terça-feira, 18 de outubro de 2016

Danny Boy.


Danny Boy.

          - Lembra de Danny Boy? - Lembro-me sim. - Teve notícias dele? – Manolo sorriu. Não era mais aquele sorriso tímido de antigamente. Era mais completo mais presente. Li hoje no jornal. Danny Boy vai ser recebido pelo Presidente. Dizem que vai receber uma medalha. – Merecida pensei. Danny Boy nunca negou colaboração a ninguém. Costuma fazer oito a dez boas ações por dia e isto quando não fazia mais. Dizia que isto era um desafio para ele como Escoteiro. Seu nome de batismo era João Gonçalves. Deram a ele o apelido desde que nasceu de João Menino. Foi Freddy Mac Monte da Patrulha Leão quem o apelidou nos escoteiros de Danny Boy. – Freddy era filho de norte americano e tinha um saber inigualável – Contou para nos que em 1910 um inglês Frederick Watherly fez uma letra a qual chamou de Danny Boi. Mais tarde adaptou a letra na melodia “Londonderry Air”. Até hoje ela é cantada em todas as partes do mundo. Dizem que hoje em dia ela é quase considerada o hino da Irlanda do Norte.

              Se ele tinha o apelido de João Menino, todos resolveram o chamar de Danny Boy. Olhe eu vi tantos meninos escoteiros e convivi com outros tantos que Danny superava a todos. Uma alegria contagiante, a patrulha não vivia sem ele. Não podia atrasar que toda a Tropa não sabia o que fazer. Se era da patrulha Leão ele era considerado um Escoteiro de todas as patrulhas. Nunca parava e sempre ajudando uma ou outra. Se alguém ficava triste lá estava Danny Boi para alegrar. Se as notas escolares não eram boas Danny Boy tinha a solução. Os pais dos escoteiros sonhavam em ter um filho como ele. Na Tropa só não fazia milagres. O Padre Rosaldo ria de orelha a orelha quando ele chegava para ajudar na Missa ou na Benção diária. Limpava a igreja, corria para limpar da sujeira a praça e sempre encerrava suas tardes visitando doentes no Pequeno hospital de Estrela Dourada.

            Nunca se preocupou com especialidades, com Lis de Ouro, com cordões. Era um aprendiz daqueles que a gente sempre dizia que já sabia fazer. Sinaleiro de mão cheia. Morse para ele era brinquedo de criança. Se alguém se sentisse mal nos acampamentos ele corria ao redor procurando as ervas nativas que curavam na hora. Um dia soubemos que foi encontrado quase morto no Beco do Seu Bartolomeu. A cidade cresceu, novas ruas e o beco estava lá vazio, próprio para os gazeteiros ou marginais de toda espécie. Uma revolta geral nos escoteiros. Porque dar aquela sova em um menino que só sabia fazer o bem? Quando saiu do hospital Danny Boy nunca foi mais o mesmo. Taciturno, tez levantada, olhos tristes, procurou o Chefe Landau para dizer que ia sair e nunca mais voltar.

            Ninguém queria entender esta sua resolução. Havia uma peregrinação constante em sua casa de todos os membros do Grupo Escoteiro Luz do Amanhã. Ele foi irredutível. Não era meu amigo mais próximo. Mas gostava de mim como irmão. Vado, não dá mais. Não foi porque me deram a surra. Nada disto. Foi porque senti que não era tão importante na vida de outros meninos que não são escoteiros. Meu pai e minha mãe são contra e quando digo a eles que vou embora eles choram tentando me convencer a ficar. Danny! Você só tem quinze anos, não pode sair assim pelo mundo! – Ele não me respondeu e três meses depois sumiu da cidade.

               Passei na Banca do Seu Pedro e ele me deixou ler o jornal. A manchete dizia que ele foi um herói ao salvar o filho do presidente de morrer afogado. Depois que o salvou desapareceu e toda policia do palácio foi incumbida de o procurar. Demoraram seis meses. Eles estava morando nas Selvas do Suriname. Tomava conta de um pequeno ambulatório mesmo não sendo médico nem enfermeiro. Era adorado por todos e sempre procurado pelos doutores da medicina do lugar. No dia da entrega da condecoração Jonny Boy não apareceu. Uma semana depois de novo no jornal que ele tinha partido para um Garimpo nas Selvas Venezuelanas. Disse para os amigos que lá tinham muitos que precisavam dele. O que é feito dele e onde está nunca mais soube. Danny Boy comprou um pedacinho do meu coração. Mora lá até hoje e nunca mais irá deixar a casa da minha vida. Só sai se eu deixar!

Letra da canção “Londonderry Air” – Danny Boy.
            
Oh, Danny garoto - as gaitas, estão chamando, de vale em vale, e morro abaixo
O verão se foi e todas as rosas estão caindo é você tem de ir e eu preciso deixar
Mas volte quando o verão vier ao campo ou quando o vale estiver quieto e branco de neve. E eu estarei aqui sob o sol ou na sombra.

Oh, Danny, Danny, eu te amo tanto

Mas quando você vier e todas as rosas estiverem morrendo Se eu estiver morto, mesmo assim venha e achará o lugar onde eu estou descansando e se ajoelhará e rezará uma "Ave Maria" para mim e eu sentirei que você caminha suavemente e então meu túmulo será mais morno, será mais doce você se curvará e dirá que me ama e eu descansarei em paz até que você venha para mim.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Um vira latas de nome Takala.


Vale a pena ler de novo.
Um vira latas de nome Takala.

            Ele tentava entender o porquê, mas era um cão, um mísero cão vira lata que achou que tinha um lar para morar. Cão não fala e dizem que não pensam. Ele nem mesmo raciocinava quando ela o jogou pela porta do carro no meio da rua naquela tarde fria e com uma chuvinha intermitente. Pensou que era uma brincadeira apesar de que ela nunca brincou com ele. Batia sim, chutava seu corpo e um dia lhe deu varias varadas porque ele queria fazer xixi e a porta estava fechada. Tentou correr atrás do carro de sua dona, mas já era Velho demais para isto. Logo ela sumiu em uma esquina e ele perdeu o carro de vista. Ficou parado no meio da rua e vários carros desviando e por pouco não foi atropelado. Alguém lhe deu um chute e ganindo correu para o passeio debaixo de uma marquise. Ele ficou ali por pouco tempo todos que passavam lhe davam um ponta pé ou gritavam com ele. Molhado ele gania de frio. Não sabia o que fazer. Nunca passou por isto, nunca.

           Takala não sabia quando era feliz ou quando estava triste. Era um cão um vira lata com mais de doze anos. Sempre vivera perdido em um sitio pobre e quando o menino da cidade começou a brincar com ele sua vida rejuvenesceu. Ele nem entendeu porque sua mãe o deixou levar para sua casa. Durante meses foi feliz enquanto ele estava junto. Brincavam corriam e Takala se sentia outro. Um dia o menino sumiu. Sua mãe chorando pelos cantos. Ele não sabia o que houve, pois era um cão vira lata e cão vira lata não pensa. Quando ela o pegou pelo rabinho e o jogou no carro ele não entendeu nada muito menos quando ela o jogou porta afora. O que fazer? A chuva apertava cada vez mais. Correu pela calçada até encontrar um viaduto. Ali escondeu em um buraco pequeno, mas que ninguém poderia bater nele. A fome chegou. Comia pouco, pois sua dona não lhe dava quase nada só o menino que sumiu. O dia clareou e a chuva passou. Precisava encontrar comida e água. Ainda havia algumas poças que ele saboreou.

        Começou a passear pelas arvores e flores que havia em baixo do viaduto. Viu do outro lado da rua um menino assoviando para ele. Sorriu. Será que terei um novo dono? O menino o chamou. Estava vestido de azul com um lenço branco no pescoço. Para Takala a roupa pouco importava ele queria era um dono amigo, que gostasse dele. Correu atrás do menino e eles ficaram brincando de pega, pega e o menino de azul sorria a mais não poder. Chegaram a um portão. Takala sabia que não o deixariam entrar. Sempre foi assim, cão vira lata ninguém gosta e ele nunca teve pedigree. O menino de azul entrou e o portão fechou. Takala ficou ali, pois pensava que alguém poderia lhe dar alguma coisa para comer. Algum tempo depois o portão se abriu e apareceu o menino de azul sorrindo o chamando para entrar. O rabinho de Takala nunca balançou tanto. Ao entrar viu muitos meninos de azul, outros de chapéu todos gritando e sorrindo. O menino de azul o levou até uma cobertura. Fez sinal para ele ficar ali.

       Outros meninos e muitas meninas de azul se aproximaram de Takala. Ele sorria nunca pensou em ter tantos amigos. Latiu, um latido fraco quase mudo. Vários meninos correram e trouxeram comida para ele. Era muita comida ele nunca viu tantas assim. Comeu e quando comia levantava a cabeça com medo de um chute ou de um tapa, pois sua dona sempre fazia isto. Já escurecia e os meninos estavam indo embora. O menino de azul veio com uma moça e Takala viu que conversavam muito. O levaram até um galpão coberto e aberto nas laterais. O menino de azul mostrou para ele um pequeno capacho, uma vasilha d’água e muita comida encostada a parede. O pegou no colo e o beijou. Takala viu que seu coração batia. Nunca ninguém o beijara. Ele ficou ali naquele galpão, pois agora era seu novo lar. Sempre a esperar que o menino de azul chegasse.

     Um dia eles chegaram cedo. O sol mal tinha nascido. Takala sorriu, pois ele agora amava aqueles meninos e meninas de azuis. O seu amigo o pegou no colo e entrou com ele em um ônibus. Takala tremeu, de novo não! Pensou em latir, em morder e só o medo de ser jogado pela porta de novo o fez calar. Fechou os olhos embaixo da poltrona. Ele não sabia rezar, mas seu instinto o alertava para tudo. Durante horas ele ficou no ônibus tremendo de medo. Quando chegaram foi uma algazarra, todos correndo e Takala correndo atrás deles. Nunca Takala o vira latas foi tão mimado, tão cercado de amigos e a noite ele uivava para a lua como a dizer – Agora eu sou feliz, pois posso amar... No terceiro dia ele correu atrás do seu amigo de azul que se embrenhou em um bosque. Takala adorava aquela brincadeira. Sentia seu coração batendo, seu corpo tremendo, mas ele sabia que não podia parar. Correram tanto que uma hora ele deitou. Uma dor incrível no seu coração. Coração velho de vira latas que só sabem amar.

      Ao seu lado o menino de azul ria e rolava no capim verde chamando Takala. Ele não aguentava mais. A dor era muito forte. Viu uma serpente enorme se enroscar para dar o bote no menino de azul. Ele sabia o que era uma serpente, pois quando jovem seus donos corriam delas no sitio em que morou. Takala fez um esforço enorme. Levantou gemendo, pulou em cima da serpente latindo fraco, respiração ofegante. A serpente o mordeu na sua jugular. O menino de azul saiu correndo chamando a moça que tomava conta. Vieram vários. Não encontram a serpente e nem Takala. Os meninos e as meninas de azuis choravam. Ao voltar para a fazenda viram ao longe uma serpente e um cão lutando. Correram até lá. Tarde demais. Takala estava morto, mas conseguiu matar a serpente. Aquela noite nunca se viu tantos meninos e meninas de azul a chorarem. Custaram para dormir.


      De manhã uma surpresa. O sol brilhava nunca se viu tantos pássaros no céu. Uma revoada sempre acontecia em cima deles. A moça amiga do menino de azul fez um lindo esquife verde. Ela reconheceu que Takala foi um herói e precisava ser homenageado. Onde seria a cerimonia fúnebre fizeram um grande círculo. Para um simples vira lata Takala teve honras de estilo. Quando o cobriram cantaram uma linda canção. Para os Escoteiros era conhecida - A Canção da Despedida. Takala não sabia o que era esta canção, sentado perto dali estranhava que ninguém o via. Só o menino de azul que sorria para ele. Viu descendo do céu em uma nuvem branca uma grande Vira Latas branca, sorrindo para ele, focinhos com focinhos ela e ele deixavam as lágrimas de alegria cair. Ela deu um latido leve e correu pela nuvem, Takala correu atrás dela e sumiu no horizonte azul. O menino de azul também chorava e ao chamado da moça todos ficam firmes e fizeram uma saudação que Takala já conhecia. Era o Grande Uivo. Feito em homenagem a Takala, um vira latas que só sabia amar e foi para o céu.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A classe dominante vai ao escotismo.


Vale a pena ler de novo.
A classe dominante vai ao escotismo.

(esta é uma história de ficção, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência).

Sou gaúcho forte, campeando vivo, livre das iras da ambição funesta;
Tenho por teto do meu rancho a palha, por leito o pala, ao dormir a sesta.
Monto a cavalo, na garupa a mala, facão na cinta, lá vou eu mui concho;
E nas carreiras, quem me faz mau jogo? Quem, atrevido, me pisou no poncho? João Simões Lopes Neto

                   Vertentes da Saudade era uma cidade pequena, antiga e ainda enraizada nas velhas tradições gaúchas. Ficava a oeste de Uruguaiana mais de oitocentos quilômetros de Porto Alegre. Nada mudou em Vertentes nos últimos trezentos anos. Os antigos donos da terra os Índios Guaranis eram sombra do orgulho do passado. Uma estátua centenária do Padre Jesuíta Cristóvão de Mendonça estava encravada na praça central e hoje poucos param para ver o que está escrito em sua placa de bronze. Havia no ar uma melancolia talvez por falta do que fazer. A população vivia do plantio do feijão e criação de gado. Ali em Vertentes da Saudade os direitos de cria recria e engorda tinha dono. O Coronel Totonho Mercês Almeida Pais reinava absoluto sobre os demais estancieiros. Ele praticamente era o juiz, o prefeito e o delegado e ninguém poderia de maneira alguma contrariar suas ordens. E olhe que estávamos no século vinte e um.

          O menino Luiz Mercês Almeida Pais com onze anos tinha puxado o pai. Orgulhoso, andava de nariz empinado e conversava com os outros como se estivesse dando ordens. Ninguém tinha coragem de olhar nos olhos diretamente do pai e do filho. Diferente de Dona Leonor Mercês Almeida Pais esposa do Coronel Totonho. Uma alma caridosa, nunca levantou a voz para ninguém. Todos a procuravam nas horas mais difíceis e ela sempre bondosa não negava ajuda. O Topógrafo Siqueira Nantes Leal nascera em Vertentes da Saudade e nem sabe como resolveu um dia fundar um Grupo Escoteiro na cidade. Houve uma revoada geral na meninada. De boca em boca o assunto correu e alvoraçou a cidade. Gaúcho de verdade não abandona a sua terra e leva no peito a saudade, que toda tarde, trás dela, assim pensava Siqueira que nunca abandonou sua cidade por nada. Dona Filó diretora do Grupo Escolar Flores da Cunha comprou a ideia e logo ofereceu o pátio e duas salas para que o grupo arranchasse para sempre. Assim ela pensava.

      Siqueira Nantes amava Amelinha Salsaparrilha e ela como boa moça quando o viu cantou baixinho: - “Erva, cuia, chimarrão. Não é apenas costume, é amor e tradição. Ela não liga para status, beleza ou dinheiro. O importante para ela, é que ele seja Gaúcho, campeiro e Romântico”. O namoro durou meses e casaram-se na igrejinha do Padre Antonio Feijó numa tarde linda de setembro. Siqueira nem lua de mel teve. Um trabalho encomendado pela Ferrovia do Trigo, que ligava Passo Fundo a Porto Alegre a pedido do Coronel Totonho que pensava em fazer um ramal até Vertentes da Saudade. Seria uma linha regular de passageiros e porque não transportar o gado do coronel? Siqueira Nantes não abandonou seu projeto de organizar o grupo escoteiro. Convidou oito jovens e com mais dois professores da escola além da diretora, escolheram o nome do grupo e definiram quando seria feita a solenidade de promessa do grupo. Tudo andava de vento em popa. Siqueira comentava onde passava: “Vai Tche! Por este mundão véio sem porteira, proseando do evangelho, espaiando as boas novas do escotismo prá tudo que é vivente”!

                  O menino Luiz Mercês ficou uma fera quando soube que não fora convidado para participar da primeira patrulha do grupo. Falou com seu pai e este mandou chamar Siqueira Nantes para se explicar. De cabeça baixa ele disse que logo teria uma vaga para seu filho. O Coronel Totonho não acreditava no que ouvia. Mandou Zepileu seu secretario chamar os dirigentes do escotismo rio-grandense para se explicarem a ele em sua cidade. Doutor Alfredo Maristo era o Presidente da Região Escoteira. – Que boa bisca é este Siqueira? – Pensou.  Se não vou fico de entremeio com a liderança politica. Tenho de ir lá e me rebaixar para um coronelzinho de araque. Doutor Alfredo chegou cedo a cidade. Foi levado a presença do Coronel. Com seu vozeirão ele foi dizendo aos gritos de modo mal educado: Moço! Assuma, ou suma da minha frente, pois chega de lero-lero. Se tu não sabes o que quer, eu sei o que eu quero e papo enrolão de homem-banana, é um abacaxi que não quero! Doutor Alfredo tentou se explicar, mas não adiantou. – Quem manda na cidade sou eu. Avisa a este sacropanta que se diz Chefe Escoteiro que ele come na minha mão!

          Doutor Alfredo conversou com Siqueira Campos. Um pobre diabo ele pensou. Por que foi logo nascer aqui onde Judas perdeu as botas? – Doutor Alfredo vou desistir. Não quero mais ser Chefe – Na verdade, de que adianta ter a faca e o queijo na mão, quando não se tem mais um fio de vontade, de motivação? Não adiantou a desistência de Siqueira, Coronel Totonho contratou dois profissionais Escoteiros e lá fez um grande grupo que chamaram de Grupo Escoteiro Coronel Totonho. Doutor Alfredo foi obrigado a dar autorização, pois ao contrário o Governador do Rio Grande acabaria com ele. E assim fundou-se ou afundou-se as boas práticas escoteiras em Vertentes da Saudade. – Como dizem por aí, Siqueira que nunca foi Chefe e pensou que seria um cantava baixinho: - Vai Tche! Por mundão veio sem porteira, proseando do evangelho, espraiando as boas novas pra tudo que é vivente! – Tô loco de faceiro Tche! Convidaram-me prá ir à casa do patrão celestial, pois aqui em Vertentes da saudade nunca mais eu voltarei. Se trouxeres teu orgulho de ser brasileiro, te entregarei a minha honra de ser gaúcho, mas nunca submisso.


      Sei que Siqueira foi para outra cidade, se tornou um grande Chefe Escoteiro e até hoje a gauchada de lá o carregam para todo lado a saudar como se ele fosse um herói. Levantar com o pé direito ou esquerdo, não vai determinar se o seu dia será bom ou ruim, suas atitudes sim! Chega um dia que a gente simplesmente muda, os sentimentos mudam e o coração faz novas escolhas. E assim vou terminando este novo conto onde o Escotismo não se abaixou para a classe dominante e nas palavras do gaúcho do Rio Grande eu vou dizendo: - Bueno vou me largando, mais tarde temo aí de novo. “Forte quebra de costela prá toda a gauchada conectada”!

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Gloria feita de sangue.


As mais lindas histórias escoteiras.
Gloria feita de sangue.

                      Tudo aconteceu no último verão de sessenta e um. As chuvas de Santo Inácio não chegaram e a beira da Lagoa do Lagarto o Fogo de Conselho terminou com a escoteirada indo dormir. A fogueira miúda dava sinais de vida subindo aos céus uma ou outra fagulha brilhante. Panchito e eu ficamos para jogar conversa fora. Mexicano morava no Brasil há vinte anos. Muitas vezes me convidou para visitar seu grupo em Aguas Calientes e nunca tive a oportunidade de ir. Deitados a beira da lagoa sentia o orvalho da madrugada chegando. Assustei ao ouvir um soluço. E Panchito chorando baixinho. – Saudades Chefe. São vinte e cinco anos que sempre choro quando vem na lembrança meu amigo Manuelito. Calado não disse nada. – Sabia que ele iria me contar toda a historia do seu amigo.

                      - Chefe Manuelito era um jovem de seus doze anos, magro raquítico, cabelos louros com grandes olhos negros a fixar a todos que conversassem com ele. Estava na Tropa a menos de oito meses. Fomos da mesma patrulha Corvo. Gentil era o nosso monitor. Naquele sábado nos contou sobre a data do Grande Desafio. Havia três anos que se realizava no Estádio do Azulão. Sempre fora sucesso absoluto com presença maciça de todas as patrulhas da região. Quando ele falou do prêmio, uma Faca Suíça e um Cantil do Exercito, Manuelito sorriu. Sabia que nunca poderia comprar e decidiu participar. Ele com seu físico e débil nos jogos de força não teria nenhuma condição de participar que de lá chegar as finais. Sabe Chefe pode rir, mas o Grande Desafio era uma Briga de Galo! – Uma simples Briga de Galo! - Olhe Chefe não tão simples, mas o desafio era grande. Muitos desenvolveram técnicas incríveis. Eu mesmo nunca passei do nono lugar. Já tinha visto contendores lutarem por horas seguidas.

                        Tentei dizer a Manuelito das dificuldades, mas ele insistiu em se inscrever. Pediu-me que eu fosse seu instrutor. Tentei mas ele mal se equilibrava e desajeitado perdia sempre o equilíbrio caindo ao chão. Disse para desistir, mas uma semana antes ele me disse que estava preparado. Chefe, Manuelito estudou parte por parte da luta. Desenhou e treinou por horas em sua casa pulando em um só pé. Ele sabia fazer com perfeição uma Asa Direita ou esquerda (cotovelos em forma de V). Mesmo respirando com dificuldade sempre se mostrou ser um valente. Na Tropa disseram a ele que o primeiro e o segundo lugar já tinha dono. Neco, Lastimer e Juventino sempre foram os melhores. O Chefe Wantuil preocupado pensou em não fazer sua inscrição. Ele sabia que seu corpo não era feito para aquele tipo de luta. Mas Manuelito não desistiu e conseguiu um quarto lugar com galhardia. Tentou alertar seus pais e não conseguiu. O Grande Dia chegou.

                 As arquibancadas fervilhavam de parente dos escoteiros. Três tropas com cinco representantes para cada uma. Três cidades diferentes. Um a um os quinze participantes foram apresentados sobre forte emoção e aplausos. Chico Nonato o Comissário do Distrito deu início a competição. A maioria parrudo, fortes e Manuelito era motivo de risos por todos. Quando ele ia lutar gritavam: - Tira o magrelo! Tira o Minhoca. Se continuar vai morrer! A luta não parava, Manuelito aos trancos e barrancos foi se aproximando da final. Ele confiava no Joelho de Papagaio que considerava fatal. Nas finais enfrentou Matusalém famoso por ganhar uma vez o primeiro lugar. Deu risadas quando viu Manuelito. – Está no papo. Dois minutos e vai para o chão! Disse. Meia hora de luta. Sempre Manuelito se esquivando. Sentiu o sangue explodindo em seu peito. Deus! Deus! Não me deixe perder. Preciso da Faca Suíça, é meu sonho meu Deus! Matuzalém até hoje não sabe o que aconteceu.

               Ninguém acreditava no que via. Botelho Papa Léguas e ele eram os finalistas. Apostas vibravam no ar. Ninguem acreditava em Manuelito. Um silêncio e a luta de morte começou. Botelho Papa Léguas não subestimou Manuelito. Se ele chegou até ali é porque era bom. Viu uma brecha, viu os olhos de Manuelito piscando. Deu Oito longos saltos e pegou Manuelito de jeito com a asa direita. Mesmo esquivando sentiu uma dor enorme. Quase perdeu o equilíbrio. O sangue enchia sua boca. Se soltasse seria desclassificado. A hemorragia que seu pai sempre falava estava chegando. Sabia que uma ou duas veias tinham partido. Se não parasse iria morrer. – Deus! Não posso parar me ajude! Botelho Papa Léguas não tinha piedade. Deu uma asa esquerda para terminar de vez a luta. Manuelito não caiu. Pulou no ar e convidou Botelho a repetir. Rindo ele não se fez de rogado.

                    Ele sabia que Manuelito ia se estatelar no chão. Podia machucar, mas e daí? Quem entra na água é para se molhar. Não iria ter pena nem dó e nem piedade. Como dizia sua Avó, jogo é jogado e lambari é pescado. Quando sentiu o hálito quente de Botelho Manuelito se abaixou e levantou de vez pegando Botelho desprevenido. Ninguem acreditava no que via. Botelho Papa Léguas se esparramou no chão perdendo a luta! Manuelito não conseguiu interromper o sangue. Rodopiou e caiu esparramado no chão e gemendo alto querendo sorrir. Pensou que a faca Suíça seria sua. O sangue vermelho se misturou com a grama verde. Vários chefes acorreram e o levaram para o hospital. Ficou entre a vida e a morte por seis meses. Um belo sábado ele apareceu em uma cadeira de rodas na reunião da Tropa. Uniformizado. A Tropa espantada. Seu pai e sua mãe o acompanhavam. O Chefe Wantuil que não esperava foi correndo a sua casa buscar a faca e o cantil.


                Toda a Tropa prestou continência a Manuelito quando ele recebeu seu prêmio. Sabe Chefe ele viveu por mais oito meses. Não sabíamos que ele era tuberculoso. Nunca poderia ter entrado nos jogos. Pediu para ser enterrado com a seu uniforme, com a faca e seu cantil. Panchito parou de contar. Chorava copiosamente. Ali naquela lagoa sombria, sobre o calor do fogo, dois chefes choravam copiosamente. São fatos que não se contam. Uma morte de honra. Um menino que aceitou um desafio. Uma luta sem glória, ou melhor, uma luta feita com Gloria feita de sangue!

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O legado do lobinho Pasqualino


Lendas Escoteiras.
O legado do lobinho Pasqualino

                Pasqualino queria muita coisa. Parecia um menino mimado. Queria e pedia aos seus pais videogame, uma bicicleta e roupas novas. Ainda não tinha sete anos e seus pais, pessoas humildes tentavam explicar e ele as dificuldades que estavam passando. Ele não entendia, ou melhor, não queria entender. Quando resolveu entrar para os lobinhos foi um Deus nos acuda! Seus pais o levaram e o matricularam, dizendo ao "Chefe" Escoteiro que não tinham condições financeiras. Pasqualino gostou. Divertia-se. Não era um bom lobinho. A Akelá o ensinou as cinco leis e ele nem aí. Na matilha não obedecia ao primo. Nas formaturas ficava brincando para chamar a atenção de todos.

                Sempre davam uma oportunidade a Pasqualino. A própria Akelá estava desistindo. Foi à casa de seus pais e mesmo humilde era limpa arejada e o casal de uma simpatia radiante. Na sua promessa acharam que Pasqualino iria mudar. Não mudou. O Grupo Escoteiro comprou para ele o uniforme e Pasqualino nem sorriu. Achava que era a obrigação de todos para com ele. Era assim também na escola. Todos preocupavam com seu futuro. Isto não podia continuar. Mandar embora do grupo o Pasqualino não era a solução. Iria continuar assim e apesar de pais maravilhosos todos achavam que o futuro dele seria nebuloso.

                Um dia em um feriado de Sete de Setembro a Alcatéia foi fazer um acantonamento. Claro, a taxa de Pasqualino foi paga pelo grupo. Sua mãe esmerou em tudo para que fosse separado para ele tudo que a Alcatéia pediu para o acantonamento. Mas ao chegar lá, ele viu que os outros da matilha tinham coisas que ele não tinha. Esbravejou. Reclamou. Quem não conhecesse achava que ele era um pobre menino onde todos só queriam prejudicá-lo. No sábado à tarde, enquanto sua matilha era encarregada da limpeza do salão onde se reuniam Pasqualino se mandou.

               Pensou consigo que iria dar um susto na Akelá e quando sua mãe soubesse o que aconteceu ela iria dar muito mais a ele. Menino danado o Pasqualino. Ao sair na pequena trilha que levava a uma montanha ele se encantou. Era como se a trilha o hipnotiza-se. Seguiu a trilha cantando “A Promessa de Mowgly era matar o Shere Khan”. Ele gostava desta. Cantava muito. Viu que próximo à trilha tinha um regato e por que não dar um mergulho? Pois é. Pasqualino não tinha mesmo responsabilidade. Pulou na água e deixou a correnteza o levar. Não viu, mas uma enorme cachoeira engoliu Pasqualino e ele caiu de uma grande altura.

              Desmaiou. Acordou com a barriga cheia de agua e viu ao seu lado um enorme tigre que o olhava e sorria. Custou em Pasqualino? Custou conseguir que você me achasse. Pasqualino tremia. Quem é você? Shere Khan meu caro Pasqualino. Tentei pegar o Mowgly, mas Baloo e Bagheera não deixam eu me aproximar dele. Agora tenho você. Vou comê-lo inteirinho. E Shere Khan ria. Pasqualino começou a gritar e saiu correndo. Corria e gritava. Ao seu lado Shere Khan o acompanhava e dizia: - Pode gritar, ninguém vai ouvir. Ninguém se interessa por um lobinho indisciplinado como você. Não deu mais. Pasqualino caiu e acordou na caverna de Shere Khan. Ele tinha ascendido uma fogueira. Lembrou-se do fogo do conselho que assistiu no ultimo acampamento. Agora era diferente. Tenebroso por assim dizer.

             Estava amarrado. Chegaram outros tigres. Enormes! Dentuços! Olhos vermelhos com fogo.  Este vai ser nosso banquete? Perguntaram. Shere Khan ria e dizia – Vamos nos fartar. E esse vai ser delicioso. Ele grita, ele berra por qualquer coisa. E melhor sua carne deve estar estragada, pois não se contenta com nada. Só sabe reclamar e pedir. Não faz nada para ninguém! Um dos tigres lambeu os beiços. Que delicia! Pasqualino estava horrorizado. Lembrou-se de rezar. Nunca tinha feito isto. Tudo que queria conseguia mesmo sendo pobre por isso nunca rezou. Sua oração não saia. Estava rouco. Levaram-no para o fogo. Os tigres começaram a dançar em volta e a cantar: “Come, come tigre manco, que é hora de fartar, vamos todos meus amigos, pois é hora do jantar!”.

             Pasqualino acordou gritando. Gritava e berrava. Sentia a chama do fogo da caverna do tigre lhe queimando o corpo. A Akelá estava assustada. Viu Pasqualino deitado debaixo de uma arvore e nem sabia o que aconteceu. Bem, conta-se a lenda que Pasqualino mudou. E como mudou! Ninguém mais reconhecia nele o Pasqualino de outrora. Dizem e isto eu não sei, que Pasqualino só fazia o bem. Era amado na Alcatéia e quando foi para a tropa foi recebido com grandes abraços e lá fez grandes amigos.

         Os pais de Pasqualino se sentiram os mais felizes do mundo. Seu filho do coração era outro. Agora não importava para ele a riqueza. Tudo que conseguia sabia dar valor. Valeu Pasqualino. Valeu. Espero que seu legado sirva de exemplos a todos os lobinhos indisciplinados que ainda existem por aí. Sei que são poucos, pois os que conheço sempre ouvem os velhos lobos.


          Até hoje Pasqualino dá risadas. Sabe que Shere Khan mais uma vez perdeu. Tigre manco tigre louco, vá para sua terra! Para sua caverna mal cheirosa! Se um dia o encontrar você não vai me reconhecer! Pasqualino ria. Pois é meus amigos eu soube que se tornou um grande médico e que ajudava em todas as favelas da cidade. No Grupo Escoteiro que organizou só aceitava meninos e meninas pobres. Sempre contava para eles que ali Shere Khan não tinha vez! Viva Pasqualino, que ele consiga atingir a felicidade e encontre o caminho para o sucesso que merece!

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O Lobinho e a Festa no Céu.


Lendas Escoteiras.
O Lobinho e a Festa no Céu.

                Nada como ser um Lobo sonhador. Deixar a mente voar com o vento da tarde refrescante. Ou então sentir a brisa da manhã no rosto e sorrir. Existe coisa melhor? Participar de histórias reais onde pode ser herói, onde pudesse voar conversar com os bichos as aves os peixes e sentir seu coração bater de alegria em todos os momentos? Pois assim era o lobinho Laninho. Puro nos seus pensamentos nas suas palavras e nas suas ações. Na Matilha o chamavam de “Lobo Voador”, estava sempre sorrindo e olhando o céu, os pássaros que voavam perto, os insetos e jurou que um dia fez amizade com um Quati cinzento. Quem duvidaria?

                 A Alcateia estava acantonada no Sitio do Beija Flor. Um lindo local, uma cascata gostosa, muitas arvores frondosas, e bambus. Como tinha bambu. As Matilhas adoravam. Laninho era um cinzento de coração. Um ano lá com eles. Promessado e tinha a simpatia de todo mundo. Ao seu modo colaborava com a Matilha, mas era franzino e todos achavam que ele só vivia “Voando” e não contavam muito com ele. Naquela tarde após o banho todos foram ajudar a Dona Mercês que estava preparando a sopa do jantar. Laninho como sempre sentou embaixo de uma aroeira frondosa e olhava em seus galhos se tinha algum pássaro para conversar. Percebeu ao seu lado um Sapo Amarelo. Não o conhecia.


                O Sapo Amarelo o olhou e disse – Você pode me ajudar? – Ajudar? Perguntou Laninho – simples, vai ter uma festa no céu. Convidaram todas as aves e eu não posso ir. Só quem pode voar. Como me disseram que você é um Lobinho Voador, quem sabe me leva lá? Laninho sorriu. A Akelá tinha contado a historia da Festa no Céu. Na festa um urubu foi quem levou o sapo uma tartaruga e um esquilo. Eles se esconderam em sua viola, pois o Urubu era um violeiro. Lá no céu ele os viu escondidos em sua viola e jogou a todos nuvem abaixo. Quem levou a pior foi à tartaruga. Espatifou-se no chão. Mas Laninho ficou pensando se não podia levar o Sapo. Afinal ele sempre sonhou com uma festa no céu. Porque não ir? – Feche os olhos Senhor Sapo. Vamos para a festa você e eu! Só abra quando eu mandar.

                Mas o sapo não obedeceu. Abriu os olhos quando estavam sobre uma nuvem e ambos despencaram no espaço. Tiveram sorte. Caíram em um riacho de águas cristalinas. O sapo mergulhou e voltou à tona xingando Laninho. – Mas eu tentei te ajudar – falou. Nada disto. Você me soltou no espaço. Laninho chorou muito e o sapo ficou triste também. Nesta hora o Urubu Rei viu aquela choradeira e ficou com dó do sapo. – Deixa que vou levar você em minha viola. Bem como o sapo foi não preciso contar. Todos conhecem a história da Festa no Céu. Laninho despencou de um galho e caiu com tudo no chão. Não machucou, mas quando abriu os olhos viu toda sua Matilha estava rindo dele. – Ele também riu.

               Contou para eles que estava chegando no céu e o sapo o jogou no espaço. Eles iam a uma festa no céu. – Todos riram a valer. - Esse Laninho, falou o Primo. O Segundo também rindo falou – Mas Laninho, só você e o sapo? E a tartaruga? E o Esquilo? Eles não foram? – Laninho riu e disse – Melhor perguntar a eles, estão atrás de vocês! – A Matilha olhou espantada e viu um Esquilo e uma Tartaruga rolando pelo chão e dando enormes gargalhadas!


                 Se Laninho e os bichos foram com ele a festa no céu eu não sei, mas sei que até hoje ele conta como o Urubu tocava sua viola e crocitava, fazendo coro com a Araponga e o Papagaio. Não faltando a Gralha o Cisne, a Pomba e o sabiá que gorjeava como nunca. E assim nunca mais a Matilha de Laninho duvidou de suas histórias e, todos os fogos de Conselho deixavam-no falar, cantar e contar seus contos fantásticos. E como digo sempre, toda a história tem um fundo de verdade, mas histórias são histórias. Quem quiser mudar que conte outra. Que Laninho viveu feliz para sempre eu sabia, pois o Lobinho está sempre alegre e diz sempre a verdade. Será?      

domingo, 9 de outubro de 2016

Selma.


Selma.

                        Era guia. Quase nunca conversamos. Gostava de sorrir de gargalhar e parecia ser uma escoteira de bem com a vida. Há vi no pateo com os olhos rasos d’água. – Deveria me aproximar? O pátio estava vazio. Todos já tinham ido para suas casas. Aproximei-me. – Posso ajudar? – Não respondeu. Tentou me olhar nos olhos e não conseguiu. – Falou baixinho: - Chefe não quero voltar mais para minha casa! – Problema de difícil solução pensei. Sair de casa com aquela idade nem sempre era a melhor solução. – Abandonar todos? Não sentiriam sua falta? Ir para onde? – Ela não disse nada. – Selma, não sei o que ouve. Nem sei como ajudar. Só posso dizer para não sofrer por pequenas coisas que agora acha grande demais. Às vezes, o pequeno deslize é aumentado por uma palavra ou um pensamento negativo nosso até um ponto intolerável. Quem sabe alguém disse uma palavra ruim, fez crítica, uma ação intempestiva, um olhar, um gesto, um riso podem crescer de importância e chegar ao imprevisível.


                       Ela continuou calada. De cabeça baixa ainda chorava. – Selma se não me disser nada é por que não quer ouvir. Se não quer ouvir tome uma decisão. Vai para onde escoteira? – Meu pai Chefe disse que vai separar da minha mãe! – Quando o interpelei me disse coisas terríveis. – Ia ficar calado, mas resolvi dizer: - Não seria um momento de raiva? De dor? De perda? – Tente entender. Se você não ligar deixar que "entre por um ouvido e saia por outro" ou olhar por outro lado, certamente que, logo, tudo volta ao normal. Não dê valor ao que nenhum valor tem. Isto  faz parte de todos nós. Muitas vezes queremos dizer a última palavra achando que com isto iremos convencer alguém que não quer ser convencido. Todo casal passa por crises. Algumas sérias outras de fácil solução. Quem sabe eles aceitarão o grande desafio e irão superar esta crise. Quem sabe eles irão ver que o amor que os uniu não deve ser sacrificado em nome da família. Mas se cada um quiser o seu canto minha amiga escoteira nada se pode fazer...

                   Vá para casa. Não interfira. Se disserem alguma coisa responda, mas não ponha lenha na fogueira por nenhum dos dois. Quando você reduz um lado negativo aumenta um lado positivo. Um meu amigo espiritual sempre escreveu que quando alguém lhe magoar ou ofender não retruque, não responda da mesma forma. Apenas sinta compaixão daquele que precisa humilhar ofender e magoar para sentir-se forte. Pense como ele. Ontem passado. Amanhã futuro. Hoje agora. Ontem foi. Amanhã será. Hoje é. Ontem experiência adquirida. Amanhã novas lutas. Hoje, porém é a nossa hora de fazer e de construir. Selma parou de chorar. Olhou-me e me agradeceu. Obrigado Chefe. Precisava ouvir palavras de amor e incentivo.


                Na reunião seguinte ela me procurou. – Chefe estou feliz. Tudo voltou com era antes. Obrigado Chefe, obrigado!

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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