sexta-feira, 9 de novembro de 2012

As aventuras de Juliano – Um valente Escoteiro e a Jaguatirica Amarela do Pântano do Demônio.


A compaixão pelos animais 
está intimamente ligada à bondade de caráter, 
e quem é cruel com os animais 
não pode ser um bom homem.


As aventuras de Juliano – Um valente Escoteiro e a Jaguatirica Amarela do Pântano do Demônio.

           A noite havia chegado de mansinho. A fumaça naquela clareira se misturava com o orvalho que soprava de leste para oeste. A pequena brisa da tarde ainda trazia em nossas faces o frescor da primavera. Gil tinha feito uma sopa de macarrão com batata nos “trinques”. Ao lado do fogão tripé, um bule negro de alumínio fazia nosso café noturno borbulhar. Estávamos em cinco. Nossa Patrulha os Tigres Brancos tinha sete patrulheiros. Ali estava eu, Nuno, Gil, Denis, Tiago o Monitor. Maneco e Toninho não vieram. Estavam com caxumba. Como reclamaram por não vir. As duas barracas de meia lona já estavam armadas. Nossas tralhas preparadas para dormir. Estávamos na estrada há dois dias. Um acampamento volante de quatro dias. O Chefe Gustavo nos encarregou de visitar o sitio do Padre Totonho, que agora aposentado da igreja vivia ali seus últimos dias. Ele mesmo nos convidou a acampar lá. Longe, quase vinte e cinco quilômetros para chegar. Se achássemos um bom lugar, devíamos fazer um relatório e um croqui. Fácil. A Patrulha tiraria de letra. Para chegar lá Denis ficou encarregado do Percurso de Giwell.

             Nuno logo tirou sua gaita cromática da mochila. Ele tocava maravilhosamente. Dominava bem todas as musicas escoteiras e quando as notas musicais da Canção da Despedida eram lançadas no ar, parávamos de conversar e nossos pensamentos viajavam para o passado, onde vários fogos de conselhos deixaram saudades. Desta vez tocou outra, A Canção do Clã. Ele ouviu quando os pioneiros acamparam conosco no ano passado. Era outra musica linda. Em uma montanha bem perto do céu, existe uma lagoa azul! Quando ele tocava era como se nos estivemos escalando uma linda montanha azul. Algum tempo depois, jogando conversa fora Gil me pediu que contasse de novo a viagem com meu pai no Pântano do Demônio. – Mas já contei duas vezes, falei! – Mais uma, insistiu. Acho que Nuno e Tiago ainda não ouviram. Era uma história real. Aconteceu quando fiz onze anos. Ou seja, há três anos. Não sei se me trazia boas lembranças, mas meus amigos não só da Patrulha como da tropa sempre me pediam quando em conversa ao pé do fogo como agora ou em Fogo de Conselho que contasse a história. Ninguém nunca reclamou. Desde pequeno que tinha o dom de Contador de Histórias.

                Estávamos sentados em um tronco seco, que já estava ali e onde fizemos nosso fogão tripé para aquela noite. Era uma sexta e desde quinta marchávamos na estrada para o nosso acampamento volante e sabíamos que no dia seguinte no sábado iriamos chegar. Senti que numa Aroeira próxima, uma coruja “sustava” a nos olhar com seus olhos negros reluzentes. Eu era reconhecido como amigo dos animais e das plantas e tinha por todos os bichos, pássaros e insetos um respeito enorme. Não só pelo nosso sexto artigo da lei, mas porque sempre fui assim desde que nasci. Incapaz de fazer qualquer maldade com eles. Diferente do meu pai. Eu gostava muito dele, mas ele adorava caçar. Nunca me deu chance de dizer para ele que era errado. Um dia achei umas palavras de Chico Xavier e como meu pai se dizia espiritualista entreguei para ele o que estava escrito: - Nós seres humanos estamos na natureza pra auxiliar o progresso dos animais, na mesma proporção que os anjos estão para nos auxiliar. Portanto quem chuta ou maltrata um animal é alguém que não aprendeu a amar.

              Acho que não ajudou em nada. Meu pai tinha uma sala separada da casa aonde guardava seus troféus de caça. Na parede ele tinha cabeças empalhadas de Tamanduá Bandeira, Queixada, Jacarés, Ariranha, Cachorro do mato lobo Cinzento, Veado-galheiro e outras dezenas. A única que admirava era uma linda Arara Azul. Morria de pena, pois sempre gostei de ver as aves voando e os animais soltos nas campinas ou florestas. Todos sabiam meu amor pelos animais e pássaros. Quando acampávamos na Mata do Riacho Grande, havia um Pintassilgo, que eu chamava de Doce de Coco, que sempre vinha ficar no meu ombro. Eu podia correr cantar, armar barraca, fazer pioneirias e lá estava o Doce de Coco no meu ombro. Todos ficavam abismados. Ele não ia ao ombro de ninguém. Claro sempre levei na mochila um bom bocado de alpiste e ele adorava. Não só ele como dois Tico-ticos amarelos que vinham comer em minha mão.

                 Ajeitei-me melhor no tronco, estiquei as pernas, peguei minha caneca esmaltada e coloquei um cafezinho. Logo Gil serviu alguns biscoitos em um prato. Respirei fundo e comecei a contar minha história. Eu gostava dela. Não sei por quê. Quem sabe foi uma que me marcou muito. – Voces todos conhecem meu pai, comecei. Eu o amo muito, mas ele gosta de caçar. Sempre se achou um grande caçador. Nunca me contou, mas soube que quando jovem fez um Safari na África. Tem muitos troféus lá em minha casa e voces viram, mas não tem troféus de animais africanos. Ele sabe do meu amor pelos bichos. Não me condena. Sei que gosta muito de mim e quase não me conta suas histórias, suas jornadas, suas aventuras de caçada nas selvas brasileiras. Uma vez me contou que esteve no Alto Amazonas. Não conseguiram caçar nada. Ele, seus amigos Zé Barrica e Zoroaldo o Barbeiro foram aprisionados pelos Kalapálos. Não entrou em detalhes. Só contou que uma unidade de selva do exercito brasileiro os soltaram.

                Mas meu pai nunca se dava por satisfeito. Mesmo com a proibição de caça pelo IBAMA ele dava suas escapulidas sem ninguém saber. Todos voces sabem que minha mãe morreu quando nasci. Meu irmão Ricardo agora moço, está estudando Engenharia Mecatrônica na capital e pouco nos visita. Ele trabalha e se sustenta. Minha irmã Matilde casada mora na Espanha. Ele me escreve muito e diz que é muito feliz. Já se ofereceu para pagar minha passagem para conhecer meus sobrinhos lá em Salamanca. São cinco. Ela me disse que perto de sua casa tem escoteiros e escoteiras. Que eu vou gostar de ir lá. Mas continuando, um dia meu pai me chamou até ao seu habitat preferencial. Ou seja, a sala de Troféus. Vi nele um semblante de alegria, seus olhos brilhavam quando estava ali.

                 - Juliano, mês que vem eu o Zoroaldo e O Zé Barrica, iremos fazer uma caçada no Pantanal do Mato Grosso. Zoroaldo vai levar seu filho Dondinho. Ele já fez dezoito, mas pensei em convidar você. Nunca o chamei para isto. Sei que não gosta. Mas meu filho será minha última caçada. Não farei mais nenhuma. Você não precisa matar nenhum bicho. Prometo que vai gostar do lugar. É lindo. Iremos comer pela manhã um Sarrabulho, um prato delicioso, vai beber o Tereré, servida em cuia, e farei para você um caldo de piranha pantaneiro que você nunca mais vai esquecer. Dê-me este prazer meu filho. Adoraria sua companhia. Iremos de avião até Corumbá e você vai poder conhecer a cidade, fica a margem esquerda do Rio Paraguai. Faz fronteira entre o Paraguai e a Bolívia. Dizem que é considerada a Capital do Pantanal. Iremos ficar lá um dia e de Chalana iremos subir o Rio Paraguai até a Serra de Albuquerque. É lá que iremos encontrar a Jaguatirica, um gato do mato, considerado um dos maiores felinos do brasil.

                    Fiquei pensando naquele convite. Dizer o que? Um pedido do meu pai? Nunca ele me pediu nada. Sei que estava "Velho", mas ainda tinha forças para trabalhar na sua oficina de carpintaria. Nunca pensei em vê-lo atirando em um animal qualquer. Seria um visão que não gostaria de guardar. Mas negar? Afinal seria uma viagem maravilhosa. Eu Escoteiro de Primeira Classe teria oportunidade de aprender muitas coisas. Disse sim ao meu pai. Estávamos em junho e no dia cinco de julho iriamos partir. Voces lembram quando dei adeus para cada um. Não fui ao acampamento da tropa na cidade de Viçosa. Queria ter ido. Dizem que os escoteiros de lá eram amigos e estavam prontos a nos receber com carinho. Mas o convite do meu pai não podia ser negado. Nunca tinha viajado de avião. Foi fantástico. Fiquei na janelinha. Que coisa maravilhosa meu Deus! Chegamos pela manhã em Corumbá. Ficamos em uma pensão que meu pai já conhecia as margens do Rio Paraguai.

                    À tardinha meu pai e seus amigos compraram tudo que precisavam. Iriamos ficar cinco dias na Serra do Albuquerque. Acamparíamos as margens do Pântano do Demônio. Ele não sabia por que este nome. Era uma linda lagoa com águas azuis. A viagem na Chalana do Capitão Traíra (que nome eim?) foi de tirar o folego. À tardinha desembarcamos próximo a Serra de Albuquerque. Disseram-nos que com uma hora chegaríamos até ao Pântano do Demônio. Para mim tudo bem. Estava acostumado. Quem reclamou muito foi o Dondinho, filho do Zé Barrica. Não estava acostumado. Armamos as barracas e eu fiz um fogo e claro um fogão tropeiro meu conhecido de longa data. Achei uns troncos finos e entrelaçados deram bons bancos para nós quatro sentarmos. Fui dormir tarde. Eu não sabia das qualidades do meu pai em conhecer a natureza, ao belo por do sol, e principalmente da esfera celeste. Ele me explicou as direções e movimentos dos corpos celestes e outros pontos do céu. Falou dos princípios círculos máximos da abóboda celeste. O equador, a eclíptica e o horizonte. Era incrível como ele conhecia os círculos máximos, onde surgem os equinócios e os pontos cardeais. Passei a admirá-lo mais e mais. Era outro pai.

                  Levantamos cedo. Meu pai me disse que ficasse no campo. Ele o os outros iam atrás da Jaguatirica. Na beira da lagoa acharam suas pegadas. Ele disse que era questão de horas. Não foi preciso muito. Quando saiam por uma picada ela apareceu. Imponente. Enorme. Toda rajada de amarelo. Não era uma, mas duas. Um casal. Vi que a fêmea estava prenha e o perigo era grande. Meu pai estava com sua Winchester 44 sem balas e os outros também. Nunca esperam que a Jaguatirica aparecesse assim de repente. Ainda mais com uma companheira. Meu pai assustado gritou para mim – Corra Juliano, corra muito! Vai ser uma carnificina a quem ela pegar primeiro! Olhe, era um belo animal. Olhos grandes, um felino que devia pesar uns sessenta quilos ou mais. Só o pulo dela daria para jogar no chão cinco homens adultos. Não corri. Não era meu feitio. Nunca tinha visto nada igual, mas caminhei em direção a elas calmamente. Meu pai gritou. Zoroaldo, Zé Barrica e Dondinho sumiram no meio do mato.

                  Abri os braços e sorri para elas. Meu pai não estava entendendo nada. A fêmea se aproximou de mim. Lambeu minhas mãos. E depois deitou aos meus pés. O macho ainda desconfiado. Mas chegou mais perto e pude acariciar seu pelo liso e isto me trouxe uma enorme felicidade. Ambas deitaram aos meus pés. Sentei na grama. Fiquei ali acariciando e falando baixo. Meu pai não se aproximou. Acho que naquela hora acreditou que eu tinha pacto com o demônio. Só podia ser para fazer aquilo. Zé Barrica, Zoroaldo e Dondinho estavam estupefatos. Fiquei ali bons minutos com as duas Jaguatiricas. Depois elas se levantaram e foram embora calmamente. Não houve tiros. Meu pai desistiu. Disse para mim que nunca mais iria ar um tiro em um animal. Depois do que ele viu não tinha dúvidas. Falei para ele baixinho o que tinha lido há tempos sobre matar os pobres dos animais – Pai, eu li que os animais selvagens nunca matam por divertimento. O homem é a única criatura para quem a tortura e a morte dos seus semelhantes são divertidas entre si.

                 Ficamos lá quatro dias. Sem dar nenhum tiro. Só conhecendo a beleza da Serra do Albuquerque e do Pântano do Demônio. Nunca disse para ele, mas varias vezes saia para um passeio na mata e encontrava as duas Jaguatiricas de pelo amarelo. Elas corriam e eu corria atrás delas. Elas paravam e pulavam em mim. Sem machucar é claro. Eu ria. Cheguei a fazer de montaria em uma delas que me jogou ao chão gostosamente. Voltamos pela mesma Chalana do Capitão Traíra. Foi um dos passeios mais maravilhosos que realizei. Dali em diante eu e meu pai mantivemos uma amizade que nunca pensei em ter com ele.

                 Parei de contar a história. Gil, Nuno, Denis e Tiago me olhavam com espanto e admiração. Sabia que um dia iriam pedir para eu contar novamente. As lembranças seriam eternas. Nunca iria esquecer a grande aventura que realizei com meu pai. Fomos dormir. Cedo levantamos e partimos. Muitos sonhos na mente e no coração. Eu gosto do escotismo. Amo tudo que faço. Adoro de coração acampar, viver ao ar livre. Sou mesmo amigo dos animais. Queria vê-los todos eles soltos, os pássaros no céu cantando alto. Quem sabe uma Jaguatirica para brincar comigo nos meus acampamentos da vida. Isto é escotismo. Sempre disse aos meus amigos e a todos que encontro. Escotismo? Sim, uma maneira de ser feliz!

As criaturas que habitam esta terra em que vivemos, sejam elas seres humanos ou animais, estão aqui para contribuir, cada uma com sua maneira peculiar, para a beleza e a prosperidade do mundo.



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O lobisomem de Onda Verde e o valente Escoteiro Pedrito.



A história é a verdade que se deforma, a lenda é a falsidade que se encarna.

O lobisomem de Onda Verde e o valente Escoteiro Pedrito.

            Debora Bottcher uma poetiza sintetizou de uma maneira estupenda como seria as lendas que correm pelo mundo. Ela tem um poema lindo, que parte dele diz: - “Sou lenda, porque a lendas correm livres junto ao vento, buscando as vozes da memória para que alcancem as histórias perdidas no tempo”. Não que Pedrito o cozinheiro da Patrulha Coruja fosse o “faloreiro”, ou melhor, um garganta na cidade de Onda Verde. Afinal Onda Verde no interior de São Paulo era considerada uma cidade com o melhor ar do mundo. Onde se podia sentir o aroma das flores, onde se podia ver a relva verde como se fosse uma onda espalhada sem mar. Calma, pacífica, menos de vinte mil habitantes era um paraíso para os que nasceram lá. Mas o Escoteiro Pedrito nascido e criado lá não era fácil. Contava “patacas”, valentias e até criava histórias impossíveis, e que ele sempre era o herói. Seu Chefe de tropa sempre disse a ele do primeiro artigo da lei. Uma só palavra. – Pedrito deixa de ser garganta! Dizia sempre. Ainda bem que todos sabiam que sua imaginação era fértil, e compreendiam.
   
            Mas eis que um fato aconteceu e tudo mudou de repente. Um boato surgiu do nada e serviu de motivo para que todos habitantes não saíssem à noite. Contava-se a boca pequena que alguns moradores juraram ter visto um lobisomem rondando a cidade na ultima semana. Até os escoteiros que tinham o costume de ir às sede a noite na Rua Garça ficaram com medo e só saiam em patrulhas e nunca sozinhos. Sempre tinha os mais entendidos que diziam que o perigo era só nas noites de lua cheia e em uma encruzilhada. “Aí então era um Deus nos acuda” O monstro passava a atacar animais e se não tivesse atacava os homens ou as mulheres. Diziam que ele adorava sangue humano. Só volta ao normal quando vem o raiar do sol.

            Naquela quinta a lua era quarto crescente. Na sede da Rua Garça todas as patrulhas estavam reunidas com o Chefe Naldinho e o Assistente Renato. Lá estavam os águias, os corujas, os touros e os elefantes. Ninguém faltou. Sabiam do grande jogo e ninguém queria perder. Seria uma “Busca ao Tesouro Perdido” na cidade. Achavam que seria um jogo estupendo. Seis pistas espalhadas pelos quatro cantos de Onda Verde. A primeira seria uma espécie de carta prego. Cada Patrulha deveria abrir em determinada hora em um ponto da cidade. O que não estava agradando a todos era o horário do jogo. O Chefe tinha determinado que fosse de seis da tarde às dez da noite. Assim ele disse o jogo seria mais difícil e para encontrá-lo seria preciso olhos de coruja. Claro os Corujas também não ficaram muito animados. A conversa de esquina do lobisomem amedrontava a todos. Menos Pedrito.

           Para mostrar coragem ele dizia que ia achar o tesouro e “caçar” o lobisomem. Mostrava os braços estendidos fazendo pose de como ia derrubar o Lobisomem com um soco somente. No meio da testa. A Patrulha se reuniu para discutir sobre o jogo. Mas Lavério um Escoteiro antigo entrou com o assunto do lobisomem. Disse que fizera uma pesquisa sobre Lobisomens e que ele se originou de uma lenda antiga. Segunda a lenda, o lobisomem seria o sétimo filho após uma sequência de filhas mulheres. Ele seria um homem normal, que se transforma em meio lobo meio homem durante as noites de lua cheia. A lenda dizia que as Quartas feiras de cinzas e a Sexta feira santa seriam os dias mais propícios para o aparecimento do lobisomem. Quando ele aparece para se saciar de sangue humano, dizia Lavério.

          Todos deveriam tomar cuidado, continuou Lavério, quando os cães ficassem agitados, não parassem de latir, pois eles poderiam ter avistado o Cachorro grande que nada mais nada menos seria o lobisomem. A Patrulha ficou muda. Ninguém dizia nada. Pedrito logo se levantou. Se ele aparecer me chame, dou um jeito nele! Todos riram. Naquela noite foram para casa juntos. O ultimo a chegar seria Pedrito. Quando Nando ficou na casa dele ele sozinho, começou a ficar com medo. Agora sem ninguém na esquina da Peçanha ele pensava se topasse com o Lobisomem. Nem pensar! Que Deus me ajude! Saiu correndo virou a próxima esquina e entrou em sua casa espavorido.

           Os dias foram passando. A Patrulha se encontrando e se preparando para o grande jogo. Na sexta feira seria entregue aos Monitores uma carta prego dando a primeira pista. Sabiam que no envelope só estaria escrito o local e o horário aonde eles os Corujas deveriam abrir. As instruções só quando abrissem. Conheciam as cartas prego. Não era segredo, mas ninguém sabia como era a primeira pista. Naquele dia era noite de lua cheia. Não ficaram na sede até tarde como era costume. Só comentaram sobre a carta que tinham recebido e “diabos” o local para abrir seria na Rua Balalaica, em frente ao portão do cemitério! Caramba! Pedrito não gostava dali. Claro seria às seis da tarde, mas mesmo assim ele não gostava do cemitério. Jurava ter visto um dia uma alma do outro mundo voando baixo em cima das catacumbas.

               Pedrito naquela noite não pensava em assombração, capetas, ou mesmo o tal lobisomem que por sinal estava sendo esquecido por toda a cidade. Assoviava baixinho uma linda canção Escoteira que aprendera no último acampamento e pensava como seriam lindo as montanhas e lagos existentes na canção. Disseram que assim cantavam os caçadores de peles daquele país, no passado, quando não conseguiam caçar nada e voltavam em seus caiaques cantando tristonhos e saudosos de suas famílias que há tempos não viam. Ao virar a esquina da Rua do Papagaio, viu um vulto correndo em direção ao Matadouro do seu Luizão. Para dizer a verdade em outras épocas Pedrito teria corrido sim em direção a sua casa, mas, como estava sem histórias para contar, resolveu correr atrás do vulto. Nem olhou para trás e quando olhou era tarde de mais.

                 Viu o vulto passar pelo matadouro e entrar no cemitério. Nove da noite ele começou a tremer e deu meia volta. Deu de cara com o Lobisomem. Enorme, parte de cima peluda, dentes enormes, olhos vermelhos chamejantes, unhas dos pés e das mãos enormes. O bicho o pegou pelo lenço Escoteiro e o levantou no ar. – Quem é você magrelo papudo? Perguntou. – Pedrito tremendo e já molhando sua calça curta respondeu chorando – Sou o Pedrito Senhor Lobisomem! – Pare de borrar de medo e seja homem! Falou o Lobisomem. – Mas sou um menino Senhor Lobisomem, bom Escoteiro da Patrulha Coruja, bom filho, bom aluno. Solte-me pelo amor de Deus! – O lobisomem chegou sua boca fedida no seu rosto e disse – Vou lhe dar uma mordida na orelha, se gostar vou tirar todo seu sangue, se não gostar quebro seu pescoço e o deixo ir embora! – Pedrito estava quase desmaiando de medo. Sem perceber quando o Lobisomem ia morder a sua orelha ele foi mais rápido. Deu uma dentada na orelha dele. O bicho berrou! Maldito disse. E o soltou levando a mão na orelha.

                Ninguém soube explicar, mas a Patrulha toda apareceu para ajudar Pedrito, estavam com seus bastões e o Lobisomem tentou correr e caiu na calçada bem em frente ao portão do cemitério. Ao cair a mascara de lobisomem se soltou e todos viram que era “Seu” Chulápio, o coveiro do cemitério. – Então é o Senhor o Lobisomem não “Seu” Chulápio, fingindo e assustando todo mundo. “Seu” Chulápio choramingando pediu pelo amor de Deus que não contassem para ninguém. Ele não tinha diversão nenhuma no cemitério. Nem mesmo uma alma do outro mundo ou um fantasma apareciam mais. Deixaram-no sozinho, pois tinha mais de seis meses que não morria ninguém na cidade.

                  A patrulha ficou com pena do “Seu” Chulápio. Prometeram não contar nada. Mas o Pedrito, ora, ora. O Pedrito contava para todo mundo da mordida que deu na orelha do Lobisomem. Todos riam e olhe, Pedrito fazia questão de passar em frente ao cemitério todas as noites de lua cheia. A cidade passou a admirar sua coragem. O Lobisomem apareceu outras vezes e não deixou de fazer alguns habitantes correrem feito loucos. Alguns juraram de pé junto que viram muitas vezes em noite de lua cheia, o Lobisomem abraçando Pedrito. Quem não gostou foi à mãe de Pedrito. Teve que dar muitas lavadas na calça de Pedrito. O jovem Escoteiro valente tinha “borrado” ela de tal maneira que quase teria sido melhor comprar uma nova.

                  Bem, deixa o Lobisomem para lá. O jogo da Caça ao Tesouro Perdido foi um sucesso. Melhor para Pedrito que junto a sua Patrulha acharam a sexta pista fácil. Claro, com a ajuda do “Seu” Chulápio que viu o Chefe colocando o tesouro no Mausoléu da família Crispim. Ninguém soube da ajuda e nem Pedrito contou para ninguém. O Tesouro? Oito canivetes suíços. Lindos. Valeu. Certo ou errado, Pedrito era um bom escoteiro. E como caçador de Lobisomens e Vampiros sua fama correu mundo. Mundo? Claro, mundo de Onda Verde, a cidade que ele viveu e morreu amando para sempre.

E quem quiser que conte outra...
       
Sou Lenda, 
porque as lendas são envoltas em Mistérios e Magias.
São uma criação dos caminhos da mente, da vaga imaginação da liberação dos silêncios da alma...





terça-feira, 9 de outubro de 2012

O Selvagem das Terras Altas. A história do Cacique Capotira. O Selvagem da Cabeça Branca.


Evitar o perigo não é, a longo prazo, tão seguro quanto expor-se ao perigo. A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada.

O Selvagem das Terras Altas.
A história do Cacique Capotira. O Selvagem da Cabeça Branca.

                Se havia algum que me deixava deprimido era não poder fazer alguma atividade que por um motivo ou outro pensei em fazer. Nunca em minha vida tive medo de enfrentar a estrada, as matas, campinas, os rios estreitos e largos, as cachoeiras, as corredeiras infernais e até as mais altas montanhas. Deliciava-me quando conseguia conquistar cumes imensos, atravessar rios caudalosos seja de que maneira for descendo corredeiras ou mesmo encontrar com o imponderável pela frente era motivo de orgulho. Não sei quantas vezes passei por isto. Medo? Um pouco. Muitas vezes “molhei as calças” e não me envergonho de dizer. O que me deixava agora chateado era não encontrar alguém da Patrulha para ir comigo. Estava enfezado. Israel disse que não podia – Bitelô, como vou ficar vinte dias fora? – Tãozinho então – Nem posso pensar nisto Bitelô, meu pai não vai deixar nunca. E assim um por um não encontrei ninguém que topasse enfrentar um desafio novo.

               Tudo começou quando fui cortar o cabelo na Barbearia do seu Praxedes. Era o barbeiro do meu pai há muitos anos. Eu cortava cabelo com ele desde os cinco. Ele sempre soube o que fazer e como era o corte. Estava lá entretido quando entrou um sujeito com um bigode que nunca tinha visto um igual. Enorme. Diria que os lados quase alcançavam ao queixo. Passou um tempo e ele começou a conversar com o seu Praxedes e conversa vai conversa vem disse que morava na Morada do Morto Vivo. Nunca ouvi falar. Seu Praxedes balançou a cabeça. Contou então a história mais incrível que tinha ouvido. Disse que bem longe de sua casa, bem ao norte subindo o Rio Turvo, quem sabe duas semanas a pé, existia uma serra alta, toda tomada por uma imensa floresta. Ninguém ainda tinha entrado nela. Era completamente desconhecida. Um dia um homem todo marcado e sangrando como se tivesse sido esfolado vivo chegou a sua porta pedindo ajuda e socorro. Trataram dele dentro do que conheciam e no quinto dia ele partiu. Quando ia virando a curva da Trilha da Goiabeira gritou – Nunca tentei entrar na Floresta do Diabo! Lá ainda mora o Selvagem da Cabeça Branca. Ele não conversa com ninguém. Ele esfola e mata. E sumiu junto as plantação de figo que tínhamos acabado de plantar.

              Depois não falou mais. Cortou o cabelo aparou o bigode e quando ia saindo o segurei pelo braço. Ele me olhou e vi nos seus olhos faiscarem. Conhecia este tipo de valentia de outras eras quando das minhas brigas eternas e quase desisti de perguntar. – Moço, como faço para chegar na Floresta do Diabo? Ele riu. Pegue o trem. Desça em Baixo Guandu. Suba o Rio Turvo por oitenta quilômetros. Quando avistar uma garganta entre duas montanhas, vá por baixo mais dez quilômetros. Quando ela terminar irá ver uma imensa floresta subindo aos céus e densa por causa do nevoeiro. É lá. Mas menino, nunca vá lá. O Selvagem da Cabeça Branca dizem nunca deixou ninguém vivo e os que conseguiram fugir ficaram com sequelas no corpo morrendo em poucos meses. Virou-me as costas e sumiu na Rua do Sumidouro e nunca mais o vi. À noite minha patrulha tinha marcado uma reunião na sede. Pretendíamos acampar nas férias de julho e poderíamos escolher um bom local e quem sabe fazer as grandes pioneirias que sempre planejamos e não fizemos. Poderíamos ficar oito dias acampados.
  
               Enquanto todos discutiam lembrei da conversa do Homem do Bigode Rastapé que me contou a história fantástica. Contei para a Patrulha. Riram e não deram atenção. Tentei de todo modo motivar a irmos lá. Foi Israel que colocou a questão crucial – Olhe Bitelô, Oitenta quilômetros rio acima, depois mais vinte. Você sabe. Sem trilhas, matas dos dois lados e com corredeiras tem de ser a pé. Pelos meus cálculos não conseguiremos andar mais que vinte quilômetros por dia, e olhe lá. Só aí seriam cinco dias para ir e mais cinco para voltar. Nem sabemos o que vamos encontrar. Claro que na volta uma jangada pode nos trazer mais rápido, mas e então? Subir uma montanha que ninguém nunca subiu? E se for verdade esta historia do tal Selvagem esfolador? Não somos heróis. Nem sabemos o que vamos encontrar.

               Tentei de todo modo motivar a turma. Não estava conseguindo convencer aqueles seniores destemidos. Deram todo tipo de desculpa. Parece que não era a minha Patrulha que não recusava nenhum desafio. Voltei para casa frustrado. No dia seguinte Pedrinho me procurou em casa cedo ainda – Olhe Bitelô, não dormi a noite. Só pensando nesta história do esfolador. Encontrei com o Israel e ele me disse a mesma coisa. Acho que devemos nos reunir hoje na sede e conversar de novo sobre isto. Dito e feito. A Patrulha conversou por horas. No final tudo planejado. Achávamos que quinze dias seriam suficientes. Os seis valentes seniores da patrulha Cascavel iriam entrar em ação novamente. Que nos esperasse a Floresta do Diabo. E que se danasse o Selvagem da Cabeça Branca. Ele ia conhecer uma turma da pesada! A aventura ia começar e que aventura foi meu Deus!

                Seu Josué era o Chefe da Estação da Estrada de ferro. Já nos conhecia. Aproximou-se e perguntou – Para onde vão desta vez? Até Baixo Guandu Seu Josué. E de lá? - Bem vamos tentar chegar até a Floresta do Diabo. Isto é vamos subir o Rio Turvo. – O rio eu conheço, mas esta floresta não. Cuidado com o Rio. Quando menos se espera ele sobe até dois ou três metros do seu nível.  Gente boa seu Josué. O trem parou na plataforma. Subimos na Segunda Classe e logo ele partiu. Seriam por volta de três horas de viagem. Se tudo corresse bem chegaríamos em Baixo Guandu lá pela uma da tarde. Foram preparativos imensos. Nossa ração que estávamos acostumados era de no máximo dez dias. Ração para quinze ou vinte não sei não. Mas achamos que encontraríamos pelo caminho muita verdura, peixes e quem sabe algum animal ou ave para matar a fome e economizar nosso farnel.

                   Éramos seis. Eu, Romildo, Fumanchú, Taozinho, Israel e Pedrinho. A Patrulha estava completa. Todos foram segunda e Primeira Classe quando escoteiros e agora muitos portavam a eficiência II. Não havia pata tenras. Passamos juntos por poucas e boas. Na viagem o espírito era nota dez. Cantamos, contamos “causos”, até umas piadinhas que não podiam ser contadas para os lobinhos. Meio dia e meio avistamos Baixo Guandu. Uma cidade de mais ou menos quinze mil almas naquela época. Hoje não sei. Antes de o trem entrar na estação avistamos o pontilhão do Rio Turvo. Descemos e como sempre atraiamos atenção. Não dava tempo para conversar. Partimos. Um trecho de estrada estadual e logo uma carroçável margeava o rio. Sabíamos que ela iria desaparecer em breve. Dito e feito. Uma mata rala, e logo uma mata fechada. Que dificuldade para dar cada passo. O rio naquele trecho era manso. A tarde veio chegando. Precisávamos de um lugar para arranchar. Sabíamos que não podíamos ficar próximo à margem. Pelos menos uns trezentos metros. As muriçocas nos comeriam vivos. Experiência de outras épocas.

                   A primeira noite foi calma e assim a segunda. Mas cada dia mais difícil ficava a caminhada. Na tarde do terceiro dia avistamos uma cachoeira enorme. Época da piracema. Um espetáculo a parte. Quem já viu sabe como é. Lindo! A luta dos peixes para subir rio acima é algum de espetacular. Escolhemos um belo piau de dois quilos e o Fumanchú nos fez uma gostoso assado de peixe na brasa. No dia seguinte demoramos mais de três horas para escalar a cachoeira. Não foi fácil. No quinto dia achávamos que estávamos atravessando o inferno. Que dificuldade meu Deus! Cada metro mais e mais um emaranhado da floresta. Naquele dia acho que não andamos cinco quilômetros. Se continuasse assim não chegaríamos a tal Garganta. No sexto dia a mata ficou rarefeita. Tiramos o atraso. Na manhã do sétimo dia avistamos a Garganta. Fácil de percorrer. Um gostoso riacho pedregoso e raso com águas límpidas. Na tarde daquele dia avistamos a famosa Floresta do Diabo. Imponente. Grandiosa. Misteriosa. Uma nevoa encobria o seu topo. Resolvemos dormir e prosseguir no outro dia.

                Levantamos cedo. Graças a Deus que durante os sete dias não choveu. Não foi preciso usar as lonas. Dormimos sob as estrelas. Pela manhã após um cafezinho partimos. Não havia como escolher uma local para a subida. Por toda parte arvores gigantescas e vegetação encobrindo tudo. Fomos em frente. Fumanchú nos disse que nossa ração daria para mais quatro dias. Se pudéssemos encontrar alguma caça ou pescar seria bom. Pescar ali não dava. A subida ficou íngreme. Três passos a frente um atrás. Quem sabe encontraríamos algumas frutas silvestres pensava enquanto andávamos. A mata fechada. Muito fechada. Começou a escurecer. Abrimos uma pequena clareira e dormimos, não antes de uma gostosa sopa de batata. Um bule de café nas brasas umas batatas doce e a noite chegou firme. Pegávamos no sono com facilidade.

               Acordei com o dia raiando. Vi o Romildo e o Fumanchú de pé, sem se mexer e olhando firme para frente. Tremi na base. Um índio enorme. Olhe mais de dois metros. Grande e sem ser gordo era descomunal. Cabeleira longa e totalmente branca. Sem barba. Olhos negros fitando-nos. Não disse nada. E agora, seria o tal Selvagem da Cabeça Branca? Vai nos esfolar e matar? Israel e Tãozinho se levantaram. Pedrinho sentou e se assustou. Era o menor de todos. Todos se aproximaram e ficamos juntos. Romildo o Monitor pegou seu bastão. Arma? Que nada, era leve e nem como porrete quebraria o galho. Calças começaram a ficar molhadas. Ele fez um sinal como dissesse – Venham comigo. Fazer o que? Juntamos nossas tralhas e fomos com ele.

                  Gente, o caminho era uma surpresa. Ele nos levou por uma encosta, onde uma trilha mínima e tendo como esteio um cipó enorme, atravessamos. Do outro lado uma pequena ponte pênsil que ele puxou não sei de onde, passamos e chegamos próximo a um platô, enorme. Avistamos algumas Ocas e uns vinte índios nos cercaram. A maioria mulheres e crianças. Ninguém falava nada, ninguém sorria. O tal da cabeça branca nos mandou entrar em uma oca. Enorme. Grande mesmo. Cabia lá toda a tribo isto é pensei que poderia ser uma. Um pequeno fogo no meio e que cheiro ruim. Ruim mesmo. De que seria? Romildo disse que mataram um porco do mato e ele estava em um canto da oca. Só podia ser ele. O tal da Cabeça Branca nos mandou sentar. Todos sentaram. Ele humildemente, o que estranhei começou a falar:

                 - Eu e os demais da tribo estamos pensando o que fazer com vocês. Não gostamos de estranhos. Eles nos fazem mal. Todos que aqui vem nós o matamos ou esfolamos. Um aviso para ninguém vir. Há muitas e muitas luas seus irmãos brancos mataram quase todos da minha tribo. Morávamos próximo a Aimorés, quase junto a Lagoa da Traíra. Éramos de paz. A sua FUNAI nos deu terras e fazendeiros nos tomaram. Uma noite entraram em nossa aldeia. Mataram quase todos. Eu, filho do cacique Lobo Branco, Pontiac filho do bravo Amanaki, Iraci minha namorada na tribo e filha de Caíare estávamos caçando. Quando chegamos vimos todos mortos e os brancos saqueando tudo. Nos escondemos. Levaram os corpos e os enterraram na entrada da Aldeia, mais de cinco quilômetros onde morávamos. Choramos muito. Mais cinco crianças correram até nós. Estavam vivos. Eu tinha dezesseis anos e era o mais velho. Resolvemos fugir.

                - Descobrimos esta floresta depois de dias de viagem pelo Rio Turvo. Achamos que quase ninguém viria aqui. Na Garganta Cajuru montamos um ponto para observar todos que se aproximam. Voces passaram por ela. Vimos todos os seus passos. São meninos como eu era. Sei que vieram por aventura. Eu também fui assim. Hoje somos menos de trinta. Iraci me deu oito filhos. Paramos. Não podemos crescer mais. Um livro sagrado foi escrito. Todos sabem o que diz lá. Aqui temos muita água e fizemos uma represa para criarmos peixes. Temos uma horta com muitas verduras. Conseguimos mudas de cana, de mandioca e de abóbora. É nosso sustento. Não queremos riquezas e aqui sabemos do ouro tão ambicionados por voces. Amanhã vamos decidir seus destinos. Ficarão na Oca de Pontiac. Não saiam de lá.

                 Saiu e fomos levado por Pontiac até sua morada. Custamos para dormir. Pela manhã eu já estava de pé quando uma indiazinha de uns doze anos entrou e disse que o Cacique Capotira (o tal da cabeça branca) nos chamava. Em uma roda de índios nos entregou nossas mochilas e algumas frutas. Disse que podíamos ir embora. Não pediu para ficarmos calados só disse que se contássemos a história da tribo e onde estávamos ele sabia que não iam durar muito. Deu a cada um uma pepita de ouro. – Façam o que quiserem. Pegamos nossas mochilas e partimos com ele a frente. Levou-nos até a Garganta Cajuru. Mostrou-nos muitas piteiras secas. Disse que com oito poderíamos descer o rio facilmente. Quando a corredeira aumentar saiam da água. A cachoeira esta próxima. Partimos.

                  Para dizer a verdade eu chorei. Gostei demais da tribo. Apesar de pouco tempo ficamos orgulhosos em conhecer todos. Cinco dias depois chegamos em Baixo Guandu. Eu, Romildo, Fumanchú, Taozinho, Israel e Pedrinho fizemos um juramento de não contar para ninguém. Foi uma das nossas maiores aventuras. Sempre quando acampávamos a noite em fogo de conselho ou em uma simples conversa ao pé do fogo, rememorávamos com saudades daquela aventura que ficou gravada em nossa mente para sempre. Os anos passaram e eu passei com eles. Há vinte anos atrás encontrei com Romildo. Sei que já foi para o grande acampamento. Disse-me que um dia soube pelos jornais a história da tribo dos Cabeças Brancas. O governo deu a eles as terras e nunca mais foram importunados por brancos.

                   Acampamentos, excursões, grandes aventuras. Elas ficam gravadas para sempre em nossa mente. Assim são os escoteiros. Não sabem se esconder em sede. Partem em buscas de suas aventuras. Seja ela simples, seja ela com grande perigo. Não importa. Eles sabem até podem ir. Saudades de Capotira, de Pontiac, de Iraci e daqueles amigos sinceros que fizemos. Espero que até hoje estejam felizes, pois lá em sua tribo sentiam-se libertos, e só o sol e a lua sabiam como a felicidade fazia parte de todos aqueles Cabeças Brancas. Quem sejam muito felizes. E as pepitas de ouro? Risos. Com ela papai terminou nossa casinha na Pastoril!

O amor vive de repetição. Cada um de nós tem, na existência, no mínimo uma grande aventura. O segredo da vida é reeditar essa aventura sempre que seja possível.


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A maldição do Lobo Vermelho.


A história é a verdade que se deforma, a lenda é a falsidade que se encarna.

Lendas escoteiras
A maldição do Lobo Vermelho.

                        Juraram-me de pé junto que era uma lenda. O povo gostava de contar histórias e inventavam muito. Eu pensava de maneira diferente. Lembrei quando nas eternas competições do passado quando no Quebra Coco nos fogos de conselho, tinha uma quadrinha que gostava de dizer: Minha mãe chamava Caca, e meu pai Caco Maria. Juntando Caco com Caco eu sou filho da Cacaria! Portanto, se o Cacique Boitiguara me contou eu não podia duvidar. Tinha passado para os pioneiros e acampava sempre nas planícies do Vale do Rio Doce lá para os lados de São Mateus e Nanuque. Já conhecia a tribo dos Machacalis, ou melhor, Pataxós como dizem hoje, e me tornei amigo do Cacique e de muitos outros índios da tribo.

                       Eram uma tribo sofrida, lutavam para sobreviver, mas com uma fraternidade que superava algumas vezes a tão falada fraternidade escoteira. Quando você fazia amigos na tribo podia-se saber que eram amigos de verdade. Eirapuã, Piatã e Potira três jovens da tribo, sempre me acompanhavam quando ia ali acampar principalmente na Garganta Montanhosa do Vale do Castanheiro.  Boitiguara o Cacique na última vez que lá estive ficou horas e horas na beira do fogo junto com outros “bravos” me contando a maldição do Lobo Vermelho, uma narrativa que ele com seus gestos contava como se estivesse vivendo a personagem do "Velho" Pajé Porã (aquele que possui beleza) que ouviu de seus ancestrais esta lenda que nunca será esquecida pela tribo enquanto ela existir.

                      Minha vida de Escoteiro nunca me deixava duvidar de um índio, pois não havia motivo para mentiras entre eles. Acampei ali muitas vezes, atravessamos o Rio Doce na curva do Cavalo Doido, mergulhamos na cachoeira do Macaco e quantas e quantas vezes eu Eirapuã, Piatã e Potira subimos a montanha do Lobo Vermelho sempre à luz do sol. Eles eram proibidos de passar a noite lá. Desta vez, que o "Velho" cacique Boitiguara me desculpasse, mas pretendia aproveitar uma bela lua cheia para ir ao cume e ver toda a majestade do Rio Doce, desde Crenaque até próximo a Aimorés. Era uma visão dos Deuses e eu precisava ver.

                       Foi Porã, o pajé meu amigo que me contou a lenda nos seus detalhes. Há muitas e muitas luas que passaram, havia um amor enorme entre dois jovens da tribo, cujos pais eram inimigos de morte. Ninguém na tribo sabia explicar direito o ódio entre eles, mas quem visse a esposa de Nakian, a bela Poranga (beleza) iria entender o ódio dos dois. Nakian era pai de Kalin (bela jovem), uma jovem de deslumbrante beleza e Quaraçã (luz do sol) um jovem esbelto, forte, cuja coragem todos da tribo reconheciam desde que participou da caçada da onça parda nas selvas do Olho Negro, era filho de Mauá, e nunca eles pensaram que seus filhos pudessem se apaixonar. Fugiram um dia e só deram falta dois dias depois. A procura foi grande. Nunca o encontraram. Um ano depois qualquer bravo que se arriscasse na Montanha Cinzenta voltava correndo, pois um lobo enorme, vermelho, com uma loba de olhos de fogo matavam que se aproximasse principalmente em noite de lua cheia. A montanha mudou de nome. Passou-se a chamar a Montanha do Lobo Vermelho.

                      Do Clã só Israel topou ir comigo. Contei para ele a lenda e ele riu. Bitelô (meu apelido) você não quer que acredite não? Afinal quantas passamos juntos? Com minha mochila as costas e meu chapéu de três bicos lá fomos nós no trem rápido da Vitória Minas as oito da manhã. Descemos em Crenaque e partimos rumo a Montanha do lobo Vermelho. Nem passamos pela tribo. Não dava tempo. Era tarde e mais duas horas a noite ia chegar. Subimos já à noitinha. A lua ainda não havia despontado. Quase no topo vimos uma nascente e achamos boa para acampar. Montávamos a barraca de duas lonas e ouvi um uivo que me gelou as veias. Israel parou e ficou ao meu lado. Próximo à curva da Arvore Seca avistamos os dois lobos. Meu Deus! Enormes! Um deles saiam chispas de fogo nos olhos. Não nos atacaram.

                        Ficamos lá dois dias. O que aconteceu não vou contar aqui. Só sei que descemos no terceiro dia e fomos direto até a tribo. Boitiguara se assustou. Estavam na Montanha do Lobo Vermelho? Rimos. Claro Chefe. A tribo inteira veio saber como foi. Pedi licença e usei meu apito. No meio das árvores surgiu os dois lobos, agora não tanto ameaçadores, mas foram até Boitiguara e lamberam suas mãos e desapareceram nas matas próximas ao vale do Rio Doce. Nunca mais, e isto fiquei sabendo de Piatã e Potira, ninguém nunca mais teve medo de ir a Montanha do Lobo Vermelho. Uma lenda que correu o vale, nas fazendas e nas cidades próximas por muitos e muitos anos. Mas soube que todos riam quando souberam da história contada por dois escoteiros. Verdade ou não, até hoje dizem que os lobos da montanha ainda correm pelos picos, pelas encostas, sobem em árvores e seu uivo percorre centenas de quilômetros.  Verdade ou mentira prefiro não dizer. Quem quiser vá a Nanuque. Atravesse o Rio Doce e siga no rumo das Pedras Negras. Lá na aldeia dos índios pergunte ao novo cacique, pois Boitiguara não deve estar mais lá. Talvez quem sabe seu espirito está a correr junto aos lobos vermelhos na Montanha onde vivem. E Chefe, como foi à história? Quem sabe um dia volto aqui para contar.

E quem quiser que conte outra.

Sou lenda, 
porque as lendas são envoltas em Mistérios e Magias.
São uma criação dos caminhos da mente, da vaga imaginação da liberação dos silêncios da alma...



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O saudoso bastão totem da Patrulha Maçarico.


Em algum lugar do passado. Lá em Brownsea:
“Os jovens foram divididos em quatro patrulhas: Corvos, Lobos, Maçaricos e Touros (assim estes foram os primeiros nomes usados por patrulhas escoteiras). As patrulhas acampavam por sua conta, sob a direção de seus próprios monitores, com total responsabilidade pela sua honra de levar adiante os desejos do Chefe e com grande eficiência”.

O saudoso bastão totem da Patrulha Maçarico.


                 Eu estava escrevendo um bilhete simples para uma Chefe de lobinhos que não tinha ido à reunião e por um acaso não podemos nos encontrar. Minha visita foi exclusivamente a ela, pois fizemos um curso juntos e queria matar as saudades. O Chefe do grupo me deixou a vontade na sede enquanto as sessões estavam em atividade no pátio. Era um sábado um lindo dia. Bom mesmo para atividades escoteiras. Estava ali, pois era Chefe de tropa e as quatro patrulhas da tropa que colaborava tinham ido acampar. Não foi o primeiro acampamento sem chefia. Ouve outros. Estavam bem adestrados e o local oferecia segurança e eu confiava nos monitores. Claro iria lá à noite e no domingo também. Ficaria pouco tempo. Só ver se tudo estava bem.

             Já ia sair quando ouvi uma voz meiga, triste dizendo – Oi Chefe! Dá-me um abraço? – Olhei e não vi ninguém. Quem seria? Esconder ali era difícil. Local pequeno. Achei que tinha me enganado. Virei para a porta e de novo ouvi a mesma voz – Não vá Chefe, estou sempre sozinho. Dá-me um abraço! Caramba! Prestei mais atenção e só vi um bastão com um totem da Patrulha Maçarico. Como? Totem não fala. Não chora e nem diz que está sozinho. – Sou eu mesmo Chefe, o Maçarico. Sinto muita falta dos meninos. Hoje ninguém liga para mim. Estou sozinho aqui a muitos e muitos anos. Se tiver tempo lhe conto minha história. Estava deveras surpreso. Claro, muitos me chamaram de louco. Diziam que só eu escuto vozes assim. Escondi muita coisa que vi e ouvi. Não iriam acreditar. Primeiro foi o chapéu de três bicos que falava, depois veio O totem da Patrulha Pantera. E o Lampião Vermelho? Não faltou o lenço verde amarelo que também falou comigo.

             Fui até lá e peguei o bastão com o totem que estava todo empoeirado. O coitado precisava de uma limpeza. Devia estar ali jogado há muitos anos. Peguei um pano e fiz uma boa limpeza. Ele ria e agradecia. – Chefe, tem tempo que não me limpam. Não estava mais aguentando a poeira. Dei uma melhorada na amarração do totem com o bastão. Ficou firme. Levantei-o no ar. Ele gostou. Riu de novo. Oh Chefe! Que bom. Saudades dos velhos tempos! Precisava ficar ali. Precisava entender porque ele estava tão empoeirado e sozinho num canto. Vi que era só ele, não tinha outros totens. No mínimo estava com as patrulhas em atividade.

            Encostei-o na mesa e ele me olhou com aqueles olhos tristes (totem não tem olhos podem me dizer, mas aquele tinha, e olhe lagrimas caíram quando me contou sua história). – Sabe Chefe, foi há muito tempo. Acredito que tem mais de vinte anos. Foi quando começou o Grupo Escoteiro. Um Chefe preparou oito meninos como futuros monitores e submonitores. Havia dezenas de meninos querendo entrar. Formaram quatro patrulhas. Juninho meu Monitor conversou com todos. Disse que sua sugestão seria de escolher uma das patrulhas que foram montadas durante o primeiro acampamento Escoteiro na história. Realizado na ilha de browsea por Baden Powell (BP). Corvo, Touro, Lobos e Maçaricos. Ele deu a ideia de chamar a Patrulha de Maçarico. Contou que o Maçarico-pintado é da família “Scolopacidae”. Também são conhecidos como Baturinha, Maçariquinho, Maçariquinho-pintado e rapazinho (no Rio Grande do Sul). Contou que ele habita locais com água, tanto na costa como nas águas interiores. Manguezais, margens de rios e lagos. Vivem sempre em bandos.

           - Continuou o Totem Maçarico – Todos os patrulheiros ficaram entusiasmados.  O próprio Juninho ficou responsável para me fazer. Sua mãe colaborou. Recortou um feltro e ali bordou o que ela achava ser um maçarico. Pode olhar, ela me bordou. Não é uma perfeição, mas se aproxima muito. Juninho o nosso Monitor, ficou cinco dias escolhendo em vários pés de goiaba quem seria o escolhido para ser o meu bastão. Ele sabia como fazer e o fez com perfeição. Quando fui apresentado à patrulha e eles deram o grito e meu amigo, fui às lágrimas de alegria. A Patrulha se orgulhou de mim. Sentir as mãos deles me segurando sempre quando davam o grito, olhar o Monitor me erguer à frente olha Chefe, era um orgulho para mim.

            - Eu lembro-me de um acampamento Distrital de Patrulhas que no terceiro dia os Maçaricos conseguiram a Bandeirola de Eficiência Geral. Quando o Chefe a colocou um palmo abaixo de mim, olhei para ela e sorri. Seja bem vinda eu disse. A Bandeirola também sorriu. Devia ter pensado que agora estaria em boa companhia. Mas não foi o último. A Patrulha Maçarico era valente. Era forte. Não tinha medo, amigos para sempre. Como eu amava aquela Patrulha. Duas ou três vezes por semana lá estavam eles na sede. Seja em reunião de Patrulha, ou mesmo para um trabalho extra eu me sentia em casa. Ninguém se esquecia de mim.

             - Estivemos juntos tantos e tantos acampamentos que até perdi a conta. Juninho nunca se descuidava. Sempre passando um saboroso óleo que disseram a ele que seria bom para conservar a madeira. Dava gosto de me ver. Sempre limpo. Sempre impecável. Lembro e nunca esqueci quando ele a frente da Patrulha nos levou até a uma elevação bem alta, próximo a nossa cidade, e ali no escuro, noite alta, antes da lua nascer pediu que fizéssemos um juramento. Não deixar nunca que os maçaricos esqueçam um dos outros. Manter a Patrulha a todo custo e que sempre o totem Maçarico ficasse em posição de destaque. Mas o tempo Chefe, o tempo é cruel. As coisas nem sempre são como nós queremos.

               - Juninho foi com sua família para outra cidade. Ricardinho assumiu a patrulha. Não era mau sujeito não. Mas nada igual ao Juninho. Esquecia muito de mim. Deixava-me na chuva, à noite na intempérie sem proteção. Eu via que minha madeira do bastão já não era a mesma. A continuar assim em breve iria deteriorar e precisaria de um novo. Mas Ricardinho também se foi. Todos se foram. Os novos não sabiam de nosso juramento. Não ligavam a mínima para mim. Tornei-me um pária, um Maçarico abandonado. Sempre jogado em um canto e outro.

               - Mas o pior mesmo aconteceu. Eram todos novos. Não os culpo. Agora diziam que tudo estava mudando e o nome da Patrulha devia ser mudado. Maçarico era coisa do passado. Escolheram um nome bonito vistoso. Tiger Man. Não sei se era homem tigre. Meu Deus! Não tinha nada a ver. Mas era moda. Nomes pomposos, nomes em idiomas inglês, francês, italiano enfim, me esqueceram mesmo. Fiquei ali onde o senhor me encontrou. Tem mais de dez anos que estou sozinho e abandonado. Ninguém mais quer saber dos nomes tradicionais. Onde foram parar os Touros? Os Maçaricos? Os Corvos e tantos outros?

                - De um passado de glórias e ainda bem que as tive, hoje sem nada. Abandonado. Sem valores e esquecido em um canto qualquer da sede. Espero que não me tirem meu passado me destruindo. – Não disse nada. Dizer o que? O Diretor Técnico chegou. Não entendeu o porquê eu olhava fixo para o totem do Maçarico. Sem comentários. Ele não ia entender mesmo. Coloquei o totem no canto onde o encontrei. Falei baixinho para ele. Volto sábado que vem. Você vai ter o destaque que merece. Perguntei ao chefe se ele autorizava eu colocar o Totem na sala principal, em lugar de destaque, pois afinal era uma das primeiras patrulhas surgidas quando o escotismo começou. Ele não se fez de rogado. – As ordens meu amigo. Fique a vontade.

               Durante a semana procurei seu Almeida, um bom marceneiro. Expliquei a ele o que queria. Uma armação para colocar um bastão de um metro e meio em uma parede e que chamasse atenção. Na sexta fui buscar. Meu amigo ficou linda. Ele deu umas pinceladas na madeira com diversas flor de lis e como dizem os jovens, ficou mesmo joia. Mandei fazer um quadro. Eu mesmo escrevi lá. Palavras que saíram do coração. Cheguei lá cedo. Comecei o trabalho. A armação ficou linda na parede. Convidei todas as patrulhas para homenagear o Totem do Maçarico. Um Monitor o colocou lá. Eu mesmo coloquei em cima o quadro.

               Nele tinha escrito. Maçarico, Baden Powell te viu nascer. Aquela Patrulha do passado vive hoje em você. Você merece nosso aplauso! As patrulhas deram uma palma Escoteira. Não entendiam bem de tudo. Não podiam entender. Receberam outra formação. Todos voltaram à reunião. Fiquei só com o Totem Maçarico. Ele sorria um sorrisos dos mais lindos que já tinha visto. Seus olhos vermelhos com lagrimas caindo. – Obrigado Chefe. Obrigado mesmo. Você não sabe como me fez feliz. Uma homenagem que nunca esperava receber. Sabe Chefe, precisamos dar valor ao passado. Ele pode voltar e novamente encantar a todos. Mas isto só poderá ser possível se tiver alguém para mostrar que isto faz parte de uma bela tradição.

                Fui embora prometendo voltar pelo menos uma vez por mês. Nunca deixei o Totem Maçarico sem um abraço, sem uma saudação. Sempre tirava um dia para uma visita. Onde ele está vejo que sorri sempre. Ele aprendeu com os escoteiros e eu aprendi com BP. A verdadeira felicidade é fazer a felicidade alguém!

Em algum lugar do passado. Lá em Brownsea:
“Mas as memórias mais vividas de todas eram os fogos de conselho, antes das orações e do apagar das luzes. Ao redor do fogo à noite o Chefe nos contava algumas histórias assustadores, conduzia ele mesmo o canto Eengonyama e com seu jeito inimitável atraia a atenção de todos”.
“Eu ainda posso vê-lo como ele ficava diante da luz, alerta, cheio de alegria e de vida, um momento grave, outro alegre, respondendo todas as questões, imitando o chamado dos pássaros, mostrando como tocaiar um animal selvagem, contando uma história curta, dançando e cantando ao redor do fogo, mostrando uma moral, não apenas em palavras, mas usando histórias e convencendo a todos os presentes, rapazes e adultos, que estavam prontos para segui-lo em qualquer direção”.




quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O Lobinho Naldinho e a terrível Casa do Espanto.


A coragem se expressa no olhar daqueles que usam o terror para acalentar a própria alma, não transferindo sofrimento algum para as pessoas.

O Lobinho Naldinho e a terrível Casa do Espanto.

                Naldinho estava na janela olhando de soslaio para que ninguém o visse da casa em frente a sua. Já havia seis dias que ele fazia isto. Sua mãe e seu pai achavam que ele estava dormindo. Dormia cedo. As nove já subia para o seu quarto. Mas desde o dia que foi fechar a janela por causa de um vento súbito ele viu três formas pessoas em forma de fumaça descer pela chaminé da casa vizinha. Naldinho tinha nove anos. Era lobinho da matilha verde. Já tinha dois anos de lobinho. Todos gostavam dele. Há um ano era o primo da matilha. Conseguira a Primeira Estrela e pensava que até o fim do ano receberia a segunda estrela. Sabia que pelas onze ou onze e meia às assombrações iriam aparecer. Todos os dias era assim.
             
Naldinho lembrava quando ao chegar da escola não viu a placa na casa que fora de Dona Matilde. Seu Geraldo morrera e ela resolveu ir embora morar com a filha. Colocou a casa a venda. Naldinho ao beijar a mãe perguntou quem era os novos vizinhos. Sua mãe disse que não viu ninguém. Não houve mudança. Durante muitos dias a casa ficou fechada até que na noite fatídica Naldinho viu as aparições entrarem pela chaminé. Logo notou que havia barulho e janelas fechavam e batiam. Luzes da cor violeta e roxa toda hora piscavam na casa. Isto acontecia até altas madrugas. Naldinho não sabia quando terminavam. O sono chegava e ele ia dormir. No primeiro dia comentou com sua mãe. Ela como sempre disse que ele estava vendo muito filme de terror. Engano. Naldinho nunca viu nenhum.
           
  Na reunião de sábado comentou com Princesa, a sua segunda (o nome dela era Paty) sobre o acontecido. Ela acreditou. Sapinho o terceiro da matilha também (Norberto). Eram os três que ficavam mais juntos, pois alem de serem da mesma matilha estavam na mesma classe na escola. Naldinho queria levá-los a ver a descida dos fantasmas noturnos, mas era impossível naquela hora. Nenhuma mãe deixaria eles ir lá. Uma semana tentou ver se as mães deixavam os dois dormir lá de uma sexta para um sábado. Deram uma desculpa de um trabalho para a matilha. Uma das mães perguntou a Mirtes, a Akelá e ela não se lembrava de nenhum trabalho. Deu em nada.
            
No sábado após a reunião, Naldinho propôs aos dois irem até a casa e tentar entrar. Sapinho tremeu e disse que tinha medo. Princesa apesar de ter duvida topou na hora. Nem bem a reunião terminou saíram correndo, pois se atrasassem na chegada em casa ia ser um Deus nos acuda! Procuram alguma janela aberta e com surpresa viram que todas estavam abertas e as portas também. Entraram. Sala vazia. Sem móveis. Cozinha nada. Subiram ao andar superior. Um cheiro de queimado. Um quarto. Nada, vazio. Segundo quarto uma surpresa. Cordas, velas, uma machadinha, um facão, potes cheios de uma coisa vermelha (seria sangue?) e muitos gravetos num canto. Assustaram-se.
             
No segundo quarto outra surpresa. Uma cama sem estrado. Um emaranhado de arame farpado fazia às vezes de colchão. O que era aquilo? O que significava? Sapinho começou a tremer e chorar baixinho. Pedia insistentemente para ir embora. Naldinho resolveu descer e ao chegar embaixo um barulhão. As janelas se fecharam automaticamente. As portas estavam trancadas. Tentaram abrir e nada. Meu Deus! E agora? Sentaram em um cantinho debaixo da escada e ficaram ali tremendo de medo. Viram as sombras aparecerem pela saída da chaminé. Sapinho chorava baixinho. Princesa de olhos arregalados. Naldinho achou que era o Chefe. Levantou-se e disse – Eu não tenho medo! Sou lobinho! O lobinho é forte! – As sombras riram. Pegaram os três e os levaram ao andar de cima onde em um quarto foram amarrados. Umas das sombras tomou vida. Um enorme tigre dentuço. – Você é o Shere Khan?
            
Não tinha jeito. As sombras iam fritá-los na fogueira. Pedir socorro não adiantava. Gritar também não. Mas Naldinho não desistiu. Fechou os olhos e pediu a Deus, a Jângal, aos seus irmãos lobos que não os deixassem morrer. Um clarão enorme aconteceu! Quase cegou os olhos dos três lobos. Quando abriram viram um enorme Urso, uma enorme Pantera a gritar para Shere Khan: - Você não desiste mesmo não é seu Tigre Manco! Vamos lhe dar uma lição. Shere Khan deu enormes gargalhadas e sumiu na fumaça. Bagheera a Pantera Negra os soltou. Baloo o urso grandalhão e amigo os aconselhou – Nunca façam o que sabem ser errado. Voces conhecem a Lei do Lobinho – “O Lobinho ouve sempre os velhos lobos”. E os dois também desapareceram.
          
Voltaram para suas casas. Ainda tremendo deram o “Melhor Possível” um para o outro se se foram. Naldinho aprendeu a lição. Nunca mais tomou iniciativa sem antes aconselhar com seus pais, sua professora, e seus chefes. Uma semana depois nova placa anunciava a venda da Casa do Espanto. Desta vez Naldinho não quis nem saber quem iria comprar, quem iria morar e dormia cedo. Muito cedo. As máximas da Jângal nunca mais seria esquecida. Naldinho agora andava de olhos e ouvidos bem abertos, nunca deixou de pensar primeiro nos outros, andar sempre limpo, dizer sempre a verdade, e claro, dar boas risadas de tudo pois o lobinho é como Akelá levando sua Alcatéia com alegria e sempre procurando o caminho para o sucesso de todos! 


Quando sorris transformas o mundo de terror, num mundo cheio de cor, por isso nunca deixes de sorrir para detonar todos os monstros que te invejam.

              
            






Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....