terça-feira, 18 de agosto de 2015

Quem for limpo de corpo e alma atire a primeira pedra.


Lendas Escoteiras.
Quem for limpo de corpo e alma atire a primeira pedra.

                      - Não sei se é uma boa ideia July. E se o pior acontecer? – Minha querida, eu sei que é errado, eu mesmo no meu consciente não quero fazer, mas veja: - Vamos fazer daqui a cinco dias nossas bodas de ouro. Uma vida Janice. Uma vida juntos. Todos os aniversários de casamento eu quis lhe dar um presente e nunca consegui! Sempre uma panela de pressão um jogo de talher, coisas que você queria, mas não o presente que merecia. – Mas nós podemos ir para a cadeia July. Você já pensou nesta idade ir presos? – July riu. Seria mesmo uma festa de arromba passar os cinquentas anos de casado na cadeia. July pensou e pensou. A rotina estava presente em suas vidas. A ideia lhe agradava. Tudo levava a sair dela e sorrir novamente. Seus filhos nem se lembraram da data, ele sabia que iria receber um telefonema e nada mais. Há anos ninguém lhe convidava para um passeio, para um jantar, e em suas férias eles iam para as praias, para outras plagas e o casal de velhos em casa. Afinal o que fazer com dois salários mínimos?

                         - Amanhã cedo, pegamos o ônibus do centro, e vamos naquela loja que aluga roupas. Quero um lindo smoking e para você o mais lindo vestido longo do mundo! Vai ficar por menos de cem reais por um dia. – Janice sorriu. Pensou em vestir um longo. Quanto tempo ela não usava mais. A última vez foi no casamento de sua filha há vinte anos. Sabia que do que tinham recebido no mês e pagando o aluguel iriam sobrar cento e cinquenta reais. Guardados a sete chaves. Precisavam para o leite e o pão de cada dia. Dormiu preocupada, mas sorrindo. Seria uma aventura e tanto. Quantas aventuras fizeram no escotismo? Ela tinha boas recordações. Quantos acampamentos, quantas amizades, mas hoje eram menos de que um punhado de nada. Ela dormiu. Dormiu sonhando com o que iriam fazer. Não houve anjos ou demônios para dizer se era certo ou errado. No ônibus abraçados os passageiros olhavam com inveja o casal de velhos abraçados e sorridentes.

                             Ele ficou bem no smoking. Ela linda, quanta beleza mesmo com a idade ela tinha. Ele tinha orgulho de sua mulher. Aonde eles chegavam sempre diziam de sua beleza. Saíram pelo portão da casa como dois príncipes encantados. Um taxi os levou ao Vicolo Nostro. - Era o melhor restaurante da cidade. Um primor que ficava no último andar do Hotel Palace dos Príncipes. Diziam que um apartamento ali custava mais de cinco mil reais. Janice sorriu. Nunca poderia conhecer um deles. Nunca. E a suíte então? Subiram no elevador sob os olhares complacentes de alguns hóspedes e de duvida de alguns funcionários. Domenico o Maitre quando os viu sabia que eram uns pobretões. Ele conhecia a realeza. Trabalhava há anos ali. Deu a eles uma mesinha de canto. Olhou com atenção para Janice. Nunca vira uma mulher naquela idade tão linda. Escolheram os pratos mais caros, a champanhe mais cara, a sobremesa mais cara. – Quando ele apresentou a conta sorriram – Desculpe senhor. Não temos como pagar!    

 

                            Domenico sorriu. Sempre tinha alguém querendo comer de graça. – Senhor, se não pagar vou chamar a polícia! – Mas não vamos lavar pratos? Falou July. – Não senhor, não paga cadeia! – Juny explicou que iam fazer aniversário de casamento, bodas de ouro e queria presentear a mulher. Domenico no alto de sua importância pegou o celular e chamou a policia. O segurança do restaurante os levou a uma saleta na entrada. Na cadeia o Delegado Francoso os olhava com raiva. Sempre assim, sempre tinha os aproveitadores. A farola de aniversário não colou para ele. Já era tarde, sua mulher o esperava para um coquetel na mansão do Conde Teodorico II. Queria ser promovido a delegado geral e o conde era amicíssimo do Governador. – Ponham eles no xilindró até que paguem a conta disse.

 

                           Pica Pau um repórter sem eira nem beira estava naquele dia na delegacia. Ouviu tudo. Chegou perto de July e perguntou o que ouve. July sorridente contou. – Ninguem pode pagar? – Não responderam. E seus filhos? – Não vamos incomodá-los. – Escreva aí, no seu tabloide e na sua radio. – Quem se achar inocente que atire a primeira pedra. – Deodato um engraxate que procurava alguém para uns trocados na delegacia viu os dois. – Chefe! É você? July tentou fingir. Não queria que soubessem que era Escoteiro claro aposentado. – Sempre alerta Chefe! Disse Deodato. Pica Pau sorriu. Agora sim tinha uma matéria de primeira. Ligou para a rádio e ela o pôs no ar. A noticia começou a se espalhar. Duas horas depois escoteiros de todos os lugares começaram a chegar. A rua não cabia mais ninguém. A policia foi chamada e nada pode fazer. Um zum, zum no ar – Prenderam o Chefe July e a Chefe Janice! – solta, solta, solta era o que todos gritavam na rua.

 

                            Advogados sorriram ao verem a noticia. Nem na delegacia foram. Correram para a Sexta Vara Criminal a procura de um habeas corpus. Sabiam que isto os levaria a glória. Seriam reconhecidos. – Doutor Pavone assinou centenas. – O delegado irredutível. Prisão preventiva. Não sei quando podem sair e podem recorrer à vontade. – Luiz Antônio Escoteiro da Patrulha Pavão filho do Governador Kalmim chorava com seu pai. Tem de soltá-lo pai! – Filho não posso! – Pode sim, o senhor é o governador. – Emissoras de TV começaram a chegar a frente à delegacia. Centenas de repórteres. Lá dentro Juny e Janice dormiam sorrindo em um pequeno catre apertado. Era para eles uma aventura e tanto. Nem sabiam o que se passava lá fora. Dora, Joviel, Tonho e Caledônio os filhos viram a noticia na TV. Correram para a delegacia. Lá fora uma balburdia. Nunca se viu tantos escoteiros como ali. Eram milhares. Todos exigindo a soltura dos Velhos Lobos que estavam presos.


                          Doutor Pancrácio o Presidente da Região não sabia o que fazer. Ligou para a Direção Nacional, ninguém lá de plantão. – Que eles paguem pela vergonha escoteira que estamos passando. A escoteirada miúda pagou em juízo as despesas dos dois velhos lobos. Na porta da delegacia fizeram uma “vaquinha”. Nunca se viu tantas moedas e notas de um real. O delegado sumiu. Agora só no dia seguinte. Uma noite na cadeia não faz mal a ninguém. Pensou o Delegado. No dia seguinte alguém entrou com uma petição no Supremo Tribunal Federal. O assunto foi parar no congresso. – O almirante Jacarta se prontificou a mandar uma esquadra. – “Mas quá almirante, lá não tem mar” – O brigadeiro Jalusko enviou doze caças que sobrevoaram a delegacia. General Sukarno colocou doze tanques na porta da cadeia.


                           July e Janice foram soltos ao meio dia do dia seguinte. O Maitre Domenico sorria. Recebeu seu rico dinheirinho. Nunca houve um bravôo como o dado pelos escoteiros na porta da Delegacia. Parecia que os prédios iriam cair. July e Janice foram carregados no ar. Escoteiros são assim podem esquecer hoje, mas sabem que seus velhos escoteiros vivem eternamente em seus corações. Em casa eles sentaram na poltrona abraçados. Seus filhos sorriam. – sabiam que eles também tinham direitos de cometer pelo menos um erro na vida. Mas seria um erro? Cinquenta anos não podia passar assim como tudo que passa pela vida. Mereciam muito mais.  July e Janice viveram sua aventura que tanto esperavam. E agora? Se você os culpa e se tem o corpo e a alma escoteira em paz, atire a primeira pedra!   

domingo, 16 de agosto de 2015

Somente o amor será minha herança.


Lendas Escoteiras.
Somente o amor será minha herança.

                           Ninguem notou naquela manhã de sábado a luz forte azulada que caiu mansa sobre a cidade de Purgatório. Poucos observaram um jovem alto com o uniforme social dos Escoteiros, atravessando a ponte de madeira com um sorriso contagiante, uma forquilha na mão, uma pequena mochila e passos que não tinham pressa em chegar. Era uma cidade simples, pequena, onde havia poucos jovens por falta de oportunidade profissional. Os mais velhos diziam que no passado havia muito amor, cortesia, fraternidade e amizade entre seus residentes. Ninguem notou também aquele jovem calmo, com passadas curtas, olhando para frente com um sorriso nos lábios cumprimentando a todos que encontrava. Ali ninguém notava ninguém. Purgatório tornou-se uma cidade dispersa, Seus habitantes mudaram de hábito e agora viviam para si sem pensar no seu próximo. Um poeta disse uma vez que era fácil sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e fazer feliz por inteiro. Difícil é ocupar o coração de alguém. Saber que se é realmente amado.

                             O jovem entrou na Rua da Tristeza onde havia poucas casas e na última entrou. Ele sabia que estava vazia. Desde que ele saiu dali a muitos e muitos anos pensou que mesmo dizendo nunca mais ele voltaria de novo. Ninguém o viu entrando em sua velha casa; - Na porta disse - Eu voltei, espero que me aceite, pois aqui é meu lugar! Quanto tempo se passou? Melhor não pensar e seguir seu plano conforme seu sonho durante todo o tempo que ficou fora de Purgatório. Ele sonhava em fazer dela uma cidade para todos poderem sorrir e amar seu semelhante. Abriu às janelas, as cortinas eram as mesmas, brancas de cetim com pequenos babados a enfeitar suas laterais. Os móveis estavam limpos, a cozinha um brinco, tudo bem lavado, asseado e bem cuidado. Fez um café no ponto. Uma pequena chícara e bebeu com gosto. Não estava com fome, deixou para fazer um lanche na sua volta. Estava quase na hora. Entrou no quarto e viu seu uniforme de campo solto e bem dobrado em sua cama e gostou do que viu. Bem passado como sempre foi quando o usava. O lenço ele dobrou devagar. Viu na parede o porta-chapéus com o seu bem acondicionado. Os sapatos foram engraxados e os meiões preparados na cadeira de vime ao lado.

                  Não precisava correr, sabia a hora que ia iniciar a contenda, mais conhecida como reunião. Ele já fora um deles, mas agora o passado era longo e o caminho que achou que não ia acontecer mudou de rumo como o vento que sopra para o norte e alguém lhe diz para ir para o sul. No seu subconsciente sempre achou que não teria mais volta. Vestiu seu uniforme como sempre vestia. O pequeno relógio de seu pai que abraçava a parede verde clara da saleta da entrada marcava quinze para as duas da tarde. Tempo suficiente para ele chegar e rever e resolver a contenda que seu destino o levara até ali. Na Rua da Angustia ninguém olhou para ele. Na Praça dos Piedosos não viu ninguém. Chegou à sede sorrindo, ninguém olhou para ele. Para muitos ele sempre esteve ali. Não era nada não era ninguém. Levantou as mãos e orou. Pediu a Deus em uma prece profunda que mudasse o coração da irmandade, que pensassem mais nos outros que em si. A cidade precisava mudar. Aqueles sorrisos de outrora, aqueles apertos de mãos, aqueles abraços tão gostosos não podiam ficar armazenados no coração das pessoas.

                      Ele sempre soube que o começo de tudo estava ali, naquele Grupo Escoteiro onde se acreditava em uma Lei, onde se dizia que há honra estava acima da vida e da morte. Onde a palavra tinha um dom de ser acreditado, pois a grandeza destas máximas não consiste em receber aplausos, mas sim em fazer por merecer. Todos se dirigiram a ferradura. Hora do Cerimonial. Hora da reunião da família escoteira hora da bandeira ressoar no ar. Ele ficou junto à chefia, não houve sequer um abraço um aperto de mão. Ele notou olhos tristes, faces angustiadas, enrugadas, sorrisos tortos, palavreado difícil para entender. Os lobos tentavam sorrir e não conseguiam. As patrulhas desleixadas, os seniores a conversar entre si. Os chefes não se olhavam e sentia-se que ali não havia amor, amizade, lealdade e os que estavam presentes eram como se fossem mais um dos fantasmas escoteiros que não se conheciam.

                        A bandeira foi içada. Não houve canções, hinos nada. Faltava o calor humano. Faltava um olhar carinhoso, faltava uma voz que unisse a todos outra vez. Ele pediu a palavra. O olharam como se fosse um estranho. Afinal agora era mesmo um estranho. Ele humildemente foi ao centro da ferradura, tentou olhar nos olhos de cada um para transmitir amor. Estava difícil, olhou para o céu e pediu ao Senhor seu Deus: - Dá-me Senhor: um coração vigilante, que nenhum pensamento vil o afaste de ti; um coração nobre, que nenhum sentimento indigno o rebaixe; um coração reto, que nenhuma maldade desvie; um coração generoso para servir. Senhor que cada um de nós possa amar uns aos outros, que possamos aprender a sorrir, a cantar a dizer aleluia Senhor por uma graça alcançada.

                        Um sorriso de um Lobinho se espalhou no ar, os gritos de patrulha eram gostosamente gritados pelos escoteiros de uma maneira exemplar. Os seniores davam risadas e abraçavam-se entre si.  Agora eles contavam “causos” sorrindo e as guias aplaudindo. Um Chefe veio correndo abraçar outro Chefe chorando e pedindo perdão. Um zum zum se espalhou como o vento que soprava sem destino. Ele sorriu e olhou para o céu. Obrigado meu Deus pela graça que me destes. Permitiu-me fazer o meu melhor possível hoje E que eu almeje faze-lo ainda melhor amanhã. Ensina-me sempre que o dever, longe de ser um inimigo, é um amigo. Faça-me encarar até a mais desagradável tarefa, alegremente. Dê-me fé para compreender o meu propósito nesta vida e abra minha mente para a verdade, e enche meu coração com amor. – Era hora de partir, ele sabia que ali tudo havia se alterado. Ele sabia que a cidade iria acompanhar, portanto era hora de voltar.

                           Fez questão de abraçar a cada um em particular. Seu aperto de mão era como se fosse fagulhas de amor e paz a jorrar no coração de cada um. No portão deu seu último olhar. Viu uma Lobinha sorrindo e dizendo adeus. Ele sabia que aquele adeus e o sorriso sua alma precisava. Entrou em sua casa, uma pequena lágrima apareceu e correu pela sua face até desaparecer no chão que ele pisava. Agora era hora de partir, fechou as janelas, beijou um pequeno crucifixo que estava no quarto de sua mãe. Lembrou-se do seu sorriso que sempre lhe deu antes de partir. Saiu devagar pela Rua da Amizade, viu outra placa, tinham trocado. Passou pela praça e viu que se chamava Praça do Amor. Havia cheiro de perfume no ar, rosas sorriam para todos que passavam. A praça cheia, o povo a cantar. Na saída uma nova placa dizia: - Bem vindos a Portal da Esperança. Um clarão azul claro o levou de uma só vez. Ele com um sorriso lembrou-se das palavras de um poeta: - Ainda que haja noite no coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão...

sábado, 15 de agosto de 2015

A lenda dos milagres de Sophia.


Lendas escoteiras.
A lenda dos milagres de Sophia.

                          Não conheci a escoteira Sophia. Se não tivesse participado do desfile do Sete de Setembro naquele ano a história dela nunca seria conhecida por grande parte do movimento escoteiro. Sei que muitos sabiam, mas tudo era contado à boca pequena sem chances de até mesmo o Arcebispo Joshua pensar que um dia ela poderia ser canonizada. Ele ficou impressionado com o relato do vigário Honório. - Verdade mesmo Honório? – Eminência, são mais de vinte meninos e meninas que assistiram tudo no acampamento que fizeram Na Lagoa dos Sonhos. Ela pegava peixes com as mãos, curou doentes, acendeu um fogo sem fósforos em segundos. E não foram só estes foram vários! – E adultos tinha algum? Perguntou o Arcebispo. – Não eminência, só uma vez Dona Filó e o Chefe Manolo assistiram um milagre dela. Foi o mais simples. - Eles viram-na se elevar no ar e beijar um periquito no ninho de uma árvore há mais de oito metros de altura!

                  Sei que o Vigário Honório ficou mais de cinco horas a narrar para sua Eminência o Arcebispo Joshua tudo o que viu e tudo que lhe contaram. Saiu do Palácio Episcopal mais de meia noite. Deixou o Arcebispo com a pulga atrás da orelha. Ele já tinha lido e conversado com muitos sobre o tema mediunidade. Quem sabe esta escoteira não era assim? Mas se elevar no ar? Isto não é mediunidade. Mais parecia que era sensitiva. Ver os mortos, visualizar o futuro e ter visões extraordinárias. Agora se elevar no ar? Isto não saia da mente do Arcebispo. No dia seguinte ligou para o vigário. Pediu a ele se podia trazer a escoteira até o palácio. Ele queria conhecê-la. Dona Fabíola mãe de Sophia não se opôs. Partiram em uma manhã de sábado. Daria prazo para ela participar da reunião escoteira da tarde, disto ela não abria mão. O Arcebispo ficou maravilhado e abobalhado. Ela na sua presença conversa como gente grande. Inteligentíssima. Conversou com ela em inglês, francês e italiano e ate abusou do latim. 

      Mas vamos voltar ao início se não vocês não vão conhecer Sophia e sua história. Monossílabo era sênior da Antares, uma patrulha antiga e quatro Sêniores e duas guias. Eu cansado de uma manhã do desfile da cidade, sentei-me no banco da praça e ele sentou ao meu lado. – Sabe Chefe, se Sophia a escoteira tivesse vindo este desfile seria inesquecível. – Fiquei encucado. – Quem é a escoteira Sophia? – Chefe! O senhor ainda não ouviu falar dela? – Claro que não Monossílabo, se não eu não teria perguntado. – Bem Chefe, ela está conosco há dois anos. Quando chegou à sede ninguém deu nada por ela. Mas no primeiro dia de reunião Loquinho o Monitor da Águia ficou boquiaberto com ela. Em uma base de nós, com os olhos fechados ele fez mais de vinte nós escoteiros e de marinheiro. Ninguém acreditava no que via. Precisava ver no acampamento. Cortava um galho em segundos. Parecia que o facão era mágico.

     Monossílabo ficou me narrou por horas. A princípio não acreditei nele. Havia muito floreio em tudo. Mas me lembrei de um fato ocorrido há alguns anos e só não lembrava se era ela a protagonista. Ela e sua mãe chegaram correndo a delegacia, mais de duas da manhã dizendo que um acidente grave aconteceu na estrada 45. Na curva da onça um ônibus despencou por sobre a ponte. Mais de vinte mortos. Pinduca o Sargento da guarda não acreditou. Foi preciso chamar o prefeito que relutante em acordar acompanhou todos até a ponte fatídica. Gemidos, gritos de socorro e o trabalho de ajuda começou. Um menino de três anos ensanguentado foi colocado por sobre uma manta e o enfermeiro disse que estava morto. Não estava, pois Sophia pegou na mão dele e ele se levantou. Dizem que ela deu vida a mais oito pessoas. As demais não, pois conforme disse era desígnio de Deus. Teria que ser assim.

               Sophia não era linda, nada disto. Tinha o rosto fino, nariz comprido, uma boca pequena e cabelos crespos que ela insistia em não pentear. Ficava diferente e ela gostava. Falava fanhoso e deixou todo mundo boquiaberto quando um dia falou como uma rainha. Na patrulha era bem quista e ninguém notava nada diferente. Nas atividades que o Chefe Manolo e a Chefe Malena faziam na maioria das vezes a patrulha dela não se evidenciava. Só uns meses atrás que tudo mudou. Ela parava durante alguma corrida dizendo estar vendo pessoas mortas. Garantiu ao Chefe Manolo durante uma cerimônia de bandeira que o Chefe Tonon estava presente. Chefe Tonon foi o fundador do grupo a mais de setenta anos. Morrera há quinze anos. Sophia começou a ser procurada por doentes, cadeirantes e a cidade começou a ter turistas de todos os lugares por causa dela. Quando ia para o Grupo Escoteiro a sede ficava superlotada de pessoas querendo falar com ela ou ser abençoadas.

      O vigário Honório correu a falar com o Arcebispo. Esqueceu-se de Don Antonio um Velho morador da cidade e Presidente do Centro Espirita Boa Vontade. Ele ria quieto em seu canto. Sabia que Aimée era um espírito superior e que os habitantes nunca podia imaginar quem ela fora no passado. Ele sabia que ela iria desencarnar aos quinze anos. Morte natural. Falar isto para o padre? Nem pensar. Comentou superficialmente com o Chefe Manolo. Um bom Chefe. Era evangélico e ficou incrédulo com tudo aquilo, mas o que vira em Sophia até que poderia ser verdade. Cinco meses depois chegou à cidade monsenhor Giuseph a mando da cúria papal. Era para averiguar e comprovar os milagres de Sophia. Não ficou dois dias. Quando a conheceu ela disse para ele – Senhor Monsenhor, daqui a dois anos o Papa Lozano III vai falecer e o senhor será eleito o novo papa!

                  Ninguém soube do fato e eu mesmo não sabia como Monossílabo sabia. Bem o final da história é que a Cúria Romana até hoje discute se Sophia era possuidora de receber o título de santa. Mesmo após sua morte ocorrida na aventura Sênior distrital que a tropa participou na Serra dos Órgãos eles continuaram investigando. Ainda investigam. Quem sabe teremos a primeira santa escoteira? Vai ser o máximo. O escotismo terá dado um enorme salto para o sucesso de marketing. Procurei saber como foi à morte de Sophia. Sua Patrulha jura de pé junto que ela se despediu de um por um e disse para não se preocuparem. Sua mãe já sabia que era hora de ir. Ninguém acreditou quando uma forte luz a levou. Seu corpo sumiu e até hoje não foi encontrado. A policia fez de tudo para ver se não havia outra história, mas teve que se contentar com a fantástica explicação dos seniores que estavam com ela. O delegado já saiba de seus poderes sobrenaturais e deu o caso como encerrado.


       Monossílabo me jurou que nas noites de acampamento, quando os seniores se reúnem em volta de um fogo para jogar conversa fora ela aparece e fica com eles por horas contando como são os escoteiros que moram no céu. Don Antonio o espírita tem boas relações com dona Fabiola mãe de Sophia. Conversam muito. A cidade não sabe o que conversam. Se Sophia é mesmo um espírito cheio de luz eu não sei. Se isto é coisa do diabo eu também não sei. Dizem que Deus sabe o que faz e como eu acredito nele a história de Sophia para mim é verdadeira. Afinal temos ou não uma só palavra?

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Os ventos noturnos de Baependi.


Lendas Escoteiras.
Os ventos noturnos de Baependi.

                   Um tiquitito de gente, Magro não mais do que doze anos. Cabelos crespos e banguelo de um dente na frente. Todos os sábados lá estava ele encarapinhado no pé de Abacate, que servia de muro entre a sede escoteira e a Rua das Palmeiras. Sua pele morena clara parecia precisar de sabão. Os escoteiros e lobinhos o apelidaram de ferrugem. Nunca falou com ninguém e um dia a Chefe Maria o chamou para conversar. – Quem é você? Não quer ser Escoteiro? Ele só balançava a cabeça como a dizer sim e não. Quiosque monitor da Pica Pau riu quando notou que ele era mudo. Não era um riso de ridículo, nada disto, mas ele conhecia outros que não falavam nada e o chamavam de mudinho. Chefe Maria desistiu. Não entendeu nada. Tentou até que Loveiro trouxe uma caneta e papel – Dê a ele Chefe, peça para escrever. Nada. Simplesmente nada. – Ele não sabe escrever ela disse.

                  A vidinha da Tropa continuou seu rumo. Não se esqueceram de Ferrugem. Ele sempre encarapinhado no pé de abacate a olhar a reunião dos sábados. Quando saiam para atividades fora da cidade ele acompanhava por alguns quilômetros e depois desaparecia. Cotovelo jurou que o viu no acampamento do Vale Feliz.  Por pouco tempo é claro, pois quando se aproximou ele sumiu. A escoteirada da Tropa andava preocupada. Diversas vezes viram a Chefe Maria com os olhos vermelhos parecendo que tinha chorado. A vida dela se transformou num inferno depois que Caledônio começou a beber. Era seu marido e todos sabiam que ele sempre dava uma surra nela quando estava bêbado. Quando sóbrio era um primor de homem, e a carregava no colo, ria, beijava e dizia que era o homem mais feliz do mundo. A Chefe Maria entrou por causa de Judith sua filha. Com onze anos queria ser escoteira e Caledônio foi contra, mas aceitou quando ela começou a participar.

                       Um fato estranho aconteceu. Ferrugem desceu da árvore e foi até ela fazendo sinais. Ela nada entendeu, mas ele entrou no meio da patrulha Pica Pau e ficou ali como se foi mais um patrulheiro. Ela sorriu e não disse nada. Chamou Quiosque. – Vamos deixar, dizem que assim se amansa boi bravo! E riu sem ofensas. A cidade de Baependi acostumou com Ferrugem vestido de Escoteiro com sua marcha solene pela manhã e a tarde. Aparecia em uma rua e sumia em outra. Vinagre tinha um irmão que foi para a Capital e doou o uniforme para Ferrugem. A vida seguiu seu destino, a Tropa andando com suas próprias pernas, Chefe Maria procurando um Chefe homem para ajudar, pois eram 19 meninos e cinco meninas. A cidade de Baependi se revoltou um dia. Viram Caledônio tentando bater nela de cinta no meio da rua. O povo correu em cima dele que só pode se salvar se trancando na cadeia do Delegado Tostino.

                        Ficou preso por dois meses. Um sossego para Chefe Maria e Judith. Mas ela sentia saudades dele, sabia que ele não era assim nunca foi quando namoravam. Ela o amava demais. Até beber bebia moderadamente. Nos primeiros anos de casado ela sorria e pensava ser a mulher mais feliz do mundo. Dona Elza e Dona Lorena diziam para ela largar dele. Era professora, não dependia de homem nenhum. Ela sorria, mas seu coração chorava. Ela o amava mais que tudo. Quando foi fazer seu primeiro curso Escoteiro quase desistiu. Ele raivoso disse que não. Mulher dele não iria se misturar com homens em um acampamento. - Veja só disse – Se for vou lá e te dou uma surra quando menos esperar. Vais apanhar quando a bandeira arvorar!

                        Deixou Judith com Dona Elza e com a proteção de Deus foi. Ele ficou fulo, disse o que não disse e as ameaças se espalharam no ar. – Quando chegar não vai mais me encontrar aqui disse ele. – Ela chorou e muito aprendeu no curso, mas uma pontada no coração a fazia sempre se lembrar dele. – Se ele se for vou sentir muito sua falta, mas fazer o que? – Ela durante o curso dava sorrisos não por causa do curso, mas porque viu diversas vezes Ferrugem encarapinhado em uma árvore qualquer a olhar para ela. Assim foi os dois dias lá no campo. À noite no fogo de conselho o viu sobre as cabeças dos chefes, em uma pitangueira, ao lado de uma coruja que olhava espantado para ele, sorrindo e a cantar a Arvore da Montanha. Claro só seu lábios cantavam, pois voz não saia. Ficava pensando onde ele dormia, onde comia, pois seu sorriso era contagiante em qualquer hora do dia ou da noite.

                         Quando desceu do jipe do Chefe Gentil da equipe do curso o viu na porta de casa. Ao seu lado Judith. – Gritou alto – Aqui você não entra nunca mais! Ela não sabia o que fazer, disse ao Chefe Gentil que fosse embora, pois se não ia piorar muito mais. Ela sentiu alguém lhe dando a mão. Uma mãozinha pequenina, frágil e viu que era Ferrugem. Ele a olhou e ela viu nos seus olhos como se estivesse sinalizando para ir em frente. Ela foi segurando a mão dele. Caledônio se assustou com aquele mudinho, um tiquinho de nada que dava a mão sua esposa pensando que com isto pudesse enfrentá-lo. Cento e vinte quilos contra mais ou menos quarenta. Um disparate. Uma cusparada e ele morreria afogado. Riu quando pensou assim. Sabia que ia dar um cascudo no moleque e um tapa na cara da Chefe Maria para ela aprender.

                         Caledônio foi ao encontro de sua mulher no portão de sua casa. Judith chorava alto. Era uma menina loira magra e linda, mas não podia fazer nada. Chefe Maria pensou em parar, mas Ferrugem a puxou pela mão. Ficou entre ela e Caledônio. Fez um sinal para ele sair da frente. Caledônio sentiu uma mão invisível o puxando. A vizinhança apinhava na rua para ver o desfecho. Ferrugem o olhou dentro dos olhos, pela primeira vez Caledônio teve medo. Chefe Maria passou abraçou Judith e entrou em casa. Na porta ficou Ferrugem de braços cruzados. O delegado chegou correndo pesando que poderia acontecer uma tragédia. Viu caledônio sentado na porta de sua casa chorando e Ferrugem com as mãos em sua cabeça o abençoando.


                         O tempo passou. Caledônio nunca mais bebeu. Agora ajudava Chefe Maria na Tropa escoteira. Ferrugem continuava na Patrulha Pica Pau. Chamado para a bandeira ferrugem olhou para a Chefe Maria. Foi até ela, olhou dentro dos seus olhos. Ela emocionada o ouviu dizer baixinho – Te amo! Ela sorriu com amor. Também o amava e mais agora que o tinha registrado como filho. Caledônio orgulhoso era o responsável pelo cerimonial de bandeira. A cidade em paz. Nunca mais o casal se desentendeu. Caledônio mudou e toda vez que olhava para Ferrugem o agradecia com os olhos. A alegria voltou, a primavera se foi e os ventos noturnos voltaram a soprar em Baependi! 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Apenas uma patrulha escoteira e um pouco de escotismo.


Lendas Escoteiras.
Apenas uma patrulha escoteira e um pouco de escotismo.

                          - Bonifácio Luz era o monitor. Tomé Lindolfo o sub. José Nonato o intendente. Flávio Rosado o Cozinheiro. Tomás Lívio o Bombeiro e lenhador. Nas horas vagas socorrista. Eu Wantuil Leal o Escrevente e Construtor. A patrulha era a Touro com mais de doze anos de Tropa. Patrulha antiga com muitas histórias para contar. Muitas delas anotada no Livro da Tropa e no livro da patrulha. Espécie de Livro de Atas. Tinha um lema: - O que é de um é de todos! Nosso grito era comum, nada de especial, mas que muitos que passaram pela patrulha nunca mais esqueceram – Qui, que, code, com o Touro ninguém pode! Éramos seis e tínhamos a vida de uma equipe unida e fraterna que nunca se separava. As mães que o digam. Sabiam onde morávamos e quem éramos. Se um de nós aparecia tinha que ficar para o almoço ou o jantar. Ninguem era rico, Flávio Rosado o cozinheiro era o mais bem aquinhoado. Seu pai Escrevente do cartório ganhava razoavelmente bem. Tomé Lindolfo o sub o mais pobre. Negro, morava na Favela do Chico Bento. Ali era seu lar e o nosso também.

                           As reuniões formais eram aos sábados. Chefe Lontra com seu sorriso sempre a perguntar: - E aí turma, como foi à semana? Sempre a mesma coisa entra sábado sai sábado fora quando íamos acampar. Chefe gente fina, nosso herói. Podíamos procurá-lo a qualquer hora do dia ou da noite e ele sempre com aquele sorriso de amigo e irmão mais velho. Era Ferroviário. Fazia manutenção em máquinas e tinha muita amizade com seu Pascoal o Chefe da Estação. Através dele podíamos viajar em qualquer trem, menos os chamados expressos do aço. Centenas de vagões cheios de minérios de ferro. Estávamos em reunião de patrulha quando ele se aproximou do nosso canto – Dá licença? – Claro Chefe, a casa é sua! – Tem um menino, quer ser Escoteiro, pensei em vocês! A turma se entreolhou. Seis era bom demais. Cada um fazia sua parte e a parte do outro. Daria certo mais um? Bonifácio comentou – Para jogos vai ser bom, as outras patrulhas tem sete ou oito. – Chefe Lontra sorriu. – Desculpem, mas ele não será uma peça de jogos se assim compreendi bem.

                     João Quaresma nos foi apresentado. Alto e forte. Disse que tinha doze anos, mas eu jurava que tinha quatorze. Sempre bonachão. Aspecto de sabe tudo. – Quem é o monitor? Perguntou. Sou eu disse Bonifácio luz. Ele olhou Bonifácio de cima em baixo. Tem eleição para ser monitor? – Não tem. O Chefe indica a patrulha opina. Foi seu primeiro dia. Cada um olhando o que ele fazia e como fazia. A desconfiança em primeiro lugar afinal era um novato e teria que provar que podia ser um Touro. Aos poucos nós fomos acostumando com João Quaresma. Não era fácil, a maioria da patrulha tinha mais de dois anos de atividade. Bonifácio, Tomé e José Nonato eram primeira classe. Os demais segunda classe. Não havia noviços. João Quaresma foi o primeiro noviço a chegar à patrulha.

                        Não sei, mas achei que ele queria se mostrar. Mostrar o que? Escotismo não dá para isto. Mas nos jogos ele dava a alma e a vida para ganhar. Era praxe que os jogos seriam feitos com toda a patrulha. Quem ganha não é um só e sim os patrulheiros. João Quaresma não. Ele se achava o bom, o tal e tinha de vencer mesmo que sozinho. Na Reunião de Patrulhas comentamos e ele não deu bola. Fizemos um Conselho de Patrulha e ele concordou em trabalhar como equipe. Um dia procurou o Chefe Lontra para dizer que estava pronto para ser um primeira classe. Chefe Lontra o levou até a sede. Sei que lá conversaram por muito tempo. Ele voltou mais amigo e pediu desculpas a todos. Não sabia que era um noviço e tinha de fazer a promessa primeiro para começar seu crescimento escoteiro.

                       Na quarta reunião chegou uniformizado. Bonifácio disse a ele que a norma era vestir o uniforme só na promessa. Ele não ligou. Na ferradura durante a inspeção quando ele ficou em posição de sentido e mostrou às mãos limpas e unhas cortadas o Chefe não disse nada. Ao dirigirmos ao canto de Patrulha Bonifácio disse que o Chefe queria falar com ele. – Foi embora naquela tarde revoltado. O Chefe o mandou de volta. Uniforme só na promessa! Você sabia disso e não obedeceu. No portão deu uma banana para todos e disse que nunca mais ia voltar. Mas voltou. No sábado seguinte de cabeça baixa pediu desculpas a todos os patrulheiros. João Quaresma virou outro. Obediente, disciplinado, cumpridor de ordens e claro era um líder e dava palpites em tudo. Afinal era seu direito.

                  No acampamento de verão na Foz do Rio Iguaçu ele nos surpreendeu. Não acontecia, mas acordamos depois da hora. Levantamos apressados, pois havia uma norma a ser cumprida. Primeiro quinze minutos de física e depois o café e preparar o campo para inspeção. Na noite anterior antes de dormir fizemos um Conselho de Patrulha. Decidimos o que cada um devia fazer, pois não estávamos bem na classificação de campo. João Quaresma disse ao Monitor: Olhe vão fazer a física eu faço depois. Faço o café e limpo o campo. Deixe comigo o vasilhame, vai ficar limpo que nem as unhas do Flavio Rosado. Ninguem duvidava da limpeza do Flávio. Como cozinheiro ele se esmerava. João Quaresma entedia do riscado. Um café em quinze minutos, o campo ele fez uma vassoura de piaçava do mato. O campo ficou nos trinques. Às oito e meia estávamos formando em linha quando o Chefe chegou. Bem na hora.

                  Não pegamos o primeiro lugar, mas ficamos em segundo. O tempo foi passando e João Quaresma firmava a cada dia de reunião seu lugar ao sol na patrulha. Sem perceber já era um dos nossos. Foi uma festa sua promessa. Alguns meses depois recebeu sua segunda classe. Fez jus as especialidades que conquistou. Interessante, ele não nos convidava para a casa dele. Quase um ano de Tropa e a gente não conhecia sua casa e sua família. Sabíamos que morava no Bairro dos Toledos, mas seu pai e sua mãe eram desconhecidos. – Ele um dia no Conselho de Patrulha se abriu conosco. – Quero que vocês almocem domingo comigo. Não reparem casa simples e singela. Lá chegando vimos que era um barraco de madeira. Na porta ele e sua Avó, sorrindo. Não tinha pai e nem mãe. Um almoço de primeira. Sua avó quase não podia andar e se aproveitava de uma bengala simples.


                Foi à abertura para uma grande amizade. O tempo passou, Crescemos e viramos homens sem perceber. Bonifácio Luz virou prefeito da cidade. José Nonato foi para o Acre atrás do ouro que o faria rico. Tomé Lindolfo abriu uma casa de material de construção. Flávio Rosado tinha o melhor restaurante da cidade. Tomas Lívio virou bombeiro e já era capitão. João Quaresma casou com uma dama rica e foi morar na capital. Anualmente nossa patrulha se encontra anualmente para um papo gostoso em algum lugar. E eu? Eu continuo o mesmo, Escoteiro, aprendiz de sonhador. É o tempo passou e nem mesmo sei nesse momento quem sou. Enfim, sei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então. 

domingo, 9 de agosto de 2015

Não deixe entrar o ódio em seu coração.


Lendas Escoteiras.
Não deixe entrar o ódio em seu coração.

                           Ninguem notou naquela manhã de sábado a luz forte azulada que caiu mansa sobre a cidade de Purgatório. Poucos observaram um jovem alto com o uniforme social dos Escoteiros, atravessando a ponte de madeira com um sorriso contagiante, uma forquilha na mão, uma pequena mochila e passos que não tinham pressa em chegar. Era uma cidade simples, pequena, onde havia poucos jovens por falta de oportunidade profissional. Os mais velhos diziam que no passado havia muito amor, cortesia, fraternidade e amizade entre seus residentes. Ninguem notou também aquele jovem calmo, com passadas curtas, olhando para frente com um sorriso nos lábios cumprimentando a todos que encontrava. Ali ninguém notava ninguém. Purgatório tornou-se uma cidade dispersa, e de um certo tempo para cá seus habitantes viviam para si sem pensar no seu próximo. Um poeta disse uma vez que era fácil sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e fazer feliz por inteiro. Difícil é ocupar o coração de alguém. Saber que se é realmente amado.

                             O jovem entrou na Rua da Tristeza onde havia poucas casas e na última entrou. Ele sabia que estava vazia. Desde que ele saiu dali a muitos e muitos anos sabia que mesmo dizendo que nunca mais voltaria agora se viu entrando em sua velha casa e dizendo; - Eu voltei, espero que me aceite, pois aqui é meu lugar! Quanto tempo se passou? Melhor não pensar e seguir conforme seu sonho durante todo o tempo que ficou fora para fazer da cidade um lar para amar. Abriu às janelas, as cortinas eram as mesmas, brancas de cetim com pequenos babados a enfeitar suas laterais. Os móveis estavam limpos, a cozinha um brinco, tudo lavado, asseado e bem cuidado. Fez um café no ponto. Uma pequena chícara encheu e bebeu com gosto. Não estava com fome, deixou para fazer um lanche na sua volta. Estava quase na hora. Entrou no quarto e viu seu uniforme de campo solto e bem dobrado em sua cama e gostou do que viu. Bem passado como sempre foi quando o usava. O lenço ele dobrou devagar. Viu na parede o porta-chapéus com o seu bem acondicionado. Os sapatos foram engraxados e os meiões preparados na cadeira de vime ao lado.

                  Não precisava correr, sabia a hora que ia iniciar a contenda, mais conhecida como reunião. Ele já fora um deles, mas agora o passado era longo e o caminho que achou que não ia acontecer mudou de rumo como o vento que sopra para o norte e alguém lhe diz para ir para o sul. No seu subconsciente sempre achou que não teria mais volta. Vestiu seu uniforme como sempre vestia. O pequeno relógio de seu pai que abraçava a parede verde claro da saleta da entrada marcava quinze para as duas da tarde. Tempo suficiente para ele chegar e rever e resolver a contenda que seu destino o levara ali. Na Rua da Angustia ninguém olhou para ele. Na Praça dos Piedosos não viu ninguém. Chegou à sede sorrindo, ninguém olhou para ele. Para muitos ele sempre esteve ali. Não era nada não era ninguém. Levantou as mãos e orou. Pediu a Deus em uma prece profunda que mudasse o coração da irmandade, que pensassem mais nos outros que em si. A cidade precisava mudar. Aqueles sorrisos de outrora, aqueles apertos de mãos, aqueles abraços tão gostosos não podiam ficar armazenados no coração das pessoas.

                      Ele sempre soube que o começo de tudo estava ali, onde se acreditava em uma Lei, onde se dizia que há honra estava acima da vida e da morte. Onde a palavra tinha um dom de ser acreditado, pois a grandeza destas máximas não consiste em receber aplausos, mas sim em fazer por merecer. Todos se dirigiam a ferradura. Hora do Cerimonial. Hora da reunião da família escoteira hora da bandeira ressoar no ar. Ele ficou junto à chefia, não houve sequer um abraço um aperto de mão. Ele notou olhos tristes, faces angustiadas, enrugadas, sorrisos tortos, palavreado difícil para entender. Os lobos tentavam sorrir e não conseguiam. As patrulhas desleixadas, os seniores a conversar entre si. Os chefes não se olhavam e sentia-se que ali não havia amor, amizade, lealdade e os que estavam ali eram como se fossem mais um dos fantasmas escoteiros que não se conheciam.

                        A bandeira foi içada. Não houve canções, hinos nada. Faltava o calor humano. Faltava um olhar carinhoso, faltava uma voz que unisse a todos outra vez. Ele pediu a palavra. O olharam como se fosse um estranho. Afinal agora era mesmo um estranho. Ele humildemente foi ao centro da ferradura, tentou olhar nos olhos de cada um para transmitir amor. Estava difícil, olhou para o céu e pediu ao Senhor seu Deus:
- Dá-me Senhor: um coração vigilante, que nenhum pensamento vil o afaste de ti; um coração nobre, que nenhum sentimento indigno o rebaixe; um coração reto, que nenhuma maldade desvie; um coração generoso para servir. Senhor que cada um de nós possa amar uns aos outros, que possamos aprender a sorrir, a cantar a dizer aleluia Senhor por uma graça alcançada.

                        Um sorriso de um Lobinho se espalhou no ar, os gritos de patrulha eram gostosamente gritados pelos escoteiros de uma maneira exemplar. Os seniores davam risadas e abraçavam-se entre si.  Agora eles contavam “causos” sorrindo e as guias aplaudindo. Um Chefe veio correndo abraçar outro Chefe chorando e pedindo perdão. Um zum zum se espalhou como o vento que sopra sem parar. Ele sorriu e olhou para o céu. Obrigado meu Deus pela graça que me destes. Permitiu-me fazer o meu melhor possível hoje E que eu almeje faze-lo ainda melhor amanhã. Ensina-me sempre que o dever, longe de ser um inimigo, é um amigo. Faça-me encarar até a mais desagradável tarefa, alegremente. Me dê fé para compreender o meu propósito nesta vida e abra minha mente para a verdade, e enche meu coração com amor. – Era hora de partir, ele sabia que ali tudo havia se alterado. Ele sabia que a cidade iria acompanhar, portanto era hora de voltar.


                           Fez questão de abraçar a cada um em particular. Seu aperto de mão era como se fosse fagulhas de amor e paz a jorrar no coração de cada um. No portão deu o último olhar. Viu uma Lobinha dizendo adeus. Ele sabia que aquele adeus e o sorriso sua alma precisava. Entrou em sua casa, uma pequena lágrima apareceu e correu pela sua face até desaparecer no chão que ele pisava. Agora era hora de partir, fechou as janelas, beijou um pequeno crucifixo que estava no quarto de sua mãe. Lembrou-se do seu sorriso que sempre lhe deu antes de partir. Saiu devagar pela Rua da Amizade, viu outra placa, tinham trocado. Passou pela praça e viu que se chamava Praça do Amor. Havia cheiro de perfume no ar, rosas sorriam para todos que passavam a praça cheia, o povo a cantar. Na saída uma nova placa dizia: - Bem vindos a Portal da Esperança. Um clarão azul claro o levou de uma só vez. Ele com um sorriso lembrou-se das palavras de um poeta: - Ainda que haja noite no coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão...     

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A saga de Rich, um lobo da matilha cinzenta.


Lendas Escoteiras.
A saga de Rich, um lobo da matilha cinzenta.

                       Ele chegou com sua família e conquistou a todos. Quem imaginaria que ele se tornaria quem se tornou? Era negro, assim como seus pais. Um porte altivo, sem um sorriso a nos olhar com bondade. Não sei se sentiu-se diferente ao ser apresentada a matilha. Contaram para ele a mística, como era a Jângal, como era a Gruta, lhe mostraram o bastão totem, gostou da Roca do Conselho e franziu a testa ao ver os lobos no Grande Uivo. – Seu dia vai chegar e você também estará saudando a todos, lhe disse a Kaa. Rick era obediente e disciplinado. Com três meses de atividade foi acantonar. Foi para ele uma das maiores aventuras de sua vida. Sentou-se com um lobo disciplinado na viagem e não se levantou. Uma tarde do segundo dia ele sumiu. Sua matilha o encontrou embaixo de uma frondosa árvore e parecia estar em transe com os olhos semicerrados a balançar a cabeça para frente e para trás. Quem o encontrou chamou o Balu que junto a Bagheera vieram correndo ver o que havia. O que se passou foi incrível. Rich passou a narrar trechos do Livro da Jângal:

               - Não me temam, disse Mowgly, eu sou amigo de vocês. Quando estive com Bagheera na encosta do morro frente à Waiganga, no fim do inverno vi um vale semi-deserto. Vi um pássaro cantando notas incertas tentando aprender para quando viesse à primavera. Bagheera lembrou que o tempo das Falas Novas está próximo e disse que precisava recordar o seu canto e se pôs a ronronar. Mowgly adorava as mudanças das estações. Ficava triste, porém porque os outros corriam para longe o deixando sozinho. - Em minutos toda a Alcateia sentou em sua volta e se encantaram com sua historia. Parecendo viver uma mística verdadeira, com os olhos fechados contava de uma maneira tão bondosa tão simples, que o melhor contador de historia teria ali um professor. Ninguém dizia uma só palavra. – Senhor da Jângal, sabe que eu tenho que viver sozinha – disse Bagheera olhando para Mowgly. Sabe que é na primavera que vou para todos os lugares, fazer coro com os outros animais, onde posso correr até o anoitecer e voltar ao amanhecer. – Sabe que é o tempo das Falas Novas, e eu faço parte de tudo. Mowgly sabia que naqueles tempos, via-os rosnando, uivando, gritando, piando, silvando e eram tão diferentes! Uma sensação de pura infelicidade o invadiu da cabeça aos pés. Mas se arrependeu.

                  Tratei mal a Bagheera e aos outros. Esta noite cruzarei as montanhas, e darei também uma corrida em plena primavera até os pantanais. Todos haviam partido. Só Mowgly ficou. Saiu sozinho aborrecido. Correu naquela noite, às vezes gritando, às vezes cantando. Correu até que o cheiro das flores no pantanal ao longe chegou a suas narinas. Avistou uma estrela bem baixa e lembrou-se do touro que lhe deu a Flor Vermelha. Akelá estava perplexa, todos estavam. Rich continuava sem prestar atenção a ninguém. - Raksha, nossa mãe também disse que o homem vai para o homem. E Akelá na noite do ataque dos Dholes, e também Kaa, a serpente da rocha. - lembrou Mowgly. E tu irmão Gris, que disse tu? – Eles te expulsaram uma vez. Disse o Lobo. Eles queriam te lançar na flor vermelha. Mandaram Buldeu te matar. São maus, insensatos. Foste admitido na Jângal por causa deles. - Para! Que estás dizendo? - - Lobo Gris respondeu - Filhote de homem, senhor da Jângal, filho de Raksha, meu irmão de caverna – O teu caminho é o meu caminho. A tua caça é a minha caça e tua luta de morte é a minha luta de morte.

                      Rich parou de narrar. Levantou, olhou para todos e saiu rumo à sede onde estavam acantonados. Todos suspiraram esperando o final da historia que não veio. A Embriaguez da Primavera sempre era contada por Bagheera. Mas não da maneira que Rich contava. Foi um acantonamento marcante. Rich não contou mais historias. Voltou como era e sempre foi. Calado, taciturno e amigo de todos. Um dia, Rich deixou sua matilha e foi sentar no primeiro degrau da escada que levava a biblioteca. Surpreendentemente começou a cantar músicas de um vasto repertório de Cantos Gregorianos (canto gregoriano é um gênero de música vocalmonódica de uma só melodia), não havia um Organum, não havia acompanhamento. Sua voz retumbava em todo o pátio para surpresa de todos.

                    Começou baixinho interpretando o “Veni Sancte Spiritus”, depois mais alto o “Lauda, Sion” e a “Ave, Maria... et benedictus”. Ninguém conhecia tais cânticos, mas eu tinha diversos CDs de canções Gregorianas. Parei, fiquei estático com aquele cântico tão bem interpretado por Rich. Conhecia todos eles. Sua voz, linda, maravilhosa, um verdadeiro Castrato, ou talvez um soprano, ou um mezo-soprano. Todo o Grupo Escoteiro parou suas atividades. Ficaram ali, embasbacados não acreditando no que viam ou ouviam. Rich não precisava de acompanhamento, uma orquestra. Durante mais de uma hora, Rich cantou maravilhando a todos. Não perguntou se podia, se aquela era à hora. Decidiu por si só. Não era para se exibir para os ouvintes ali sentados no chão. Ninguém tirava os olhos maravilhados com aquele lobinho de uniforme azul, com seu Boné azul, seu lenço verde e amarelo, sorrindo para todos. Era a primeira vez que sorria. Isto foi surpreendente.

                    Foi mesmo uma apresentação primorosa. Todos ficaram fascinados por aquele lobinho. Foram surpreendidos, pois nunca esperavam que isto pudesse acontecer com eles. Rich não tinha hora ou lugar para contar uma historia ou cantar. Isto vinha naturalmente. Continuou na Alcatéia por muitos anos, foi Lobinho Cruzeiro do Sul. Espontaneamente resolvia cantar e ou contar historias. Quando isto acontecia, todos acorriam. Ele passou para a Tropa escoteira, e nos seniores abandonou o escotismo. Seu pai fora trabalhar em outra cidade e ele foi junto. No seu ultimo dia sem ninguém esperar foi ao centro da ferradura e cantou maravilhosamente a Canção da Despedida. Cantou simplesmente. Não houve mãos entrelaçadas, ele cantou sozinho, pois todos ali naquele círculo não tirava os olhos dele. No final as lagrimas apareceram e os soluços também. Seus pais que estavam presentes sorriam. Quando terminou todos acorreram para abraçá-lo. Ninguem nunca mais esqueceu aquele dia.

                Rick se foi e os anos se passaram. A Alcatéia colocou sua foto e seu feito quando era Lobinho na Gruta e na Roca do Conselho. Ficou ao lado de tantos outros famosos como Balu, Bagheera, Kaa... Pelos motivos que o destino nos reserva a qualquer tempo, eu ganhei dois ingressos para assistir a ópera O Elixir do Amor “Una Furtiva Lagrima” no Teatro Municipal. Fui com minha esposa e ali estava nada mais nada menos que um grande Tenor famoso e que eu nunca poderia imaginar quem seria. Surpresa. Era Rich, agora com o nome de Boono Lastimer. Interpretou com tanto sentimento que apesar de não conhecer Enrico Caruso, o mais famoso interprete desta opera, Rich nada ficou a dever, foi aplaudido de pé, por mais de cinco minutos.


              Tentei me aproximar de seu camarim. Impossível. Ele não reconheceu meu nome. Claro, nossa intimidade escoteira foi por pouco tempo. Acompanhei por muitos anos a carreira de Rich. Foi convidado a cantar no Teatro La Scala de Milão na Itália e por lá ficou por vários anos. Soube que a sua turnê pela Europa e América fizeram retumbante sucesso. Ah vida, quem sabe de você? Quem sabe nosso destino? Nunca me esqueci de Rich. Quando penso nele me lembro das palavras de Kaa que na sua nobreza de serpente sempre disse – Somos do mesmo sangue, tu e eu!  

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....