Lendas
Escoteiras.
A
cerejeira em flor.
... Era uma vez... – Uma Cerejeira rosa. Alta e frondosa
enchia o chão de sombras. Nos galhos os passarinhos aos pares faziam seus ninhos;
Lançando aos ventos sonoros... As tardes na sombra abrigaria namorados fazendo juras
de amor; Tão puras e ternas que parecessem eternas. Como as flores rosa... De seus
galhos.
Era uma visão incrível.
Apareceu assim do nada. Marcou minha vida para sempre. Dizem que nós escoteiros
temos o privilegio de ver e ouvir coisas, de entender o som do vento, ouvir a
arvore cantar em noites de lua cheia, admirar o regato de águas cristalinas que
corre para o mar. Dizem que a natureza se faz presente aonde eles vão. Naquela
tarde eu seguia o vento conforme meu Velho Chefe me ensinou um dia. “Escoteiro,
siga o vento, ele sabe onde você deve chegar”. Meu Velho Chefe era um sábio. Foi
na curva da trilha dos sonhos que eu a vi, imponente, linda, como se fosse uma
deusa a olhar seus domínios naquela tarde gostosa de um novembro qualquer. Não
sei por que eu modifiquei meu caminho para chegar ao Lago Dourado onde iria
acampar. A mão de Deus dizem, sempre está presente a nos guiar. Deixei a trilha
do Marquês e me apeguei a esta nova trilha. Já tinha bons seis quilômetros de
jornada. Agora estava em um vale florido entre duas montanhas verdejantes.
Sentia o suor no rosto e precisava descansar.
O sol me incentivou a parar. Os
olhos vermelhos e o meu chapelão de três bicos mesmo ajudando a vedar o sol em
minha frente eu a avistei. Grande demais para o lugar onde nasceu. Quem sabe
era a rainha de tudo? Quem sabe era ela quem mandava ali naqueles domínios? –
Porque não parar uns minutos para descansar na sombra desta imensa árvore que
reinava sozinha naquele vale feliz? Que doce é o paraíso quando sem esperar o
encontramos. Que visão maravilhosa, e ao lado eu avistei um pequeno riacho de
águas cristalinas que descia a serra naquele vale feliz. Parei, tirei minha
botina, meu meião, coloquei meus pés nas águas mágicas que pareciam possuir um
delicioso néctar para refrescar. Só então me virei para ela, a Deusa do Vale e
tremi de êxtase ao ver que era uma cerejeira em flor. Maravilhosa, linda, folhas
rosa destoando do verde ao seu redor. Sentei em sua sombra, encostei-me de leve
ao tronco devagar para não ser um intruso a invadir seus domínios.
Fechei os olhos calmamente... Não
queria, mas a sombra da cerejeira em flor me pedia para serrar os olhos, era
como se sua voz suave me ordenasse um descanso. Minha mente percorreu a
história da minha vida, naqueles segundos e minutos que ali permaneci. Vi-me
menino de azul correndo pelas campinas com a chamada de Lobo, Lobo, Lobo. Olhei
novamente e lá estava eu vendo o Balu colocar minha segunda estrela no meu
Boné. Lembranças maravilhosas. Salto um espaço de tempo e lá estava eu de novo
a ver meu corpo firme e ereto a receber minha primeira classe. Tempos que se
foram e não voltam mais. Lembranças gostosas da vida que marcam para sempre
nossa memória. Senti algumas flores caindo sobre mim e ao meu redor. A
Cerejeira me presenteava com sua formosura as lembranças tão lindas de uma vida
que parecia uma eternidade. Tudo estava calmo, delicioso, pássaros chilreavam
trazendo aos meus ouvidos o belo som da natureza. O vento soprava como brisa
para refrescar naquela sombra perfeita, pés levantados, respiração voltando ao
normal. Era hora de partir.
Como partir? Minha mente
entorpecida naquele instante renegou a ideia. Eu estava vivendo sonhos
coloridos em baixo da Cerejeira em flor e não imaginava seguir novamente na trilha
quente daquela tarde gostosa de um novembro qualquer. Perder aquele oásis dos
deuses? Daquele paraíso cheio de flores a cair sobre a relva e sobre mim? A
sensação de ficar era insistente, calma, silenciosa e gostosa. – “A flor de
cerejeira cai da árvore na primeira brisa mais forte e não podemos dizer que
ela nunca viveu. Uma flor de cerejeira dura um dia, um dia”... Mas ela não é
menos bonita por isto. Quem disse isto? Não lembrava. Eu não queria partir, eu
tinha encontrado o meu paraíso. Continuei a rebuscar meus pensamentos. – Será
que o tempo é relativo? Que se a flor da cerejeira, por exemplo, dura apenas
semanas e mesmo que durasse mil anos ainda seria efêmera? Oh Deus! Eu não
queria partir. Porque não pensar que esta flor tão bela como era não merecia
durar eternamente? Se o eterno dura com tanta intensidade porque ela não teria
este direito? Eu dormia. Não queria acordar. A cerejeira me protegia da noite
escura e sem luar. Um clarão das estrelas no céu me fez voar nas asas da minha
imaginação.
Acordei cedo. Tive um
sono lindo e reparador, mas eu precisava partir. Um foguinho, o café na brasa,
um papinho com Jesus e lá fui eu sozinho naquela trilha que nunca vi e nem sei
se um dia iria voltar. Parei na subida da montanha, olhei para trás, meus olhos
se encheram de lagrimas ao avistar a Cerejeira que foi minha barraca naquela
noite linda de um novembro qualquer. Olhei para o céu e fiz um pedido: - Deus,
amigo dos Escoteiros, faça com que esta Cerejeira dure para sempre! O sol agora
tinha um frescor de primavera. Uma luz azul me indicava o caminho naquelas
montanhas distantes. O novo dia já havia chegado sem fazer alarde. Por quê?
Porque Jesus nasceu em Belém. O orvalho ainda resplandecia nas folhas dos
arvoredos que me acompanhavam. Já não havia mais brisa, mas um perfume
delicioso do verde das matas, do chão que eu pisava. Minha trilha era um
acalanto por saber que nosso mestre tinha nascido e vindo trazer a luz para a
humanidade.
Olhei novamente a
cerejeira que me deu seu último adeus quando virei à montanha que se aproximava
do céu. Em marcha de estrada eu sorria. Meu cantil com águas doces e
cristalinas me fazia pensar como era bela a natureza em flor. A Cerejeira ficou
em minha mente por toda a vida. Ela me deu o sentido de viver e me fez ver a
quilômetros de distância o lugar onde Jesus nasceu. Agora o mundo ia mudar.
Agora só as palavras de amor iriam prevalecer. A Cerejeira em flor iluminou o
meu caminho e iria iluminar o caminho do mundo. E Jesus fez acontecer. Aqueles
que acreditaram nas palavras do senhor tinham em seu coração uma Cerejeira em
flor!
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