sexta-feira, 19 de junho de 2015

Nas terras bravias do Lago Dourado.


Lendas escoteiras.
Nas terras bravias do Lago Dourado.

          Foi uma noite calma. As estrelas não cintilavam no céu como no dia anterior. Algumas nuvens brancas as cobriam como se fossem um manto protetor. A lua se fora há tempos. Ralph Lando achou que ia chover. Não choveu. Seus olhos estavam fechados. Dormitava pela madrugada fria. Um pequeno tronco serviu como travesseiro. Coisas de um escoteiro mateiro acostumado. Um pequeno fogo quase apagado. Ao lado agora sós brasas com pequenas fagulhas que se inibiam e ao subir aos céus lhe davam um pouquinho de calor. Pela aba do seu chapéu de três bicos podia ver a escuridão da noite. Gostava dela. À noite. Era sua amiga de muitas e muitas jornadas.

       Não ansiava pela madrugada. Que ela chegasse de mansinho. Onde estava era um arbusto e quem sabe seria um pequeno arvoredo que encontrou perdido naquele vale dos Muricuchás onde dormia. Serviu-lhe de manto para a noite gostosa daquele inverno que não fora tão rigoroso como os anteriores. Sua mochila ao lado era companheira de anos e anos de caminhada. Sempre fora. Dentro dela com carinho estava suas “bugigangas” de mais uma jornada. Seu bornal pendurado no galho guardava a “matutagem” caso tivesse fome. Abriu um olho devagar. Avistou uma cigarra azul que cantava baixinho seus cantos noturnos. Ele gostava das cigarras. Fazem-se de pródigas e só aparecem uma vez ao ano. E como são lindas. Ele as amava!

         Sentiu uma brisa leve no rosto. Ela soprava gostosamente. Refrescante, afagante. A brisa anda sempre perdida por aí. Nas montanhas, nos vales nos rios caudalosos ou no pequeno riacho de aguas turvas. Considerava como sua amiga de anos de jornada. Dizia que ela nunca se esquece da gente. Os anos passam e lá está ela.  A madrugada não iria demorar. Grilos falantes pareciam fantasminhas na escuridão noturna. Melhor tentar dormir mais um pouco, pensou. Fora um dia e tanto. Uma grande jornada de um Escoteiro sonhador. Um vagalume pousou no seu ombro. Sorriu para ele. Enroscou na Manta Negra que um dia há muitos e muitos anos seu Vô lhe deu com carinho. Não sentia frio. O corpo jovem já curtido estava pronto para aventurar nas jornadas da vida.

         Um pequeno lusco fusco. Sinal que ela a madrugada ia chegar. Ele gostava das madrugadas. Eram lindas. Não importava se com sol ou com chuva. Adorava as madrugadas nos campos perdidos e nas florestas verdes do Brasil. O cheiro da relva, das flores silvestres, o cheiro da selva das águas “calientes” do riacho que cantava sem parar trazia no ar a paz que ele tanto gostava. O cheiro da terra. Ah! Gostoso, maravilhoso! Ele teve madrugadas que marcaram. Com brumas a cobrir os campos verdejantes, com brumas sobre os lagos azuis cinzentos e vermelhos com o sol cobrindo-as. As brumas... Ele adorava. São lindas, querendo fechar seus olhos. Não querem que você veja ninguém só elas. Mas choram. Choram porque o sol irá chegar e elas terão que ir para longe, aonde ele o “Senhor Sol” ainda não chegou.

          Lá no horizonte um pequeno brilho. Pequeno mesmo. O sol. Era assim que ele chegava. Anunciava com a aurora sem fazer alarde. Era o rei. Não era um astro qualquer. Não aparecia assim do nada. Anunciava que se preparassem todos. Uma pequena claridade, um pequeno vermelho desbotado, raios brancos tingidos de amarelo ouro e eis que ele aparece. A montanha o reverencia, a lua se escondeu e as estrelas se apagaram. O dia nasceu. Ele estava acordado. Uma hora sagrada. Sempre gostava de ver o nascer do dia. É como se fosse uma criança chegando ao mundo. As brumas cinzentas lhe disseram adeus. O orvalho se escondeu. A última gota d’água caiu de uma folha adormecida. A brisa insistente continuava lá a lhe acariciar o rosto. Não se afastava. Uma amiga de épocas e épocas passadas.

          Hora de partir. Não disse adeus para todos eles que o acompanharam a noite e no lusco fusco da manhã. Não precisava. Eles sabiam que não era mais que um até logo, não era mais que um breve adeus. Ele voltaria. O Escoteiro de primeira classe não para. Em sonhos ou pisantes nos seus pés hoje descansados. Ajeitou seu lenço, arrumou seu meião. Calçou seu velho coturno de guerra. Mochila as costas, pendurou seu bornal no ombro. “ficou” seu chapéu Escoteiro, pegou seu bastão de anos e anos e agradeceu o arbusto que lhe serviu de lar e partiu. Seu rumo? O mesmo de sempre. A busca da aventura onde o vento quisesse o levar. Sabia que em algum lugar iria encontrar o Lago Dourado. Diziam que não tinha peixes. Que uma bruma cinza o cobria por todo o tempo. Isto ele iria ver quando chegasse.


            O sol a pino. Gostava disto. Os primeiros pingos do suor lhe caem e somem na estrada de terra batida. Ela é sua amiga que sempre o levou a rumos impossíveis. Seu chapéu de abas largas o protege. O bastão ajuda a andar e achar o caminho. Uma montanha verde, cheia de árvores lindas e floridas ele avista ao longe. Deve estar perto a sua busca incessante. Quem sabe na virada da curva da Raposa que Chora ele encontraria o Lago Dourado. Ele acorda. Era a repetição de um sonho. Nunca deixou de sonhar com o lago Dourado. Sabia que um dia iria encontrar. Sorriu se levanta, mais um dia que chegou a sua vida. Na janela o sol. Não há brumas. Até o lusco fusco da manhã já tinha ido. A brisa está ali de leve de mansinho nunca deixou de lhe acariciar o rosto. Ela  brisa vai embora como sempre partiu com o sol quente da manhã. Ralph esperava a noite chegar novamente. Quando dormir vai sonhar com seu lago encantado. Sonhos se tornam realidade ele sabia. Sabe que nunca ia desistir dos seus sonhos. Faziam parte dele. A cada dia ele dizia: - Não desista escoteiro. Diga sempre – “Eu voltarei”. Quem sabe um dia poderá dizer que encontrou o seu querido Lago Dourado? 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Libachy, o lobo Vermelho do Vale da Coruja.


Lendas escoteiras.
Libachy, o lobo Vermelho do Vale da Coruja.

Prefácio:
Uivando alto no topo de uma montanha, provocando arrepios na espinha, Uma sentinela Solitária Chamando a outros de sua espécie. O último de uma raça em extinção. Seu crime - a necessidade de comer. Seu companheiro tem uma esperança, Para o pai que vai levar um pouco de carne para casa; Os pecuaristas dizem que ele é uma ameaça. Para os pequenos de seu rebanho dizem que caçá-lo é a sua extinção É sem sentido e absurdo. A forma tem de ser encontrada para Criaturas de Deus coexistir para trazer harmonia e justiça Para Lobos, nas florestas e nas montanhas. Portanto, antes de condená-lo ou matá-lo - ainda pior. Lembre-se do lobo, como índios que habitavam esta terra em primeiro lugar. Charles W. Russell

                      Ele sentou sob suas duas patas, pois estava cansado demais. Suas orelhas levantaram. A respiração ofegante terminara e agora seu sentido de observação estava em ação. Libachy o Lobo Vermelho passou todo o dia correndo no vale da Coruja para encontrar alguma caça. Quase se afogou na Vertente do Rio Pucumé. Com muito custo conseguiu pegar sua presa. Um quati raquítico e magro e ele quase desistiu. Ele sabia que seu pai Inûnpiac precisava comer. Dois dias sem nada no estomago. Libachy sabia que dia menos dia ele iria partir para a Estrela dos ventos Amigos, onde diziam os lobos vivem felizes para sempre. Agora precisava tomar uma decisão. Nascera há muitos anos ali na Caverna do Morcego e toda a sua vida ele viveu no Vale da Coruja. Sua história poderia já ter terminado. Ele era o último da estirpe dos Lobos Vermelhos. Antes eram centenas deles. Lembrava ainda quando nasceu. Sua Alcateia era forte, respeitada entre os demais lobos do Vale da Coruja.

                 Libachy olhava espantado para sua trilha que estava toda tomada por jovenzinhos humanos, com chapéus esquisitos e montando barracas por onde ele iria  passar. Ele lembrava que a muitas luas outros haviam tentado atravessar o vale e desistiu. Pensou que nunca mais voltariam e ali estavam de volta. Nunca fez mal a eles. Libachy era um lobo amigo e não desejava mal a ninguém. Diferente de Sangue nos Olhos, a Onça Negra de mais de três metros e que também era a única a afugentar todos os bichos do Vale do Morcego. Ele sabia que ela era a única culpada por todos os seus infortúnios. A muitas luas todos viviam felizes e até mesmo Sangue nos Olhos não fazia mal a ninguém. Mas um dia resolveu ir para outras paragens e matou um bezerro recém-nascido. Foi à conta. Os fazendeiros em grupo foram à caça. Mataram quase todos de sua raça e de Sangue nos Olhos. Seu pai não conta, pois desde a lua nova dos tempos das chuvas mansas, que ficou aleijado não podendo mais andar. O Vale da Coruja não era mais o mesmo. Todos tinham medo de todos. O espirito andava sempre alerta para não ser morto por um tiro ou um animal mais forte e esfomeado.

                Libachy olhou de novo para a menininha que vinha em sua direção. Ele sabia que não ia lhe fazer nenhum mal, mas e ela? Iria gritar e ele tinha de fugir deixando sua caça para trás. – Viu “quando ela riu e disse – Olá lobinho, eu também já fui uma lobinha” – Libachy assustou. Ele entendia tudo que ela falava. Como? Nenhum humano jamais conversou com ele. Pensou em sair correndo, mas viu a paz nos olhos da menininha. – Eu preciso passar ele disse. Ela sorriu e replicou – Pode passar sim, ninguém vai proibir você. Como? Libachy criou coragem, pegou sua presa e correu como nunca. Chegou esbaforido na Caverna do Morcego onde estava seu pai. Pensou em não dizer nada para não assustar. Libachy aprendeu a dizer sempre a verdade – Seu pai o ouviu calado e no final disse – Um dia tudo vai terminar Libachy, enquanto os humanos não matarem Sangue nos Olhos e você, eles não ficaram felizes. Você está pagando por um crime que não cometeu.

                 Libachy não dormiu bem à noite. Um medo enorme dos caçadores. A menininha podia ter comentado com outros e eles não ficariam satisfeitos enquanto não exterminassem o último lobo vermelho e a última Onça Negra do Vale da Coruja. Mas ninguém veio. Pela manhã foi ver se já tinham ido embora. Eram muitos e divididos em turma. Em uma delas havia três menininhas e cinco menininhos. Educados, não gritavam, sorriam muito e cantavam canções que maravilhou Libachy. Seu medo agora era se Sangue nos Olhos não iria fazer mal a eles. Resolveu ficar ali e esperar. Se Sangue nos Olhos aparecesse ele os defenderia. Sabia que não podia enfrentar a Onça Negra, mas não iria deixar que ela fizesse mal aos meninos e meninas.

                   Sentiu que alguém acariciava sua pelagem ainda espessa.  Olhou e viu a menina de ontem. Olá meu amigo, ela disse. Sou Olhos Brilhantes, monitora da Patrulha Águia, e você tem nome? – Libachy falou de uma só vez. Vocês não devem ficar aqui. – Por quê? Se Sangue nos Olhos ficar com fome será um perigo para vocês! Ela ficou pensativa. – Olhe porque não vem à noite? Teremos fogo de Conselho e vou apresentar você à tropa. Assim poderá contar porque corremos perigo. Libachy aceitou o convite. Seu pai disse para ele tomar cuidado. Nunca confiou muito nos humanos. Ao descer a trilha da montanha avistou dois cavalos. Um perigo. Sempre eram caçadores. Pensou em voltar, mas seguiu em frente. Encontrou todos em volta de uma grande fogueira. Olhos Brilhantes a escoteirinha correu para ele dizendo - Bem vindo meu amigo! Fique ao meu lado, vou apresentar você. Foi bem recebido por uma palma escoteira.

                 Lá pelas tantas o convidaram para falar. Falou pouco. A menina Escoteira traduzia o que ele falava. Disse que era um dos últimos dos lobos vermelhos. Todos seus irmãos foram mortos por caçadores. Agora era difícil viver ali. Ele não podia ir muito longe à procura da caça, poderia levar um tiro. Contou sobre Sangue nos Olhos a Onça Negra da Caverna do Urso. Que ela era como ele, não tinha mais amigos, só vivia fugindo. Nisto ouviram um barulho – era Sangue nos Olhos, uma enorme onça negra. Entrou no circulo dos Escoteiros sem medo. Pediu a palavra – Os fazendeiros me condenaram. Um dia um bezerrinho fugiu da sua mãe e entrou na grota do quati, se perdeu e acabou morrendo lá no alto da cascata do Véu da Noiva. Eu estava com fome. Os abutres iriam comer o bezerro e porque não eu? Porque não podia aproveitar também? Mas me condenaram. Disseram que fui eu. Minha linhagem desapareceu. Todos que moravam junto comigo foram mortos por caçadores.

                Seu Normando um fazendeiro amigo dos Escoteiros que foi convidado para a cerimonia pediu a palavra. – Escoteiros e animais, ele disse – Não sabia disto. Achei que eram muitos. Eu mesmo matei muitos lobos e onças negras. Confesso que estou arrependido. O Vale da Coruja são terras minhas. A partir de hoje nenhum caçador vai entrar aqui. Todos os animais poderão viver em paz como sempre viveram. Uma estrondosa palma ecoou por todo o vale. Olhos Brilhantes a escoteirinha veio abraçar Libachy, abraçou também Sangue nos Olhos. A partir daquele instante ficaram irmãos de sangue. Como na história da Jângal fizeram um juramento que iria valer por toda a vida. Escoteiros, lobos e onças seriam felizes e irmãos para sempre.


                   Contaram-me que quatro anos depois já se avistava matilhas de lobos vermelhos a correr pelo vale. Muitas vezes acompanhados por grande quantidade de onças negras que vagam pelo vale e nunca mais ninguém soube de mortes ou mesmo de brigas entre eles. Dizem ainda que Sangue nos Olhos e Libachy sempre andam juntos e que se alguém atacar um tem de atacar os dois. O pai de Libachy senhor Inûnpiac morreu alguns anos depois. Morreu sorrindo, pois seu vale agora era só de paz e felicidade. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

O último voo do Falcão.


Lendas Escoteiras.
O último voo do Falcão.

                O horizonte desaparecia no infinito. Quem o visse ali com as asas entreabertas naqueles penhascos longínquos do Pico das Mil Vidas nunca imaginaria que um Falcão estava vivendo seu ultimos dias de grandes jornadas. Sua vida estava se esvaindo. No seu pensamento lembrou-se de um poema que seus ancestrais lhe ensinaram – “Combati o bom combate, completei a carreira e guardei a fé. Não espero o prêmio da vitória, pois mesmo tendo levado uma vida correta nunca me senti um vencedor”. Ele sabia que seu fim se aproximava. Estava ali há vários dias. As forças já não existiam mais. Diziam que ele era a ave mais rápida do mundo. Suas asas pontiagudas e finas o ajudavam na caça em espaços abertos. Quanto tempo se passou quando lá pelos lados do Vale dos Sonhos coloridos, ele e Abbat voavam pelos céus, quem sabe para se mostrarem belos, majestosos e admirados pelas outras aves que nunca poderiam fazer o que eles faziam.

                Abbat, onde andará ela? Ainda no ninho do Sol Nascente? Mas suas duas proles não estavam crescidos e tinham ido procurar viver suas vidas em outras plagas? Abbat, sua eterna companheira. Lembrava que todas as manhãs ele via a gazela acordar, ele sabia que ela precisava correr lépida para sobreviver às sanhas dos leões. Não importa se você é leão, gazela ou um falcão. Quando o sol nascer era hora dos voos em busca do vento, olhar o firmamento e pensar que precisava se alimentar para sobreviver. Viu do outro lado do Vale da Felicidade um Jaguar. Enorme. Parecia um gato manchado de preto e amarelo. Estava firme com seu olhar tentando saber como chegar até ele. Tudo mudou. De caçador agora era a caça.

                Sabia que mais cedo ou mais tarde o Jaguar das Terras Altas chegaria onde ele estava. Sabia também que não podia voar, não podia reagir, a morte seria o fim da vida? Sua mente voava pelos campos floridos. Nunca esqueceu Abaat. Quantas vezes ele voou para levar a sua companheira e sua prole a refeição do dia? Lembrou-se dos mundos coloridos que conheceu. Voou para todos os lugares e conhecia o caminho do sol, das estrelas, era um falcão valente e que agora estava no fim da vida. Olhou para baixo e viu no Vale da Esperança vários meninos e meninas de azuis e lenços rindo e brincando. Já os tinha visto antes. Todos iguais com uma espécie de coroa azul na cabeça que chamavam de boné de lobo e um lindo lenço amarrado no pescoço.

                Olhou novamente. O Jaguar havia desaparecido. Ele sabia seu destino. Ele sabia que o Jaguar o encontraria. Pensou em seu Deus. Ele também acreditava num ser supremo. Deus! Ó Deus! Onde estás que não responde? Em que mundo em que estrela tu te escondes? Ele pensava e ria. Ele morreria com honra. A morte estava enganada. Eu vou viver depois dela! Olhou para o vale novamente. Os meninos de azuis montaram barracas, corriam satisfeitos, saltitantes, cantantes como o regato que com suas águas mansas corria lentamente pelo Vale da Esperança. Olhou sua plumagem. Considerava-se belo. Suas patas amarelas se tornaram lendas para quem as enfrentou. Seus olhos negros com anel amarelo eram enormes. Podiam ver o infinito. Amava suas asas, enormes. Com elas correu mundo.

                Sentiu um toque em suas asas. Assustou-se. Tão rápido o Jaguar o encontrou? Fechou os olhos. Não podia reagir. Não tinha forças. O Valente Falcão Peregrino agora era uma sombra do passado. Morrerei com honra pensou. Sentiu o toque novamente. Olhou. Não era o Jaguar. Era uma menina. Linda de olhos azuis. Com seu lencinho verde e amarelo no pescoço ela sorria. Ele queria falar, sabia que não seria entendido. Mesmo assim ele crocitava, piava e a menina entendeu! Tirou do seu bornal um farnel que seria seu lanche do dia e deu para ele. Sabia que a Akelá iria compreender. O Falcão sorriu. Ele precisava. Estava fraco. Cinco dias sem comer e beber água. Comeu tudo! Sentiu suas forças voltarem. Agora estaria pronto para enfrentar o Jaguar. Um apito ecoou ao longe. A menina de olhos azuis se levantou e disse – Adeus meu amigo Falcão! Ele não entendeu.

              Em um esforço sobre humano ele deu três passos para frente e alçou voo.  Iria fazer o ultimo voo do Falcão no espaço para ela. Para a menina lobinha. Queria que ela soubesse do seu agradecimento. Ela lhe devolveu a vida. Alçou voo rumo ao infinito e voltou célere. Fez uma virada lateral como fazia no passado. Viu que ela batia palmas. Partiu rumo ao Vale do Sol Nascente. Um voo que nunca na vida ele tinha feito com aquela velocidade. A menina sorria lhe acenou com os bracinhos como a dizer adeus. Ele partiu. Sabia aonde ia. Seguiria o sol no seu caminho para o oeste. Precisava encontrar Abbat. Viu o Jaguar próximo da escarpa onde estava olhando para ele. Sorriu. Não foi desta vez meu amigo. Quem olhasse para o céu, veria um Grande Falcão Peregrino com suas asas enormes, voando junto ao sol e que aos poucos desaparecia no horizonte.


              Não sei se ele encontrou Abbat. Deve ter encontrado. Ele sabia que sua linhagem não iria desaparecer no tempo. Suas duas proles velejavam pelos céus a mostrar sua raça, a mostrar sua força e coragem. Em sua mente eu sei que ele dizia para si próprio: - “Às vezes eu falo com a vida, às vezes é ela quem diz – Qual a paz que eu não quero conservar para tentar ser feliz”? 

domingo, 14 de junho de 2015

A montanha dos amores perdidos.


Lendas Escoteiras.
A montanha dos amores perdidos.

                  Ele sentia uma dor profunda no coração. Doía demais. Estava enlouquecendo e ninguém podia ajudar. Sabia que se continuasse assim perderia tudo, seu emprego, sua família e seus amigos. Quem ousava aproximar ele gritava, dizia coisas absurdas, renegava a Deus, renegava ao diabo nada para ele servia. Pensou em morrer e até hoje não soube por que não acabou com sua vida. - Meu Deus! O que fizeste comigo? Eu merecia? Nunca fiz mal a ninguém, ajudei a quem precisava fiz tudo para dar apoio a ela no seu amor que ela sentia dentro de si. E você a levou? Com que direito? Nunca tive um amor como foi com ela, a transformei em minha princesa. A amei desde o primeiro dia em que a vi. Deixei amigos, deixei tudo para ficar sempre ao lado dela e você sem mais nem menos tira de mim a única coisa por que valia viver? Ele não se conformava, era uma faca cravada em seu coração que não saia. Sangrava, machucava, agora não chorava mais. Não adiantava. Para que chorar?

                   Ele a conheceu quando em domingo de sol a viu passando com uma turma de guris. Todos sorrindo e cantando. Quando ela olhou para ele com aqueles olhos de mares do sul de um azul profundo, ele viu que era a mulher dos seus sonhos. Seria ela sim que ele daria tudo para fazê-la feliz por toda a vida. Ficou ali estático até vê-la sumir na curva da Praça Real. Não se deu por vencido. Seguiu-a. Encontrou-a brincando com seus meninos de azul da cor de seus olhos. O que ela tinha que as  outras não tinham? Ele não sabia. Sabia sim que o amor explodiu dentro de si e que uma paixão avassaladora tomou conta de todo seu ser. Pensou em entrar naquele pátio e se declarar, mas sabia que  faria papel de bobo. Viu que eram Escoteiros. Ele nunca foi e nunca teve vontade de ser. Esperou pacientemente tudo terminar e ela sair. Não ia perder aquela oportunidade. Quando ela abriu a porta do carro ele chegou e se apresentou. Ela nada disse, sorriu e disse baixinho: - Sou a Clarisse Escoteira.

                  Entrou no carro e partiu. Ele estava a pé, não deu para ter seu telefone e nem saber aonde ia ou onde morava. Esperou com angustia enorme toda a semana passar e a tarde correu até a porta da sede onde se reuniam os Escoteiros. Lá estava ela, com os meninos de azuis a brincar, a cantar e eles a adoravam. Chamavam-na de Akelá. Desta vez ele sabia que não ia deixar a oportunidade passar. Entrou, foi até o circulo e olhando para ela que espantada não entendia o que ele queria, o ouviu dizer: - Clarisse,  eu estou apaixonado por você! Nunca a vi e quando a encontrei nunca mais quero perder você! Quer ser minha namorada? – Os lobos caíram na gargalhada. Uma palma esquisita ele ouviu. Ela sorria e que sorriso. – Moço, podemos conversar mais tarde? – Não moça eu quero sua resposta. Por ela sei se vou viver ou morrer. Clarisse espantada não sabia o que dizer. – Podemos tomar um café juntos quando a reunião terminar? Ela disse.

                 Foi assim que surgiu o maior amor do mundo. Ele a cortejava como um cavalheiro a moda antiga e ela passou a gostar dele também. Sentiu que ele seria sua voz, sua maneira de ser, sua estrela que ela tanto esperou. Casaram-se oito meses depois. Ele não era rico, mas trabalhou com afinco para fazer seu novo lar. Ela enfermeira em um grande hospital da cidade não tinha hora para chegar. Isto não o entristeceu. Fazia o almoço, o jantar, chegou a lavar roupa e passar. Ele jurou a sí mesmo que a faria feliz para sempre. Ela ficou grávida. – Um filho Nestor. Vamos ter um filho! Incrível! Ele ia ser pai! Ele pediu a ela que diminuísse suas atividades nos Escoteiros, mas ela sorria e dizia: - Não me peça isto meu amor, antes de você era tudo que amava. – Ela o convidou tantas vezes a entrar e ficar com ela na mesma Alcateia, mas ele nunca aceitou. Por quê? Ele mesmo não sabia.

                Foi em um sábado triste, chuvoso, que ela lhe disse que iria acampar. – Vem comigo! Você não precisa fazer nada! Ele agradeceu, mas não foi. Clarisse são quase nove meses  para nascer Nestor. Você não pode adiar? Não adiantou. Ela foi. Às duas da manhã foi avisado que ela sofreu um aborto abruto ao cair em uma vala para socorrer um lobinho. Ele gritou de medo. Correu para o hospital. Ela estava morta. Quando alguém morre, ele deixa tudo o que tem e o que poderia ter um dia. Morria ali tudo que ele lutou para ser o homem mais feliz do mundo. Agora sabia que nunca seria. Nestor foi salvo e ele o renegou. Sua vida daí por diante não tinha valor. Chorou quando ela foi colocada em um simples jazigo, chorou quando viu dezenas de meninos Escoteiros cantando dizendo que não era mais que um até logo. Chorou e os maldisse para sempre. Malditos, foram vocês que tiraram Clarisse de mim.

               O tempo passou. Um dia Nestor sorriu para ele. Era o sorriso dela. Ele tentou sorrir também e não conseguiu. Mas foi o primeiro sorriso de uma grande união. Aos poucos ele saia com Nestor, brincava na gangorra, corria com entre flores no jardim do parque para ver seu sorriso com as borboletas que ele espantava a voarem para os céus. Um ano, dois e quando Leonel com sete anos pediu para ser lobinho, seu mundo desabou. De novo? Não posso perder mais um. Não ele disse. Mas dormiu e sonhou com ela. Clarisse sorria para ele e viu ao seu lado Nestor com o uniforme de lobo. No sábado o levou até o grupo. Todos sabiam quem ele era. O trataram desconfiado que ele pudesse desabar e maldizer a todos os culpando pela morte de Clarisse. Ele sentou na escada da biblioteca e viu a alegria estampada em Nestor. Se ele era feliz porque ele também não poderia ser? Conversou com o chefão, entrou, e hoje passou a ter o escotismo em seu coração... Ao lado dela e de Nestor! Nunca esqueceu Clarisse. Hoje ele sabe que o escotismo lhe trouxe de volta seu grande amor e um novo amor a se juntar ao dela!


                        Ah! Poetas, como eles são perfeitos em descrever os grandes amores e as grandes decepções. Dizem eles que só há uma força capaz de tentar matar o amor: a morte – que nos separa das pessoas que amamos. Entretanto, há uma única força capaz de sobreviver à morte é o amor – porque o fato de nos separarmos de quem amamos não nos impede de continuar a amá-los. O amor sobrevive à morte porque continuamos amando a pessoa que morreu. E, no nosso amor, ela continua a viver para sempre. Que Deus nos ajude a honrarmos a sua memória.

sábado, 13 de junho de 2015

Lendas escoteiras. Judas... Da galileia.


Lendas escoteiras.
Judas... Da galileia.

                  Nunca me esqueci da Cidade de Galileia. Don Janvier me procurou; - Seu Vado eu estou precisando achar bons curtumes para me fornecer boas “vaquetas” você sabe, aqueles couros curtidos e preparados à mão. São para calçados finos de uma fábrica em Perúgia na Itália. Por ser calçados especiais precisam de bons couros. Como sócios podemos ganhar algum. Idéia na cabeça pé no caminho e lá fui eu parar no Curtume do Salgado em Tainhomim. Na época eu tinha uma vespa que mais quebrava que andava. Disseram-me que não era longe, uns duzentos e trinta quilômetros de estrada de chão batido. Isto se fosse pela serra da Bodoqueira. Quatro horas depois a pobre da vespa começou a pipocar. Vi uma estradinha pequena e uma placa – Galileia, seis quilômetros – A vespa aguentou firme até lá. Anoitecia. Cidadezinha deserta. Um guardinha me mostrou a pensão da Dona Inês. Melhor pernoitar. Amanhã consigo algum eletricista para ver o que tem a vespinha.

               Não vi a Dona Inês. Um garoto de uns quinze anos me atendeu. Um quartinho simples e disse-me que o jantar seria até às oito da noite. Banho no chuveiro do corredor, E fui jantar. Restaurante pequeno, oito ou dez mesas. Apenas eu de hospede na hora. Sentei e logo trouxeram uns paizinhos deliciosos. Depois uma sopa de cebola estupenda. Tinha mais e agradeci. Não como muito a noite. Eram quase oito da noite e depois do jantar pensei em dar um passeio na cidade. Bebericava uma cervejinha e uma senhora escura, gorda, cabelos presos por um lenço azul, muito simpática sentou-se ao meu lado. – Olá, sou a Inês. Seja bem vindo a minha humilde pensão! Gostei dela. – Já conhecias Galileia? – Não eu disse. – Aqui já foi uma bela cidade. Chegamos a ter mais de trinta mil habitantes. Hoje? – Nem oito mil e a cada dia mais e mais moradores se mudando.

                 - Fiquei ali ouvindo sua história sobre a cidade. – Olhe, ela disse – A mais de quarenta anos Galileia crescia a olhos vistos. Tínhamos quatro olarias, um enorme curtume e o Prefeito pretendia montar uma indústria têxtil e uma malharia. Foi nesta época que Judas da Galileia nasceu. A Parteira saiu correndo ao ver a marca de corda em seu pescoço. Seus pais arregalaram os olhos. Logo o povo todo da cidade sabia. O tabelião Juventino benzeu o menino, mas aceitou registrá-lo como Judas da Galileia. O porquê sua mãe escolheu este nome ninguém sabia. Judas cresceu se escondendo nas sombras da cidade. A meninada quando o via saia correndo atrás gritando Judas! Judas! Traidor de Jesus! – Quando ele fez dezesseis anos um dia na Rua do Caroço ele parou – Virou para a molecada, botou a língua para fora, dizem alguns que mais de meio metro e deu um urro tão grande que todos correram como corre o diabo da cruz. Deste dia em diante ele andava no meio da rua e ninguém aparecia nem para olhá-lo. As janelas fechavam a sua passagem.

                   Quando ele fez vinte anos queria ir embora da cidade. Não conseguia emprego. Uma tarde uma turma de escoteiros chegou à cidade de bicicleta. Eram uns doze aparentando quinze a dezessete anos. Armaram barracas no campinho do Zé das Coisas e atraíram atenção de boa parte da meninada. Judas da Galileia também foi lá. Um dos escoteiros o chamou para jantar. Não perguntaram da marca de seu pescoço, não perguntaram nada. O trataram muito bem. Foi à primeira vez em sua vida que Judas da Galileia foi bem tratado. Nem seus pais conversavam com ele. Judas da Galileia chorou muito quando eles foram embora. Foram dois dias os mais lindos que teve em sua vida. Deixaram com ele dois livros que disseram ser do fundador. Escotismo para Rapazes e o Guia do Chefe Escoteiro. Judas da Galileia ficou uma semana lendo os livros. Leu uma, duas, três e até quatro vezes.

                  Judas da Galileia queria ser Escoteiro. Sonhava ser Escoteiro. Na sua cidade seria difícil. Não tinha grupo e ninguém interessado em organizar um. Só havia uma solução. Ele mesmo fundar um. Mas como? – Dona Inês me cativava com sua narrativa. Uma emérita contadora de histórias. – Sabe Seu Vado, eu nunca me aproximei de Judas da Galileia. Eu tinha medo. Achava que ele podia ser o próprio Judas reencarnado. O traidor de Jesus. Mas ele me procurou um dia. Olhou-me com uns olhos tão chorosos que não pude dizer não. – Pediu se meu filho o Florindo podia participar. Chamei florindo e ele de cabeça baixa concordou. Outros pais ficaram sabendo. Ele conseguiu oito meninos. Andava com eles para todo lado. Marchando, fazendo acampamentos, fazendo nós, sinais, tinham umas bandeirolas que divertiam a todos na praça. As moçoilas adoravam os recados que iam e viam das bandeiras dos Escoteiros.

                 - O pior aconteceu em um domingo à tarde. Anselmo Três Dedos chegou à cidade com mais de vinte bandidos. Cercaram tudo. Prenderam o delegado, o prefeito, o juiz e mais oito ordenanças na cadeia local. Deram ordens para ninguém sair de casa. Se uma janela se abrisse eles entravam e matavam todo mundo. Medo geral. O gerente do Banco do Brasil foi obrigado a abrir a agência e o cofre. Foi nesta hora que Judas da Galileia adentrou a cidade cantando com seus oitos escoteiros vindo de um acampamento. Notou a movimentação dos bandidos. Mandou os escoteiros correrem para suas casas. Anselmo Três Dedos o viu parado em frente à fonte da praça. Gritou para ele correr. Ele não correu. Devagar com seu olhar mortífero dirigiu até a onde estava Anselmo Três Dedos. Colocou a mão em sua testa. Anselmo gritou. Um grito horrível. Mesmo assim puxou o gatilho do seu quarenta e cinco. Seis tiros. Judas da Galileia continuou imóvel. Anselmo Três dedos caiu morto. Parecia que um raio o matou. Estava queimado feito carvão.

                        Coloquei os braços na mesa. Olhava sem tirar os olhos de Dona Inês. – Ela continua séria, contando sua história infernal. – Os bandidos que assistiram aquilo saíram correndo da cidade. Não ficou ninguém. Judas da Galileia foi devagar até a praça e sentou ali, naquele banco amarelo. – Olhei pela janela e vi o banco – Todos os políticos vieram abraçar Judas da Galileia. Mas ele estava sentado, calado, de olhos abertos e morto. Não havia mancha de sangue nos buracos das balas. Só na marca da corda de seu pescoço escorria sangue. Ninguém mexeu no corpo. No dia seguinte o corpo desapareceu. Ninguém nunca mais soube dele. – Parecia que uma praga caiu sobre a cidade. A cada mês, a cada ano famílias e famílias iam embora. Hoje a cidade morreu. Aqui não se vê alegria, ninguém brinca ninguém canta. Dizem e eu posso afirmar que a noite sempre está lá no banco amarelo da praça. Fica lá horas sem se mexer. De vez em quando parece que ele canta o Rataplã com voz rouca.


                 Ela se calou. Olhei para a praça. No banco amarelo vi um vulto. De uniforme caqui e chapéu de três bicos. Assustei-me. Sai correndo em direção à praça. Precisava ver de perto. No banco não tinha ninguém. Voltei e ouvi baixinho alguém cantando o Rataplã! Voltei-me e nada. Dormi pensando em tudo aquilo. No dia seguinte Joel Boca Torta arrumou minha vespa. Parti sem dar adeus a ninguém em Galileia. Nem a Dona Inês. Perguntei por ela ao menino porteiro. – Minha mãe morreu há vinte anos ele disse. Aqui só minha Vó e minha Tia. Falar mais o que? Ainda bem que fiz bons negócios em Tainhomim. Nunca mais voltei em Galileia. Outro dia procurei no mapa. Nada. Olhei no Google, nada. Mas acreditem, havia um Judas da Galileia. Lá constava que era Escoteiro e morava no céu. Foi perdoado e agora faz parte da tropa do além. Deus me livre. Que ele seja feliz e não venha à noite cantar para mim o Rataplã!  

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Meus livros escoteiros


Uma noite de autógrafos.
Risos. Fico aqui vendo, lendo aplaudindo e pensando. São tantos que tem a primazia de ter uma noite de autógrafos, do seu livro editado, vendido ou doado. São novos escritores, novos pensadores e até mesmo aqueles que se tornaram conhecidos com seu livro da vida. Faço a ideia de sua alegria, de ver que agora muitos podem levar para casa seu livro, seu amor de criação, sendo olhado e emprestado para quem quiser ler. Bom demais isto. Quem sabe um dia terei isto também? Tantos livros Escoteiros eu fiz, tantas opções de fazer um escotismo gostoso e aventureiro escrevi. Mas acho difícil um dia ter o meu. Quem dá mais? Um prú Manoel, outro para o Joel! Ops! Não quero vender, vai ser de graça, basta gostar e estarei pago. Pois é afinal dólar não tenho, conhecimentos com este pessoal de editora também não. Muitos amigos já me deram tantas ideias que cansei de tentar e não conseguir. Acho que esta estrada livreira não é para mim. Impossível caminhar com minhas próprias pernas. Mas mesmo assim obrigado aos que acharam que seria fácil e deram enorme contribuição com “ideias”. Enquanto isto grito aqui e ali, que estão disponíveis de graça em PDF. Quem quer ler? Afinal feijão não é arroz e quem quiser que conte “2”! Risos. É só pedir! (três de cada vez, por favor!)
Se quiser peça também minha biografia dos livros que escrevi e condensados.

ferrazosvaldo@bol.com.br

domingo, 7 de junho de 2015

E um Príncipe Inglês foi Escoteiro por um dia.


Lendas Escoteiras.
E um Príncipe Inglês foi Escoteiro por um dia.

                        Ninguém piscava. A lobada abobalhada. A escoteirada sem saber o que dizer. Afinal nunca tinham visto um príncipe e ali estava um em carne e osso. Osso? Bem o menino era osso só. Magro, raquítico e de olhos azuis. Para uma meninada abaianada com cabelos negros e lábios grossos aquele menino parecia um anjo caído do céu. Kelámariana não sabia o que dizer. Chefe Lontra caladão. Esperavam o Chefe Corvo que na sede conversava com Manfred, o mordomo do rei. O menino de olhos azuis sorria e não dizia nada. Dizer o que? Em “Ingreis”?  Se ele soubesse alguma coisa de baianes  ainda vá lá. Finalmente o Chefe Corvo apareceu, formou uma grande ferradura e explicou: - Lord Tim é filho do Príncipe Leonard de Cavalliere e mora no Palácio de Drottningholm uma residência particular da Família Real Sueca,  disse o Chefe Corvo. Saltimbanco nosso Monitor olhou para mim. Vai ficar em Lua Prateada por alguns meses. Os médicos dele disseram que aqui tem o melhor clima do mundo e ele pode sarar logo de uma doença rara que tem!

                        O menino parecia seda. Branquelo, mas o que todo mundo olhava eram seus olhos azuis. Eram enormes coisa do outro mundo todos pensavam. Ali onde moravam não tinha ninguém de olho azul. Saltimbanco me cutucou: - É coisa de Reis Juventino. Só eles têm olhos azuis. Todo mundo queria saber qual patrulha ele iria ficar. Escolheram a Tigre. Bem lá só tinha grandões e até fiquei com pena dele. Iria ser chacoalhado toda vez que chorasse ou pedisse mamãe! – Chefe Corvo continuou -  Este é Manfred, seu mordomo e conselheiro do príncipe. Ele vai ficar aqui para olhar e ver se o príncipe precisa de alguma coisa. - Olhei para Saltimbanco. Ele sorriu. - Mordomo? Coisa de lorde rico eu disse rindo baixinho. Chefe Lontra tentava continuar a reunião. Ninguém prestava atenção nele e nem na patrulha. Todos esperavam ver o Príncipe Lord Tim cair no chão e quebrar como porcelana. Ainda não entendiam que ele era de carne e osso. – Será que ele vai ao acampamento em Cachoeira da Ema? – Sei não disse. Eles nunca iam deixar o príncipe ir lá.

                No primeiro dia nada aconteceu. A lobada de olho e a escoteirada torcendo para o ver cair no chão. Bizonte da Patrulha Morcego deu nele um tranco no jogo do Palhaço Mamão. Ele deu um salto no ar e caiu em pé. “Impossível” pensei. Não vi nenhum osso quebrar! Um dia ele caiu do pé de abacate. Mais de seis metros e caiu em pé. Claro que foi Bizonte o culpado. Deu para ele uma corda estragada e podre. Paciência, não dizem que só se aprende a fazer fazendo? Aos poucos a escoteirada foi se acostumando com Lord Tim. Magro sim, osso puro sim mas era duro de roer. Que o Diga Micoestripa. No jogo da briga de galo Micoestripa ria a valer. Vou mandar este Lord Ingrêis prus estrageiros e ele nunca mais vai voltar aqui. Ninguém esperava, mas o Lord saiu da asa esquerda dele e com sua direita bateu bem em cima da orelha de Micoestripa. Ele caiu de rodela no chão. E não é que o danado do Lorde o ajudou a levantar e deu a mão esquerda?

                   Bem a tropa agora já tinha certo respeito. Não gostava do Mordomo com seu cavanhaque chapéu de coco e com cara de defunto. Risos. Branco, vestido com um esquisito paletó, uma gravatinha borboleta no pescoço e sapatos extramente bem engraxados. Nunca correu para acudir Lord Tim. Para ser sincero um dia achei que ele tinha dado um sorriso no Quebra Canela que o Chefe deu. O bastão abaixado por Moroalto e Bigode bateu a toda na sua canela e ele deu um grito enorme de dor. Mas foi por pouco tempo, logo se refez e falou baixinho com o Chefe Lontra. Que será que ele falou? Chefe Lontra nada disse. Antes do encerramento deu a palavra ao Lorde. Ele nada falou. Começou a fazer gestos, imitou os japoneses que ficam abaixando e levantando a cabeça. Depois mostrou o aperto de mão Escoteiro. Depois deu a entender como ser cortes e leal. Não falou uma palavra, mas quer saber? Ele deu uma verdadeira aula à tropa sobre cortesia e lealdade.

                             O melhor mesmo foi no acampamento em Cachoeira da Ema. Não é que o Lorde desafiou todo mundo para um salto lá de cima da cachoeira? Mais de quinze metros. Eu olhei para Saltimbanco e ele me olhou. Desafio feito desafio aceito. Ele pulou primeiro. Parecia uma flecha no ar caindo com perfeição no remanso. Eu cai de barriga e gemi por dois dias. Saltimbanco desistiu. Menino, nem te conto, o Lord Tim era bom mesmo em pioneiras. Trabalhava com encaixe e os nós perfeitos. Nunca em minha vida vi nós e amarras como ele dava. Foram quatro dias e eu aprendi a gostar de Lord Tim. Era bamba em nós, cozinheiro de mão cheia e bamba em pioneiras e nos deu muita orientação sobre tudo. Melhor mesmo foi quando Mocreia o desafiou na Semáforas e ele transmitiu quase cem letras em um minuto. Todo mundo ficou boquiaberto.

                            Um dia ele começou a tossir. Tossia sem parar. Notei um filete de sangue na sua boca. Que seria? Manfred veio correndo o pegou no colo, colocou no carro e partiu. Ninguém ficou sabendo de nada. Ah! Sim... A tarde um helicóptero pousou no campo do Esporte Clube Barroso. Corri até lá, mas já havia levantado voou. Na reunião seguinte um silêncio enorme na reunião. Olhei para Saltimbanco e ele me olhou. Falei baixinho – Sabe! Uma saudade danada de Lord Tim. Ele balançou a cabeça concordando. Dois meses depois três helicópteros pousaram em Lua Prateada. Nunca vi tanta gente branca e magra. Tinha um com roupa de marinheiro cheio de medalhas. Depois fiquei sabendo que era o Rei pai do lord Tim. Foram a sede e com um interprete deixou uma mensagem. Vi que os olhos do príncipe estavam cheios de lágrimas. O que o interprete disse todos já imaginavam. Lord Tim havia morrido. Deixou uma mensagem para nós e como era bonita, Deus do céu:

                           Meus caros amigos Escoteiros e lobos. Vocês não imaginam quanta felicidade eu tive quando estive junto de vocês. Pela primeira vez ninguém se curvava ninguém fingia me cumprimentar. Aqui no palácio todos sabem que tenho uma doença terminal. Todos me dão carinho e amor, mas não como tive aí com vocês.  Foi demais conviver com pessoas como os Escoteiros e lobos de Lua Prateada. Nunca em minha vida fiz tantos amigos como fiz aí com vocês. Aqui no palácio não tenho amigos e confesso que vivi em Lua Prateada os melhores anos de minha vida. Eu sei que irei partir, pois o que tenho não tem cura. Já aceitei meu destino e sei que vou partir para uma estrela no céu. Queria ter me despedido de um a um, mas minha partida foi brusca. Não duvidem, pois mesmo longe em me sinto muito perto de vocês. Muito obrigado a todos pelos melhores anos de minha vida. Fiz questão de pedir ao meu pai que presenteasse o grupo com tudo que ele precisava para acampar e brincar nas reuniões. Logo um caminhão cheio de presentes chegará em sua cidade. Mas o meu presente é especial – Um viva aos Escoteiros e lobos, um abraço apertado em Saltimbanco e em Juventino (eu). Fiquem com Deus!


                            Ninguém dizia nada. Um silencio enorme, gargantas secas. Olhos marejados de lágrimas. Era como o poeta estivesse ali dizendo: Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso. Adeus Lord Tim. Você marcou para sempre todos que tiveram a honra de apertar sua mão!

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....