domingo, 10 de julho de 2016

Lorenzo.


Lorenzo.

             Nada foi como planejado. A trilha com o negrume da noite deixou de existir. Sem saber como chegar à base fomos obrigados a voltar para tentar achar o caminho correto. Cansados sentamos a beira da estrada do pardal e ao meu lado o Sênior Lorenzo. Olhando-me nos olhos disse: Chefe, não tenho nada. Meu pai nada tem. – Olhei para ele e calmamente lhe disse: - Meu caro sênior, o dinheiro faz homens ricos, o conhecimento faz homens sábios e a humildade faz grandes homens. – Ele sorriu. Só isto Chefe? E como ser assim? – Olhei para ele e um silencio se interpôs entre nós – Olhe, para que o homem seja próspero, o dinheiro não basta. É preciso ser bom, sábio e consciente. Existem pessoas que tem dinheiro e pessoas que são ricas. – Como Chefe? Sorri para ele. – Olhe não importa a cor do céu. Quem faz o dia bonito é você. Siga sua vocação que o dinheiro vem. Mantenha seu foco no objetivo, centralize a força para lutar e utilize a fé para vencer.

             – Um gafanhoto pousou na aba do seu chapéu. Dizem que dá sorte. Sorri explicando para ele. Ele me olhou complacente e falou: - Sabe Chefe, lembro que um dia o senhor me disse: - Se for prá ser, será. Se tá demorando, é porque o melhor ainda está por vir! – Olhei para ele com ar de espanto. Toda a patrulha sentou ao meu redor. Lorenzo se calou. Pensativo indaguei ao meu coração se era aquela a resposta que ele esperava. Em resposta meu coração respondeu: - Se não deu certo, tenta de novo e de novo. E se não der certo novamente fica junto ao errado mesmo, quem sabe vai dar certo. Coração sabido o meu. Lorenzo parecia ter ouvido e sorriu. Olhei para ele e sussurrei baixinho: - Esqueça os piores momentos da sua vida e faça os melhores se tornarem inesquecíveis. Muitas coisas bonitas não podem ser vistas ou tocadas, elas são sentidas dentro do coração. A riqueza é uma delas. Agradeça a Deus pelo dia de hoje e aguarde melhores momentos.


                - Chefe! Era o monitor. – Que tal passarmos a noite aqui? Olhei para ele, para Lorenzo e para os patrulheiros. Eu era um Chefe abençoado. Meu coração intrometido rindo me disse: - Chefe aproveite cada minuto, porque o tempo não volta. O que volta é a vontade de voltar no tempo. Ah! Meu coração Escoteiro. Um fogo estrela apareceu, um café fumegante chegou como a dizer: Vamos lá escoteirada, se um dia os seus motivos para sorrirem acabarem, me avisem que eu te dou os meus. Eu era feliz e mais ainda quando vi Lorenzo sorrindo. Não havia mais nada a dizer... 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

A Árvore das folhas mortas.


Lendas Escoteiras.
A Árvore das folhas mortas.

                          Quando fiz cinco anos meu pai olhando nos meus olhos contou a história da árvore que ele plantou no quintal de nossa casa quando eu nasci. Era um Jequitibá e em cinco anos se tornou uma linda árvore. Enorme, folhada, com quatro galhos espalhados para cada ponto cardeal. – Meu filho nunca lhe contei porque plantei este Jequitibá, é uma historia antiga, dos tempos do quilombo dos Palmares. Meu avô ouviu esta história de seu pai que a recontou para todos seus filhos daí em diante. Dizem que havia nesse tempo, um Velho Escravo que andava pelas praias a apanhar destroços dos navios recolhia e os enterravam longe das praias. Um destes destroços ganhou raízes e reviveu em árvore. Era um Jequitibá. Quando ela cresceu ele disse para seu filho: - Eu sou essa árvore, venho dos destroços de outro mundo. Aqui é meu chão e minhas raízes nasceram aqui.

                           Não entendi bem a história e só mais tarde fui entender o porquê meu pai plantou o Jequitibá quando nasci. Meu pai era para mim um sábio. Descendente de um escravo do Quilombo dos Palmares, ele se orgulhava de sua raça. Todos nós, eu ele e minha mãe éramos negros. Ele um Professor escolar que se orgulhava de sua missão e profissão. Minha mãe uma costureira, simples sem afetação. Meu pai todas as tardes de sol nos convidava a sentar a sombra do Jequitibá. Ali nós três ficamos em silêncio até que ele começasse a contar uma história de seus antepassados. Eu adorava meu pai e minha mãe. Ele fez com as próprias mãos dois bancos em baixo do Jequitibá. – Um era para ver o nascer do sol de um lado e o outro o por do sol. Um dia disse que cada galho da árvore representava um de nós. – Pai! São quatro galhos e nós somos três! – Pois é meu filho, breve você terá mais um irmão! Sorri, meu coração bateu. Sentia-me só, muito só e ter um irmão era um sonho que nunca tive.

                           Joselito nasceu quando eu fiz sete anos. Fiquei dias ali na porta do hospital esperando conhecê-lo, pois meninos não podiam entrar. Em casa foi uma alegria imensa. Não sai de perto de seu berço. Eu na minha inocência de criança contava para ele às histórias que meu pai me contava. Minha mãe sorria e nada dizia. Quando as tardes meu pai nos convidava para assentar ao pé do Jequitibá, eu fazia questão de ter Joselito no meu colo. Ele era pequeno, magro, e meus pais estavam muito preocupados. Os médicos disseram que ele tinha uma doença muito grave no coração. Não iria viver muito tempo. Eu queria chorar, mas meu pai não deixou. – Filho, deixe para chorar quando ele se for, agora é momento de alegria. Façamos tudo para tornar sua vida um sonho possivel e não impossível. Eu sorri, meu pai sabia o que dizer.

                            Quando Joselito fez onze anos, me chamou para sentar ao pé do Jequitibá e com os olhos rasos d’água me disse que queria ser Escoteiro. Tentei pensar como iria lhe dizer que não era possivel. Ele não podia correr, não podia fazer coisas que eles faziam. Mas não disse nada. – Olhei dentro dos seus olhos e disse: - Você vai ser um! Eu e meu pai o levamos até o grupo. Eu pensei em explicar a todos sua vontade de viver, de ser mais um, de sua doença incurável, mas sabíamos que não podíamos. Ele tinha de aprender por si mesmo nem que isto fosse seus últimos dias aqui na terra. O Chefe Norman ficou em dúvida. Era uma experiência nova e ele não sabia como proceder. Meu pai o olhou e disse que tudo que acontecesse ele nunca seria o responsável, mas que desse liberdade para ele tentar ser como os demais. Na patrulha Cuco Montanha o Monitor tentou ajudar, mas como? Não era um bom Monitor. Mas Joselito com sua bondade estampada nos olhos não se amedrontou.

                              Naquele domingo, a família sentada ao pé do Jequitibá, Joselito disse que ia acampar. Minha mãe levou um susto. Achou que ele não ia aguentar. Eu também me preocupei, mas não dissemos nada. Não existiu nada mais belo para Joselito que os preparativos, a saída o acampamento e o retorno. Quem o visse chegando iria pensar que agora ele estava bom, não tinha mais nada. Nunca iria morrer como os médicos disseram. Todos nós notávamos como a Tropa Escoteira mudou. A alegria de Montanha na patrulha era outra. O Chefe Norman aprendeu a sorrir. Pareciam uma grande família onde todos zelavam por todos. Quatro anos depois seria a passagem de Joselito para os seniores. Sua rota estava pronta. Eu não entendia porque ele agora não sorria mais. Quando as tardes sentávamos ao pé do Jequitibá meu pai e minha mãe contavam histórias, e eu nem prestava atenção nelas. Meus olhos se voltavam para Joselito. Sem saber como ele sabia que sua hora estava chegando.

                                 Joselito morreu dois meses depois. Morreu sentado ao pé do Jequitibá, sozinho antes do meio dia. Ele não foi à escola naquele dia, queria morrer onde viveu. Nunca vi tanto sentimentos tantas saudades, tantos sonhos que não foram realizados. Quando ele em seu esquife desceu naquela tumba fria, um vento frio sacolejou por todo o campo sagrado. Escoteiros se assustaram, seus colegas de classe correram. Uma chusma de folhas verdes bailavam no ar. Eu fiquei por muito tempo ali em sua tumba querendo chorar e não podia. Meu pai veio me buscar. Ao chegar em casa vi que um galho do Jequitibá tinha perdido todas suas folhas. Era o galho de Joselito, ele se fora e as folhas foram com ele. Um ano depois minha mãe morreu de desgosto. Ela mesma me disse que não podia suportar a falta que Joselito lhe fazia. Ao voltar do campo santo notamos eu e meu pai que outro galho do Jequitibá também perdeu suas folhas. 

                                 Sentar ao pé do Jequitibá não era como antes, mas eu e meu pai fazíamos questão de estar ali. Nunca contamos um para o outro nossos sentimentos, nossas dores nossos amores que se foram. A perda nos machucou enormemente. O Jequitibá ainda tinha folhas, do galho do meu pai e do meu. Aos setenta e cinco meu pai se foi. Eu era homem feito. Trabalhava no hospital da cidade como administrador, função que me formara a muitos e muitos anos. De novo mais um galho do Jequitibá perdeu suas folhas. Ficou só o meu galho. Eu todas as tardes que estava em casa olhava para ele e dizia: - Jequitibá meu amigo, quando vai chegar a minha vez? Nunca abandonei meu lar. Não casei. Não queria passar minhas tristezas para uma segunda pessoa. Não queria ter filhos e perdê-los como perdi Joselino. Uma tarde sentado ao é do Jequitibá fechei os olhos. Não sabia se era sonho ou se era uma ilusão. Na minha frente um lindo jardim com flores lindas, correndo entre as samambaias, vi um enorme Jequitibá florido, lá em um banco, meu pai minha mãe e Joselito me acenavam.

                                Dona Maria Bonita nossa vizinha me viu sentando no banco. Notou que eu não mexia com o corpo. Chamou a ambulância. Eu estava morto. No alto meu galho do Jequitibá deixou a ultima folha verde cair e ser levada por uma brisa daquela tarde faceira, onde encontros e desencontros se revelariam em uma enorme estrela brilhante no céu!


terça-feira, 5 de julho de 2016

O mistério da morte do Delegado Juvêncio.


Lendas Escoteiras.
O mistério da morte do Delegado Juvêncio.

           Hubert foi chamado a Secretaria de Segurança Pública na capital. Não foi muito satisfeito, pois tinha um acampamento programado com sua Tropa Escoteira. Seria o primeiro com a participação de oito jovens de sexo feminino. A tropa sempre teve três patrulhas. Decisão de Corte de Honra. Agora viria a quarta, mas as jovens seriam diluídas nas demais patrulhas. Quatro meses se passaram quando foram abertas as vagas. Ele não queria ficar só na tropa como chefe. Tentou sua filha Luciana que fora bandeirante, mas ela não quis. Maria Elizabeth mãe do Escoteiro Tadeu aceitou. Não entendia nada, mas tinha uma grande vontade em aprender. Hubert trabalhou por muitos anos como investigador no 25º Distrito. Era considerado um dos melhores, mas idade chegou e achou melhor se aposentar. Não estava Velho, pois tinha apenas 54 anos e nem iria parar. Um escritório de investigações particulares lhe daria o que fazer no dia a dia. Pelo menos agora ele tinha tempo para se dedicar a formação de jovens através do escotismo, o que ele sempre desejou.

          Doutor Morales o recebeu como sempre. Um abraço forte e um aperto de mão mais forte ainda. Com a mão esquerda é claro. Ambos cresceram na Patrulha Touro e até os seniores viviam juntos como dois irmãos. Da mesma idade ele e o Doutor Morales ambos escolheram o mesmo caminho profissionalmente. Hubert poderia ter ido mais longe, mas não era bom politico ao contrário de Morales. Ambos eram bem considerados na policia investigativa e Hubert era famoso pelos casos escabrosos e misteriosos que resolveu. Sempre que um nebuloso aparecia e Morales era pressionado pelo governador ele apelava a Hubert e este sempre se saia bem. Hubert lembrava que quando seniores quase foram mortos por quadrilheiros que faziam contrabando de droga. Em uma excursão a Praia do Sul eles viram os barcos descarregando e a noite roubaram um deles para levar até Capitania. Seria uma apreensão enorme, mas a bandidada pegou-os na boca da botija quando davam as primeiras remadas. Foram amarrados e conseguiram se livrar das cordas. Duas horas depois a policia cercava o contrabandistas.

         Não ficaram como heróis. O Delegado gritou com os dois o perigo que correram. – Vocês poderiam estar mortos uma hora desta – ele disse. O Conselho da Tropa Sênior se deliciou. Afinal eles eram metidos a serem os melhores. Mas não ficou só nesta aventura, muitas outras aconteceram. Daí para a Academia de Policia foi um pulo. Ambos nunca abandonaram o escotismo. Sempre iam quando podiam ao grupo amigo mais proximo. Infelizmente não dava para assumir uma chefia e isto era o sonho de Hubert. Agora achando que estava em paz lá ia ele de novo atender ao pedido de um amigo e irmão Escoteiro. Ele sabia que não havia como fugir. Essa é a divisória que nos separa do mistério das coisas que chamamos vida. Não vamos entrar em detalhes de tudo que o Morales lhe confiou. Partiu no mesmo dia. Um carro da Segurança Pública com motorista o levou até a cidade de Ouro Fino. Chegaram à noitinha de terça feira. Na delegacia não tinha ninguém. Disseram que fechava as cinco, agora só no outro dia.

             Hubert não queria perder tempo. Procurou o barbeiro no centro da cidade, pois sabia que lá teria as informações que precisava. O barbeiro é o homem sempre bem informado. As fofocas e as verdades tinham ali o seu casulo predileto. Soube de pouca coisa. O Delegado Juvêncio fora enforcado dentro da delegacia. Ninguém viu e ninguém sabia o porquê. Quando ia saindo da barbearia viu dois Escoteiros seniores de uniforme indo para a sede. Lembrou-se de si mesmo e do Morales. Claro que os parou e se apresentou como Escoteiro. Eles riram e o convidaram para a reunião dos seniores que seria feita naquela noite. Turma alegre e de bem com a vida. Sempre sorrindo. Não eram muitos. Naquela noite eram oito, mas quatro tinham faltado. Devia ser por causa do trabalho. Era muito comum. Eles se deliciaram com as historias de Hubert, mais ainda quando souberam que ele era um detetive aposentado.

                 - O que o trouxe aqui Chefe? Perguntou Heraldo um sênior sempre sorridente e que parecia querer saber de tudo. – Hubert abriu o jogo. Não queria ter vindo, mas seu amigo praticamente exigiu sua vinda. Contou suas aventuras como sênior, o que fizeram e por ambos se dedicaram a ser policiais. Os seniores prestavam a máxima atenção no que ele contava. – Quando ele explicou seu objetivo em descobrir o que ouve com o delegado Juvêncio, se ele se enforcou ou foi enforcado, cada um queria dizer o que pensava. Ficou lá na sede com eles até a meia noite. Heraldo e Zé Antonio disse que sabiam o que aconteceu. – Fácil Chefe. Se o senhor apertar Daninha ela conta tudo. – Quem é Daninha? – Chefe Daninha é mulher do Zé Eustáquio. Ele caladão sempre desconfiou da mulher. É forte que nem um touro. – Não estou entendo amigos, quer dizer que foi ele quem matou o Delegado? – Claro que sim Chefe, ela com medo de ser morta por ele disse que o delegado havia pressionado para ela ser dele.

                   - Mas como eles entraram na delegacia? Afinal a porta e as janelas estavam trancadas! – Chefe, ela não contou, mas era amante dele. Tinha uma copia da chave. Ela entrou sozinha e depois o Zé Eustáquio entrou atrás. Levou um pozinho para colocar na bebida do Delegado, ele desmaiou e aí foi fácil pendurar ele em uma viga e enforcá-lo. – E o bilhete que ele dizia que queria morrer? – Chefe! – Daninha era escrivã da policia. Tinha a assinatura do delegado e vários relatórios. Não foi difícil ela treinar a sua letra. – Bah! E como vocês sabem de tudo isto? – Ora, ora Chefe. Afinal somos seniores. O senhor não acha que nesta cidade onde nada acontece à gente não iria investigar? A gente tinha foto dos dois Chefe. Ninguém nos perguntou e nem a gente iria dizer nada. Afinal sabemos que o Zé Eustáquio era o principal distribuidor de drogas na região!


                 - Cacilda, pensou Hubert. Nem eu como sênior sabia tantas coisas. O resto foi simples. Seis policiais civis chegaram à cidade, prenderam Zé Eustáquio e Daninha que confessaram o crime. – E aí Chefe, perguntou Nivaldo o Monitor da Patrulha Monte Sião – E a cidade o que pensou de tudo? – Hubert sorriu, pois havia chegado a tempo foi acampar com seus seniores e agora na Conversa ao pé do fogo contava tudo o que viu e sentiu. – Pois é Nivaldo, só agradeci aos seniores de lá. Afinal não é nossa obrigação ficar sempre alerta? Se somos escoteiros temos que estar de olhos e ouvidos abertos! – Chefe isto é para lobinho!  - Melhor ainda Nivaldo, ainda bem que o lobinho aprendeu assim. E eles ficaram até altas horas da noite, conversando, contando causos, cantando e comendo gostosas bananas assadas na fogueira até que um lobo uivou na montanha, dizendo que era hora de dormir!

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O último toque de silêncio!


Lendas Escoteiras.
O último toque de silêncio!

           Tony Blanco chorava copiosamente a minha frente em bar de uma travessa da Avenida São João. – O Senhor se lembra Chefe Vado do Pintassilgo? – Claro que me lembrava. Ele e Tony Blanco eram amigos inseparáveis. – Pois é nunca tive um amigo fiel como ele. Amigo mesmo. De todas as horas. Éramos de Patrulha diferente da sua. Lembro que o Senhor era da patrulha Lobo e nós da Touro. Mas fizemos juntos muitos acampamentos. Lembra-se daquela jornada na Ilha do Cajuru? Foi demais não? – Eu lembrava. Minha mente passeava pelo passado. – Pois é Chefe Vado, desculpe chamá-lo assim. Não sou mais Escoteiro. Eu hoje não sou nada. Um molambo largado na vida. Não tenho família, amigos, nada e nem ninguém que se preocupe por mim.

             A vida é uma surpresa atrás da outra. Havia anos que não ia ao centro e eis ao descer do ônibus na São João senti que ia passar mal. Corri até um bar em uma travessa da avenida e pedi um copo de água mineral. O remédio estava comigo. Ajuda mas não muito. Ficar imóvel e respirar bastante para voltar ao normal. Foi então que o vi. Nada mais nada menos que Tony Blanco. Maltrapilho, sujo, cara lisa, mantinha o mesmo corpo forte do passado quando puseram nele o apelido de Maciste. Mas era uma sombra do passado. A última vez que o vi foi em 1976, em um Seminário Escoteiro em Juiz de Fora. Nunca mais nos encontramos. – Ele me reconheceu. Muitos abraços e seus olhos rasos d’água. Pois é Chefe faz tempo não? Mas ele não sorria. Tony me conte o que aconteceu ao Pintassilgo?

            Morreu Chefe. Morreu. Uma morte horrorosa. Ficamos juntos até 1990. Morávamos juntos, mas sempre mantendo a fleuma de amigos somente. Ele nunca me deixou. O Senhor sabe disto. Por causa dele não casei com a Das Dores. Gostava dela, mas mesmo aconselhando a ele arrumar uma namorada ele ria e dizia – Não quero. Se arrumar vou casar. Se casar você deixa de ser meu amigo. Olhe Chefe muitos interpretaram mal esta amizade. Acho que não entendem que para ser amigos de verdade não precisamos de subterfúgios. Basta gostar. Gostar de maneira simples, sem desejos, sem aspirações que não seja estar junto de quem gosta. Das Dores riu de mim quando disse isso a ela. Interpretou mal. Vim para São Paulo. Pintassilgo veio também. Comecei a trabalhar em uma construtora como Mestre de Obras. Ele também. Alugamos uma pequena casa no Bairro Cajuru. Pequena mas dava para nós dois.

             - Tony, você ainda toca o Clarim? Perguntei. Lembra quando eu e você nos exibíamos na “banda” do Grupo Escoteiro mostrando nossas qualidades? E quando formos servir no exército? Ficaram em dúvida entre eu e você ser o Cabo Corneteiro da unidade. Ele me olhou e mesmo com os olhos marejados de lágrimas deu um pequeno sorriso e disse – O joguei fora. Tinha de jogar – Porque meu amigo? – Pintassilgo um dia desapareceu. Tentei encontrá-lo por toda a cidade. Perdi o emprego por que não ia trabalhar. Passou-se dois meses. Que falta Chefe eu sentia dele Chefe. Nada ajudava. Não conseguia emprego fixo. Fui para as ruas. Virei Morador de rua. Aqui e ali uns trocados. A vida ali é dura, mas hoje aprendi. Sei me virar.

               - Largou mesmo o escotismo? – Larguei. Cheguei a ajudar em um próximo a minha casa. Mas senti dificuldade. Era tudo diferente do que conhecia. Gostava dos jovens, mas implicaram com Pintassilgo. Ele sempre junto. Falaram coisas que não gostei. Não entendiam o valor de uma amizade. – Olhe, eu fui a várias delegacias, lá zombavam de mim pelo que eu era. Fui a hospitais, Rodei em prontos socorros, fui ao IML e nada. Não dormia direito. Ainda tinha meu clarim guardado na caixa. Havia anos que não tocava. Um dia com minha carrocinha na descida da Avenida Angélica eu avistei o Nonô, o Senhor deve lembrar-se dele. Era Monitor da Pica Pau e sumiu também com sua família. Eu não sabia quem era ele. Não tinha cabelos e seu nariz fino e comprido não dava para esquecer. – Ele me viu e me reconheceu. Convidou-me para tomar uma cerveja e até pagou para mim um almoço. Fazia dois dias que não comia.

                 - Você soube o que aconteceu ao Pintassilgo? Ele disse. – Espantado pedi a ele para me contar. Faz cinco anos que estou procurando. – Morreu torturado por traficantes na Favela da Caixa D’água. – Chorei como um bebê. – Por quê? Porque meu Deus? – o confundiram com o Maneco Tiro Certo. Eram quadrilhas rivais. Você não sabe, mas sou investigador da 17º Delegacia. Fui ver uma denuncia anônima. Cortaram sua cabeça, seus braços e pernas. Depois atearam fogo. – Ficamos em silêncio por muito tempo. Eu não sabia o que dizer. – Depois perguntei – E onde foi enterrado? Acho que no Cemitério de Vila Alpina. – E você meu amigo, ainda nesta vida de morador de rua? – Conversamos mais algumas horas e ele se foi. Deixou-me um cartão. – Se precisar telefone disse, ainda somos irmãos escoteiros. Lembrei-me do Chefe Tonho que dizia – Um Escoteiro é sempre irmão. Nunca deixa um dos seus na mão.

                     - À tarde do dia seguinte fui até o cemitério de Vila Alpina. Tomei um banho no Albergue que fiquei hospedado. Coloquei meu uniforme Escoteiro. Estava guardado. Nunca me desfiz dele. Todos os mendigos de lá assustaram. Peguei um ônibus até Vila Alpina. A mocinha que me atendeu não tirava os olhos de mim. Disse-me onde ele estava enterrado. Joviel Peixoto. Eu sabia seu nome. Não havia sepultura. Um buraco. Mais nada. Pedi uma pá emprestada. Fiz uma tampa de terra. Tirei de outros túmulos um pouco de capim. Claro algumas flores também. Achei duas taboas. Fiz uma cruz. À mocinha me olhava de longe. Já estava escurecendo. Tirei da minha bolsa meu clarim. Meus olhos se encheram de lágrimas. A boca seca. Não conseguia tocar. Era demais! Estava engasgado! - Chefe Osvaldo, eu o vi em pé na sepultura. Sorria, não disse nada, estava de uniforme Escoteiro. Brilhava na escuridão. Fez-me a saudação Escoteira. Desta vez toquei meu clarim com garra o toque de Silencio mais tristonho da minha vida. E como toquei. Chorava copiosamente ao terminar.


                 – Sabe Chefe Vado, eu vi, eu vi muitas almas que ali morreram ficarem de pé em suas sepulturas calados. Eu vi relâmpagos no céu. Eu vi uma estrela brilhante em cima de nós. - Enquanto ele me contava o acontecido eu me lembrei de um pequeno poema que tinha lido – “Os clarins tocam pelos heróis, que morrem pela ignorância humana. O Silêncio é das vozes que se calam diante das injustiças e barbárie que são cometidas contra quem não pode por si, se defenderem”.  Eu conhecia o toque. O toquei milhares de vezes. É um toque triste. Fiquei ali com Tony. Eu também chorava. O bar vazio. Dei a ele meu cartão. Escureceu. Esqueci o que pretendia comprar na Santa Efigênia. Despedi-me dele oferecendo ajuda. – Obrigado Chefe Osvaldo. Obrigado. Já tenho o suficiente para viver minha vida de morador de rua. É minha sina. Aqui estou vivendo e aqui morrerei. Saiu me dando um aperto de mão e um Sempre Alerta. - Falar mais o que?

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Roberta.


Roberta.

Na orla da floresta eu olhava carente uma pequena fogueira cujas fagulhas coloridas subiam languidamente para o céu. Olhos cemi-cerrados pensava como mudar meu destino com tantas ambições que me cercavam nas estradas da vida. – já ia me retirar e convidei Roberta que triste e acabrunhada não falou nada durante o Fogo de Conselho. Vamos dormir? Eu e ela da Touro dormíamos na mesma barraca. Ela me olhou esperançosa como se o amanhã não fosse outro dia. Ambas caladas, tentando adivinhar o porquê de tantas estrelas no céu. Ela sem eu perceber resmungou: - De vez em quando precisamos sacudir a árvore das amizades para deixar cair as podres! – Me olhou e sorriu. So mágoas amiga, as pessoas não esquecem, é o interesse que acaba. – Eu sabia o que ela estava passando. Poderia ter dito a ela que ela era mais forte do que imaginava. Mas valeria a pena? – Ela apenas sorriu. – Resmungou baixinho: - Menos julgamento e mais gentileza, por favor! Sabia que eu nasci para ser incrível e não perfeita. Ri levemente.

Pensei em ir para minha barraca sem ela. As estrelas me hipnotizaram. Pensei em olhar para ela e dizer que o preconceito é um fardo que confunde o passado, ameaça o futuro e torna o presente inacessível. Preconceito? Eu sabia que todos gostavam dela e se alguém a ofendeu não conhecia seu coração. Palavras de superação, de amor, de fraternidade tem hora que não produz efeito. Por maior que seja, não há obstáculo que não possa ser superado. – Roberta, o que posso fazer para ajudar? – Nada amiga. Nada. Nesta noite quero ser eu mesma sem ouvir ninguém. O silencio voltou a reinar na escuridão da mata que só alguma chama preguiçosa ainda fazia questão de colorir o negrume da noite. Pensei que era forte, mas quantas vezes chorei? Palavras vazias não me davam mais conforto. Quanto desistir for mais fácil melhor é continuar insistindo. O difícil costuma valer muito mais a pena. Verdade?

Não ouve clarão, trovão, nada que denunciasse a sua chegada. Ele simplesmente apareceu do nada na névoa da madrugada: - Era uma figura linda de se ver. Brilhante, sorriso encantador. - Chefe, a pior ambição do ser humano é desejar colher os frutos daquilo que nunca plantou. Se quiser saber a verdade eu gosto de pessoas que admitem o erro, falam que estão com saudade e deixam de lado o orgulho. Gosto de gente que sabe dar valor ao que tem que faz por merecer e não finge ser o que não é. – Olhei para ele assustado. Não era um ectoplasma surgido na noite escura na clareira onde estava. – Ele sorriu – Chefe, a verdade demora, mas chega sempre sem avisar. Quando duas pessoas realmente se gostam, elas sempre darão um jeito de dar certo. Não importa o quão difícil seja. Deixe pra trás o que não te leva pra frente. – Falar mais o que?


E no silêncio da madrugada ele partiu. Parecia que no céu deixou escrito: - Ser feliz não é viver apenas momentos de alegria. É ter coragem de enfrentar os momentos de tristeza e sabedoria para transformar os problemas em aprendizado. Fui dormir pensando que viver vale a pena apesar de tudo que pode aparecer na encruzilhada do nosso destino.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Alfredo. Um menino escoteiro


Alfredo.

Os trovões ribombavam no ar. Raios explodiam pela Serra caindo em qualquer lugar. A trilha da subida virou um rio. Subimos em uma saliência e ali enrolado na lona esperamos o dia clarear. A chuva não parava. As lonas não protegiam. – Olhei para Alfredo. – Menino imberbe, sem experiência. Chorou para vir. – Ele me olhava através da escuridão como a pedir socorro. – Chefe, o medo é demais! – Olhei para ele. Sabia o que ele passava. São aprendizados que nos tornarão mais fortes amanhã. O vento chegou forte e bravio. Lembrei que antes do escurecer a chuva caiu mansa, sem vento, parecendo que logo iria passar. Engano. Nem sempre tudo dá certo e nesta hora nas pequenas batalhas que nos tornamos mais fortes. Alfredo iria entender? – Eram onze escoteiros, duas patrulhas. Muitos mais experientes, mas Alfredo não. Um pata-tenra legítimo.

Queria ter o dom de mudar o tempo, de abrir o sol, de fechar a torneira da chuva. Eu sabia que não era um herói, mas eram onze meninos escoteiros que dependiam de mim. Forçava minha mente para descobrir a minha força interior. Eu sabia que é dela que viria a solução para superar meus medos e minhas dificuldades. Comecei a tremer. Meus dentes batiam e por mais que tentasse eles não paravam. O medo chegou e sem perceber vi que os onze meninos escoteiros também tremiam. Eu precisava ignorar o passado imperfeito, até mesmo o presente cheio de defeitos. Eu tinha de pensar e fazer um amanhã do meu jeito. Senti alguém segurando minha mão. Era Alfredo. – Chefe acredite que algum maravilhoso vai acontecer! – Assustei. Era eu quem devia dizer isto e não ele. – Ele sorriu. – Calma Chefe, não grite, não adianta usar a força para tudo. Seus gestos agora são importantes. Suas ações nos darão a calma para prosseguir.

Alfredo? O menino escoteiro medroso me ensinando a crescer? – Os demais escoteirinhos se levantaram e todos se abraçaram fazendo um grande circulo de amor. A chuva amainou. No céu apareceu algumas estrelas. Abri os olhos agradecendo a Deus por uma nova noite. Meu coração acalmou. Os meninos escoteiros sorriram. Aprendi naquele momento que teria de dominar meu próprio eu. Agora seria outra pessoa, mas forte, mais experiente seria um desperdício continuar aquele fraco que eu era. Tinha de enfrentar meus medos. Aqueles meninos me ensinaram muito mais que a vida me ensinou. Alfredo pegou na minha mão. – Vamos Chefe? Sorri para ele. Um pata-tenra que cresceu em pouco tempo. Um cozinheiro da Onça Parda cantou uma canção. Era hora de partir. Tínhamos um destino a chegar.

Eu sabia que não era original, único, eu sabia que não era uma fonte de criatividade e intuição, mas tinha de aprender vivendo e fazendo. Um menino Escoteiro me ensinava uma lição. Só você pode ver com seus olhos o que sente seu coração. Era hora de escutar e seguir com fé a jornada que seria nosso destino. Aprendi com meninos escoteiros que a idade não é a única com responsabilidade. Eu vi ali que não era o Chefe, era um irmão mais Velho aprendendo com os mais novos. Aprendi que onde estiver seu coração lá estará a sua verdade. E a minha verdade me fazia vibrar com aqueles meninos escoteiros. E onde tudo vibra a força chega e os sonhos acontecem. Aprendi que era um Chefe aprendiz amadurecendo. Que a gratidão é o sentimento mais doce que existe. Aprendi que sabia amar e que a maturidade não está na idade e sim na mente. Partimos para nosso acampamento. Um doce sentimento nos dizia que o segredo da vida não é ter tudo que queremos, mas amar tudo o que temos. Eu tinha onze meninos escoteiros para guiar e aprender!


- E a lua rechonchuda nos acompanhou por aqueles vales molhados, mostrando que o tempo tem uma forma maravilhosa de nos mostrar o que realmente importa. – Escoteiro? Sim Chefe, com muito orgulho e amor! 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O chefe Lomanto Zarilson Mendes.


Lendas Escoteiras.
O chefe Lomanto Zarilson Mendes.

              Desci da barcaça em Pedra Azul no porto da esperança e o vi na beira do Rio Amarelo. A principio tive dúvidas, mas depois a certeza era única. Era sim, tinha agora certeza absoluta. Ali estava o meu amigo Lomanto Zarilson Mendes. O homem mais procurado do mundo! Mudou muito nestes últimos vinte anos. Mais curtido e com aquele chapéu de palha e sua barba branca ninguém diria que era ele. Enchia a caçamba de uma carroça com as famosas areias brancas do Rio Amarelo. – Ei Lomanto! Gritei. Ele me olhou, pensou e depois viu que era eu – Chefe Vado Escoteiro! Que prazer! Fui até lá. Abraçamo-nos. Quanto tempo eim amigo? – É Chefe, faz tempo. – Mas olhe meu amigo Lomanto, não estou entendendo você aqui neste serviço braçal! – Quer tomar um café comigo? Ele disse. Com a carroça cheia e um descanso, então posso explicar. Lá fomos nós até a Praça de Pedra Azul em um barzinho onde ele tinha amigos e fomos muito bem atendidos.

               Sentamos em uma mesinha embaixo de um Jacarandá enorme, com uma sombra linda e agradável. Uma sombra para ninguém botar defeito naquele dia ensolarado com calor acima dos trinta e seis graus. Olhamos um para o outro. Ele sorria. Um sorriso de alguém que encontrou a felicidade. Mas ele também não era feliz antes? – Minha mente voltou em segundos ao passado em Figueira do Rio Mimoso. Cidade onde nasci e cresci. Lomanto, quem não conheceu Lomanto? A cidade inteira sabia dos seus passos. Aos quatro anos diziam que tinha lido todos os livros da biblioteca. Uma mente privilegiada. No maternal as professoras não sabiam o que fazer com uma inteligência de um adulto doutor. Aos seis o colocaram no Grupo Escolar na oitava série. Não deu certo. Ele estava acima disto. O doutor Pilatos emprestou a ele seus livros de medicina. Era comum vê-los discutindo temas médicos na praça da cidade. O mesmo aconteceu com o Doutor Leimon um grande advogado e o Engenheiro Lamartine.

                 Seus pais nos procuraram no Grupo Escoteiro. Ninguém sabia o que fazer, mas recusar nunca. Os chefes de alcateia quebravam a cuca para moderar seus conhecimentos assim como quando passou para a tropa com oito anos. Errado? Não conheciam Lomanto para dizer isto. Se aos nove o vissem em um acampamento ficariam embasbacados. Lomanto era um mestre em tudo. Suas pioneiras tinham o acabamento dos melhores marceneiros do mundo. Fogões fechados a vácuo, fornos de barro, escadas giratórias, amarras impossíveis de fazer assim como costuras de arremate que ele inventou com cipós. Aos onze insistiu em ir para os seniores. Com menos de seis meses tudo perdeu a graça para ele. Fez uma grande pesquisa sobre o escotismo. Estudou tudo que era publicado pela direção nacional e internacional. Aos quinze foi ao seu primeiro Congresso Nacional. Deixou todos embasbacados. Todos o procuravam para tirar dúvidas. Sabia de cor todas as publicações escoteiras no Brasil e no mundo. Sugeriram fazer dele aos quinze anos o novo Diretor Nacional de Formação de Adultos.

                     Foi uma discussão e tanto quando deram a ele aos dezesseis anos o certificado de DCIM. Foi convidado para palestras no mundo inteiro. No Grupo Escoteiro Manto Sagrado onde eu era o Chefe, passei o cargo para ele. Foi bom, eu viajava muito. Convidado para cargos políticos recusou todos. Na cidade romarias de cientistas de todo o mundo era comum. Lomanto nunca cobrou nada de ninguém. Conseguiu um emprego nos Correios e lá recebia seus minguados salários. Jornais, revistas, TVs estavam sempre lá em busca de noticias. Lomanto ficou famoso. A WOSM insistiu para ele ser o seu Diretor Geral. Não aceitou. Fazia palestras em vários países a convite e com passagens pagas. Todos sabiam que ele falava e escrevia mais de trinta idiomas. Foi agraciado com medalhas de diversas organizações escoteiras mundiais. Mas não ficava só nisto. Laboratórios farmacêuticos, grandes empresas de engenharia, outras de advocacia os procuravam sempre para pedir sugestões ou tirar dúvidas.

                      Todos nós que ficamos amigos dele estávamos preocupados. Isto não podia continuar. Seus cabelos aos dezoito anos estava quase todo branco. Seus olhos vermelhos pareciam não dormir nas últimas semanas. Um dia um helicóptero desceu sem nenhum aviso em Figueira do Rio Mimoso. Era a Policia Federal. O levaram para Brasília. Ministros queriam falar com ele. Os presidentes do Congresso Nacional o intimaram para uma homenagem. O presidente do Banco Central exigiu sua presença. Queria opinião se subiam ou baixavam os juros. O Presidente da República o homenageou no Palácio da Alvorada. O novo Papa mandou um recado para ele ir a Roma. O pentágono ficou cismado. Nações do mundo inteiro mandavam espiões. Figueira do Rio Mimoso começou a ficar insuportável. Surgiram centenas de hotéis pousadas e campings. Restaurantes internacionais, livrarias e até uma TV se instalou ali. Um dia Lomanto sumiu. Desapareceu no ar! Ninguém conseguiu achá-lo. A Policia Federal e a Interpol fizeram tudo para encontrá-lo. Seus pais riam quando perguntavam. - Ele agora resolveu ir morar em um templo budista no Tibet. Quer ser um monge e descansar.

                       Aos poucos foram esquecendo-se de Lomanto. A cidade tomou enorme prejuízo com a estrutura hoteleira que foi construída para os visitantes. Muitas lojas seguiram o mesmo caminho. Quinze anos depois acharam que ele tinha morrido. – Pois é Chefe Vado, dizia ele – Achei melhor assim e olhe hoje sou feliz. Conheci Noêmia, minha companheira com quem tivemos três filhos. Ela coitada nem ler sabe. Mas eu a amo demais. Não a trocaria por nada neste mundo. Fingi para ela ser um iletrado. Precisa ver como ela tenta me explicar às noticias que ouvimos no radio. Mudei de nome. Aqui sou conhecido como Arlindo Landiscap. Ela nunca poderia saber o que eu era. Não esqueci nada e minha mente é a mesma. Aprendi a não pensar mais nisto. Aqui comprei esta carroça e faço carretos o que me dá o sustento que preciso. Levantei e me despedi de Lomanto. O trem da Central do Brasil que me levaria a Santos Dumont partiria dali à uma hora. Se não fosse só no outro dia.


                       Lomanto me pediu que não contasse a ninguém. Segredo de escoteiros. Dei minha palavra escoteira. Ele me conhecia e sabia que podia acreditar. Fui embora pensando o que é a vida. As escolhas que fizemos. Cada um sabe onde o sapato aperta. Lomanto poderia ter tido uma vida de rei. Seria mesmo um vida de rei? Entender suas escolhas só se estivéssemos em seu lugar. Escolheu ser um carroceiro, profissão digna, mas humilde. A maior inteligência de todos os tempos estava ali, apagada em um lar de quatro pessoas. Uma mulher e três filhos. Um lar de privilegiados. Mas quem disse que eu escolho a minha felicidade? Nunca. Você, só você sabe o que fazer para ser feliz. Que Lomanto com seu destino alcance o que quer. Que ele seja feliz para sempre!

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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