quarta-feira, 15 de abril de 2020

Era uma vez... Na Jângal! Ele era meu amigo, o Mowgly. (uma história para lobinhos)




Era uma vez... Na Jângal!
Ele era meu amigo, o Mowgly.
(uma história para lobinhos)

... – Menina Lobinha mantenha a paz dentre os senhores da selva, o tigre, a pantera, o urso; E não perturbe Hathi, o Silencioso, e não perturbe o javali em seu ninho. - Quando alcateia encontra alcateia na selva, nenhum dos bandos saí do caminho, Melhor Possível e boa caça!

                    A Akelá me deu um “pito” na frente da Alcateia. Queria chorar e não chorei. Era meu primeiro acantonamento e eu tinha sonhado com ele. Sonhei na prova da escola e quase não tive nota. Sonhei no café da manhã e acordei com meu Pai dizendo que estava na hora. Porque ela gritou comigo? Era bondosa, e juro que achei que era minha amiga. Levava no bolso um sonho de valsa e me deu vontade de comer. Não pode? – Ninguém me avisou. Ela me deixou na varanda da “Hacienda Esmeraldas” onde acantonávamos de castigo. Vi os lobinhos cantando rumo à trilha de Hathi. Ela contou que os elefantes quando vão morrer se dirigem ao seu Cemitério na Selva. Eu queria tanto conhecer! Será que Hathi estava lá? Eles sumiram na curva do Monte Mali. Queria conhecer esse monte, o Baloo contou que lá mora Shery Can. Não tenho medo dele. Minha mãe me deu um isqueiro. Qualquer coisa faria uma Flor Vermelha!

                   Sigo a lei do lobinho e ouço sempre os Velhos Lobos. Esperei e esperei e eles não voltaram. Dona Noêmia estava na cozinha fazendo nosso farnel. Nome esquisito foi a Bagheera quem nos ensinou. Fui até lá e ela nem me olhou, voltei novamente para a varanda e resolvi ir até o Monte Mali. Não iria muito longe. Entrei em um pequeno bosque e avistei um riacho. Bonito, águas clarinhas davam para ver os peixes a nadar. Sorri, gostava de peixe, tinha pena deles quando comia. Joguei umas pedras para deslizarem como meu pai fazia quando íamos ao Parque e ao lago. Cansei. Sentei olhando ao longe o Monte Mali. Resolvi voltar. Qual o caminho? Não sabia. Não marquei afinal meus sete anos não entendem muito dessas coisas. Será que ela a Bagheera vai me procurar? Kaa contou que ela tem um faro enorme! Comecei a ter medo. Tremia, deu vontade de chorar e chorei. Os sons do meu choro retumbaram na floresta.

                    Alguém me colocou a mão no ombro. Olhei e vi um menino de tanga e cabelos grandes amarrados.  – Mowgly? Ele riu. O que fazes aqui menininha? Buldeo também te expulsou da Aldeia? Olhei para ele novamente e sorri. Não Mowgly, a Akelá me deixou de castigo vim aqui e não sei voltar! – Alguém gritou ao longe chamando Mowgly. – Olhei e era a Bagheera, não a aquela da minha alcateia, mas a Pantera Negra que gostava dos tempos das falas novas. Mowgly fez sinal para ela chamando. Não entendi o que dizia. – Ele me olhou e disse: Vou caçar. Bagheera e Baloo me chamam. A Kaa disse que encontrou um pomar cheio de mangas e laranjas! – Posso ir? Perguntei. – Mowgly disse que não. Primeiro vamos achar onde você mora. Akelá sempre sabe aonde vamos. Ele e Raksha dizem que os pata tenras não podem ficar longe da Matilha.

                  Balu chegou. Um urso enorme. Tive medo. Ele bondoso disse: - Você fugiu de onde? Mowgly explicou. Precisamos levar esta menina para sua aldeia. Qual? Perguntou Bagheera. – Acho que vi lá pelos lados do Waingunga uma aldeia. É onde vivem o Povo Livre próximo às colinas de Seeonee. Ela me olhou ferozmente nos olhos. – Ainda bem que os Bandar-log o povo macaco não encontrou você! Mowgly olhou para Baloo. “Sabe Baloo, essas duas coisas brigam dentro de mim assim como as cobras brigam na primavera”.  “Eu sou dois Mowgly, mas a pele de Shere Khan está sob meus pés.”. Baloo sorriu. Não esqueça Mowgly esta é a Lei da Selva, tão antiga e imutável quanto o céu; quando um lobo a viola, ele morre, mas prospera o lobo que é fiel. Como a hera que envolve o tronco, a lei sobe, desce e volteia – pois a força da alcateia é o lobo, e a força do lobo é a alcateia.

                 Nossa! Parecia a história que minha Akelá contou quando entrei para os lobinhos. Eles me pegaram pela mão e logo chegamos a Hacienda Esmeraldas. Vi todos os lobinhos, a Akelá o Baloo homem e a Bagheera mulher assustados e me chamando aos gritos. Dei um beijo no Baloo, acariciei a pele negra e felpuda da Bagueera, dei um abraço enorme no Mowgly e corri em direção a eles. Akelá chorava. Martinha onde estava? Olhei para a selva. Sorri para ela, o Baloo e a Bagheera me abraçaram. – Eu? Eu estava caçando próximo ao Rio Waingunga onde se avista as Planícies de Seeonee! Encontrei eles Akelá! Eles quem? – Sorri, não iria dizer. Não iriam acreditar. Quem sabe iriam me dizer tantas coisas que nunca iriam superar o meu medo, que transformou na maior alegria em poder encontrar pessoalmente eles: - O Mowgly, o Baloo e a Bagheera!

terça-feira, 14 de abril de 2020

Contos ao redor da fogueira. A estrada do Adeus.




Contos ao redor da fogueira.
A estrada do Adeus.

Pingo D’água e Varetinha estavam desanimados. Estavam cansados de dizer a mesma coisa e sabiam que não estavam sozinhos. Tudo mudou da água para o vinho. O escotismo agora era outro e eles não sabiam o que fazer. Pedir conselhos? Comentar com alguém? Eles acreditavam que nenhum adulto iria dar razão a eles. Claro fizeram tentativas no Conselho de Patrulha, mas o próprio Monitor não via nada de errado, portanto suas opiniões nunca foram levadas em consideração na Corte de Honra. Pensaram em comentar com o Diretor Técnico, mas ele e o Chefe Tavinho eram unha e carne. Eles não queriam sair do Grupo Escoteiro, mas tudo estava sendo levado para isto e o pior ninguém via nada. Ninguém enxergava que a tropa encolhia a cada mês e a procura é pouca. Não dizem que o pior cego é o que não quer ver? Não iam a tanto, mas pensavam que tem gente que é cego e não por cegueira. Deve ser por falta de inteligência.

Pingo D’água e Varetinha eram amigos desde que se conheceram na tropa. Eram de patrulhas diferentes. Ele da Patrulha Pantera e Varetinha da Patrulha Texugo, no entanto eram unidos como se fossem da mesma patrulha. Foram mais de dois anos de felicidade, fazendo acampamentos, excursões, grandes jogos, gostosas aventuras que agora escassearam e praticamente não existem mais. Lembravam-se do antigo Chefe Tornado com saudades. Ele sim era um Chefe que nunca deveria ter saído da tropa. Quando entrou na Patrulha Pantera havia seis patrulheiros. Ele foi o sétimo. Chefe Tornado era daqueles que dizia – Aprender é fazer. Quer aprender? Faça o nó na árvore ou no galho mais alto com uma só mão. Fazer no braço ou bastão na vai ajudar na hora do vamos ver! Ele lembrava que em vários acampamentos as patrulhas estavam completas e as atividades eram demais. Eles não paravam. Era Morse à noite ou semáforas ou fumaça no dia, sinais de pista, ver sem ser visto, Jogos do Kim de todos os tipos, seguir pista a moda índia, grandes pioneiras, dezenas de nós e amarras, barracas suspensas, artimanhas e engenhocas, nossa! Quantas saudades!

Tudo mudou com a mudança do Chefe Tornado para a Capital. Ele nunca teve um assistente uma pena, pois poderia ter dado continuidade à tropa. Chefe Lobão convidou o Chefe Tavinho para assumir a tropa. Chegou com ares de chefão. Sempre gritando falando com todo mundo e as patrulhas começaram a desanimar com as atividades. Jogos? Não consultava ninguém se era bom ou ruim. Muitas vezes dava uma bola e dizia - Se virem! Jogar futebol não era meu forte. Bastavam minhas atividades de educação física no colégio. Eu queria escotismo de campo, de luta, de aventuras e de desafios. Ele era cego mesmo, pois não percebia que as faltas aumentaram. Alguns desistiam e nem iam mais ao grupo para dizer que saíram e não iam mais voltar. De 32 escoteiros a tropa agora tinha 18 e muitas reuniões não passavam de 12.
Perna Fina o Monitor parecia estar em outro mundo. Nada via e deixava seguir sem reclamar. Ele sempre foi um bom gritador. Por ser maior e mais forte levava a patrulha no muque. Em tempo algum aprendeu que o bom líder e aquele que sabe liderar e ser liderado. Não ensinaram isto para ele. Esqueceu completamente que precisávamos ser consultados e ouvidos. Mesmo dizendo o que acontecia a ele entrava em um ouvido e saia por outro. E olhe que foi num tal Ponta de Flecha e voltou todo posudo se achando o tal. Mostrou o certificado como se fosse o melhor Monitor do mundo, e só faltou dizer que agora o respeito tinha de ser maior. Eu e Varetinha conversávamos muito sobre isto. A maioria dos patrulheiros que ainda frequentavam não diziam nada. Conversei com meu pai. Ele nunca foi Escoteiro e seu conselho foi – Faça o que achar melhor e completou – Aprenda a tomar suas próprias decisões. Achar melhor? Tomar decisões? Chamei Varetinha e disse a ele que ia sair. Amava o escotismo. Sempre pensei que seria Escoteiro para sempre. A minha maneira aguentei por quase um ano as mudanças na tropa. Não dava mais. Nossa patrulha não tinha mais que três ou quatro frequentando.

No último acampamento, um dos poucos que fizemos não tivemos liberdade. Ele levou pais para cozinhar para nós. Disse que assim teríamos mais tempo para outras atividades. Deus do céu! Pensei que isto só com lobinhos. No nosso canto de patrulha ele não saia de lá. Sempre fazendo o que deveríamos fazer. O fogo do conselho foi o pior que participei. Só ele determinava só ele falava só ele dizia o que fazer. Esperei a reunião seguinte e procurei o Chefe Tavinho. Queria ser sincero e dizer por que estava saindo. Nunca devia ter feito isto. Ele me olhou e disse que ser Escoteiro não era para qualquer um. Escotismo é para homens que não desistem, que tem garra e aceitam a disciplina sem reclamar. No escotismo não tem lugar para perdedores. Meu Deus! Nunca esperei isto dele. Eu era para ele um perdedor? Será isto mesmo? Será que ele estava certo e eu errado? Varetinha me disse que não ia falar com ele e lá não pisava mais. No sábado seguinte não fui. Por dois meses não apareci no Grupo Escoteiro. Ninguém nunca me procurou para saber o que houve. Nem o Monitor. Diversos outros meninos que saíram me procuraram para reclamar. Outros que nunca foram riam e diziam que lá nunca iriam aparecer. Ser Escoteiro? Nunca meu amigo. Nunca!

De vez em quando encontro com um e outro que ainda estão lá. Dizem que saíram muitos e entraram outros. Nada tinha mudado. A tropa tinha onze escoteiros sendo quatro meninas. Elas foram incorporadas por falta de chefia. O Chefe Tavinho continua. Não mudou nada. Labareda um Monitor da Tigre me contou em segredo – Olhe Pingo D’água, eu estive para sair. Fiquei por causa da patrulha, ou melhor, para dois deles, pois os demais saíram e entraram novos. Tudo continua como antes. É só apito, jogos repetidos, ele gritando para todos e sorrindo para as meninas. Elas agora são o xodó dele. Só tira foto com elas. Acampamentos? Poucos. Muito poucos. Dizem que ele vai substituir o Chefe Lobão na Chefia do Grupo que anda muito doente. Rezo que sim, pois quem sabe aparece um Chefe de verdade?

São coisas no escotismo. Dizem que isto não mais existe nas tropas escoteiras, que o programa é muito bom e os escoteiros adoram... Será? Ou o Chefe é quem adora? Eu sei que sim sempre tem aqueles que dizem amém e não reclamam. Como dizia meu amigo o Chefe Wander, Vado Escoteiro tem gosto prá tudo e rindo completava: Tem sim gente que gosta, eu já vi Chefe dando uma vara para o escoteiro pescar sem explicar que sem isca ele nada irá pegar. E vamo que vamo, sem reclamar da tal evasão, coisa de bicho doido que muitos acreditam que não, é fase do tempo, remelexo no bornal para ficar os bons. Eita Chefe Wander velho poeta de guerra!

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Lendas escoteiras. Tobruk - O sonho não acabou.




Lendas escoteiras.
Tobruk - O sonho não acabou.

... - Conta-se que Baden-Powell quando fundou as bases do escotismo em 1907 que o inicio do movimento foi entre meninos pobres. Aos poucos viu que economicamente ouve uma mudança social entre eles. Hoje ele está lá no céu vendo que espiritualmente ainda existem rapazes tão pobres como naquela época. E são eles que mais necessitam do escotismo! Você é meu convidado para ler e comentar!

- Apenas um menino igual a muitos. Chamava-se Juliano Santos. Apelidado de Tobruk. Magro, roupas remendadas, diziam que sua vida não iria durar. Pai pescador, mãe faxineira. Tinha meses que não ganhavam um tostão. Tobruk gostava do apelido. Nem imaginava que era uma cidade perdida no Egito e que ficou famosa na Segunda Guerra Mundial, palco da batalha do Afrika Korps do Marechal alemão Erwin Von Rommel contra o Major Donald Craig. Mas isto é outra história. Tobruk tinha dificuldades de locomoção. Uma perna mais fina e menor que a outra. Seu rosto tinha marcas de quem sofreu paralisia facial e que agora estava recuperando. Tobruk era um menino de coração de ouro. Nunca se preocupou com sua aparência. Na escola muitos ficavam longe dele. Diziam que tinha doença contagiosa e poderiam pegar. Ele se sentia só, sem amigos, mas mesmo assim sorria. Um sorriso amarelo que só de ver dava vontade de chorar.

Zé Outeiro ficou amigo dele. Zé sonhava ser Escoteiro. Os dois se encontravam na praça para contar causos e Zé só falava nos escoteiros. Tobruk sorria ao ver Zé falar. Zé e ele sabiam que nunca poderiam ser um. Tinha que pagar, comprar uniforme e coisas para acampar. Tudo tinha taxa e as despesas enormes. Os dois assistiam as reuniões “trepados” em um pé de Jequitibá próximo ao pátio de reuniões. Zé dizia que gostaria de ser da Touro, Tobruk sonhava ser de qualquer uma. Ria do Monitor a exigir postura e garbo. Cantava com eles. Choravam quando partiam para o acampamento. Quantos jogos aprendeu? Aprendeu nós, semáforas, aprendeu até um percurso de Gilwell quando a patrulha escolheu o Pé de Jequitibá para desenhar.

Zé foi para o nordeste com sua mãe de mudança e disse que lá seria escoteiro. Um dia Tobruk tomou coragem e pediu sua mãe para levá-lo. Mulher simples, humilde, olhando os brancos de cabeça baixa nunca disse para Tobruk que os negros não eram bem vindos em certos lugares. Não foi mal tratada. O Chefe foi educado, mas disse que tinha pouco tempo e deu para ela as normas, os valores e pediu um atestado médico. Afinal a imagem dele deixava a desejar. Voltou para casa amargurado. Como pagar? Como tirar um atestado médico? Difícil, até mesmo o barraco era emprestado por uma vizinha amiga de sua mãe. Tobruk voltou a sua morada no alto do Pé de Jequitibá. Um ano, dois e Tobruk fez quinze anos. Precisava trabalhar. Ninguem o aceitava nem como aprendiz. Seu aspecto não era agradável e sendo negro pior ainda. Nunca abandou seu escotismo de sonhos, seu Pé de Jequitibá. Cresceu com muitos que foram para os seniores, e aprendeu a amar os novos que chegaram à patrulha Guará.

Tobruk sentia saudades de Zé Outeiro. Amigos de causos ele fazia falta. Polaco era o Chefe. Sabia tudo. Desde menino foi Escoteiro e hoje engenheiro químico brincava de correr pela floresta, catar vento nos vales, pegar estrelas no céu. Era um sonhador. Notou Tobruk no alto da árvore. – Vem cá meu jovem, vamos conversar. Foi um dia mais feliz de sua vida. Tobruk entrou para os Guarás. Um mês dois e o Chefão o chamou. – Meu jovem, você está sob a proteção do Polaco. Não faça besteira e o jogo para fora ou para a prisão. O Chefe Tomás reclamava: - Ele paga tudo e isto não está certo. Aqui não tem lugar para negro e pobretão.

Reclamar com o Chefe Polaco? Criar inimigos? Calar e aceitar? Foi assim que Tobruk viu que escotismo era para ricos, pobres não tem vez. Se tiver alguém que interessa ele fica se não que se dane. Tinha mensalidade tinha taxas para acampamentos, para os grandes nacionais. Ninguem se preocupava com ele e com outros que um dia poderiam ser escoteiros. Se tem paga se não tem dá o fora. Soube que sua mensalidade no órgão nacional foi perdoada. Tinha uma norma para os pobres e nada seria cobrado se ele pudesse provar. Mas só isto. Para alguns chefes ele não servia para nada. O Chefe Polaco sorria, cativava, disse a Tobruk que estudasse muito, que um dia pudesse provar que ele era alguém, que lhe dessem respeito e afeição. Era seu direito. Seis meses depois Tobruk saia de uma reunião de Patrulha, feita na sede, pois na casa do Lancaster sua mãe não gostava dele.

Tobruk acostumou com tudo. Já não revoltava e aceitava o que a vida lhe reservou para seu destino. Na Rua do Coqueiro três meninos negros passaram correndo. Um deles o jogou ao chão. Ao se levantar um carro patrulha parou. Desceram atirando. Tobruk morreu na hora. Quando o viram de uniforme escoteiro tentaram mudar a cena. Uma arma foi jogada aos seus pés. O sangue se espalhava pela calçada. Ninguem parava todo mundo com pressa a sair daquela emboscada da morte de um jovem que a vida não tinha reservado um final feliz. Chefe Polaco chorava na cerimônia fúnebre. Abraçou sua mãe e seu pai e disse que só Deus podia entender o destino de Tobruk, um menino cujos sonhos o vento levou!

Sonhos de meninos que não se realizam. Alguns que podem não querem. E os que querem muitas vezes não podem. Quem sabe estamos nos tornando demasiados respeitáveis e esquecemos que o escotismo não é só para os rapazes bons. Não era isto que pensava Baden-Powell? Ele repetia sempre que o movimento é para os rapazes que dele necessitam. Afinal o escotismo nasceu em 1907 entre meninos pobres e, se economicamente ouve uma mudança social entre eles, espiritualmente ainda existem rapazes tão pobres como naquela época. E são eles que muito necessitam do escotismo!



sábado, 11 de abril de 2020

Lendas da Jangal. A lenda dos peixinhos dourados. (uma história para lobinhos).



Lendas da Jangal.
A lenda dos peixinhos dourados.
(uma história para lobinhos).

      Conta uma lenda que existia uma cidade pequena, muito e muito longe lá onde as nuvens se escondiam ao anoitecer. Contam ainda que em Harmonia era comum todos se saudarem, semblantes alegres, cantantes, andar cadenciado como a mostrar suas alegrias em viver. Disseram-me que lá não havia ódio, não havia tristeza e que seus habitantes viviam como irmãos. Foi lá que Ruth nasceu de parto natural. Conta à lenda que ela nasceu sorrindo e que Dona Sarah a parteira a “benzeu” dizendo – Ela vai ser nossa guia e a Santa de Harmonia. Ruth foi crescendo e todos admiravam sua beleza. Tinha cachos dourados e brilhantes, olhos verdes como as esmeraldas e distribuía onde passava seu sorriso que parecia trazer o aroma das flores, os pássaros esvoaçantes a seu redor e milhares de borboletas coloridas.

       Contaram-me que em Harmonia as noites sempre tiveram lua cheia. Era uma lua diferente, grande e apesar de um branco harmônico em volta parecia ter uma coroa de flores das mais variadas matizes. Todos sabiam que na cidade havia o mais lindo céu de estrelas. De todos os tipos, vermelhas, brancas, verdes e não havia em nenhum lugar um brilho maior do que lá e que elas pipocavam no céu divinamente. Ruth aos seis anos era uma lobinha da Alcatéia do Amor. Ali lobinhos e lobinhas viviam felizes juntos aos chefes da Alcateia. Dalila a Akelá era amiga de todos, Sarah a Baguera contava lindas histórias e Isaac o Balu brincava a mais não poder com todos os lobos da Alcateia do Amor. Naquela Alcateia feliz se sabia que todos seguiam sem nenhuma duvida a lei do lobinho. Ruth era filha de Talita e David. Seus pais eram pessoas humildes e trabalhavam na loja do Senhor Levi. Muitas vezes Ruth ficava só e ela amava estas horas.

        Nos fundos da casa de Ruth, corria um córrego de águas cristalinas, límpidas e diziam que quem bebia daquelas águas não ficavam mais doentes. Era lá quando estava só que Ruth passava boa parte do tempo enquanto seus pais trabalhavam. Ela era amiga de muitos peixinhos dourados e conversava muito com Estrelinha, Pingo d’água e Gota de Chuva. Podia ter sol ou chuva que Ruth não saia do laguinho que as águas formaram. Um dia Ruth viu chegando um Bagre cinzento. Ele era feio, muito feio. Os peixinhos dourados sempre corriam quando o Bagre chegava. Ruth ficou ali olhando para ele e ele olhando para ela. Não vai correr? Não vai fugir? Afinal sou um bagre cinzento e sou horrendo. Todos quando me veem fogem. Ruth sorriu para ele. - Seu bagre saiba que a beleza ideal está na simplicidade calma e serena. Sei que quando o conhecer melhor encontrarei em seu coração uma beleza que fará brilhar todas as luzes. Lembre-se que o valor das coisas não está na aparência ou no tempo que elas duram, mas na intensidade que você impõe a bondade em seu coração. Isto é tão verdade, pois a gente sabe que temos momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

                 O Bagre Cinzento a olhou de tal forma que sem ele perceber se transformou em um Bagre dourado, de olhos azuis. Ele não estava acreditando e foi preciso que Ruth dissesse para ele – Saiba Seu Bagre Dourado a gente não julga ninguém pela aparência e sim por suas atitudes. São elas que irão comprovar o quão diferenciado você vai ser dos demais. Foi então que os peixinhos dourados se aproximaram e abraçaram com amor o Bagre Dourado. E assim graças a Ruth os peixinhos e os peixes maiores aprenderam que todos eram iguais, pois em cada coração existe uma beleza que ninguém pode ver, mas a gente pode sentir e mostrar como somos bons quando queremos ser. Ruth a lobinha que tinha cachos dourados e brilhantes, olhos verdes como as esmeraldas e distribuía onde passava seu sorriso que parecia trazer o aroma das flores conseguiu que os peixes que moravam no lago dourado de Harmonia vivessem alegres e felizes para sempre.

Ninguém deve julgar ninguém pela aparência, julga-se pela essência, 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Lendas Escoteiras. O Destino de Salomon St Gilles.




Lendas Escoteiras.
O Destino de Salomon St Gilles.

... – O começo... Lembro quando Salomon me descreveu seu Castelo na França: - Chefe foi construído no cume de uma colina formada por um rio cheio de voltas. Eu gostava de ir lá e até fiz uma nova cadeira com encosto. O pátio interno do castelo forma um retângulo áspero, com mais de 40 metros de comprimento. Tem torres voltadas para o Sul e o Norte. Á porta é protegida por uma barbacã... Quando ele me contava eu chorava com ele. Lembranças de um Castelo de Najac que Salomon deixou para trás, para morar numa cidadezinha comum. Morro Vermelho!              

- Salomon St Gilles estava preocupado. Há dias estava assim. Não tinha ideia qual atitude tomar. Nas margens do Regato Baden-Powell nome que os escoteiros deram quando acamparam ali pela primeira vez, ele não sorria. Não tinha como. Em uma cadeira com encosto que construíra às margens do Regato feita com encaixes para durar muito tempo ele meditava. Sua Tropa gostava de acampar nas terras do Miranda, um amigo dos escoteiros. Passavam das doze horas e as patrulhas foram liberadas para fazer o almoço. Carlito e Moeda tinham feito uma proveitosa pescaria ao anoitecer de ontem e as patrulhas sabiam que os cozinheiros iriam preparar uma deliciosa moqueca já famosa de acampamentos passados. Nem pensava no que iam fazer à tarde. Seu pensamento era outro. Porque seu pai nunca lhe contou onde nasceu e quem fora sua família na França. Na França? Ele sempre pensou que nasceu em Morro Vermelho. Era a única cidade que conhecia.

Monjave e Lamparina chegaram sem fazer barulho. – Chefe, hoje o senhor vai almoçar conosco. Já conversamos com os Tigres, Beija Flor e Morcego. Eles concordaram. Salomon agradeceu. – Muito obrigado, me chamem quando ficar pronto. Sempre fora assim ele amava seus escoteiros que também o amavam como seu líder seu herói. Era um simples carteiro na cidade, por sinal o único. Dona Florência era a Chefe dela e dele. Morro Vermelho nunca cresceu apenas três mil habitantes e perdia boa parte de pessoas que iam embora. Vinte anos de Correio. Vinte anos que fez amizade com quase todos da cidade. Gostava de papear com Dona Valência, Seu Pafuncio, Dona Violeta e tantos outros. Todos os dias saia para trabalhar sorrindo e voltava sorrindo. Doutor Flaviano se apresentou a ele na sua casa na tarde de quinta feira. – Senhor Salomon, sou advogado contratado para lhe informar suas origens. Salomon se sobressaltou. Viu um homem de terno, cabelos brancos, muito educado e ouviu tudo que ele tinha a dizer. Porque seu pai nunca lhe disse nada? Por quê?

- Senhor Salomon, o senhor é descendentes de uma nobre família francesa. Seu pai era filho do Conde Bertrand de St Gilles e da Condensa Adélia Taipé St Gilles. Em 1948 seu pai teve uma altercação com seu Avô e ele saiu de casa prometendo nunca mais voltar. Seus avós nunca tiveram notícia dele. Ano passado seu Avô faleceu aos noventa e dois anos. Sua Avô contratou diversas agencias para achar o paradeiro do filho. Chegamos ao senhor o neto. - Sua Avó já com idade avançada requer cuidados e quer o senhor ao seu lado. Em um testamento deixou toda a fortuna para o Senhor desde que fique ao lado dela até sua morte. Recebi ordens de depositar em sua conta $100.000 Euros para sua viagem e despesas. Aqui está o endereço onde o senhor deve ir à França: - Salomon leu devagar. Estava assustado. Nunca pensou que era rico e gostava da vida que levava.

Naquela noite Salomon St Gilles reuniu os monitores. Contou a noticia quase chorando. – Tenho de partir meus caros monitores, não posso deixar minha avó sozinha. Embarco para a França a semana que vem. Meu endereço é Najac, departamento de Averon no sul da França no Castelo de Najac onde mora minha Avó. Os monitores correram a abraçar Salomon. – Chefe! Disse um deles, o que será de nós? A tropa não tinha Assistente e nem era reconhecida. Eram livres para voar onde quisessem e fazer o escotismo de campo que todos adoravam.

                  Na plataforma da Estação Don Pedro, os escoteiros choravam abraçavam e diziam.  Salomon também chorava. Deixou uma vida de amor e fraternidade para trás. Passaram quinze anos. Sua Avó a Condensa Adélia Taipé St Gilles falecera há dois meses e Salomon naquele castelo gigantesco não sabia o que fazer. Sua fortuna era incalculável. Tinha um jato, carros motorista e até um Iate ancorado em Sain-Tropez um balneário famoso. Salomon resolveu voltar. Não iria vender o castelo, tinha condições de mantê-lo. Iria comprar um terreno no alto do morro da Coruja em Morro Vermelho e ali fazer uma bela mansão. Construiria uma bela sede e retornaria ao escoteiros que sempre amou. Fez planos, muitos. Chegou à noitinha em Morro Vermelho. Hospedou-se na Pensão Santa Lucia. Dona Etelvina tinha falecido e seu novo proprietário não o reconheceu. Dormiu pensando em abraçar seus escoteiros.

                 Salomon St Gilles esqueceu-se dos quinze anos que haviam passado. Seus escoteiros agora eram homens feitos. A maioria saiu da cidade em busca de oportunidades escolares e profissional. Só encontrou Monjave e Lamparina. Monjave estava em um estado lastimável. Magro tosse intermitente quase não falava. – Chefe, apenas uma tuberculose, nada demais... Lamparina trabalhava como Gari na Prefeitura local. Salomon chorou. Chorou demais. Do que valeu sua fortuna, seu castelo se tudo que amou deixou de existir? Monjave morreu uma semana depois. Lamparina o olhava com estranheza. Salomon sabia que não era o mesmo Chefe de outrora. Alugou uma charrete e foi até ao Riacho Baden-Powell. Acreditou que lá ele teria a paz. O Senhor Miranda também deixou este mundo. Conheceu Palácios um homem comum diferente daquele que o abraçava quando chegava cantando o Rataplã com os escoteiros.

... – O fim... Encontrou sua cadeira de encosto, velha, madeirame querendo cair. Reconstruiu, sentou. Fechou os olhos olhando para as águas tranquilas do Riacho Baden-Powell. Chorou baixinho. Não tinha mais monitores para conversar... Olhe esta história não tem um final. Voce meu amigo leitor pode fazer seu final e escrever nos comentários. Eu conheci Salomon e quando vou até Morro Vermelho e aproveito para sentar em sua cadeira eu... Não gosto de lembrar!


quinta-feira, 9 de abril de 2020

Lendas Escoteiras A última estação de um trem.




Lendas Escoteiras
A última estação de um trem.

... – A última estação... Foram tantas! Quantas vezes sentado no banco da plataforma eu tentava ler pensamentos dos que iam partir e outros chegando... Um conto? Não sei... Quem sabe uma pequena verdade cujo final nunca soube o que aconteceu na última pagina. Um dos meus melhores contos... Peguem seu lugar no banco da Estação e viagem comigo nesta história sem um ponto final!

- Os sonhos às vezes são como ventos que terminam sem a gente saber o final. Esperando o Vírus passar vi na lembrança a menina a chorar na estação quando seu amado se foi. Pequena história... Um breve espaço de tempo. Apenas um trem soltando fumaça branca em uma estação perdida em qualquer lugar. Voltava de meu périplo no campo, rotina comum a procurar a paz de dias difíceis que iam chegar. Um trem uma mochila e lá fui eu a “escoteira acampar”. Amava dormir sob o manto das estrelas e ter o céu como barraca. Sorria ao pisar na grama verde das campinas sentindo o cheiro da madressilva, gardênias cravos e lavanda... De olhos fechados deixava os respingos esvoaçando pela queda d´agua do Riacho. Cozinhava em um pequeno fogo... Conversava com a floresta e os pássaros. Mas sempre chega a hora de voltar. Sentado em uma pequena parada de trem de uma estação pequena de um modesto arraial, aguardava o noturno das onze que diziam nunca se atrasar. Cansado ouvia o tic tac do telegrafo matraqueando sons e mensagens que corriam pelos fios criptógrafos numa linguagem simples que o Morse um dia inventou. Sinais curtos e longos um “tatatá” gostoso que me fazia lembrar os meus tempos de sinaleiro. Não tinha pressa... Nunca tive!

- Aos poucos uns minguados passageiros chegavam calados olhando ali e acolá. Um trem de carga passou sob os olhares vigilantes do Chefe da Estação. Abrindo os olhos e ouvidos podia-se ouvir o som do rio caudaloso que corria no vale encantado do Rio Doce. O trem que subia o rio chegou mansamente. Não era o meu. O Chefe da Estação com seu arco deu instruções ao maquinista que treinado não teve duvidas para enlaçar. O barulho quieto da fornalha soltava fumaça quente no ar. Eu adorava aquilo. Olhava hipnotizado a beleza de um trem de ferro que em breve iria sumir engolido pela modernidade. Foi então que avistei um casal. Jovens. Parados em frente à entrada do vagão de primeira classe. Um olhando para o outro. Não diziam nada. Ela só tinha olhos para ele encharcados de lágrimas de amor. Ele tristonho não tirava os olhos dela. – “Eu volto para te buscar” falou tristonho. Ela chorava baixinho. – Nunca vou te esquecer meu amor. O último apito, um beijo simples, um roçar de lábios sedentos que não queriam se separar.

- O trem deslizava sobre os trilhos despedindo da estação tristonho. No amanhã ele voltaria para descer o rio. O jovem deu seu último adeus, correu subiu nos degraus de seu vagão e ficou ali de mãos estendidas acenava pensando que seria um breve e longo adeus. Ela sabia que não. Sabia que ele nunca mais iria voltar. Em pé olhava com um tremor no corpo nas mãos os olhos cheios d’água dizia: - Leve o meu sonho com você! Tristonha não tirava a vista do trem que partia apitando até sumir de vista na curva do rio. Seu amor partiu, seu coração chorava.  Um silêncio tomou conta da plataforma vazia. Eu só ouvia o tic tac do telegrafo e os soluços da bela moça que havia perdido seu grande amor. Calado nada dizia. Não tinha nada para dizer. Ela estática não saia do lugar. Perdida em uma estação de trem o seu mundo desmoronava. O meu chorava com ela. Ela se virou e me viu. Seus olhos estavam marejados de lágrimas. Eu de calças curtas com meu chapelão tirei a mochila ficando em pé respeitosamente. Queria me solidarizar. Não sabia o que dizer. Ela deu um pequeno sorriso levantando o braço dizendo baixinho “Sempre Alerta”! Respondi do mesmo modo em posição de sentido tirando o meu chapéu. Lentamente ela caminhou na estradinha poeirenta ao lado dos trilhos que devia ser o seu destino final!

Senti-me só, impressionado com a imagem de uma partida e a dor de alguém que perde o sonho de um grande amor. Olhei ao redor, vi de novo a estação vazia. Uma pequena lua desabrochava no horizonte perdida entre o brilho das estrelas. Uma leve brisa soprava e eu sem notícia do meu trem. O Chefe da Estação se aproximou. Educadamente me disse: - Um atraso de quatro horas. O ultimo trem desencarrilhou! Muitos feridos outros mortos! Não disse nada. Pensava como ela iria saber que seu amado nunca mais iria voltar. Ela em ser lar devia estar chorando acreditando que um milagre poderia acontecer. Quem sabe Deus ouvindo suas preces o traria de volta. Mas destino é destino e poderia ser melhor assim. Dormitava sozinho naquela estação de trem. Deu para ouvir alguns trovões no céu. A chuva mansa chegou. Eu gosto da chuva, ela me trás lembranças e uma paz que me revigora. Ao longe ouvi o apito do trem. Era o meu que chegava. Como um pássaro negro gigante adentrou na estação de trem rangido os freios, soltando fumaça branca no céu. Calmamente parou para respirar em sua chaminé o calor que ainda resistia em parar.

- Um retorno sem consequências. Na minha morada meu amor dormia. Entrei de mansinho. Fui olhar meus filhos que adormecidos sonhavam com anjos do céu. Abracei minha amada de muitas vidas e deitei ao seu lado. Ela sorriu. Pensei no amor da outra que tinha ido e nunca mais ia voltar. Sina marcada. Destino escrito no livro da vida. Nada do que se tem a gente pode manter para sempre. Sonhos que não foram vividos. Estrelas piscantes que se mantém no universo através dos tempos. Esperanças que nunca se acabam. Ainda deitado ao lado da minha amada, com as mãos entrelaçadas no peito eu chorava baixinho. Mais um dia que se foi. A dor da saudade de alguém que achou que teria e nunca teve ninguém.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Lendas Escoteiras. Vai acampar? Cuidado, se alguma coisa pode dar errado, dará!




Lendas Escoteiras.
Vai acampar? Cuidado, se alguma coisa pode dar errado, dará!

... - Lei de Murphy é um adágio ou epigrama da cultura ocidental que normalmente é citada como: "Qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível". Ela é comumente citada. Se vais acampar cuidado. Se começa mal é sinal que vai terminar mal. Reze muito, peça a Baden-Powell sua proteção e seja o que Deus quiser! Mas o acampamento foi supimpa. Só quem esteve lá sabe por quê!

                     Acampar é bom, é delicioso, é gostoso, não existe nada melhor. Mas cuidado com a principal lei de Murphy. Ele foi um capitão da Força Aérea Americana. Foi também a primeira vitima conhecida de sua própria lei. Resolveu fazer uma medição que registrava batimentos cardíacos e respiração dos pilotos. O instalador fez tudo errado. Alguns quase morreram. Foi ai que surgiu suas leis. São mais de cem. Mas vamos ao que interessa vou contar o acampamento da Tropa Escoteira do Grupo Escoteiro Flores do Vale. Várias reuniões de Patrulha, duas Cortes de Honra, quatro reuniões dos chefes da tropa e parecia estar tudo muito bem programado. Parecia. O Chefe Vadico teve um mau pressentimento. Nunca aconteceu. A escoteirada vibrando. Seria um acampamento de cinco dias.

                   Chefe Zezé repassou tudo em sua cartilha de anotações: Local? Ok. Transporte? Ok. Intendência? Ok. Autorização dos pais? Ok. Alimentação? Ok. Previsão de tempo? Ok. Farmácia? Ok. Pronto socorro mais próximo? Ok. – Porque o Chefe Zezé estava preocupado? O programa era bom. Fizeram outro para eventualidades. Os Monitores e as patrulhas praticamente fizeram tudo. Nos sacos de Patrulha eles tinham tudo que iriam precisar. – Quinta feira. Oito da manhã. Horário de reunir. Partida as nove em ponto. Chefe Zezé era exigente. Horário é horário. Dona Mercês atrás dele dizendo – Chefe! Cuidado com meu filho. Se não levar o celular vai chorar! Como vou perguntar se ele está bem? – Chefe Zezé conhecia a ladainha. O Acampamento é uma maneira de fazer o jovem se virar. Ele tem de aprender a andar sozinho Senhora. Um dia ele vai ter de partir não acha?

                  Nove em ponto. Tralha arrumada no ônibus. Nem bem pegaram a estrada um pneu furou. Quarenta minutos para trocar. Já na estrada vicinal o motor do ônibus soltou uma fumaceira que não tinha tamanho. Mais quatro quilômetros a pé com a tralha nas costas. Tiveram que fazer o percurso duas vezes para transportar tudo. Quase duas horas. Turma varada de fome. Monitores foram chamados. Ficam dois em uma cozinha improvisada, fazer um arroz, bife e salada de tomate. A demais montagem de campo. – Intendência distribuída. – Chefe faltou o sal. Cadê o sal? Não veio. O pai que comprou tudo esqueceu. Estes pais! Dois chefes tinham celulares. Eram os únicos autorizados. Um pediu para a esposa. Ela só chegaria ao campo às oito da noite. Vamos comer pão com manteiga. A montagem dos campos foi bem. O sal chegou. Nove e meia uma comida mais forte. Forte? Vários com diarreia. Por quê? Levaram escondidos biscoitos doces e chocolates e comeram a fartar sem ordens.

                  Farmácia completa. Lá estava o Imosec. É tiro e queda. Mesmo assim a escoteirada correndo para o mato até de madrugada. O jogo noturno foi substituído por uma cantoria. Até que não foi ruim. Silêncio. Todos dormindo. Três da manhã. Dois Monitores na barraca do Chefe. – Chefe acorde! O que houve? Mesmo olhando tudo armamos as barracas na trilha das formigas Lava pés. Enormes. Mordem com gostosura. Todos ajudam. Desarmam as barracas. Armam em outro lugar. Muitos foram mordidos. Novamente a Farmácia em ação. Deixou dormir mais uma hora. Alvorada as sete. – Chefe? Vai ter educação física? - Claro! Chefe Zezé não era mole. A manhã foi corrida. Parece que agora tudo engrenou. Física, café, inspeção, bandeira e um jogo/adestramento. A escoteirada vibrou. Meio dia. Tempo livre até as três. Almoço, limpeza e porque não um cochilo? 

                  Uma boiada chegando. Todos gritando. Os bichos nem ai. Vão pastando entre as barracas. Muitas caem. Uma cozinha foi prú brejo. Não importa vamos começar tudo de novo. Escoteiro não desiste. Hora do banho. No remanso viram boiando uma enorme Sucuri. Subiram até a cascata. Ninguém se arriscou a entrar na água. Lavam braço, perna e cabeça. A janta foi ótima. O intendente deu açúcar em vez de sal. Paciência. Comida doce faz parte, mas sopa de macarrão doce é de lascar. Um jogo noturno. Sem problemas. Dia seguinte barulho de onça. Chefe Zezé conhecia. Melhor ficarem todos juntos. Ninguém deve sair do campo. Desta vez montaram guarda. Em todos os campos uma fogueira. - Não deixem apagar!  A onça sumiu! Ainda bem. À tarde depois do jogo todos cansados agora banho. De novo a Sucuri. Desta vez acompanhada de três filhotes.

                  Penúltimo dia. Sempre esperado. Fogo de Conselho. Tudo preparado. A escoteirada vibrando. Fogo crepitando. Rostos queimados e olhares direto na fogueira. Cada um rindo e fazendo diabruras. Bumm! Um trovão. Bumm! Outro. Raios ciscando os céus. Um cai bem perto. Um toró. Um verdadeiro toró. Granizo. Pedras enormes de gelo. Barracas furadas. Esconder onde? Corre aqui corre ali e o granizo diminuiu. A chuva não. Chefe? O que vamos fazer. – Rezar! Mas não adiantou. Só lá pelas quatro a chuva passou. Amanheceu. Um lindo amanhecer. Um sol lindo. Barracas já eram. Material de campo, sapa e intendência espalhado por todo o lado. Melhor por para secar. Comeram alguma comida enlameada. Duas horas o ônibus chegou. – Deus faça com que todos cheguem bem. Chegaram no horário. Dona Mercês correndo – Meu filho! Meu filho! – Mamãe! Sou homem. Veja os outros! Nenhuma mãe fica como à senhora. Guardar tralhas. Cinco dias. Um belo acampamento? Ah! Murphy. É bom aprender. Se alguma coisa pode dar errado vai dar errado!

                 Incrível! Chefe Zezé quase não acreditava. O acampamento ficou falado. Comentado em todos os lugares até na escola. Todos queriam saber como foi. Correram lendas, boatos tudo foi contado à exaustão. O Chefe Zezé quando soube das histórias ficou em duvida se seria o acampamento mesmo ou outro.  Nos livros de Patrulha escreveram – O melhor do mundo! Na Corte de Honra quando fizeram a analise todos disseram: - Chefe, por favor, quando vai ter outro igual? É. São coisas da vida. São coisas de escoteiros. Poucos entendem esta meninada de calças curtas zanzando pelo campo. Eles são de lascar! Não importa. Murphy? Saibam que os escoteiros adoraram você!

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....