segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Pedras brancas de gelo na Mata do Quati.


Conversa ao pé do fogo.
Pedras brancas de gelo na Mata do Quati.

Atemporal do tempo. Vale a pena recordar.

12 de janeiro de 2015.

                 Dois dias que temporais enormes caem sobre meu bairro. Ontem choveu granizo. Estava na minha varanda observando e ouvindo o som das pedras de gelo sobre as telhas da varanda e na minha rua. Música sublime para mim. Gosto disto, amo isto eu adoro a chuva. Não sei por que ela se prendeu a mim e ficou presa no meu coração para sempre. Os ventos batiam nas grades do portão e respingos me molhavam, não arredei o pé. Precisava ficar ali, pois as recordações eram muitas. Voltei no tempo atemporal. Seria como se eu tivesse a mágica de transitar no tempo sem necessariamente pertencer ao passado o presente ou ao futuro. Sem querer me lembrei de um conto que li – Sempre me lembro dele. Aqui coloco as suas últimas estrofes: - Ontem chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. “Ponho-me a caminhar sob sol e vento”. Vou ali ser feliz e já volto”. Um dia quem sabe vou postar todo ele. Atemporal, voltar no tempo sem medo de perder o presente e o futuro. Com toda aquela borrasca que caia na minha rua, minha mente se foi. Plantou-se em um passado que nunca esqueci.

20 de janeiro de 1958.

                  Seis Escoteiros Seniores. Olhos vivos a perscrutar com a vista todos os lugares naquela noite escura, sem luar sem medo da chuva ou vento. Acampamentos vividos que alguns não esqueciam jamais. Em volta do fogo, eles comiam banana assada. Pareciam mais pioneiros que sêniores. A moda índia sentaram a vontade naquele foguito e se  esquentavam de uma noite fria. Um “foguito” pequeno. Chamas baixas, muitas brasas para não adormecer o café no bule, já perdendo seu esmalte de anos e anos de uso. – Parece que vai chover. – Taozinho custava para falar. Era um sênior miúdo e de olhos vivos. Minutos se passaram. – Gosto da chuva, adoro uma boa dificuldade debaixo de tempestades. – Helinho ria para ele mesmo. Que o visse naquela hora achava que estava louco. – Israel olhou de soslaio. Não disse nada. Ele nunca esqueceria o acontecido. Darcy não perdia a pose de dar uma boa gargalhada. – Valeu! O melhor acampamento que fizermos. – Chico o menorzinho dos seniores queria dizer alguma coisa. Não sabia o que dizer. Eu estava com os olhos fechados. Queria reviver o momento. Voltar no tempo. Sentir as tremuras, o medo e a força que fizemos em reviver, em refazer um acampamento destruído.   

04 de janeiro de 1954.

              Cantantes, sorridentes, cada um já sabia o que fazer. O esqueleto da barraca suspensa entre quatro árvores estava quase terminado. Faltava ainda boas amarras nos tripés. Chico e Israel adentraram mais fundo na mata. Precisavam de bons cipós que não quebravam. Sisal? Nem pensar. Nem existia ainda. Aboletado lá no alto Israel e Taozinho elevavam no ar uma bela tora que serviria de escada até o alto da árvore. Eu e Helinho terminávamos nossa cozinha. Planos futuros para ela também ficar suspensa. Belos planos. O céu escureceu. Tãozinho gritou! – Nuvens baixas cor de cobre? Todos juntos responderam – É temporal que se descobre. Melhor armar duas barracas de duas lonas para nos abrigar. O toldo foi jogado em cima da cozinha. Darcy correu a cobrir o lenheiro. Uma patrulha que sabia o que fazer. Não eram amadores. Ploc! Ploc! Uma pedra, duas um punhado. Pedras de gelo enormes!

20 de janeiro de 1958.  

             Em volta do “foguito” que dormitava e queria apagar, cada um pensava na vida que tinham levado em belos acampamentos no passado quando Escoteiros da Patrulha Leão. – Foi duro, não foi fácil. Disse Helinho. Lembra Darcy das barracas? – Tãozinho riu. Ele não gostava de rir. Viraram peneiras. Enterramos antes de voltarmos. Perdemos quase tudo. – E o raio? Disse Darcy. Caiu como um chumaço na base do estrado que fazíamos para as barracas. Não sobrou nada. – Silêncio profundo. Cada um voltava no tempo. Chico levantou e pegou alguns biscoitos – Alguém aceita? Foi você Vado que correu na frente de todo mundo para ficar embaixo da enorme aroeira? – Israel gargalhou forte. – Ele parecia um corisco com medo da chuva! – Medo das pedras enormes que caiam, eu disse. – Bons tempos, disse Israel. Dormimos presos uns aos outros molhados sem poder ou sem onde abrigar. – Todos concordaram com um leve levantar de sobrancelhas. Seniores, quando se encontram em volta de um “foguito” tem histórias para contar. Um vento forte levantou fagulhas no ar. – Vai chover? Disse Tãozinho. Se tem vento e depois água? – todos responderam: Deixe andar que não faz mágoa.  – Vou dormir eu disse. Uns foram outros ficaram. Coisas gostosas para lembrar. Passado que se foi.

12 de janeiro de 2015.

                  Meus olhos ficaram húmidos. Lembranças sempre me tocam o coração. Tempos bons, tempos alegres, cheio de aventuras... Tempos que não voltam mais. Olhei a chuva fininha que caia. Acalento para minha alma. Outro dia recebi um telefonema. Era Israel. A mesma voz. O mesmo estilo mineiro que adoro. Onde anda o Darcy? O Tãozinho? O Helinho? O Chico deve estar zanzando por aí. Era o mais novo. Gente fina. Escoteiros e seniores que tiravam o chapéu quando uma dama bonita passava por eles. Lembranças... Dizem que quem não tem lembranças não viveu. Passou pelo tempo como se não tivesse passado. Hã quanto não daria para entrar em uma máquina do tempo. Mas ela ao me levar teria que fazer menino de novo. Dizem que foi Clarice quem disse: -
               O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto.

             E as pedras brancas embranqueceram minha rua que tanto amo molhadas pela chuva que caia copiosamente!

   

domingo, 11 de janeiro de 2015

O destino de Naná que nunca foi Escoteira.


Lendas Escoteiras.
O destino de Naná que nunca foi Escoteira.

              Não vamos crucificar Naná, afinal com seus catorze anos se sentia como moça feita. Diziam que era namoradeira, passava em revista todos os jovens de sua idade ou mais do bairro onde morava. Todos diziam que ela gostava de usar saias curtinhas se pintava demais e outros tantos, e quando passava pela rua ninguém perdia o seu andar de modelo nota dez. As moçoilas há invejavam. Tinham um enorme ciúme por ela ser bonita e vistosa. Ela trazia a cobiça de muitos homens do lugar. Mas Naná não era assim como diziam, era bem diferente. Namorava sim, pois sempre procurou sua alma gêmea e nunca encontrou. Nunca deixou que alguém a tocasse. Seus namoros eram em casa e sempre quando sua mãe estava presente. Vestia-se como gostava e nunca seria uma Filha de Maria como muitas, que se cobrem da cabeça aos pés, mas que no escurinho haja lugar para se esconder com seus namorados. Mas a língua do povo todos sabem como é venenosa! Cruel! Que machuca fundo no coração, pois ninguém importava se ela ficaria triste se iria chorar ou sorrir. Problema dela, diziam.  

                    Todo mundo tem seu dia em que sua vida vai mudar para sempre. É só esperar e ele acontece. Faz parte do livre arbítrio onde podemos escolher nosso caminho para toda a vida. Naná soube por uma vizinha que uma Editora na Praça da Liberdade estava aceitando jovens escritores para um concurso que iria se realizar proximamente. Pegou o ônibus no terminal da Lapa. Vazio, escolheu o lugar para sentar. Juntou as folhas da história que tinha escrito poucas folhas não mais de que vinte. Ela poderia ser escolhida? Não sabia. Seu conto era simples, tipo a Gata Borralheira do século XXII. Ela gostava, o lia todos os dias. Eis que no ponto da Coriolano subiu diversas jovens escoteiras. Ela não as conhecia de perto. Já tinha visto seus uniformes, já tinha lido sobre elas, mas nunca se aprofundou o que era e como se faz escotismo. Elas sorriam, cantavam baixinho, sempre em grupo, e uma Chefe dos seus trinta anos que olhava para elas como se fossem suas filhas.

                    Naná se encantou com elas. Várias sorriram quando olharam para aquela menina, de sainha curta, muito batom e cabelos curtos bem penteados. – Você gosta assim? Perguntou uma delas. Naná não soube responder. Outras conversaram com ela e a aceitaram como ela estava sem criticas, sem olhares maldosos. Ao descer na Estação da Luz  ela ouviu a voz da Chefe – Mocinha quer ir conhecer os segredos da Estação da Luz conosco? – Porque não pensou Naná. – Para não se perder vais ficar na Patrulha Cisne Branco. Naná sorriu internamente. Que seria isto? Melhor aceitar, pois ela estava gostando das meninas. Nunca tinha feito amizades assim e as que tinha não podia confiar. Claro que tinha um objetivo, mas que podia ser adiado. Agora estava disposta a conhecer as Escoteiras e claro os segredos da Estação da Luz.

                  Foi o dia mais bonito na vida de Naná. Quando elas partiram deixando o endereço da sede seus olhos se encheram de lágrimas. A sede não era longe e nem perto. Tinha que tomar uma condução e a viagem seria de mais ou menos uma hora. Daria tudo para ser uma delas, pois sempre se considerou só, amigas que não se podia confiar e encontrou nas Escoteiras uma sinceridade nata, pois sempre diziam que a Escoteira é amiga de todos e irmãos dos demais Escoteiros. Lindo isto. Nunca pensou que alguém poderia dizer isto para ela. Os dias foram passando e Naná adiando conhecer a sede das Escoteiras. Veio o Natal, o ano novo e o carnaval. Naná nem se lembrava mais das Escoteiras e voltou a sua rotina. Uma tarde de maio o carteiro entregou uma correspondência. Ficou surpresa. Nunca tinha recebido uma a não ser os desaforados e-mails que as moçoilas do seu bairro enviava a ela.

                 - Naná, nunca esquecemos de você. Ficamos todas esperançosas de sua visita. Você não veio. Sabemos que isto acontece em muitos jovens. Nossa Chefe já dizia que nem todos nasceram para participar da tropa de Baden-Powell. Mas lembre-se nossas portas estão abertas sempre. Sua presença será para nós uma honra! – E agora? Naná não aguentou e chorou. Seu coração bateu forte. O que é isto meu Deus! Nunca ninguém disse ou escreveu para mim assim! Mostrou a carta para sua mãe. Ela a incentivou a visitar as escoteiras. Ela sabia que iria, sabia que elas com aquela cartinha a tinham conquistado. Foi a uma lan house perto de sua casa. Não tinham computador pois o dinheiro era escasso. Ficou horas lá pesquisando sobre escotismo. Muita coisa incompreensíveis para ela, mas adorou como elas aprendiam a viver a vida ao ar livre. Já tinha decidido. Seria uma Escoteira. E olhe seria para sempre. Preparou-se no sábado com um vestido simples mais comprido e não usou nenhuma maquiagem. Tinha um boné que ganhou de um americano e o colocou na cabeça. No ponto a espera do ônibus ela só tinha sonhos de como seria ser mais uma, agora pertencendo a uma grande fraternidade que diziam não ter fronteiras.


                   O ônibus não estava cheio. Sentou perto da porta. Quando ia dar a partida o motorista foi surpreendido por vários rapazes marginais encapuzados. Jogaram gasolina e botaram fogo. Não houve tempo para nada, o fogo se alastrou por todo o interior do ônibus. Naná tentou sair, mas a porta trazeira estava fechada. Na sua frente uma senhora com um filho pequeno no colo gritava. Tirou seu sapato e quebrou o vidro empurrando a filha da mulher pela janela e lá fora alguém o segurou. Ela e a mulher não conseguiram sair. Morreram queimadas em um ônibus, em uma tarde sonolenta de abril. O mundo continuava a existir. Em muitos lares o sorriso estava firme com as famílias que viviam um amor fraternal. Alguém a ajudou a sair do ônibus. Viu seu corpo lá fora e centenas de pessoas olhando o ônibus já com as chamas se apagando. Sentiu a pessoa que a abraçava e dizia – Vamos minha filha, não há mais nada a fazer aqui. Olhou bem e viu que esta pessoa estava com um uniforme de Escoteira. Subiu aos céus com ela. Seus olhos brilhantes não choravam mais, não sentia mais dores era como se ela estivesse protegida por alguém que sempre a amava muito. Passaram perto da lua, e escondido entre as estrelas ela chegou ao seu destino.              

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O céu que nos protege.


Lendas Escoteiras.
O céu que nos protege.

                Lorraine tinha duvidas se era feliz. Um dia num passado muito distante fora sim, muito feliz. Agora o presente e o passado se alternavam em sua mente e hora sim hora não ela sorria ou chorava. Ela estava com os olhos semicerrados no ônibus que retornava para a sede após mais um acantonamento com os lobinhos. Todos dormiam. Fora uma atividade cansativa e muito divertida. Não tanto para Lorraine. Como sempre duas mães da equipe de apoio só foram para ficar ao lado dos seus filhos. Lorraine não gostava disto. Mas não eram só elas. Muitos chefes no Grupo Escoteiro faziam o mesmo. A própria Akelá não era exceção. Uma proteção que ela achava errado. Mas falar o que? Ela também entrara por causa do Tony seu filho de sete anos. Tentava sempre manter uma distancia quando em atividade. Seja na sede ou no campo. Explicou a ele. Tony era muito adulto e isto a fazia se orgulhar. Mas o mesmo não acontecia com os outros.

               Agora uma lágrima descia dos olhos de Lorraine. Uma tristeza infinita invadiu sua mente e seu coração machucado batia descompassadamente. Ela sabia que Alfeu seu esposo tinha outra. Não tinha mais dúvida. Eles de uns tempos para cá não tinham mais aquela sintonia de almas gêmeas do passado. Os beijos, os abraços e o “eu te amo” não existiam mais. Ela acreditava que este fora um dos motivos por ter entrado no escotismo. No começo nem pensou em ajudar. Achava que seu filho ali devia ter vida própria. Devia crescer interna e externamente, pois isto era uma das finalidades do escotismo que tinha lido. A vida com Alfeu agora lhe trazia inúmeras tristezas. Lembrou de que por duas vezes alcançou a felicidade plena. A primeira quando casou, quando entrou na igreja num belo vestido de noiva. Era uma tarde esplêndida na primavera e a igreja lotada. Sorria de plena felicidade. Felicidade que em pouco tempo estava acabando. A segunda foi quando Tony voltou da sua primeira reunião com a Alcatéia. Seu sorriso não tinha preço. Ela sorria também com sua enorme felicidade.

               Dois grandes problemas martelavam em sua mente como se fossem insolúveis e a machucavam muito. Ela não sabia o que fazer. O primeiro sua vida conjugal e o segundo a permanência nas fileiras do escotismo. Ela sabia que Alfeu tinha outra. Chegava tarde, não a procurava mais no leito, deixou de ser carinhoso e mesmo sendo uma mulher calma e ponderada ficou completamente sem ação. Devia ter tomado à iniciativa, mas isto não fazia parte de suas ações que sempre eram bem calculadas e pensadas. Mais dia menos dia ela e Alfeu iriam se separar. Não era o fim do mundo, não era. Muitos casais se separam, mas ela nunca imaginou que isto pudesse acontecer entre eles. E Tony? Como reagiria? Alfeu sempre foi um bom pai. Apesar de não ter sido Escoteiro não a proibia e até alimentava ilusões que um dia ele também pudesse participar. Era um companheirão de Tony. Quando não havia atividades escoteiras saiam para passear, ir a jogos de seu time preferido, e ver algum filme próprio para a idade dele. Nestas horas sentia que ela não fazia parte da família. Ele não a convidava mais.

              No Grupo Escoteiro ainda se sentia uma intrusa. Dois anos lá. Alguns cursos de formação. O Diretor Técnico se autonomeou como seu assessor pessoal. Nunca foi seu amigo. Sentia que havia um distanciamento entre ele e a diretoria com os demais chefes. Eram muito formais. Diziam para ela que o Grupo Escoteiro era uma grande família, mas o exemplo que sentia na pele não demonstrava isto. O grupo para ela era como se fosse sua antiga empresa quando ainda trabalhava onde tudo era feito de maneira harmoniosa, mas formal. Muito formal. Eu aqui e você aí, faça sua parte que eu faço a minha. A própria Akelá não era diferente e mantinha um distanciamento com seus assistentes. Ela se sentia uma intrusa na Alcatéia. Ela resistiu e continuou por causa de Tony. Ele sentia orgulho em ver sua mãe de uniforme e isto era para ela um bálsamo pelos dissabores que estavam acontecendo em sua vida.

            Ao chegar em casa cansada da atividade e colocar Tony para dormir após o banho e um lanche, ela sentou na sala e ficou pensando em sua vida. Ainda não era onze da noite e Alfeu chegou. Bêbado. Ela sabia que ele estivera na farra.  Como sempre não disse nada. Nunca dizia. Ele foi quem puxou o assunto. - Lorraine, eu vou me separar de você! – Lorraine ficou estática. Sua voz sumiu. Não sabia o que dizer. Seu pensamento não dizia qual palavra deveria pronunciar naquele momento... Alfeu subiu ao seu quarto, pegou algumas roupas e saiu pela porta sem dizer adeus. Lorraine ficou ali, olhos marejados de lágrimas. Era difícil pensar, não sabia o que fazer. Dormiu ali na poltrona e acordou com um brilho na janela. Assustou. Foi até lá. Seu pai no jardim sorria. Ela queria falar e não conseguia. Ele nada dizia e só sorria para ela como sempre fez quando ainda vivo. A luz desapareceu. Seu pai se fora. Foi para seu quarto, lembranças de Alfeu ainda estava viva em sua mente. Dormiu de novo.

           Como sempre levantou cedo, preparou o café de Tony, viu quando ele entrou na perua escolar. Era hora de ela partir para seu trabalho. Sabia que eles a aceitariam de volta. Sempre fora boa funcionária. Passou um dia horrível, o pior de toda sua vida. Ao voltar para casa viu Alfeu e sua nova namorada na esquina, andando abraçados e rindo. Triste vida a minha pensou. Chegou em casa, encontrou Tony alegre a brincar com Thiago um lobo seu vizinho. Olhou para as duas crianças, como era bom ser assim, sem problemas, sem tristezas e o futuro? O dela já estava marcado. Lembrou de seu pai sorrindo, olhou para os dois jovens que sorriam, seu coração doía, mas ela não podia continuar assim. A vida continua tudo passa, se fazermos a junção das duas podemos dizer – Tudo passa e a vida continua. Quem foi que disse que se um dia a felicidade acabar, então a tristeza um dia também deixará de existir? Melhor é continuar. Esperou a noite para conversar com Tony. Ele silencioso ouviu sem retrucar. Alfeu nunca mais apareceu em sua vida.


           Hoje Lorraine continua no Grupo Escoteiro. Resolveu fazer ela mesma sua vida ali. Sorria para todos, nunca disse a ninguém o que aconteceu com ela. Passou a receber elogios em seu trabalho. Não digo que esqueceu Alfeu. Não havia como, mas agora ele não participava mais de sua vida. A noite em suas orações pedia por ele. Que ele fosse feliz. Tony perguntava às vezes pelo seu pai. Ela sabia que ele não tinha ódios e nem rancores. Se um dia ele aparecer, será bem vindo, mas nunca em vida de família. Neste ele não teria seu lugar.  Lorraine aprendeu que a felicidade não está no fim da jornada, e sim em cada curva do caminho que percorremos para encontrá-la.  Ela não iria procurar a verdade fora dela mesma. Ela sabia quer a verdade estava com ela. Ela sabia que ela estava em sua fé interior.  Em seu coração para todo o sempre!

domingo, 4 de janeiro de 2015

Gilbert, um Escoteiro em busca da trilha dos elefantes.


Lendas Escoteiras.
Gilbert, um Escoteiro em busca da trilha dos elefantes.

                        Há muito queria contar esta história. Mas porque achei meio infantil e desconexa desisti. Hoje pensando pensei – Porque não? Lá vai então. – Nas minhas andanças por este enorme país eu fui parar em uma cidadezinha chamada Nova Matusalém. Isto mesmo. Este era o nome. Na pensão da Dona Esther eu fiquei sabendo de que a muitos e muitos anos existiu um Grupo escoteiro na cidade. – Porque acabou? Perguntei. – Não sei. Porque não vai até a pracinha? Olhe no banco que fica em frente à Matriz. Vai encontrar Narciso ele é um velhote gente boa. Ele gosta de conversar e foi Escoteiro naquela época. – Não me fiz de rogado. Adoro conversar com antigos chefes. Eles sempre têm histórias maravilhosas para contar. Almocei, tirei um cochilo e parti para a praça. Não havia erro, com seus 80 anos lá estava ele. Um belo sorriso, no ombro direito uma pombinha amarelada, no esquerdo um Pintassilgo e um Bem-te-vi.

                    Parei na sua frente e alegre eu lhe disse – Sempre Alerta chefe! Ele imediatamente ficou em pé e solenemente respondeu Sempre Alerta. – Sente-se aqui ao meu lado. Há tempos que não converso com um Escoteiro. Ficamos ali conversando até sete da noite. O convidei para comermos um peixe em um restaurante que diziam maravilhas. Aceitou. Um velhote e tanto. Educado, simples e gentil. Histórias e histórias foram contadas. Mas teve uma que me chamou atenção. Do Escoteiro Gilbert e seu Elefante-africano. – Aqui? Perguntei. Aqui mesmo e começou a contar a história.

                   - Gilbert era Escoteiro há pouco tempo. Eu estava nos seniores e quase não tínhamos contato. Fiquei sabendo que ele insistiu com a Patrulha para atravessarem a Mata dos Macacos Cinzentos. Jurou que do outro lado iriam encontrar uma manada de elefantes. Ninguém acreditou naquela história absurda. Nem pensar disseram. Era uma mata que ficava a mais de setenta quilômetros, atrás da Serra do Ouro Negro. Eu já tinha ouvido falar dela. Poucos se arriscavam a ir lá. Um nevoeiro denso cobria a mata. Disseram de muitos que entraram e desapareceram. Todos sabiam que do outro lado da mata ficava a cidade de Tarumim. Havia até um projeto de cortar a mata com uma estrada, mas devido à falta de verba o projeto foi adiado. Gilbert não desistia. Procurou-nos um sábado – Será uma aventura e tanto! Disse a todos os seniores. Eu sei o caminho. O vi em meus sonhos. Depois da mata vamos encontrar o Vale do Tigre e lá uma manada de elefantes. Lá também tem leões, girafas, hipopótamos uma fauna gigantesca que hoje nem na África se encontra. É lindo lá. Campinas verdejantes, árvores com copas redondas, cascatas e cachoeiras enormes!

                        Achamos graça de Gilbert. Ele implorou ao Chefe Cardinho, falou com a Akelá Laurita. Nada. Era um sonho louco. Inacreditável. Quem iria pensar em ir a um local de sonhos de um Escoteiro? Em uma segunda feira Gilbert não foi à escola. Seus pais foram alertados. Procuraram em todos os lugares e nada. Ele não era gazeteiro. Nunca foi. Era sim um ótimo aluno. Dois dias a procura de Gilbert. Nada. Natalino um boiadeiro disse ter visto um jovem de bicicleta rumando para a Mata dos Macacos Cinzentos. Chefe Cardinho, Moliere e os seniores estavam na sede naquela quinta preparando para partir em busca de Gilbert. Todos tinham muita experiência. Não sabiam o que iriam encontrar na mata. Mas a vida de um Escoteiro esteva em jogo e seus pais inconsoláveis.

                        Quando estavam saindo um belo susto. Impossível! Gilbert entrou montado em um enorme elefante branco, com duas enormes presas de marfim. Enormes orelhas mais de duas toneladas de peso. Ele ria. Batia palmas. No centro da sede o elefante com sua tromba o colocou no chão e ficou sentado em duas patas. A cidade em peso acorreu para ver. Os pais entre alegres e preocupados previam um castigo para ele. Fazer o que com o elefante? O delegado disse que na cidade próxima tinha um circo. Mandaria alguém lá e ver se interessariam. Gilbert gritou. - Não podem fazer isto! Pelo amor de Deus! – Seus pais o levaram para casa. Um sermão, e a proibição de sair do quarto por uma semana. Sem escoteiros por dois meses. A mãe o levaria a escola e o iria trazer. No dia seguinte o quarto vazio. Ele pulou a janela do segundo andar e sumiu. Correram na sede. O elefante também sumiu.

                          Natalino o boiadeiro contou que quando estava recolhendo uma vacada parida, o viu sentado em um elefante entrando na Mata dos Macacos Cinzentos. Gritaria. Onde este escoteiro estaria novamente! Um mês! Sim, um mês desaparecido. Passou todo setembro sem dar as caras. Muitos acharam que ele tinha morrido. Apareceu em um domingo de sol. Sorridente. Seus pais desistiram do castigo. Gilbert pediu que pudesse de tempos em tempos visitar seus amigos elefantes. Tinha levado uma máquina fotográfica. Varias fotos de animais que não existiam no Brasil. Não acreditavam nem nas fotos. Seus pais concordaram. Sabiam que ele iria fugir se o prendessem. Ficou famoso na Patrulha e no grupo. Todos o reverenciavam. Pediam para contar a história do Vale do Tigre. Ele sorria e nada dizia. – Como chegar lá? Ele sempre sorrindo e calado.

                         Quando fez dezoito anos despediu do seu pai e de sua mãe. Foi na reunião de tropa e abraçou a todos no Grupo Escoteiro. Disse que iria partir. Ia morar no Vale do Tigre para sempre. O Chefe, um soldado dos bombeiros e dois seniores o seguiram de longe. Viram-no entrando na mata. Entraram atrás. Uma enorme cachoeira. Nem sinal de Gilbert. Sumiu nas brumas que invadia a mata e nada conseguiam ver. Sei que a cada ano aparece. Montando sempre em um elefante. Abraça seus pais fica um ou dois dias e depois desaparece.


                        Olhei para Narciso. Ele sorria. Saímos do restaurante. Ele me acenou dizendo adeus. Na esquina vi que ele estava montado em um elefante branco. Corri até ele. Sumiu na curva da estrada. Verdade? Mentira? Não queria contar. Nunca mais voltei à Nova Matusalém. Nunca descobriram a terra maravilhosa do Vale do Tigre. Eu juro que é verdade. Gostaria mesmo de passar uma temporada naquele vale maravilhoso. Mas a vida não é como a gente quer. A vida é feita de sonhos e só quem sonha tem o direito de fazer o que quiser de sua vida!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Minha última conversa ao pé do fogo... Em 2014 é claro!


Minha última conversa ao pé do fogo... Em 2014 é claro!

                  Ontem sentei na minha varanda e esperava que quando viesse o entardecer caísse uma pequena garoa. Sempre acontece isto quando me sinto nostálgico. Mas não aconteceu. Quem sabe hoje na virada do ano? Bem aproveitei para repassar o meu 2014. Sempre nestas horas me pergunto: - Senhor até quando? Sei que ele sorri não diz nada, mas eu complemento: - Até quando o Senhor quiser! Foram centenas de dias, horas e minutos. Fazendo minhas caminhadas, vendo um ou outro programa de TV, ouvindo minhas músicas prediletas, sempre a correr para falar com os homens de branco, ouvir as mesmas coisas, afinal velhos também tem esperanças e sonhos. Mas me perguntam: - Sonhos? Esperanças? Claro que sim amigos, mesmo sabendo que amanhã ou hoje poderia ser meu último dia meus sonhos e esperanças existem e irão me acompanhar para sempre. Queira ou não foi um ano bom. Como sempre sem dinheiro pouca saúde, mas e daí? Eu precisava? Nunca precisei.

                 E porque foi um ano bom? Olhei para o céu não vi estrelas, mas reafirmei a mim mesmo que foi ótimo. Como diz o mineiro “mais maió de bão, tamanhusso e biteleza!” Consegui sobreviver. Conseguir escrever, consegui sonhar e o melhor de tudo fiz muitos amigos virtuais e pessoais. Cumprimentei pessoas que nunca tinha visto, voei nas minhas asas da imaginação a locais lindos, me encantei com tantos sorrisos dados por novos amigos. Aqui mesmo alguns me deram boa noite, bom dia, Sempre Alerta e até aqueles mais sabidos que me disseram SAPS! Não fiz inimigos, se fiz foi sem querer. Muitos opinaram nas minhas escritas, alguns gostando outros discordando. Tentei ser autêntico. Não sei se fui. Não tentei conduzir opiniões, mas deixar que outros conduzissem ao seu modo. Não entrei em outra seara que não o escotismo, pois ele faz parte da minha vida. Votei secretamente. Não me revoltei com políticos e empresários que aproveitaram da bondade de outros para enriquecer.

                 Ouve sim, crimes horrendos em todos os países, mas nunca pedi justiça para ninguém. Eu sei que ela vai existir um dia e Deus sim é o único que pode perdoar e ele vai perdoar não importa o grau dos culpados. Sei como funciona o poder entre os homens. Alguns dizem ser um poder do nada, do outro lado este poder é relativo. Lá nossos valores e importância serão o bem que fizemos aqui na terra. Revoltei? Um dia sim e outro não e quando aconteceu preferi orar em vez de criticar. Fechei os olhos para pensar que sem o mal o bem não tem condições de sobreviver. Pensei mais em coisas boas. Em minha linda esposa, nos meus filhos, na maçã vermelha que me deu o gosto da cereja em flor. Minhas noites foram ótimas apesar de acordar quase toda as horas. São coisas de velhos. Mas não dizem que ser Velho é lindo? É mesmo, desde que aceite suas condições de saúde e de vida. Ainda bem que Deus me deu condições de pensar, de criar histórias, de vivenciá-las como no meu passado.

                   Quem teve como eu a felicidade de ser Escoteiro, em uma época como a que vivi, sem obstáculos, sem marginalidade, sem empecilhos onde bastava um Escoteiro chegar correndo e dizer: - A tropa vai acampar! Era bom demais. Com a carrocinha ou não, com a mochila nas costas, cantil cheio, faca na direita e machadinha na esquerda, Chapelão na cabeça e olhar para o Monitor esperando ordens: - Para onde vamos Monitor? Podia ser para o Córrego do Onça, para as colinas do Morcego, para o Vale do Lago Feliz. Não importava. O bom era por o pé na estrada e viver! Sim viver ao ar livre, com uma bandeira ao vento, sem imposições, mas sempre digno da lei e promessa. Não posso reclamar. Fui feliz Escoteiro menino, fui feliz Escoteiro adulto. Ainda sou feliz como Velho Escoteiro.

                  Agora vamos entrar em 2015. Espero coisas boas, se vier ruins que venham. Faz parte da vida e não vou reclamar. Sei que meu anjo estará ao meu lado. Célia com seu sorriso faz parte de tudo que sou. Continuarei a escrever histórias, umas boas outras não, umas que a gente deixa rolar uma lágrima e outras não. Umas que faz a gente pensar e outras não. Cada dia será vivido como único. Em todos eles terei um sorriso nos lábios, e na mente sempre cantarei uma canção Escoteira. A de despedida não. Ela será minha última canção. Irei cantar a canção de amigos, de colocar as mágoas no bornal, de sorrir sempre, de saudar meu amigo BP, aquela que amo ao dizer que embaixo da árvore da montanha acampei. Vou cantar para minha patrulha e gritar a eles para avançar ao infinito. Cantarei o Rataplã marchando na trilha da felicidade, serei feliz em cantar todos juntos estaremos reunidos outra vez. Não terei mais uma fogueira para lembrar-me do Stoldola, ela é impossível hoje para mim. Mas não esquecerei jamais que tenho de voltar a Gilwell, preciso aprender mais e um curso assim que possa eu vou tomar. E antes de dormir, cantarei o Cucu o silencio da noite, pensando que no amanhã vou cantar a alvorada.

               2015 estão aí. Sempre agradecendo a Deus pelos amigos que já vivem em meu coração os que ainda irão viver. Sempre que possivel vou tentar levar a felicidade a todos e lembrar que um Escoteiro vive para amar e ser amado, que o amor não tem horas para existir. Nunca deixarei de postar meus sonhos, de um escotismo leal, amigo, fraterno, respeitoso, onde não existe o melhor e o pior. Sempre direi que somos todos irmãos fraternos, e que o escotismo faz parte daqueles que acreditam e que o gostoso de tudo é ser um Escoteiro irmão, fazendo tudo muito simples, onde não vai haver fronteiras para apertar uma mão esquerda. Nos meus sonhos não haverá imposições e ninguém vai ter receio da autoridade Escoteira. Não teremos burocracia para ir às montanhas, descobrir nascentes de águas cristalinas, e sempre com um sorriso nos lábios. Uma vez eu disse que gostaria de ter sido um mágico, quem sabe ser um Merlin da Corte do Rei Arthur, dos cavaleiros da távola redonda. Eu seria um semeador de felicidades, ou melhor, um mágico para levantar meu bastão e deixar que ele solte raios de felicidade, de amor, de bondade e jogar no coração de cada um que ser Escoteiro é muito mais, é ser feliz e fazer a todos  felizes.

QUE VENHA 2015! Estarei pronto a viver com ele até os seus últimos dias!

Beijos e abraços fraternos a todos vocês!   

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Uma mensagem para meus amigos e amigas. Fim de ano, a jornada continua.


Uma mensagem para meus amigos e amigas.
Fim de ano, a jornada continua.

                        Fim do ano. Não sei se deu resultados as mensagens que enviei através dos meus blogs, de meus contos e artigos Escoteiros nas redes sociais, mas tentei com todas as minhas forças, e a pequena experiência de 65 anos de escotismo transmitir aos meus amigos e amigas de tudo que participo o que seria o escotismo de BP. Um escotismo que muitos chamam de ultrapassado, mas é o que acredito. Talvez por ter vivido tudo isto e por não me adaptar ao moderno que muitos hoje fazem questão de postar como uma verdade absoluta. Gosto de escotismo de resultados não de escotismo de ficção. Se o moderno tem resultados merece meus respeitos. Resultados são homens e mulheres que passaram pelas fileiras Escoteiras pelo menos por dois anos e que trazem dentro de sí o orgulho de ter um caráter ilibado, uma visão social na sua comunidade, uma lealdade e respeito para com o próximo, uma palavra honesta que todos acreditam e vive em paz com todos principalmente com seu coração.

                    Lutei em muitas frentes sem temer adversidades. Considero-me amigo de todos não importa o grau que ele ache que tenha no escotismo. Isto para mim nunca fez diferença, pois acredito que somos todos iguais. Muitos acreditaram nas minhas palavras e a estes agradeço. Outros não acreditam e claro a eles também agradeço por ser uma critica feliz. Sem uma oposição a democracia nunca vai prevalecer. Respeito e respeitei a todos os membros do escotismo. Muitos atacaram minhas ideias e minhas histórias e eu lhes sou grato por isto. Mostrou-me que não sou unanimidade. Quando agradamos a todos muitas vezes perdemos a humildade de reconhecer que somos simples seres humanos e mortais. Minhas histórias contam lendas, mas lendas que poderiam muitas delas ter sido verdade. Mostrei meninos de todas as idades, pioneiros, chefes e dirigentes fazendo um escotismo leal sincero e profundo.

                  Meus blogs onde posto meus contos e artigos escoteiros atingiram no seu total mais de 170.000 visitas. Pouco é claro comparado com grandes blogs que atingem facilmente a marca de um milhão. Mas eu falo sobre escotismo, sobre como é gostoso ser Escoteiro, como é bom ter uma bandeira do Brasil solta ao vento em uma montanha, em florestas encantadas, em um vale feliz, em campinas verdejantes deste nosso enorme país. Não sou de deixar de escrever o que penso, respeito aos dirigentes Escoteiros Brasileiros até onde eles merecem ser respeitados. Nunca deixarei de comentar o que penso do que fazem no escotismo e mesmo não concordando com muitas de suas ações eu rezo todas as noites para que o escotismo no nosso país atinja todas as camadas sociais, que ele seja levado de norte a sul por igual, que não haja privilégios para ricos ou pobres, pois todos nós somos irmãos e iguais perante as leis.

                    Que o ano de 2015 seja a continuação da luta por um escotismo grande e forte. Espero que eu ainda esteja presente neste ano fazendo o que sempre fiz. Sei que não posso mais andar e correr com a juventude em um Grupo Escoteiro. Mas uso minhas palavras e minhas ideias que não são minhas, mas de Baden-Powell para levar a todos a boa nova que o movimento Escoteiro oferece. Que Deus me dê forças para continuar escrevendo.

               A todos vocês meus amigos e amigas de todas as idades e nações, meu abraço fraterno. Faço questão de juntar meus calcanhares num gesto simbólico e dizer meu Sempre Alerta alto e feliz a todos vocês. Amigos ou não. Que meu aperto de mão esquerda seja útil nesta jornada que caminhamos juntos. Cada um com seu trabalho cada um acreditando que o escotismo pode fazer de nossos jovens um orgulho para o futuro desta nação.

SEMPRE ALERTA!    
Chefe Osvaldo Ferraz. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A bravura de um herói

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A bravura de um herói

Um conto baseado na historia de Caio Vianna Martins

Teço pensamentos abstratos,
de heróis que não conheci.
Heróis que moram na memória esquecida,
mas que inundam de orgulho
a biografia de uma nação.
Entre batalhas furiosas
e mortes anunciadas,
erguem-se ilustres destemidos
vitoriosos.
No seu sangue,

Heróis que moram na memória esquecida,
mas que inundam de orgulho
a biografia de uma nação.
Entre batalhas furiosas
e mortes anunciadas,
erguem-se ilustres destemidos
vitoriosos.
No seu sangue,
a história sofrida de quem ousou
ser escudo da raiva esforçada
por vencê-los!
E contrariando prévias derrotas,
saíram vencedores, de forma distinta
em todas as conquistas.

                 Volto meu pensamento para o passado. A um hiato entre a história e a realidade. Não faz tanto tempo assim, mas existem lacunas que tento completar e não é fácil. Muitos heróis alcançaram a fama, o estrelato mostrando seus pontos fortes e levando uma palavra de esperança de um futuro melhor. Temos aqueles heróis do passado, das grandes pelejas, e eles em tempo algum se compararam aos feitos como Aquiles, o maior defensor de sua cidade. (as Ilíadas). Tróia sobreviveu. Foi um fato da história assim como também sobreviveu na mente de todos nós o que se passou com o bravo e valente monitor que nunca será esquecido e sempre lembrado na memória dos escoteiros.

              Dizem que os heróis surgem em tempos difíceis quando as oportunidades aparecem, outros dizem que os heróis não se fazem, já nascem assim. Não sei se Caio Vianna Martins mudou a história escoteira com suas palavras. Quem o conheceu nunca diria que um dia ele seria um Herói. Poderia ver na história da humanidade, heróis que se fizeram. Dandara no Brasil, quem já ouviu falar? Esposa do Zumbi dos Palmares foi uma guerreira feroz e brava defensora de um quilombo. Maria Quitéria disfarçou-se de homem para lutar na guerra da independência brasileira. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, única brasileira homenageada no Museu do Holocausto.

            Quem por acaso já ouviu falar delas? Ou de Heitor Villa-Lobos, maestro e compositor famoso, ou Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes? E finalmente Alberto Santos Dumont. Claro todos já leram sobre ele e seus feitos. Esse introito foi para lembrar-se do nosso herói. Brasileiro e Escoteiro. Não é uma historia cheia de surpresas e sim cheia de valores. Eu aprendi que nós controlamos nossa atitude ou será que é ela quem nos controla? Heróis são as pessoas que fazem o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, independente das consequências. Encontrei tudo isto em Caio Vianna Martins. Poderia contar outra, mas Caio percorreu com sua fama os anais da glória, desde os tempos outros até o limiar do nosso século.

         Falar de Caio Vianna Martins é voltar ao passado. Um passado de glória, de um valente Escoteiro que nunca será olvidado porque está presente em todos os corações escoteiros, todos que um dia fizeram sua promessa. Muitos até hoje discutem sua frase, tão bela, dita em hora tão difícil em sua vida. Nem todo os escoteiros conhecem sua história. Ele se tornou um marco para nós. Não foi um mito e nem uma fantasia como muitos dizem, mas sim um fato, uma realidade e que o transformou em nosso herói!

Quando o conheci pela primeira vez, não passava de um jovenzinho magro, raquítico, de um olhar profundo, sem se importar muito com sua aparência. Não diferia dos demais jovens. Brincava, ria e como estudante não era o melhor, mas também não era o pior. Lembro quando entrou em minha sala e pomposamente me chamou de senhor professor. Claro, era uma obrigação na época, mas nos seus olhos vi um brilho que somente aqueles que se sobressaem têm.

            Eu lecionava no Grupo Escolar Visconde do Rio das Velhas. Lá o conheci em meados de 1930. Para dizer a verdade, quem o visse não diria o que ele seria um dia. Com seis anos completados, ainda não tinha ideia dos escoteiros. Na cidade de Matozinhos em Minas Gerais não havia Grupos Escoteiros. E ele é claro nunca pensou que um dia fosse entrar e viver sua maior aventura, que terminou com sua celebre frase e que ficou para sempre gravada na historia escoteira. Ficou poucos anos na escola que lecionava e seus pais mudaram para a capital do estado. Caio se matriculou na escola Barão do Rio Branco e não sei por que ficou ali pouco tempo. Logo se transferiu para o colégio Arnaldo e mais tarde no Afonso Arinos. Dizem que a lenda é feita de mitos e fatos. Na vida juvenil de Caio não existem tantos fatos assim que justifiquem a lenda. Num sábado, Caio resolveu assistir a uma partida de futebol em seu colégio. Viu pela primeira vez e ficou fascinado com a reunião de uma tropa de escoteiros. Nunca tinha visto nada igual.

            Ficou toda a reunião ali, com os olhos pregados nos jovens escoteiros. Na sua mente só pensava que precisava ser um deles. Tinham belos chapéus, belos uniformes, um lenço no pescoço seguro por um anel de couro, e cada um portava um bastão de madeira. Fizeram jogos, correram, gritaram e o que mais agradou a Caio, o sorriso estampado nos lábios dos escoteiros o tempo todo. Foi para casa e sabia que agora ser escoteiro para ele era ponto de honra. Caio era um obstinado. Tanto falou que seu pai o levou numa tarde de maio e o matriculou. Caio simpatizou logo com seu chefe Clairmont Orlando Gomes. Assim como também com o chefe Rubens Amador. Em casa sempre comentava com seus pais como eles eram. Amigos, prontos a ajudar, pareciam irmãos mais velhos do que chefes escoteiros. Gerson Issa Satuf era de outra patrulha. Caio sempre na Patrulha Lobo. Ele gostava de todos os membros da tropa, mas tinha um carinho especial com sua patrulha.

            A alcateia quase não dava as caras, pois suas reuniões eram em horários diferentes. E quem sabe seja por isso ele nunca soube que ali havia outro lobinho que seria lembrando por muitos e muitos anos por tudo o que aconteceu naquele dia fatídico. Mas vamos falar um pouco de Hélio Marcus. Ou melhor, Hélio Marcus de Oliveira Santos. Um lobinho recém-admitido amava com todas as forças sua matilha amarela, e um tagarela tanto na escola com os amigos, na alcateia e em casa com os pais. Hélio tinha nove anos. Fazia mais de um que entrara para os lobinhos. Sorria pouco, mas como falava. Era um entusiasta e sempre era o primeiro a chegar e o ultimo a sair. Um dia durante um jogo do Kim (onde se colocavam na mesa diversos objetos, os lobinhos observavam por minutos e tinha de lembrar pelo menos da metade). Ele se lembrou de todos os vinte e quatro objetos. Todos. Ficaram perplexos. Como perguntou a Akelá. Ninguém soube responder. Nem o próprio Hélio.

          Em setembro fizeram um acampamento, próximo onde hoje é cidade de Contagem, que faz parte da grande Belo Horizonte. Era um sítio de outro amigo e chefe do grupo. Era também um alto dirigente do escotismo mineiro, um grande escoteiro chamado Francisco Floriano de Paula. Mestre, Reitor e doutor, fez do escotismo mineiro um grande marco na historia da União dos Escoteiros do Brasil. Foi um dos que colaborou na formação da UEB na época dividida em varias federações. Escreveu grandes obras, mas destacamos o Para ser Escoteiro. Uma marco introdutório para os jovens escoteiros iniciantes.

        O acampamento teve a duração de quatro dias. Os lobinhos ficaram acantonados na casa sede. Os escoteiros a uns 500 metros, próximo a uma pequena mata e um riacho de águas claras e límpidas e que hoje é conhecido por Rio Arruda. Nada a ver com o hoje com o de ontem. À noite fizeram um grande jogo noturno. Duas turmas, cada uma com duas patrulhas. Uma turma ficava na defesa e outra no ataque. (eram 24 escoteiros). Os atacantes tinham de se camuflar de maneira tal que pudessem passar sem ser percebidos em uma área de 100 metros, por uma passagem de mais ou menos 30 metros. Os defensores estavam armados com bolinhas de barro mole e se acertassem os atacantes estes eram considerados mortos. 

        Caio tirou toda roupa, ficou só com um calção preto. Pintou-se todo de negro. Rastejando, como uma cobra, passou fácil pelos defensores que guardavam a passagem. Ninguém o viu. Foi o único que conseguiu. Os demais foram todos descobertos e mortos. No dia seguinte, ele não conseguiu tirar a pintura do rosto quando da inspeção e ficou marcado no acampamento como “cara guaxinim”. À noite, após o fogo do conselho, o chefe Clairmont convidou todos para deitarem na relva e observarem a movimentação das estrelas e constelações. Um espetáculo inesquecível. O chefe Clairmont mostrava onde ficava cada uma das constelações e como deveria ser observada nos meses subsequentes. Isto facilitaria muito numa provável tomada de rumo, quase que perfeita se um dia viessem a se perder. Estava tão entretido na explanação do chefe que nem notou ao seu lado o Escoteiro Gerson Satuf. Cochilava parecendo estar com um sono enorme. Eram mais de onze da noite.

         Isto me foi contado pelo chefe Clairmot, quando nos encontramos seis meses após o desastre. Foi na Praça Raul Soares em um encontro regional de professores do Estado. Não tínhamos uma grande amizade e nem sei por que o assunto veio à baila. Mas o desastre foi de proporção nacional e todos inclusive eu gostaria de saber de detalhes. Muito me foi narrado. Até mesmo a promoção de Caio a monitor. Ele não esperava. Era novo na patrulha e quem sabe por ser o mais alto e mais velho (já estava com 14 anos), foi escolhido. Naquela época BP comentava em seu livro Escotismo para Rapazes que os mais velhos sempre são mais respeitados pelos mais novos.

        No mês de novembro de 1938, a Comissão Executiva do Grupo Escoteiro Afonso Arinos, programou uma excursão técnica-cultural até São Paulo. Nem todos participaram. Somente seis lobinhos, doze escoteiros, três pioneiros, o chefe Clairmont o chefe Rubens e mais dois da Comissão Executiva. Uma delegação de vinte e cinco membros. Caio convenceu seus pais a ir. Era um só sorriso e sua mente vibrava em conhecer São Paulo. Caio sonhava com a viagem. Passou noites e noites pensando como seria São Paulo, já considerada a maior cidade brasileira. Embarcaram à tarde na estação de Minas, um imponente prédio em estilo neoclássico. O primeiro relógio público de Belo Horizonte ali foi instalado no alto da torre da estação. Em frente está uma bela praça, a Rui Barbosa, onde se encontra o “Monumento da Terra Mineira” uma linda estátua de bronze que representa a conquista do território mineiro pelos entradistas e bandeirantes e os mártires mineiros.

        Quem um dia for visitar este imponente local, não deve deixar de ver os dois leões, que foram encomendados ao artista belga Foline. É um belíssimo trabalho esculpido em mármore. Durante o embarque aquela alegria contagiante que todos os escoteiros têm. Muitas canções, muitos “Anrê”, muitos gritos de patrulha. Alguém já me disse que são “coisas” de escoteiros esta cantoria quando viajam. Conseguiram um vagão especial de primeira classe, que ficava no meio da composição de onze vagões no seu total. Na partida, uma grande palma escoteira ecoou quando o Condutor, o velho Gabriel, com seus bigodes imensos, seu uniforme impecável, e seu boné bem colocado na cabeça, começou o seu périplo em todos os vagões. Uma rotina de anos, seu inconfundível apito para anunciar a partida do trem, e agora ali depois de percorrer os vagões da frente pedia educadamente – Bilhetes! Bilhetes! E todos estavam sorridentes, com ele a mão para ver como ele picotava e perfurava numa manobra de deixar todos os passageiros embasbacados.

       A viagem era longa. Era uma volta enorme. Iriam até Volta Redonda e lá pegariam o rumo de São Paulo. Volta Redonda era uma bifurcação. Em frente à estrada de ferro seguia para o Rio de Janeiro. Retornando São Paulo. Quase 20 horas em um trem sacolejante, mas que seria motivo de alegria e felicidade se tudo corresse conforme os planos. Caio dormitava em uma poltrona e sempre acordava olhando pela janela a fumaça e ouvindo o matraquear das rodas que seguia o trem apitando aqui e ali ia cortando montanhas. Quando me contaram de Caio, seus olhos abrindo e fechando de sono, naquela viagem que seria sua última, penso como seria bom estar junto a ele. A Maria Fumaça sempre foi um dos meus amores quando jovem. Margeando um rio, com seus apitos estridentes, uma parada em uma pequena estação, alguns saltam outros sobem. O cheiro do trem ninguém esquece. As fagulhas lançadas no ar, as paradas nas caixas d’água para matar a sede da locomotiva. E os guarda-pós? Usei muitos. Não sei por que, todos brancos.

     Muitas vezes alguns funcionários da ferrovia passam despercebidos. Se pudessem observar a estratégia do manobreiro, da simplicidade do guarda-chaves alterando o percurso do trem, da destreza do maquinista, do esforço do foguista alimentando a fornalha sempre faminta, do trabalho do pessoal da soca, a fazer os reparos necessários e o do fiscal de linha garantindo a segurança da viagem. E ali naquele vagão de primeira classe, dormia vinte e cinco escoteiros. Vinte e cinco almas cujos destinos estavam traçados. O relógio não parava. Onze da noite, meia noite, uma hora. Clairmont fez sua ultima inspeção no vagão. Todos os escoteiros e lobinhos dormiam a sono solto. O destino estava escrito. E como disse alguém, do destino ninguém foge. Não poderia ser mudado. Nada em tempo algum poderia fazer com que a história fosse outra. Em sentido contrário, descendo a serra da Mantiqueira, u cargueiro seguia a todo vapor como a desconhecer o que iria encontrar a sua frente. Não se sabe até hoje porque o chefe da estação João Aires não parou o trem, ou se esqueceu do noturno, que sofregamente começava a subir a serra.

       Qual seria o sonho de Gerson Issa Satuf? Ou de Hélio Marcos de Oliveira Santos? Ou do próprio Caio Vianna Martins? Difícil saber. Poderiam estar sonhando com seus irmãos, seus pais, ou mesmo sendo preparados lá no alto por anjos protetores do desastre que iria acontecer em seguida. Em uma curva Jonas o maquinista do noturno, que era conhecido como o Coruja, pois nunca dormia a noite, viu o cargueiro que se aproximava em sentido contrário a toda velocidade. Mario Duarte também viu o noturno, Mario era o maquinista do cargueiro. Mais de vinte anos fazendo aquele caminho. Nada poderia impedir o desastre. Nada. A velocidade do cargueiro era grande e ambos os maquinistas sabiam o que ia acontecer. Os freios rangeram, os apitos soaram e a batida veio forte. Estrondos se fizeram ouvir. Vagões foram expulsos da linha, jogados em uma ribanceira. Eram duas horas e cinco minutos da madrugada. Uma madrugada que entrou para a história. Um engavetamento monstro se formou. Alguns vagões ficaram irreconhecíveis. 19 de dezembro. A cinco dias do natal. Ano de 1938.

           O carro dos escoteiros saltou dos trilhos e atravessou para a direita. Outro carro colidiu com ele engavetando e o partindo ao meio. O vagão prensado deitou-se em um barranco sendo comprimido por muitos outros. Gritos. Pedidos de socorro, tudo escuro, não se via nada. Noite sem lua. O chefe Clairmont e o chefe Rubens acordaram e sentiram tudo. Estavam apenas com alguns arranhões. Atônitos viram o desespero dos passageiros. Gritos de socorro, gemidos, o barulho da colisão agora se fazia em menor escala. Clairmont e Rubens se puseram na ativa. Ali começou seu trabalho de escotistas na hora do perigo. Os chefes Escoteiros sabem que um dia terão de agir e esta hora chegou para Clairmont e Rubens. A seu modo eles também foram heróis. Poucos se lembram deles. Seus nomes foram esquecidos. Reuniram todos os jovens em um ponto da estrada. Deram falta de Hélio Marcos e Gérson Issa Satuf. Procuraram e os encontraram mortos embaixo de escombros.

          Impossível descrever tudo nos seus detalhes mais íntimos. Era uma carnificina. Feridos gritavam e a escuridão não ajudava na localização. As duas patrulhas e os pioneiros fizeram uma grande fogueira. Usaram madeiras destroçadas dos vagões. A única luz que ali poderia ajudar naquela hora fatídica. O pânico reinava.  Clairmont e Rubens batalhavam. Com os pioneiros e escoteiros que nada sofreram socorriam os feridos, fizeram macas para os casos mais graves e o resgate prosseguia, mas agora mais devagar. Caio cambaleante ajudava em tipoias, estancando sangue de feridos, e até ajudou na remoção de cinco até o um vagão dormitório que permaneceu intacto e serviu de pronto socorro. Caio havia recebido uma forte pancada na região lombar. Quase não comentava a dor intensa que sentia. Só às sete da manhã chegou o socorro com médicos e enfermeiros da cidade de Barbacena.

         Fora uma madrugada terrível. Os passageiros que nada sofreram trabalharam incansavelmente. Clairmont e Rubens estavam esgotados. Não pararam um só instante. Dois heróis. Dois homens que tinham a carisma dos grandes heróis anônimos que surgem e nunca são lembrados. Quando a maioria dos feridos tinha sido removida, viram Caio claudicando, sentindo dores terríveis. Tentaram levá-lo. Ele não aceitou. Disse e apontava para as vitimas que pareciam em estado mais grave e dizia, há muitos feridos. Eu não estou tão ferido como eles. Recusou a maca.

       A história como disse é cheia de fatos heroicos. Eles surgem assim do nada. Caio Vianna Martins é um deles. Nunca pensou que ficaria como o grande herói do escotismo nacional. Não disse suas belas palavras por dizer. Saiu naturalmente. Viram que ele estava cambaleante, e seus olhos piscavam. Seus lábios tremiam uma golfada de sangue saiu de sua boca e mesmo assim não deixou em tempo algum que o carregassem. Disse para todos o que ficaria como a mais bela frase já dita por uma legião de heróis – “Há muitos feridos aí. Deixe-me que irei só. Ajudem os outros, eu sou um Escoteiro e o Escoteiro caminha com suas próprias pernas”!

         Saiu caminhando e desfaleceu quando chegou à cidade de Barbacena. Morreu horas mais tarde em consequência dos rompimentos das vísceras e de uma intensa hemorragia interna. Poucos o ouviram pronunciar essas palavras. Alguns escoteiros e alguns enfermeiros. Elas foram comunicadas a nação e ao mundo graças a dois homens públicos que lá estavam na hora. Eles foram testemunhas da história. Alcides Lins e Otacílio Negrão de Lima. Este último ficou conhecido como um grande político mineiro. Eles ficaram impressionados com o que viram. Não só pelas palavras de Caio como a ação dos escoteiros na ajuda aos feridos. Levaram aos jornais o que tinham assistido. O mundo inteiro ficou sabendo que o Brasil também forja homens e jovens com a desenvoltura de Caio Vianna Martins e seus amigos escoteiros. As manchetes dos jornais e rádios correram por toda a parte. Reconheciam no gesto de Caio Martins um fato marcante na mente dos jovens que fazem parte desta nossa bela fraternidade. Caio foi escolhido e eleito como o símbolo Escoteiro no Brasil.

            Seu nome ficou gravado na história. Praças, monumentos, e até um estádio de futebol tem seu nome. Estádio Caio Martins. Sua fama faz parte do nosso orgulho Escoteiro. Ficamos ali sentados na praça eu o chefe Clairmont por horas. Vi em seus olhos lagrimas furtiva, que correram em sua face quando me narrou toda a epopeia. Completou dizendo que Caio Vianna Martins, Gerson Issa Satuf e Hélio Marcos de Oliveira Santos, foram sepultados em uma tarde de dezembro, véspera de natal, no cemitério Bom Fim, na zona norte de Belo Horizonte.   
     
           Hoje seu Grupo no Colégio Afonso Arinos não existe mais. Mas ali um placa de bronze é vista por todos do herói e seus amigos
Escoteiros pelos alunos que por anos e anos cursaram suas salas. Esta é uma historia contada aqui e ali em pedaços imaginários e reais. Caio e seu gesto foram uma realidade. Ninguém pode duvidar. Escoteiros pelos alunos que por anos e anos cursaram suas salas. Esta é uma historia contada aqui e ali em pedaços imaginários e reais. Caio e seu gesto foram uma realidade. Ninguém pode duvidar. Suas palavras nunca serão esquecidas e servirão sempre como uma diretriz para todos nós escoteiros. O Escoteiro é alegre e sorri nas suas dificuldades.

                      Em memória a Caio Vianna Martins, Gerson Issa Satuf e Hélio Marcos de Oliveira Santos, saudemos no panteão da glória e dos heróis nacionais com o nosso:
SEMPRE ALERTA! E tiramos o chapéu com o Grito de guerra da União dos escoteiros do Brasil – Anrê – Anrê – Anrê! – Pró Brasil? Maracatu! 

“Há muitos feridos aí. Deixe-me que irei só. Ajudem os outros, Eu sou um Escoteiro e o Escoteiro caminha com suas próprias pernas”!

Estoicismo
(Noticia publicada em jornais em todo Brasil)

Passou provavelmente despercebida, nas notícias pormenorizadas sobre a última catástrofe da Central, a serena coragem daquele pequeno Escoteiro, uma criança de quinze anos, que estando gravemente ferida, os que o queriam levar em maca para o hospital, dizendo com um sorriso de homem forte: "Um Escoteiro caminha com suas próprias pernas". E caminhou. E foi, mas foi para morrer, poucas horas depois, no leito em que o colocaram para uma tentativa de salvação. Este menino de quinze anos honrou o nome e deu um exemplo a todos os Escoteiros do País. E mostrou a muita gente grande que um Escoteiro sabe sorrir para morte que o acompanha de perto.
Se um dia for erguido qualquer monumento ao "Escoteiro Desconhecido", a lembrança do estoicismo desta criança resumirá a bravura de uma geração de Escoteiros do Brasil.
                                                                                                   
                 Descrição: Grupo Escoteiro Tabapuan


Nota do autor
Em julho de 1973, na cidade de Matozinhos, comemorando o cinquentenário de nascimento de Caio Vianna Martins, fizemos a entrega da medalha de Valor ouro, post-mortem a Caio Viana Martins através de seu irmão ali presente. Foi uma cerimônia simples, com altas autoridades executivas, educacionais e políticas. Presentes mais de 600 escoteiros mineiros e uns poucos convidados de outros estados que ali fizeram o primeiro acampamento da fraternidade. Abaixo uma foto da solenidade.


Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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