Palavra de
Escoteiro ou palavra de honra?
“Os dez
artigos da Lei Escoteira”
... Mudaram o primeiro
artigo da Lei. Ficou parecido com a Lei de BP. Sinceramente? Acostumei-me com
aquela que aprendi a muitos e muitos anos. Deveriam ter consultado a todos do
movimento escoteiro da Escoteiros do Brasil. Não deram confiança. Foi aprovada
por menos de 0,3% do efetivo. Fazer o que?
Era uma rotina acampar com
os monitores e subs da tropa. Pelo menos a cada dois meses íamos para o Sitio
do meu amigo Tornelo. – Chefe, fique a vontade, nem precisa pedir autorização.
Boa aguada muitos bambus um local excelente. Eram quatro subs e quatro
monitores. Eles adoravam tais acampamentos. Eu também, pois tínhamos mais tempo
para conversar, aprender fazendo e trocar ideias. Ouvir adolescentes e suas
necessidades eram para mim uma alegria sem par. Com as atividades de monitores a
tropa deu um salto em motivação e crescimento. Nesta acampamento tudo correu
normalmente. Jantamos um belo bife com arroz soltinho. Não faltavam bons
cozinheiros. Lá pelas nove foram chegando onde montei a fogueira. Eu tinha encontrado
perto da Lagoa do Jacaré, dos troncos grossos que deu dois ótimos bancos. Cada
um foi se assentando e um deles colocou as batatas no fogo já aceso. O café no
bule esmaltado junto à fogueira com pedras em volta para não espalhar as brasas
fumegava.
Havia sorrisos no ar.
Todos adoravam participar. Ficamos conversando até que um Monitor me perguntou
– E a história de hoje Chefe? Sorri. Sempre tinha uma historia para contar. –
Vamos então disse. Hoje irei contar uma história sobre a Lei Escoteira. Eles já
sabiam que a palavra de um escoteiro vale mais que sua honra. Mas o que é
honra? Melhor contar a história. Alguns se serviram de café quentinho e
biscoitos. Calados prestavam enorme atenção. Mal dava para ouvir os grilos e a sinfonia
de sapos cururus na lagoa próxima. – Tudo começou quando a Patrulha Onça Parda
estava reunida na casa do Escoteiro Santos Dumont. Estavam lá o Monitor Rui
Barbosa, os Escoteiros e escoteiras Olavo Bilac, Caio Martins, Anita Garibaldi,
Barbara Heliodora e Joana Angélica. Eles sempre faziam estas reuniões às quartas
feiras em casa de algum membro da patrulha. – Chefe! Interrompeu um Monitor,
mas estes nomes são verdadeiros? Lembrei que eles fizeram parte da história do
Brasil. Bem pensado Antonio. Mas faz parte da história.
Conversaram e após
sugestões de programa para o segundo semestre, Anita Garibaldi pediu a palavra:
– Meus irmãos de patrulha lembram-se da última reunião que o Chefe fez um Jogo
Escoteiro usando a Lei Escoteira? – Sim, disseram todos. Mas foi um jogo meio
parado disse Olavo Bilac. – Concordo disse Anita Garibaldi, mas acho que valeu.
E ela perguntou: - O que significa a Lei Escoteira para um escoteiro? – Uma
discussão simpática começou. Falou Caio Martins, Santos Dumont, Barbara
Heliodora e Joana Angélica. Rui Barbosa o Monitor só observava. - Cumprir ou
não cumprir? Dizia. Fazer o melhor possível? Quem sabe assim era mais fácil.
Foi Santos Dumont que abriu o jogo – Para dizer a verdade eu não sou muito de
cumprir a lei. Ela existe para nos dar um caminho a seguir. Sabemos que cumprir
todos os artigos é impossível. – Não sei se concordo disse Olavo Bilac. Anita
Garibaldi nada falou. Só ouvia. O mesmo fazia Joana Angélica. Barbara Heliodora
não concordou. – Se ela existe e nós prometemos um dia fazer o melhor possível
não podemos continuar assim por toda a vida.
Joana Angélica lançou
um desafio – Se Lei é tudo para os Escoteiros, falamos em honra, palavra
escoteira e ética porque não tentamos por dez dias cumprir a risca todos os
artigos? Quem sabe, poderíamos fazer uma aposta e os que perdessem pagaria uma
rodada de sorvetes na Sorveteria do Paulão? Muitas opiniões. Rui Barbosa completou
– Se aprovam eu estou de acordo. Lembrem-se que faltar com um artigo da lei é
questão de consciência. Cada um deu sua palavra e faltar com a verdade não é
próprio de escoteiros. - Caio Martins entrou na conversa – Acredito que o Escoteiro
tem uma só palavra e sua honra vale mais que sua própria vida. – Barbara
Heliodora emendou – Concordo, o Escoteiro é leal. Sem lealdade não existe amor,
amizade, fraternidade e consciência. Sem lealdade não existe o Espírito
Escoteiro.
Aprovaram o desafio. No
final da reunião de patrulha todos juraram com as mãos entrelaçadas: – Prometo
ser leal e dou minha palavra escoteira que se errar direi a todos. – Era uma
quinta, dia 12 de agosto. O desafio iria durar até o dia 22 de agosto. Rui
Barbosa pensativo não sabia se conseguiria cumprir. Olavo Bilac ria baixinho –
Este desafio eu tiro de letra - Caio Martins se lembrou de suas palavras: -
Para cumprir cada um tem de caminhar com suas próprias pernas. Santos Dumont
tinha dúvidas se chegaria até o final. - Anita Garibaldi não tinha dúvidas.
Barbara Heliodora se considerou leal e acreditava que sempre cumpriu os artigos
da lei. Joana Angélica receava suas amigas de classe. Falavam muito palavrão e
sempre contavam piadas cujo teor era contra a ética e a honra. Dez dias se
passaram. Reuniram-se na casa de Joana Angélica. Hora do acerto de contas. Hora
que cada um devia dizer se cumpriu ou não a lei escoteira.
Rui Barbosa deu o
exemplo como Monitor: – Não consegui. No Sétimo artigo me perdi. Tudo por causa
do meu pai. Encheu-me as paciências de tal maneira que fui indelicado com ele.
Pedi desculpas, mas já havia infligido à lei. Joana Angélica riu e emendou – Eu
também não consegui. O quarto artigo é difícil. Amigo de todos? Tive que dar um
empurrão na Rebecca minha prima. Entrou no meu quarto e fez uma bagunça que só
vendo. Depois me arrependi. Afinal ela só tem cinco anos! Caio Martins disse
que cumpriu todos. - Barbara Heliodora pediu desculpas, mas não cumpriu o
quinto e o oitavo artigo. Não fui cortês com minha mãe e quando ela me
repreendeu na frente de todos, eu chorei por dois dias. Olavo Bilac disse que
cumpriu sem pestanejar e se precisasse ficaria para sempre cumprindo a lei
escoteira. Anita Garibaldi também não conseguiu. Discuti com minha professora,
pois ele me deu oito em história. Merecia um dez. Por último Santos Dumont
disse que cumpriu todos.
Os monitores e subs
estavam de olhos arregalados. Chefe é história verdadeira? Quer saber? Eu não
sei se iria cumprir como muitos fizeram. Não disse sim e não e encerrei a
história contando que foram todos tomar o sorvete na Sorveteria do Paulão. Eles
empanturraram-se tanto que deu dor de barriga. Risos. - Um silêncio profundo em
volta do fogo. Ninguém disse nada. Uma coruja piou ao longe. Os sapos pararam
de coaxar. O céu ficou escuro e um relâmpago riscou o ar. O trovão deu para
assustar. – Boa noite meus caros monitores, chequem suas barracas a intendência,
o lenheiro. Vem uma tempestade por ai!
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