“Célia”
Era uma
vez... Em uma fazenda...
Uma história
quase real.
Era uma vez... Às vezes
costumo voltar no tempo, lembrar-se de tudo de bom que aconteceu em minha vida.
Não só o Escotismo me fez feliz. Fui Gerente de uma fazenda... Cria recria e
engorda. Quase 10.000 cabeças. Lembro que quando cheguei lá não entendia
nada... A vida ensina. Aprendi muito. Até hoje tenho saudades dos meus tempos
em uma fazenda que nunca esqueci!
... Era uma casinha
pequena. Pintada de branco e cheia de flores em volta. Dois quartos. Eu e Celia
dormíamos em um, não tão grande. Os quatro meninos em outro. Uma salinha de
nadinha com uma poltrona e mais nada. Uma cozinha estreita. Mané Vaqueiro e
Tonhão construíram um puxadinho atrás. Ali fizeram um fogão de barro, um forno
de barro e o piso de terra batida. Na frente uma diminuta varanda. Uma cadeira
de balanço e um banco de madeira. Muitos jarros de plantas. Eu amava tudo
aquilo. Na varanda dava para ver a horta da Célia, pujante, verduras, frutas
nascendo sem parar. Tomates, couve, cebolinha, batata doce, alface, pés de
mamão, goiaba, taioba que eu adorava e muito mais. Nos fundos um chiqueirinho.
Limpo, sem cheiro sempre com dois ou três capados no ponto. Mais a frente o
galinheiro. Centenas delas. Dava para colher umas três dúzias por dia.
Como a gente era feliz.
Sem preocupações das grandes cidades. Durante o dia o passear dos avestruzes,
das galinhas d’angola, um ou outro veadinho que passavam correndo, passarinhada
que escureciam o céu. Na época certa as cigarras faziam a festa. À noite então!
Coisa linda! Quando se aninhava em frente a minha casa os vagalumes aos
milhares eu apagava o lampião. Não precisava, pois eles davam conta. Um
espetáculo digno de ser ver. Nos fins de semana a gente se juntava e ia passear
de barco no Rio das Velhas até o grotão onde uma pequena cachoeira embeleza o
rio cheio de esplendor. Depois a gente descia até à foz do São Francisco.
Gente, minha mente mexe comigo ao lembrar. – Marido queria fazer uma moqueca de
peixe... Amo a Célia com seus almoços fenomenais. – Um pequeno, pois a
geladeira a gás está cheia. Carne de porco de vaca até de tatu e capivara
tinha. Sempre um cavalo arriado na porta. Sem pestanejar montava e em pouco
tempo voltava com um pintado ou um dourado.
Vovó Lavínia era
uma grande amiga. Tinha o apelido de Vovó, mas era da minha idade. Uma Akelá de
um grupo Escoteiro da Capital. Nunca se esqueceu da gente. Foi fazer uma visita
de uma semana. Ficou lá um mês. Risos. Não sabia que ela conversava com a
natureza. Uma tarde fiquei estupefato quando ela acariciava o pelo de um
pequeno veado. Um animal arisco e nem sei como ela conseguia. Um dia a vi
conversando com dois avestruzes. Velozes não deixavam a gente chegar. Nunca
tinha visto nada igual. Mas Vovó Lavínia conseguia. Levei o maior susto quando
vi uma cobra enorme atrás dela. Gritei para ela correr, ela parou olhou para a
cobra que se enrolou toda. Vai dar o bote pensei. Impossível, Vovó Lavínia
ficou agachada e parece que falou com a cobra por instantes e ela foi embora.
Desculpem é verdade. Uma noite sentados na varanda, filharada dormindo ela pôs
os dedos na boca como a pedir silêncio. – Escutem falou baixinho. As estrelas
estão cantando no céu. Gente, na fazenda havia o mais belo céu que tinha visto.
Bilhões e bilhões de estrelas. Uma via láctea que marcava qualquer um. Fizemos
silencio. Olhávamos para o céu. Um som calmo e refrescante. Se for o cantar das
estrelas não sei, mas que era lindo era.
Quando ela foi embora
sentimos uma tristeza enorme. Um vazio grande. Tentei várias vezes ouvir as
estrelas cantarem. Se ela ainda estive ali me diria: - Amai para entendê-las,
pois só quem ama pode ter ouvidos capaz de ouvir e entender as estrelas! O
tempo se foi, eu daria tudo para voltar no tempo. Mas o tempo não para. No trampolim do sem-fim das estrelas, no rastro dos
astros, na magnólia das nebulosas. Além, muito além do sistema solar, até onde
alcançam o pensamento e o coração, vamos! Vamos conjugar o verbo fundamental
essencial, o verbo transcendente, acima as gramáticas e do medo e da moeda e da
política, o verbo sempreamar, o verbo pluriamar, razão de ser e de viver. (Drummond).
- “Ah”!
Eu vivi em uma fazenda, em uma casinha pequena, branca, cheia de flores em
volta... Saudades... Muitas saudades!
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