domingo, 10 de junho de 2018

Coisas da vida. E ser velho é um barato... Mora!



Coisas da vida.
E ser velho é um barato... Mora!

Muitas vezes não fazemos ideia do que vai acontecer quando chegarmos à terceira idade. Alguns escrevem que ela é sinal de vivência, de maturidade e as TVs mostram clubes de idosos praticando exercícios físicos, outros são laureados por atingirem 90 anos e ainda sorrindo e caminhando, mas esquecem que tem outra realidade. Aquela que só vemos nos idosos que estão junto a nós. A verdade é que se tivermos feito uma vida cheia de alegrias, cuidando do nosso corpo, evitando vícios que muitos não conseguem ficar sem, então podemos atingir uma idade em que as doenças mais comuns podem ser evitadas.

Dizem que começamos a nos preocupar quando passamos a conferir nos jornais ou mesmo naqueles que são noticias por ter ido para o outro lado da vida. Principalmente se são pessoas famosas. – Morreu com quantos anos? Qual a média da morte nos idosos? São centenas de perguntas. Com a chegada da velhice, é que começamos a nos preocupar com a saúde de uma forma mais intensa. Qualquer sintoma é motivo de visitas ao médico (se for pelo SUS então vai ter que esperar), pois algumas doenças mortais ocorrem com mais frequências nos idosos.

Alguns geriatras dão nomes as mais comuns que aparecem na terceira idade e é hora da corrida para evitá-las. - Doença cardiovascular, Doença Cerebrovascular (AVC), hipertensão arterial, câncer, diabetes tipo 2, doença de Parkinson, mal de Alzheimer, doença pulmonar obstrutiva crônica, osteoarstrite, osteoporose, cataratas, perda de audição e tantas outras comuns na idade avançada. Costumamos ver amigos que se despedem da gente, muitas vezes mais novo e vamos ficando e só Deus sabe até quando. De uma coisa eu sei, não é fácil estar com uma delas ou outra qualquer sobrevivendo o dia a dia tentando manter alegria, e rindo das coisas da vida... Da velhice!

- Muitos dos meus amigos já partiram. Da minha Patrulha só resta um. Parece que eu vou primeiro que ele. Continuo ficando por aqui neste planeta e nem sei até quando. Tem dia que dá vontade de fechar os olhos e só abrir quando o sol nascer em outra dimensão. Mas não é assim tão fácil. Somos culpados pelo que fazemos, mas é Deus quem define o final da vida. Desde pequeno quando entrei para ser lobinho aos seis anos e meio que me mantive na ativa, andando, correndo, montando barracas aqui e ali, pedalando, fazendo jornadas, escapando para o alto de uma montanha ou cortando madeira (hoje não pode mais) com uma machadinha e gritar bem alto: - Maaddeeiraaaa! Infelizmente esqueci do cigarro que só fui deixar com 45 anos.

Ainda insisto mesmo sem poder nas minhas escritas. Muitos me dizem que elas são ultrapassadas, fora de época e nem sempre levadas em consideração. Concordo, mas mesmo ficando na dúvida se elas são uteis ou não, não posso parar. Minhas forças se esvaem, ideias vão se perdendo. Já não tenho o vigor de Sherazade nos contos das mil e uma noite. Esta é a minha escolha para continuar vivendo, fazendo escotismo que amo, pois como disse aquele Chefe: - Moço, tu nem grupo têm, nem registro, fica aí dizendo o que eu devo fazer? Pois é... Pois é... O que responder para ele? Dizer filho aguarde quando ficar como eu faça essa pergunta a você mesmo!

- São coisas da vida. Para ele ainda não tenho uma resposta. Tem dia que acho que não irei encontrar a próxima noite ou a madrugada. Continuo acreditando que enquanto ainda poder pensar ter os dedos firmes este será o meu exercício para continuar minha sina escoteira que enfrento desde menino. Esses tempos, que não são velhos tempos não me dão mais tempo para saber quanto tempo ou rumo irei tomar. Persisto enquanto tiver a mente viva, vou no caminho a seguir, fazendo meu nó de frade, ajudando alguém com o aselha ou o Balso pelo seio e se aparecer algum sinal a evitar evito, se aparecer algum obstáculo salto. A trilha está pronta, a barraca está armada em algum lugar. Sei onde é o meu lugar, mas não vou parar de seguir a trilha do meu destino até que um dia possa encontrar o “Voltei ao Ponto de Reunião”! Desculpem, obrigado por tudo!

Nota – Meus amigos e irmãos escoteiros, a vida passa e a gente também passa com a vida. Estou em dívida com muitos que curtem e principalmente com os que comentam meus escritos por não dar um alô, um muito obrigado ou mesmo um curtir. Está muito difícil postar e difícil seguir a todas as publicações. Será assim agora daqui prá frente e sei que vão entender. Mas lembrem-se, meu muito obrigado sai do coração, meu sempre alerta da minha alma. Abraços fraternos.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Conversa ao pé do fogo. O segredo do Velho Marcondes Faxineiro.



Conversa ao pé do fogo.
O segredo do Velho Marcondes Faxineiro.

“NÃO JULGUEIS PARA NÃO SERDES JULGADOS. AQUELE QUE ESTIVER SEM PECADO QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA”.

                 Não foi por vontade própria que pernoitei em Laranjal do Sul. Meu carro deu um defeito na parte elétrica e a placa indicava uma cidade de trinta mil habitantes convidando a todos que passavam a conhecer as belezas do lugar. Achei um mecânico eletricista palrador e dizia ser o melhor da redondeza. De fato em menos de duas horas o defeito desapareceu. Eram cinco da tarde. Ele me aconselhou a pernoitar ali na pensão de Dona Hermínia, pois ia ter um dos melhores jantares de minha vida e no dia seguinte partir para meu destino. Aceitei o conselho. Ao entrar na pensão vi na rua muitos jovens Escoteiros e perguntei a um deles onde iam. “Moço, hoje é dia de reunião”! E onde é a sede? Ele me mostrou bem no final da Avenida principal. Daria tempo. Tomei um belo banho, jantei como um rei e lá fui eu de uniforme caqui ao encontro dos Escoteiros. Eu era um deles e nada melhor do que dar a mão esquerda e um Sempre Alerta aos irmãos de ideal.

                  Como sempre fui muito bem recebido. Esta é uma das vantagens nos grupos escoteiros. Se você é um desconhecido, de outra cidade a recepção é digna de reis e rainhas em terras estranhas. Fui apresentado a todos. Chefes, assistentes, Akelá Balu e até diretores que vieram ao saber que eu estava ali. Todos falando ao mesmo tempo querendo saber notícias escoteiras da capital. Fui apresentado a Alcateia, a Tropa Escoteira e sênior além das meninas da tropa feminina e as guias. Eles não tinham pioneiros. Serviram-me café com deliciosos biscoitos de polvilho. São coisas de Escoteiros estas recepções. Durante mais de uma hora ficamos na sala da sede conversando, sempre chegando um pai ou outro, um dirigente ou outro, um politico e até mesmo o vice-prefeito vindo dar as boas vindas ao Chefe da capital. Sou um Escoteiro observador. Não deixo passar nada. Meu instinto de sempre alerta sempre está atento a tudo e a todos em minha volta.

                   Desde que cheguei vi um senhor miudinho, bem pequeno, com uns olhinhos azuis e um sorriso encantador. Vestia-se simplesmente, com uma camisa de algodão branca desbotada e um chapéu com furos e velho muito velho de Escoteiro na cabeça. Não me apresentaram. Esperei o momento oportuno e perguntei ao Chefe do Grupo quem era ele. – Ele Chefe? Ele não é ninguém. Vêm aqui todas as reuniões e faz a limpeza da sede, leva e trás recados quando necessário. É o nosso estafeta e faxineiro e nada mais que isto. – Não entendi perguntei – O Chefe ficou sem jeito e abriu o jogo – Olhe Chefe, não sei se o que vou lhe contar seria contra as normas, mas ele é um ex-presidiário. Há quase trinta e cinco anos atrás encontrou a esposa com outro homem. Sentiu sua honra ultrajada e matou o homem deixando a mulher viva. Se tivesse matado a mulher não ficaria tanto tempo na cadeia. Aqui não se prende ninguém por crime contra a honra. Foram 28 anos sem poder ir a nenhum lugar.

                 - Quando saiu voltou ao seu velho oficio de sapateiro. Por sinal é um profissional de altíssima qualidade. Procurou-me no grupo há dois anos. Disse que queria ajudar. Prestar serviço à comunidade. Conversei com a diretoria, com o delegado, com o Juiz de Direito e eles acharam que eu poderia deixá-lo ajudar, mas longe dos meninos. – Porque perguntei? Bem eles me disseram que passou muitos anos na cadeia e quem sabe ideias diferentes não podem aflorar e ele aprontar alguma? Eu não disse nada. Uma vez culpado, culpado pra sempre. Já tinha visto tantas coisas na vida que achei melhor calar. Mas não deixei de me levantar e ir até ele cumprimentá-lo. Precisam ver sua alegria quando pegou na minha mão. Seus olhos brilharam. Sempre esteve ali subserviente e muitas vezes humilhado e quando alguém como eu que achavam ser um Super chefão, um Velho lobo estava cumprimentando-o, ele foi às nuvens. Quase chorou.

                  No dia seguinte levantei cedo, queria colocar o pé na estrada o quanto antes. Tinha de chegar a Rio das Flores antes do meio dia. Compromisso inadiável. Ele estava na porta da pensão me esperando. Deu um belo sorriso e me presenteou com um belo forro de mesa, de linho branco e bordado nas pontas e no meio uma enorme flor de lis dourada. Trabalho de mestre. – Amigo, eu não mereço tão bela comenda! Disse. Ele sorriu e disse que eu era o primeiro que lhe apertara a mão no Grupo Escoteiro. Pensei com meus botões e falei – E se não o cumprimentam e não o querem lá porque ajuda? – Ele me olhou com aqueles olhos azuis miúdos e disse – Uma vez Chefe, uma jovem guia no grupo me disse que devia fazer sempre o que tive medo de fazer. Encarar sem ódio, ajudar sem esperar recompensas. Ela me falou de uma maneira tão simples que vim aqui e comecei a ajudar. No inicio limpava o campo de atividades varria em volta da sede e depois me deixaram entrar. Hoje lavo tudo, costuro barracas, com o couro que tenho na sapataria faço totens de patrulha e não faço mais porque não deixam.

            Fui embora com lágrimas nos olhos. Não ia interferir na vida daquele grupo Escoteiro. Lembrei-me de Paulo Coelho que escreveu certa vez – “Quem tentar possuir uma flor, verá sua beleza murchando”. Mas quem apenas olhar uma flor no campo, permanecerá para sempre com ela. Você nunca será minha e por isso terei você para sempre. Nunca mais voltei a Laranjal do Sul. Aonde vou sempre aprendo e tomo lições de vida. Lá aprendi com um presidiário como fazer o bem sem olhar a quem. Dizem que as mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar. Percorremos dia a dia uma trilha e se não deixarmos marcas do bem ninguém poderá aprender conosco quando nos seguirem. Um ex-presidiário ensinou-me muito mais que muitos grandes Líderes Escoteiros. Ensinou-me que a palavra servir é para quem tem amor no coração, para quem não espera recompensas e se sente pago com um sorriso. Como disse Machado de Assis, há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho, Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

“Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida com que medirdes vos medirão também a vós”. - Mateus, VII: 1-2.



Dar as mãos sem olhar a quem? Você escolhe qual mão vai apertar? Não julgueis para não ser julgado, abra o seu coração e saiba perdoar. Palavras lindas que nós e Escoteiros deveríamos ter sempre na mente. Como dizia Sartre, viver é isso: Ficar se equilibrando o tempo todo, entre escolhas e consequências.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

“Emmanuel” Um conto escoteiro



“Emmanuel”.

                 Timóteo foi o primeiro. Sempre fora assim desde que ele entrou para os escoteiros. Era uma alegria vê-lo chegar. Ficar só na sede, mesmo acostumado ele sentia falta. Ele se juntava a todas as patrulhas. Não tinha nenhuma especial. Sabia o nome de cada um: Mozart, Luiz, Totonho, Antonio, Pedro, Zacarias... Sabia do acampamento no próximo mês. Sonhava. Afinal ficaria dias e noites junto a eles era uma alegria infinita. Lembrava pouco do seu passado. Nos últimos trinta anos fez tudo para esquecer. Um pai cruel, uma mãe que não ligava para ele, uma morte em uma curva onde todos eles partiram para o outro lado da vida. Sombras tenebrosas levaram seu pai e sua mãe e ele ficou. Perambulou pelas ruas, ficou na sua casa, mas a briga dos tios pelo espólio o enojava. Descobriu os Escoteiros. Ali fez sua morada.

                Conheceu centenas deles. Afinal trinta anos produziu muitos homens feitos. Assustou quando Braguinha disse que o via, mas não escutava. Sorriu para ele e se tornaram amigos até que um dia ele partiu. Quantos chefes? Dezenas. Nunca esqueceu o Chefe André Luiz. Dizia belas palavras: - O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte. Nunca esqueceu quando a noite no Pico das Agulhas Negras disse; - Assim como a semente traça a forma e o destino da árvore, os teus próprios desejos é que te configuram a vida.

                Aos poucos foi vestindo peça por peça do uniforme. Lembrou-se de um anjo que lhe disse: Você é somente espírito e estes não tem corpo. Muitas vezes tentaram levá-lo, mas ele insistia em ficar. Gostava dali, seu pai nunca o deixou ser um. – Filho isto é coisa de “boiola”, você é meu filho macho, e tem de demonstrar desde cedo que sabe mandar e matar se preciso. Naquele dia chorou. Lembrou mais uma vez do Chefe André Luiz: - A grandeza do amor repousa invariavelmente na conjugação do verbo servir.

                 Viu um clarão azul como se fosse uma lua cheia diferente. – Filho, chegou a hora de partir! – Era um Velho de roupas brancas e alvas, envolto em luzes brilhantes. – Porque Senhor? – Esqueceram-se de você. Seu pai e sua mãe ainda estão acertando suas dívidas com Deus. – Braguinha foi quem nos alertou. – Braguinha? Onde ele está? – venha comigo, e vais encontrá-lo bem no centro do universo. Ele pensou e pensou. Senhor! – Posso pelo menos ir ao meu último acampamento? – O Velho sorriu. Ele sabia que as verdadeiras afeições são eternas. Não começam e não terminam em uma existência. "À proporção que se liberta, a alma encontra-se numa situação comparável àquele que desperta de profundo sono. Bem diverso é, contudo, esse despertar".


Nota - A humildade não está na pobreza, não está na indigência, na penúria, na necessidade, na nudez e nem na fome. A humildade está na pessoa que tendo o direito de reclamar, julgar, reprovar e tomar qualquer atitude compreensível no brio pessoal, apenas abençoa. – Este é um conto de ficção baseado na doutrina espírita.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Saudosas conversas ao pé do fogo. Chefe! Eu queria tanto ir!


Saudosas conversas ao pé do fogo.
Chefe! Eu queria tanto ir!

 Nem sempre temos a solução. Eu já tentei às vezes, mas me faltaram forças. Mesmo dedicando meu tempo e quem sabe meu soldo não pôde atender a todos. Dizem que alguns chefes melhores preparados que eu conseguem ajuda e levam todos. Faz tempo muito tempo, estava acampados em um lindo local, nascentes, florestas, bambus e um belo lago que fazia a beleza do lugar.

Costumava fazer em frente a minha barraca uma fogueira, levava batatas bananas para que todos pudessem assar e se deliciar. Era comuns aqueles encontros noturnos onde quase todos se dirigiam para lá. Não era obrigatório. As risadas, os cantos os papos muitas vezes nos levavam até altas horas da noite. Tinha sempre o café do bule, algumas vezes biscoito de maisena.

O sono chegava e aos poucos um a um ia dormir. Ficou Tornado. Pensativo vez ou outra me dando uma olhada. Ficou comigo em volta do fogo até altas horas. A noite estava calma, vento fresco, nem frio nem calor. As chamas da fogueira aos poucos iam terminando. A Patrulha de Tornado e as demais dormiam. Sabia que ele queria conversar comigo. Ponderado família humilde esperava a hora própria para começar.

- Chefe queria tanto ir ao Jamboree! Meu pai não pode pagar. O que devo fazer? Resposta difícil. Ingrata. Não tinha a resposta na mão. Conversamos, tentei mostrar que um dia ele seria alguém e iria em todos os Jamborees do mundo. Contei causos de Baden-Powell e o que ele pensava. Não sei se ele entendeu. Conrado foi dormir. Não reclamou, não chorou. Não sei se me fiz entender.

Fiquei sozinho em volta do fogo. Eram tantos na tropa que tinham o mesmo sonho de Conrado. Eles sabiam que não poderiam ir. Pensei comigo que não podia fazer nada, era um assalariado. Sonhos impossíveis? Não sei. A vida não é fácil para ninguém. Quem sabe era uma lição para eles aprenderem que nada cai do céu. Que a vida é difícil e renhida para viver. Às vezes penso que ser escoteiro não é fácil, mas tem muitas maneiras para sorrir cantar e brincar. Um Jamboree não é tudo.

Fui dormir. Gosto de dormir na barraca. Naquele dia não sonhei. Há muitos anos que não tenho um belo sonho. Hoje eles os meninos daquele tempo se tornaram homens feitos. Pais de família. Filhos e brevemente terão netos. O que fizeram daquele sonho de uma noite de luar, cantantes na fogueira, sonhos que não se realizaram daqueles belos dias da infância acampados em um lugar qualquer?


Contos ao redor da fogueira.

Nota – Este conto foi escrito pelo Chefe Jesse Pinheiro de Itapeva SP. Seguidor de minha Fanpage O Contador de Histórias me enviou este pequeno conto pela qual estou postando por ter boas qualidades na escrita e no tema. Que ele siga na trilha dos Contadores de História é meu desejo. Precisamos de muitos como ele para alegrar os corações escoteiros em volta de uma fogueira.
Se você tem algum conto e gostaria que eu publicasse, me envie para meu e-mail ferrapsvaçdp@bol.com.br

Um Tal de Zé

            Corria o curso avançado 1/2018 no campo escola Jaraguá, estávamos felizes, pois era nossa Jornada escoteira, com percurso de Gilwell e tudo o que tem direito e sem pressa..., Descíamos a estrada parque, em uma curva à direita paramos para observar a trilha do mirante. Dia bonito de Outono, seco, a névoa poluída cobre são Paulo, aproximadamente 9:00hs da manhã.

            Um vento frio repentino nos faz virar para trás... eis que surge um senhor Negro , forte e atarracado de voz mansa , vestido de branco , cachimbo na mão e diz..
            - Venho observando "os moço" aí caminhando e observando a natureza como se gostassem muito...fiquei com vontade de proseá.

            Respondi:
            - Verdade meu Senhor, gostamos muito e achamos muito bonito tudo isso aqui
            - É mais "vóis mece devia vê", quanto era mais bonito, quando cheguei por aqui, ainda inté peixe tinha nos ribeirão, caça era à vontade, e a gente fazia só pra "comê", palmito Jussara, e outras fruta e remédio nóis tirava tudo da mata.

            - Pelo jeito faz tempo que o senhor conhece aqui.
            Disse para o velho, pois negro quando embranquece o cabelo, já deve ter muita idade.

            - É "meus fio", faz tempo, e vi muita coisa mudá, coisa que entristece esse negro aqui, as pessoas vão avançando e destruindo tudo, não tem respeito pela mata nem pelos dono dela, água ..sujam tudo como se não fosse acaba, até uns que passeia e vão jogando lixo e sujando tudo pela trilha.

            - Agora por "úrtimo", deram de “robá”, avançam nas visitas e tomam o que tem, e saem correndo, parece uma sina do lugar desde que um “tar portuguêis” marvado construiu aquela casa lá em baixo, diz que até assombrada é, hêhêhê, pegava os índio pra “trabaiá”, e os que desobedecia matava e colocava as tripa misturada com taipa pra da liga no barro das parede...

            - Pois é cada lugar com sua história e a sua sina
            - E “ocêis”, sei que são esses “tar” escoteiro, já vi bastante por aqui, às “veis” passo lá onde “oceis” faz reunião, já vi as cantoria, os fogo de noite. Tem muita gente de coração bão lá ajudando os erê. Que dize as criança, e “trabaiando pra miorá” as coisa que tá “difice”...

            _ Ué, mas você é ou já foi Escotista?
            - Não “mizinfi”... É que o Preto aqui anda por tudo esse lugar, espia e acode as gente que precisa... É assim desde que chegou por aqui
            Fiquei intrigado com aquela figura, sua roupa branca, seu jeito de falar, aquele cachimbo na boca...

            - E hoje já vi por demais,... Inté não é hora mais de preto tá por aqui, já tô fazendo hora extra que nem “oceis” fala, o Preto gosta mesmo é das noites de lua, e de preferência antes do galo “cantá”.

            Mais uma ventania, minha parceira de jornada me chamou.
-. Jessé...Que tá vendo vamos embora se não atrasa...
            Olhei para a trilha morro a baixo... Lá ia ele.

            - Sr.. qual seu nome...
            - “Zé mizinfi”... Mais chamam eu Pai Zé de Aruanda... Seu criado.
            E sumiu no pó da estrada... desapareceu sem nunca ter estado, sempre esteve sem nunca aparecer... olhei a placa do mirante, lá estava escrito:  “Trilha do Pai Zé”...um arrepio me veio, uma tontura e uma vontade de tomar um gole da pinga do “Jeremias de Iporanga....pra rebatê o susto”.

Chefe Jessé Pinheiro.


domingo, 3 de junho de 2018

Histórias em volta da fogueira. Amargo Pesadelo.



Histórias em volta da fogueira.
Amargo Pesadelo.

                Dei a volta por trás do Morro do Cachimbo. Uma volta enorme, mas não queria ser visto. Não deixaria Zé Tadeu partir no trem rápido do meio dia sozinho. Não importa o que pensariam de mim, mas até hoje eu nunca acreditei na Policia que disse ser ele o culpado do roubo na casa do Senhor Pedrão gerente da Caixa Econômica. Dona Norma a vizinha jurou por todos os santos que o viu entrar pela porta da cozinha antes do meio dia.

              – Capitão Cirilo o Delegado comentou com o Chefe João Soldado que as provas eram muitas. Não havia como não enquadrar Zé Tadeu. Disse que ouve outros casos, mas ele não tinha provas. Que casos? Eu nunca ouvi falar de nenhum. A Corte de Honra não acreditava e não queria condenar o Escoteiro mais querido da patrulha Quati.

                 Nunca eu vi tão baixo astral na Tropa Escoteira. Todos tinham Zé Tadeu como um dos melhores escoteiros que passaram pela Tropa e tinham por ele uma enorme admiração, não só pela sua cortesia, sua lealdade, mas também porque ninguém ficava triste quando ele estava por perto. Zé Tadeu foi criado pela sua Avó Dona Anastácia, uma senhora de um coração de ouro. Quando a patrulha ou mesmo outros escoteiros da Tropa iam lá, ela não deixava de oferecer biscoitos de polvilho, brevidade e sempre a fritar deliciosos bolinhos de chuva.

                 Ela vivia de uma pensão do marido falecido e nunca deixou faltar nada para Zé Tadeu. Diziam a boca pequena que ele era o melhor engraxate da cidade. Eu sei que com o fruto de seu trabalho ajudou Tonho Morato a comprar seu uniforme. Doou um cantil usado para o Pascoal Lacerda. Se fosse anotar um caderno não daria para escrever todo bem que ele praticava na tropa.

                 Perdi a conta de quantas vezes ele levou biscoito, banana, laranja e chegou ao ponto de comprar uma maçã fruta cara na época, sonho do Cirilo que não podia comprar. Cirilo desde que nasceu tinha uma perna boa e outra encurtada dificultava seu andar.  E nos acampamentos? Era de uma bondade tremenda. Era um especialista em arrumar a tralha na carretinha e sempre presente para empurrar cantando suas canções escoteiras.

                  Dava gosto vê-lo na ponta do cabeçote de madeira onde o peso era maior. Um amigão no trabalho de montagem de campo, e quando terminava saia para os outros campos de Patrulha para ajudar. Fazia lindas fossas de líquidos e detritos. O Cozinheiro Tomaz tinha por ele enorme estima. Não deixava faltar água, lenha e sempre quando entrava na mata lá vinha ele com um mamão papaia do mato, ovos de codorna, taioba da beira da lagoa e frutas que ninguém conhecia.

                Ele não esperou o julgamento da Corte de Honra. Agradeceu a todos pela confiança após ter sido solto por insistência do Chefe João Soldado. A dúvida grassava em todos os escoteiros. Sua Avó desacreditou dos escoteiros e dos vizinhos. Resolveu voltar para as terras que tinha no Piauí. Uma dor doida em muito de nós com esta partida. Ninguém combinou nada, até mesmo demonstraram que se ele quisesse partir que fosse, mas ninguém iria à estação dar adeus.

                  Cheguei lá ressabiado. Fui de uniforme. Seria minha homenagem a ele para dizer que seriamos amigos para sempre não importa onde ele estivesse. – Me disse ao pé do ouvido: - Vado Escoteiro, só entre nós sem comentar com ninguém. Fique de olho no Messias. – Por quê? Perguntei. – Por nada. Mas ele na Tropa pode aprontar para vocês um dia.

                 Em cada canto da estação chegava um escoteiro. A plataforma ficou cheia. Toda a tropa estava lá. Para surpresa chegou o Chefe João Soldado. – Zé Tadeu chorou como criança. Abraços, apertos de mão, sempre alerta e ele partiu chorando dando adeus através da janela do vagão de segunda classe. Fiquei matutando porque só agora ele me falou do Messias.

                Aos poucos fui ajuntando fio por fio da meada. Era um sumiço aqui outro ali e quando Zé Tadeu foi acusado ninguém acreditou que fosse ele. Não deu outra. Outro roubo aconteceu na casa do seu Modesto, vereador e dono da loja de roupas Torquato. Outro roubo na casa do presidente do Rotary Club. De novo dona norma acusou Zé Tadeu. – Mas como? Não tinha dois meses que ele havia partido?

               Ela levou o delegado ao grupo e apontou o Messias da Patrulha Javali. – Mas a Senhora não disse que era o Zé Tadeu? – Seu delegado, este é o Zé Tadeu! – Messias saiu do grupo, a Tropa se reuniu para escrever uma carta em nome de todos ao Zé Tadeu contando a verdade acontecida. Ninguém nunca mais soube dele. Fazia uma enorme falta. Enfim a vida continua.

               Culpados ou inocentes quem sou eu para julgar? De uma coisa eu tenho certeza, é preciso que a justiça aconteça no momento certo, porque de nada adianta ela se fazer depois que o tempo estancou a dor e fechou a ferida.

Nota - “Não julguem, e vocês não serão julgados; não condenem, e não serão condenados; perdoem, e serão perdoados”. Deem, e será dado a vocês; colocarão nos braços de vocês uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante. “Porque a mesma medida que vocês usarem para os outros, será usada para vocês”. - Somente um conto, uma história. São meus convidados!

sábado, 2 de junho de 2018

Contos de Fogo de Conselho. Alfredo.



Contos de Fogo de Conselho.
Alfredo.

Os trovões ribombavam no ar. Raios explodiam pela Serra caindo em qualquer lugar. A trilha da subida virou um rio. Subimos em uma saliência e ali enrolado na lona esperamos o dia clarear. A chuva não parava. As lonas não protegiam. – Olhei para Alfredo. – Menino imberbe, sem experiência. Chorou para vir. – Ele me olhava através da escuridão como a pedir socorro. – Chefe, o medo é demais! – Olhei para ele. Sabia o que ele passava. São aprendizados que nos tornarão mais fortes amanhã. O vento chegou forte e bravio. Lembrei que antes do escurecer a chuva caiu mansa, sem vento, parecendo que logo iria passar. Engano. Nem sempre tudo dá certo e nesta hora nas pequenas batalhas que nos tornamos mais fortes. Alfredo iria entender? – Eram onze escoteiros, duas patrulhas. Muitos mais experientes, mas Alfredo não. Um pata-tenra legítimo.

Queria ter o dom de mudar o tempo, de abrir o sol, de fechar a torneira da chuva. Eu sabia que não era um herói, mas eram onze meninos escoteiros que dependiam de mim. Forçava minha mente para descobrir a minha força interior. Eu sabia que é dela que viria a solução para superar meus medos e minhas dificuldades. Comecei a tremer. Meus dentes batiam e por mais que tentasse eles não paravam. O medo chegou e sem perceber vi que os onze meninos escoteiros também tremiam. Eu precisava ignorar o passado imperfeito, até mesmo o presente cheio de defeitos. Eu tinha de pensar e fazer um amanhã do meu jeito. Senti alguém segurando minha mão. Era Alfredo. – Chefe acredite que algum maravilhoso vai acontecer! – Assustei. Era eu quem devia dizer isto e não ele. – Ele sorriu. – Calma Chefe, não grite, não adianta usar a força para tudo. Seus gestos agora são importantes. Suas ações nos darão a calma para prosseguir.

Alfredo? O menino escoteiro medroso me ensinando a crescer? – Os demais escoteirinhos se levantaram e todos se abraçaram fazendo um grande circulo de amor. A chuva amainou. No céu apareceu algumas estrelas. Abri os olhos agradecendo a Deus por uma nova noite. Meu coração acalmou. Os meninos escoteiros sorriram. Aprendi naquele momento que teria de dominar meu próprio eu. Agora seria outra pessoa, mas forte, mais experiente seria um desperdício continuar aquele fraco que eu era. Tinha de enfrentar meus medos. Aqueles meninos me ensinaram muito mais que a vida me ensinou. Alfredo pegou na minha mão. – Vamos Chefe? Sorri para ele. Um pata-tenra que cresceu em pouco tempo. Um cozinheiro da Onça Parda cantou uma canção. Era hora de partir. Tínhamos um destino a chegar.

Eu sabia que não era original, único, eu sabia que não era uma fonte de criatividade e intuição, mas tinha de aprender vivendo e fazendo. Um menino Escoteiro me ensinava uma lição. Só você pode ver com seus olhos o que sente seu coração. Era hora de escutar e seguir com fé a jornada que seria nosso destino. Aprendi com meninos escoteiros que a idade não é a única com responsabilidade. Eu vi ali que não era o Chefe, era um irmão mais Velho aprendendo com os mais novos. Aprendi que onde estiver seu coração lá estará a sua verdade. E a minha verdade me fazia vibrar com aqueles meninos escoteiros. E onde tudo vibra a força chega e os sonhos acontecem. Aprendi que era um Chefe aprendiz amadurecendo. Que a gratidão é o sentimento mais doce que existe. Aprendi que sabia amar e que a maturidade não está na idade e sim na mente. Partimos para nosso acampamento. Um doce sentimento nos dizia que o segredo da vida não é ter tudo que queremos, mas amar tudo o que temos. Eu tinha onze meninos escoteiros para guiar e aprender!

- E a lua rechonchuda nos acompanhou por aqueles vales molhados, mostrando que o tempo tem uma forma maravilhosa de nos mostrar o que realmente importa. – Escoteiro? Sim Chefe, com muito orgulho e amor!


Nota - Não deixe que as pessoas te façam desistir daquilo que você mais quer na vida. Acredite. Lute. Conquiste. E acima de tudo, seja feliz. E por favor, meu irmão Escoteiro, cultive o amor por onde você for.

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....