sexta-feira, 22 de junho de 2012

Do destino ninguém foge. Parte I



 Não poucas vezes esbarramos com o nosso destino pelos caminhos que escolhemos para fugir dele.
Jean de La Fontaine

Do destino ninguém foge. Parte I


Acho que o nome dele era Matheus, não tenho certeza. Mas todos o chamavam de Miltinho, porque não sei. Nunca me disseram. Talvez porque seu avô era assim chamado e como ele tinha todo o jeito dele, nada como manter o apelido carinhoso.
Era filho único e com 12 anos já estava no quinto ano do fundamental. Estudava em um bom colégio pago e mesmo não sendo um estudioso por natureza, não tinha por que reclamar de suas notas. Não diferia muito dos jovens de sua idade. Gostava de futebol e sempre que podia, ia para a quadra do colégio bater uma bola com os amigos. Também não era um futuro craque.
Em seu bairro tinha alguns amigos, não muitos. A noite se encontrava com eles para um papo ou até uma brincadeira qualquer. Nos fins de semana nem sempre saia com seus pais. Sempre ia até uma pequena quadra esportiva, próximo a sua casa e lá passava as tardes de sábado ou domingo.   
Seu pai trabalhava como gerente financeiro de uma cadeia de lojas e nunca chegava em casa antes das 9 da noite. Sua mãe, dona de casa era quem mais estava junto a ele no dia a dia. Nunca seu pai o levou para passear nos finais de semana e pouco interessava pela sua vida não perguntando nada quando se encontravam.
Um tarde de um sábado, vindo da quadra de futebol, viu três escoteiros vindos em sua direção. Já os tinha visto antes, mas não sabia como eram o que faziam e onde se encontravam. Passaram por ele conversando entre si e dobrando a esquina desapareceram como fumaça no ar. Ele ficou ali meditando, meditando e ponderou o que seria aquilo e como fazer para participar.  
Comentou com sua mãe sobre sua intenção. Ela não disse nem sim e nem não. Resolveu investigar por conta própria. Descobriu o local deles. Era um colégio a oito quadras de sua casa. Foi lá em um sábado. Viu muitos meninos e meninas brincando, correndo e um chefe apitando. Não entendeu muito, mas pelo sorriso estampado no rosto de todos, achou que devia ser bom.
Ficou ali até alguém de uniforme aparecer perto dele e perguntou como era para participar. O encaminharam para a sala onde estava o que devia ser o chefão. Ele o olhou de alto a baixo. Perguntou por que queria ser escoteiro. Ele não soube responder, mas disse que queria experimentar.
Gentilmente explicou o que fazia um escoteiro. Suas responsabilidades suas atividades e muita responsabilidade quando fizer sua Promessa Escoteira.
Encantou quando contou como eram os acampamentos, as excursões às viagens de longa distancia a grande fraternidade mundial que sempre se encontra nos Acampamentos Nacionais, Regionais ou Distritais.
Emocionou-se ao saber o que era um Jamboree e não conseguia imaginar mais de 10.000 escoteiros reunidos e acampados em um só local. Ficou sabendo de um tal General Inglês que foi o fundador. Soube que mais de 150 países possuíam grupamentos escoteiros.
Pensou que seria bom pertencer a uma patrulha. Jogar com eles. Tomar decisões, vida em grupo imaginou. Já imaginava ter seu distintivo, fazer sua promessa, mas logo acordou do seu sonho, pois era apenas narrativa do Chefe para ele, pois precisava de tomar uma serie de providencias antes de sua aceitação.
Recebeu uma ficha de inscrição que devia ser preenchida pelo seu pai e sua mãe. Tudo bem. Ele foi para a casa sonhando acordado e quase se perdeu no retorno, tomando um rumo desconhecido.
Entregou a ficha e a sua mãe. Com o pai achava difícil de falar, não se entendiam bem. Quando a noite surgiu viu o barulho do carro. Estava chegando do trabalho. Um comprimento seco, um banho, o jantar e logo foi para a sala ver o jornal da noite na TV. Já estava desistindo. Sua mãe se aproximou e sussurrou para o pai o desejo do filho. Entregou a ele a ficha de inscrição para sua assinatura.
Ele a principio não estava entendendo. Riu e veio falar com ele. Parabéns disse agora você escolheu bem. No próximo sábado irei com você até lá para conversar com o responsável. Ele não acreditou e seu pai o levou até seu quarto (o dele) e tirou de dentro de uma mala antiga, um uniforme de escoteiro e o lenço e o presenteou. Era o seu quando jovem. Participara por quatro anos. Fora monitor e primeira classe. Mudaram de cidade, onde foram não havia grupos. Mas ele não tinha esquecido.
Sempre pensou em colocá-lo em um Grupo Escoteiro, mas não sabia onde e ele não tinha se manifestado a respeito. O tempo foi passando e ele se esqueceu de tudo. O trabalho o absorvia muito. Pediu desculpas ao filho. Disse que iria apoiá-lo e acompanhar em todas as situações que se fizessem necessárias.
Foi um dia feliz. Foi para o seu quarto e colocou o uniforme na cama. Ficou ali a admirá-lo. Não se conteve. Vestiu a camisa, colocou a calça curta, devagar colocou os meiões. Olhando no espelho colocou o lenço. Ainda não sabia como colocar. Como gravata ou mais longe do pescoço. Viu que o uniforme era grande para ele. Não se importou. Achou que era o máximo.
Durante a semana o vestia se olhava e sonhava. Era como estivesse fazendo a promessa, acampando, junto a novos amigos, vivendo em uma patrulha e ele sonhava com o dia em que iria participar pela primeira vez. Logo que o dia amanheceu, acordou e foi até a janela. Sorriu para o sol e fez sua oração matinal agradecendo a Deus pela oportunidade.
Saiu de casa para conversar com um amigo e contar para ele a novidade. Vibrava com a possibilidade de ser Escoteiro. Ao atravessar a rua, foi pego por um carro a toda a velocidade, fugindo da policia que vinha logo atrás. Foi arremessado à grande distancia. Ficou inconsciente.
Levado ao hospital ficou em coma dois meses. Saiu do coma, mas sem movimentos no corpo, ficara paraplégico.
Durante um bom tempo não lembrou mais de seus sonhos. Agora eram outros. Pensou que com o tempo seus movimentos voltariam, ele não desanimou e o tempo passou. (um dia conto o final da história)

Do destino ninguém foge - parte II.

Prólogo


Quatro anos se passaram quando seus pais o levaram para casa. Nenhum movimento durante este tempo. Conseguiu mexer os braços isto depois de muito tratamento em um centro de reabilitação. Mas as pernas não. O corpo também não. No primeiro ano não falava. Não tinha o que dizer. A voz engasgada. Uma terapeuta fez tudo para ele sorrir e nada. Não acreditava em que diziam a ele. O dia mais feliz de sua vida se foi como uma grande tempestade. Ele agora só via raios e trovões a lhe auscultar o cérebro. Seu atropelamento foi um desastre. Matou seu sonho e até sua vontade de viver. Treze anos uma vida a começar assim interrompida. Sua mãe sempre com os olhos vermelhos. Seu pai fez tudo que podia, gastou o que não tinha até que os médicos disseram que era melhor ele ir para casa. Seu corpo não mais reagia ao tratamento.
Em casa pediu a sua mãe que colocasse o uniforme Escoteiro no baú do seu pai. Ele não queria vê-lo nunca mais. Seu quarto era aconchegante, a janela dava para um pequeno jardim que sua mãe cuidava diariamente. Mas ele não sentia mais o perfume das flores e o sol e a lua para ele não tinha diferença. Dormia de dia ficava acordado a noite. Dormia a noite e ficava acordado durante o dia. Trocava sempre à noite pelo dia. Nada lhe faltou. Sua mãe sempre presente. Banhos, fraldas, refeições, virá-lo sempre para não dar ferida ao corpo, enfim uma mãe incansável para que seu filho pelo menos sorrisse.
Uma tarde bateram em sua porta. Sua mãe atendeu. Surpresa. Dois escoteiros uniformizados queriam falar com Miltinho. Ele não entendeu nada. Não os conhecia. Nunca os viu e esteve na sede deles por pouco tempo. – O que querem? Falou. Sejam breve estou sem tempo agora! Mal educado. Nunca pensou que um dia falaria assim. Eles sorriram. Nós não queremos nada de você. É você que vai querer de nós. Chega de auto-piedade. Você só sabe sentir compaixão de sí mesmo? Está com dozinha de você? Lastimando-se? Não vê que tem pessoas sofrendo a sua volta? Afinal, você é um homem ou um rato? – Quem são voces? Quem dá o direito de falarem assim comigo? – Eles não responderam.  Mudaram de assunto. – Sábado que vem vamos vir aqui e levar você para a reunião escoteira. Afinal não era seu sonho? Só porque se acidentou se acovardou?
Miltinho não escondia sua surpresa e eles foram embora. Chamou sua mãe e perguntou quem eram eles? Eles quem? Ela disse. Os dois escoteiros que aqui estiveram. – Meu filho, não veio ninguém aqui hoje. Miltinho ficou mudo. Por quê? Quem eram? Assombração? Afinal ele já estava com dezesseis anos e não tinha medo de nada mesmo entrevado numa cama. Mas porque, porque, insistiu com seu pensamento. No sábado bateram a porta. Lá estava os dois de novo. Vamos – disseram. Ir com voces? Voces são fantasmas! Não ando com fantasmas. Eles riram. Pegaram Miltinho, colocaram-no em uma cadeira de rodas e saíram de casa rumo à sede Escoteira. Nem despediu de sua mãe e seu pai. Os dois a pé empurrando a cadeira de rodas. Uma festa. Aplausos de todos os jovens. Abraçaram-no, e foi para uma Patrulha Sênior com duas meninas e dois meninos. Ele era o quinto. Claro na cadeira de rodas.
Miltinho! Largue esta cadeira, agora vamos fazer um jogo e não dá para você ficar sentado feito um folgado! Um deles sem ele esperar o levantou e outro empurrou a cadeira para o canto do pátio. Miltinho pensou que ia cair, mas suas pernas se firmaram. Ele não acreditava! Vamos molenga! Diziam todos! Miltinho sorriu, correu, brincou, suou e de volta a sua casa quando entrou viu que esqueceu a cadeira de rodas na sede. Que fique lá para sempre, disse para si mesmo. Aperto de mão, abraços e Sempre Alerta e lá foram os dois escoteiros.
Sua mãe o chamou várias vezes e ele custou para acordar. – Mãe a senhora me viu chegar ontem dos escoteiros? Como? Ela disse. Eu fui lá com os dois escoteiros. Sua mãe sorriu. Mas e a cadeira de rodas? Ela não veio! Meu filho, você nunca teve uma cadeira de rodas. Não pode sentar. É bom que ele sonhe pensou sua mãe. Pelo menos não fica tão triste como estava. Se isto lhe faz bem vou ajudar. E eis que Miltinho senta na cama, se levanta e diz a sua mãe – Deixa que eu vá ao banheiro, escovar os dentes e depois vamos todos nós tomar juntos o café da manhã. Há tempos não fazemos isto! Sua mãe estava boquiaberta! Meu Deus! Um milagre? Ela não sabia se ria ou chorava. Gritava de alegria e chamou seu pai que veio correndo. O abraçou. Quem visse veria uma família maravilhada e sorrindo como ninguém sorriu antes.
Miltinho voltou a estudar. Seu pai o levou aos escoteiros. Ele se tornou um jovem tão feliz que o mundo mudou e ele acompanhou. Sei que hoje é muito requisitado na fábrica que trabalha pela sua felicidade. Os outros querem saber como fazer para ser feliz. Miltinho lembra-se de tudo que aconteceu. Não sabe explicar o que houve quem eram os escoteiros e qual o grupo que foi. Não importava. Se Deus quis assim, agradecemos a Deus por ter me dado à vida de novo. Os escoteiros do sonho nunca mais apareceram. Mas Miltinho nunca os esqueceu. Casou e teve um filho. Quase não tinha tempo para ele. Quando fez treze anos disse que queria ser Escoteiro. Miltinho sorriu. Sim ele também se chamava Miltinho. Deu para ele seu uniforme. Vou lá com você no sábado, seu filho sorria de alegria.
De manhã abriu a janela, agradeceu a Deus pela vida e sua alegria em ser Escoteiro. Correu a casa de um amigo para contar a novidade. Ele seria escoteiro como seu pai fora. Ao atravessar a rua viu um carro em alta velocidade fugindo de um carro da policia. Pneus rangeram uma batida forte. Alguém gritava. Miltinho por sorte escapara.  Não sabe como não foi atropelado. Alguém o empurrou antes da batida. O carro dos bandidos bateu em um poste. Um morto e outro ferido. Miltinho respirava forte. Graças a Deus, Graças a Deus. Olhou no final da rua e viu os dois escoteiros acenando. Eram os escoteiros do sonho de seu pai. Acenou também. Meus anjos da guarda pensou. A vida nos reserva surpresas sem explicação. Fazer o que? Aceitar o seu destino, pois Miltinho sabia que do destino ninguém foge!  

Segue teu destino, rega tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias..... Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode dizer-te.A resposta , está além dos Deuses.
Fernando Pessoa





domingo, 10 de junho de 2012

O perverso Pirata Barba Negra.


         
AS LEGENDÁRIAS LENDAS ESCOTEIRAS

(Se ainda não leram as aventuras dos Cinco Magníficos anteriores, não percam. É uma leitura gostosa destes seniores que todos irão admirar).
Os cinco Magníficos

(Os cinco Magníficos são seniores da patrulha Aconcágua, do 568º Grupo Escoteiro Pico da Neblina. Rotineiramente estarão aqui contando suas epopeias divertidas e aventureiras. Muitas já vividas pelos nossos magníficos seniores de todo o pais. Sejam bem-vindos a patrulha Aconcágua e os cinco Magníficos).

Historia de hoje: O perverso Pirata Barba Negra.
- Nem todos os piratas eram criminosos - Isso vai depender muito do seu ponto de vista, mas durante a guerra, as nações emitiam cartas que permitiam que os navios atacassem os inimigos. Normalmente, quem atacava os inimigos dividia o que era saqueado no navio com o governo que havia emitido a carta. Esses homens também eram chamados de piratas. Os ingleses Sir Francis Drake e Capitão Henry Morgan agiam desta forma e nunca atacaram portos ou comerciantes. Para os ingleses eles foram considerados heróis. Para os espanhóis, eles eram criminosos.
                 Eu tinha o telefone de Max na carteira. O guardei de maneira tal para não perder nunca. Afinal além de conhecê-lo profundamente, pois diversas vezes nos encontramos e tive a honra de participar com eles em uma aventura sem igual quando fomos à Montanha dos Sete Desejos nunca mais esqueci aquela patrulha fenomenal. Sempre eles vinham em minha lembrança onde quer que fosse. Sempre quando eu viajava próxima a cidade onde eles moravam, não deixava de visitá-los. E-mail e lembranças entre eles e eu eram frequentes. Na tropa Escoteira no grupo em que dava minha colaboração sempre pensava que ali faltava alguma coisa. Ria comigo mesmo. Comparar com os Cinco Magníficos era até covardia. Passei para o papel todas suas aventuras em forma de romance. Ninguém em tempo algum me inquiriu se eles existiam ou não.
Max atendeu de pronto e se mostrou alegre em saber que estava em sua cidade. Ficamos de nos encontrar à tardinha na Praça do Pavão, onde havia muitos bancos e poderíamos conversar a vontade. Perguntou se poderia levar o Junior, o Jan a Liv e a Marly. Claro que sim disse. Afinal voces formam um time e falar com um em particular fica até ruim. Minha amizade se estende a todos. Cheguei no horário e eles já estavam lá. Abraços, sorrisos e logo sentamos em um gramado da praça para ficarmos mais a vontade. Era um sábado e perguntei por que não estavam em reunião. Vi que os rostos de todos ficaram triste. – Algumas coisas aprontaram eu pensei.
Chefe – Olha, era o Jan quem falava. Estamos comendo o pão que o diabo amassou. Tudo só tem dado errado. Nosso Chefe Sênior mudou de cidade e o assistente assumiu. Ele é jovem. Muito exigente. Disse que nós somos uma Patrulha que destoa da tropa. Diz que somos metidos a bom, não gostamos de participar nas atividades programadas da tropa e desfiou uma infinidade de reclamações. Ficamos calados. Não era hora para discutir com ele. Pela ultima aventura que passamos ficamos dois meses sem ir à reunião e dois meses desaparecidos da cidade. E por isso nos deu dois meses de suspensão. Estamos proibidos de fazer qualquer atividade Escoteira. – O que? Perguntei. O que voces aprontaram? – Nossa ultima aventura foi um desastre. Nossos horários nunca foram cumpridos.
Mas que aventura foi essa? – perguntei. Não lhe contamos? Para lhe dizer a verdade foi uma aventura que não esperávamos. Fomos convidados por uma Patrulha do mar que ficamos amigos no ultimo Acampamento regional de Patrulhas para um sábado qualquer irmos até a cidade deles, que é perto e iriam dar um passeio e nos levar com seu novo barco. Achamos que eles estavam preparados. Pedimos licença ao nosso Chefe Sênior e ele desconversou. Havíamos prometido que iriamos e ficaria muito mal se não fossemos. Decidimos em Patrulha que iriamos e que desse o que desse não iriamos decepcionar nossos amigos.
Embarcamos em um ônibus no sábado bem cedinho. Cedo ainda nos encontramos com eles em uma marina pequena onde o barco ficava ancorado. A reunião seria as duas e meia e dava tempo de dar uma volta na enseada e voltar a tempo da reunião. Chefe – O senhor nem imagina o que aconteceu. – Saímos da baia, pois eles eram bons remadores e disseram que iam nos Levar a Ilha das Cobras, mas que não nos assustássemos, pois era uma ilha bem conhecida deles. Eles eram quatro. Natan, Paulo, Leiva e Tonico. Bons rapazes. Todos com mais de quatro anos de escotismo.
Olhei para o Junior e ele riu. Liv e Marly continuavam as mesmas. Sempre caladas, mas sabia que quando começassem a falar não iam parar mais. Foi Marly quem continuou. – Nunca esperávamos o que aconteceu. Até hoje acho que é um sonho, mas as costas do Junior e do Jan com marca da chibata não deixa outra saída em acreditar que foi tudo realidade. Meu Deus! Chibata? O que foi isto? – Chefe – Uma história que não contamos para ninguém. Para o senhor sim, pois esteve conosco em uma e sabe da verdade. Foi incrível mesmo. Pegou-nos desprevenidos. Uma bruma, isto mesmo, uma bruma nos pegou no meio do caminho. Ficamos cegos sem enxergar nada. Nosso barquinho começou a rodopiar como se estivéssemos em um redemoinho gigante.
Não demorou muito e tudo terminou. Estávamos à deriva em alto mar. Natan o Monitor deles era bem calmo e disse que não precisávamos preocupar. Estava com sua bússola e um mapa náutico. Logo acharia onde estávamos, pois pelo vento e ciscos no mar demostravam que estamos perto da costa. Mas o incrível aconteceu. Vimos ao longe uma nau ou um galeão e nos assustamos. Não era um navio qualquer. Daqueles antigos com muitas velas e enorme. Grande mesmo. O que fazia ali um navio destes? Todos nós ficamos olhando o Galeão se aproximar. Desceram um escaler e três marinheiros vieram ao nosso encontro. Agora sim, o susto não parava. Todos eles vestidos como se estivessem no século XVIII. Obrigou-nos a entrar no seu bote e quando chegamos ao convés do navio ficamos boquiabertos. Achamos que era uma brincadeira, mas não era não. Um capitão barbudo, fétido, com uma enorme cicatriz na testa pegou o chicote e deu uma chicotada no Max e outra no Jan. Isto é para aprender a ter respeito, ele falou em inglês. Jan falava bem o idioma e nos disse o que ele falou. Vimos que não estavam ali para brincar.
Max aguentou a dor calado, mas Jan não. Gemia baixinho. O barbudo gritava, ameaçava, dizia que não tinha comida para todo mundo. Não ouve diálogos. Botaram-nos a “ferros” no primeiro dia sem comida e água. O cozinheiro deles no segundo dia nos procurou e perguntou se éramos filhos de Lord Lowell, um inglês que era amigos de Barba Negra. – Barba negra? Como? Que ano estamos? – Ele riu e disse que achava que era em 1678, não tinha certeza. Não era brincadeira. Eles não estavam brincando como o Capitão Jack Sparrow do filme Piratas do Caribe. Todos nós começamos a chorar. Medo, receio, mas o que aconteceu? Foi Jan quem disse que poderíamos ter passado pelo fenômeno de um “paradoxo temporal”. Dizem que às vezes isto acontece no mar e gera resultados logicamente impossíveis. Tornamo-nos um viajante do tempo e fomos parar no passado.
Incrível! Eu não acreditava, ou melhor, nenhum de nós acreditava. Interessante que o mais calmo era Natan. Tentava nos acalmar e dizia para termos fé. Iriamos sair desta. No terceiro dia nos deram comida e água. Libertaram-nos e fomos obrigados a fazer limpeza em muitos lugares do navio. Fétido, alguns faziam suas necessidades em qualquer canto e não tomavam banho. Um mau cheiro incrível. Liv e Marly aguentavam firme. No décimo dia já tínhamos acostumado com tudo. Um horror aconteceu no decimo quarto dia. Um navio mercante espanhol foi perseguido e atacado. Não se entregaram sem luta. Uma carnificina. Um inferno para nós. Roubaram tudo do navio, botaram fogo e mataram o resto da tripulação na prancha como se fosse uma diversão a parte. Barba Negra só vociferava. Andava com varias pistolas, facas e uma espada. Aprendeu a trançar suas barbas e pintar de vermelho, parecendo que elas estavam em chamas.
Ele ditava as regras, as normas e ninguém jamais ousavam discuti-las. Ninguém via sua parte do butins, pois ele escondia muito bem no navio que era seu. Ficamos no navio por quarenta e cinco dias. Não sei como aguentamos tanto. Uma noite Natan nos disse como fugir. Ele conseguiu ver nosso bote amarrado próximo a estibordo do navio e soltá-lo seria fácil. Não titubeamos. Se descobrissem sabíamos que iriamos pagar caro, mas não dava mais para continuar. Quarenta e cinco dias sem banho, comendo mal, agua salobra um inferno. Uma da manhã, uma noite que o rum correu solto. Beberam até cair. Paulo, Junior, Max e Leiva foram desamarrar o barco. Tonico Liv e Marly ficaram juntos. Não tínhamos comida nem agua. Seja o que Deus quiser pensamos.
Não foi difícil, todos desceram pelas cordas que ficavam na lateral do navio. Uma hora depois já não avistávamos o galeão. Sorrimos e gritamos de alegria. Mas à tarde, o sol quente e a sede queimavam os lábios de todos. Ainda bem que a sueste umas nuvens negras prenunciavam chuvas torrenciais. Alegria com a agua. Bebemos até a barriga estufar. De manhã avistamos uma cidade e ficamos com medo de aproximar. A fome era enorme. Nossas roupas em farrapos. O que fazer? Dito e feito. Uma bruma nos pegou de chofre. Um redemoinho e acordamos com o sol a pino próximo a ilha das cobras. Gritos, alegria, sorrisos, e em pouco tempo chegamos à marina. Fracos, em frangalhos fomos socorridos.
Depois ficamos sabendo que ficamos fora mais de cinquenta dias. No hospital convalescendo mais de quinze dias. Contar o que para eles? Iriam acreditar que estivemos prisioneiros do pirata Barba Negra no ano de 1678? Quem iria acreditar? Todos nos resolvemos calar. A desculpa foi que o barco ficou a deriva e navegamos sem rumo por todo aquele tempo. Comemos frutas em ilhas que achamos e graças a Deus conseguimos voltar. As nossas familiares choraram de alegria com a nossa chegada. Achavam que estávamos mortos. A maioria queria que saíssemos do escotismo. Fim da Patrulha Aconcágua? Impossível. Isto não iria acontecer nunca.
Nosso Chefe Sênior não perdoou. Em uma reunião do Conselho de Tropa Sênior nos suspendeu por dois meses. Proibidos de fazer escotismo e falar sobre ele. Pediu aos nossos pais que não deixassem que nos encontrássemos (os membros da Patrulha). Mas não adiantou. Quase todas as noites nos falamos pela internet, celular e uma vez por semana encontramos sempre aqui na praça. Somos amigos e irmãos escoteiros e seremos até morrer. Sei que eu e o Max já estamos nos aproximando dos Pioneiros e sentirei muito a falta de todos. Não sei o que vai acontecer, mas o Junior me disse que a Patrulha não ia acabar nunca. Ele, Liv e Marly fizeram um juramento que nossa falta seria sentida, mas outros nos substituiria.
Fiquei pensando em tudo. Uma aventura incrível. Desta vez a morte por perto. Já tinha lido algum sobre o pirata Barba Negra. Ficou anos saqueando navios até que um dia a colônia de Virginia despachou uma força naval britânica sob o comando de Robert Maynard, e depois de uma dura batalha, obteve sucesso e a morte do Barba Negra foi inevitável. Dizia o relato que ele foi decapitado e a cabeça dele pendurada na verga do mastro principal do navio “Queen Anne’s Revenge”. Os seniores e as guias não viram nenhum tesouro no navio. Dizem que teria sido enterrado por ele e que nunca foi encontrado. Porem muitos duvidam que o tesouro tenha existido.
Voltei para minha cidade e continuei mantendo contato com os Cinco Magníficos. Vencido a suspensão voltaram às atividades desta vez diminuindo um pouco a sede de aventura. Max e Jan passaram para os pioneiros e uma nova guia e um novo Sênior foi admitido à patrulha. Mês que vem deverei realizar uma inspeção em umas máquinas que vendemos em uma cidade próxima. Vou encontra-los é claro. Sei que corre na veia daqueles valentes seniores e guias um sangue quente de aventuras. Iram aprontar outras tenha certeza.
Mais uma historia que irei contar para meus leitores. Acreditar? Ninguém vai acreditar. Irão pensar que é alegoria do autor. Um suspense ficção para impressionar. Que pensem assim. Eu conheço a Patrulha, estive com eles em uma que até hoje fico pensando o que foi realmente. Gostaria de voltar a ser jovem. Daria tudo para ser aceito na Patrulha Aconcágua. Seria tenho certeza um grande Sênior dos Cinco Magníficos!

Alguns mitos dos piratas

. Alguns contos de piratas dizem que o costume de matar sobre a prancha começou depois da Era Dourada, mas as evidências sobre isso são quase inexistentes. Mas não pense que esse era o único tipo de punição. Piratas que quebravam as regras eram abandonados em ilhas, chicoteados ou mesmo “quilha-transportados”, um tipo de castigo em que um pirata era amarrado a uma corda e então jogado ao mar, de um lado do navio. Então era transportado pela quilha, por baixo do navio, até o outro lado.

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Eles raramente enterravam tesouros. Um ou outro de fato fizeram isso, como o Capitão William Kid, mas a verdade é que pouquíssimos chegaram a enterrar algum tesouro. E existiam algumas razões para isso. Eles preferiam dividir os tesouros roubados entre a tripulação do que enterrá-los. Além disso, a maioria dos tesouros não era ouro e sim comida, tecidos e outras - coisas que estragariam facilmente se enterradas. Na verdade, essa lenda de enterrar tesouro durou tanto tempo devido ao livro “Treasure Island”, que falava de uma caça ao tesouro.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

A matilha Vermelha e a Operação Cavalo de Troia.



O cavalo de Troia foi um grande cavalo de madeira usado pelos gregos durante a Guerra de Troia, como um estratagema decisivo para a conquista da cidade fortificada de Troia, cujas ruínas estão em terras hoje turcas. Tomado pelos troianos como um símbolo de sua vitória, foi carregado para dentro das muralhas, sem saberem que em seu interior se ocultava o inimigo. À noite, guerreiros saem do cavalo, dominam as sentinelas e possibilitam a entrada do exército grego, levando a cidade à ruína.

A matilha Vermelha e a Operação Cavalo de Troia.

A matilha vermelha estava em polvorosa. A grande competição anual com tema livre estava marcada para o próximo sábado. Nos últimos dois anos eles ganharam o prêmio. O que os outros fariam? Eles iriam fazer uma grande apresentação – Uma mimica bem bolada de um sobrado em chamas, um neném chorando, um bombeiro passando etc. Gostaram muito quando Larissa deu a ideia. Riram muito de tudo. Achavam que a as demais matilhas iam rir a valer também. O primeiro prêmio estava no “papo”!
O premio era o máximo. Três caixas cheias de bombons Sonhos de Valsa para o primeiro colocado. Eles sabiam que a vitória estava na mão e os azuis? Eles eram o perigo. Sempre disputando palmo a palmo com os vermelhos.
Larissa era a prima da matilha e conversou com Téo seu segundo sobre o tema. Ela sabia que as outras matilhas não eram páreo para os vermelhos. Como descobrir o que os azuis iriam fazer? Afinal a preparação era segredo para todos. Cada matilha teve um mês para se preparar. E não era na sede por isso ninguém sabia o que iriam apresentar. Marcaram uma reunião na casa do Téo. Toda a matilha Vermelha. Eram seis. Laércio, Matilde, Noêmia, Vadinho, Larissa e Téo. A mãe dele sempre prestativa e alegre com os lobinhos. Serviu uma vitamina de mamão bem geladinho com biscoitos achocolatados.
Larissa repassou novamente a apresentação da matilha. Depois colocou o problema na mesa. Quem sabe o que os azuis irão apresentar? Ninguém sabia. Ficaram ali conversando por mais uma hora. Larissa muito esperta disse que sem saber o que eles os azuis iriam fazer não seria possível ter a certeza que iriam ganhar novamente. Alguém pode descobrir? Ninguém podia. Era uma reunião secreta que as matilhas faziam e ninguém podia se aproximar que não fosse da própria. Tive uma ideia! Disse o Laércio, e se colocássemos na reunião deles um Cavalo de Troia?
Poucos sabiam o que era isso. Foi o próprio Laercio quem explicou - O cavalo de Troia foi um grande cavalo de madeira usado pelos gregos durante a Guerra de Troia, como um estratagema decisivo para a conquista da cidade fortificada de Troia, cujas ruínas estão em terras hoje turcas. Tomado pelos troianos como um símbolo de sua vitória, foi carregado para dentro das muralhas, sem saberem que em seu interior se ocultava o inimigo. À noite, guerreiros saem do cavalo, dominam as sentinelas e possibilitam a entrada do exército grego, levando a cidade à ruína. Duvidas brotaram. Mas vamos fazer um cavalo de madeira e colocar no quarto do primo da matilha azul? Risos de todos. Nada disto tenho um plano disse Laércio.
Vamos dar a ele um presente. Um presente que ele não gosta. Ele vai deixar no quarto e não vai ligar. Dentro do presente iremos colocar um microfone em miniatura. Meu tio é detetive e acho que pode me dar um de presente. Quando soubermos o dia que irão se reunir, ficaremos próximos a casa dele e vamos ouvir tudo! Grande plano disse Larissa. Os demais ficaram meio assim. Acharam que não era próprio de lobinhos e da Lei do Lobinho. Mas no final Larissa convenceu todo mundo.
Uma semana antes todos já sabiam o que os azuis iriam fazer. Deram até risadas, pois as danças da Jângal já não eram mais surpresas e um deles soube de uma nova de Kaa. Treinaram a valer. Eles estavam no papo. O dia chegou. Sorrisos, um olhando para o outro. Melhor Possível! Melhor Possível Akelá! O Grande Uivo foi lindo. Todos pulando juntos e alto gritando – Melhor! Melhor! Melhor e Melhor! Fizeram um jogo de “cola” (um escolhido como cola, os demais soltos no pátio, o cola encosta em um e cola e vai tentando colar todos os demais). Mas a espera era mesmo na apresentação.
Soninha da Verde com seus olhos azuis sonhava com os bombons. Zeraldo da Marrom pensava como seria bom ganhar e comer os sonhos de Valsa. Todos agora só viam as três caixas de bombons, pois era o maior premio que poderiam receber naquele dia. A hora chegou. Balu chamou todos até o anfiteatro. Aboletaram-se na frente. Ninguém queria ficar distante do palco. A Matilha Verde fez uma apresentação primorosa. A mãe de um deles era professora de canto e tocava violino. Treinou com eles uma canção linda. Uma apresentação de gala.
Depois foi chamado a Marrom. Fizeram um pequeno teatrinho contando a vida de Baden Powell. Perfeito, lindo mesmo. Ninguém sabia que eles poderiam fazer tão bela representação. Foi à vez dos vermelhos. Larissa toda posuda foi a primeira a interpretar o bombeiro. Cada um se esmerou quando chegou sua hora. Riram muito do Laercio interpretando o nenenzinho chorão. Muitas palmas quanto terminaram. Larissa olhava para cada um e sorria. Era como a dizer que não tinha para ninguém.
Mas meu Deus! Chegou à vez dos Azuis. Arrasaram. Simplesmente arrasaram. Não apresentaram nenhuma dança. O que ouve? Alarme falso no microfone do Laercio? O que eles fizeram até os vermelhos tiveram que aplaudir. Uma apresentação primorosa. A fábula da Estrela Verde. Apresentaram soberbamente. Linda a historia. Deus mandou varias estrelas a terra. Voltaram desiludidas muitos anos depois. Disseram que a terra é um mundo ruim. Gente se matando, roubando, não existe amor e quando existe é só uma paixão passageira. Porque continuar lá? Disseram. Deus então deu falta de uma estrela. Onde está a Verde? Perguntou. Ela? Disseram. Ficou lá, achou que poderia ajudar os humanos a mudarem de atitude. A serem bons. A amarem uns aos outros. Deus e as demais estrelas então olharam para a terra e viram um clarão verde em volta dela.
Uma lição de moral para os vermelhos. Não pensaram nos outros só em sí próprio. Queriam a todo custo ganhar e para isto não mediram as consequências. Foram desonestos. Esqueceram que todos na Alcatéia são irmãos uns dos outros. E o pior os azuis quando receberam o premio foram a cada um dos lobinhos com a caixa oferecendo. Não disseram tire um, mas fique a vontade para escolher seu bombom preferido. Larissa ficou envergonhada. Foi até aos azuis e abraçou a cada um individualmente.  
Finalmente a palestra da Akelá na Pedra do Conselho foi linda. Ela disse que na Alcatéia todos são estrelas. Que estamos ali para aprendermos que a amizade vale tudo. Que devemos ganhar se possível, mas se não for, que se aplauda o vencedor. Parabenizou os azuis por serem tão gentis em distribuírem com toda a Alcatéia o premio. Larissa jurou para sí que nunca mais fariam o que fizeram. O gesto dos azuis tocou fundo em cada um.
E assim termina a operação Cavalo de Troia. Tudo deu errado. Mas tudo deu certo para aprender a crescer internamente. Isto é ser lobinho. Uma lição cada dia e um coração firme nas sendas do escotismo honesto, leal e sincero. Como é bom ser lobinho ou lobinha. Sorrir, cantar e ver sonhos realizados na Alcatéia de Sheone. 

E a matilha Vermelha continuou unida por muitos e muitos anos. Alguns passaram para a tropa, entraram outros, mas a amizade, a fraternidade e o respeito faziam parte da vida de cada um.
Nas cerimônias do Grande Uivo, os Vermelhos saltavam com alegria e vivacidade a dizer a plenos pulmões quem eram e o que seriam – “Melhor, melhor, melhor? – Sim, melhor, melhor, melhor e melhor”.

E quem quiser que conte outra...

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Saudades do meu Lampião Vermelho encantado


Saudades do meu Lampião Vermelho encantado

Saudades do meu lampião vermelho,

Quanto tempo fomos amigos
Luz amarelada, me vendo em seu espelho
Foram lindos acampamentos, sempre comigo
Que marcaram esse fedelho
Pois à noite, nuca deixou-me em perigo

Escolheram o tal lampião a gás
O motivo não sei dizer,
Mas você meu Lampião Vermelho,
Foi amigo e sempre me deixou fazer
Nunca me deixou só, clareou minha vida
Meu lindo amigo em tempo algum jamais irei te esquecer.


                Minha Avó olhava para mim e dizia – O lampião cum corosene só serve pra infeitá os comudu da casa. Era assim que ela falava. Eu gostava de minha avó. Mesmo com seu palavreado de mulher simples da roça, ela era a grande mãe que não conheci. Criou-me desde que nasci em uma casinha de barro e que ela sempre matinha limpa e asseada. Minha mãe morreu de parto e ela sozinha me criou. Plantava roça para sobrevivermos, não deixava que eu andasse de qualquer maneira e fazia questão que fosse à escola mesma que tivesse de andar seis quilômetros todos os dias.

               Um dia ela remexendo em um baú, tirou de lá um Lampião Vermelho a querosene praticamente novo. Lembro que ela disse que meu tio que morava na capital o trouxe para ela a muitos e muitos anos atrás. Sabe o que ele me disse? Ela dizia - Disse que este lampião é sentimental. Fala, chora e ri. Claro não acreditei. Olhei-o. Estava novinho. Era lindo! Não queria testar. Faria isso só junto aos meus amigos da patrulha Raposa em um belo acampamento de verão. Deixei-o guardado em meu quarto até o dia que ele seria entregue ao intendente da Patrulha Raposa. Esqueci-me de dizer, participava de um Grupo Escoteiro na cidade. Todo sábado lá ia eu com meu uniforme, marchando a pé pela estrada sempre cantando uma canção escoteira.

               Tinha um pequeno prego na parede em meu quarto. Pela alça o coloquei lá. Já ia saindo quando ouvi um barulho que parecia um toque na parede. Voltei-me e vi o Lampião Vermelho. Balançava e fazia sinais e dizia: - Gostei de você. Vamos viver juntos por longos anos. Você nunca vai se arrepender de me ter como amigo. Não era possível pensei. Lampião Vermelho não fala. Mas como soube de um chapéu de três bicos de um "Velho" "Chefe" Escoteiro e um bastão totem da Patrulha Pantera que falavam, porque não acreditar no lampião vermelho?

             No sábado seguinte o levei até a sede. Foi apresentado a Patrulha e ninguém ligou para ele. Não davam importância. Vi que ele olhou para mim com os olhos tristes. Achou que seria bem recebido. E o pior aconteceu. Quando o doei para a Patrulha ele chorou. Claro não vi chorar, mas fui embora tristonho. Soube que tinha chorado na reunião seguinte. Deu-me saudades e fui até ao almoxarifado. Ele estava caído no chão, a querosene não sei como jazia em uma poça ao lado dele. De novo em sinais me disse da sua tristeza. – Não me deixe aqui. Não tenho amigos, tentei falar com a barraca e as panelas, mas elas nem ligaram para mim. O único que me disse alguma coisa foi aquele feioso e metido lampião a gás. Ele se acha o tal.

          Dei uma desculpa ao Monitor e o levei de volta. Um belo sorriso vi no vidro que ele portava. Pendurei-o no velho prego do meu quarto. Vi que ele deu uma sonora gargalhada. De novo em casa, disse. Não sei por que comecei a gostar do Lampião Vermelho. Quando chegava da escola ou dos folguedos na rua, sempre ia ao meu quarto e dar um sorriso para ele. Ele sempre me dizia que quando fosse ao acampamento iria mostrar o quanto podia me ajudar. Nem prestei atenção a isto. Mas o dia do acampamento chegou. Minha mochila eu já tinha arrumado e ele esperando que eu o colocasse também na mochila. Esqueci-me dele.

          Vesti meu uniforme e fui até a cozinha pegar minha ração de campo. Cada um de nos levava uma pequena quantidade que no acampamento seria juntado às demais. Era assim que fazíamos, pois gastar com taxas era difícil. Minha Avó já sabia como preparar. Linda minha Avó. Quando coloquei a mochila e dei até logo a minha Avó ouvi um barulho no quarto. Lá estava ele a balançar na parede e a dizer – Não vai me levar? Não foi para isto que fui feito? Sorri sem jeito e o coloquei na alça da mochila junto com a meia lona da barraca. Coube direitinho. Ele deu uma boa risada e disse – Vamos meu amo, vamos para um lindo acampamento e eu estarei ao seu lado. Em frente marche!

         Os meus seis quilômetros foi feito com sempre cantando. Achei que ele cantava também, mas como? Lampião na fala e não canta. Mas o meu falava e cantava. Na sede ninguém o notou. Colocaram na carrocinha todo material de campo e por cima amarraram o lampião a gás que sorria todo dengoso. Foram três dias de acampamento. Como sempre eu adorava. Os raposas eram unidos e pareciam uma família quando acampavam. Eu era o cozinheiro da patrulha. Sabia que gostavam de meus “quitutes”. Fazia tudo com presteza e as noites o Lampião a Gás iluminava tudo em volta.

          No segundo dia aconteceu um acidente. Bem não sei se foi um acidente. Fizemos um tripé e colocamos lá o Lampião de gás e o meu Lampião Vermelho. Vi de longe que os dois se estranhavam. Por duas vezes o lampião de gás bateu com força no meu lampião vermelho. Ele quase caiu. Ficou quieto. Saímos para fazer um grande jogo a tarde e só voltamos lá pelas seis já escurecendo. O Monitor gritou com todos: - Algum animal jogou os dois lampiões no chão. O lampião gás jazia com o vidro quebrado e camisinha em pandarecos. O lampião vermelho estava em pé e nada quebrado e quando olhei para ele o danado sorriu.

            Não ficamos no escuro à noite. Acendi o Lampião Vermelho e apesar de não ser uma luz clara que fazia o campo ficar como o dia o danado resolveu bem o problema. A noite sentados a beira de um pequeno fogo em frente a minha barraca logo todos se aproximaram. Ficamos ali conversando, cantando e vi que o Lampião Vermelho sorria. Estava feliz. Piscou para mim e por sinais me disse: Está vendo? Afinal eu sou um lampião dos bons! Pensei comigo, metido mesmo este Lampião Vermelho.

           No outro dia enquanto fazia o café da manhã e assava uns pães do caçador, o Monitor e mais dois da Patrulha se aproximaram. Começamos a conversar. Logo a conversa evoluiu para o Lampião Vermelho. Todos diziam que ele dava um aspecto mais mateiro ao acampamento. A noite ficava mais linda e as estrelas no céu brilhavam mais efusivamente. Não tinha pensado por este lado, mas olhei para o Lampião Vermelho pendurado próximo a nós em um tripé mais reforçado e vi que ele balançou para um lado e outro. Sorria como sempre o danado.

           Ouve outros acampamentos. Outras excursões. Lá estava o Lampião Vermelho a nos guiar e com sua luz bruxuleante nos trazia mais próximo à natureza. Ele mesmo nos ensinou como preparar o seu pavio para dar maior claridade. Ensinou-nos também que a querosene devia ser colocada pela metade em seu bujão. Ensinou que o pavio não devia ficar alto se não a chama forçava com a fumaça e iria sujar o vidro. Notei que os outros também passaram a conversar com o Lampião Vermelho.

             Por diversas vezes os patrulheiros da Raposa iam me visitar só para conversar com o Lampião Vermelho. Ele quando era noite pedia para acendê-lo e lá fora em frente ao meu barraco de barro, levávamos um banco de madeira e dois banquinhos e ficávamos horas e horas conversando. Minha Avó ao longe cantava uma canção sua predileta e olhava para nos embevecida e orgulhosa. O Lampião Vermelho agora era mais um da raposa. Ele também contava histórias, pois nunca mais perdeu uma atividade da patrulha.

              Um dia consegui passar em um vestibular para uma faculdade. Claro, já quase adulto e tive que ir para uma cidade grande. Iria levar minha Avó comigo, pois sabia que ia trabalhar de dia e a noite estudar e precisava dela como ela precisava de mim. Conversei horas e horas com o Lampião Vermelho. Vi que a tristeza e a dor da despedida o fizeram chorar baixinho. Eu também chorei. Não sabia o que fazer. Levá-lo comigo ou deixá-lo com a Patrulha? Dei a ele inteira liberdade de escolher. Você decide meu querido Lampião Vermelho.

             Não foi uma decisão fácil. Mas ele preferiu ficar com o novo Escoteiro que estava na Patrulha vindo do lobinho. Vi que eles se entendiam perfeitamente. Ele mesmo me disse que na cidade seria somente uma relíquia ou uma recordação de um passado saudoso. Ele não queria ser uma recordação. Achava que tinha muito ainda para iluminar as noites escuras dos acampamentos junto aos jovens escoteiros sonhadores. Assim como foi meu amigo e iluminou meus dias de juventude ele achava que iria ajudar em muito a nova juventude que iria aparecer na patrulha.

             O dia em que o Noviço foi buscá-lo, ele me olhou e chorou. Eu também chorei. Disse para ele: - Lampião Vermelho você me fez chorar muitas vezes. Deu-me muitas alegrias também. Mostrou-me novos caminhos, novos horizontes. Iluminou minhas noites alegres e tristes. Fez de mim um homem com sua maneira honesta de ver as coisas.  Não queria perder você, mas o destino muitas vezes não nos dá condições de escolha.

            Adeus meu querido Lampião Vermelho. Adeus. Espero que faça a todos felizes como me fez feliz por todos estes anos que ficamos juntos. Fiquei ali na porta do meu barraco de barro, a ver o Lampião Vermelho balançar e ficar sorrindo para o Noviço. Notei que os dois conversavam animadamente. Minha Avó veio de mansinho e me deu um abraço. Chorei nos braços dela. Nunca mais voltei àquela cidade. Nunca mais soube onde anda o Lampião Vermelho que fez parte da minha vida. Acho que ainda existe e deve estar fazendo milhares de acampamentos, excursões e vivendo uma vida feliz junto aos escoteiros que sempre amou.

               Seja feliz meu amigo Lampião Vermelho. Seja feliz. Escolhemos dois caminhos e cada um de nós agora devemos procurar encontrar a nossa felicidade. A luz bruxuleante do Lampião Vermelho me veio à mente. Em segundos revivi toda a vida que vivemos juntos. Moro agora em uma cidade grande. Não tenho mais o meu Lampião Vermelho e nem posso ver mais as estrelas no céu. Outros objetos e aparelhos o substituíram. Mas apesar de tudo nunca esqueci e nunca vou esquecer os dias felizes que passei junto ao meu amado Lampião Vermelho!

E quem quiser que conte outra.           
        
Minha infância na roça

Ai! Que saudades do lampião a querosene,

Das tardes canoras do meu sertão.
Dos passeios pelas roças de café,
Vendo o sabiá beliscando o mamão.
O amanhecer na roça era gostoso de ver
Ar puro, cheiro de relva, neblina na baixada,
Gado bom de leite, a ordenha quente pra beber,
O dia mal clareava eu ouvia o cantar da passarada.

Á aurora se desfazia dando lugar ao sol quente

No espigão um pé de ipê jazia florido e solene,
O vovô e o papai saiam cedo, sempre contentes,
Cultivam a mãe terra que nos dava o sustento.


José Aparecido Botacini



Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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