sexta-feira, 6 de maio de 2016

Tonico Tonelada um Escoteiro peso pesado.



Lendas escoteiras.
Tonico Tonelada um Escoteiro peso pesado.

                       A cidade de Ouro Fino era pequena para ele. Se ele andasse no passeio os outros tinham de ir para a rua. O chamaram de tudo. Gordão, baleia, Jamanta, mas o que pegou mesmo foi Tonico Tonelada. Seu nome era Antonio Maquete de Marisia.  Nasceu com doze quilos e meio. Até o berçário foi improvisado. Interessante que sua mãe era magrinha e seu pai um pouco avantajado, mas com a barriga. Não teve irmãos. Eram classe media e não faltava nada para ele. Com o passar dos anos chegou a pesar 90 quilos aos seis anos. Comia feito um esfomeado. Andava com um bornal cheio de doces, chocolates, biscoitos e muitos lanches salgado que Marinalva a empregada fazia para ele. Seu pai e sua mãe eram proprietários de uma pequena fábrica de parafusos que ia de vendo em popa. Alem do mercado interno agora estavam exportando para muitos países do além mar.

                      Quando fez quatro anos ele passou nas mãos de vários médicos. Cada um tentando isto e aquilo e nada. Foi quatro vezes internado num Spá. Sempre a noite causava o maior reboliço por falta de comida. Desistiram. Na escola uma carteira especial foi improvisada. Demorava em sentar e levantar e no recreio sentava em uns tocos embaixo de um abacateiro e comia e comia. Aos seis e meio pediu para matricular nos escoteiros. Chefe Joasem assustou. E agora meu Deus! Pensou. Nunca deixou um menino chorando do lado de fora. Mas aquele não era só um menino. Era uma carreta de vinte toneladas com vinte e quatro rodas! Chamou o Akelá, o Balu a Bagheera e Hathi. Eles levaram um susto. Como fazê-lo entrar em uma matilha? Como seria recebido? E os jogos? Ele não podia correr, não tinha agilidade, mas negar a entrada?

                    Tonico Tonelada entrou para os lobinhos. Sorria sem parar. Agora seria alguém. Falou com Marcelinho primo da sua matilha que ele não iria se envergonhar dele. Pela primeira vez não levou seu bornal de doces e quitutes. Pediu a Marinalva que não preparasse mais nada para ele. Na primeira reunião estava com 110 quilos. Em dois meses com 100 quilos. Em um ano com 80. Mas ficou fraco, muito fraco. No acantonamento em Joaçalva, um sitio do pai de um lobinho ele desmaiou. Foi duro para carregá-lo. Mas Tonico Tonelada não desanimava. Tonico Tonelada era outro. Chegou aos 68 quilos aos dez anos. Tentou o Cruzeiro do Sul, mas acharam que ele não estava preparado. Ele não acreditava nisto. Fez tudo que era pedido. Já andava com mais agilidade. Mas a tristeza de não conseguir o distintivo o desanimou. Passou para a Tropa Escoteira com 65 quilos. Começou a engordar novamente. Joubert seu Monitor não gostava dele. Nenhuma Patrulha o queria e só os Panteras em votação o aceitaram. Pudera, eram cinco e todos novos inclusive o Monitor.

                      Durante cinco meses Tonico Tonelada sofreu nas mãos dos patrulheiros. No acampamento em Campo Novo prepararam para ele uma armadilha. O levaram em uma garganta fechada e ele conseguiu a custo passar, mas no retorno não. Ficou engastalhado entre duas pedras. Depois de muitas risadas a Patrulha viu que o assunto era sério. Com medo do Chefe chamaram a Gavião para ajudar. O Chefe Joubert desconfiou e foi atrás. Com uma corda por cima conseguiram retirá-lo, mas com muitas feridas. Chamou a atenção de todos. Tonico Tonelada não acusou ninguém. Disse que ou se é amigo de todos e irmão dos demais ou não se é nada. Não se trai um patrulheiro irmão. Escoteiros não são dedo duro! Com suas palavras passaram a olhar para ele com outros olhos.

                      Tonico Tonelada tinha um sonho. Ser Escoteiro Lis de Ouro. Ninguém acreditou nele. O Máximo que poderia conseguir seria o Cordão Verde Amarelo. Aos doze anos não teve jeito. Entregaram para ele o Distintivo especial. Quando ia fazer treze lá estava ele recebe o Vermelho e Branco. Esmerava-se nas especialidades e já possuía doze e se preparando para a de primeiros socorros nível II. O vermelho e branco não teve dificuldade. Com as doze especialidades e a de cozinheiro e acampador nível II viu que em breve seria um Lis de Ouro. Entrou com o pedido na Corte de Honra. Ela não teve como dizer não. Sua chefia ficou em duvida, mas Tonico Tonelada voltou aos 75 quilos. Seu corpo modificava. Agora já não parecia gordo, mas incrivelmente forte. Cresceu muito e sua altura com quatorze anos já era de um metro de setenta e seis.

                      Tonico Tonelada não perdia tempo. Fez seu projeto individual, as especialidades requeridas e já tinha a IMMA (Insígnia Mundial do Meio Ambiente). Tirou de letra os 36 conjuntos de etapas de progressão rumo e travessia. Dito e feito. Todos boquiabertos. Tonico Tonelada, o gordão, o Jamanta era o primeiro Escoteiro a receber o Liz de Ouro no Grupo. Fato inédito. Na data da entrega foi uma festa. Seus pais contrataram um bufê caríssimo para receber seus amigos naquele sábado à noite. A cerimonia de entrega na Arena da Bandeira foi uma apoteose. Linda. Todo o grupo presente. O Comissário Distrital também.


                        Tonico Tonelada se tornou um modelo para todos os escoteiros que um dia acharam que ele não iria conseguir nada. Conseguiu. Sei que hoje ele é um radialista. Montou uma emissora em sua cidade. ZYW. 120. Cresceu e montou varias outras rádios em outras em cidades vizinhas. Um homem de sucesso. Ameaçou comprar a Rede Globo. Nunca acreditei nisto. Risos. Sei que continua Escoteiro. Agora é Diretor Técnico do Grupo onde começou. A cidade de Ouro Fino e as demais da região faziam o povo todo correrem todas as tardes para ouvirem Tonico Tonelada dizer: - “Esta é a Radio Tonelada, falando de Ouro Fino para o Brasil e para o Mundo; Alerta Escoteiros do Brasil”!

A Sentinela.


Conversa ao Pé do Fogo.
A Sentinela.

                     Houve um tempo que não existe mais, tempo  da sentinela, do vigia, do guarda, do vigilante o olheiro ou como queiram chamar. Quem foi Escoteiro ou Sênior têm sempre uma boa história para contar das noites frias de inverno ou nas quentes do verão. Ficar de sentinela, muitas vezes era osso duro de roer. Os causos a beira de uma conversa ao pé do fogo ou mesmo uma montagem de um esquete no fogo de conselho a contar como enfrentamos nas noites escuras, armados de facão e bastão, um apito brejeiro a espera do ataque que não vinha. Era como viver o mocinho nas pradarias a ver se algum índio iria chegar para atacar o comboio das carroças e carruagens que desbravam trilhas e estradas do oeste selvagem. A mocinha dentro da carroça a dormir, o índio que sorrateiramente chegava rastejando, um tiro no ar e o ataque mortal.

                     Tivemos muitos jovens escoteiros, ou mesmo seniores batutas nas lides a espera de uma boa briga com os Coyotes ou os selvagens com seus tacapes mortais. A patrulha no seu campo antes de dormir o monitor gritava Vado o primeiro turno é seu! Nossa! Quanta importância era ser o primeiro. Todos iam dormir. Eu ali em pé rodando em volta da barraca, vendo a cada sombra um inimigo, uma vontade enorme de apitar o S.O.S aquele Velho código universal de socorro, utilizado para alertar quando alguém se aproximava. Conheci um Escoteiro que era metido a valente e no terceiro turno diz que viu um gigante se aproximando do campo de patrulha e se pôs a apitar feito um louco até que a patrulha toda acordada queria saber onde estava o gigante. Nada menos que um pequeno galho no escuro da noite ao sabor do vento subia e descia naqueles troncos fortes que não o deixavam cair.

                      E quantos valentes sentinelas, tremendo, com pensamentos aventureiros, pediam a Deus que invadissem o acampamento para que ele pudesse salvar a patrulha ou a Tropa da invasão do inimigo?  Estes a gente se divertia, o sol chegando, o terceiro e o quarto turno não chamados e ele o segundo turno dormindo abraçado a um tronco em volta de uma foguito já imberbe e acabado. Foi-se o tempo. A aventura acabou. Ainda existem Sentinelas? Guardas? Vigias? Vigilantes e afins? Acho que não. Olhar ao longe, ver o triscar de um galho pisado, sentir o cheiro trazido pelo vento, orelhas em pé olhos arregalados ouvindo sons imagináveis para depois contar aos escoteiros de aventuras que eles podiam dormir em paz. Se fosse hoje seria fácil atacar o acampamento. A maioria vidrado no seu celular sem sabe o que acontece em sua volta.  

                     O meu maior causo de sentinela aconteceu com um famoso batalhão do Tiro de Guerra da minha cidade. Um sargentão valente, jovens crescidos brincando de soldados, fuzil no ombro a marchar o sargentão gritando: - O que? Eles respondiam: Soldados do Brasil! Onde? Eles respondiam: Nas matas do Brasil! A gente menino Escoteiro ou Sênior a admirar os periquitos verdes sabendo que iriam guardar nossas fronteiras do inimigo se aparecer. Nunca esqueci o fato, o relato, o conto que garanto ser verdade e que passo agora a narrar. Perguntem ao Rael, Taozinho, Fumanchu ou mesmo ao Darci. Foi demais. Acampados acima da Ponte de São Raimundo, as margens do Rio Doce, nas quebradas do Iguaçu, um conjunto de belas tocas ou cavernas que o rio quando caudaloso construiu. Dava para dormir folgado, sem armar barracas e moitas de bambus se oferecendo para serem cortadas e construídas belas pioneiras da vida.

                      Lá estávamos nós, a Patrulha Sênior, nos divertindo, nadando no rio, alguns construindo um pesqueiro com lascas de bambus na curva do rio em um belo remanso, para pescar uns piaus, quem sabe um dourado ou mesmo um surubim que habitavam naquela época a bacia do Rio Doce. Hoje um monte de lama que alguns irresponsáveis deixaram um desastre acontecer. Tudo corria a contento, e eis que surgiu o batalhão de soldados do Tiro de Guerra. Paramos para ver a soldadesca montar suas barracas. O sargento Nonato no alto do seu bigodão gritava sem parar. Se era incentivo não sei, mas palavrões se jogavam no ar. À tardinha chegou um caminhão com a comida da macacada, ou melhor, dos periquitos verdes. Chamá-lo de periquito era uma desonra. Briga na certa. Soubemos que o famoso Capitão Joquinha prendia nas celas do quartel.

                     Darci veio correndo avisar que tinha encontrado uma bela abobora amarela das grandes. Era grande mesmo. Fizemos uma maca para trazê-la para o acampamento. O plano era simples e conhecido. Ficamos a tarde toda preparando. Com calma para não cortar no lugar errado. As seis ela estava no ponto. Toda limpa por dentro, uma pequena tampa em cima que só cabia uma mão, na frente boca de com dentes pontiagudos, olhos enormes e vista de longe era uma feiticeira má que iria atacar sem dó e sem piedade. Três velas em pontos escolhidos com folhas verdes para a fumaça e às onze e quarenta da noite acendemos as velas e eu mesmo nadei até parte do rio mais profunda. A correnteza não era tão forte assim. Em menos de cinco minutos ela passaria em frente ao acampamento dos soldados do Brasil. Dito e feito. Jacinto conhecido com Jacu estava de guarda. Apoitamos no alto do morro para ver os acontecimentos.

                    O primeiro tiro depois outro e a soldadesca dormindo acordou e cada um pegou seu fuzil e atirou como nunca. Gritavam sem parar: - É o capeta! É o Demônio! Deus do céu, de onde surgiu este satanás? Tiros e tiros. Gideão pegou a metralhadora ponto 30 e abriu fogo na pobre abobora que nem sei quantos tiros recebeu. O Sargento Nonato no alto de seu porte de machão deu um belo tiro e a abobora se partiu afundando. Corremos para o acampamento e dormimos o sono dos anjos. Duas semanas depois na reunião de sede eis que no portão o Capitão Joquinha, na sua pose de General adentrou sede adentro. Chamou o Chefe João Soldado. Ele olhando para nós. Mãe do céu, lá vem encrenca da boa. Dito e feito. Fomos chamados e perfilados em linha na posição de sentido na frente do capitão. Ele no alto de sua pose de General nos olhou de cima em baixo, passeou em frente de cada um olhou cabelo, chapéu, nariz e sapato engraxado. Seus olhos choviam chispas vermelhas.

- Patrulha Pelicano? – Sim senhor Capitão!
- Foram vocês que aprontaram com o exército brasileiro? – Sim senhor capitão!
- Se acham os tais e os melhores escoteiros do Brasil? – Sim senhor capitão.
- Então foram seis merdinhas que nem saíram das fraldas e botaram as forças armadas do Brasil para correr? – Ninguem disse nada. A coisa engrossava.
Ele começou a rir, depois gargalhava. A gente sem saber o que fazer começou a rir também. A cidade ficou sabendo e em cada ponto em cada esquina ou barbearia não se falava outra coisa: - Os escoteiros do Brasil botaram para correr o Exercito do Brasil!  

Bem, parte verdade. Posso jurar. Mas histórias são histórias, outro dia tenho outra para contar. Kkkkkk.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Dakota, um Chefe de coração de ouro.


Lendas Escoteiras.
Dakota, um Chefe de coração de ouro.

                           - Calma Mariza, no final tudo vai dar certo! - Certo? Falou Mariza. – Desde quando você paga taxa de acampamento para treze meninos e gasta quase toda nossa economia para o mês e ainda vem dizer que vai dar certo? – Chefe Dakota pôs as barbas de molho apesar de não ter barba. Ele sabia que não seria fácil conseguir o que gastou para as compras do mês. Mas o fazer? Sua tropa tinha trinta Escoteiros e somente dezessete pagaram a taxa. Ele sempre dizia – Ou vão todos ou não vai ninguém. Era o acampamento do ano, mais de trinta patrulhas presente, não podiam faltar. – Pois é Dakota, não é a primeira vez. Antes era um ou dois agora são treze meu amor. Como vamos viver? Naquele dia saiu mais cedo de casa para o trabalho, ele queria pensar uma solução para os dois lados. Mariza tinha razão, mas e os Escoteiros que não iriam? Ele teria condição de dizer a eles que não conseguiu?

                             Seguia a pé pela Rua dos Aimorés pensativo. Pensativo iria atender ao Chamado do Senhor Nacano. Pai de Pirilampo escoteiro da patrulha Quati e era gerente do banco do Comércio da cidade. Recebeu um recado para passar no banco sem demora. Sabia que ele iria oferecer um emprego, mas duvida cruel, pois nunca pensou em ser favorecido pelo escotismo. Ele não era rico, trabalhava com o Chefe Mosquete e nem sempre tinha trabalho. Faziam bicos, limpeza de fossas, limpeza de telhados, pintura simples nas casas e assim ia vivendo. Queria um emprego melhor, mas ali em Pedra Azul ele nunca iria conseguir. Deveria ir ao banco? Pensou em ir morar na capital, mas deixar a cidade que amava? Ir para um lugar que ele não conhecia para fazer o que? Ouviu alguém gritar Sempre Alerta e viu Jonildo Escoteiro da Pantera indo para casa após as aulas. Chefe Dakota sorriu e respondeu. Amava aquela Tropa e os meninos dela. Amava também Marilda. Casaram-se há poucos anos. Ela com dezesseis e ele com vinte e um. Sabia que apesar de tudo ele podia contar com ela. Apesar de não ter aceito ser chefe pelo menos gostava dos meninos que quase todos os dias enchiam sua casa para papos que se estendiam até a noite.

                           Na esquina com a Rua Floriano Peixoto ele viu a patrulha Águia já uniformizada seguindo para sua boa ação da semana. Todos o cumprimentaram e seguiram em frente. Chefe Dakota sorriu. Como posso deixar esta turma? É minha vida, minha razão de ser. Ele amava o escotismo de uma maneira tão intensa que muitos diziam que ele não ia num bom caminho. – Tem que dosar um pouco Chefe Dakota dizia Manfredo, o Presidente do grupo – precisa pensar um pouco em você! Bom sujeito, mas muito pão duro. Como Presidente devia ver as dificuldades que estavam passando e ajudar. Chefe Dakota nunca fora Escoteiro. A cidade não tinha um grupo. Cinco anos atrás começaram um. Sempre sonhou em ser um e pediu para entrar. Com dezesseis anos não dava. Não tinham tropa sênior. Todos os sábados ia para a sede ver a correria, das patrulhas. Amava aquilo e dormia pensando em vestir sua calça curta, por seu lenço e seu chapéu, uma bandeira e correr para as montanhas.

                          Quando fez dezoito anos foi aceito como assistente. Chefe Jacob ficou em duvida e disse para voltar na outra semana. Ele sabia que Dakota só tinha o segundo grau e não tinha emprego fixo. Dakota esperou a semana como se fosse sua última no mundo. Subiu as nuvens quando Chefe Jacob o aceitou. Dakota agora era Chefe. Prometeu a si mesmo mudar de vida, encontrar um emprego, estudar e mostrar aos Escoteiros que ele podia ser alguém e dele orgulhar. Mas não foi bem isto que aconteceu. Não arrumava emprego e nem estudou. A cidade não tinha escola profissional e filho de gente humilde ganhando pouco não podiam pagar. Um dia Chefe Mosquete o chamou para ser seu ajudante e ele aceitou. No mês que tirou dois mil reais achou que podia casar e casou. Todos foram contra – Chefe Dakota! Você tem 21 anos e a Mariza 16! Porque não esperar? Dakota disse não. Amava Mariza e achou que casado os pais dos escoteiros o olhariam com mais respeito.

                   Esperou o farol abrir para atravessar a Rua Santo Ângelo. Resolveu ir ao banco. Seria indelicado não ir. Ele gostava de Pirilampo. Um Escoteiro avoado, sorridente e que topava qualquer parada. Lembrou a jornada ao Vale da Tartaruga Pirilampo quando quase morreu. As patrulhas andavam a vontade na estrada sem movimento e deixava que todos pudessem conversar observar a natureza, ouvir o cantar dos pássaros e descobrir pegadas. A turma adorava estas jornadas. Na curva do Cavalo Doido foi que a tragédia quase aconteceu. Dois Touros Guzerá cismaram com a escoteirada. Um deles partiu direto em cima de Pirilampo. Ele viu que se não interferisse uma tragédia ia acontecer. Tomou o bastão de Gentil e correu em cima do Touro. Enfiou a ponteira de aço no meio dos olhos do touro. Foi no ponto certo. O Touro caiu morto. O Senhor Nacano fez questão de pagar pelo Touro ao Fazendeiro Totonho. Ficou agradecido ao Chefe Dakota e agora o havia chamado. Ele sabia que era por causa do acidente. Ele sabia que fez o que qualquer Escoteiro faria.

                   Entrou no Banco ressabiado. Estava cheio e pediu a moça para falar com o Senhor Nacano. Ele veio sorridente a abraçar o Chefe Dakota – Dakota meu amigo, você vai trabalhar aqui. Tenho uma vaga para você com excelente salário. Dakota não se fez de rogado. Precisava e aceitou. Iria mostrar que era capaz não só por gratidão por ter salvado da morte o filho do Senhor Nacano. – “Todo mundo no chão”! - Alguém gritou. Um tiro para o ar e todos deitaram. Um assalto pensou Dakota. – Um bandido chegou à escopeta na testa do Senhor Nacano. – Tem cinco segundos para abrir o cofre – um, dois, três... Chefe Dakota no alto dos seus vinte e um anos, casado, sem filhos, mas que adorava o escotismo levantou de um salto, tomou a escopeta do bandido e com ela bateu em sua cabeça. O Bandido caiu e outro estampido se ouviu. Uma mancha vermelha em cima da blusa de corisco apareceu. Um tiro fatal.


                    A cidade em peso acorreu na cerimonia fúnebre. Uma cerimonia do Adeus. Não houve o toque do silencio e até esqueceram-se de cantar a canção da despedida. Centenas de pessoas se acotovelaram em volta da Campa simples. Marisa em pé chorava baixinho. O Senhor Nacano engasgado não sabia o que dizer. Padre Tomaz rezou o que tinha de rezar. A escoteirada chorando sem parar. A vida é assim, do nada se vive e do nada se morre. Adeus Dakota, a cidade em pouco tempo vai se esquecer de você. Você não era nada e mesmo virando um herói de nada valeu. Valeu ou não cinquenta anos depois Marisa ainda rezava todos os dias e depositava flores na última morada de Dakota. Ao levantar ela não deixava de ler o que escreveram para ele em uma placa de bronze – Escoteiro eu fui, Escoteiro eu serei até morrer!            

terça-feira, 3 de maio de 2016

Um grande amor para recordar.


Lendas Escoteiras.
Um grande amor para recordar.

                      A patrulha não tinha simpatia por ele. Por qualquer motivo fazia desafios, queria brigar, falava palavrões e Joshua o monitor da Coruja perdeu a conta de quantas vezes o levou a Corte de Honra. Theo não se importava, para ele tanto faz ficar como sair. Sabia que no fundo amava o escotismo. Era uma válvula de escape para seu estilo belicoso e sua própria Avó sempre o aconselhara, mas ele nunca prestou atenção. Aos doze anos se tornou um dos mais perfeitos e perfeccionista construtor de pioneirías. Parecia que sempre fizera o mesmo, mas sabiam que ele nunca foi de Grupo Escoteiro algum. No campo era o lugar onde se sentia bem. Não ligava muito para o espírito de patrulha. Queria ter liberdade de ir e vir, buscar um bambu, uma vara de qualquer madeira nas matas ao redor. As demais patrulhas admiravam o campo da Coruja. Sempre perfeito. Chegavam e em pouco tempo tinham um fogão suspenso, uma mesa e bancos para sentar.

                     Theo tinha seu próprio facão, sua própria machadinha e não gostava de usar sisal. – Melhor um bom cipó trançado ou não, verde ainda, pois daria mais segurança e um aspecto mateiro – Dizia. Quem sabe era isto que salvava Theo de ser desligado do grupo. Para o Chefe Volante tanto fazia ele ficar ou não. Fazia seu trabalho com os rapazes e não era daquele de se interessar por um individualmente. Theo era bom em artimanhas e engenhocas. Suas fossas com tampas fáceis de abrir eram conhecidas por todos que acamparam com ele. Um dia retirou em um pequeno poço que fez atrás do campo água potável através de encanamentos de bambus e uma pequena bomba d’água feita com madeira de lei. Foi um sucesso. Isto deu aos Corujas uma fama que poucos tinham nos campos de patrulha.

                   Theo continuou mal educado. Nunca foi prestativo. Quando lhe diziam da Lei do Escoteiro sorria e dizia: - Ela não enche barriga! Pelo que os seus amigos de patrulha sabiam ele nunca fez uma boa ação. Na formatura não respeitava o garbo, se mexia, fingia dormir e escorar no Escoteiro da frente. Nonô o Cozinheiro nunca teve sua ajuda. Ele só se importava com suas pioneirías e mais nada. Ficava o tempo todo com o facão na mão a imaginar o que construir. Seu Catavento foi sucesso. Seu WC é comentado até hoje.  Ao quatorze anos Theo pensou em sair do Escoteiro. Não estava mais motivado. Nesta época fundaram a primeira Tropa feminina no Grupo Escoteiro. No primeiro dia todos acorreram para ver as novas Escoteiras. Ficaram sorrindo quando a Chefe formou as patrulhas e deu liberdade para elas escolherem o grito e o nome. Theo de longe nem olhava. Não tinha nada contra, mas também não iria paparicar ninguém.

                       No término da reunião ia pensativo pela Rua das Acácias quando sentiu uma mão em seu ombro. Olhou surpreso, pois nunca deu esta liberdade a ninguém. Era Jovita, uma menina morena que acabara de se matricular na Tropa Feminina. Jovita não era bonita, simpática talvez, mas tinha uma voz encantadora. – Posso ir com você? Moramos no mesmo quarteirão. Eu já o vi várias vezes ela disse. Theo não disse nada e continuou seu caminho. Jovita ao seu lado falava, falava e falava. Parecia uma maritaca a matraquear. Queria saber de tudo, queria conhecer um acampamento, queria fazer as provas e deu um belo sorriso quando disse que em breve seria Lis de Ouro. Theo sem perceber sentiu que estava gostando da companhia dela. Nunca fora amiga de nenhuma menina, nunca pensou em namorar apesar dos seus quatorze anos.

                     Agora eles se encontravam todos os dias. Depois da escola, a noite no bairro, ficou amigo de Dona Aurora mãe de Jovita. Em pouco tempo estavam namorando e ele nem sabia o que era isto. Nunca deu um beijo em Jovita. Quando pegou em sua mão pela primeira vez sentiu um calafrio na espinha. Não quis lavar a mão. Só queria sentir o perfume que ela deixou. Uma mudança radical se deu em Theo. A patrulha não estava acreditando. – O que houve? Pensava Joshua o monitor da Coruja. Theo agora era educado, prestativo, sempre se oferecendo para ajudar. No primeiro acampamento com as Escoteiras pediu ao monitor se podia ensinar e colaborar com as Escoteiras nas pioneiras de campo. Consultado o Chefe Volante disse não. Theo não se revoltou. Um amor incrível surgiu entre Theo e Jovita. Um dia depois da reunião na Praça Santo Antonio eles se sentaram em um banco e ele deu seu primeiro beijo.

                       Foi demais para ele. Não sabia que o primeiro beijo com amor é como provar uma fruta sem saber o gosto e sentir o sabor incomparável querendo prová-la cada vez mais até que ela se tornasse seu sustento. Não dormiu naquela noite. Sentado em sua cama não parava de sonhar. Sonhava com uma casinha pequenina, branca, janelas azuis, portão de madeira e cheia de flores em volta. Ah! Estes meninos escoteiros quando descobrem o primeiro amor. Ele e ela sempre juntos, a cidade admirava aqueles jovens ainda imberbes sem nenhuma experiência, mas respeitosos e aprendendo o que o verdadeiro amor pode fazer na vida de cada um. A vida, no entanto não é um mar de rosas. Da noite para o dia o Pai de Jovita apareceu. Estava desaparecido e ninguém sabia que passou uma boa temporada na prisão.

                      Não gostou do que viu. Ameaçou Theo. Se ele não se afastasse alguém iria encontrá-lo cheio de cupim em uma cova rasa qualquer no Morro do Avestruz. O que fazer? Resolveu fugir. Com dezesseis anos não tinha nada. Nem dinheiro para ônibus trem tinha. Combinou com Jovita fugirem para longe. Ela preparou sua mochila, roubou alguns víveres e ele fez o mesmo. No sábado despediu de sua patrulha e ninguém entendeu nada. Só dois dias depois a cidade ficou sabendo que os dois fugiram. O pai de Jovita correu céus e terra atrás deles. Jurou matar a ambos. Dois meses depois o encontram morto na estrada do Chapecó com uma lança de madeira pontiaguda no coração. Quem foi e porque nunca souberam. Ninguém nunca mais ouviu falar dos dois. Sumiram no mundo como se fossem nuvens que se desmancham no ar.

                       A vida nos reserva surpresa. Uns dizem que é destino outros que são escolhas e os mais religiosos que são histórias de Deus. Joshua agora com 25 anos, formado como engenheiro civil um dia recebeu a visita de um alto diretor de uma empresa nova que se destacava pelos preços baixos de materiais de construção. Na sala de reunião havia um homem e uma mulher. Ele olhou bem, sorriu e fingiu não reconhecer. Falaram por horas, discutiram preços e na saída dos dois Joshua quando os dois alcançavam a porta de saída gritou sem ser impertinente: - Obrigado Theo e Jovita. Sempre Alerta, que Deus faça de vocês o casal mais feliz deste mundo!


                         Escotismo é assim, um caminho que se bem escolhido leva a felicidade. Se me disserem que o que o que se faz aqui se paga, Theo e Jovita pagaram pouco para serem felizes. Que eles consigam continuar assim por toda a vida afinal, a gratidão é a memória do coração!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Lendas Escoteiras. “Gigante”.


Lendas Escoteiras.
“Gigante”.

              “Gigante”? Never, nunca, não passava de um quase anão. Bem era um pouco maior, mas todos olhavam para ele com cara de piedade. Laredo da Paz vivia sorrindo. Sua face, sua maneira era de um pequeno grande homem que nunca fez ou desejou mal a ninguém. Sua mãe morreu no parto e seu pai quando o viu sumiu de Morro Vermelho. Afinal que iria querer cuidar de um menino que nasceu assim? Coitado. Nasceu com síndrome de Down e isto afugentou boa parte da população do seu convívio que desconhecia esta característica e achou que era uma aberração da natureza. Nem sabiam que elas apresentam personalidades e características diferentes e únicas. Quem ia dizer para elas que Síndrome de Down se bem cuidada pode alcançar excelentes capacidades pessoais de desenvolvimento, de realização e autonomia. São entes que são capazes de sentir, amar, aprender, divertir e trabalhar. Iria aprender facilmente a ler e escrever e pode tranquilamente levar uma vida autônoma. Sem sombra de dúvida pode ocupar seu lugar próprio e digno na sociedade.

                    Mas quem em Morro Vermelho sabia disto naquela época? Sua Avó já quase cega o levou para casa. Cuidou, deu carinho amor e tudo que ela podia dar com os parcos salários que recebia de aposentadoria. Laredo cresceu como um excluído, exilado ou um Pariá que ninguém queria se aproximar. Aos quinze anos viram que ele não era um perigo para a sociedade. Mesmo excluído de amigos da sua idade ele sorria, nunca fez nenhum mal a ninguém. Era aquele que senta lá atrás na sala de aula e nunca reclamou. Aos vinte anos sua Avó faleceu. Ficou só e não sabia como sobreviver. Tentou de tudo, mas ninguém lhe deu uma oportunidade. Foi Dona Ana que acreditou e o levou para ajudante em sua vendinha na esquina da Rua do Contador. Recebia uma migalha, mas não reclamava. Os “fregueses” gostavam dele. Educado prestativo e sempre com um sorriso seu atendimento era o melhor que podiam encontrar.

                     Substantivo e Adverbio monitor e Submonitor da Patrulha Garça discutiam o futuro da patrulha e da Tropa. Chefe Corel ficou muito doente. Diziam que era câncer e que em breve ele iria “bater as botas”. Era um Chefe não muito amado pela Tropa escoteira. Prepotente, gritante se julgava o melhor e sempre falando que todos deviam seguir seu exemplo. Pelo sim pelo não a Tropa não chorou sua partida para tratar na capital. Agora estavam sem Chefe. A Corte de Honra se reunia todas as semanas atrás de uma solução. Seu Domingos presidente da Diretoria disse que sem Chefe eles não poderiam ficar. Ele iria fechar o Grupo. A Alcatéia de lobos já tinha acabado por falta de chefes. Ninguem queria assumir. Parecia uma maldição em ver de uma graça para alguém liderar jovens em sua formação moral e ética. Por quê? Bem o escotismo desde sua fundação pelo Sargento Cacildo nunca foi bem visto. Uma história que ninguém queria contar.

                    Substantivo andava pela cidade chorando e pedindo a Deus que os ajudasse. Sentou em uma calçada e começou a passar mal. Filho de imigrantes Japoneses nunca foi bem aceito pelos matutos de Morro Vermelho – Dizem que são “camicases”, dizia Bonfá o barbeiro. Ele nem sabia o que eram camicases. Caiu na calçada e ninguém correu para ajudar. Gigante passava na hora. O pegou no colo e levou para sua casa. Deu-lhe um refresco de groselha, lavou sua testa com agua fria e a respiração de Substantivo voltou ao normal. Era apenas uma insolação e a fresca água e sombra foi um perfeito remédio. Surgiu daí uma grande amizade. Substantivo pensou: - Porque ele não poderia ser nosso Chefe? Levou a ideia para a patrulha e a Tropa. Todos se espantaram. - Ele? Não dizem que é irmão do capeta? Disse Parafuso. Pelo sim pelo não aceitaram a visita de Gigante em um sábado para conhecerem melhor.

                    No dia 16 de maio de 1956 a Tropa o empossou como Chefe da Tropa. Como? Poderão perguntar. Não sei. Seu Domingos presidente nem ligava mais para o Grupo que só tinha uma Tropa e nem Chefe tinha. - Quem se importa? Pensou. Seis meses depois chegou impoluto com banca de chefão um homem que se dizia representante do Escotismo nacional. – Ele não pode ficar! Não tem curso, nem ler sabe e é um doente, uma aberração da natureza! Gigante no alto da sua humildade disse que sabia ler e escrever e era irmão e amigo de todos nunca uma aberração. Sabia matemática, português, e estava aprendendo filosofia. O Grande Chefe da capital riu. – Não quero saber. Fora daqui! Enfrentou a ira de 30 escoteiros com seus bastões prontos para agredi-lo. Saiu correndo e nunca mais voltou. A cidade riu quando soube de tudo. Orgulhou-se dos seus meninos e bateu palmas para Gigante que não levantou uma mão para agredir ou machucar alguém.

                       Passaram quinze anos. Muitos dos meninos daquela Tropa viraram homens feitos. Alguns foram embora para tentar uma faculdade, outros arrumaram emprego e até mesmo Zé Dedão um antigo cozinheiro se casou e se tornou um grande industrial da cidade. Mosca Branca o intendente dos Touros se formou “Devogado” e voltou juiz de direito. Morro Vermelho hoje se sente orgulhosa com seus mais de 140 escoteiros e lobinhos. Na escola quando da matrícula perguntam: - É Escoteiro? Nada contra, qualquer um pode entrar sendo Escoteiro ou não, mas todos os escoteiros sorriam mais, alegravam mais, eram mais corteses e educados e bons estudantes.  O melhor mesmo é Gigante. Tirou o segundo grau, e não quis continuar estudando. Deu sua vida pelo Grupo Escoteiro. Era seu amor sua paixão. A meninada adorava seu Chefe. Hoje tem muitos oriundos daquela época, mas Gigante nunca quis ser o chefão do grupo. Boticário o Monitor mais antigo assumiu a chefia do Grupo. Não faz nada sem primeiro consultar Gigante.


                      Bem, as coisas são assim mesmo e eu não aconselho a todos seguirem o mesmo caminho. O Grupo nunca se registrou. Tentaram processos de todos os tipos para fechá-lo. Mosca Branca o Juiz ria e dizia – Que eles se preparem para uma boa luta do Scalp! Gigante continua na vendinha de Dona Ana. Agora são sócios. Dona Ana quase não aparece. A vendinha cresceu e muitos aconselham Gigante a construir um Super Mercado. – Eu? Nunca meus amigos. Sou feliz assim e porque mudar? Nada como descobrir o caminho da felicidade. Não sei não, mas se Baden-Powell fosse um ser super poderoso e olhasse na terra sua criação, ficaria orgulho do Grupo Escoteiro de Morro Vermelho. “Mais ainda de Gigante, um Chefe que não precisou ser dono da verdade, prepotente ou mesmo o líder que muitos esperam e que foi amado e idolatrado por todos que um dia passaram pelo Grupo Escoteiro da cidade de Morro Vermelho”.    

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso.


Lendas escoteiras.
Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso.

                 Lisabel estava cansada. Quinze lobinhos a correrem naquele sitio só ela como responsável dava dor de cabeça para qualquer um. Seus assistentes só viriam à noite. Pensou em cancelar o acantonamento depois desistiu. Os lobos aguardavam há meses e ela não podia decepcioná-los. Eram quinze, mas pareciam cem! Fez um bom programa e boas histórias para contar. Próximo a casa sede arvorou a Bandeira Nacional. Seu estoque de jogos, brincadeiras, canções faziam a lobada sorrir e brincar. Dona Mercês mãe do Gustavo ajudava na cozinha. Após o almoço Lisabel reuniu os lobos e foram até ao lago sentando em círculo na sombra de um cajueiro. Viu ondas se espalhando nas águas do lago. Lisabel assustou. Era um castor e logo mergulhou. Impossível! Castores no Brasil? Se dão bem nas águas geladas de países frios.

                 Cantava com os lobos a “A Promessa de Mowgly” e viu que a tarde se aproximava. Quando Noel e Flavia chegassem iria tirar uma soneca. Precisava. Começou a contar uma história e parou. No lago alguém emergia vagarosamente. Era um Velho com um chapéu e uma indumentária típica dos Caçadores de Peles do passado. Ela conhecia suas historias. Leu muito sobre os Mountain Men, um homem da montanha! Ele sorria, deu um olá simpático, chamando a atenção dos lobos. Começou a falar: - Sabem! Disse ele. Faz tempo que não vejo um Cub Scout. Quantas saudades! – O que é um CubScout perguntou Nininha. – Meninos lobinhos como vocês. – Lisabel impressionada estava assustada. Uma figura imponente. Um cajado lindo. – Posso sentar com vocês? – Claro que sim ela respondeu.

                        – Por acaso viram um castorzinho deslizando há poucos instantes sobre o lago? Estou à procura dele. É Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso. Todos tinham visto e responderam sim simultaneamente. – Querem que eu conte a história dele? Palmas e gritos. A lobada gostava de uma boa historia. – Bem vou contar, mas é uma historia triste, muito triste. Faz tempo, muito tempo quando conheci o John, ou melhor, o John Colter. Um pioneiro e um dos primeiros caçadores de pele a ser chamado de “homem da montanha”. Ficamos amigos em St. Louis uma cidade americana, lá pelos idos de 1807. Com ele fiz uma serie de expedições até o rio Missouri para caçar castores e tirar suas peles. Os lobinhos assustaram-se. – Calma isto foi há muito tempo. Nós vivíamos disto. Era nosso ganha pão.

                 - Eu e o velho John rodamos meio mundo. Das Montanhas Rochosas até os grandes lagos de Michigan, Huron, Erie e Ontário. Diziam que eu e o John só caçávamos peles dos castores, mas nas horas vagas procurávamos ouro. Nunca esqueci quando conheci Pigmor, o castor manco. Eu e o John chegamos às margens do Lago Grande Urso numa tarde de novembro. O frio intenso nevava a mais de seis dias. Montamos uma pequena cabana e quando ascendi o fogo vi um castorzinho se aproximando e mancando. Assustei, sabia que eram ariscos com os homens. Devia morar por ali com seus companheiros em uma colônia no fundo do lago.

              - Olhei para o John e disse rindo: Ele não parece o Pigmor aquele velho caçador de ouro que morreu em Blue River Valley? Coitado. Morreu sozinho nas Montanhas Rochosas abraçado a um grande urso que encontrou na caverna do Mandor. Pigmor chegou próximo ao fogo. Eu e o John calados. Não valia a pena dar um tiro ou mesmo matá-lo com um facão. Era raquítico, pequeno e descarnado. Seus olhos pareciam vermelhos e vimos que chorava. Ficou horas aproveitando o calor do fogo. Pigmor de cabeça baixa soluçava sem parar. Contava uma historia estranha. Isto mesmo, Pigmor estava falando. Castor falante? Bem foi a primeira vez que vimos um falar.

              Lisabel não acreditava no que via. Um velho curtido, capa estranha, botas de pele de urso, um lenço azul amarrado ao pescoço e um boné de peles de castores, de cócoras no meio do circulo, contava aquela história de uma maneira tão original que se emocionava com as palavras daquele velho caçador de peles. Os lobinhos não tiravam os olhos dele. Sua dor de cabeça desapareceu. – O Velho caçador continuou – Pigmor contou sua triste história. Uma semana atrás. Ainda não nevava, ele e sua família da Colônia terminavam o dique onde iriam passar o inverno e aconteceu uma matança. Dois homens chegaram atirando. Pigmor correu para uns arbustos, mas levou um tiro na perna direita. Seu pai e sua mãe morreram na hora. Somente Nakim, Molevo, Pariá e Jasmiel tinham se salvaram mergulhando nas águas geladas do lago. Os dois homens jogaram uma banana de dinamite e quase destruíram o dique. Os quatro castores escondidos ficaram presos.

                  - Pigmor levantou a cabeça com os olhos rasos d’água. Olhou para John e continuou – Mergulhei até lá, estavam presos em uma toca sem poder sair. Tentei tudo. Jasmiel a Castora que seria minha esposa estava quase morta. Não sabia o que fazer. Melhor morrer com eles. Subi a tona e vi vocês. Acreditei que iam atirar em mim. Podem atirar. Eles irão morrer e eu quero morrer com eles. Iremos nos encontrar nas Grandes Tocas do Navarra onde se encontram os nossos ancestrais. – Pigmor se calou. Soluçava sem parar. John e eu emocionados. Eu não sabia que John gostava tanto de animais. Para minha surpresa, naquela nevasca, escuro feito breu, frio de rachar ele tirou a roupa e mergulhou nas águas profundas do lago. Minutos depois nada do John vir à tona. “Diabos” pensei o que deu nele? A água estava um gelo! – Eis que os primeiros castores apareceram e logo em seguida o John com uma Castora no colo. Era Jasmiel, a namorada de Pigmor.

                       Todos eles correram para a beira do fogo. Eu juro pelas barbas do Coyote mais arisco de Yellowstone, pelas corcundas de um Bufallo das pradarias próximas a Little Bighorn em Montana que é verdade. Ficaram dois dias conosco. Finalmente após consertar sua toca Pigmor disse adeus e os seus irmãos mergulhavam de vez nas águas geladas do Lago Grande Urso. Nunca mais voltei lá. Disse ao John que minha vida de caçador de peles e de castores tinha encerrado ali. Juntamos nossas tralhas e partimos. Fomos para o Território do Dakota na grande corrida do ouro de 1815. Em Montana, Arizona, Nevada e Colorado só se falava nisso.  Um dia John se desentendeu com um fora da lei. Morreu em um duelo em Virginia City. Resolvi fazer uma cabana nas montanhas e passar lá o resto de minha vida. Tropecei em um lago ao sul de Sonora. Vi um castor manco. Seria Pigmor? O levei comigo. Estamos juntos até hoje.


                           Silencio total. O velho caçador se levantou, deu um leve sorriso e disse adeus. Foi em direção ao lago. Sobre as águas notaram cinco castores nadando ao seu lado. Em segundos despareceram no fundo daquele pequeno lago do Sitio Mimoso. Um barulho de carro. Seus assistentes estavam chegando. Uma festa. A lobada gritando e contando a história de Pigmor. Lisabel ficou ali. Olhando para as águas do lago que naquela hora da noite uma bruma cinza se espalhava por sobre as águas. – Seria um sonho? Lisabel nunca esqueceu mais a história daquele Velho caçador. Homem das montanhas geladas, das terras altas, picos altos e longínquos, grandes lagos... Lisabel ao dormir pensou: – Bem que eu gostaria de ter conhecido Pigmor o castor manco do lago Grande Urso. Mas...

quinta-feira, 28 de abril de 2016

A lenda dos milagres de Aimée.


Lendas escoteiras.
A lenda dos milagres de Aimée.

                       Não conheci a escoteira Aimée. Se não tivesse participado do desfile do Sete de Setembro naquele ano a história dela ficaria no ostracismo.  Sei que muitos sabiam, contados aqui e ali em parte cortadas sem chances de mostrar ao Arcebispo Joshua que um dia ela poderia ser canonizada. Ele ficou impressionado com o relato do vigário Honório. - Verdade mesmo Honório? – Eminência, são mais de vinte meninos e meninas que assistiram tudo no acampamento que fizeram Na Lagoa dos Anjos. Ela pegava peixes com as mãos, curou doentes, acendeu um fogo sem fósforos em segundos. E não foram só estes foram vários! – E adultos tinha algum? Perguntou o Arcebispo. – Não eminência, só uma vez Dona Filó e o Chefe Manolo assistiram um milagre dela.  - Eles viram-na se elevar no ar e beijar um periquito no ninho de uma árvore há mais de oito metros de altura!

                      Sei que o Vigário Honório ficou mais de cinco horas a narrar para sua Eminência o Arcebispo Joshua tudo o que viu e tudo que lhe contaram. Saiu do Palácio Episcopal depois da meia noite. Deixou o Arcebispo com a pulga atrás da orelha. Ele já tinha lido e conversado com muitos sobre o tema mediunidade. Quem sabe esta escoteira não era assim? Mas se elevar no ar? Isto não é mediunidade. Mais parecia que era sensitiva. Ver os mortos, visualizar o futuro e ter visões extraordinárias. Agora se elevar no ar? Isto não saia da mente do Arcebispo. No dia seguinte ligou para o vigário. Pediu a ele trazer a escoteira até o palácio. Ele queria conhecê-la. Dona Fabíola mãe de Aimée não se opôs. Partiram pela manhã de sábado. Daria prazo para ela participar da reunião escoteira da tarde, condição que ela impôs para ir. O Arcebispo ficou maravilhado e abobalhado. Ela na sua presença conversa como gente grande. Inteligentíssima. Conversou com ela em inglês, francês e italiano e ate abusou do latim. 

                      Mas melhor e voltar no tempo para entender melhor Aimée e sua história. Motorola era sênior da Antares, uma patrulha sênior. Cansado de marchar em um desfile sentei no banco da praça e ele sentou ao meu lado. – Sabe Chefe, se Aimée a escoteira tivesse vindo este desfile seria inesquecível. – Fiquei encucado. – Quem é a escoteira Aimée? – Chefe! O senhor ainda não ouviu falar dela? – Claro que não Motorola, se não eu não teria perguntado. – Bem Chefe, ela ficou conosco dois anos. Quando chegou à sede ninguém deu nada por ela. Mas no primeiro dia de reunião Loquinho o Monitor da Águia ficou boquiaberto. Em uma base de nós, olhos fechados ele fez mais de vinte nós escoteiros e de marinheiro. Ninguém acreditava no que via. Precisava ver no acampamento. Cortava um galho em segundos. Parecia que o facão era mágico. Motorola ficou me contando por horas. A princípio não acreditei nele. Havia muito floreio em tudo.

                   Lembrei-me de um fato ocorrido há alguns anos e só não lembrava se ela havia participado. Uma senhora e uma menina chegaram correndo a delegacia, mais de duas da manhã dizendo que um acidente grave aconteceu na estrada 45. Na curva da onça um ônibus despencou sobre a ponte. Mais de vinte mortos. Pinduca o Sargento da guarda não acreditou. Foi preciso chamar o prefeito que relutante em acordar acompanhou todos até a ponte fatídica. Gemidos, gritos de socorro e o trabalho de ajuda começou. Um menino de três anos ensanguentado foi colocado por sobre uma manta e o enfermeiro disse que estava morto. Não estava, pois Aimée deu a mão a ele e ele se levantou. Dizem que lá ela deu vida a mais oito pessoas. As demais não, pois conforme disse era desígnio de Deus. Teria que ser assim.

                Aimée não era linda, nada disto. Tinha o rosto fino, nariz comprido, uma boca pequena e cabelos crespos que ela insistia em não pentear. Ficava diferente e ela gostava. Falava fanhoso e um dia para espanto de todos falou com uma rainha. Na patrulha era bem quista amada por todos. Nas atividades que o Chefe Manolo e a Chefe Malena faziam Aimée não tinha nada de diferente. Só uns meses atrás que tudo mudou. Ela parava durante alguma jornada dizendo estar vendo pessoas mortas. Garantiu ao Chefe Manolo durante uma cerimônia de bandeira que o Chefe Tonon estava presente. Chefe Tonon foi o fundador do grupo a mais de setenta anos. Morrera há quinze anos. Aimée começou a ser procurada por doentes, cadeirantes e a cidade começou a ter turistas de todos os lugares. Quando ia para o Grupo Escoteiro a sede ficava superlotada de pessoas querendo falar com ela ou ser abençoadas.

                 O vigário Honório correu a falar com o Arcebispo. Esqueceu-se de Don Antonio um Velho morador da cidade e Presidente do Centro Espirita Boa Vontade. Ele ria quieto em seu canto. Sabia que Aimée era um espírito superior e que ninguém neste mundo podia imaginar quem ela fora no passado. Ele sabia que ela iria desencarnar aos quinze anos. Morte natural. Falar isto para o padre? Nem pensar. Comentou superficialmente com o Chefe Manolo. Um bom Chefe. Era evangélico e ficou incrédulo com tudo aquilo, mas o que vira em Aimée até que poderia ser verdade. Cinco meses depois chegou à cidade monsenhor Giuseph a mando da cúria papal. Era para averiguar e comprovar os milagres de Aimée. Não ficou dois dias. Quando conheceu Aimée ela disse para ele – Senhor Monsenhor, daqui a dois anos o Papa Lozano III vai falecer e o senhor será eleito o novo papa!

                      Ninguém soube do fato e eu fiquei em duvida como Motorola sabia. Só sei que a Cúria Romana até hoje discute se Aimée era possuidora de receber o título de santa. Mesmo após sua morte ocorrida na aventura Sênior distrital na Serra dos Órgãos eles continuaram investigando. Ainda investigam. Quem sabe teremos a primeira santa escoteira? Vai ser o máximo. O escotismo terá dado um enorme salto para o sucesso de marketing. Procurei saber como foi à morte de Aimée. Sua Patrulha jura de pé junto que ela se despediu de um por um e disse para não se preocuparem. Sua mãe já sabia que era hora dela ir. Ninguém acreditou quando uma forte luz a levou. Seu corpo sumiu e até hoje não foi encontrado. A policia fez de tudo para ver se não havia outra história, mas teve que se contentar com a fantástica explicação dos seniores que estavam com ela. O delegado já saiba de seus poderes sobrenaturais e deu o caso como encerrado.


       Motorola me jurou que nas noites de acampamento, quando os seniores se reúnem em volta de um fogo para jogar conversa fora ela aparece e fica com eles por horas contando como são os escoteiros que moram no céu. Don Antonio o espírita tem boas relações com dona Fabiola mãe de Aimée. Conversam muito. A cidade não sabe o que conversam. Se Aimée é mesmo um espírito cheio de luz eu não sei. Se isto é coisa do diabo eu também não sei. Dizem que Deus sabe o que faz e como eu acredito nele a história de Aimée para mim é verdadeira. Afinal temos ou não uma só palavra?

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....