quinta-feira, 21 de março de 2019

Lendas Escoteiras. A Patrulha do Condor.



Lendas Escoteiras.
A Patrulha do Condor.

Prologo: - “O mundo é como um acampamento em que montamos a nossa tenda apreciamos a natureza, e depois voltamos para a nossa casa, que é a eternidade!”.

                                     Quem estivesse em um plano superior iria se surpreender com aquela visão fantástica de uma Patrulha seguindo em fila na trilha do Elefante. Não que tivesse elefante naquela região, nunca teve dizem que foi Seu Policarpo um velho escravo quem colocou o apelido. Policarpo viveu em Uganda no ano de 1812 e foi capturado e enviado para o Brasil. Os escoteiros da Patrulha Condor seguiam calados. Sem normas de quando e onde conversar estavam acostumados naquelas longas jornadas. Eram sete. Sempre foram sete.

                                    Quando o Grupo Escoteiro Constelação de Orion foi fundado Don Antônio Galego o Bispo paroquial convidou o Professor Labate para ser o Chefe dos escoteiros. Professor Labate foi um deles há tempos. Nunca esqueceu seu tempo de escoteiro e manteve sua promessa para sempre. Seguindo as normas que aprendeu com seu Chefe, explicou que primeiro alguns meninos não mais que oito para serem os futuros lideres e só então a tropa seria completada com um máximo de vinte e oito jovens. Não vamos entrar aqui nos pormenores do treinamento dos jovens. Foram três meses excursionando, acampando e fazendo escotismo de campo.

                                   Cento e vinte jovens haviam feito à inscrição. A escolha foi por ordem do pedido. Zé do Monte um dos monitores escolhidos pelo Chefe Labate foi solicito no seu pedido: - Chefe gostaria se fosse possível formar minha Patrulha com meninos da minha idade onze anos. Irei tentar seguir com eles juntos para sempre nesta Patrulha. Chefe Labate nos seus quarenta e oito anos, alguns cabelos brancos sorriu e balançou a cabeça concordando. Seria muito difícil manter sete meninos em uma equipe por tanto tempo. Mas a perseverança existe para quem acredita.

                                  No primeiro dia com a tropa reunida, conforme ensinou o Chefe Labate, cada Patrulha escolheu seu grito, seu nome e seu código de honra. Foi ali o início da Saga da Patrulha Condor. Nome escolhido por unanimidade. Zé do Monte teve a sorte de ter um Sub Monitor amigo de longa data. Teobaldo Souza tinha as mesmas ideias que ele. Aos poucos transmitiram para todos seus pontos de vista e o que pensavam no destino da Patrulha no futuro. – Já pensaram? Nós velhinhos, cabelos brancos, sentados aqui no Canto de Patrulha falando dos velhos tempos?

                                 Ninguém poderia explicar o arroubo, o êxtase e o encantamento que passou na mente daqueles sete escoteirinhos. Com menos de um ano formaram uma equipe perfeita. Parecia ser um só pensamento, uma só palavra uma só ação. Outro fato incrivelmente belo era o carinho que tinham pela Lei Escoteira. Ali reinava a fraternidade, a palavra e a lealdade. Espírito Escoteiro? Se assim entendermos ele existia entre os escoteiros da Condor. Leo Mateus, Tonho Neto, Ladislau Peçanha, Nilo Coelho e Bartolomeu Dias junto com Zé do Monte e Teobaldo Souza eram um só espirito e serviu de exemplo para outras patrulhas de sua tropa.

                                São histórias inverossímeis, inacreditáveis o que aquela Patrulha passou nos seus tempos de escoteiros. Quão belo foi à passagem na Rota Sênior e ali permaneceram até a Trilha Pioneira. Faziam questão de ensinar uns aos outros tudo que aprendiam. Perguntem ao Leo Mateus quantos nós, perguntem a Ladislau Peçanha como dar o nó górdio, perguntem a Nilo Coelho o que era fazer com uma só mão uma costura de arremate. Todos eram experientes, peritos e conhecedores como se dizia entre os Patrulheiros da Condor. Aqui Chefe temos o mesmo espírito o mesmo conhecimento.

                               Com 22 anos de idade cada um seguiu seu destino. Zé do Monte montou uma loja de ferragem, Teobaldo Souza virou contador das Lojas Abil, Leo Mateus se formou Técnico Mecânico, Tonho Neto foi para a faculdade ser doutor. Ladislau Peçanha disse que iria ser um minerador de Ouro na Serra da Bocaina, Nilo Coelho casou com Mirtes filha do Comendador Thiago Leite e Bartolomeu Dias se alistou nas forças armadas vindo a ser mais tarde um General de Exército. Nenhum deles foi Chefe escoteiro. Sempre mantiveram o espirito de Patrulheiro da Condor.

                              Ninguém nunca esqueceu aquele 23 de maio, no alto do Pico das Agulhas Negras o juramento de sangue que fizeram, e o mantiveram até o dia em que partiram para outro plano. Iriam se encontrar anualmente no Canto de Patrulha, no pateo da sede Escoteira, impreterivelmente às 15 horas no dia do Escoteiro todos os anos enquanto fossem vivos. Seria a reunião de Patrulha anual. Nunca deixaram de manter o ritual de abertura, com o desfraldamento da Bandeira Nacional e a lembrança da promessa da Patrulha. De pé com as mãos entrelaçadas diziam com orgulho:

  “Que todos saibam, hoje e sempre, que prometo por tudo que é sagrado, amar, aceitar e respeitar os meus amigos da patrulha, honrar sua historia, morrer se preciso para que seu nome seja conhecido pela coragem e abnegação. Farei prevalecer à verdade, hoje e sempre! Podem saber que seremos fortes como os condores que habitam os altos picos. Somos de uma Patrulha de Condores uma ave que desde o seu nascimento está destinado a alcançar as maiores altitudes, mas jamais conseguirá isso enquanto ainda jovem e frágil não tiver a coragem para lançar-se ao espaço e alçar o primeiro vôo. Que os ventos do Norte, que os ventos do Sul, que os Ventos do Leste e que os ventos do Oeste tragam a chama da liberdade, da honra e da palavra ao nosso coração.”.

                               Soube pelo Monitor Zé do Monte que hoje só resta ele e Teobaldo Santos. Os demais já partiram para o céu não antes de prometer se encontrar lá onde estiverem para fazerem suas reuniões em uma estrela qualquer do espaço infinito. Quantas aventuras, quantas noites de acampamento, quantas atividades aventureiras os patrulheiros da Condor fizeram. Ah! Zé do Monte, aquele que até hoje com seus cabelos brancos ainda mantem aquela chama jovem de um escoteiro que teve a felicidade de desenvolver uma Patrulha até na eternidade!

quarta-feira, 20 de março de 2019

Lendas da Jângal. Os contos da Selva. A Lei para os Lobos - Rudyard Kipling



Lendas da Jângal.
Os contos da Selva.
A Lei para os Lobos - Rudyard Kipling

Prólogo: - Texto copiado do site Édom Hedonista muito interessante para quem participa do maravilhoso mundo da Jângal onde moram os lobos de Seeonee.

Já publiquei esse texto aqui, no original "The Law for the Wolves". Embora tenha continuado a busca pelo poema na integra, em português, não fui capaz de encontrá-lo, portanto faço aqui uma tradução livreSe alguém já leu O Livro da Selva do Kipling certamente conhecerá o conteúdo, mesmo que as palavras sejam diferentes. Esse poema infantil fala muito de mim, muito do meu engajamento político não engajado, muito das minhas ações e do meu amor pela natureza. Espero que me entendam... E pretendo falar sobre isso mais adiante.

A Lei para os Lobos

Rudyard Kipling (1865–1936)

- Eis a lei da selva, tão antiga e verdadeira quanto o céu, O lobo que a mantiver pode prosperar, mas o lobo que a quebrar deve morrer.

- Como a trepadeira que cerca o tronco da árvore, a lei tem uma única medida; A força da alcateia é o lobo, e a força do lobo é a alcateia.

- Lave-se diariamente da ponta do focinho a ponta da calda; beba profundamente, mas nunca demais;

- E se lembre de que a noite é para caçar e não se esqueça de que o dia é para dormir.

- O chacal pode seguir o tigre, mas, filhote, quando seus bigodes forem crescidos,
Lembre-se que o lobo é um caçador - vá na frente e pegue sua própria comida.

- Mantenha a paz dentre os senhores da selva, o tigre, a pantera, o urso;
E não perturbe Hathi, o Silencioso, e não perturbe o javali em seu ninho.

- Quando alcateia encontra alcateia na selva, e nenhum dos bandos saí do caminho,

- Abaixe-se até que os líderes falem; podem ser palavras justas e devem prevalecer.

- Quando lutar com um lobo do grupo você deve lutar só e justamente, Deixe outros tomarem parte na luta e a alcateia se extingue pela guerra.

- O ninho do lobo é seu refúgio, e onde ele fez seu lar, Nem mesmo o Grão-Lobo pode entrar, nem mesmo o conselho pode vir.

- O ninho do lobo é seu refúgio, mas onde ele o cavou desprotegido, O conselho deve enviar-lhe uma mensagem, e então ele deve mudá-lo novamente.

- Se matar antes da meia-noite seja silencioso e não acorde a floresta com seu uivo, se espantar os veados do mato seus irmãos ficam sem caça.

- Podem matar para si mesmos, e suas companheiras, e seus filhotes como eles necessitam, mas não mate pelo prazer da matança, e sete vezes nunca mate um homem.

- Se pilhar sua caça de um fraco, não devore tudo em sua honra,
O Direito da Alcateia é o direito do inferior; então lhe deixe a cabeça e a carcaça.

- A caça da alcateia é a carne da alcateia. Você deve comer onde ela caí; E ninguém deve carregar dessa carne ao seu ninho, ou ele morre.

- A caça do lobo é a carne do lobo. Ele pode fazer o que entender, Mas, até que ele dê permissão, a alcateia não come daquela caça.

- O Direito do Ninho é o direito da mãe. Durante todos seus anos ela pode reclamá-lo. Um pedaço de cada caça para sua ninhada, e ninguém pode negá-la isso.


- O Direito do Filhote é o direito dos pequenos. De toda a alcateia ele pode reclamá-lo, gozo da caça quando o caçador tiver comido; e ninguém pode negar-lhe isso.

- O Direito da Caverna é o direito do pai, de caçar para ele mesmo e só; Ele é livre de qualquer chamado da alcateia. Ele é julgado pelo conselho a sós.

- Por conta de sua idade e sua astúcia, por conta de seu domínio e de sua pata, Em tudo que a lei deixa em aberto à palavra do Grão-Lobo é lei.

Agora estas são as leis da selva, e muitas e poderosas elas são; Mas a cabeça e o topo da lei e sua diretriz e estrutura é - Obedeça!

quarta-feira, 6 de março de 2019

Lendas Escoteiras. Labrador, o cão solitário da Montanha da Lua.



Lendas Escoteiras.
Labrador, o cão solitário da Montanha da Lua.

Prologo: - A espécie de felicidade de que preciso não é fazer o que quero, mas não fazer o que não quero. Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada. Amei aquele cão por toda minha vida. Se era um fantasma eu nunca tive medo. Ele ainda mora em meu coração e ali ficará para sempre!

(Conta-se uma lenda que um Escoteiro se dirigia para um acampamento de sua patrulha, quando passou por um círculo de pedras e foi silenciosamente ultrapassado por uma matilha de cães negros espectrais acompanhados por um homem vermelho, com pernas compridas e soltando fogo pelas narinas. O homem parou em frente ao Escoteiro e a matilha fez um círculo em sua volta. – Aonde vais? Perguntou o homem sinistro. Os cães latiram. – Acampar responde o Escoteiro. – Toma isto! E o homem vermelho jogou em suas mãos uma trouxa. Sumiram depois em nuvens escuras desaparecendo no escuro da noite. O Escoteiro ao chegar ao acampamento teve uma grande surpresa. – Descobriu que enrolado na trouxa existia um esqueleto de um cão negro já morto. Ele nunca mais viu um cão como aquele e mesmo percorrendo o Caminho do Abade, onde eles aterrorizam os carneiros e os pôneis selvagens viu que sumiram para sempre nas trilhas da Montanha da lua).
...

                        Tino Marcus era monitor da Albatroz. Eram seis amigos que juntos tinham o mesmo desejo e o mesmo ideal. Viver na natureza enquanto pudessem. O Chefe Montanha autorizava sempre a patrulha acampar na redondeza. Quando podia fazia uma visita e sabia que eram responsáveis, unidos e dificilmente iria acontecer um acidente. A Albatroz tinha história. Patrulha antiga, com mais de quarenta anos de fundação. Estava agora na sua décima terceira geração. Tino Marcus sabia que podia contar com Tavinho, Rodnei, Lucas, Bebeto, Vantuil o sub. Todos sabiam o que fazer como fazer e não se apertavam em acampamentos, excursões ou bivaques como o do quase inacabado percurso dos Montes Camarões. Ali tudo deu errado, mas entre mortos e feridos escaparam todos. Era para terem saído às sete da manhã e por que o Bebeto teve que ajudar sua mãe em um serviço na Cascata do Rio Vermelho resolveram esperá-lo para que ele não fosse sozinho. Afinal escolheram acampar na Montanha da lua, e duas léguas sozinho naqueles caminhos não era fácil.

                            Só às cinco da tarde chegaram ao Sítio São Lourenço. O Senhor Samuel não estava, mas tinham intimidade bastante para deixar as bicicletas no Galpão das máquinas. Sabiam que ele iria sorrir quando visse e quem sabe iria a cavalo fazer uma visita. Escurecia e a noite caía. Não se via quase nada a frente. Resolveram montar barraca no Platô dos Bororós. Eles mesmo batizaram na primeira vez que subiam a Montanha da lua. Havia diversos lugares lindos, mas com a escuridão o melhor era ficar por ali. Dava para armar até três barracas de duas lonas e havia um pequeno aclive para montar a cozinha. Não precisavam de mais. Seria duas noites de acampamento e o programa poderia ser feito ali. A rotina não precisa ser contada. Afinal eram seis bons acampadores mateiros. Foram dormir cedo por volta de dez da noite. Tino Marcus ainda ficou com Vantuil até as onze. Quando foram dormir ouviram um uivo triste e gritante de algum lobo que devia estar bem próximo deles. Se fosse um lobo saberiam como agir. No acampamento de Serra das Araras fizeram amizade com um e na volta ele desapareceu e nunca mais o encontraram.

                           Levantaram cedo, por volta de cinco e meia. Tino Marcus avistou aquele que uivava a noite. Era um cão enorme, negro, olhos vermelhos e quando respirava saia de suas narinas uma espécie de fumava branca que é costume a gente ter quando o frio é grande. Ele se assustou. Chamou os demais escoteiros com o dedo na boca para fazerem silêncio. O Cão sentou em duas patas, não demostrou ser feroz e nem tomou posição de ataque. Tavinho com seu sorriso contagiante foi até ele. Acariciou seu dorso e sua cabeça, o cão não fez nenhum gesto. Nem abanou a cauda. Só respirando e olhando fundo nos olhos de Tavinho. Passado os primeiros momentos todos se aproximaram. Afinal o Escoteiro é bom para os animais e as plantas e ali estava um belo exemplar de um da raça... Qual raça? Ninguém sabia. Não era um Martim, não era um Dogue Alemão, não era um Pastor e nem um Mastim. Pelo sim pelo não o chamaram de Labrador. O cão permaneceu com eles todos os dias. Brincava, pulava, caçava e fazia mil e uma estripulias próprias de um cão selvagem.

                 Na noite de sábado fizeram um fogo do conselho. Labrador ficou deitado prestando atenção a tudo que faziam. Perto da fogueira viram quando suas orelhas levantaram. Um estalido de galhos secos dizia que havia intrusos na mata. Ele sabia o que era. Só podia ser uma Pintada das grandes. Todos o viram saltar para dentro da mata. Ouviram latidos e rosnados. Ele voltou com sua pose de rei da selva. A onça havia partido. No domingo pela manhã deram por sua falta. Até onze da manhã nada do Labrador. Resolveu dar uma busca. Quem sabe se feriu na luta com a onça. Aventuraram por boa parte da Montanha, desde o leste para o oeste, do sul para o norte. Descobriram quase à tardinha uma caverna. Entraram devagar. Não viram labrador, mas tudo ali dizia que era sua morada. Quando retornaram ouviram seu uivo cantante e triste. Voltaram e nada. Partiram às sete da noite. Por dois meses fizeram plano para voltar. Queriam saber o que ouve com Labrador.

                      Acamparam no mesmo Platô. Esperam o dia inteiro e nada. Ficaram dois dias esperando. Antes de partir resolveram subir a montanha e ver a caverna onde Labrador morava. Vazia nenhum sinal. Voltaram para o Platô pegaram suas tralhas e partiram. Na descida um clarão vermelho iluminou toda a montanha. Assustaram, subindo a trilha uma matilha de cães vermelhos estava subindo. Na frente um homem enorme, todo vermelho com fumaça em suas narinas seguia sem nada dizer. Saíram da trilha e observavam a passagem daquela figura fantasmagórica e assustadora. Um cão saiu da fila, parou e olhou os escoteiros. Tino Marcus gritou – Labrador é você? O cão levantou as orelhas. O homem vermelho sem parar falou: - Belzebu volte para seu lugar!  Pandemônio nos espera. O cão olhou para seu pai e para os escoteiros. Devagar voltou para a fila e partiram sem olhar para trás! Uma coisa eu sei, Tino Marcus, Tavinho, Rodnei, Lucas, Bebeto e Vantuil nunca mais acamparam na Montanha da Lua!

segunda-feira, 4 de março de 2019



Lendas Escoteiras.
Rio Negro, a cidade das sombras!

Prologo: - Rio Negro a cidade das Sombras escrevi há anos. Lembro que veio a ideia quando ia dormir. Levantei liguei o micro e comecei. Terminei por volta de três da manhã. Já publiquei, mas gosto da história. Comovente, cheia de amor e vida. Leiam e se me desdisser darei seus nomes ao Funério para uma visita a meia noite. Rarará!

                       Um telegrama simples. Dizia: “Gostaríamos de contar com sua presença nas festividades do Grupo Escoteiro Enigma do Santo Sepulcro. Será dia 28 próximo em Rio Negro, a cidade das sombras. Despesas por nossa conta”. Alguma brincadeira? Eu recebia sim muitos convites para palestras e pequenos cursos escoteiros em várias cidades. Mas aquele convite era extraordinário. Onde seria está cidade? Na internet não encontrei. Deve ser alguma brincadeira pensei. Pitágoras o Comissário sempre fazia isto comigo. Liguei para ele: - Não fui eu! Juro! Ele disse. Dei boas risadas, mas fiquei inquieto, ou melhor, encucado com tudo aquilo.

                      Não dormi bem. Não tive sonhos e nem pesadelos, mas acordei suando. Parecia que alguém dizia para eu ir à estação Rodoviária comprar a passagem. Liguei para a região para me informarem se tinha algum grupo com este nome. Riram na minha cara. Fui até a Rodoviária do Tietê. Nas escadas um homem de paletó roxo, chapéu enterrado até os olhos, descalço, unhas enormes e com uma placa – Passagens para Rio Negro. – Aproximei. Ele levantou o chapéu. Não tinha olhos. Só buracos que não via o fundo. Um nariz comprido e afilado. Uma boca enorme cheia de dentes de ouro. Não tinha orelhas. Nas mãos em cada uma dois dedos.

                      Tirou do bolso uma passagem. – Mandaram-me entregar. O ônibus parte a meia noite. Terminal dois. O homem desapareceu. Nos guichês perguntei sobre Rio Negro. Ninguém conhecia. Não costumo me esconder de desafios. Iria lá nesta cidade fantasma. Afinal sou um Escoteiro e o Escoteiro não foge dos desafios. À noite com minha mochila e o uniforme social fui para a rodoviária. Onze e quarenta da noite e vi o morto vivo a minha espera. Disse-me – Siga-me. Seguimos um corredor escuro, um vento húmido e frio. Vi o ônibus. Pequeno. Negro. Na placa Rio Negro. A porta aberta. Entrei. Sentei bem à frente. Só tinha eu. Partimos. Alguém de voz grossa e cavernosa começou a cantar a canção da Despedida. Dormi. Acordei com o dia amanhecendo. Uma bruma cinzenta cobria a cidade. O ônibus parou. Desci. Um Chefe Escoteiro de uniforme roxo me saudou. Usava um lenço negro com uma caveira desenhada atrás. Sempre Alerta Chefe! Sou o Funério, disse. Venha comigo.

                       Um carro negro fúnebre com um caixão nos esperava. Não vi o defunto. Ninguém nas ruas. Não havia barulho aves cães ou qualquer outro animal. O carro parou. Olhei o motorista. Sempre de costa. Um boné de couro preto. Abri a porta e sai. Estava em frente a um cemitério. Aqui? Perguntei. Ele se virou. O rosto sem pele só ossos. Não se preocupe Chefe. A sede do grupo é linda. Foi toda construída pelos habitantes do lugar. O Senhor vai gostar. Bragg! Comecei a tremer! Onde fui me meter? Ele me pegou pela mão como se eu fosse uma criança. Fui com ele. Não tinha outra saída. Catacumbas e mausoléus enormes. Nomes estranhos. Aqui jaz – Baldassari, morreu por falta de sangue – Em outro dizia: Aqui jaz, Narkissa, a princesa beijada pelo Vampiro Damien. Meu Deus! O lugar era amedrontador.

                     Fechei os olhos, um medo terrível. Abri. Lá estava a sede. Em letras góticas uma enorme placa: Grupo Escoteiro Enigma do Santo Sepulcro. Enormes caixões enfeitavam o teto da sede. Um belo esquife branco na porta e dentro um Chefe bem velho morto com bigode e cabelos branco uniformizado. A tropa, Alcatéia e os seniores formados na bandeira. Eram bandeiras negras com escritos em grego e latim e desenhos de zumbis e cadáveres. Um Chefe se aproximou. Bem vindo Chefe! Estamos tristes com sua chegada. Mas não estão alegres? Falei espantado. Aqui Chefe é o contrário. Olhei a escoteirada. Todos de uniformes negros e os lobinhos de roxo. Ninguém sorria. Era como estivessem mortos. Vi que nenhum dos jovens tinha olhos. Só um buraco fundo. Putz! Onde fui me meter? Porque aceitei? Não havia volta. Um zumbido e um grito e as bandeiras negras com símbolos vampirescos começaram a ser içadas. Vampiros enormes voavam sobre nossas cabeças. Olhei em uma catacumba mais alta e chacais davam uivos áulicos e lamurientos. Achei que um deles o mais forte poderia ser Duamutef, o filho de Hórus. Abraçaram-se todos os escoteiros e lobinhos e deram o grito do grupo chorando. Acho que todos se lamentavam por haver morrido. Morrido? Eram mortos vivos? Pensei em correr dali.

                     Um Chefe me deu a mão. Levou-me até um mausoléu enorme. Em volta um jazigo cheio de ossos. Em cada catacumba, em cada mausoléu, em cada cova uma mão, uma cabeça e logo uma multidão de mortos em minha volta. Eram milhares. O Diretor Técnico me pediu para fazer a palestra. Disse que todos aguardavam ansiosos este momento. Que palestra quer que eu faça? Nada sei de mortos vivos e nunca fui ao Grande Acampamento. A última vez que fui a um enterro faz anos! – Gritei alto, chamem Baden Powell. Ele entende disto melhor que eu!  Não Chefe, nada disto. Todos aqui querem saber como funciona a Escoteiros do Brasil. Querem nomes dos grupos dos chefes para visitarem a meia noite. Que eu explicasse sobre a Assembleia Nacional. Eles teriam candidatos. Deus do céu! Que era aquilo? Ajuda-me Baden Powell! Socorre-me almas escoteiras do outro mundo!

                     Ouvi vozes. Monitores me convidando para jantar. Acordei. Abri os olhos. Obrigado meu Deus. Era apenas um sonho. Um pesadelo. Estava com meus escoteiros num lindo acampamento. Vi o sol se pondo no horizonte. Bendito sol! Vi o regato de águas límpidas que adorava. Vi um peixinho pulando nas corredeiras. Graças a Deus. Graças a Deus. Ainda bem. Levantei-me. Espreguicei. Dei um enorme sorriso de felicidade. Havia dormido no tempo livre enquanto eles faziam as refeições. Fui até o córrego lavar o rosto e me refrescar. Cantarolava o Rataplã. Bom demais estar ali. Levantei peguei a toalha para enxugar. Do outro lado do córrego, lá estava Funério o morto vivo da rodoviária. – Com voz grossa fúnebre e cavernosa me saudou: - Sempre Alerta Chefe, à meia noite venho te buscar!

sábado, 2 de março de 2019

Lendas Escoteiras. Lobinhos são anjos de Deus.



Lendas Escoteiras.
Lobinhos são anjos de Deus.

Prologo: - Uma história marcante. Um diretor de um colégio amargurado, uma Lobinha ensinando a ele que a lei do Lobinho não é só para os pequeninos, mas os adultos também. Vale a pena ler. São meus convidados!

               Teobaldo Sacramento passeava no pátio do colégio onde era diretor. Poucas vezes ele esteve ali. Não sabia como fora parar naquela área que pela primeira vez ele via com olhar diferente. Uma tristeza enorme o invadia e ele olhava melhor as árvores, as áreas ajardinadas e o pequeno riacho que lá no fundo trinava sons repicantes e intermitentes das pequenas corredeiras. Ele sabia que aos sábados era terreno dos escoteiros. Não tinha a menor ideia porque não sentia nenhuma simpatia por eles. Nunca os cumprimentou, os abraçou e nunca em sua vida ele fora Escoteiro. Quem sabe foi quando foi nomeado diretor na recepção que os professores e pais fizeram a ele não havia nenhum Escoteiro. Tinha uma visão estereotipada de que eles se consideravam superiores e isto trazia para ele uma hostilidade desagradável, quem sabe até mesmo repulsiva que nada dizia das demais organizações que conhecia. Quatro meses haviam se passado e nunca em tempo algum recebeu deles uma visita. Consideravam-se donos e achavam que não deviam satisfações a ninguém.

                       Nunca pensou em lhes dar um bilhete azul, afinal nunca foi vingativo. Nos colégios que tinha dado sua colaboração nunca cruzou com eles. Esta era a primeira vez. Como era cedo ele sabia que só mais tarde eles começavam a chegar com aquele zumbido tétrico de um bando de abelhas entrando em uma colmeia. Ele os viu somente uma vez. Correndo pelo pátio, cantando a pleno pulmões, os chefes apitando feitos loucos e até achou interessante quando hastearam a bandeira Nacional. Teobaldo Sacramento tinha 42 anos. Sabia que seu casamento estava indo pelo ralo. Amava demais Marilda, mas ela depois que sofrera um aborto involuntário parecia acreditar que ele era o culpado. Ele estava dando uma aula de História que tanto gostava, falando de Pedro Alvares Cabral quando recebeu a notícia. Largou tudo e partiu célere para sua casa, mas era tarde demais. Ela sempre o culpou por não estar junto dela. Resolveram mudar de rumo indo para outra cidade, quem sabe novos ares, novos amigos poderiam mudar a vida daquele casal que em tempos áureos foram felizes.

                   Viu uma aroeira enorme e embaixo um banco feito artesanalmente, mas convidativo para sentar. Não se fez de rogado. Seus pensamentos não eram claros e azulados como nuvens ao amanhecer. Para ele com o coração partido procurava dar um novo rumo em sua vida e mesmo com a nova cidade, o novo colégio nada dizia que foi acertado a transmutação, ou melhor, a modificação que fizera em sua vida e de Marilda. Tinha hora que a vontade de chorar era grande. Como Diretor do Colégio Dom Bosco ele sabia que tinha que oferecer um certo respeito, uma certa dignidade e chorar não fazia parte de uma autoridade como ele. Sem perceber viu seus olhos encherem-se de lágrimas. Sabia que estava só e as deixou rolar pela face ate cair ao chão. Ele precisava de um desabafo, de um colo amigo, de um ouvinte sincero. Como era novo na cidade deixou as lágrimas correrem como cascatas brancas caindo nas pedras do caminho das águas. Fechou os olhos e deixou seu pensamento viajar por longas paragens que ele sempre imaginava nos seus sonhos do passado. Grandes gramados, vales enormes, rios caudalosos, flores incríveis espalhadas pelas campinas verdejantes.

                  - Oi! – Alguém disse para ele. Ainda de olhos fechados ele pensou quem era. Quem estava desnudando seus segredos assim sem pedir para entrar em seus pensamentos? Abriu os olhos suavemente. Era uma menininha vestida de azul, com um lenço verde e amarelo no pescoço, um bonezinho tipo jóquei e um sorriso incrível! – Ela não parava de sorrir. Não o sorriso debochado, escrachado de quem quer ver o seu próximo no fundo do poço. Era um sorriso infantil, daqueles que ninguém deixa de admirar. Victor Hugo dizia que nunca ninguém conseguirá ir ao fundo de um sorriso de uma criança. Era verdade. Ele se levantou olhou para ela e disse: Oi! Não quer sentar aqui? – Posso mesmo? Ela disse.  Claro, afinal estamos só eu e você e porque não nos conhecermos melhor? – A menininha Lobinha riu. – Olhe aceito seu convite, mas primeiro preciso ver seu sorriso! – Teobaldo Sacramento não sabia o que dizer. Como uma menina de menos de oito anos brincava com ele desta forma? – Melhor sorrir, pensou. E sorriu. Não foi aquele sorriso estonteante, mas que ajudou a manter o diálogo com a Lobinha.

                      - Porque você está tão triste? Ela perguntou. – Qual resposta poderia dar? O que ele entende da vida de um adulto? Pensou. Ele não disse nada. Melhor calar do que falar o que não devo. – Akelá Lucy nos ensina que sorrir faz bem, ajuda a esquecer das tristezas! – Ele não disse nada. – Eu sempre faço o que ele me diz. Um dia me contou que as dificuldades existem para todos e para ficar livre delas devemos pensar primeiro nos outros e não em nós! Ele prestou atenção as suas palavras. Uma menininha de nada querendo dar lição de moral a ele? Um diretor? Um homem feito? -- Como é seu nome? Ela perguntou. – Teobaldo Sacramento, sou o diretor deste colégio. – Humm! Prazer eu também sou importante, sou segunda prima da matilha Vermelha! Chamam-me de Lis, mas me chamo Lisandra. Já ouviu falar na Lei do Lobinho? Teobaldo quis rir, mas sabia que devia respeitar aquela menina tão cheia de doçura e simplicidade.

                     - Veja, ela continuou – Não somos senhores do tempo, não podemos decidir nossas vidas no futuro. É Deus quem define o que somos e o que seremos por isto devemos sempre ouvir os Velhos Lobos, não existe idade entre o céu e a terra para entender o que dizem. E porque não pensar sempre primeiro nos outros? O senhor faz assim? – Teobaldo não respondeu. Temos que abrir os olhos e os ouvidos para ver no fundo do coração e na alma daqueles que estão ao nosso redor, não é mais fácil assim para respeitar e convivermos mutuamente? Estar sempre limpo não é só nosso o corpo, é nosso pensamento, é a maneira com que vemos as dificuldades, e saber entender que não somos perfeitos! E porque não dizer sempre a verdade? – Ela se levantou. – Diretor! O senhor abraçou alguém que ama hoje? Não? Um abraço abre nossos sonhos para o real, perdoar, entender, amar e sacrificar deve ser nossa meta em qualquer momento das nossas vidas!

                  Ela saiu devagar, olhando para trás e sorrindo. Cantava baixinho uma linda musica escoteira. Deu um adeusinho e sumiu atrás de um bosque de árvores floridas. Teobaldo Sacramento levantou de onde estava. Agora entendia sua vida, sabia para onde devia caminhar. Os escoteiros para ele tinha outra razão de ser. Descobriu que sua vida era oca, sem motivo, somente a se culpar sem dar em troca seu amor a quem precisava nas horas difíceis da vida. Ah! Pensou Teobaldo, ele agora sabia que os Anjos também sabem cantar e... Aconselhar!

sexta-feira, 1 de março de 2019

A sombra e a escuridão. Uma história, uma lenda escoteira.



A sombra e a escuridão.
Uma história, uma lenda escoteira.

                       Era uma vez... Em minutos o tempo mudou. Parecia noite, mas não era. O relógio de Donato marcava quatro da tarde. A trilha fazia volta no morro do Pastor. Os Javalis seguiam em fila, pois a trilha era estreita. Do lado direito da trilha um gigantesco penhasco. Cair era morte certa. Não dava para apertar o passo, tinham que seguir calmamente para não acontecer o pior. Molano olhou para o céu e se assustou. As nuvens cor de cobre não deixavam dúvidas, é temporal que se descobre. Um trovão ribombou por toda a encosta da montanha. O coração de todos os patrulheiros batia aceleradamente. Pelo menos era só um trovão, o pior era o raio mortal que vinha antes dele. Monte Alto o Monitor dos Javalis era experiente. Não foi a primeira vez que sua jornada fora agraciada com uma tempestade. Mas aquela era diferente. O vento começou a soprar forte e a chuva caia torrencialmente parecendo inundar a pequena trilha que eles caminhavam. Monte Alto não teve duvidas. Chamou Rolemberg que estava com a corda, e aberta foi dada a primeira volta para um Fiel Duplo, quem sabe melhor o triplo numa pequena árvore a beira da estrada. – Todos já sabiam o que fazer se abraçaram uns aos outros próximos a árvore e a corda foi passada por eles e a pequena árvore várias vezes.

                      Parecia que o mundo ia desabar. Difícil falar com tanto raio e trovão que não parava. Javier olhou para a trilha encharcada. O vendaval não perdoava. Se estivessem soltos não iriam sobreviver naquela trilha molhada e barrenta. Andar por ela era escorregar e cair no penhasco que escuro nem o fundo se via. Ele não acreditava que aquela enorme Onça Pintada pudesse estar ali proximo a eles. Ela com seus olhos vermelhos não se importava com a chuva, raios, trovões e que parada na trilha não tirava os olhos deles. Javier cutucou Monte Alto, que cutucou Rolemberg, que cutucou Lorenzo e Donato. No outro extremo da corda Justino não conseguia ver o que eles apontavam. A mão de Deus? Só podia ser. Um raio pipocou à frente da Onça pintada que deu meia volta e subiu correndo à montanha a procura de um abrigo. Um alívio tomou conta de todos apesar dos trovões dos raios e da chuva que não parecia terminar nunca. Se tens vento e depois água, deixe andar que não faz magoa, mas se tens água e depois vento põe-te em guarda e toma tento! Todos sabiam e a preocupação aumentou com aquele vendaval e a chuva que caia aos borbotões.

                     A noite chegou e a chuva não parava. Pelo menos o vento e os trovões sessaram. Desamarraram-se e partiram andando a passos de tartaruga. Escorregar seria o principio do fim. Todos estavam amarrados uns aos outros, e sabiam que uma pequena escorregada e ninguém ia ser poupado da queda. Foi Lorenzo que avistou uma pequena saída à esquerda e avisou Monte Alto o Monitor. Foi à salvação, mas só para passar a noite, pois a trilha era o único meio deles atingiram a Ravina do Bem Ti Vi. Em pouco tempo limparam uma área de quatro metros quadrados. O suficiente para armarem duas barracas e passarem a noite. Justino ofereceu para fazer uma sopa e todos sabiam que ele era capaz. Monte Alto sabia que barriga vazia não ajuda ninguém. Como bons Escoteiros acampadores eles dormiram. A chuva prosseguiu até às três da manhã. Foi Molano que olhando para o céu viu quando a chuva passou e as estrelas surgiram brilhantes. As nuvens de chumbo despareceram.

                      Monte Alto acordou a todos antes do amanhecer. Queria colocar o pé na trilha nos primeiros raios do sol. Estavam todos molhados, mas ninguém reclamava. Afinal eram valentes mateiros e não ia ser uma “chuvinha” que poderia assustá-los. Monte Alto fez um Conselho de Patrulha. – Podemos fazer um lanche quente ou podemos ir em frente, pois acredito que mais dois quilômetros atingiremos a Estrada do Negro Monte. De lá menos de duas horas chegaremos a Ravina do Bem Ti Vi. Gostaria de saber a opinião de cada um. – Todos concordaram que era melhor chegar logo, montar um bom campo, comer uma bela refeição feita por Justino o Cozinheiro da Patrulha. Todos sabiam que as Patrulhas Corvo, Andorinha e Águia Dourada já deviam estar lá. Eles não queriam atrasar já que o Chefe Bill tinha preparado um belo jogo na tarde daquele dia. Já tinham percorrido uns mil e duzentos metros e a trilha molhada ainda oferecia perigo. Melhor andar em passadas lentas.

                       Foi Molano quem viu a onça. Estava à direita da trilha, e por um milagre não tinha caído no penhasco. Presa em galhadas e cipós não podia se mexer. Era como se estivesse presa em uma enorme tarrafa. Todos pararam para observar. Ela era enorme, seus olhos vermelhos encaravam aqueles valentes Escoteiros que se arriscavam na Trilha da Morte como era conhecida. Por uns instantes ninguém disse nada. Molano tomou a frente, abriu a corda e fez na ponta um balso pelo seio, na outra ponta em um pequeno arvoredo fez um volta de fiel duplo. Todos entenderam sua ideia. Eles sabiam que não podia deixar a Onça Pintada morrer ali. Seria uma morte terrível. Não seria fácil laçar a Onça com o Balso Pelo Seio. Rolemberg se ofereceu descer próximo a ela e com seu bastão tentar enlaçar a Onça. Vários cabos foram entrelaçados para fazer uma corda e todos seguraram Rolemberg por ela. Se a onça caísse ele não cairia. Não foi fácil, uma hora depois conseguiram. A onça tentou se desvencilhar da corda, mas não conseguiu.

                       Monte Alto preocupado, pois se a Onça ao ser salva resolvesse atacá-los eles não teriam como se defender. Nenhum patrulheiro do Javali pensou nisto. Só pensavam em salvar a Onça Pintada. Não foi difícil logo ela atingiu a trilha onde estavam. Monte Alto, Javier, Donato e Justino fizeram uma barreira com seus bastões. O Balso Pelo Seio não se soltou. A Onça Pintada em pé olhava para eles. Não se sabe se foi por medo ou se foi uma coragem não esperada que Molano se aproximou da onça, com seu bastão desfez o Balso Pelo Seio em seu corpo. A Onça estava parada e parada ficou. O nó desfeito a corda puxada e enrolada já se encontrava nas costas de Javier. Quando me contaram pensei que era uma mentirada das grandes, mas a onça se abaixou com as pernas da frente, fez uma mesura, deu um passo atrás se virou e partiu. Ninguém disse nada. Um suspiro de alívio? Não. Para eles valentes Escoteiros acampadores aquilo era rotina. Eles sabiam que não eram principiantes. Consideravam-se profissionais escoteiros em todas suas atividades.

                      Partiram com sol alto para seu destino. Se alguém contou alguma coisa foi porque leu no Livro de Ata da Patrulha tão bem anotado por Lorenzo o Escriba. Falar sobre a chegada, sobre o que aconteceu com eles nos quatro dias que confraternizaram com as outras patrulhas quem sabe não era uma história tão digna na jornada que fizeram para chegar lá. Sei que todos eles mesmo tendo um enorme orgulho da Patrulha Javali, nunca em suas vidas esqueceram aquela Onça Pintada na Trilha da morte. Afinal são histórias, são coisas de Escoteiros!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Lendas Escoteiras. E Mister Bob não foi para o céu!



Lendas Escoteiras.
E Mister Bob não foi para o céu!

Prologo: - Mister Bob é um conto de ficção. Quem sou eu para dizer que a vida é assim e assado e que do outro lado seremos poeira cósmica. Deve ser muito difícil acreditar que vamos desaparecer e quando chegar a hora ver o contrário. Dar de cara com o Diabo ou com os anjos de Deus deve ser um tremendo susto. Enfim que cada um faça sua escolha no que acredita. Quem sou eu para contradizer?
             
                   Mister Bob era Chefe de Escoteiros. Aparência europeia se vangloriava em pertencer a uma raça superior. Superior ou não Mister Bob não angariava simpatias. Achava-se poderoso e mesmo muitos o considerando prepotente e autoritário, era tido por alguns como um tirano travestido de Escoteiro. No grupo era muito influente. Donatello o Diretor Técnico e Montana o Presidente o achavam arbitrário, mas sua influencia com os jovens e sua maneira dominante amedrontava a todos. Filho de condes ele se considerava o melhor. Quando falava mostrava que era um perfeito xenofóbico e preconceituoso. Formou-se com louvor na USP. Como Engenheiro Civil fez seu MBA de Engenharia de sistemas e computação na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro e Mestrado e Doutorado pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)).
       
                   Respeitado em sua profissão estava se preparando para estagiar na Harvard Business School (Harvard University EUA). Alguns de seus conhecidos diziam que ele iria ser um dos maiores CEOs em qualquer empresa que o acolhesse. Se fosse politico seria facilmente eleito Presidente do Brasil. Vangloriava em dizer que era um ateísta. Entre rodas fechadas de chefes ele dizia que Deus para ele era absolutamente nada. Mostrava sua força e seu conhecimento e se gabava de que Deus não o ajudou em nada e ele nunca precisou. Como Ateísta ele se achava mais inteligente e considerava mais preparado que Deus para resolver seus problemas. Bíblia para ele era um zero a esquerda.

                  Sabia que em sua Tropa a maioria eram católicos e evangélicos. Somente Tom Crayner um Escoteiro novato escondido dos pais dizia também ser um agnóstico. Quem sabe por que ouviu seu Chefe falar e ele copiou. Queira ou não vamos considerar que Mister Bob fez uma ótima Tropa. Provou que poderia manter todos sem evasão por três anos e cumpriu. Seus escoteiros o admiravam e muitos o procuravam copiando sempre seu exemplo. Considerava que seus escoteiros eram os melhores. Exigia muito e não perdoava os atrasados e faltosos. Nos acampamentos regionais ou nacionais exigia das patrulhas serem melhores e tirar o primeiro lugar. Todo ano ele conseguia o Padrão Ouro para o Grupo e graças a sua Tropa recebeu sua IM em dois anos de atividade. Achava muitos dirigentes eram impotentes e deveriam ser substituídos... Por ele é claro.

                 Com seis anos de escotismo já tinha recebido a Medalha de Gratidão bronze e prata e caminhava para a de bons serviços. Fazia questão de lembrar ao Diretor Técnico e ao Presidente a sua importância no grupo escoteiro. Fingia ser fraterno, apertava mãos de chefes mais humildes contrariado. Era poderoso o suficiente para desmerecer os que não eram iguais a ele seja no conhecimento Escoteiro ou na técnica escoteira. Pediu e obteve autorização para fazer vários cursos em Gilwell Park. Pelo menos Mister Bob se apresentava bem vestimentado. Comprou e não regateou todos que podia vestir. Levou para o melhor alfaiate da cidade para refazer as costuras mal feitas e reciclar para seu tamanho normal.

                  Nunca pensou em entrar para os escoteiros até o dia que foi desafiado por um colega de MBA. – És capaz? Ele riu e disse: - Sou e me dê oito anos e serei o Presidente dos Escoteiros do Brasil! Entrou em um Grupo Escoteiro depois de pesquisar em um bairro nobre próximo onde morava. Investigou quem frequentava seus conhecimentos universitários e suas vidas pregressas e profissionais. Sempre se mostrava como o melhor, o magnata no saber, o rico de conhecimentos e soberbo na sua ação. Fez a promessa escoteira sabendo que nunca ia cumprir. Em breve iria modificar tudo, pois achava um absurdo prometer a um Deus que não conhecia e uma Pátria que não tinha o porquê se orgulhar.

                  Um dia fazia adestramento em baixo de uma árvore junto aos seus monitores quando um Senhor de idade indefinida, calmo e cheio de hematomas se aproximou. Ficou em pé para se defender. – Olá moço! Viu se nosso Deus passou por aqui? – Ele riu. – Ora velhote “perebento”, não vê que estou ocupado? Vê se toca meu! Este teu Deus é seu e não meu. O homem que o interpelava riu e perguntou? – Quando você morrer onde será o seu céu? – Mister Bob pensou em dar uma lição e mostrar que não existe céu, não existe outra vida e nem este tal de Deus. Virou as costas e foi até onde estava a patrulha de monitores e brincando disse: - Meus jovens amigos será que estou prestes as morrer? Todos se assustaram e disseram que não.

                  Mister Bob frequentava os melhores lugares da cidade, restaurantes famosos, e sempre convidado pela nata da alta sociedade era a figura mais proeminente onde quer que estivesse. – Convidado para um coquetel na Federação dos Engenheiros ele com sua pose de superioridade discutia sobre a cristandade quando em dado momento caiu ao chão assustando a todos. Médicos acorreram e todos balançavam a cabeça. Mister Bob havia morrido. Ele no ambiente não acreditava no que via. Seu corpo inerte sem respirar. Assustou-se. - Não desapareci? Não virei poeira cósmica? – Porque estava ali olhando seu próprio corpo? – Viu então aquele Senhor “perebento” que procurava Deus e disse a ele: - Então Mister Bob já escolheu aonde ir? Para o céu ou para o inferno? Mister Bob estava apavorado. Não viu nenhuma luz só dementes mal cheirosos em volta.

                   Naquela tarde viu seus escoteiros, seus amigos, sua noiva em volta de sua sepultura. Nenhum deles se mostrava triste com sua morte. Estava morto e enterrado. Assustado pensou que nunca viu uma prova que Deus existe e ali naquela necrópole viu muitos como ele que sorriam, outros choravam outros bebiam agua da lama, e muitos o espezinhando pelos caminhos sujos por onde passava. Não dá para modificar o destino e um dia a verdade irá aparecer.

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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