sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Histórias de fogo de conselho, O fim pode ser o recomeço.



Histórias de fogo de conselho,
O fim pode ser o recomeço.

Nota - Muitas vezes os chefes não ouvem ou não deixam seus escoteiros se expressarem e dizer o que estão sentindo. Isto quem sabe é o motivo de tantos se afastarem. Pense nisso.     

            Tomé era frequente nas reuniões Escoteiras. Um dia achou que o Chefe dizia sempre as mesmas coisas, fazia as mesmas coisas e então parou de frequentar. Tentou conversar com seus amigos na Patrulha, conversou com seu Monitor, mas viu que eles não podiam fazer nada. Insistiu por alguns meses sem resultado. Ele gostava dos amigos na Patrulha, se sentia bem com eles, mas tinha também seus amigos do bairro e lá ele podia sugerir os programas que iriam fazer.

            Não queria ficar faltando às reuniões e foi sincero com todos. – Chefe desculpe, para mim não dá mais. Estou saindo dos escoteiros e agradeço por tudo.

          A Patrulha sentiu sua falta. O Monitor viu que não era só ele quem reclamava do programa. Sabia que mais cedo ou mais tarde outros também iriam seguir o mesmo caminho. Um mês depois da saída de Tomé, o Chefe em uma noite fria de inverno resolveu visitá-lo em sua casa. – “Deve ter vindo para tentar me convencer a voltar” pensou Tomé consigo mesmo. Imaginou que não podia dizer a verdadeira razão de sua saída. Os mesmos programas, os mesmos jogos sempre repetitivos.

          Ele pensou e pensou. Precisava encontrar uma desculpa, pois não queria magoar o Chefe que sempre o tratou muito bem. Enquanto pensava colocou duas cadeiras diante da lareira e começou a falar sobre o tempo.

            O chefe não disse nada. Chegou calado e calado ficou. Tomé depois de tentar inutilmente puxar conversa por algum tempo, também se calou. Os dois ficaram em silêncio, contemplando o fogo por quase meia hora. Foi então que o Chefe levantou-se e com a ajuda de um galho que ainda não tinha queimado, afastou uma brasa, colocando-a longe do fogo. A brasa, como não tinha suficiente calor para continuar queimando, começou a apagar. Tomé mais que depressa, atirou-a de volta ao centro da lareira. 

            Boa noite, disse o Chefe e levantou-se para sair. – Boa noite e muito obrigado respondeu Tomé. E foi então que Tomé viu que a brasa longe do fogo, por mais brilhante que seja, terminará extinguindo rapidamente. 

             Tomé viu que o escoteiro longe dos seus amigos, por mais inteligente que seja não conseguirá conservar seu calor e sua chama. Tomé viu que não tentou tudo para melhorar as reuniões. Faltou ideias, faltou coragem para dizer isto ao Chefe. Tomou uma resolução. Iria voltar. Iria insistir iria lutar por um ideal que considerava perfeito em sua vida.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Luiza.



Luiza.

Nota - As mulheres que adotaram o escotismo como filosofia de vida, merecem todas as honras do mundo. São elas que nos colocaram aqui na terra, são elas que nos dão amor à vida e no escotismo a paz. Dizer tudo sobre elas eu prefiro ficar nesta quadrinha que diz tudo: Bendiz o amor imensurável, nos jardins pintados de cores... O vento beijando a face, a face molhada de amor... – Mãe escoteira tem o amor universal!

- Chefe, eu quero chorar e não consigo. Lágrimas aparecem e correm pela minha face. Todos dizem que eu sou feliz e não disse a ninguém que aprendi a mostrar um sorriso, mas poucos sabem quando estou chorando por dentro. – Pobre Luiza. Diferente de mim. Quando eu dizia que não vou chorar é por que já estou chorando. Sempre fui sentimental demais. As Escoteiras sempre a procurarem abrigo nos meus braços. Eternos abraços que serviam para fazer esquecer as tristezas do coração.

Minha mãe sempre me disse que chorar é humano, e quando chorei no nascimento de Claudinha minha mãe sorriu para mim ali no leito da vida onde outra vida estava chegando para me alegrar. Às vezes ficava tanto tempo sozinha, que a solidão deixava de ser ausência e passava a se tornar companhia.  Acho que foi por isto que resolvi ser Chefe Escoteira, mas era tão difícil...

Os anos passaram e um dia me vi sozinha. Claudinha partiu, foi tentar outra vida longe de onde eu morava. Lomanto sumiu em uma esquina da vida. Luiza me olhou com os olhos cheios de lágrimas e disse: - Chefe sabe o que eu queria agora? Queria ir à praia, e sentar na maior pedra que estiver lá, e de lá de cima olhar o mar e chorar tudo que eu tenho para chorar. Pois é Chefe e depois disto tudo iria voltar para casa aliviada e poder sorrir um sorriso meu, um sorriso verdadeiro, sem choros escondidos, sem maquiagem, sorrir um sorriso puro. Será que eu consigo?

– Olhei para ela espantada. Pensei comigo, cuidado com o que vai dizer, palavras machucam e quem ouve nunca esquece. Levantei do banquinho e abracei Luiza. Ela me deu um abraço forte que dizia tudo que sentia. Eu precisava conhecê-la melhor. Precisava sorrir para ela dar uma palavra de carinho. Mas logo eu? Quantas vezes me vi sorrindo querendo chorar? Quantas vezes eu chorei querendo sorrir? É a vida é mesmo estranha.

Afinal que Chefe era eu que não sabia dizer as palavras certas na hora certa? Acho que o problema sou eu, é que sinto demais, me importo demais, demonstro demais. E acabo esperando o mesmo das pessoas e não é bem assim. Olhei para Luiza. Agora quem chorava era eu. Pensei comigo que precisava ir embora da Tropa por uns tempos. Tirar férias dessa minha maneira intensa de sentir as coisas, dessa mania de querer carregar o mundo nas costas e sentir culpa pelo que não posso dar conta.

Vou olhar tudo de sobrevoo, como quem, desmemoriada, está ausente dos próprios pensamentos. Ainda abraçada a Luiza vi que o sol estava se escondendo no horizonte. A reunião ia terminar. Precisava deixar meus problemas para trás. Uma noite de descanso seria o cenário ideal para recuperar as energias.

Não houve tempo para pensar, a Tropa toda veio me abraçar. Desta vez elas as meninas que eu amava eram as chefes e eu uma simples escoteira que sentiu no coração o amor que precisava encontrar. Sorri, sorri novamente. Afinal por que preocupar com que os outros pensam de mim se ao meu redor tem tanto para me fazer feliz?

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Lendas escoteiras. A lenda do broche de ouro.


Lendas escoteiras.
A lenda do broche de ouro.

- Caramelo freou com força sua bicicleta na porta da Oficina de meu pai. – Estava sem ar, vermelho espavorido e gritou: Vado! Encontrei um escoteiro de passagem, vale a pena conhecê-lo. - Era sempre assim, Caramelo nosso almoxarife quando não estava na escola ou em reunião de Patrulha você o encontrava na Rodoviária ou na Estação Ferroviária. Ele mesmo um menino sem linhagem acreditava que era um Hercules Poirot o um Sherlock Holmes. Vivia a cata de notícias, coisas de cidade pequena para dar um toque especial nas reuniões de Patrulha que aconteciam três vezes por semana.

- Uma vez perguntei a ele quais livros tinha lido dos seus personagens e ele sempre respondia que tinha lido “O caso dos 10 negrinhos” de Agatha Christie e leu na casa do seu tio o Assassinato no expresso Oriente. Foi uma época sem TV, sem internet, sem smart fone, mas que nos levava sempre a Biblioteca Municipal. Eu frequentava atrás de histórias escoteiras. Não havia nada e somente a bibliografia de Baden-Powell e seu escotismo na Enciclopédia Britânica.

- Vamos? Não posso Caramelo. Meu pai saiu para atender um cliente e não sei quando volta. Mas o que você viu mesmo? – Ele com seu jeito de futuro escritor contou-me na maior cara de pau que na Estação desceu um viajante com um broche de ouro na lapela e tinha uma flor de lis. – Mas Caramelo, só porque tinha uma flor de lis? Vado meu Deus! Tinha o emblema da UEB. Era um escoteiro eu juro! Comecei a interessar pelo viajante e seu broche de ouro. Dificilmente descobríamos escoteiros em visita a nossa cidade. Quando aparecia um era um pandemônio, todos querendo abraçar, ouvir e contar causos.

- Não havia mais do que cinco meses que tinha ido a capital com o dinheiro da escoteirada para compras na cantina escoteira na capital. Fui lá muitas vezes e todos me achavam conhecedor do Brasil. Quando o Chefe Jessé apareceu com um broche de lapela não teve um escoteiro que teve o brilho nos olhos pela descoberta. Foi tanto interesse que a “vaquinha” pagou minha passagem ida e volta e trouxe uma mochila belga das grandes cheias de badulaques escoteiros. Foi uma verdadeira expansão do escotismo na cidade. O prefeito, alguns vereadores, o juiz e o delegado ganharam seu broche.

Meu pai chegou e parti com Caramelo atrás do homem misterioso que usava um broche de ouro na lapela. Uma vez o Padre Peter Klaus recém-chegado da Alemanha e assumindo a paróquia Santa Rita fez uma visita à sede escoteira a convite do Chefe Jessé. Viu todos uniformizados e mesmo com a flor de lis de lapela. (neste caso não devia ser usada). Olhou para todos e no seu linguajar alemão, mal falava o português começou a contar uma lenda Broche de Ouro.

– Escoteiros! Conta-se uma lenda do Escaravelho Dourado que originou o adorno.
A história conta que tudo começou na civilização Maia com a história de uma princesa que se apaixonou por um homem com o qual não poderia casar. Tão inconsolável ficou que chorava dia e noite por seu amor proibido. Um xamã ouvindo seu choro e descobrindo a causa, transformou-a num besouro brilhante, uma joia viva. O seu amado colocou o broche em seu peito e assim ela passou a sua vida perto do coração que ela amava. A fama do Broche de Ouro correu mundo e hoje é uma mensagem para quem os usa na lapela.

- Olhou para todos e sorrindo terminou sua lenda: A imagem é de um broche que hoje em dia ainda é muito vendido na América Central: a de um besouro vivo cravejado de pedras. Ele é preso na roupa, na altura do coração, por um alfinete. Dizem que dura em média três anos. É vendido com um pedaço de tronco oco - Seu habitat - onde retira os nutrientes necessários para se alimentar. Isto não é incrível? Olhei para Caramelo, pois estava cansado de pedalar por toda a cidade na busca do Broche de Ouro.

Caramelo com os olhos vermelhos me pediu desculpa. Vado sei o que vi, não duvido. Não duvidava para nós a palavra do escoteiro era ponto de honra. Demos por encerrada a busca e fomos para a sede, mesmo sendo pouco mais de duas horas da tarde de uma quinta sem reunião sempre tinha alguém lá para papear, montar pioneirías, treinar nós... E nunca mais vimos na cidade um homem misterioso com seu Broche de Ouro na Lapela que eu sonhei ver e ter uma para mim.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Lendas Escoteiras. A estrada do fim do mundo.



Lendas Escoteiras.
A estrada do fim do mundo.

Nota - (A lenda supera a realidade. Muitos diziam que encontraram esqueletos com facas de madeira ficadas no coração. Outros que diziam que a estrada levava a Ushaia, mais conhecida como a estrada do Fim do mundo. Quem por ela passava diziam que nunca mais voltaria. Covas de vampiros, esqueletos fantasmagóricos, um cemitério bizarro uma passagem entre montanhas e escarpas que todos chamavam do Vale do medo. Bruxaria? Caixões em miniaturas vazios, mas soltando uma fumaça vermelha? Mentira ou verdade, mas toda a população da cidade de Fonte da Saudade evitava passar por ali!).

                  Até hoje todos se perguntam por que ninguém se preocupou quando Sarah atravessou toda a Rua do Alencar de uniforme, com uma mochila as costas um bastão as mãos e um sorriso de quem ia descobrir o mundo. Não era uma rotina para os moradores tal fato, mas os escoteiros eram conhecidos que já nem se falava mais no que eles representavam para a cidade. Muitos sabiam da lenda da Estrada do Fim do mundo, mas era apenas uma lenda. Contavam as centenas de causos de desaparecidos, de discos voadores, de luzes coloridas que transportavam os meninos para uma cidade existente no espaço sideral. Os mais idosos falavam do Cemitério Maldito, das bruxas de olhos vermelhos, de esqueletos em cada curva do caminho. Ninguém acreditava e diziam que eram apenas histórias. Nada havia sido provado ate hoje. Tomukan e Jardel tinham um sítio logo no inicio da cidade. Nunca passaram pela estrada a noite sempre ao sol do meio dia. Uma estrada praticamente deserta e arriscar para que?

                A cidade se regozijava com os escoteiros. Faziam de tudo para alegrar a comunidade com Fogos de Conselhos, desfiles, apresentações teatrais e muitos chefes se reuniam aos sábados e domingo no Coreto da Praça para contar histórias. Os lobos e lobas as Escoteiras faceiras, os escoteiros cantantes, seniores guias e pioneiros. Uma juventude serelepe voltava para o bem e para o amor fraterno. Um dia sem ninguém esperar um Chefe desconhecido subiu no coreto e sério pediu silêncio. Ninguém sabia quem era bem uniformizado sim, mas seu semblante se visto mais de perto parecia com a cara do diabo. Mas diabo tem cara? Sei não. Dizem que muitos já o virão e outros que querem ficar longe dele. Todos se assustaram e prestaram atenção ao que ele dizia. – Um conselho ele disse, não se arrisquem, não facilitem os demônios que podem levar vocês. Nunca em tempo algum escolham a estrada do Fim do Mundo para escoteirar!

                 Se ele não tivesse dito isto nada teria acontecido. Mas Sarah sempre persistente para ver o que não deveria disse a sua patrulha que iria excursionar na Estrada do Fim do mundo. Todos conheciam Sarah. Sabia dos seus medos e de sua luta em vencer a todos eles. Quando ela partiu e não voltou à cidade ficou em polvorosa. Era um corre-corre sem parar. Os escoteiros foram os primeiros a procurar. Dona Ana Lobato foi quem contou que a viu indo para a estrada do Fim do Mundo. Quem se arrisca? O Chefe Lobo Cinzento sorriu. - Deixa comigo disse. Vinte dias depois voltou todo rasgado, ensanguentado, desgrenhado e com os olhos arregalados e o pior: - Mudo. Não falava nada. Os bombeiros da cidade deram uma voltinha no inicio e a grita que ouviram ao longe fez todos correrem para suas casas. O Prefeito Done Branco pediu a ajuda do exercito. Tanques deixaram marcas e nada foi encontrado.

                  Os Touros estavam calados. Em reunião de Patrulha Tarquino falou baixinho – Sarah era das nossas. Deixar que o diabo tome conta dela? Afinal e nosso orgulho? Jiparanã, Joviel, Calixto e Catapora se entreolharam. – Vamos ficar sem fazer nada? Não tinha jeito. Calixto levou dois facões, Catapora quatro canivetes. Jiparanã preparou a ponteira de aço de seu bastão. Joviel era franzino. Não estava com medo, mas enfrentar a capetada não era fácil. No baú do seu pai ele sabia que tinha um enorme crucifixo. Era ele sua arma principal. Na Rua do Alencar ninguém queria olhar. Eram cinco escoteiros que passaram bem ligeiro rumo a Estrada do Fim do Mundo.

                   Todos sabiam que sem Sarah não iam voltar. Nem bem escureceu quem olhasse bem a frente da Estrada do Fim do mundo iria ver um vermelhão, gritos e sussurros. Quase dois dias e o céu continuou vermelho e as estrelas pararam de piscar. Cinco dias depois a zoeira terminou. O sol surgiu e as nuvens do céu voltaram a ser brancas e alvas.

                         À tardinha a passarada fez uma revoada infernal em Terra do Amanhecer o que fez todo mundo correr para a Rua do Alencar. Viram surgir ao longe, a Patrulha Touro com seus cinco escoteiros e a frente Sarah. Ela sorridente, eles sorridentes. Todos queriam saber, mas ninguém queria contar. A história termina aqui. O que aconteceu na Estrada do Fim do Mundo ninguém nunca soube. Nunca mais o céu ficou vermelho, os gritos das noites de tempestades sumiram. A estrada ficou toda gramada, nas áreas próximas a flores do campo surgiam aos borbotões. Agora toda a garotada passeava a pé ou em seus cavalos de aço na estrada que encontrou a paz.

                       Na sede dos escoteiros todos queriam saber. Mas Sarah, Tarquino, Jiparanã, Joviel, Calixto e Catapora nunca contaram nada a ninguém. O tempo passou, Sarah casou com Joviel, Tarquino foi embora para a capital. Calixto e Catapora foram atrás de ouro nas Selvas do Amazonas. O bom de tudo que Jiparanã recebeu sua Insígnia, e agora é o chefão geral dos escoteiros e olhe ninguém até hoje soube o que aconteceu com Sarah, a patrulha na Estrada do Fim do mundo!

Felizmente, ele e o Poeta reuniram suas ruínas e ajudaram-se mutuamente a sobreviver ao demônio da culpa. Saíram pelas estradas, dormiram ao relento e viajaram juntos para o epicentro dos seus terremotos emocionais. Viram as perdas por outros ângulos, aceitaram suas limitações, cantaram, sorriram, brincaram com a vida, deixaram de brigar com ela. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Lendas Escoteiras. Lamparina, um Monitor inesquecível.



Lendas Escoteiras.
Lamparina, um Monitor inesquecível.

Nota - Nota: - Todos nós temos um Monitor para se orgulhar. Ele pode existir hoje ou pode estar lá em um passado distante. Alguns a gente tem saudades imensas outros a gente abraça e se orgulha em tê-lo por perto como amigo. São coisas que nós Escoteiros temos e que poucos que não são podem ter um dia.

                     Conheci centenas de monitores. Os vi em muitas atividades com suas patrulhas com tempo bom ou molhado. Lamparina me marcou muito. Quando fez a passagem era alto e forte. Nem sei como ficou até os onze nos lobos. Foi direto para a Patrulha Touro. Foi ele quem escolheu. Disse a todos que um touro era parecido com ele. Sempre olhando para frente e nunca desistindo de nada. A Patrulha passou a ter por ele um enorme respeito. Maniento o Monitor da Touro tinha dúvidas. Para surpresa quando ficou sabendo do acampamento disse a todos na Patrulha: No Acampamento do fim do mês na Cachoeira dos Macacos quero construir as pioneiras básicas do campo. Sozinho. Sozinho Monitor! Por favor!  

                Quando Maniento contou para Sorridente deram boas gargalhadas. Maniento não se fez de rogado. Disse para Canela e Porteira, os responsáveis pelas pioneirias de campo que iriam deixar Lamparina fazer o que queria. – Monitor! – Disse Porteira, mas ele é um lobinho o que sabe de pioneirias? Deixa prá lá. Vamos ver o que ele sabe. Vamos ver se é somente uma gabolice. Quem sabe podemos correr ao pomar do Seu Tomeu e se deliciar com as goiabas e mexericas? Ficaram boquiabertos na volta. Lamparina tinha construído uma bela Mesa Tripé, o toldo estava esticado, havia bancos em volta para todos e dois lugares para convidados. O Fogão suspenso e o lenheiro deixou Mosquito o cozinheiro estupefato. Perfeito! E com lenha para dois dias! E as fossas de líquido e detrito? Nunca viram iguais. As tampas abriam-se automaticamente. Tudo feito com cipós!

                  Quando Pé de Cabra foi procurar um matinho para suas necessidades Lamparina gritou para ele: - Siga a seta! E não é que o ex-lobinho fez uma privada perfeita? Passou a ser respeitado por todos. Era um perfeccionista. Seus nós, amarras e costuras de arremate eram de dar inveja. Era bamba no uso do cipó, com a machadinha e um facão. Outros escoteiros de patrulhas diferente sempre o procuravam. Lamparina tornou-se perito em orientação, mapas e croquis. Dominava com facilidade uma bússola Prismática ou a Silva. Em um acampamento construiu um relógio de sól. Até o Chefe veio ver e aplaudir. Era de uma criatividade incrível. O que fazia de artimanhas e engenhocas deixavam todos perplexos.

                 Chefe Montserrat pensou vários dias o que fazer com ele. Em menos de um ano se fizesse a jornada poderia sem duvida receber a Primeira Classe. Mas como? Ele não tinha nem a segunda classe. Era um simples Escoteiro noviço. O tempo sempre ajuda. Lamparina se tornou um herói na Tropa Escoteira Visconde de Mauá. Não era soberbo, nunca foi. Humilde, simples e amigo de todos. Tinha uma enorme força e agilidade fora sua inteligência. Quando Maniento passou para sênior ele assumiu a monitoria. Um exemplo para os demais. Pé de Cabra, Canela e Porteira que tinham três anos de patrulha e eram Primeira Classe não reclamaram. Era natural que Lamparina assumisse.

                 Em setembro a tropa recebeu um convite para um Curso de Monitores que chamavam de Ponta de Flecha. Lamparina pensou em não ir. Achava que os dirigentes do curso eram pomposos demais e muitas vezes ensinavam aos monitores normas e cerimonias diferente do que fazia. Se pelo menos o Chefe Montserrat estivesse presente tudo bem.  Acabou indo, não queria decepcionar os demais monitores.  O Distrital ficou boquiaberto com Lamparina. Praticamente era ele quem adestrava a todos com as técnicas, como fazer, como ser amigo dos patrulheiros como liderar e ser liderado. Os chefes do curso não saiam de perto dele.

                Ah! O meu amigo Lamparina. Ficou até aos dezessete anos no Grupo Escoteiro. Um dia disse que recebeu uma bolsa de estudo para uma faculdade na capital. Muito choro, muitas tristezas muitos apertos de mão e ele partiu em uma tarde fria de fevereiro de 1958. Todos sentiam sua falta. Foi o líder e a alma do grupo. Três anos longe de Valadares. Passando para pioneiro tinha saudades dele. Sempre lembrado em qualquer atividade escoteira. Nos fogos de conselho fazia-se silêncio quando diziam o nome dele. Era um mago, um palhaço lindo, um contador de histórias sem igual. Dedilhava um violão com maestria e sabia cantar como ninguém.

                       Quatro anos depois voltou à cidade. Para ele era um volta a Gilwell revendo os amigos que tanto amou. No bar do Tonhão, Maniento, Canela, Porteira, Mosquito, Sorridente eu e Pé de Cabra lá nos encontrávamos para ouvir suas historias capital. Nunca o vi mal uniformizado. Sempre um exemplo. Ainda me lembro dele com seu bastão totem, correndo com sua Patrulha para os acampamentos, orgulhosos com suas mochilas e suas bandeiras para descobrir novas florestas, campinas, vales e serras nas montanhas que circundavam nossa cidade. 

                     Na última vez deu um abraço apertado em todos. – Amigos agora ficará difícil minha volta aqui ao grupo. Vou partir, uma proposta de trabalho na Suíça vai me tirar o sonho de estar com vocês sempre. Vou deixar aqui meu coração, meu amor e minha amizade. Minha mente vai, mas meu coração estará aqui com vocês. Olhei aquele jovem grandalhão com lágrimas que caiam no chão sagrado de sua cidade.

                         Eu não sei por que a razão a despedida nos dói tanto se nossas almas estão ligadas. Talvez tenha sido e sempre serão. Talvez tenhamos vivido mil vidas antes desta e em cada uma delas sempre nos encontramos. E talvez a cada vez tenhamos sido forçados a nos separar pelos mesmos motivos. O adeus triste e choroso sempre machuca a quem queremos bem. Nunca mais o vi. Nunca mais o esqueci. Lamparina foi um Monitor que posso dizer que sempre admirei e amei!  

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Lendas da Jângal. O livro da selva (cães vermelhos).



Lendas da Jângal.
O livro da selva (cães vermelhos).

Nota – Neste dia do lobinho, resolvi publicar um pequeno trecho da História de Mowgly conhecida como os Cães Vermelhos. Considerado obra prima das histórias da Jangal todo chefe atuante em alcateia deve fazer o máximo para lê-lo no seu integral. Alguns dizem que é o ápice da História da Jângal. Feliz dia do Lobinho!

                     Após a invasão da Jângal, inicia um período agradável na vida de Mowgly. Após inúmeras aventuras e feitos, Mowgly detinha o respeito dos animais da Jângal, devido à sua coragem, esperteza e astúcia. Pai lobo e mãe loba haviam morrido e Baloo estava tão velho que mal conseguia andar. Mesmo Bagheera com seus músculos de aço já andava cansada. Akelá já apresentava a pelagem branca de tão velho e Mowgly tinha que dividir sua caça com ele. A alcateia neste tempo era conhecida como povo de Mowgly, mesmo este não tendo assumido a liderança do grupo, para a qual foi escolhido Fao, filho de Faona.

                  Certo fim de tarde, Mowgly e seus irmãos ouviram gritos, era o fial, um uivo aterrador. Lobo Gris logo percebeu que se tratava de uma caçada. Juntos com a alcateia eles perceberam a chegada de um lobo, um Won-tolla (lobo sem alcateia). Ofegante e cansado ele explicou a alcateia que havia lutado contra os dholes, os cães vermelhos do Decão, os quais haviam matado sua companheira e seus três filhotes.

                    O lobo forasteiro avisou que os cães eram muitos e estavam invadindo o território dos lobos em busca de alimentos. O grupo era composto por caçadores vermelhos, dispostos a matar. Akelá percebendo que não havia outra saída e que teriam que enfrentar os cães vermelhos pela própria vida, sugeriu que Mowgly de escondesse nas terras do norte e aguardasse a passagem dos dholes. Mas Mowgly retrucou dizendo que lutaria junto com o seu povo contra os dholes.

                    Ao sair para espionar os dholes e verificar seu número, Mowgly acabou tropeçando em Kaa, a grande cobra píton. Conversaram muito os dois e acabaram juntos montando uma estratégia astuta para vencer os destemidos e numerosos dholes. Kaa mostrou a Mowgly o povo Miúdo (as abelhas dos rochedos) e as corredeiras formadas pelo rio Waingunga junto aos rochedos.

                     Se Mowgly conseguisse enfurecer os dholes, estes ficariam cegos de raiva e o seguiriam até os rochedos, onde seriam mortalmente atacados pelas abelhas, aqueles que sobrevivessem as abelhas teriam seu fim trágico ao caírem dos rochedos nas corredeiras do rio Waingunga, e aqueles que sobrevivessem a tudo isso, teriam a alcateia esperando logo abaixo para uma luta mortal.

               Então Mowgly se pôs a encontrar os cães vermelhos, ao avistá-los percebeu que eram em grande número, acima de duzentos. Trepado em uma árvore, Mowgly começa a insultar os dholes, que ficaram furiosos e o tentaram pegar a todo custo. Os insultos de Mowgly levaram os dholes do silêncio aos grunhidos, e dos grunhidos aos uivos e, finalmente, a raiva desenfreada, tal como desejada por Mowgly. O cão líder saltou no intuito de morder Mowgly, mas este, mais rápido, pegou o cão pelo pescoço e cortou seu rabo. Todo o grupo dos cães enfurecidos aguardava sob a árvore onde Mowgly se protegia, sabendo que uma hora ele teria que descer ou morreria de fome.

                    Mowgly subiu até um galho mais alto e dormiu até o anoitecer, quando o povo miúdo finalizaria seu trabalho e retornaria as colmeias dos rochedos. Então, pulando de árvore em árvore, Mowgly tentava atrair os dholes para a armadilha das abelhas dos rochedos. Ao chegar à última árvore ele passou alho em todo o seu corpo (as abelhas odeiam o cheiro do alho), e lançou-se a toda velocidade em direção aos rochedos das abelhas. A alcateia de cães vermelhos o seguiu furiosamente.

                      Ao perceber as vibrações da corrida de Mowgly e dos cães, as abelhas se colocaram em prontidão. Mowgly correu tão rápido que conseguiu saltar dos rochedos no rio Waingunga antes de receber qualquer picada. Mowgly já havia combinado com Kaa para lhe aparar a queda no rio, evitando que se chocasse com as pedras nas corredeiras. Os dholes foram atacados brutalmente pelas abelhas, muitos foram mortos pelas picadas, outros ao caírem sobre as pedras do rio. Os poucos que sobraram foram forçados a se lançarem no rio para evitar a morte pelas picadas, e foram recebidos pela alcateia do povo livre logo abaixo em um remanso formado no rio.

                      Uma luta pelo território e pelas suas vidas fora travada na beira do rio Waingunga. Mowgly, lobo Gris, Akelá, Fao e Won-tolla, juntamente com os outros lobos da alcateia de Seeonee, lutaram bravamente até acabar com todos os cães vermelhos. Nada resistia aos dholes assassinos, mas neste episódio eles foram aniquilados graças à estratégia bolada pelo Mowgly e pela Kaa.

                  Akelá fora gravemente ferido e antes de morrer pede para passar junto ao lado de seu amigo Mowgly. Akelá diz que logo Mowgly partirá para junto dos homens, mas Mowgly diz que faz parte do povo livre e não quer partir. Mas Akelá sabiamente alerta Mowgly que logo ele mesmo tomará esta decisão. Ao morrer, Akelá é saudado por toda a alcateia que por muito tempo liderou.

Melhor Possível lobos de Seeonee, feliz aniversário!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Thiago. O último nascer do sol.


Thiago.

O último nascer do sol.


Nota – Quando fizer algo e ninguém perceber não fique triste. O sol quando nasce faz o maior espetáculo do mundo e nem todos estão acordados para poder ver! Apenas um conto, sem muita pretensão de ser o melhor!

Perdi um sol e ganhei experiência. O que vale mais dormir ou ver um sol despontando na invernada, o cantar da passarada, será mais uma maravilha da natureza? Tempos... Muitos. – Meu Chefe sorrindo me disse: Thiago Escoteiro, na virada desta noite, quando chegar à madrugada vai haver o mais lindo amanhecer com um nascer de sol para nunca mais esquecer. Olhei para ele de banda. Sabia do meu ofício em fazer sacrifício para ver um sol e uma lua brilhando no firmamento, onde se pode pegar no pensamento. 


Tinha de tomar posição, fazer arrumação, mochila agua no cantil e partir sem mais pensar. Meu Chefe sabia que eu amava a natureza, amava o sol a lua, o anoitecer e o amanhecer. Amava a passarada e a floresta quando começava a chover. Sei que o nascimento do sol é um dos espetáculos mais fabulosos da terra. É magnifico a aurora se abrindo em todo seu esplendor de cores, para dar a luz a um novo dia que vai surgir. Corri feito o vento a cata de companheiro, um bom escoteiro para me fazer companhia. Todos compromissados. Era eu sozinho e mais ninguém.



Montei no meu cavalo de aço quando a meia noite se foi. Parti feito um condenado ao pico difícil de ser alcançado. Enquanto pedalava nas campinas, sabia que logo ia chegar às colinas. Pensando na minha viagem me lembrei de um poema que li e não escrevi. – “Quem quiser plantar saudade, trate de escaldar a semente. Plante no solo bem duro, onde o sol seja mais quente. Pois se plantar no molhado, ela cresce e mata a gente”!


No fundo do bornal tinha biscoito, doce de paçoca e um belo pedaço de bolo. Me deu vontade de comer... Agora não. Precisava de chegar. No pé da montanha escondi meu cavalo de aço e parti. Três horas de escalada, e eis que suando as bicas, resfolegando demais procurei o ar da montanha, eu chegava no lugar. Sentei admirando a paisagem, linda demais com as estrelas, uma lua enluarada, e sozinho com meu Deus, fiquei aguardando o alvorecer.

Encostado num troco fofo, com sono e meio balofo, tentei nem cochilar. Meu Chefe afirmou que só daqui a dez anos, poderei de novo ver este sol nascer. É lindo a madrugada, ventinhos gelados ao sul, orvalho intempestivo, brisa gostosa a soprar. Meia dúzia de vagalumes piscavam mostrando ser donos do lugar. Fiquei de pé num estalo, o sono me veio a badalo. Eu não podia dormir. Me lembrei de um provérbio árabe que dizia: - A hora mais escura do dia vem antes do sol nascer!

Não teve jeito, duas da matina três quatro e dormi. No chão acabrunhado, acordei sobressaltado, minha mochila ao meu lado, e vi que o sol me queimava, me acordando reclamando: - Pô Escoteiro, tu perdeu. Uma oportunidade perdida, pois não vou nascer mais para você. O meu espetáculo se foi. Volte daqui a dez anos escoteiro, desta vez o espetáculo foi só meu!

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....