantonamento era impossível. Tudo tinha sido preparado. E lá foi Lisabel a enfrentar o desafio. Chegaram e logo arrancharam no Sitio Mimoso. Quinze lobos? Meu Deus, agora pareciam cem! Lisabel gritava chamando e logo eles corriam para todo lado. Conseguiu uma árvore próxima a casa e lá arvorou a Bandeira Nacional. Tinha no programa um estoque de jogos, brincadeiras, canções tudo que uma boa atividade deste porte requer. Mas não estava sendo fácil. Não mesmo. Ainda bem que dona Mercês mãe do Gustavo foi para a cozinha. Ela dava mais trabalho que seu filho. Queria ficar junto dele para protegê-lo, enfim uma mãe super-protetora.

              Após o almoço Lisabel reuniu os lobos e foram até próximo a um pequeno lago, e ao pé de um lindo Cajueiro, sentaram. Os lobinhos inquietos. Alguma coisa fazia ondas sobre as águas do lago. Lisabel não acreditou. Era um castor que logo mergulhou. Isto mesmo. Só se o proprietário do sitio o tivesse levado. Não havia no Brasil. Ela começou a cantar com eles uma canção. “A promessa de Mowgly”. Fizeram um jogo de faz de conta. Viu que a tarde se aproximava. Ainda bem. Logo seus assistentes chegariam e ela poderia descansar. Uma forte dor de cabeça. Os lobos sentaram em sua volta. Ia começar a contar uma história. Não lembrava. Assustou-se ao olhar novamente para o lago, parecia emergir de dentro das águas um velho com um chapéu e uma indumentária típica dos grandes caçadores de peles do passado. Um verdadeiro Mountain Men, ou melhor, um homem da montanha! Sorria, deu um olá simpático, chamou a atenção dos lobos. Eram seis meninas e nove meninos.

               - Sabem! Disse ele. Faz tempo que não vejo um Cub Scout. Quantas saudades! – O que é um CubScout logo perguntou uma lobinha. – Meninos lobinhos como vocês. – Lisabel ficou impressionada e assustada com ele. Uma figura imponente. Um cajado lindo. – Posso? Ele perguntou a Lisabel se poderia sentar com eles ali. – Claro que sim ela respondeu. – Por acaso viram um castorzinho deslizando há poucos instantes sobre o lago? Não? Vocês já ouviram falar de Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso? – Também não? - Não Senhor responderam todos. - Querem conhecer sua história? Palmas e gritos. A lobada gostava de uma boa historia. – Bem vou contar, mas é uma historia triste, muito triste. Faz tempo, muito tempo quando conheci o John, ou melhor, o John Colter. Um pioneiro e um dos primeiros caçadores de pele a ser chamado de “homem da montanha”. Ficamos amigos em St. Louis uma cidade americana, lá pelos idos de 1807. Com ele fizemos uma serie de expedições até o rio Missouri para caçar castores e tirar suas peles.

               Os lobinhos assustaram-se. – Calma, foi em um passado muito distante. Nós vivíamos disto. Chegamos até a montar uma empresa de nome Rocky Mountan Fur só para vender as peles que conseguíamos caçar. - Mas vamos ao que interessa. Eu e o velho John rodamos meio mundo. Das Montanhas Rochosas até os grandes lagos de Michigan, Huron, Erie e Ontário. Diziam que eu e o John só caçávamos peles dos castores, mas não era verdade. Amávamos explorar o Velho Oeste americano. Nunca esqueci quando conheci Pigmor, o castor manco. Para ser sincero eu e o meu amigo chegamos às margens do Lago Grande Urso numa tarde de novembro. Eu nunca tinha ido ali e nem ele. O frio intenso, pois nevava a mais de seis dias. Montamos uma pequena cabana e quando ascendi o fogo vi um castozinho chegando e mancando. Assustei, pois sabia que eram ariscos e não se aproximavam. Sabia que ele e seus companheiros formavam uma colônia deviam ter um dique no fundo do lago. Nunca andavam sozinhos. Nós sabíamos que enquanto não passasse a nevasca nunca poderíamos caçá-los.

              - Olhei para o John e disse rindo: Não parece o Pigmor aquele velho caçador de ouro que morreu em Blue River Valley? Coitado. Achou que a riqueza fácil seria dele ali na região das Montanhas Rochosas. Morreu abraçado a um grande urso que encontrou na caverna do Mandor. Belas lembranças da famosa corrida do ouro em Breckenridge. Mas voltemos a historia. Vi que vocês querem saber tudo! Pigmor chegou até próximo ao fogo. Achamos ele diferente. Logo batizamos com o nome do meu amigo já falecido. Eu e o John ficamos calados. Não valia a pena dar um tiro ou mesmo matá-lo com um facão. Era raquítico, pequeno e descarnado. Seus olhos pareciam vermelhos e sentia que chorava por dentro. Ficou ali horas aproveitando o calor do fogo. Foi quando levamos o maior susto. Pigmor de cabeça baixa, deitado bem próximo à fogueira soluçou várias vezes. Começou a contar uma historia estranha. Isto mesmo, Pigmor estava falando. Como não sei. Castor falante? Nunca ouvi falar.


              Lisabel não estava acreditando no que via. Um velho curtido, uma capa estranha, botas de pele de urso, um lenço azul amarrado ao pescoço e um boné de peles de castores, de cócoras no meio do circulo, contava aquela história de uma maneira tão linda que até ela mesmo estava sendo encantada pelas palavras daquele velho caçador de peles. Notou que em nenhum momento os lobinhos tiravam os olhos dele. Sua dor de cabeça e seu cansaço havia desaparecido. – O Velho caçador continuou – Isto mesmo. Pigmor contava uma história muito triste, que aconteceu uma semana antes. Ainda não estava nevando e ele e seus irmãos da Colônia tinham terminado o dique onde iriam passar o inverno e aconteceu uma matança. Dois homens chegaram atirando. Pigmor correu para uns arbustos, mas levou um tiro na perna direita. Seu pai e sua mãe morreram na hora. Viu que somente Nakim, Molevo, Pariá e Jasmiel tinham se salvado pulando nas águas geladas do lago. Os dois homens jogaram uma banana de dinamite e quase destruíram o dique. Os quatro castores escondidos lá ficaram presos.

                  - Pigmor levantou a cabeça e me olhou dentro dos meus olhos. Depois olhou para John e continuou – Mergulhei até lá, estavam presos em uma toca sem poder sair. Tentei tudo. Jasmiel a Castora que seria minha esposa estava quase morta. Não sabia o que fazer. Melhor morrer com eles. Subi a tona e vi vocês. Acreditei que iam atirar em mim. Podem atirar. Eles irão morrer e eu quero morrer com eles. Iremos nos encontrar nas Grandes Tocas do Navarra onde se encontram os nossos ancestrais. – Pigmor se calou. Só ouvia soluços. Olhem não sei o que deu em meu amigo John. Não sabia que ele um dia poderia gostar de bichos, animais, ou seja, lá o que for. Mas mesmo naquela nevasca, escuro feito breu, o frio de rachar ele tirou a roupa e mergulhou nas águas profundas do lago. Passaram-se segundos e minutos. Nada do John vir à tona. “Diabos” pensei, será que ele morreu? A água estava um gelo! – Eis que os primeiros castores apareceram e logo em seguida o John com um castor no colo que julguei ser Jasmiel, a namorada de Pigmor.

                       Todos eles correram para a beira do fogo. Olhe eu juro pelas barbas do Coyote mais arisco de Yellowstone, pelas corcundas de um Bufallo das pradarias próximas a Little Bighorn em Montana que é verdade. Ficaram dois dias conosco. Pigmor e os seus irmãos mergulhavam de vez em quando para consertar sua toca no dique do lago. Uma semana depois Pigmor deu adeus. Hora de partir. Mergulharam na água do lago Grande Urso e sumiram. Nunca mais voltei lá. Disse ao John que minha vida de caçador peles e de castores tinha se encerrado ali. Ele nada disse. Juntamos nossas tralhas e partimos. Sabíamos que no então Território do Dakota seria feita uma grande corrida do ouro. Em Montana, Arizona, Nevada e Colorado só se falava nisso. Milhares de garimpeiros acorreram. Acampamentos e cidades mineiras surgiam da noite para o dia. Fomos para Black HIlls e ficamos ricos. Um dia John se desentendeu com um fora da lei. Morreu em um duelo em Virginia City. Eu resolvi fazer uma cabana nas montanhas e passar lá o resto de minha vida. Tropecei em um lago ao sul de Sonora. Vi um castor manco. Seria Pigmor? O levei comigo. Estamos juntos até hoje.

                           Ninguém falava nada. Lisabel viu que o velho caçador se levantou, deu um leve sorriso e disse adeus. Foi em direção ao lago. Andando sobre as águas todos notaram cinco castores nadando ao seu lado. Em segundos despareceram no fundo daquele pequeno lago do Sitio Mimoso. Um barulho de carro. Deviam ser Lorraine e Javier chegando. Eles adoravam os lobos. Um grito: - Lobo, lobo, lobo? E os lobinhos como a acreditar que outra linda história estava programada para eles, correram em direção ao Balu e a Bagheera. Lisabel ficou ali. Olhando para as águas do lago, que agora já noitinha uma bruma cinza se espalhava por sobre as águas. – Eu sonhei? Pensou Lisabel. Se sonhei os lobos também sonharam. Mas não é bom sonhar? Com terras altas, montanhas geladas, picos altos e longínquos, grandes lagos, é bom sonhar sonhos como este. Gostaria de ter conhecido Pigmor o castor manco do lago Grande Urso. mas...



“Tenho saudades daqui, destas campinas...
Ao norte eu voltarei, para as colinas,
Em um lago azul rochoso eu voltarei de novo”!

Como na lenda da Águia, que arranca suas penas e bico pra renascer como uma Fênix das cinzas, eu gostaria de perder a memória, me desfazer dos paradigmas, das inseguranças e medos, me perder em mim mesmo e começar do zero! Já que não é possível voltar no tempo, que Deus me de a dádiva do esquecimento.


domingo, 17 de março de 2013

Gloria feita de sangue. A última Luta de Manuelito.


Atenção! Se você tem coração fraco, não leia esta história. Pode se emocionar demais.

As mais lindas histórias escoteiras.
Gloria feita de sangue. A última Luta de Manuelito.

                      Não dá para esquecer, foi no último verão de sessenta e um. As chuvas de Santo Inácio que todos esperavam não aconteceram como o previsto e ali, a beira da Lagoa do Lagarto, o fogo de conselho já havia terminado. A escoteirada já se recolhera. Aqui e ali a fogueira ainda se esforçava para mandar aos céus uma ou outra fagulha brilhante. Todos já haviam se recolhido e eu resolvi ficar. Panchito me fazia companhia. Bom amigo. Conhecemos-nos em Aguascalientes no sul do México em cinquenta e oito. Ele já morava no Brasil há vinte anos, mas seus pais residiam nesta cidade e ele a cada cinco anos voltava para fazer uma visita. O motivo porque estava em Aguascalientes fica para outra história. Deitamos a beira da lagoa sobre uma lona leve e admirávamos o vai e vem dos cometas e satélites que giravam em torno da terra a grandes velocidades. Já sentia o orvalho da madrugada se aproximando quando vi que Panchito chorava baixinho. – O que foi? Perguntei. Olhe Chefe, sempre quando me lembro de Manuelito meu coração bate forte.

                      Deixei que ele se acalmasse e foi assim que ele me contou toda a história de Manuelito. – Era um jovem de seus doze anos. Magro, raquítico, tamanho normal para sua idade. Cabelos loiros, olhos negros fundos, nariz afilado estava na tropa havia oito meses. Falava pouco e ficamos amigos. Assim como ele eu também era da Corvo. O Gentil era o Monitor. Ótima pessoa. Tudo começou quando Gentil comentou que na Corte de Honra foi discutido a data do próximo Grande Desafio. Nos últimos três anos sempre foram realizados. Nunca fiquei sabendo como tudo começou. Toda a tropa só comentava a vinda de mais três tropas de cidades vizinhas. Ia ser um espetáculo a parte as disputas naquele ano. Seriam realizadas no Estádio do Azulão Futebol clube, pois no ano anterior houve grande aglomeração de pessoas no campinho de pelada em frente à sede prejudicando em parte a visão de todos. – Não estava entendendo, mas deixei que Panchito continuasse sua narrativa. – Chefe, precisava ver o olhar de Manuelito quando disse que o primeiro lugar ganharia uma Faca Suíça e um Cantil do Exército. Nunca o vi sorrir daquele jeito. – Fiquei com pena. Manuelito não tinha a mínima condição de chegar as finais.

                  - Sabe Chefe quando conto esta história para alguém, dão risadas. – Uma simples briga de galo? – Mas isto se faz em todas as tropas a século! Mas Chefe, conosco era diferente. Havia uma técnica própria. Cheguei a ver em um ano dois contendores ficarem uma hora e meia lutando. Vi tantas lutas que eu mesmo desisti, pois nunca cheguei além do nono lugar. Manuelito não. Perguntou-me a data, como ia ser a seleção e se todos podiam se inscrever. – Disse a ele tudo que perguntou e mais alem, disse também que ele nunca tinha lutado. Pediu-me que mostrasse como se luta. Ficamos uma hora lutando. Ele mal se matinha em pé. Caia sempre. Desistir? Jamais. Manuelito sonhava com a Faca Suíça. Só falava nela. Queria ter uma e sabia que nunca poderia comprar. Uma semana antes da seleção, que seria feita com todas as patrulhas por duplas Manuelito disse que estava preparado.

                     - Chefe, Manuelito estudou tudo. Desenhou. Treinou horas e horas em sua casa a ficar parado ou pulando em um só pé. Suas mãos as costas pareciam aço. Não se soltavam. Sabia fazer com perfeição uma Asa Direita ou esquerda (cotovelos em forma de V). O Joelho do Papagaio aprendeu rápido. Mas era magro, respirava com dificuldade e mesmo assim se mostrou um valente. O primeiro, segundo e terceiro lugar já tinham dono. Neco, Lastimer e Juventino eram os melhores. O quarto lugar foi disputado com galhardia. Manuelito a muito custo conseguiu o quarto lugar. O Chefe Wantuil não acreditava no que via. Ele ficou preocupado. O corpo de Manuelito não foi feito para aquele tipo de luta. Tentou falar com seus pais que sempre arredios não iam à sede. Desistiu e deixou que Manuelito participasse. Arrependeu-se muito depois. O grande dia chegou. Centenas de pessoas já estavam alojadas nas arquibancadas. Poderia jurar que ali no inicio do Grande Desafio tinha mais de três mil pessoas. Os parentes e vizinhos das outras três cidades compareceram em peso.

                       Chico Nonato o comissário distrital abriu a competição. Chamou um a um os dezesseis finalistas gritando alto seus nomes e conquistas escoteiras. Quatro por tropa. Formaram em linha. Todos parrudos, fortões e Manuelito se destacava pela sua magreza. Nas arquibancadas gritavam – Tira o magrelo! Tira o minhoca! Ele de cabeça baixa não se incomodava. Sonhava com a Faca Suíça. Ele sabia que não poderia ficar lutando por muito tempo. Sabia o que tinha internamente e se ele brotasse em seu estomago iria ser levado à boca e aí não ia ser fácil. Seria desqualificado na hora. Isto não poderia acontecer! – Não foi difícil para Manuelito chegar as quartas de finais. Aprendeu e treinou dias e dias a rodopiar com seu Joelho do Papagaio e deixava que os outros pulassem sobre ele. A Joelhada era fatal. Ninguém acreditava no que via. Ficaram quatro competidores finais. Ele ia lutar com um dos campeões do passado. Matusalém era famoso. Quando ele olhou para Manuelito sorriu. – Este está no papo. - Não quer desistir? Perguntou. Uma hora de luta. Sempre Manuelito se esquivando. Manuelito o sentiu no estomago. Deus! Deus meu! Não deixe que suba! Ajude-me. Eu preciso desta Faca Suíça! E meu sonho meu Deus!

                       Ganhou para espanto de todos. Sentiu que suas pernas e suas entranhas não aguentariam a final. Botelho Papa Léguas era o finalista da Tropa de Jaguatiruna. As apostas perdiam a graça. Ninguém apostava em Manuelito. Eram trinta por um e à medida que ele vencia caia. Agora estava em dez por um. Um silêncio enorme e a luta de morte começou. Ambos se estudando. Botelho Papas Léguas não subestimou Manuelito. Se ele chegou até ali é porque era bom. Viu uma brecha, viu os olhos de Manuelito piscando e se fechando. Deu oito saldo longos e pegou Manuelito de jeito com a asa direita. Manuelito conseguiu se esquivar, mas a esquerda roçou com força seu olho direito. Uma dor incrível! Manuelito quase perdeu o equilíbrio. Não iria aguentar outra. O sangue agora estava enchendo sua boca. A hemorragia que seu pai sempre falava estava chegando. Sabia que uma ou duas veias tinham partido. Se não parasse iria morrer.

                        Não podia, não podia parar! Meu Deus me ajude! Dê-me mais uns minutos, daria minha vida para ter esta Faca Escoteira!  Botelho Papa Léguas não sentiu piedade. Ele também queria ser o campeão do torneio. Nunca tinha ganhado. Entrara para o escotismo pelo premio e claro pela fama. Afinal perder para aquele escoteirinho de nada? Raquítico, pequeno, e agora chorando? Sim Manuelito tinha os olhos cheios d’água. A asa esquerda o pegou de jeito entre os olhos. O sangue quente na boca. Firmou os lábios. Tentou engolir. Não deu. Não iria soltar o sangue na grama verde. Seria desqualificado! Pulou uma duas vezes. Fez um sinal para Botelho Papa Léguas como a dizer – Venha moleza! Botelho Papa Léguas não se fez de rogado. Pulando com uma rapidez incrível preparo sua asa direita para liquidar logo esta contenda. Infelizmente ele sabia que Manuelito ia se estatelar no chão. Mas não podia ter pena nem dó e nem piedade. Como dizia sua Avó, jogo é jogado e lambari é pescado.

                        Manuelito viu num relance o que Botelho Papa Léguas ia fazer. Sabia que não podia desviar muito. Se pulasse o sangue ia jorrar de sua boca. Ele sentia mais e mais a pressão do sangue subindo goela acima. Uma dor incrível no cérebro, o corpo tremendo. Esperou. Faca Suíça! Não vou perder você. Deus vai me dar forças! Manuelito esperou até que Botelho Papa Léguas se virasse e novamente usasse a lateral esquerda para lhe bater a toda no seu ombro com a Asa Direita. Quando sentiu o hálito quente da respiração de Botelho Papa Léguas, Manuelito abaixou e levantou de uma vez. Pegou Botelho Papa Léguas desprevenido. Ninguém esperava que ele usasse este truque. Velho conhecido de todos. O vai e vem do corpo subindo e descendo. Botelho Papa Léguas perdeu o equilíbrio. Nas arquibancadas um murmúrio alto. Todos ficaram em pé. Não acreditavam no que viam. Todos só viram Botelho Papa Léguas se esparramar pelo chão. Os apostadores não acreditavam na cena estática que se apresentava. Eram dez por um. Impossível diziam.

                  Manuelito se equilibrou ainda na perna direita por alguns segundos. Suas mãos se soltaram e foram forçadas no ventre como a querer interromper o sangue que agora saia aos borbotões dos seus lábios. Não dava para segurar mais. Rodopiou em si mesmo e caiu esparramado no chão gemendo alto e querendo sorrir. Afinal ele ganhou a luta. A Faca Suíça era sua! O sangue vermelho se misturou ao verde da grama. Um colorido sem graça. Vários chefes acorreram. Viram Manuelito com enorme hemorragia interna. Desmaiado. A morte parecia que ia chegar. Um carro apareceu no campo. Ele foi transportado para o hospital da cidade. Uma semana depois souberam que ainda estava na UTI. Perdera muito sangue. Precisava ir para a Capital. Seus pais choravam, mas não condenaram o filho. Se ele morrer foi porque sabia que seu sonho seria maior que a morte!

                   Seis meses depois em uma tarde de agosto bolorenta, um sol preguiçoso no céu Manuelito apareceu na sede em uma cadeira de rodas uniformizado. A tropa parou espantada. Ele sorria, um sorriso tênue como se o sol ali como ele estivesse esperando para levá-lo. Seu pai estava junto. Disse que ele insistiu em vir. Queria receber a Faca Suíça dos seus sonhos. O Chefe Wantuil foi até sua casa e voltou com ela. Todo o grupo se formou. Honra ao mérito ao escoteirinho herói. Como bons escoteiros todos prestaram continência em posição de sentido a Manuelito. Pediu que eu entregasse a ele a faca e colocasse no seu cinto do lado direito. Uma honra para mim Chefe! Um Anrê foi dado. Uma explosão de alegria em todos os presentes. Um exemplo para ser lembrado por toda a vida.

                  Manuelito ainda viveu mais um ano. Morreu com treze anos. Só então ficamos sabendo que ele era tuberculoso. Sua família também. Uma época em que a medicina não tinha cura nestes casos.  Seu pai sabia, mas como tantos outros escondiam, pois ele tinha exemplos de pessoas portadoras de tuberculose que foram defenestrados pela sociedade. Eram párias abandonados à própria sorte.  Uma semana antes de morrer, Manuelito me pediu que quando fosse para o Campo Santo, que a Faca Suíça estivesse no cinto, pois queria estar uniformizado. Chefe, meu Deus! Quanta tristeza. Milhares de gente ali em volta da sua ultima morada chorando. Eu Chefe, era o que mais chorava. Não sabia como enfrentar tudo daí para frente. Ate hoje ainda vou lá visitá-lo. Falo com ele sempre. Sei que ele não está ali, mas isto alivia minha dor e me conforta.

                 Panchito se levantou. Chorava copiosamente. Desculpe Chefe. Desculpe. Melhor é ir para minha barraca. E lá foi ele me deixando ali a beira daquela lagoa cinzenta, ao lado de uma fogueira apagada, só cinzas e um orvalho caindo e molhando minhas faces. Vi que as minhas lágrimas também se misturavam ao doce orvalho do amanhecer. Uma bruma cinzenta pairava sobre a lagoa. Pensei em ir dormir e ir para minha barraca. Não fui. Sentei a moda índia e fiquei ali até o amanhecer de olhar fixo no horizonte, acima da Lagoa do Lagarto. Não houve sol aquele dia. Uma chuva leve e intermitente começou a cair. Um peixinho pulou sobre as águas cinzentas da lagoa. Minha mente voltava ao passado. Manuelito, um sonho realizado. Uma morte honrosa. Um menino que foi homem para aceitar o seu maior desafio. Uma luta sem gloria. Ou melhor, Gloria feita de Sangue! 


sábado, 9 de março de 2013

As aventuras do Escoteiro Juquinha e o malvado Topyath, o Gorila Imortal.


As aventuras do Escoteiro Juquinha e o malvado Topyath, o Gorila Imortal.

                Juquinha está de volta. Depois de suas estripulias no Vale dos Sonhos e quando resolveu fazer uma festa de natal para uma família pobre, ele volta agora a toda. O mesmo Juquinha. Ainda gordinho. Ainda sonhador. Mas aquele Escoteiro que não desiste nunca. A patrulha já não levava tão a sério seus sonhos impossíveis. Respeitar sim. Juquinha todos sabiam tinha um coração de ouro. Sempre a dividir o que tinha com alguém. Lino agora era o monitor da Patrulha. Romildo passou para os seniores. Todos conheciam suas qualidades na cozinha. Diziam a boca pequena que era o maior cozinheiro escoteiro de todos os tempos. O único que fazia belos fornos nos acampamentos e claro, deliciosos bolos de chocolate, baunilha e tantas gostosuras quem sabe melhor que em suas casas.

                 A Patrulha estava em reunião. O Chefe da Tropa deu vinte minutos para que eles dessem continuidade nas etapas de progressão. Muitos estavam atrasados. Um ensinava o outro e Lino o Monitor ensinava a todos. Juquinha pediu a palavra. Sempre fora muito educado. Nunca gritou ou foi indelicado com ninguém. – Monitor: - Eu fiquei sabendo que lá na Colina dos Pastores tem uma gruta enorme. Sei de fontes fidedignas que nesta gruta está enterrado um "Velho" baú cheio de tesouros incríveis. Têm taças, colares, cruzes de ouro, tudo o que se podem pensar, fora as pedras preciosas. Queria propor a Patrulha ir lá acamparmos no próximo feriado. Tiramos uma tarde e vamos explorar a gruta e quem sabe voltaremos ricos? – Todos deram boas gargalhadas. Neneco um Escoteiro novato deu um tapinha em suas costas e disse – Só vou se você fizer um gostoso bolo de chocolate! E todos caíram na risada.

              O Chefe Carlos ficou sabendo da conversa de Juquinha. Ele estava de olho nele. Juquinha na última vez que sumiu em busca do tal Vale dos Sonhos, ou melhor, Vale Encantado como ele disse deixou a tropa em polvorosa. Ficaram uma tarde e uma noite a procurar por ele. Todos ficaram com medo que algum acidente grave pudesse acontecer a ele. – Juquinha, estou sabendo do seu novo sonho – Não Chefe, não é sonho. Zorrito me contou. E quem é Zorrito? – Meu amigo Chefe. Ele me procura sempre quando estou dormindo. – Juquinha, não vou estragar sua amizade com Zorrito, mas se você me aprontar mais uma sou obrigado a levar você a Corte de Honra e depois vou falar com seus pais. Garanto-lhe uma suspensão por meses. Juquinha assustou. – O que diria para Zorrito? Que não iria à Gruta do Gorila?

             Juquinha procurou Nilo na casa dele. Explicou de novo tudo. Ele precisava de pelo menos um para ir com ele. Isto porque alguém precisava distrair Topyath enquanto ele pegava algumas pedras preciosas. – E quem é Topyath? Perguntou Nilo. O Gorila. Mas dizem que é fácil enganá-lo. Está lá a mais de mil anos! – Juquinha, acho que você está procurando ser expulso da tropa. O Chefe Carlos já me preveniu. Ele como todos nós adoramos você. Mas um dia você vai colocar alguém em perigo e isto nós temos de evitar. E foi embora dizendo que ele estava proibido de continuar com aquelas tolices.

               Juquinha quando colocava alguma coisa na cabeça não desistia. Continuou frequentando as reuniões, tomando belos tombos nos jogos pelo seu corpanzil que tinha mais gordura que tudo. Mas ele enfrentava qualquer um. Mesmo sabendo que iria perder ele não desistia. Ia bem na progressão. Todos achavam que ele ia conseguir fácil o Lis de Ouro. No final da reunião o Chefe Carlos disse que no feriado não iria ter reunião e a jornada da tropa não ia acontecer. Aconteceu um imprevisto e ele pretendia fazer um curso Escoteiro na capital. A tropa ficou triste, mas sabiam que era para uma boa causa. Juquinha vibrou. Agora posso programar minha ida a Colina dos Pastores sem que ninguém desconfiasse. Não queria ir sozinho, mas não podia confiar em ninguém da Patrulha.

               Juquinha fez algum muito feio. Mentiu para seus pais. Esqueceu que o Escoteiro tem uma só palavra, e não contou que o acampamento do feriado fora cancelado. Procedeu como se fosse com a tropa. A sede ficava a dois quarteirões e seus pais não tinham o costume de levá-lo até lá. Saiu no sábado cedo. Levou a ração B para dois dias. Pretendia voltar no domingo. Foi sozinho. Puzt! Sozinho mesmo. Nunca tinha feito isto. Ele tinha muito medo do escuro. Pensou muito em não ir. Sabia que ia dar galho na volta. Mas a sede de aventura foi maior e o Zorrito vivia azucrinando seu ouvido para ir. Ele nunca conversou com Zorrito. Ele apareceu assim em um sonho como a empurrá-lo para uma aventura tremendamente perigosa. Ele sabia que Zorrito era produto de sua mente, mas então como podiam conversar?

               Pegou a Rua que levava ao Curtume do Zezuel para evitar passar no centro da cidade. Foi beirando o Ribeirão da Chapada até a estrada do Capitão. Ele sabia que tinha de andar mais uns oito quilômetros até a subida da Colina dos Pastores. Às duas horas da tarde ele começou a subida. Era gordo. Mole para andar. Subia duzentos metros e parava. Às seis da tarde resolveu parar. Não sabia onde estava. Levou só uma lona. Custou a achar uns gravetos e acendeu um fogo. Fez uma sopinha só para ele. Rápido. Era mestre nisto. Começou a ouvir os ruídos da noite. Seus olhos ficaram arregalados. Um medo terrível. Claro que ele dizia para todos os escoteiros que não tinha medo. Em seus sonhos ele enfrentava com coragem. Mentira. Agora o medo estava à flor da pele. Para onde olhava via uma figura. Achou que estava cercado de demônios de todos os tipos.

                   Abriu o saco de dormir. Enfiou dentro dele e se enrolou todo. Precisava dormir. Tinha de dormir. Sentiu que alguém puxava seus pés. Começou a gritar, alto, gemia, pedia pelo amor de Deus! Chamou sua mãe, seu Chefe. Não parava de gritar. Abriu os olhos e viu que era Zorrito. Maldito pensou. Porque não apareceu antes? Vamos Juquinha. Agora é a hora. Vamos aproveitar que o Topyath está dormindo. Juquinha tomou coragem e foi com Zorrito. Quem de longe observasse veria Juquinha conversando sozinho. Logo ele avistou a entrada da gruta. Pequena. Mal cabia ele passar deitado na entrada. Quando saiu do outro lado era enorme. Enorme mesmo. Um grande lago no meio. Caia uma pequena cascata do lado norte. Juquinha sorriu. Lindo este lugar. Poderia dormir aqui todas as noites pensou.

                  Tudo acabou para Juquinha. Viu do outro lado do lago Topyath. Era um Gorila enorme. Grande. Imenso! Estava em pé. Olhos vermelhos, cor azulada que lhe dava um aspecto tétrico. O Gorila não se mexia. Estava imóvel olhando para ele. Parecia uma estátua. Zorrito apareceu ao seu lado e disse que aquele era o Topyath. Contou-me que ele tinha mais de 1.000 anos. Topyath parecia ter um magnetismo em seu olhar. Juquinha começou a ficar tonto. Sem perceber caminhou na direção do gorila na trilha do lado do lago. Ficou de frente para ele. Juquinha desmaiou. Acordou sonolento em outra gruta. Quem sabe o prolongamento da primeira. Estava em um cercado de pedras. Seria fácil pular e fugir, mas ele Viu Topyath a menos de setenta metros. Viu também vários outros gorilas. Menores. Mas brincavam em volta dele.

                  Juquinha não sabe quantos dias ficou ali. Sempre vigiado. Zorrito tinha desaparecido. Maldito pensou Juquinha. Trouxe-me para esta enrascada e desaparece. Juquinha não sabia o que fazer. Um dia viu que um barulho parecendo um terremoto começou a acontecer na gruta. Viu que não havia gorilas brincando. Viu que Topyath sumira. Era sua hora. Pulou as pedras do seu cercado e procurou uma saída. Encontrou uma. Nem bem andou cem metros e parou embasbacado. A sua frente tesouros imensos. Um pequeno salão que brilhava com o ouro, diamantes, esmeraldas, turmalinas. Tinha de tudo. Juquinha não se fez de rogado. Pegou uma enorme taça de ouro e colocou na mochila. Pegou uma turmalina e uma esmeralda. Sentiu um enorme safanão em suas costas. Meu Deus! Era Topyath!

                  Saiu correndo. Nem olhou para trás. Caiu em um riacho enorme com grandes corredeiras. Ele sabia nadar. Boiou. O riacho o levou por vários quilômetros dentro daquela montanha. Uma enorme cachoeira a sua frente. Não tinha como evitar, caiu, caiu e acordou com o Lino seu Monitor gritando. Acorde Juquinha acorde. Pare de berrar! Atrás de Lino estava sua Patrulha e o Chefe Carlos. Olhavam para ele furiosos. – Os pais de Juquinha deram falta dele na segunda. Ele não apareceu. Era dia de aula. Correram a casa do Chefe Carlos. Ele sabia onde tinha ido parar o Juquinha. Chamou a Patrulha. Foram de carro até a subida. Não foi difícil encontra-lo dormindo. Sabiam que ele não aguentava andar muitos quilômetros. Juquinha olhou para o relógio. Meio dia. Dormira dois dias e meio. Não falou nada. Maldito Zorrito.

                     Chegou em casa e ouviu o que não queria. Ele merecia. Chefe Carlos só disse que sábado ele esperasse as providencias que seriam tomadas. Jogou o bornal em um canto do quarto. Chorou por uma semana. Amava o escotismo. Se o expulsassem ele preferia morrer. Se apenas dessem uma suspensão tudo bem. Juquinha era religioso. Rezou muito. Foi na missa das seis da tarde na terça, na quarta, na quinta e na sexta. O Chefe na quinta conversou com seus pais. Não contaram para ele o teor da conversa. Pela manhã de sábado foi fazer a limpeza na mochila e no bornal. Encontrou uma taça de ouro, uma enorme turmalina enorme e outra grande maior ainda, mas era uma esmeralda.

                     Juquinha foi suspenso por sessenta dias. Guardou nestes dois meses o seu segredo. Zorrito nunca mais apareceu. Um ano depois conversou com seu pai. Contou a história. Mostrou o tesouro que trouxe. Sei pai vendeu tudo. Ficaram ricos. Deram uma boa parte ao grupo que terminou a bela sede que construíram. Chefe Carlos ficou pensativo. Resolveu voltar lá com Juquinha. Foi com sua Patrulha e mais três chefes. Vasculharam tudo e não encontraram a tal gruta. Revisaram palmo por palmo. Nada. Não sabiam o que pensar. Voltaram à tardinha. Como sempre ele era o último da fila. Parou para descansar. Olhou para uma pedra enorme no alto das colinas. Lá estava. Zorrito e Topyath acenando para ele e abaixo deles a entrada da gruta! Sorriu. Assustou-se com o Chefe Carlos o chamando. Estava dormindo de novo!       

À riqueza trás a felicidade?
Prefiro viver na pobreza com felicidade e amor, do que viver na riqueza cheios de interesses, invejas, e sem amor e felicidade.


sábado, 9 de fevereiro de 2013

Em cada coração uma sentença. A história de um Monitor de Patrulha.


Em cada coração uma sentença.
A história de um Monitor de Patrulha.

Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.

Tu és a folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.




          Eu tive a honra de conhecer muitos Monitores em minha vida. Monitores amigos, gentís, mandões, morcegos, irmãos mais velho, indiferentes, falastrões, humildes. Uma gama deles. Existem por aí de todos os tipos. Mas me lembro de um especialmente. Nonôvat. Nome estranho? Nada disto. Ele se chamava Antonio Medeiros Nonato Vantuil Paredes da Silva Braga. Grande não? Mas depois de ler a história verão que grande era o coração de Nonôvat. Nonôvat era o Monitor da Jaguatirica. Era uma Patrulha nova, menos de dez anos de fundação. Estava no cargo há dois anos. A tropa ainda não elegia seus Monitores. O Chefe Ricardo escolhia. Ninguém reclamava, mas sempre a escolha recaia no mais velho da Patrulha. A escolha de Nonovat foi bem recebida. Na Curimbatá e na Gavião, Josivaldo e Moreno eram Monitores mais velhos. Eram três patrulhas. Havia mais duas femininas, mas uma espécie de convivência pacifica houve uma separação amigável.

          Em um Conselho das duas Tropas e decidido em Corte de Honra, resolveram que cada tropa deveria ter sua própria vida. Acampariam, fariam excursões e atividades aventureiras em conjunto, mas cada tropa respeitando a individualidade da outra. Francamente falando as duas eram mais que irmãs. Um respeito enorme. Claro o Chefe Ricardo e a Chefe Neide sabiam como agir. Para eles nada poderia dar certo se não tivessem bons Monitores. Eles sempre diziam aos graduados – Para ser um líder, você tem que fazer as pessoas quererem te seguir, e ninguém quer seguir alguém que não sabe onde está indo. Eles faziam muitas reuniões em separado, atividades extra-sede também.  Eles conheciam aquela frase de Mario Quintana que dizia – O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você.

          Na Patrulha Jaguatirica quase todos os seis patrulheiros tinham mais de um ano de tropa. O Chefe Ricardo já pensava em iniciar a quarta Patrulha. Oito jovens estavam na fila de espera. Chefe Ricardo nunca foi daqueles de ter tropa grande, ter muitos. Ele era um especialista em compreender as pessoas como elas são. Sempre dizia aos Monitores que se vocês querem ser bem sucedidos, precisam ter dedicação total, buscar seu último limite e dar o melhor de sí. Completava com a metáfora de Steve Jobs – A qualidade é mais importante do que a quantidade. Um gol de placa é melhor que um gol feito. Ou seja, a qualidade significa fazer o certo quando ninguém está olhando.

             Foram bem treinados e adestrados os Monitores. Os sub Monitores também. Eles deviam estar preparados para substituir numa eventual falta. Na Patrulha todos tinham uma responsabilidade e Nonôvat sabia como cobrar sem gritar, sem exigir só mostrando o que fazer e claro ajudando. Não era e nunca foi um mandão. Aos treze anos aprendeu o máximo que deveria saber para liderar a Patrulha. Aprendeu que para liderar é preciso também saber ser liderado. Dizia aos seus patrulheiros sorrindo – Olhem! Se ficarem mal humorado tome café! Se não gostarem sigam a luz, se no final dela tiver um buraco negro, se joguem. E dava boas risadas. Os escoteiros adoravam sua maneira de liderar. 

              A parte mais difícil na Patrulha era ter um bom intendente/almoxarife. Era o patrulheiro responsável pela tralha da Patrulha. O material deveria ser bem cuidado. Ficavam também acondicionados na Caixa da Patrulha. Eles tinham um pequeno saco com quatro alças que servia para jornadas a pé com dois bastões quatro transportavam sem problemas. Ele sabia que o grupo não tinha condições financeiras para substituir sempre que estragava ou sumia um item e este iria fazer enorme falta. José Sanho era o intendente. Pediu ajuda e obteve de Marlon, o escriba. Ficaram ambos como intendente e almoxarife. Tinham tudo catalogado. Eles aprenderam toda a técnica de fiação de ferramentas, cuidados e como guardar. Os dois facões, a machadinha, a enxada, o aríete, a pá de escota, a pequena picareta, além de uma pequena caixa de pequenas ferramentas tais como um alicate, um córtex, uma chave de fenda e outros eram a cada quinze dias motivo de uma arrumação, verificação e limpeza geral. Todos prontos para uso. Sempre afiados e oleados. Dificilmente iriam enferrujar. No campo tinham um porta ferramentas. E a noite eram guardadas em uma pequena cabana que faziam e chamavam de intendência. Nunca voltavam do acampamento sem que uma boa limpeza fosse feita. O Chefe Ricardo dizia que temos que aprender a levar as tralhas limpas e não limpar na sede. Claro sempre havia exceções como sair embaixo de chuva. Não era fácil.

              Tinham um amor enorme com as duas barracas. Aprenderam a arte da impermeabilização assim com os dois toldos que faziam parte do telhado na cozinha e na sala de refeições nos acampamentos. Tudo era muito bem empacotado. Desde a caneta preta, a régua e o transferidor para mapas e afins. Sem contar as duas bússolas que foram sua últimas aquisições. Uma Silva e uma Prismática. Era só falar em acampar que tudo estava pronto. Nada para depois. O jogo de panelas doados pelas mãos eram quase perfeitos no encaixe. Orgulhavam-se disto. Não eram só eles que se mostravam cuidadosos. Também o Marcondes o socorrista da Patrulha. Conseguiu em varias farmácias um ótimo estoque de remédios tudo conforme uma lista que Dona Zenaide enfermeira do Hospital Santa Terezinha e mãe de uma lobinha fez para eles. Eles sabiam que podiam contar com Muriel o cozinheiro. Sua mãe ria quando ele encostava-se à cozinha de sua casa e dizia que queria aprender. E aprendeu muito bem. Daniel o Construtor de Pioneirias não ficava só nisso. Ajudava em tudo assim como o Zezé Ruaça, que se dizia o faz tudo.

            Além de aprender tudo que o Chefe Ricardo dizia, ele aprendia aqui e ali nas esquinas da vida. Na escola era um bom aluno. Não o melhor, mas não o pior. Seus pais eram boa gente e sempre confiaram nele. Não deram tudo que ele precisava para ser Escoteiro, mas o ajudaram em muitas coisas. Para suprir suas necessidades ele trabalhava. Fazia trabalhos aqui e ali com os vizinhos sem prejudicar seus deveres escolares. Com sua sanha de querer sem pedir ajuda, comprou para si em dois anos uma Bussola Silva, uma faca Escoteira, uma machadinha e o chapéu que muito se orgulhava. Nonôvat e Leozinho seu sub eram unha e carne.  Cada um sabia que podia contar com o outro.

               Nonôvat sempre nas reuniões de Corte de Honra levantava suas dúvidas e tinha uma que todos sabiam de cor. A competição entre eles ou entre outros grupos.  – Chefe somos irmãos? Se somos porque teremos que ser melhor que os outros? Porque não jogar, aprender, ajudar e ser Escoteiro com o coração sem pensar em ser o melhor? Chefe Ricardo sempre pensou sobre isto. Até decorou o que leu sobre o tema escrito por Bertrand Russell – A raiz do mal reside no fato de se insistir demasiadamente que no êxito da competição está a principal fonte de felicidade. Ele concordava com Nonôvat. Já tinha notado que alguns grupos eram motivados e até levados pela mão pelos seus chefes para poderem dizer que eram os melhores. Muitos gritos de Patrulha assim o diziam. Havia até uma motivação que anualmente era aplicada pela direção nacional. Conseguir tal e tal padrão. Ele achava justo, mas não o que os chefes faziam. Não tinha nada de Escoteiro nisto. Ficavam semanas e semanas, meses e meses eles mesmos fazendo tudo ou com seus Monitores para serem os melhores. Se alcançassem o padrão ouro então era um Deus nos acuda. Falavam para “Deus e o povo”.

               Nonôvat gostava do modo do Chefe Ricardo. Nas inspeções em sede e nos acampamentos ele respeitava a todos. Uma vez em uma atividade com outros grupos viu um Chefe jogando palito e pequenos papeis de um lado ou outro só para dizer – Não fizeram o suficiente! Uma desonestidade. Isto partindo de chefes seria um mau exemplo e o pior, quando convidavam Monitores alguns deles também faziam o mesmo. Aprenderam com seus chefes assim. O Chefe Ricardo era um perfeito cavalheiro. Nunca fez isto. Fazia questão de respeitar e ser respeitado. Em todos os acampamentos ele fazia questão que os Monitores fizessem inspeção no campo de Chefia. Lá estava ele a Chefe Neide e alguns assistentes formados e em posição de sentido enquanto os Monitores olhavam o campo. Ele nunca soube de um Chefe que fez isto.

                Assim a vida seguia e a tropa Escoteira do grupo de Nonôvat seguia seu caminho. Sempre todos com um sorriso, com um aperto de mão do Chefe, com um tapinha nas costas quando alcançavam um distintivo, um abraço forte e um "anrê" por um cordão. Já tiveram cinco Lis de Ouro em épocas passadas, mas há mais de dois anos que a tropa não revelava ninguém. Não por falta de motivação. Chefe Ricardo incentivava ao máximo, mas cabia a cada um dar o primeiro passo. Ele sabia que não podia carregar ninguém. Deveria ser como dizia Caio Vianna Martins. O Escoteiro caminha com suas próprias pernas. Na última Corte de Honra foram comunicados de uma atividade de um dia a convite do distrito. – Chefe! Mas não estava programado! – Eu sei ele disse, reclamei, mas vai ficar mal se não formos. Deixei bem claro que seria a última vez. Eles não gostaram, mas aceitaram.

              Seria uma atividade de um domingo. Próximo ao Vale Cinzento. Disseram que seria filmado por uma emissora. Uma grande publicidade para o escotismo. Não podíamos ficar de fora. A vida continuou na tropa. Claro muitos esperando ansiosos o dia em que iriam confraternizar com outras patrulhas. Diziam que estariam presente vinte ou trinta patrulhas. Talvez um pouco mais com as patrulhas femininas. Às oito da manhã partiram para a Matriz onde seria o ponto de encontro. Muitos lá estavam e como sempre a tropa do Chefe Jurema foi à última a chegar. Ele um rapagão de uns vinte e cinco anos, óculos escuros, chapéu a lá exploradores canadenses e uma vareta embaixo do braço. Chegou sem cumprimentar ninguém e deram o grito de tropa. Como sempre diziam que eram os melhores, iam arrasar. Nem o demônio podia com eles enfim um monte de asneira mais próprio de times “fuleiros” que não respeitam o próximo.

              O distrital tomou a palavra e explicou o jogo. A conquista do Ouro Misterioso. Deu como ponto de partida uma parte do Vale Cinzento que ia da nascente até a estrada do Astro Rei que cortava boa parte do Vale. Ali estavam escondidos quinze lenços escoteiros. Todos numerados. As Patrulhas não precisavam seguir a ordem, mas para achar a pista final precisavam de pelo menos cinco lenços. Menos que isto não seria fácil chegar ao ouro perdido. A ordem era clara. Todos deveriam estar sempre juntos. Em cada ponto haveria um Chefe Escoteiro. Se a Patrulha dispersasse seria desclassificada. Às treze horas poderiam parar para o lanche. Obrigatório. Deu outras instruções e depois o debandar. Paulo Cobra Monitor da Caveira do Diabo (Como deixaram dar esse nome a uma Patrulha Escoteira ninguém sabia) se aproximou sorrindo e disse para Nonôvat – Não me esperava eim? Não tem para ninguém. Você sabe que somos os bons, os melhores da cidade. Melhor reconhecer agora e desistir! E começou a rir se dirigindo para sua Patrulha.

              O jogo começou guerra! Gritou o Comissário Distrital. Eram dez da manhã. Vai aqui, vai ali e a Patrulha Jaguatirica conseguiu achar três lenços. Faltavam ainda dois. Ao meio dia e vinte Nonôvat viu Paulo Cobra sozinho correndo sem a Patrulha. Não podia. Era contra as normas. Chamar um Chefe e dizer? Nonôvat preferiu ir atrás dele e ser sincero – Se continuar vou informar ao dirigente distrital. E ele sabia que faria isto. Correu atrás de Paulo Cobra que tinha subido em um penhasco proibido pela direção do jogo por oferecer grande perigo. Avisou sua Patrulha, deixou Leozinho no comando. Ao subir uns oitenta metros ouviu um grito de socorro. Avistou lá em bairro Paulo Cobra estirado em cima de um galho enorme de uma árvore. Desceu com cuidado.

              Paulo Cobra chorava. Gritava de dor. Dizia ter fraturado uma costela e o braço. Nonôvat achou que deveria ir buscar ajuda. Mas ventava forte e ele sabia que uma tempestade se aproximava. Deixar Paulo Cobra sozinho seria pior. Subiu na árvore. Galho por galho foi descendo Paulo Cobra. Ele gemia. Chorava e pedia sua mãe. Com muito custo chegou ao pé da árvore. A chuva caiu. Forte. Raios cortando pedras e árvores no fundo da garganta. Viu uma grande pedra que fazia uma espécie de caverna a uns quarenta metros. Pegou Paulo Cobra a moda Escoteira e o carregou ombro acima até a pedra. Não foi fácil. Ele era pequeno. Paulo Cobra forte, meio gordo. Nonôvat não desistiu. Chegou à pedra e protegeu o Paulo com sua blusa Escoteira ficando sem nada sobre a pele. Disse que ia buscar ajuda. Paulo gritou que não iria ficar só tinha medo. Muito medo.

             A chuva passou. Nonôvat pegou novamente Paulo Cobra e o colocou no ombro. Poderia ter ido buscar ajuda, mas Paulo Cobra choramingava, pedia para não ficar sozinho. Andava tropeçando. A cada cem ou duzentos metros parava para descansar. Viu que ia escurecer. Resolveu fazer um SOS. Acendeu um fogo com muitas folhas verdes. Com sua blusa presa em duas varetas tentava fazer no código Morse as letras S. O. S. difícil. Se conseguiu ou não noite chegou. Mas menos de uma depois ouviu vozes.  Vários chefes chegando. Paulo Cobra foi levado por uma carroça de um sitiante. Nonôvat soube depois que quebrou duas costelas, uma fratura na coxa direita e no braço direito. Mas ia ficar bom. Levou sua Patrulha para visitá-lo em sua casa. Foi muito bem recebido. Paulo Cobra chorou varias vezes e pediu perdão por tudo que fez. Nonôvat o abraçou. Ficaram amigos para sempre.

                       Dois meses depois um “monte” de chefes adentrou a sede. Nonovat sabia que eram figurões da região e do distrito. A ferradura foi formada. O Chefe Ricardo usou da palavra para apresentar a todos. O Presidente Regional chamou Nonovat a frente. Ele se assustou. Que seria? Então ficou sabendo que iam lhe entregar a medalhar de valor. Ouro. Não era bronze e nem prata. Seria ouro mesmo. Acharam que ele mereceu. Nonovat segurou as lágrimas. Ele não era de chorar fácil. As patrulhas deram o grito. Nonôvat estava tremendo. Emocionado. Viu que seus pais também estavam lá. Todo o grupo se fechou em circulo fechado e deram o grito do grupo. Uma festa. Ele Nonôvat não sabia. No salão de festas muitos comes e bebes. Primeiro entraram os grandões, depois chamaram Nonovat. Ele educadamente disse que sua Patrulha fazia parte dele. Assim como as demais. Entraram todos. Até tarde da noite cantaram e brincaram. Nonôvat em hora nenhuma se sentiu superior. Ele sabia o que tinha feito. Ajudar um amigo Escoteiro. Não importa quem ele seja.

                       Nonôvat teve muitas outras histórias. Histórias que não serão contadas. Histórias de escoteiro de valor. História de Escoteiro amigo e fraterno. Aquele que pensa primeiro nos outros e que tem amor no coração. Dizem que cada coração tem uma sentença. Tem sim, Nonôvat tem a sentença de fazer o bem. Espírito Escoteiro antes de tudo. Soube que ele e seus patrulheiros sempre ficaram juntos mesmo quando passaram para Sênior. José Sanho, Marlon, Leozinho, Marcondes, Daniel um cozinheiro adorado e Zezé Ruaça. Uma vez eu disse para mim mesmo, tem gente que nasce para ser Escoteiro, tem gente que nasce para ser um grande Escoteiro e tem aqueles que nascem para dar o exemplo de humildade e amor com todos ao seu redor. Nonôvat, um Escoteiro que nunca será esquecido!   

Não vim a este mundo competir com ninguém. Quem quer competir comigo perde seu tempo. Estou neste mundo para competir somente comigo: Ultrapassar meus limites. Vencer meus medos, lutar contra meus defeitos. Superar dificuldades e correr em busca dos meus objetivos, já me ocupam muito tempo!





Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....