sábado, 17 de junho de 2017

O último toque de silêncio!


Lendas Escoteiras.
O último toque de silêncio!

           Tony Blanco chorava copiosamente a minha frente em um bar de uma travessa da Avenida São João. – O Senhor se lembra Chefe Vado do Pintassilgo? – Claro que me lembrava. Ele e Tony Blanco eram amigos inseparáveis. – Pois é nunca tive um amigo fiel como ele. Amigo mesmo. De todas as horas. Éramos de Patrulha diferente da sua. Lembro que o Senhor era da patrulha Lobo e nós da Touro. Mas fizemos juntos muitos acampamentos. Lembra-se daquela jornada na Ilha do Cajuru? Foi demais não? – Eu lembrava. Minha mente passeava pelo passado. – Pois é Chefe Vado, desculpe não sou mais Escoteiro. Eu hoje não sou nada. Um molambo largado na vida. Não tenho família, amigos, nada e nem ninguém que se preocupe por mim.

             A vida é uma surpresa atrás da outra. Havia anos que não ia ao centro e eis ao descer do ônibus na São João senti que ia passar mal. Corri até um bar em uma travessa da avenida e pedi um copo de água mineral. O remédio estava comigo. Ajuda mas não muito. Ficar imóvel e respirar bastante para voltar ao normal. Foi então que o vi. Nada mais nada menos que Tony Blanco. Maltrapilho, sujo, cara lisa, mantinha o mesmo corpo forte do passado quando puseram nele o apelido de Maciste. Mas era uma sombra do passado. A última vez que o vi foi em 1976, em um Seminário Escoteiro em Juiz de Fora. Nunca mais nos encontramos. – Ele me reconheceu. Muitos abraços e seus olhos rasos d’água. Pois é Chefe faz tempo não? Mas ele não sorria. Tony me conte o que aconteceu ao Pintassilgo?

            Morreu Chefe. Morreu. Uma morte horrorosa. Ficamos juntos até 1990. Morávamos juntos, mas sempre mantendo a fleuma de amigos somente. Ele nunca me deixou. Por causa dele não casei com a Das Dores. Gostava dela, mas não daria certo. Dizia sempre para o Pintassilgo arrumar uma namorada. Ele ria e dizia: - Não quero. Se arrumar vou casar. Se casar você deixa de ser meu amigo. Olhe Chefe muitos interpretaram mal esta amizade. Não entenderam que para ser amigos não precisamos de subterfúgios. Basta gostar. Gostar de maneira simples, sem desejos, sem aspirações que não seja estar junto de quem gosta. Das Dores riu de mim quando disse isso a ela. Interpretou mal. Vim para São Paulo. Pintassilgo veio também. Trabalhava em uma construtora como Mestre de Obras. Ele também. Alugamos um barraco no Bairro Cajuru. Pequena mas dava para nós dois.

             - Tony, você ainda toca o Clarim? Perguntei. Lembra quando eu e você nos exibíamos na “banda” do Grupo Escoteiro mostrando nossas qualidades? E quando formos servir no exército? Ficaram em dúvida entre eu e você ser promovido a Cabo Corneteiro da unidade. Ele me olhou com os olhos marejados de lágrimas deu um pequeno sorriso e disse – eu dei meu clarim para um mendigo. – Porque meu amigo? – Pintassilgo um dia desapareceu. Tentei encontrá-lo por toda a cidade. Perdi o emprego por que não ia trabalhar. Passou-se dois meses. Que falta Chefe eu sentia dele. Não conseguia emprego fixo. Fui para as ruas. Virei Morador de rua. Aqui e ali uns trocados. A vida ali é dura, mas hoje aprendi. Sei me virar.

               - Largou mesmo o escotismo? – Larguei. Cheguei a ajudar em um próximo a minha casa. Mas senti dificuldade. Era tudo diferente do que conhecia. Gostava dos jovens, mas implicaram com Pintassilgo. Ele sempre junto. Falaram coisas que não gostei. Não entendiam o valor de uma amizade. – O procurei em várias delegacias, lá zombavam de mim pelo que eu era. Fui a hospitais, Rodei em prontos socorros, fui ao IML e nada. Não dormia direito. Ainda tinha meu clarim guardado na caixa. Havia anos que não tocava. Um dia descendo a Avenida Angélica com minha carrocinha eu avistei o Nonô, o Senhor deve lembrar-se dele. Era Monitor da Pica Pau e mudou de cidade. Não mudou nada, tinha cabelos brancos e seu nariz fino e comprido não dava para esquecer. – Ele me viu e me reconheceu. Convidou-me para tomar uma cerveja e até pagou para mim um almoço. Fazia dois dias que não comia.

                 - Você soube o que aconteceu ao Pintassilgo? Ele disse. – Espantado pedi a ele para me contar. Faz cinco anos que estou procurando disse. – Morreu torturado por traficantes na Favela da Caixa D’água. – Chorei como um bebê. – Por quê? Porque meu Deus? – o confundiram com o Maneco Tiro Certo. Eram quadrilhas rivais. Sei disto, pois sou investigador da 17º Delegacia. Fui ver uma denuncia anônima. Cortaram seus braços e pernas. Depois atearam fogo. – Ficamos em silêncio por muito tempo. Eu não sabia o que dizer. – Perguntei – E onde foi enterrado? Acho que no Cemitério de Vila Alpina. – E você meu amigo, ainda nesta vida de morador de rua? – Conversamos mais algumas horas e ele se foi. Deixou-me um cartão. – Se precisar telefone disse, ainda somos irmãos escoteiros. Lembrei-me do Chefe Tonho que dizia – Um Escoteiro é sempre irmão. Nunca deixa um dos seus na mão.

                     - No dia seguinte fui até o cemitério de Vila Alpina. Tomei um banho no Albergue que fiquei hospedado. Coloquei meu uniforme Escoteiro. Estava guardado. Nunca me desfiz dele. Todos os mendigos de lá assustaram. Peguei um ônibus até Vila Alpina. A mocinha que me atendeu não tirava os olhos de mim. Disse-me onde ele estava enterrado. Joviel Peixoto. Eu sabia seu nome. Não havia sepultura. Um buraco. Mais nada. Pedi uma pá emprestada. Fiz uma tampa de terra. Tirei de outros túmulos um pouco de capim. Claro algumas flores também. Achei duas taboas. Fiz uma cruz. À mocinha me olhava de longe. Já estava escurecendo. Tirei da minha bolsa meu clarim. Meus olhos se encheram de lágrimas. A boca seca. Não conseguia tocar. Era demais! Estava engasgado! - Chefe Vado, eu o vi em pé na sepultura. Sorria, não disse nada, estava de uniforme Escoteiro. Brilhava na escuridão. Fez-me a saudação Escoteira. Desta vez toquei meu clarim com garra o toque de Silencio mais tristonho da minha vida. E como toquei. Chorei copiosamente ao terminar.


                 – Sabe Chefe Vado, eu vi muitas almas que ali morreram ficarem de pé em suas sepulturas calados. Eu vi relâmpagos no céu. Eu vi uma estrela brilhante em cima de nós. - Enquanto ele me contava o acontecido eu me lembrei de um pequeno poema que tinha lido – “Os clarins tocam pelos heróis, que morrem pela ignorância humana. O Silêncio é das vozes que se calam diante das injustiças e barbárie que são cometidas contra quem não pode por si, se defenderem”.  Eu conhecia o toque. O toquei milhares de vezes. É um toque triste. Fiquei ali com Tony. Eu também chorava. O bar vazio. Escureceu. Esqueci o que pretendia comprar na Santa Efigênia. Despedi-me dele oferecendo ajuda. – Obrigado Chefe Vado. Obrigado. Já tenho o suficiente para viver minha vida de morador de rua. É minha sina. Aqui estou vivendo e aqui morrerei. Saiu me dando um aperto de mão e um Sempre Alerta. - Falar mais o que?

nota - “Os clarins tocam pelos heróis, que morrem pela ignorância humana. O Silêncio é das vozes que se calam diante das injustiças e barbárie que são cometidas contra quem não pode por si, se defenderem”. Uma história emocionante. Uma amizade que durou por toda a vida. Dois Escoteiros que nunca se separaram. História que quando escrevi no final foi com lágrimas nos olhos. Fique a vontade para saber por quê!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O último acampamento do Velho Lobo.


Lendas escoteiras.
O último acampamento do Velho Lobo.

                Ele queria fazer seu último acampamento escoteiro. Diziam que estava velho e isto estava de cogitação. Dia e noite ele só falava nisto. Era muito conhecido. Entrou como lobo e nunca mais saiu. Agora aos 85 anos aposentado claudicava, tremia, respira mal e sua voz quase não se entendia. Acordou com um sonho que tinha ido acampar. Ficou com o sonho na mente. Sorria ao pensar no seu último acampamento. Se morrer acampando morrerei feliz dizia. No inicio manteve segredo, mas sabe como são segredos logo todo mundo sabia. Poucos concordavam com este absurdo. Teimoso e obstinado não desistiu. A família tentou demovê-lo e nada adiantou. Amigos Escoteiros não sabiam o que dizer. Sabiam que ele morreria acampando. Um dos filhos médico resolveu autorizar, mas sob a sua supervisão.

                    Chefe Zezé preparou tudo com calma. Do baú tirou sua mochila, seu uniforme que bem passado. Sua manta de Fogo de Conselho, seu chapéu de três bicos e limpou o tope que comprou ainda em 1947. Colocou seu penacho azul. Engraxou sua botina de campanha, olhou seu meião com carinho e separou sua jarreteira. Pediu a esposa para costurar os barretes das medalhas que ganhou. Eram poucas. Sorriu ao pegar sua faca Escoteira, seu facão sua machadinha e sua bússola Silva. Viu que o couro do cinto estava firme e a fivela brilhando. Não se esqueceu da velha Bandeira do Brasil. Ele sonhava dia e noite com seu último acampamento. Seria mesmo o último? Sentia falta, muita falta. Lembrava com saudades seu passado escoteiro e as mais de oitocentas noites de acampamento. Nunca esqueceu as serras e montanhas que escalou.

                    Comprou passagens para a Lagoa Dourada com saída a meia noite. Seu filho sorriu. Tinha tudo planejado, Seria monitorado todos os dias. Preparou sua matutagem para quatro dias. Levou uma pequena lona para servir de abrigo. Não esqueceu a capa de chuva.  Alguns amigos vieram ver sua partida e viram sua alegria. Seu sorriso valia a saga que iria realizar. Seu filho o levou à rodoviária. Seis horas de viagem. Deixou-o no ônibus e foi para casa. Às nove da manhã seu amigo ligou dizendo que ele não chegou no ônibus. Em nenhum dos outros também. Sinal vermelho. Os irmãos se reuniram. Vamos até lá disse um deles. O desespero tomou conta da família. A Polícia foi acionada. Busca em todos os lugares e nada. Chefe Zezé sumiu! Não sabiam mais o que fazer. Um mês depois a polícia desistiu.  Seus filhos precisavam voltar à luta.  Empregos. Esposas, filhos. A vida continua.

           Um mês depois sua esposa parou de chorar. Ainda com os olhos vermelhos inchados. No décimo quinto dia receberam um telegrama. Um vaqueiro dizia ter visto um homem parecido com ele conforme retrato na Televisão. Estava na serra do Canta Galo. Os filhos foram para lá. Mais de nove horas de viagem. Serra desconhecida próximo a uma pequena cidade. Alguns tinham visto quando ele chegou. Conseguiram um guia, encontraram o vaqueiro. Arrumaram cavalos e subiram a serra. Local ermo e de difícil acesso. Tinham medo do que iriam encontrar. Avistaram ao longe uma fumaça cinzenta subindo aos céus. Pequenas esperanças. Quem sabe está vivo? Chegaram ao local. Viram-no encostado em uma árvore como se estivesse dormindo. Correram até ele. Respirava e parecia dormitar. Abriu os olhos, sorriu. – Bem vindo meus filhos!
           O filho médico o examinou. Sua respiração parece ter melhorado. Ele se levantou, olhou para o céu, para as árvores, um pássaro preto em um galho voou. Alguns outros se juntaram a ele voando em volta do chefe Zezé. Borboletas surgiram. Azuis, vermelhas, verdes e amarelas. Vão me levar? Disse. Sua cabeleira branca caia sobre a testa. Começou a cantar uma canção escoteira. Falou alto para a floresta: - Adeus meus amigos, até breve, eu voltarei, disse ele olhando os pássaros, a mata, o riacho e o local onde acampou. Desmanchou o campo com carinho. Arrumou sua mochila, e com ela nas costas partiu a pé. Dizia: - À frente tropa! Bandeiras ao vento! Agradeceu a oferta de ir a cavalo. Andava como uma lebre. Incrível pensavam. Seus filhos viram dois quatis acompanhavam e mais ao longe dois lobos guarás do rabo curto também. Uma passarada foi com eles até a cidade. Os pássaros quando ele entrou no automóvel do filho, chilrearam alto.

                  Soube da história e resolvi fazer uma visita. Recebeu-me com um abraço e um sorriso. O que me contou foi de tirar água na boca. Daria tudo para participar de um acampamento assim. Chefe Vado eu sabia que meus filhos iriam me monitorar. Dei um baile neles. Peguei o ônibus e desci logo em frente. Já tinha comprado passagens para outro destino. A Serra do Canta Galo. Local maravilhoso, linda aguada e um céu incrível para contar estrelas. - Montei um campo de patrulha dos meus velhos tempos. Você sabe como nós velhos escoteiros somos. Minha cabana aguentou chuvas e vendavais. Minha ração foi completada com a fartura que existia ali. Aipim, jabuticabas, bananas, mandioca, taioba, Maracujá, mamões à vontade. Resolvi não voltar mais. Se tivesse de ir para outro plano que fosse ali junto à natureza que amo e que me dava tudo que precisava para viver. Senti-me revigorado, meu ar voltou. Fortaleci nem sei como.

                   Quer saber? Estou pensando em voltar. Fiz amizade com o “Caminheiro e a Midiata” dois lobos Guarás amigos. Sinto saudade dos quatis e os pássaros que não saiam do acampamento. ficamos amigos. Lá Chefe tinha o mais lindo céu de estrelas do mundo. Nunca arrependi do que fiz. Sabia da tristeza da minha esposa e meus filhos, mas o que fazer? - Os pássaros chefes me visitam e ficam horas na Castanheira que tem na praça ao lado. Converso com eles todos os dias. Acredite nunca mais vou esquecer aquela serra que amei. Sei que muitos me acham louco. Risos. Eu não sou meu amigo, não sou. Que pensem assim e não me importo. Quando durmo sonho com minha serra querida. Lá eu não sou um Velho senil, cheio de manias. Vou voltar nem que seja minha ultima viagem.


                       Fui para casa pensando no Chefe Zezé. Sentei na minha varanda e calado meditei por muito tempo. O que ele contou parecia uma fábula daquelas que conto e tento acreditar ser verdade. Ele fez o que é sonho de muitos. Mas lutou pelos seus sonhos e chegou lá. Um dia quem sabe eu faço assim também e parto para meu destino no campo dos meus sonhos? Que Deus me dê forças!

nota: -   Oitenta e quatro anos. Sonhava com seu último acampamento. A família contra. Sabia que se não o deixassem ir iria morrer em breve. Uma história impossível, uma vontade de voltar a ser o que era e superar seus limites. Saudades que machucavam ao lembrar-se dos tempos que se foram e hoje não voltam mais!

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A saga da Tropa 222.


A saga da Tropa 222.

Capitulo I – 1956
Tudo tem seu tempo, sua hora e lugar.

             - Vai cair! Deus do céu eu não aguento mais segurar! – Xavier com seus 12 anos gritava sem parar. Ele não estava só havia mais dois com ele. Mas a chuvinha fina incessante caia sem parar, a estradinha ia desaparecendo e com ela a carretinha da patrulha. Castelo gritou alto – Segurem! Vou tentar pegar o material com a corda por cima. Vi uma fenda bem próximo da estrada no alto e cabia até duas pessoas. Todos olharam e viram também. Estava enlameada. Não seria fácil ir até ali, mas todos sabiam como Castelo era. Tudo para ele era sempre um desafio e ele nem pestanejava. Para isto era o Monitor. Silva correu para ajudá-lo. Conseguiu. – Gritou para Tavares – Suba na carretinha, amarre primeiro o saco de patrulha e depois o material de sapa! E vocês segurem, pois se não vai o Silva e a carreta cair pelo despenhadeiro! Tavares gritou de alegria. A carretinha parou de escorregar. Já quase vazia conseguiram tirar a roda que balançava no ar. Moreira sorriu aliviado. Pensou que não ia sobrar nada, o medo estava passando. Botelho tentava ajudar, mas sua perna doía demais. Foi ele o culpado quando a chuvinha começou e foi coçar as costas perdendo o equilíbrio e a carretinha começou a cair no precipício.

       Depois do susto todos os olhares era para Coutinho, ele abaixou a cabeça. Afinal foi ele quem deu a sugestão de alterar o caminho. – Foi o Seu Rinaldo da venda quem me ensinou. Disse que se passássemos pelo Morro do Sultão iriamos economizar mais de uma hora na jornada. – Coitado do Coutinho. Se a carretinha tivesse caído ele nunca iria deixar de se culpar. No principio não foi difícil. Eram sete e a carretinha não estava tão pesada. Foi na volta do Macuco, logo após passarem pela Porteira que tudo começou a ir por água abaixo. Uma chuvinha fina, a terra formando barro, a carretinha deslizando e o perigo chegando. Se tudo estivesse seco não haveria perigo algum. Qualquer mancada eles sabiam que era uma garganta profunda, mais de oitenta metros. Uma queda fatal. Castelo gritou alto com todos: - Deixem o pobre do Coutinho em paz, ele só queria ajudar! Vamos partir, pois temos menos de duas horas antes que escureça! – E lá foram eles, agora mais fácil só descida. Meia hora e avistaram o local do acampamento. O Vale das Sombras era um local excelente para acampar. Conhecido do Chefe Nonô e plenamente avalizado pelo Chico Totonho. Dono da Fazenda Santana. Tinham ido lá uma vez com ele em um domingo. Escolheram outro caminho e nada deu certo.

       O acampamento estava marcado. O Chefe Nonô expediu um estafeta para avisar aos demais de uma reunião urgente com os monitores e subs. Eram somente sete em treinamento para quando fizessem a promessa e os demais inscritos entrassem. Fazia três meses que estavam juntos e muitos não se conheciam antes de serem escoteiros. Quando fizeram à promessa eles mesmos juraram que seriam amigos e irmãos para sempre. Nenhum deles conhecia o Chefe Nonô, ficaram sabendo depois que era novo na cidade. Ninguém o viu chegar. Matreiro não mostrava o rosto. Ele chegou quando o sol estava se pondo. Dormiu na Pensão da Dona Gloria e no dia seguinte todos comentavam que ele tinha comprado a Loja do Raimundo. Uma loja simples, mas com bom tamanho na rua principal. Em menos de dois meses era a maior loja de eletro domésticos da cidade. Sem que a cidade percebesse foi conquistando a todos que entravam em sua loja.

     Todos foram chegando e se assentado em volta da mesa. Não era comum o chamado do Chefe, mas naquela noite ficaram sabendo o porquê da convocação. Era comum sempre fazerem reunião de monitores e subs. Chefe Nonô explicou a todos que ficaria fora por um mês e que a patrulha devia continuar se reunindo. – Afinal vocês não podem ficar sempre dependentes não acham? Ele disse. Tem que fazer como Caio Vianna Martins, o Escoteiro caminha com suas próprias pernas! – Moreira o Cozinheiro riu. Ele se lembrava da história e até gostou. Pediu ao Chefe que escrevesse para ele guardar na sua pasta Escoteira. Quem não gostou muito quando soube da viagem foi Castelo. Ele sonhava com o acampamento marcado para o sábado seguinte no Vale das Sombras. Eles conheciam o local. Fizeram uma atividade lá em um domingo. Era meio escondido, o sol quase não aparecia por causa das montanhas em volta. Mas tinha uma linda cascata, um local gramado e bambus à vontade. Tudo tinha sido preparado pelo Xavier o intendente. Nada faltava. Ele fez questão de afiar as ferramentas, limpar as duas barracas e as panelas apesar de velhas sempre brilhando.

         E então Chefe, vamos cancelar o acampamento? Chefe Nonô ficou pensativo. Foi Tavares o sub quem deu a ideia – Porque não vamos com a patrulha? Não somos unidos? Não estamos preparados? E olhou para o Chefe Nonô. – Ele pensou e disse que queria ouvir a opinião de todos! – E assim pela primeira vez a patrulha iria acampar sozinha. Ficou determinado que cada um trouxesse a autorização dos pais por escrito. Não foi difícil. Para explicar aos pais a patrulha comparecia completa na casa de cada um. Só o pai do Botelho teve duvidas, mas tantos a falarem ao mesmo tempo, que ele para se livrar deu a autorização. Tudo certo para a partida. Chefe Nonô viajou naquele dia mesmo. Ninguém sabia onde ele foi. Ele não contava nada. Sempre viajava sem dizer para onde. O que fazia era uma incógnita. Gostavam dele, nunca viram um adulto como ele amigo dos jovens, sabia ouvir e aconselhar claro se os Escoteiros pedissem. Ele sempre dizia que se conselho fosse bom se vendia e não de graça como é hoje.


        Chegaram ao Vale das Sombras às quatro da tarde. Cada um já sabia o que fazer. Haviam treinado antes. O tempo melhorou o céu estava limpo e sem nuvens. Em pouco tempo as barracas ficaram de pé, Moreira improvisou um fogão tropeiro até que o suspenso ficasse pronto. Uma mesa na cozinha foi feita por Silva e Botelho. A noite chegou mansa, calma e gostosa. Uma brisa leve do norte soprava levando a fumaça do fogo para outras paragens. Nada deu errado. Castelo sorria aliviado. Ele ficou com medo de acamparem sem a chefia. Mas graças a Deus todos sorriam e ele sabia que aquele sorriso era porque estavam gostando do acampamento. – Interessante, pensou Castelo o que três meses de convivência pode fazer. Ele sentiu as mudanças desde o primeiro dia. Cada um desconhecendo o outro. Alguns querendo mandar e outros a criticar tudo que se fazia. Agora não eles pareciam uma família. Mas não era este o objetivo? Não é assim que se vive em grupo? Bem pelo menos foi assim que o Chefe Nonô nos explicou.

nota: Esta historia é um preâmbulo de um novo livro meu. “A SAGA DA TROPA 222”. Já tenho 40 páginas escritas. Estou escrevendo devagar. Já não tenho a agilidade de antes. Espero terminar antes de partir para o meu Acampamento no céu. Farei tudo para que aqueles que apreciam meus contos possam ler. Divirtam-se com este começo. “Quando a vida lhe oferece um sonho muito além de todas as suas expectativas, é irracional se lamentar quando isso chega ao fim”.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A última página do adeus.


Lendas Escoteiras.
A última página do adeus.

                      Olhe eu nunca há esqueci. Seu sorriso, seu jeito matreiro de conquistar e fazer amigos, sua lealdade e sua honradez eram de tirar o chapéu. Não sei por que partiu. Se houve um motivo no grupo nunca fiquei sabendo. Todos ficamos consternados com sua partida. Partiu sem nenhuma explicação e assim como chegou se foi. Não despediu de ninguém. Vimos algum de estranho em seus olhos no sábado anterior. Parecia que chorava por dentro. Ela tinha estilo, pose de rainha, mas não era antipática démodé ou arrogante. Era simples, conquistava pelas palavras, pelo carinho pelo abraço e seu Sempre Alerta era demais! Chegou sozinha sem filhos a tiracolo, maneira corriqueira que sempre acontece com pais que chegam para ver e sentir onde seus filhotes estão e verem se vale a pena.

                 Raquel foi diferente. Adentrou na sede e disse que veio ajudar. Foi aceita sem maiores exigências. Disse que não teve a oportunidade de tornar seu sonho de ajudar os jovens e ali no escotismo poderia colaborar. Quando a conheci vi que era uma senhora de classe. Porque estava ali e sozinha? De onde tinha vindo? Quem seria? Acreditar no seu altruísmo no seu amor ao próximo, na benevolência e no seu bom coração sem nada saber de suas origens era um desafio para todos nós. Dizem que a ajuda ao próximo sem buscar qualquer recompensa é notável indicador de elevação moral, que eleva o ser humano, fazendo dele um ser superior digno de ser seguido. No Grupo todos nós ficamos encantados com ela.

                   Na sede ou no campo todos os jovens do grupo ficavam como abelha no mel em volta dela. Contava lindas histórias. Cantava lindamente. Era exímia em jogos e a criançada escoteira aplaudia. Os chefes pensavam se poderia existir alguém como ela. Nunca ouve ciúmes, maledicências, despeito ou mesmo uma rivalidade. Em meus pensamentos pensei que seria uma Santa que desceu do céu para ajudar nosso escotismo tão necessitado de pessoas assim. Não entrou em nenhuma sessão Escoteira. Chegava meia hora antes e saia meia hora depois. Neste tempo distribuía sorrisos, conversava motivando a todos, recebia pais e visitantes, encaminhava os novos para o Diretor Técnico e nunca interferiu nas sessões quando de suas atividades. Os chefes sempre a procuravam para um jogo, uma historia ou um conselho.

                  Todos a chamavam de Raquel. De que? Ninguém nunca soubemos e nunca ela falou. Ninguém sabia onde morava, onde trabalhava se tinha família ou não. Isto se tornou tabu para todos, pois não queriam ofendê-la e nem privar de sua amizade. Se ela não contou é porque não queria contar. Um dia procurou o Chefe e disse para ele que queria fazer a promessa. Todos se alegraram. Ela chegou naquele sábado esplendidamente uniformizada. Sua performance era incrível e seu garbo melhor ainda. Foi uma promessa inesquecível. Após o cerimonial vieram antigos Escoteiros, ex-Escoteiros, chefes do distrito e da região, pois ela conquistou uma legião de fãs. Ela mesmo ofereceu um coquetel. Garçons de smoking serviam os mais gostosos salgados e quitutes de dar água na boca.  Eu a via pensando que ali estava seu mundo escoteiro, mas e seu mundo particular?

                        Nunca ficou um dia, um minuto um segundo sem o uniforme na sede e nas atividades Escoteiras. Ficamos boquiaberto quando disse que conseguiu um avião para levar todos do grupo para um Jamboree Nacional. Um avião? Quem ofereceu? Ninguém perguntou. A confiança nela era tremenda. Lá foram todos na aventura que marcou os jovens e adultos do Grupo Escoteiro por toda a vida. Olhe eu posso garantir que nunca faltou, nunca chegou atrasada e em menos de um ano nosso Grupo Escoteiro se tornou o mais conhecido da cidade. O prefeito e outras autoridades nos davam o maior apoio. Meu Deus! Quem era essa mulher? Porque ninguém sabia de nada de sua vida? Como ela conseguiu esconder de todos seu curriculum pessoal? Nada vi na mídia nada que pudesse desaboná-la. 

                      Foi um desastre aquela reunião do sábado. Chovia ninguém se preocupou com a chuva. Todos esperavam a chegada de Raquel com seu sorriso fantástico, um anjo dourado que Deus presenteou ao Grupo Escoteiro. Os lobinhos, Escoteiros, seniores guias e chefes entravam aos borbotões pelo portão de aço, pintado de branco, para receber um sorriso e um aperto de mão de Raquel. Onde estava ela? Ninguém sabia. Não veio? – Até agora não, disse alguém. Ficaram o tempo todo em reunião, mas sempre olhando para o portão vazio. Uma calmaria que assustava. Raquel não veio e nem nas três seguintes. O Grupo Escoteiro sentiu na pele aquela ausência. Ninguém queria acreditar no pior. Sempre sonhavam com ela adentrando com aquele sorriso dizendo: Sempre Alerta!

                 Raquel desapareceu. Ninguém sabia onde morava, ninguém tinha seu telefone, ninguém sabia onde trabalhava e nem as autoridades que ela fez amizade sabiam de sua vida particular. O coração partido, os olhos lacrimejados mostraram um Grupo Escoteiro à deriva. – Muitos diziam alto com rancor o porquê daquele abandono. Outros reclamavam por ela oferecer amor e carinho e desaparecer como uma nuvem levada pelo vento. Lembro que eu mesmo chorei com sua partida. Anos depois sem querer vi na internet uma noticia que me estarreceu. Era de 40 anos atrás. Eu não podia entender e compreender. – Dizia: -  

- Dentre os mais de cento e oitenta passageiros que morreram na queda do Avião da Swissair ocorrido hoje, próximo a Kaduna, uma figura simples que labutava no Hospital St. Nicholas na capital da Nigéria, a Irmã Raquel, considerada uma Santa vai deixar saudades. O Vaticano estuda até hoje sua canonização. Seu trabalho na cruz vermelha na Monróvia, Libéria vai deixar uma lacuna difícil de ser preenchida. O Padre Romulo sempre dizia que ela partiu para estrelas para nunca mais voltar! Olhei a foto com atenção. Mesmo preta e branca e opaca era dela, da nossa querida Chefe Raquel!


Existem chefes que deixam saudades. Existem pessoas que marcam e ficam no coração da gente para sempre. Cada um de nós conhecemos pessoas assim. Sei que Raquel nunca mais iria voltar. Sua missão havia sido cumprida. Partiu para outra missão, pois uma alma evoluída não pode ficar no mesmo lugar. Sempre guardei lembranças enormes de Raquel em meu coração. Nunca vou esquecer seu sorriso, sua voz seu jeito gostoso de ajudar e que transformou o Grupo mostrando que a fraternidade não tem hora e nem lugar!

- Tem gente que passa em nossa vida, leva um pouco de nós mesmos, e deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito, e há os que deixam muito, mas não há os que não deixam nada! – Raquel levou nossas saudades, mas deixou exemplos para nunca mais serem esquecidos.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Chefe João Soldado o imortal.



Lendas Escoteiras.
Chefe João Soldado o imortal.

                 Carlito e Rosana dois pioneiros eram os responsáveis no transporte ida e volta do Chefe João Soldado até a sede neste sábado. O grupo fazia uma vez por mês uma reunião especial onde comparecia boa parte dos antigos escoteiros. No final um encontro social com comes e bebes levados por eles. Chefe João Soldado era especial. Quase todos conheciam sua história, sua saga no grupo. Ele sempre foi saudado como o pai de todos. Ouve outros, mas ele foi o único que ficou desde a fundação. Oitenta e três bem vividos escoteirando. Tudo surgiu com o Padre Rocco e apoiada pelo Doutor Moscato Diretor do Colégio São Pedro. Ele tinha ouvido falar dos escoteiros. João Soldado tinha na veia o sonho militar. Quantas vezes sumia de casa e ia até o Tiro de Guerra, marchando com os recrutas. Foi adotado como mascote. Quando o grupo começou foi o segundo a se matricular na Alcateia. Ficou na fila nove horas. Não parava de falar. Falava na escola, em casa, na mesa de refeições e até dormindo falava. Adotou o escotismo para sempre.

                      Foi escolhido com mais seis lobos, oito escoteiros. Nos lobinhos aprendeu o que era democracia. Escondido atrás de um biombo viu os diretores escolherem o nome do Grupo Escoteiro. Sentiu-se importante. Lembrou de que toda noite sua mãe lhe dava boa noite e dizia: - A estrela cadente me caiu ainda quente, na palma da minha mão! Sorria e dizia dorme com Deus. Repetiu o verso. Todos os diretores o olharam espantados. Poucos acreditavam quando contava esta história. João Soldado na primeira reunião ainda se chamava João Francisco. Foi Mosqueteiro quem o chamou assim. Ficaram amigos para sempre até que aos setenta e nove anos Mosqueteiro morreu. Poderia escrever um livro de mil páginas da sua vida como escoteiro. Tinha histórias para contar. Nunca esqueceu o seu segundo acantonamento. Barracas armadas próximo ao Riacho da Raposa choveu, uma enchente enorme carregou tudo. Voltaram para casa chorando e pensando como iam ter um novo material de campo.

                    Akelá Tereza era única. – Vamos em frente ela dizia. - Quando um lobo não encontra a si mesmo, não encontra nada! – Em menos de cinco meses conseguiram substituir tudo que perderam. Não chorou ao passar para Escoteiro. Diziam que na cidade dos homens eles diziam: - Se cair levante se deslizar se segure, mas nunca pense em desistir. Quanto mais amarga for sua queda mais doce será sua vitória. Devorou livros, nada ficou sem ele conquistar. Distintivos, comendas enfim era um Escoteiro que não sabia o que era a palavra desistir. Foi um Sênior que sempre dizia: - Eu não sou nada e talvez tenha tudo. Fora isto eu tenho todos os sonhos do mundo. Não houve uma montanha uma planície ou um vale que ele não viajou com sua mochila que ele mesmo fez. No Clã era um camarada amigo e fraterno. Ficou pouco tempo, assumiu a Tropa Cauã. Era a segunda do Grupo. Seu sorriso era contagiante. Religioso fazia questão de dizer que Deus é tudo e que não existe escotismo sem ele.

                     O tempo passou. O amor ao seu grupo nunca terminou. Nunca se esquecia de dizer nas tropas, nas alcateias que era uma pessoa feliz. – Amo a vida, e dela sou aprendiz. – Tenho várias paixões e o escotismo é minha filosofia e minha inspiração. Mas não se esqueçam eu também possuo imperfeições. Se os caminhos que percorro não forem os que eu quero pelo menos luto por eles. A cada dia me procuro tornar melhor. Nunca assumiu a chefia do Grupo. Insígnia agradeceu convites de ser formador. Amava seu grupo, mas amava mais ainda o escotismo. Era sua filosofia de vida. Nunca pensou em se aposentar e quando se tornou o mais antigo do grupo, quando Mosqueteiro foi morar nas estrelas, resolveu diminuir as atividades. Acampava de vez em quando, e nunca deixou de acantonar com os lobos. O Grupo Estrelas Cadente tinha vida própria. Ele nunca interferiu. Sorria e lembrava-se do poeta: - O meu ideal politico é a democracia. Torço para que todo homem seja respeitado como indivíduo e que ninguém seja reverenciado e idolatrado.

                       No verão passado fazia um céu azul tão límpido, que parecia saudar a entrada do Chefe João Soldado na sede do grupo. Todos estavam a sua espera. Havia um sorriso no ar. Impossível ver tanta alegria. João Soldado sorria. Seus 89 anos o deixou quase sem voz. Gesticulava pouco e seu sorriso nunca desapareceu. Muitos antigos escoteiros sabiam que a suprema felicidade da vida é a convicção de ser amado por aquilo que você faz e aquilo que você é. Sua cadeira estava lá. Não caminhava mais. Queria contar causos e não conseguia, mas estar ali junto a quem amava bastava para reviver uma vida cheia de felicidade. Dizem que a gente não precisa buscar a felicidade fora, ela está dentro de você. Se insistir em sair por ai é possível que nunca vai encontrá-la. O Chefe do cerimonial educadamente olhou para todos, por último em João Soldado. Ambos sorriram. A ordem foi dada:

- Escoteiros firme! A bandeira em saudação! Um frêmito de sons de braços estendidos fazendo a saudação. João Soldado quis levantar, mas não conseguiu. O vento jorrava saudades de um passado que se foi. As bandeiras farfalhavam. – João Soldado sem ninguém ouvir falou para si mesmo: - Vento, ar que respiro ventania tempestade que vivo. Flores... Que me fazem respirar. - Firme descansar! O Chefe do cerimonial olhou para o Chefe João Soldado. Ele sorria seus olhos abertos, mas seus braços inertes. Rosa Linda uma Lobinha deu três passos à frente. Chorava. Cantou em forma de poesias o canto noturno do cisne, daqueles que deixam saudades; - Chefe João Soldado! O vento sussurra-me algo ao pé do ouvido. Chefe você é imortal. – Eu falo com esperança de um dia ser como você.  Eu sei que entendes as cantigas do vento, disseram que no Fogo de Conselho você os invocava com sabedoria. Mas Chefe, ah! Se eu pudesse falar a língua dos ventos teria a audácia de mandar-te um beijo um abraço um sempre alerta gostoso e nada mais.


João Soldado o Chefe imortal estava morto. Uma estrela Cadente apareceu no horizonte, brigando com aquele céu azul que brilhava intensamente. Todos com seus bastões fizeram a saudação do adeus para seu Chefe que viveu e morreu com o escotismo no coração. – Alguém baixinho falou: - Para viver não precisamos ser melhor que ninguém, nossas ações falam por si.  Do pó viemos ao pó voltaremos! 


Chefe João Soldado! O vento sussurra-me algo ao pé do ouvido. Chefe você é imortal. – Eu falo com esperança de um dia ser como você.  Eu sei que entendes as cantigas do vento, disseram que no Fogo de Conselho você os invocava com sabedoria. Mas Chefe, ah! Se eu pudesse falar a língua dos ventos teria a audácia de mandar-te um beijo um abraço um sempre alerta gostoso e nada mais. Apenas uma história, uma lenda que ficou para sempre na memoria dos escoteiros.

domingo, 11 de junho de 2017

Plutão o labrador de Thereza.


Lendas escoteiras.
Plutão o labrador de Thereza.

              Quando Thereza nasceu ninguém supunha que ela tinha deficiência visual. A visão é um dos sentidos que nos ajuda a compreender o mundo a nossa volta. A comunicação por meio de imagens e elementos visuais nos faz compreender melhor o mundo que vivemos. Até os dois anos seus pais desconheciam o que se passava com ela. Davam a ela todo amor que podiam dar. Foi um choque o dia que descobriram que não enxergava. Muitas lágrimas e todos querendo saber o que houve. Quatro meses depois ela foi levada a um especialista. A falta de conhecimento em vez de ajudar Thereza prejudicava. Todos só sabiam reclamar de Deus reclamar da vida e pensavam sempre em sí próprios perguntando por que tiveram tal infortúnio.

            Thereza cresceu sem amigos. Os pais fizeram o que podiam. Aulas para deficientes visuais com bons programas e até recebendo o apoio de um Professor especializado. Thereza tentava a todo custo superar as barreiras. A superproteção dos seus familiares e sua vontade de independência era sempre condenada pelos pais. Nunca teve oportunidade de provar que era capaz de andar sozinha e usar seus sentidos. Não podia superar seus medos e as desconfianças. Tentava e fazia um esforço descomunal para vencer estas questões. A escola que frequentava era fraca e as alternativas para superar deviam partir da família o que não acontecia.

           Thereza cresceu taciturna, falava baixinho e não saia da porta de sua casa. Dentro ela conseguia superar todas suas limitações. Seus pais dificilmente conseguiam um sorriso e sua mãe foi por todos os anos de sua vida uma professora incansável. Thereza era uma aluna de uma vivacidade incrível. Não a incentivaram ter seu próprio mundo andando com suas próprias pernas. Um dia sentada no portão de sua casa ouviu alguém a cumprimentar. – Ola moça, meu nome é Patrice seu vizinho. Quase não a vejo sair e pensei se não gostaria de conhecer meu mundo Escoteiro onde participo e onde tenho as alegrias que antes não tinha. Ela sorriu e ele percebeu que ela tinha deficiência visual. Mesmo assim insistiu no convite. Quando ela comentou com sua mãe foi um Deus nos acuda. – Nem pensar minha filha. O que vai fazer lá no meio daquela meninada que vão para a floresta, para as montanhas e fazem suas aventuras?

     Thereza não chorou. Estava acostumada com estas negativas. Uma semana depois Patrice voltou. Na porta sua mãe atendeu. – Boa tarde senhora. Thereza reconheceu a voz de Patrice falando com sua mãe. - Minha patrulha fez uma vaquinha e compramos um labrador para Thereza. A mãe assustou. Seu pai levantou e foi ver o Cão. Lindo, negro, pele macia, um olhar doce e um respirar faceiro. Thereza já tinha ouvido falar em cães para deficientes visuais. Se sentiu feliz com esta nova possibilidade. Patrice riu quando ela tremeu e disse – Venha comigo vamos fazer a primeira experiência. Seus pais tentaram impedir, mas Patrice explicou que seu pai era veterinário e um adestrador de cães. Eles não precisavam ter medo. – Thereza resolveu enfrentar esta nova etapa da sua vida. Com suas mãos macias sentia o pelo do labrador e sem perceber o chamou de Plutão. Foi amor à primeira vista.

           Durante vários dias Patrice saia com Thereza e passeava com ela puxada por Plutão. Pareciam que tinham nascido um para o outro. O treinamento foi intensivo e Thereza passou a ter um grande amor pelo cão. Patrice sabia que ela agora seria uma questão de tempo para ela desbravar novos caminhos. A locomoção de uma pessoa cega é muito mais fácil do que parece, mas isto depende exclusivamente dela. Em um mês Thereza perdeu o medo, mas seus pais nunca acreditaram que ela poderia sair por aí sozinha. Eles tinham visto sua transformação, já brotava um sorriso em seus lábios.  No sábado seguinte Patrice apareceu em sua casa e a convidou a visitar o Grupo Escoteiro. – Patrice, o que eu vou fazer lá? – Vai conhecer gente Thereza, vai conhecer seus amigos que ajudaram a comprar o Plutão. E claro vai participar conosco. - Eu? Como? – Esqueça seus medos Thereza, acredite em você!

          Mesmo contrariando seus pais Thereza foi. Plutão aprendia os caminhos e a protegia sempre. Thereza nunca se sentiu tão feliz. Agora se sentia bem, pois tinha amigos a quem podia confiar. Ela adorou os seniores e as guias. Sentiu-se em uma grande irmandade. Cantou com eles e até fez jogos simples. A Patrulha Olavo Bilac fez dela um dos seus. Eles não a tocavam. Deixavam-na acompanhar a patrulha. Plutão sempre a seu lado. No shopping todos riam da alegria daquela turma alegre e disciplinada. Ficavam embasbacados por verem uma mocinha com um cão correndo aqui e ali e dando belas gargalhadas. Quando se preparavam para o acampamento anual seus pais foram contra. Não adiantou o Chefe Manfredo e a Chefe Nair irem até lá e explicarem que não haveria perigo. Eles foram irredutíveis.

          Thereza parou de falar, de rir e sempre com expressão sombria. Plutão não saia do lado dela. Punha suas patas em seu colo e lambia seu rosto. Ela afagava Plutão com tristeza. Uma tarde sentiu que não havia ninguém em casa. Pegou a correia de Plutão e saiu com ele. Queria ir para a praça. Queria pensar e tentar decidir sua vida. Não se revoltou com seus pais. Plutão saiu animado e ela sabia que estava em boas mãos. Atravessaram a rua no sinal e no parque ela sentou na grama em uma sombra. Sentiu uma mão em seu ombro. Uma voz cavernosa lhe disse que ela era linda. As mãos dele começaram a descer pelo seu corpo. Tentou correr, mas foi subjugada. Gritou por socorro, mas naquela hora não havia ninguém perto no parque. Ela ouviu um gemido, um grito de dor e o marginal pedindo socorro. Era Plutão atacando o marginal.

         A polícia a levou em casa. Seus pais assustados e Thereza sorrindo. Os policiais contaram o que houve. A mãe de Thereza chorando disse que nunca mais ela sairia sozinha. – Mãe eu nunca estou sozinha. Tenho Plutão. Thereza foi ao acampamento. Como foi lindo. Ouvir o cantar dos pássaros, sentindo o vento no rosto, sentir á água fria da nascente, o aroma das flores silvestres. Thereza não precisa ver. Ela sentia mais que alguém que tinha olhos e nunca enxergaram as belezas vivas da natureza. Thereza ajudou na cozinha, buscava água com Plutão que se divertia até fez muitas amarras e costuras de arremate nas pioneiras da patrulha. Thereza voltou outra. Sua mente não esquecia a maravilhosa noite do Fogo de Conselho.


        Nunca mais vi Thereza. Soube que ela mudou com a família. Um dia no jornal da cidade vi sua foto. Ela se tornou escritora e estava ficando famosa. Vi que Plutão estava com ela. Bem velhinho e sorridente. Atrás dela vi o Patrice. Não sei se casaram ninguém nunca me disse. Mas quem conheceu Thereza e a visse agora, sabe que o mundo dos Escoteiros é único.  Bendito seja Deus por nos dar esta oportunidade. Cada um escolhe seu caminho. Não importa se enxerga ou não, mas importa que aceita o que é sem reclamar. Palmas para Thereza!

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!

sábado, 10 de junho de 2017

Uma janela no meu trem para lembrar.


Uma janela no meu trem para lembrar.

                         A tarde chegou mansamente. Eu a via em minha janela ainda sem aquele sol que brilha nas tardes enluaradas. Eu repousava quieto de olhos abertos em minha cama tentando recuperar as forças que havia perdido nestes dias hospitalares. São coisas de velhos principalmente os escoteiros que ainda acreditam estar subindo em uma montanha como se fosse aquele jovem menino de outrora. A mente rodava procurando um ponto qualquer no passado para se firmar e ver algum importante para relembrar. Fechei os olhos devagar, uma música suave veio ao meu encontro. Que música era aquela? Lembrei-me de Cary Grant no seu papel de playboy mulherengo e Deborah Kerr uma ex-cantora que viajando em um cruzeiro para a Europa, se conhecem. Apaixonam-se. Mas precisam dar novo rumo as suas vidas e combinam encontrar seis meses após no alto do Edifício Empire State. Se ambos aparecerem o amor é verdadeiro e se casarão. Tarde demais para esquecer!

                       Não resisto às lembranças. Não tive um amor tão grande assim em minha vida. O que tive até hoje somos felizes. Ela está ao meu lado até hoje. “Na Affair To Remember” me marcou muito. A música foi entrando em meu ser. Dominando-me, me senti tonto, inebriado. O piano deslizava em minha fronte tal qual um por do sol na Montanha da Lua onde tantas vezes acampei. Viajei no tempo. Na fila do Cinema Palácios, de braços dados com ela. Íamos assistir finalmente “Tarde demais para esquecer”. Não sabia o que íamos ver, não fazia ideia. Sou emotivo demais. Quando no final ele não a encontrou no Empire State chorei. Ainda não fazia ideia porque ela não foi. Um trágico acidente a impede de ir ao encontro. Ela toma um rumo emocionante e incerto. Saí do cinema perdido em conjecturas e nenhuma me agradava. Não seria eu o Leo McCarey o diretor para mudar tudo no final. Eu era apenas um Escoteiro, emotivo, noivo, amante de sua linda e futura esposa e que vivia a sorrir e cantar na natureza.

                         Vejo-me sentando em uma poltrona viajando no meu trem do passado. A janela aberta, a fumaça do trem volta e meia entra no vagão de primeira classe. Não reclamo. Adoro amo esta fumaça que até hoje me faz uma falta enorme. Ajeito o travesseiro para aceitar melhor. Minha cabeça fica zonza, pensando e pensando. Meus olhos se firmam na paisagem que o trem vai me mostrando em cada curva que faz. Um pontilhão me assusta. Sorrio. Pego de surpresa. Quantos pontilhões passei na minha infância? Correndo com medo de o trem chegar... Ah! A janela não para de me mostrar um passado, mas a música o piano gostoso, a melodia do filme que me marcou entra em meus poros. No final da passagem do túnel do Corcel perto de Derribadinha vejo-me ali, em pé, segurando meu cavalo de aço junto aos meus outros cinco companheiros. Esperando o trem passar para adentrar no túnel desconhecido.

                         O piano cessa. A melodia fica a parafusar minha mente. Preciso ouvi-la novamente. You tube? Sim! Vou lá. Ela volta agora sim me refastelo na cama, minha cabeça repousa no travesseiro e minha mente de novo viaja naquele trem que me leva ao passado. Lembrei-me de Gilwell. Por quê?  Afinal “Na Affair To Remember” não tem nada do escotismo que amo. Quem sabe será porque me sinto Velho e fraco e preciso voltar. Voltar onde? Em Gilwell, no tempo? Assistir novamente o filme da minha vida? Minha mente embaralha. Já nem sei mais o que pensar. Volto novamente ao meu trem. Minha janela. A fumaça branca entrando. Meu paletó branco era macio como leite em calda. O trem vai diminuindo sua marcha. Entra na estação e vejo em algum canto da estrada a garotada correndo sem parar jogando uma pelada com bola de pano. Alguém grita: - Amendoim torradinho, doce de leite e cocadas! Comprem é barato!


                         O trem já vai partir. – Alguém diz com voz chorosa: - Não quer ir comigo? Ela responde chorando... Desculpe sou feliz aqui! Um grande amor interrompido. Minha mente volta ao Empire State. E ela? Mesmo em uma cadeira de rodas ainda pensa em casar com ele? Não sei. Não quero contar. Filmes são assim, trilhas sonoras inolvidáveis. Um piano tocante quem sabe na Floresta do Tenente, lá muito longe onde acampei. Alguém toca baixinho para mim “Na Affair To Remember”. Sento-me na porta da barraca. Uma noite linda, o céu salpicado de estrelas brilhantes, cai uma brisa vinda do ar da Lagoa dos Peixes dourados. Tudo é encantamento. Noite romântica mágica repleta de felicidade. Fecho os olhos, minha viagem vai chegando ao fim. Levanto-me meio tonto da minha cama. Olho pela janela, daqui a pouco vai escurecer. No meu trem ouço alguém dizer na estação final: - Muito obrigado meu jovem cavalheiro e escoteiro, muito obrigado por esta bela viagem. Desço do trem. Vejo-me fardado, na mão o meu chapéu de abas largas. É noite, lágrimas em meus olhos mostram que ainda penso no grande amor de Deborah Kerr e Cary Grant.


O que? Uma foto não escoteira? Para lembrar o que? Hoje foi demais. Tarde demais para esquecer bateu forte em mim. Afinal sempre fui emotivo com histórias de grandes amores. Os poetas cada um define a passagem de um grande amor em cada vida. Dizem eles que há sempre alguma loucura no amor. Mas a sempre um pouco de razão na loucura! Tenham uma excelente noite!

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....